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Um imenso pesadelo

por Pedro Correia, em 03.03.10

Fala-se pouco, demasiado pouco, sobre a Revolução Cultural chinesa. Quase nada em comparação com as atrocidades nazis, a guerra do Vietname, o golpe de Augusto Pinochet contra Salvador Allende no Chile ou até do que o esmagamento da Europa Oriental, durante quase meio século, pela União Soviética. Sobre o que foram aqueles anos de tragédia numa China que parecia então varrida por ventos de loucura, quase nem uma palavra. Como se a chamada 'Revolução Cultural', com o seu cortejo de atrocidades, jamais tivesse acontecido.

Penso nisto enquanto leio uma notável entrevista à revista Veja da escritora Xinran Xue, que viu os pais detidos na década de 60 só por falarem inglês e terem viajado ao estrangeiro. Ela própria, hoje com 51 anos, passou parte da infância num quartel dos Guardas Vermelhos. Residente desde 1967 no Reino Unido, a autora das Boas Mulheres da China (2002) recorda: "Como os pais eram considerados reaccionários, éramos chamados de 'crianças negras' e não podíamos brincar com as outras. Dormíamos no chão. Muitas noites, os guardas vinham, no escuro, pegavam numa criança e levavam-na para o quarto ao lado. Era a hora dos abusos, dos espancamentos... Eu ouvia o choro e os gritos e ficava tão assustada que todo o meu corpo tremia."

Ainda hoje, confessou à Veja, entra em pânico ao acordar a meio da noite. E não consegue dialogar com a mãe sobre esse período macabro das suas vidas. "Ela nunca perguntou o que me aconteceu nesse período em que ficámos separadas. Não tem coragem, e eu também não tenho. Em 2004, sentámo-nos diante uma da outra durante horas, mas não conseguimos falar sobre isso. Sei que esse silêncio repete-se em muitas famílias. E é um dos motivos pelos quais muitos jovens chineses não sabem sequer o que foi a Revolução Cultural", diz Xinran Xue neste impressionante depoimento.

Seria bom que o manto de silêncio se dissipasse. Para que todos saibamos em pormenor - cada vez mais em pormenor - o que se passou nessa longa década em que a China permaneceu imersa num imenso pesadelo.


22 comentários

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De fernando antolin a 03.03.2010 às 18:29

A China saiu dum imenso pesadelo para um sôno / sonho povoado de fantasmas...
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De Pedro Correia a 03.03.2010 às 19:02

Nada que exista hoje na China é comparável ao que sucedeu nessa década trágica.
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De fernando antolin a 03.03.2010 às 21:48

Tenho lá por casa o livrinho vermelho e alguns volumes das obras completas de Mao Tse Tung. Vale a pena ler,como vale a pena ler o Hoxha e o Il Sung,para termos a noção do desvario. Se bem que Mao e (principalmente) Chou En Lai estivessem num patamar muito acima dos congéneres albanês e coreano.
Anos de chumbo...
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De João Carvalho a 03.03.2010 às 23:32

Mais: aquelas não são "as obras completas". As obras todas dele estão por escrever...
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De Sérgio de Almeida Correia a 03.03.2010 às 19:00

Está longe, Pedro, muito longe. E falam uma língua esquisita. Infelizmente é assim que a maioria vê a China e os chineses.
Mas só aqui, no Delito, estão pelo menos quatro (e não formamos um bando) para contrariar essa tendência: tu, o João, o Carlos e, já agora, eu.

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De Pedro Correia a 03.03.2010 às 19:05

Ainda bem, Sérgio. Há que aproveitar todas as oportunidades para lembrar o que foi essa década de pesadelo - uma das mais trágicas, em qualquer quadrante, de todo o século XX e de que se fala tão pouco, quase como se nunca tivesse existido.
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De Ana Vidal a 03.03.2010 às 19:09

E que ainda por cima teve o nome perverso de "Revolução Cultural", quando foi tudo menos isso.
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De Pedro Correia a 03.03.2010 às 19:15

Dizes muito bem, Ana. Foi tudo menos isso.
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De Ana Vidal a 03.03.2010 às 19:07

Li há anos "Cisnes selvagens", um livro muito esclarecedor sobre esse período tenebroso da história recente chinesa. E não só, porque a narrativa atravessa várias gerações. A autora é também é uma mulher, Jung Chang, e acho que vive igualmente em Londres. Recomendo, é um documento impressionante.
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De Pedro Correia a 03.03.2010 às 19:17

Essa é uma obra fundamental para entendermos melhor esse longo pesadelo chinês, Ana. Escrita, como bem referes, por outra mulher que merece a nossa homenagem.
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De João Carvalho a 03.03.2010 às 20:10

Dizes bem, Ana: um documento impressionante. Como escreveu o Pedro, é uma obra essencial e tem essa vantagem de esclarecer a caminhada de várias gerações na China.

A 'Revolução Cultural' não foi apenas uma denominação eufemística para a tragédia que varreu gerações de chineses, mas foi também a aplicação de uma política absurda que se caracterizou pelo mais ridículo e caricato modo de governar, em termos de meios e de recursos. Um desastre total que só é atirado para segundo plano pela chacina que dominou aquela nação durante um longo pesadelo ainda muito por historiar.
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De Luís Reis Figueira a 03.03.2010 às 20:31

Quem é capaz de nos saber esclarecer algo mais sobre este assunto é aquela piquena Rita Rato do PCP, que é Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais...
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De João Carvalho a 03.03.2010 às 20:52

Essa agora não tem tempo: anda a estudar o Gulag para saber que carro é...
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De Luís Reis Figueira a 03.03.2010 às 21:45

Qual, o Gulag GT ou o cabrio?
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De fernando antolin a 03.03.2010 às 21:50

vocês são "teguiveis"...
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De João Carvalho a 03.03.2010 às 23:34

Ó Fernando, V. é primo do Manuel Maguia Caguilho?
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De fernando antolin a 04.03.2010 às 19:13

Mas claguo que sim e do Seveguiano Teixeigua também...seus maguotos...
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De João Carvalho a 03.03.2010 às 22:37

Para ela ainda é o de instrução com dois volantes: o leninista e o maoísta. Ou seja: um volante à esquerda e um volante à esquerda...
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De ariel a 03.03.2010 às 22:07

Sabe Pedro, já me tinha ocorrido essa omissão e manto de silêncio, e por mim tenho uma explicação, que pode até não ser muito fundamentada, mas é a minha. Durante muito tempo a China da revolução cultural funcionava como um sleeping partner das sociedades ocidentais, ocupadas com a guerra fria com o bloco de leste como inimigo principal. Não seria por acaso que os grupos extremistas maoistas eram muitas vezes aliados objectivos quer da social democracia quer dos partidos mais à direita, nos países ocidentais. Portanto, não se falava muito no assunto porque não interessava. Com a queda o muro de berlim , as alianças alteraram-se profundamente, é ver hoje o pcp a defender o pc chinês, coisa que era tratada com muita reserva há trinta anos. Com a abertura da china à economia de mercado, não interessa ao "mercado" falar nessas "minudências". Resultado, são mortos que não interessam a ninguém, se me faço entender.
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De Pedro Correia a 04.03.2010 às 00:18

Muito interessante essa sua análise, Ariel. Bem fundamentada e muito bem exposta, como é costume. Sinto-me inclinado a dar-lhe razão em grande parte: os interesses geopolíticos têm uma grande influência nisto tudo, muito para além das clivagens ideológicas, por vezes mais aparente do que reais.
Creio, de qualquer modo, que já se passou tempo suficiente para se fazer luz sobre a chamada 'Revolução Cultural' chinesa e os ideais traídos que ela acarretou, tanto a Oriente como a Ocidente. E, acima de tudo, as mais jovens gerações chinesas têm o direito de saber tudo quanto se passou.
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De Pedro Coimbra a 04.03.2010 às 02:12

Caro Pedro,
Li uma entrevista que ela concedeu ao South China Moring Post e é arrepiante.
Sendo pai (babadão!!) de duas filhas, fiquei sinceramente perturbado com o que foi relatado.
Parece mentira.
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De Pedro Correia a 05.03.2010 às 01:39

Pois parece, Pedro. Infelizmente, esse pesadelo foi bem real.

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