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Obama: um ano depois

por Pedro Correia, em 26.01.10

 

Há um ano, não se fazia a coisa por menos: Barack Obama iria "salvar o mundo", que ficaria inevitavelmente "mais limpo" e acreditava-se até, como no milagre da multiplicação dos peixes, que apareceriam "novos Obamas por esse mundo fora". Tomava posse "o presidente mais culto e civilizado" do planeta, proferindo "o discurso de que todos precisávamos", "directamente do canal História". Em suma, começava só então o "século XXI" .

Há um ano, vivia-se o tempo das hipérboles: o céu era o limite, a fé nas capacidades do sucessor de George W. Bush quase suplicava por milagres. Obama, o primeiro Presidente mestiço da história dos EUA, chegava à Casa Branca com o país envolvido em duas guerras sem fim à vista, com a imagem das instituições em Washington manchada por inadmissíveis violações de direitos humanos e o maior défice das contas públicas de que há memória, além da latente ameaça terrorista. O desafio era gigantesco. Não admira que no seu discurso de investidura o chefe do Executivo norte-americano tenha mencionado seis vezes Deus e uma vez as Escrituras. "Esta é a fonte da nossa confiança – o conhecimento de que Deus nos chama para moldar um destino incerto", sublinhou, rematando a alocução com esta frase: "Que seja dito aos filhos dos nossos filhos que quando fomos testados recusámos que esta viagem terminasse, que não recuámos nem vacilámos; e com os olhos fixos no horizonte e a graça de Deus sobre nós, levámos adiante a grande dádiva da liberdade e entregámo-la em segurança às futuras gerações."

Um ano depois, Obama reforçou a presença militar no Afeganistão, mantém presos em Guantánamo, não accionou mecanismos de punição contra os autores de torturas, viu a cimeira de Copenhaga sobre alterações climáticas fracassar em toda a linha e pouco ou nada fez para travar os receios de novos atentados terroristas em larga escala. Tal como Bush, recusou assinar o tratado internacional para a eliminação de minas terrestres. Além disso, acaba de ver o seu partido derrotado na eleição para o Senado em Massachusetts, tradicional feudo democrata, onde os democratas não perdiam desde 1972.

"[Obama] descobriu que a oratória que se provou ser tão poderosa na campanha eleitoral não basta para mobilizar votos no Capitólio ou demover almas no Kremlin", sublinhava recentemente Peter Baker no New York Times. Talvez por isso, a "mudança" prometida em todos os discursos da corrida presidencial de 2008 tenha dado lugar a uma presidência largamente "convencional", para usar o termo empregue por Todd S. Purdum na Vanity Fair. E não deixa de ser irónico ver o maior dos detractores da administração Bush, Michael Moore, abrir já hostilidades contra Obama numa carta aberta que lhe dirigiu a propósito do Afeganistão: "A sua tarefa não é fazer o que os generais lhe dizem para pôr em prática. O nosso governo é civil. Somos nós que dizemos aos chefes militares o que devem fazer, não o contrário."

Bem-vindos ao século XXI.


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