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O "livre pensamento" à lei da bala

por Pedro Correia, em 28.01.10

 

Existe por aí uma autodenominada Associação Portuguesa do Livre Pensamento (APLP), especializada em promover romagens às campas dos dois assassinos do penúltimo rei de Portugal, Costa e Buíça. Os escassos membros desta associação prometem o cumprir o ritual de visitar o cemitério do Alto de São João, no próximo domingo, enquanto lamentam que as comemorações oficiais do centenário da república "ignorem o contributo" dos referidos homicidas para o derrube da monarquia. Isto em nome dos "princípios libertários, a acções tendentes à construção de uma pátria sem opressões classicistas, moderna e voltada para o futuro, construída por homens livres, coerentes e firmes nas suas convicções", segundo leio na Lusa.

Buíça e Costa, a quem a APLP denomina "cidadãos", ao dispararem os tiros mortais expressaram o seu "legítimo direito à indignação", princípio que a benemérita associação "respeita, promove e continua a propalar".

 

Conclui-se daqui o seguinte:

1. Na óptica da APLP, organizar romagens ao Alto de São João é uma "acção moderna e voltada para o futuro".

2. Matar alguém - no caso, além do rei, foi igualmente assassinado o príncipe real D. Luís Filipe - demonstra "coerência e firmeza de convicções".

3. O "livre pensamento" promove-se recorrendo à lei da bala.

4. Matar é, mais do que "legítimo direito à indignação", um exercício de cidadania.

5. Quem vir por aí um membro da APLP deve munir-se de colete antibalas, não vá mais alguém ser vítima dos princípios que esta associação "respeita, promove e continua a propalar". O intrépido inspector Callahan, em tempos interpretado no cinema por Clint Eastwood, não diria melhor.

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25 comentários

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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 28.01.2010 às 14:10

Sem dúvida, Pedro!
Gostei deste título, aliás, gosto dos títulos que vai aqui compondo!
E gostei do post que desmonta de forma muito clara um dos maiores equívovos da "liberdade de expressão", neste caso, do "livre pensamento".
A cultura desta república ainda é a da violência, pelos vistos, ou então, querem justificar o seu início, justificando o injustificável, defendendo o indefensável: o crime.

Em psicologia, distingue-se o que é "liberdade de pensar" da "passagem ao acto". Isto é, há uma enorme distância entre "desejar matar, eliminar, neutralizar" e passar ao acto, isto é, cometer o crime.

Uma sociedade que não distingue "liberdade de expressão" e recurso à violência é uma sociedade perigosa e criminosa, da "lei da bala".
Gostei mesmo do título!, e de rever o inspector Callahan, a minha fase preferida do Clint Eastwood.
Ana
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De Pedro Correia a 28.01.2010 às 23:02

Revejo-me nas suas palavras, Ana. Uma vez mais.
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De João Carvalho a 28.01.2010 às 15:10

Só tenho uma palavra para isto: pum!
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De Luís Reis Figueira a 28.01.2010 às 21:06

O "PUM" é o "Partido Unido para Matar"?
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De Anónimo a 28.01.2010 às 15:15

.. homenagear assassino parece-me pior que impedirem-me de "pensar". Alguém devia avisar os senhores associados que a "verdade histórica contextualizada no tempo"´foi um assassinato.
Assim mesmo.
E não há perifrase que dê a volta ao crime que foi cometido.

(às vezes envergonho-me de ter de partilhar espaço, tempo e ar com gente desta laia)
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De CPrice a 28.01.2010 às 15:16

logo eu que detesto anonimatos, não me consegui identificar. É meu o comentário que começa ".. homenagear ..."

As minhas desculpas, Pedro.
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De Pedro Correia a 28.01.2010 às 18:00

Qualquer opositor da pena de morte, seja em que circunstâncias for, tem de sentir repulsa por qualquer homicídio, "legal, ou ilegal. É o caso. E nem é preciso ser monárquico para pensar assim.
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De Ana Vidal a 28.01.2010 às 16:36

Espantoso! Acho que vou filiar-me nesta associação para poder expressar o meu livre pensamento e o meu legítimo direito à indignação com duas balazitas, um dia destes, em alguns figurões da nossa praça.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 28.01.2010 às 17:07

Eu não digo que a Ana anda terrível...?
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De julio reis a 29.01.2010 às 12:19

Ana:
Os tempos eram outros.
Sei que está a brincar.
Penso que o objectivo dessa ignorada Associação era mesmo incomodar, criar impacto, ganhar notoriedade.
Vai ver que são meia dúzia de gozões, a tentar "chatear" os monárquicos.
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De julio reis a 28.01.2010 às 16:56

Em quase todos os actos revolucionários houve "danos colaterais". Foi assim na Restauração de 1640, na implementação da Republica, no 25 de Abril. Chamar de "assassinos" a tais pessoas (mentores ou executantes) é não compreender o contexto histórico no qual esses acontecimentos se desenrolaram.
Estávamos num tempo em que as pessoas matavam e morriam pelas suas convicções.
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De Pedro Correia a 28.01.2010 às 17:57

É altura então de organizar também uma romagem à campa de Lee Harvey Oswald.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 28.01.2010 às 17:41

Júlio Reis

Chamar "danos colaterais" ao alvo primeiro de um acto de terrorismo é inédito.
E também não colocaria a Restauração nesse lote.
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De Pedro Correia a 28.01.2010 às 17:58

Nunca ouvi chamar "cidadão" a Lee Oswald. Sempre ouvi chamar-lhe "assassino" de Kennedy. O que vale para um presidente, vale para um rei. Um assassino é um assassino, dois assassinos são dois assassinos. Ponto final.
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De julio reis a 29.01.2010 às 12:13

Os mortos da Restauração são diferentes dos outros? Na Restauração além dos mortos houve saque generalizado entre o clero, os nobres do lado de cá e os nobres do lado de lá (espoliados estes ultimos, claro).
O objectivo do duo Costa/Buiça não era matar o Rei, era matar a monarquia. Tenho grande consideração por D. Carlos mas não vejo, naquelas circunstâncias, como acabar com a monarquia sem a eliminação física do Rei.
Vamos mais longe: Na crise de 1383/1385 o duo D.João/D. Nuno liquidou com muitos portugueses entre os quais o bispo de Lisboa. Não obstante a igreja do bispo (católica) acaba por "santificar" o D. Nuno.
Não podemos ser sectários: D. Nuno é santo e o Buiça é assassino?
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 29.01.2010 às 12:44

Não distingui os mortos, distingui o acto de matar. E as circunstâncias ou
1383/85 foi um movimento popular, estava em plena sintonia com a vontade popular, foi protagonizada pelo rei, alguma monarquia e a nova burguesia.
A Restauração também esteve em sintonia com a motivação nacional da independência.
Se a República fosse um movimento nacional, aceite pela maioria da população, o fim da monarquia seria inevitável. Mas a República foi imposta pela violência de grupos obscuros que preparavam bombas e se especializaram no tiro ao alvo. É violência urbana. Seria o equivalete a um grupo de fanáticos resolver que as suas ideias têm justificação moral e passarem a eliminar figuras de Estado. Aliás, a 1ª República caracterizou-see exactamente pela violência urbana, eliminavam-se uns aos outros.
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De julio reis a 29.01.2010 às 18:04

A "vontade popular" legitima o crime???
E quem disse que os levantamentos de 1383 e de 1640 foram da "vontade popular"?
O 25 de Abril foi "vontade popular"?
O que eu vejo é que quando os mortos são nossos, os outros são criminosos; e quando os mortos são as pessoas com quem não nos identificamos, então tá tudo bem. Até merecem ser santificados, pois!
O Costa e o Buiça sabiam o que iam fazer e os riscos que corriam. Sabiam que podiam morrer, e morreram. Não os considero heróis, nem bandidos. Se eles não tivessem morto o Rei, outros o fariam. O próprio D. Carlos sabia disso.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 29.01.2010 às 19:14

Já vi que temos perspectivas diferentes sobre o assunto. E já vi que não vamos sair deste impasse.

Insisto: 1383/85 e mesmo o 25 de Abril têm uma dimensão nacional, embora protagonizados por um grupo. Isto não quer dizer que legitime a morte de ninguém.
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De julio reis a 01.02.2010 às 13:56

Para sairmos deste impasse, o Amigo teria de estudar um pouquinho mais da História de Portugal. Então veria que a monarquia portuguesa é uma página muito negra da história do País. Não há stock de lixivia suficiente para a branquear.
A monarquia em Portugal começa por D. Afonso Henriques a bater na mãe. E acaba em D. Manuel II, assustado que nem um coelho, a fugir para a Inglaterra, debaixo das saias ... da mãe.
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De mdsol a 28.01.2010 às 21:02

E não se pode exterminá-los?

[Com dum-dum não escapa um.]

:)))
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De Pedro Correia a 28.01.2010 às 21:03

Pode. Isso é música para os ouvidos do inspector Callahan. Bang-bang!!
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De mdsol a 28.01.2010 às 21:08

Bang-bang? Chitty Chitty

:)))
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De Daniel João Santos a 28.01.2010 às 22:04

preocupante quando homenageia o assassino.
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De Pedro Correia a 28.01.2010 às 22:31

Segundo a APLP, um assassino é um "cidadão". Brilhante conceito de cidadania.

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