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O único poder dos jornalistas

por Pedro Correia, em 14.01.10

  

É um disparate considerar o jornalismo o 'quarto poder'. Os jornalistas não exercem nenhuma função que possa equivaler-se aos poderes clássicos dos políticos que legislam, governam e definem as normas destinadas a ser aplicadas pelos magistrados nos tribunais. Um jornalista só tem um poder ao seu alcance: o poder da pergunta. Cabe-lhe suscitar questões, desfazer dúvidas, interrogar-se sobre tudo quanto não sabe. O simples poder da pergunta, quando bem excercido, tem um inegável valor social, permitindo aferir o comportamento dos agentes políticos e consolidar o exercício da cidadania. Naturalmente, as perguntas que se impõem só podem ser feitas em sociedades livres - por isso os sistemas ditatoriais elegem sempre os jornalistas como inimigos principais. Acertam o alvo ao proceder assim.

Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito - que é também um dever deontológico - de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda - mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum. Há que continuar a interrogar, a interpelar, a questionar ministros, deputados, autarcas, gestores públicos, líderes partidários. Mesmo quando muitas portas se fecham nas caras, quando o assessor do assessor manda dizer que Sua Excelência não está, quando as ameaças de represálias surgem com a insídia recomendada nos manuais do ramo, há que continuar a fazer perguntas. Incomode-se quem se incomodar.

Este é o único poder dos jornalistas. E não se iludam: não existe mais nenhum.

 

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66 comentários

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De Paulo Quintela a 14.01.2010 às 15:00

Há 20 anos era eu um jovem ingénuo, vejo-me nesse tempo a produzir um texto semelhante ao seu, com o mesmo grau de pureza.
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De João Carvalho a 14.01.2010 às 18:31

Desculpe lá, mas parece-me improvável. Entendo muito bem onde quer chegar, mas não é por esse caminho.
Há 20 anos, nenhum jovem ingénuo escreveria um texto como este, porque qualquer jovem ingénuo, há 20 anos, era um "dono do mundo" e nem sequer vinha daí qualquer mal ao mundo.
O importante é perceber a realidade, hoje, para reflectir deste modo e concluir deste modo.
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De Paulo Quintela a 14.01.2010 às 19:02

Não há lugar a desculpas, melhor do que uma boa polémica só uma mulher bonita ou um uísque velho. Vejo que entendeu onde eu queria chegar e sim, há 20 anos eu estava cheio de mim e era ainda capaz de defender o indefensável (e fi-lo), hoje sei que a 'verdade' anda à solta e é irmã da liberdade, sei também que sempre que as duas se encontram, mudam o mundo, um pouquinho, mas mudam.

Os jornalistas exercem poder sim e o meu amigo sabe-o bem, mas exercem-no no quadro de outros poderes e são instrumentos da circunstancia, da dos outros poderes, da sua própria ideologia (veja Helena Matos n'o Publico, a titulo de exemplo) e da sua própria subsistência. No quadro desta realidade complexa detém poder porque influenciam, porque fazem análise, porque recebem ordens e cumprem-nas, porque são permeáveis às suas fontes (que guardam como bem maior e têm pavor em perder), porque dão eco ou porque o calam.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:32

No dia em que deixasse de acreditar em cada frase que escrevi, Paulo Quintela, abandonaria esta profissão. Não tenho a menor dúvida quanto a isso.
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De Paulo Quintela a 15.01.2010 às 11:01

Acredito plenamente. Aqui a discussão fi-la no plano conceptual, não no plano pessoal.

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