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"A Peste" ou o herói absurdo

por José Gomes André, em 04.01.10

De entre a fabulosa obra de Camus, o Pedro Correia destacou (e bem) O Estrangeiro, mas confesso que a minha favorita é A Peste. O enredo é curiosamente simples  - sem causa conhecida irrompe uma epidemia numa cidade, que começa por matar os seus ratos, mas logo dizima boa parte da população, acompanhando nós a forma como várias personagens lidam com esta tragédia.Todavia, um conjunto de ramificações simbólicas e temáticas torna aquele livro num dos grandes textos do século XX, evocando o problema do absurdo, a questão da sobrevivência em sociedade e a postura perante a morte.

 

Neste quadro diverso, muito aprecio a figura do Dr. Rieux, o médico da cidade. Surpreendido pela situação, e embora atordoado, Rieux recusa-se porém a assistir à permanência dum mal radical que se presta a destruir a comunidade. Ele cria um sentido, ainda que limitado pelas condições a que está sujeito: uma cidade encerrada, uma dor que se infiltra, um povo que morre. “É verdade que a palavra «peste» tinha sido pronunciada. Mas, que diabo, aquilo podia deter-se! [...] Rieux despertou. Aí estava a certeza, no trabalho de todos os dias. O resto dependia de movimentos insignificantes, não se podia perder tempo com isso. O essencial era exercer bem a sua profissão".

 

Não foi em vão que Camus concedeu a Rieux o papel de médico: é como se o compromisso deste assentasse, precisamente, no assumir da sua responsabilidade, no cuidado que o mesmo deve a si próprio e aos outros, agora. Pois o herói absurdo (aquele que coaduna uma acção esperançosa com a compreensão de que não existe um sentido transcendente último e justificativo) luta por causas presentes, não por salvações eternas: “Não sei o que me espera nem o que há-de vir depois de tudo isto. Para já, há doentes e é preciso curá-los. Defendo-os como posso, aí está”.

 

Em última instância, voltamos à bíblica parábola dos talentos: mesmo perante as mais complexas circunstâncias - e mesmo face à percepção de que tudo isto não tem um sentido derradeiro - cabe-nos ainda assim dar o melhor e criar uma narrativa a partir das nossas faculdades (sejam vastas ou reduzidas). Eis uma mensagem pertinente numa sociedade cada vez mais hedonista e que tanto cultiva a desresponsabilização.


4 comentários

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De Ana Vidal a 04.01.2010 às 19:11

Aplaudo o teu post, com admiração e entusiasmo. Não só porque ele me lembrou muito a minha mãe (que era médica e tinha esse mesmíssimo lema - a importância do "agora" - talvez por isso A Peste era um dos seus livros de culto), mas porque me parece fundamental que alguém lembre e cultive esse lema nos dias de hoje, em que andamos todos tão desorientados e sem sentido para a nossa vida diária. Parabéns.
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De José Gomes André a 04.01.2010 às 19:27

Obrigado, Ana, pelo teu comentário tão simpático!
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De Pedro Correia a 05.01.2010 às 00:18

Excelente texto, José. Bem poderia servir de prefácio ao fabuloso romance de Camus, que li ainda na adolescência, tomando-o pelo seu valor facial, e reli mais tarde já com o subtexto da França ocupada pela 'peste' nazi que não poupava nada nem ninguém. Seja qual for o ângulo de leitura, é um romance capital do século XX.
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De José Gomes André a 05.01.2010 às 02:22

Simpatia sua, Pedro. De facto não mencionei a leitura histórica, mas ela é absolutamente pertinente, claro. Entre outras, tão rico é o romance. Abraço!

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