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A liberdade não existe sem esforço

por Pedro Correia, em 19.02.10

Albert Camus, uma das maiores referências morais do mundo do pós-guerra, deixou bem claro que a questão dos meios é fundamental na definição de qualquer objectivo político. Por esse motivo, entrou em ruptura com o marxismo clássico e com os seus expoentes da época, remando contra a maré dominante que glorificava o estalinismo. Para ele, a libertação do homem jamais poderia servir de pretexto para justificar um acto criminoso. As bombas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui eram tão imorais, sob este ponto de vista, como os campos de extermínio nazis.

Esta defesa intransigente do argumento moral, contra os pragmatismos de todos os matizes, contribui para a grande actualidade do pensamento de Camus - romancista, ensaísta, dramaturgo, polemista, repórter, colunista do jornal Combat, que iniciou a publicação clandestinamente na França ocupada pela tropa nazi e onde pela sua pena se publicaram editoriais inesquecíveis que constituem não só uma lição de jornalismo mas também uma lição de cidadania.

 

"Hoje, 21 de Agosto [de 1944], no momento em que surgimos, dá-se a libertação de Paris. Após 50 meses de ocupação, de lutos e de sacrifícios, Paris renasce com o sentimento de liberdade, apesar dos disparos que subitamente soam na esquina de uma rua. Mas seria perigoso recomeçar a viver com a ilusão de que a liberdade devida a um indivíduo lhe é concedida sem esforço nem dor. A liberdade merece-se e conquista-se", escreveu Camus no primeiro editorial já com a França livre, como recorda Jean Daniel, o mítico fundador da revista Le Nouvel Observateur, no seu livro Com Camus - Como Aprender a Resistir (Temas e Debates, 2009).

Daniel - um francês nascido na Argélia, como Camus - fala-nos nesta obra sobretudo do Camus jornalista: um homem de uma intransigência moral impressionante, que celebrava o jornalismo como "a mais bela profissão do mundo" mas se insurgia contra a "subserviência ao poder do dinheiro, a obsessão de agradar a qualquer preço, a mutilação da verdade sob um pretexto comercial ou ideológico, a lisonja dos piores instintos, o 'furo' sensacionalista e a vulgaridade tipográfica". Um homem que não hesitava em enaltecer o jornalismo como "literatura comprometida" recomendando aos jornalistas mais jovens que com ele trabalhavam que "tudo o que degrada na realidade a cultura encurta o caminho para a servidão". E prevenia: "É melhor sermos os segundos a dar uma informação verdadeira do que os primeiros a publicar uma falsa."

Como há dias assinalava José María Ridao nas páginas do El País, Camus é, sem dúvida, um dos nomes grandes da cultura do seu século: "Teve razão ao condenar o abjecto papel que a esquerda intelectual reservava à violência revolucionária." Por isso o rasto das suas ideias permanece vivo meio século depois da sua morte.

 

Com Camus - Como Aprender a Resistir, de Jean Daniel (Temas e Debates, 2009). 206 páginas.

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