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Meio século sem Camus

por Pedro Correia, em 03.01.10

 

Às vezes, basta um parágrafo - um simples parágrafo de abertura. Albert Camus, naquele que seria o seu romance de estreia, em 1942, conseguiu escrever esse parágrafo que fica a perdurar na memória de qualquer leitor: "Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.' Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem."

É assim o começo d' O Estrangeiro, um dos livros de ficção do século XX que melhor reflectem o desamparo do homem perante as encruzilhadas da existência: Camus, com apenas 29 anos, revelava-se desde logo como um dos grandes nomes da literatura universal, que a Academia de Estocolmo confirmaria em 1957, ao atribuir-lhe o Prémio Nobel. O Estrangeiro, traduzido para mais de 40 idiomas, é hoje o recordista absoluto de vendas em formato de bolso em França. E a actualidade do pensamento de Camus - tão ou mais notável como ensaísta do que como romancista - é indiscutível. Na sua recusa intransigente do compromisso dos intelectuais com sistemas totalitários, na sua obstinada luta contra a violência como instrumento de acção política e na sua afirmação de que "todo o despotismo, mesmo provisório", deve ser rejeitado. Na sua denúncia simultânea dos campos de extermínio nazis e dos gulags soviéticos. E também no modo inequívoco como se pronunciou, logo em Agosto de 1945, contra o lançamento das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasáqui: "Marx não recuou em 1870 perante o elogio da guerra, que ele pensava que deveria fazer progredir, pelas suas consequências, os movimentos de emancipação. Mas tratava-se de uma guerra relativamente económica e Marx raciocinava em função de uma espingarda com baioneta, que é uma arma de crianças. Hoje em dia, vocês e eu sabemos que as consequências de uma guerra atómica são inimagináveis e que falar da emancipação humana num mundo devastado por uma III Guerra Mundial é algo que se parece com uma provocação."

Ao princípio da tarde de 4 de Janeiro, faz amanhã 50 anos, o Facel-Véga em que Camus seguia, conduzido pelo seu editor e amigo Michel Gallimard, embatia inexplicavelmente contra um plátano situado na berma da estrada perto de Sens, quando fazia o trajecto entre a Provença e Paris. Numa recta, à luz do dia, com plena visibilidade. O escritor, cuspido do carro, teve morte instantânea. No interior do veículo estava o manuscrito do seu romance autobiográfico O Primeiro Homem, deixado inacabado mas publicado em 1994.

Mersault, o anti-herói d' O Estrangeiro - que mata "por causa do sol" e sobe ao cadafalso afirmando que "fora feliz e que o era ainda" -, não se importaria decerto de terminar assim os seus dias. De forma tanto mais absurda por ser tão trágica e tanto mais trágica por ser tão absurda.

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