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Revolutionary Road

por Teresa Ribeiro, em 05.02.09

O trailer que tem passado insistentemente na televisão indicava-me que o novo Sam Mendes andaria, tal como no seu brilhante filme de estreia, Beleza Americana,  à volta da degradação das relações de casal. Bastava-me a chancela deste realizador para ter por seguro que a abordagem de um tema tão filmado fugisse a todos os clichés. Não esperava, porém, um melodrama, género arriscadíssimo num tempo em que a contenção é aclamada, o cinismo bem-vindo e a exibição sem ironia de situações de elevada carga dramática assinalada, muitas vezes, como manifestação de mau gosto.

Ao contrário de Beleza Americana, cuja abordagem das neuroses da classe média dos subúrbios respeita rigorosamente a cartilha, evitando com pudor e doses generosas de cinismo a exposição convencional das situações dramáticas, Revolutionary Road é de uma honestidade demodée. Talvez tenha sido esta honestidade, no limite sempre convertível em crueldade, que atraiu Mendes

A infidelidade, habitual protagonista em histórias de casais desavindos, não tem aqui papel de destaque. Porém, é de traição que o filme nos fala, daquela espécie de pecado original a que não escapamos quando decidimos assumir compromissos para a vida, recalcando diligentemente os ideais da juventude.

Mendes deu à novela homónima de Richard Yates em que o filme se baseia todo o protagonismo. Esta opção valeu-lhe críticas. Há quem considere Revolutionary Road muito teatral. Porventura sê-lo-á, mas nada tenho contra, quando os temas se adequam, os textos merecem e os actores acompanham o desafio. O cinema está cheio de grandes filmes que não são mais que peças de teatro adaptadas -  e note-se que seria exagero fazer tal afirmação em relação ao último Mendes.

Kate Winslet tem, neste filme, o papel da sua vida. Se já me tinha impressionado em Pecados Íntimos, de Todd Field, aqui, no papel da inconformada April, ela supera-se. Mas Leonardo DiCaprio consegue estar à altura: consagra-se aqui um dos pares de referência do cinema contemporâneo.

Gosto de sofrer enquanto cinéfila, de sair da sala com um peso na cabeça e fechada num mutismo que não é mais que a expressão do desejo de permanecer por mais alguns minutos dentro do filme. Aconteceu-me com este. Para mim - apesar de ainda estarmos em Fevereiro - um dos filmes do ano.

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17 comentários

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De Anónimo a 05.02.2009 às 14:45

Demodèe? Isso que língua é?
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De Once a 05.02.2009 às 14:56

Já é a segunda ode que leio a este filme .. tenho de ir ver! ;)

Obrigada Teresa *
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2009 às 21:42

Não perca, Once :)
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De Paula Crespo a 05.02.2009 às 16:20

O trailer deste filme levava ao engano. Felizmente, porque levava a crer que se trataria de mais um filme que não nos traria mais-valia alguma. Puro engano: trata-se de uma obra notável, sobre vários aspectos que, aliás, referi já neste
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O <i>trailer</i> deste filme levava ao engano. Felizmente, porque levava a crer que se trataria de mais um filme que não nos traria mais-valia alguma. Puro engano: trata-se de uma obra notável, sobre vários aspectos que, aliás, referi já neste <I<post</i> http://umaespeciedemim.blogspot.com/2009/02/inconformismos.html
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2009 às 21:55

Percebo o que diz. O trailler alinha cenas que nos parecem, vistas isoladamente, muito estereotipadas...
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De Ana Vidal a 05.02.2009 às 16:53

Gosto tanto quando alguém faz os trabalhos de casa por mim, Teresa... obrigada! lá vou eu ver o filme. ;-)

Não sei se supera Beleza Americana - um filme notável - mas já despertou a minha curiosidade. E os actores são bons, não há dúvida (o Di Caprio teve que provar ao mundo que era mais do que um palmo de cara bonitinho e enjoativo, e para mim já o fez há algum tempo)

Beijinho
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2009 às 21:49

Disponha sempre, Ana :)
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De jcd a 05.02.2009 às 18:35

Cara Teresa, Temos que esperar por "The Reader". Parece que aí Kate Winslet volta a superar-se, para nosso benefício e deleite. Que grande actriz que ela é!
Joana
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2009 às 22:04

Joana, neste momento Kate Winslet já é uma das maiores actrizes da sua geração! Aguardemos, pois por The Reader que conta com outro dos meus actores favoritos: Ralph Fiennes.
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De mike a 05.02.2009 às 20:44

E pronto! Parece que apenas estava a faltar esta crítica em forma de excelente post, Teresa. E o timing não podia ser melhor, que o fim-de-semana está à porta.
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De Cristina Ribeiro a 05.02.2009 às 22:10

Pegando na deixa do Mike, era lá, no cinema, com imagens deste filme pela frente, que pensava passar um tempito, deste tempo chuvoso; agora com mais razões...
Bom fim-de-semana, Teresa
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2009 às 22:18

Nada melhor que fugir à chuva numa sala de cinema. Bom fim-de-semana, Cristina.
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2009 às 22:11

Obrigada, Mike. Se gosta do género melodrama e de filmes de actor, não dará o seu tempo por perdido.
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De mike a 05.02.2009 às 23:08

Gosto de cinema. Bom cinema, Teresa.
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De cristina a 05.02.2009 às 21:55

Excelente comentário, daqueles que vêm tão da alma que nos arrastam sem perguntar mais nada..:))

o filme está ali ao lado para ver. talvez no fim de semana. obrigada.
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De Teresa Ribeiro a 05.02.2009 às 22:22

Obrigada, Cristina. E para que serve um blog se não para partilhar estas coisas?
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De Pedro Correia a 06.02.2009 às 00:18

Muito bem, Teresa. Já vi o filme, e vi nele coisas diferentes do que dizes. Gostei - mas outros motivos. Um blogue também serve para confrontar ideias a este nível. Numa coisa estou de acordo: no desmpenho de Kate Winslet. Notável, a variação que vai tendo o rosto dela à medida que a acção se adensa - que grande, enorme actriz!

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