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Crime e nostalgia

por João Carvalho, em 18.02.10

I — Chicago e o gangster

Esta excelente fotografia data de 1 de Setembro de 1900. É uma Chicago com o seu quê de nostálgico (junto ao cruzamento da Avenida Wabash com a Rua Adams, para quem conhece).

Nessa altura, Alphonse Gabriel Capone – Al Capone – ainda andava ao colo: não tinha completado dois anos e morava com os pais na sua Brooklyn natal.

Mais tarde, já em Chicago, Al Capone viria a estabelecer o seu 'quartel-general' no Lexington Hotel (aqui fotografado no início dos anos 90), então mais conhecido como o "castelo de Capone". Infelizmente, o edifício foi demolido em 1995.

Al Capone foi alvo de diversos gangs rivais, um dos quais 'limpou' a sua tropa de guarda-costas e não acabou com ele por pouco, em 1926. Reforçada a sua segurança pessoal, Al decidiu ter um carro blindado e com vidros e pneus à prova de bala. A escolha recaiu num Cadillac 341A Town Sedan, de 1928, o qual seria penhorado pela Fazenda Pública quando ele foi preso por fuga aos impostos e diversas irregularidades, três ou quatro anos mais tarde.

Esse automóvel ia entrar para a História dos EUA.

 

II — Roosevelt e o Cadillac

Tinham passado cerca de dez anos e Al Capone acabava de ser transferido para Alcatraz.

No dia 7 de Dezembro de 1941, poucas horas depois do ataque a Pearl Harbor, os serviços secretos norte-americanos sentiam-se impotentes perante o sarilho em que acabavam de ser metidos: no dia seguinte, Franklin D. Roosevelt ia fazer ao Congresso o discurso de indignação perante a traiçoeira e mortal investida japonesa («a date which will live in infamy») e, embora o percurso entre a Casa Branca e o Capitólio fosse curto, os agentes não sabiam como transportar o presidente com a segurança máxima que era requerida.

A Casa Branca tinha uma limousine especialmente construída para o presidente, regularmente utilizada, mas não era à prova de bala e estava fora de alcance arranjar um carro blindado de um dia para o outro, menos ainda ao custo contido que o governo impusera para a compra das viaturas oficiais. O discurso estava marcado para o meio-dia e não restavam muitas horas. Foi quando um dos agentes teve a ideia: havia um Cadillac apreendido há uns anos que era blindado e à prova de bala, guardado num parque do Tesouro Nacional.

Pintado de verde e preto para se parecer com os carros da Polícia de Chicago à época, com uma sirene especial e luzes intermitentes escondidas no interior da grelha, levou um rádio-comunicador das forças policiais, foi todo limpo e passou a noite em testes para assegurar que tudo correria bem.

Correu tudo bem. Quando um repórter disse depois ao presidente de onde tinha saído o carro, Roosevelt comentou: «I hope Mr. Capone won’t mind.»

O histórico Cadillac de 1928 do famoso gangster continua de boa saúde e recomenda-se: foi vendido em leilão para integrar uma nova colecção ainda há menos de quatro anos.


10 comentários

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De mike a 18.02.2010 às 21:19

João, gostei de ler este "Crime e nostalgia". E não pude deixar de recordar a primeira vez que fui a Havana e fiquei no velhinho mas célebre e mítico Hotel Sevilha. Ao encaminhar-me para o quarto, senti aquela sensação estranha e inexplicável de quando vivemos a História em segundos, porque ele ficava no sexto piso. O mesmo piso que Al Capone reservava para ele e seu séquito quando ia a Cuba.
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De João Carvalho a 18.02.2010 às 21:50

Sou adepto dessas experiências, Mike. Entendo perfeitamente o que se sente nesses casos.
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De mdsol a 18.02.2010 às 23:05

Gostei muito do texto, mas não entendo o título. É de mim, só pode.

:)))
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De João Carvalho a 19.02.2010 às 00:04

Não. Foi pecado meu, certamente.
Crime porque se fala de um 'gangster' dos velhos tempos e nostalgia porque se centra na Chicago de outrora a partir de uma foto espantosa de boa.
Se for ver o 'tag' Memórias vai encontrar um 'post' recente também com base numa bela foto antiga do Capitólio a que chamei «Neve e nostalgia» (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1447252.html). Só que. não sendo isto uma série, não valia a pena eu ter mantido o estilo. Tem toda a razão.
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De mdsol a 19.02.2010 às 00:21

Oh João. Não se trata de "pecar". Eu é que não fiz a ligação ao post anterior.

Posso?
Basta começar por Nostalgia e...
............................................neve
............................................crime
............................................ etc

Que tal?

O que me "soou" mal foi crime e nostalgia. Fiz-me entender?

:)))))
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De João Carvalho a 19.02.2010 às 02:53

Ferpeitamente...
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De mario a 19.02.2010 às 01:01

Mais um post fabuloso. Parabens.
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De João Carvalho a 19.02.2010 às 03:19

Gosto de saber, Mário. Obrigado.
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De Luís Reis Figueira a 19.02.2010 às 12:51

Muito curioso este teu post, sobre o qual não pude deixar de estabelecer as 'incontornáveis' comparações com o que se teria feito por cá em condições análogas:
1) Não havendo carros blindados à disposição, ter-se-ia de imediato encomendado não um, mas vários, para o chefe e toda a sua comitiva;
2) Se, eventualmente, alguém sugerisse que em vez de se comprar uma frota nova, haveria alguns belíssimos exemplares apreendidos pelos fisco que serviriam perfeitamente o fim visado, práticamente sem custos, seria logo apelidado de estar a montar uma campanha contra o poder e seria silenciado (ou "golden sharezado");
3) O discurso teria sido adiado até que todas as carripanas estivessem prontas, pois isso é que era o importante da questão;
4) Hoje já não existiria, por certo, nenhum desses exemplares para ser visto num museu, para se ver os carros usados pelos 'gangsters' da época.
Um abraço.
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De João Carvalho a 19.02.2010 às 13:31

Daqui em diante, as gerações vindouras hão-de ter o contrário: umas belas 'limousines' ex-oficiais para coleccionar e os 'gangsters' completamente esquecidos para não mancharem o nome da descendência.

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