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O único poder dos jornalistas

por Pedro Correia, em 14.01.10

  

É um disparate considerar o jornalismo o 'quarto poder'. Os jornalistas não exercem nenhuma função que possa equivaler-se aos poderes clássicos dos políticos que legislam, governam e definem as normas destinadas a ser aplicadas pelos magistrados nos tribunais. Um jornalista só tem um poder ao seu alcance: o poder da pergunta. Cabe-lhe suscitar questões, desfazer dúvidas, interrogar-se sobre tudo quanto não sabe. O simples poder da pergunta, quando bem excercido, tem um inegável valor social, permitindo aferir o comportamento dos agentes políticos e consolidar o exercício da cidadania. Naturalmente, as perguntas que se impõem só podem ser feitas em sociedades livres - por isso os sistemas ditatoriais elegem sempre os jornalistas como inimigos principais. Acertam o alvo ao proceder assim.

Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito - que é também um dever deontológico - de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda - mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum. Há que continuar a interrogar, a interpelar, a questionar ministros, deputados, autarcas, gestores públicos, líderes partidários. Mesmo quando muitas portas se fecham nas caras, quando o assessor do assessor manda dizer que Sua Excelência não está, quando as ameaças de represálias surgem com a insídia recomendada nos manuais do ramo, há que continuar a fazer perguntas. Incomode-se quem se incomodar.

Este é o único poder dos jornalistas. E não se iludam: não existe mais nenhum.

 

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66 comentários

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De tric a 14.01.2010 às 21:47

"Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito - que é também um dever deontológico - de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda - mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum."

viu-se o comportamento dos Jornalistas nas ultimas eleições era so discutirem trivialidades...pois, agora é a historia que se sabe...sacudir a agua do capote! a economia traduz bem o estado do Jornalismo em Portugal ! não vale nada, um tostão furado...
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De João Carvalho a 15.01.2010 às 01:49

Sim? E isso quer dizer o quê? Que um jornalista que mantém o ideal e as convicções sobre o exercício da profissão deve demitir-se? Abandonar? Abrir uma escola profissional?
Qual foi a sua conclusão, que eu já me esqueci?
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De Daniel João Santos a 14.01.2010 às 22:17

excelente Pedro, muito bem.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:59

Obrigado, Daniel.
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De zeparafuso a 14.01.2010 às 22:18

Concordo com o que está escrito. Mas e se o jornalista mente? Não vamos agora esquecer que há bons e maus jornalistas, assim como em todas as outras profissões. Nunca vi nenhum jornalista deixar de o ser por faltar à verdade, como se diz agora, no meu tempo chamava-se, como digo mais acima mentira. Despedidos alguns, outros são desculpados e há ainda os que arranjam emprego logo no pasquim do lado.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 02:03

Esse é um problema que tarda em ter resolução. Há muito que defendo - e estou bem acompanhado nessa matéria - a instituição de uma ordem profissional com efectivos poderes disciplinares sobre os jornalistas. Um jornalista que falte à verdade comete uma grave falha deontológica. Lamentavelmente, não há mecanismos internos efectivos de penalização quando essas falhas ocorrem.
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De Manolo Heredia a 14.01.2010 às 22:54

São os patrões dos jornalistas que têm poder. Os jornalistas são empregados obrigados a seguir a "linha editorial" dos patrões. Senão, são despedidos.
Os meios de comunicação estão ao serviço dos grupos financeiros (são comprados por eles). O jornalista é o elo mais fraco.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 02:04

Às vezes é até um pouco pior que isso. Às vezes nem os próprios patrões têm poder. E muito menos têm linha editorial. Mas esse não é um problema exclusivo dos dias de hoje - é um problema que já vem de trás.
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De joão almeida a 15.01.2010 às 02:35

O jornalista tem um poder enorme. O poder de informar. Informar com rigor, isenção, profundidade, clareza e transparência.
Quanto melhor o fizer maior o seu contributo para a qualidade da democracia e do escrutínio das suas instituições. Habermas! Está lá tudo.
Bom post
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 10:31

Obrigado, caro João Almeida. Não há informação rigorosa se o jornalista abdicar do poder/dever da pergunta. Infelizmente essa abdicação sucede demasiadas vezes.
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De João André a 15.01.2010 às 09:48

Não consigo concordar a 100% com o post, embora goste de pensar que assim deveria ser. Infelizmente o jornalista não é uma peça independente, antes faz parte de um grupo mais complexo, o qual tem um interesse acima de qualquer outro: vender as suas notícias.

Seria bom pensar que o leitor compra as notícias apenas usando como base a qualidade dos jornalistas, mas sabemos que não é esse o caso. Por isso mesmo temos que o todo onde o jornalista se insere (jornal, rádio, televisão, site de internet, etc) tem interesses próprios, pelo que pode definir as notícias que leva a público. Dessa forma existe então um poder extra: o de decidir o que é "noticiável". Por vezes a escolha é simples, como no caso do sismo no Haiti. Outras vezes estamos perante situações mais complexas, como no "caso das escutas".

Acima de tudo, o jornalista deve ter o poder de fazer as perguntas que os cidadãos não conseguem fazer. De interpelar directamente os actores num determinado caso para esclarecer o mesmo perante os cidadãos. Dessa forma concordo com a designação de "quarto poder". Só que há um problema extra: a quem respondem os jornalistas (ou o grupo a que pertencem)? Se procederem, sem malícia, a "sujar o carácter" de uma determinada pessoa (imaginemos um caso de corrupção, por exemplo), quantas vezes procedem à limpeza do carácter? Infelizmente raramente o fazem, mesmo quando "sujam" sem qualquer intenção de o fazer, apenas com a intenção de noticiar aquilo que vêem como factos.

É esse um poder que os jornalistas têm e que não se vê nos restantes: um certo poder de impunidade. Não é completo, mas existe até certo ponto. Num mundo perfeito não seria problema, mas no mundo actual, que está longe de ser perfeito, é um poder muito real.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 10:34

"Acima de tudo, o jornalista deve ter o poder de fazer as perguntas que os cidadãos não conseguem fazer. De interpelar directamente os actores num determinado caso para esclarecer o mesmo perante os cidadãos." Este é o ponto. Há uma delegação implícita de competências ao jornalista, que tem o dever de materializar as perguntas que o cidadão comum gostaria de fazer e não faz, por falta de acesso aos titulares dos órgãos de poder. Seja a propósito de que assunto for.
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De mdsol a 15.01.2010 às 15:17

Não seja modesto, Pedro Correia.

:))))
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De Pedro Correia a 16.01.2010 às 01:26

I beg your pardon?
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De joao severino a 15.01.2010 às 15:21

Caro Pedro

Desculpa destuar da unanimidade. O poder da pergunta é horrível e pode ser suicidário.
Chamaram-me vários nomes ao longo de mais de 30 anos de jornalista.
Quando as perguntas para esclarecimento dos leitores agradavam aos poderes políticos e sociais, chamavam-me: porreiro, o melhor, grande homem, corajoso, grande gajo, genial.
Quando as perguntas não agradavam aos mesmos poderes, condecoravam-me: cabrão, filho da puta, merdas, vendido, atrasado mental, analfabeto. E como condecoração maior recebi a injustiça de um tribunal, a condenação indecorosa, o corte das pernas, a falência financeira, a venda do meu jornal, o silenciamento, o desterro e o desemprego.
No jornalismo há perguntas que são fatídicas...

Abraço
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De Pedro Correia a 16.01.2010 às 01:27

Bem sei, João. Por isso o poder - os diversos poderes - detesta que os jornalistas formulem perguntas. Nada pode haver tão incómodo como uma simples pergunta. O que mencionas só confirma isso.
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De lucklucky a 15.01.2010 às 17:01

Que modéstia.

Então escolher umas notícias em vez de outras não é jornalismo. Escrever um artigo a favor de A contra B não é jornalismo?
Dar tempo de antena a A em vez de B não é jornalismo?
A e B podem ser pessoas, ideologias, valores, religiões etc...

Um exemplo prático:
A industria do Aquecimento Global fez-se alguma vez sem Jornalistas coninventes?

O País está como está porquê? Porque é que os Portugueses escolheram mal nos últimos 10,20 anos? Não será por causa da qualidade da informação?

O Jornalismo não é o 4ºPoder. É o 1ºPoder. Pois é sempre na informação que se joga a primeira batalha.
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De cjt a 18.01.2010 às 22:50

um bocadinho de SPAM nunca fez mal a ninGAM.

modesta contribuição minha para a sobrevivência deste blog: http://fractura.net/blog-sociedade-democracia/jornalismo-poder-ou-nao-478.html

valiosa contribuição do alexandre no rascunho: http://rascunho.iol.pt/cronica.php?id=249

e mais comentários aqui: http://fractura.net/blog-sociedade-democracia/rascunho-acerca-do-poder-do-jornalismo-544.html

já fiz o trabalho de casa, agora já posso ver televisão.
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De Pedro Correia a 18.01.2010 às 23:33

Obrigado pelas dicas, Carlos. Gostei das vossas reflexões. Um dia destes volto ao assunto, que é inesgotável.
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De cjt a 19.01.2010 às 08:48

inesgotável realmente, e a necessitar de uma abordagem segura e isenta. estou farto de pachecos armados ao chomsky.

passamos a aguardar.

abraço.
cjt

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