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A História na primeira pessoa

por Pedro Correia, em 21.02.10

 

Editam-se em Portugal cerca de mil livros por mês. Nada mau, para um país com tão poucos hábitos de leitura. Mas continuo a espantar-me com a ausência de títulos importantes no nosso mercado editorial. Talvez o livro que hoje mais gostasse de ver com edição portuguesa fosse a autobiografia de Ben Bradlee. Sabem quem é? Esse mesmo: o jornalista que transformou o Washington Post num dos jornais mais célebres à escala planetária. Fala-se muito em Bob Woodward e Carl Bernstein, os repórteres que revelaram ao mundo todas as implicações do caso Watergate. Fala-se muito menos em Bradlee, que na altura dirigia o Washington Post, então uma espécie de parente pobre na alta roda da imprensa norte-americana, sempre à sombra do poderoso rival New York Times. Mas nenhum dos artigos de Woodward e Bernstein (a dupla que ele baptizou de “Woodstein”, nos longos serões de trabalho no jornal durante a revelação do escândalo que conduziria à demissão do presidente Nixon) teria sido possível sem a firmeza de Bradlee, que lhes deu destaque em sucessivas manchetes. Contra todas as pressões do poder político.
 

A Good Life, de Ben Bradlee, que li na versão espanhola – editada pela casa editorial do diário El País, sob o título La Vida de un Periodista - é uma extraordinária lição de jornalismo escrita por este homem nascido em 1922, combatente na II Guerra Mundial e velho tarimbeiro das redacções. Começou pela melhor escola americana, no jornalismo de província, e teve um percurso fulgurante, que o levou a chefe da delegação da revista Newsweek em Paris, correspondente de guerra na Argélia e no Suez, e enfim a Washington, onde passou a dirigir o Post em 1962. A curta distância da Casa Branca, onde então pontificava John Kennedy, seu amigo pessoal.
Bradlee relata-nos a odisseia do relançamento do Post, que à época era apenas o terceiro jornal mais vendido na capital americana. Ele arejou o grafismo, destacou a imagem, criou um suplemento chamado Style, que dava prioridade ao lazer, valorizou o espaço de opinião, criou um provedor de leitores (em 1969!) e deu um novo impulso à reportagem. Bastando-lhe adoptar como lema a velha lição que recebera da professora da instrução primária: “O melhor possível hoje, melhor ainda amanhã.”
A qualidade foi sempre um objectivo a atingir. “A detecção de talentos nunca cessa num periódico”, afirma Bradlee, então “decidido a que cada jornalista fosse o melhor da cidade no seu ramo de actividade”. Este foi um dos segredos do sucesso do jornal, a par das normas de exigência postas em vigor. O Post deixou de usar a ambígua expressão “segundo as nossas fontes”, instituiu a norma da verificação dos factos junto de duas fontes autónomas e recomendou aos seus repórteres que nunca esquecessem o sábio preceito de Camus, que também foi jornalista: “Não existe a verdade. Só existem verdades.”
 
La Vida de un Periodista dá-nos retratos deliciosos de jornalistas. Howard Simons, director-adjunto do Post, que cunhou a expressão SMERSH para designar a secção dedicada a estes temas (segue em inglês para se entender melhor): Science, Medicine, Education, Religion & All That Shit. Art Buchwald, o incomparável humorista. Jim Truitt, que permaneceu 47 horas sentado à máquina de escrever, produzindo uma lista com mais de mil sugestões no dia em que Bradlee protestava contra a “falta de ideias” na redacção. E, obviamente, a dupla “Woodstein”: Watergate nunca teria sido o que foi sem a “destreza e persistência” destes repórteres, que transformaram este velho ofício num mito: nos anos 70 e 80, o jornalismo tornou-se a profissão mais cobiçada do planeta.
Bradlee permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal. A good life indeed.
 
Foto em cima: Katherine Graham, proprietária do Washington Post, e Ben Bradlee, que dirigiu o jornal durante dez mil dias. Ambos permaneceram imunes às pressões da Casa Branca durante o caso Watergate que levou à demissão do presidente Nixon em 1974.


7 comentários

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De macarvalho a 21.02.2010 às 12:09

Excelente! É tudo quanto se me apraz dizer.
Vida, coragem, biografia do melhor. Faz até inveja.
A good life indeed
Um post imprescindível, cada vez mais.
Como é possível, pensamos nós? Afinal, basta manter a verticalidade e líder não é qualquer um.
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De Pedro Correia a 21.02.2010 às 12:27

Ainda bem que gostou. Todos precisamos de figuras inspiradoras, seja qual for o nosso ramo profissional. No meu caso, enquanto jornalista, felizmente tenho algumas. Como Ben Bradlee.
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De João Carvalho a 21.02.2010 às 13:12

Ben Bradlee entrou para a História do jornalismo por mérito próprio e nunca se peca por excesso sempre que é lembrado. "Aqui e agora" vivemos um momento em que recordá-lo vem muito a propósito.
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De macarvalho a 21.02.2010 às 13:25

Subscrevo inteiramente.
Aqui e agora.
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De Pedro Correia a 22.02.2010 às 01:12

Aqui e agora, pois.
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De Teresa Ribeiro a 22.02.2010 às 00:29

Muito oportuno este teu post. Ah, se todos os directores de jornal fossem assim!
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De Pedro Correia a 22.02.2010 às 01:11

Se houvesse mais Bradlees haveria mais "Washington Posts".

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