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O único poder dos jornalistas

por Pedro Correia, em 14.01.10

  

É um disparate considerar o jornalismo o 'quarto poder'. Os jornalistas não exercem nenhuma função que possa equivaler-se aos poderes clássicos dos políticos que legislam, governam e definem as normas destinadas a ser aplicadas pelos magistrados nos tribunais. Um jornalista só tem um poder ao seu alcance: o poder da pergunta. Cabe-lhe suscitar questões, desfazer dúvidas, interrogar-se sobre tudo quanto não sabe. O simples poder da pergunta, quando bem excercido, tem um inegável valor social, permitindo aferir o comportamento dos agentes políticos e consolidar o exercício da cidadania. Naturalmente, as perguntas que se impõem só podem ser feitas em sociedades livres - por isso os sistemas ditatoriais elegem sempre os jornalistas como inimigos principais. Acertam o alvo ao proceder assim.

Infelizmente, muitos profissionais da informação demitem-se do seu direito - que é também um dever deontológico - de questionar os poderosos. É, de facto, uma missão muitas vezes incómoda - mas da qual nenhum jornalista digno da profissão que exerce deve demitir-se sob pretexto algum. Há que continuar a interrogar, a interpelar, a questionar ministros, deputados, autarcas, gestores públicos, líderes partidários. Mesmo quando muitas portas se fecham nas caras, quando o assessor do assessor manda dizer que Sua Excelência não está, quando as ameaças de represálias surgem com a insídia recomendada nos manuais do ramo, há que continuar a fazer perguntas. Incomode-se quem se incomodar.

Este é o único poder dos jornalistas. E não se iludam: não existe mais nenhum.

 

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66 comentários

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De Nuno Pereira a 14.01.2010 às 15:25

Só tenho uma certeza!
É através dos jornalistas que a luz da noticia é acesa.
O poder deles no momento da noticia é imenso!
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:32

Assim saibam exercer esse poder e não se demitam dele, Nuno.
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De Ana Vidal a 14.01.2010 às 15:33

Esse será o único poder, Pedro, mas é realmente um poder enorme quando é exercido com coragem e não cedendo em questões de ética. Denunciar, destapar, mostrar, abrir caixas fechadas... tudo isto pode ser feito quase só com perguntas e mesmo assim ser letal, como sabes.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:33

Bem sei, Ana. É imenso o poder de uma pergunta que traduza a permanente insatisfação de um jornalista.
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De Sara a 14.01.2010 às 15:45

Nunca concordei sobre a denominação de 4º poder atribuída ao jornalismo, porque isso é quase como colocar lado a lado o Estado e o jornalismo. Estudei jornalismo porque o via como uma espécie de polícia neutro, pronto a alertar e a denunciar o que de errado se passa, seja com os 3 poderes do Estado, seja com entidades não estatais, ao mesmo tempo que dava voz a toda a gente.

Volvidos uns anos, percebo que o jornalismo deixou de ser isso (alguma vez o foi?), ou que a situação que o jornalismo vive é cada vez mais decadente. Não é possível ao jornalismo cumprir o seu papel quando depende de alguma das entidades que mencionei acima, porque está sempre condicionado. Pelos patrões que pagam as contas; pela falta de orçamento para o que realmente faz falta: jornalismo de investigação.

Assim, acho que a principal função do jornalista é, sim, a pergunta, mas é também insistir quando a pergunta não é respondida ou é feita de forma dúbia. Cabe ao jornalismo ir atrás do que não é respondido e publicar as respostas que encontrou.

Estes podem ser os únicos poderes do jornalista, mas já foi suficiente para mudar muitas coisas ao longo da História e já repôs a verdade onde ela era necessária.
A situação que o jornalismo vive actualmente é que deixa que tudo isso caia no esquecimento...
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:39

É isso, Sara. No poder da pergunta - simultaneamente alicerce de uma sociedade democrática e garantia de vigilância do funcionamento das instituições - está a essência do jornalismo.

"O que estava o árbitro X a fazer em sua casa no dia Y, véspera do jogo W?" (pergunta ao dirigente desportivo)
"Prometeu inaugurar a auto-estrada K no dia D. Porque motivo a auto-estrada permanece por construir neste preciso dia?" (pergunta ao membro do Governo)
"Recebeu X euros do erário público para fazer um filme, que afinal ficou todo preto. Tenciona devolver o dinheiro que recebeu em forma de subsídio?" (pergunta ao cineasta B).

E por aí fora...
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De Sérgio de Almeida Correia a 14.01.2010 às 16:02

Ora aqui está um jornalista consciente do seu poder, ciente da sua força.
Já sabia que era assim há muitos anos, ainda eu era estagiário num já distante tribunal.
Fico satisfeito por saber que assim continuará a ser. E por saber que me concede o privilégio de ser seu amigo.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:40

O privilégio é meu, Sérgio. Obrigado pelas tuas palavras. Um grande abraço.
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De A. Pais de Almeida a 14.01.2010 às 17:06

Só é pena que, em geral, o "jornalismo" praticado por aí - nem é preciso ir longe... - nada tenha a ver com o que diz.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:40

Nem por isso deixo de pensar desta maneira.
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De Rui Daniel a 14.01.2010 às 17:59

Li, não só o post do Pedro, como os comentários que o mesmo suscitou, e há um que me chamou em especial a atenção, de alguém que diz, "também há 20 anos escrevi algo assim", associando-se a ideia de alguma pureza inicial quando, nesses anos, se falava de jornalismo de investigação, feito nas redacções e em que produzir notícias, fazer reportagens, dirigir entrevistas, era quase como militar num partido político (sim, porque militar num partido, já foi algo de muito prazenteiro), por contraponto a alguma desilusão que o tempo veio trazer a essa visão quase idílica do "velho jornalismo".
E sinto-me concordar com os 2 aspectos da questão: o tom genuíno e algo idealista do texto do Pedro, que sabemos anda nisto há muitos anos, já viu muito mundo, e tem tudo menos de ingénuo, e a reserva que o mesmo texto provoca quando sabemos o que é a prática das redacções , das agendas, dos interesses, e que as tentativas de mordaça, se as há, vêm algumas vezes de dentro dos próprios grupos editoriais.

Inegável é a importância de se escrever com a legitimidade com que o Pedro o faz, sabendo-se como ele próprio, na sua profissão, se rege pelos princípios e métodos que enuncia, quer se goste, ou não, das suas conclusões. Mas isso, claro, é outra história.
Rui Daniel
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:42

Obrigado também pela tua reflexão, meu caro Rui. A realidade é o que é, mas no dia em que perdermos por completo o idealismo ela será ainda pior, não tenhas dúvida. Eu não tenho.
Abraço.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 14.01.2010 às 18:18

Pedro

Absolutamente de acordo. Mas não subestimar a sua influência, Pedro. Têm poder e muito, sobretudo num país que vive pendurado na televisão.

Como não vivemos numa sociedade livre nem numa verdadeira democracia, poucos são os que arriscam ver as portas a fechar-se.

(O jornalismo foi a minha primeira paixão, mas o curso ainda não existia em Coimbra em 76 e eu queria continuar em Coimbra... São opções. Hoje vejo como a vida dos verdadeiros jornalistas é difícil e desafiadora, mas como pode ainda ser fascinante, apesar de tudo.)
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:45

De facto, a vida de um jornalista é difícil e dura - pelos mais variados motivos. Mas continuo a pensar, como Camus, que é a mais bela profissão do mundo. Quanto à influência, Ana, ela só existe se o jornalista não abdicar do poder da pergunta. O jornalista que não se interroga, que não estranha nada, que não levanta dúvidas, que não incomoda, que não interpela os poderes públicos é alguém que se demitiu do essencial da sua missão.
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De Luísa a 14.01.2010 às 18:21

Concordo consigo, Pedro, no sentido de «poder-dever». O jornalista «deve» fazer perguntas, «deve» obter informação. Mas não creio que o seu poder se esgote aí. Há depois o «poder de influência», que se exerce, inelutavelmente, quando o jornalista transmite a informação obtida; independentemente do maior ou menor grau de objectividade com que o faça. Este, sim, tem a força de um quarto poder, porque, como nenhum outro, (in)forma a opinião e a acção do público. Por isso, é sobretudo nesta vertente que é indispensável um código deontológico. Como reza o ditado, «perguntar não ofende». O que pode «ofender» é a utilização que se dê à resposta (ou informação) obtida.
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:55

Claro que o poder da pergunta, tal como o concebo, é um poder-dever, Luísa. E também, desde logo, é um direito. Jornalista que não exerça este poder-dever não pode aspirar legitimamente a influenciar quem quer que seja. O 'quarto poder' de que tanto se fala é ilusório. Julgo que ninguém se imagina a viver numa sociedade tutelada por jornalistas, um admirável mundo novo onde os editoriais da imprensa tivessem força de lei. Suponho que também ninguém gostaria de viver numa sociedade em que os juízes não se limitassem a aplicar as leis, mas também as produzissem. Jornalista que pretenda exercer o poder deve candidatar-se a um cargo político. Tão simples como isso. Mas no dia em que for para a política abdica da poder da pergunta: cabe-lhe a partir de então o dever da resposta.
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De Francisco Almeida Leite a 14.01.2010 às 19:43

Excelente, meu caro amigo. Muito bem observado. O grande problema dos dias que correm é que muitos jornalistas deixam de fazer perguntas e limitam-se a acolher o que lhes dizem, sopram e "vendem". Demitem-se das suas funções, portanto.

Abraço
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De A. Pinto Pais a 14.01.2010 às 20:50

Olha, olha...
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:55

Pois é, Francisco. Obrigado pelas tuas palavras. Abraço.
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De lili a 14.01.2010 às 21:39

O famoso quarto poder é, como o chamou Mário Mesquita, um quarto equívoco. O poder do jornalismo é a face visível do poder das fontes, isto é, do poder político e do poder económico (mais o dos dispersos poderes fácticos que se desenvolvem nos seus interstícios). Por isso, há zonas do funcionamento do regime democrático onde o jornalismo não mete o nariz a não ser que sejam palco de conflitos de interesses onde possa ser usado como arma de arremesso (…)”.

Manuel António Pina, “O inútil quarto poder“, in Jornal de Notícias, 11.1.2208

É triste, mas é a verdade. E como, então, lutar se, de um modo geral, a nossa realidade, tanto quanto ao jornalismo como aos partidos é a podridão instalada que temos?
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De Pedro Correia a 15.01.2010 às 01:59

Não partilho dessa posição tão pessimista, apesar da consideração que tanto M. Mesquita como M. A. Pina me merecem. Em todas as épocas houve bom e mau jornalismo, em todas as épocas houve jornalismo condicionado - no passado já tivemos jornalismo muito mais condicionado, designadamente quando vivíamos em ditadura. As próprias redes sociais contribuem, e de que maneira, para interpelar, motivar e desafiar o jornalismo no mundo contemporâneo.
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De Sara a 15.01.2010 às 11:47

Completamente. O caso do Irão tem sido fantástico nesse aspecto. Não há censura e repressão que detenham a informação de passar cá para fora!

Já houve também casos onde o fumo foi lançado na blogosfera e só depois o jornalismo foi investigar se havia fogo. É um fenómeno fantástico!
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De Pedro Correia a 16.01.2010 às 01:25

O exemplo do Irão é excelente, Sara. De momento só praticamente só por esse meio é possível haver noticiário de lá com um minimo de isenção, sem os filtros do Governo e do clero que domina toda a vida do país.

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