Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Afinal o problema era outro

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.09

Quem se recordar do que foi dito sobre a ex-ministra da Educação e tiver agora ouvido e acompanhado com alguma atenção o que a nova ministra foi dizendo, bem como os comentários que ao longo das últimas semanas foram sendo produzidos pelos sindicatos dos professores, não pode deixar de ficar estarrecido. Maria de Lurdes Rodrigues foi afastada, os sindicatos esfregaram as mãos de contentamento: agora é que ia ser. 

Poucas semanas volvidas verifica-se que está tudo na mesma.

Ontem fiquei a saber que um dos sindicatos quer "impor" ao Ministério um conjunto de 38 pontos (só?) para poder chegar a um acordo.

O PSD, pela voz altamente credível do seu twitter e deputado Pedro Duarte, um homem que como todos sabem tem uma vasta experiência profissional e notável currículo, lá veio de novo criticar Isabel Alçada. Mas quanto a soluções zero. 

Cada dia que passa percebo menos o que querem os sindicatos e fico sem saber o que pensam os professores daquilo que as dezenas de sindicalistas que os representam andam a fazer pelos gabinetes da 5 de Outubro.

Não sei se no meio deste caos negocial ainda haverá alguém na opinião pública que acredite numa palavra do que diz a Fenprof, o Sr. Mário Nogueira ou os seus pares, mas começa a ser demasiado óbvio que o problema não era de flexibilidade, de diálogo ou de boa fé. Ou seja, a culpa não era de Maria de Lurdes Rodrigues.

Acho notável que mais de 100.000 professores tenham desfilado em Lisboa contra a ex-ministra, mas duvido que hoje voltassem a fazer o mesmo contra Isabel Alçada, em especial com a mesma convicção e com o mesmo espírito.

A mim, que nada tenho a ver com essa guerra, mas a quem custa ver o estado a que tudo isto chegou (o diagnóstico que Francisco José Viegas fez na entrevista a João Pereira Coutinho é bem elucidativo) por culpa de uma incontornável e necessária avaliação, quer-me parecer que ou os professores se livram destes sindicalistas profissionais e das dezenas de sindicatos que têm, passando a falar a uma só voz, ou a classe e o ensino nunca mais terão sossego. Hoje são 38 pontos, amanhã serão 50, e nunca mais se sai disto.

Oxalá que 2010 possa trazer lucidez e bom senso aos sindicatos e paciência aos portugueses para acompanharem os próximos capítulos dessa miserável novela que a ninguém serve, mas que ou muito me engano ou dentro de algumas semanas acabará com o Sr. Mário Nogueira a pedir a demissão da ministra.


16 comentários

Sem imagem de perfil

De clara a 31.12.2009 às 12:02

Eu, que sou professora, digo-lhe o que querem os professores, ou mais exactamente a maioria dos professores: pura e simplesmente não querem ser avaliados para poderem chegar ao topo da carreira sem grande trabalho e sem chatices. É inacreditável, mas é verdade. Tanto faz que o ME seja Maria de Lurdes ou Isabel Alçada ou alguém do PSD ou a AR. Eles e os seus sindicatos só se calarão se não forem avaliados ou se se arranjar uma progressão na carreira que transforme a avaliação numa fantochada. Não há negociação possível desta forma. E é bom que o PSD tenha consciência disto e não "embarque" na irresponsabilidade dos sindicatos...
Sem imagem de perfil

De Álvaro Pires a 31.12.2009 às 20:32

V. é professora?
Onde? E de quê?
Não lhe tremem as mãos sobre o teclado ao escrever o que escreve, dizendo-se professora?
Imagem de perfil

De ariel a 31.12.2009 às 12:07

Sérgio, se me permite, só não via quem não queria ver.
Desejo-lhe um excelente 2010.
Sem imagem de perfil

De sara a 31.12.2009 às 12:24

Nem Mais! Bom novo ano para todos.
Sem imagem de perfil

De PALAVROSSAVRVS REX a 31.12.2009 às 12:49

Os sindicatos têm por vezes interesses inconfessáveis e levantam fumo e mais fumo enquanto não os salvaguardam. Enquanto professor, não posso recriminar globalmente os sindicatos como o faz o Sérgio, com nula fundamentação e zero especificidade.

Apoio-me nas razões de bom-senso e inteligência emanadas do MUP, do PROmova e da plataforma de diálogo e avaliação política em que se constituiu Paulo Guinote.

Ora, tudo isto está muito além dos "sindicatos" e do seu papel mais ou menos triunfalista.
Imagem de perfil

De Leonor Barros a 31.12.2009 às 13:28

Sempre me pareceu óbvio que o problema não era Maria de Lurdes Rodrigues, pese embora a atitude autoritária. Quem ler com atenção o Estatuto da Carreira Docente e tudo o que se passou na educação perceberá que quase todas as reformas em curso tiveram um único objectivo: poupar dinheiro. A divisão da carreira em professores e professores titulares só teve esse objectivo . Tendo em conta o contexto económico do país é óbvio que continuará a haver entraves à progressão. E por último, Sérgio, nunca falo em nome dos professores, falo em meu nome, como professora e digo-te que este Estatuto é altamente penalizador. É frustrante que se tenha uma boa avaliação e se tenha ficado exactamente no mesmo lugar por causa das quotas, por exemplo. Ou que não se possa assistir a um qualquer seminário à luz do dia, porque só podemos fazer formação fora do horário de trabalho. Não sou sindicalizada, logo nada me move a favor ou contra os ditos, mas tenho a certeza que há que lutar. O Estatuto do Aluno e as provas de recuperação, uma forma abjecta de reduzir a taxa de abandono escolar, e a Gestão das escolas e o regresso a uma estrutura autoritária e bafienta têm sido pouco abordados pelos sindicatos mas deviam ser suspensos já.
Sem imagem de perfil

De Ricardo B a 31.12.2009 às 20:56

Cara Leonor,
tudo o que escreveu me parece terrivelmente sensato.

Contudo, a percepção com que fico deste conflito é a de que os sindicatos de professores na verdade não estão diponíveis para discutir construtivamente sobre isso pois estão agarrados a uma posição irredútivel de não querer qualquer avaliação com impacto na carreira dos docentes.

É uma percepção muito errada?

Imagem de perfil

De Leonor Barros a 01.01.2010 às 23:49

Nãoligo muito ao que os sindicatos dizem, se quer que lhe diga. É claro que estou informado no essencial mas é um mundo que não me interessa. A mior parte das vezes não me identifico com o tipo de discurso. Contudo, são obviamente importantes. Julgo que essa percepção é errada, porque não há qualquer dúvida que é importante que haja outro tipo de avaliação (também é falso que não existisse anteriormente), os sindicatos também defendem a avaliação. A que foi imposta pelo anterior governo era um absurdo. O problema principal são mesmo o modelo de avaliação e as quotas neste momento.
Imagem de perfil

De Leonor Barros a 02.01.2010 às 12:41

Os problemas principais são, naturalmente.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 01.01.2010 às 15:12

"É frustrante que se tenha uma boa avaliação e se tenha ficado exactamente no mesmo lugar por causa das quotas"

Leonor, isso acontece em qualquer profissão. Se não acontecia na de professor, pois tem que passar a acontecer, por uma questão de justiça.

A maioria dos professores universitários, Leonor, nunca passam de professores auxiliares (o nível mais baixo da carreira), por melhores professores (e cientistas) que sejam. Sem vagas nos níveis superiores da carreira, não passam de auxiliares.

Por que motivo hão-de os professores de liceu ser regidos por carreiras mais favoráveis à subida de escalão do que os professores universitários e do que, de facto, quaisquer outros funcionários públicos?
Imagem de perfil

De Leonor Barros a 01.01.2010 às 23:44

Não me venha falar do Ensino Universitário porque conheço-o por dentro, fui docente universitária e sei muitíssimo bem do que falo. São, para já, mundos que não se tocam, têm em comum apenas o facto de ambas as situações se dedicarem ao ensino. Se a maioria dos professores universitários tivesse de fazer o que se faz no Secundário sucumbiam logo no primeiro mês. Não se podem comparar esses graus de ensino, um professor universitário tem doze horas lectivas, um do Secundário tem vinte e duas, por exemplo e nem vou comparar a carga de trabalho burocrático. Como digo, não há comparação.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 31.12.2009 às 14:18

Não estou dentro do assunto da Educação, mas parece-me que o problema é mais abrangente ainda: os sindicatos, que inegavelmente tiveram um papel fundamental na conquista de direitos para os trabalhadores, são agora mais um obstáculo do que um intermediário útil na defesa destes. No estado de crise profunda em que está a nossa economia, com os empresários a medir cada passo porque o abismo está sempre muito próximo, fomentar guerrilhas e exigências completamente irrealistas só pode jogar contra os trabalhadores e não a favor deles. Penso que os trabalhadores deveriam ser os primeiros a travar muito do discurso estafado e contraproducente dos seus representantes, sob pena de perderem mais batalhas do que conseguirem algumas melhorias.
Imagem de perfil

De jose-catarino a 31.12.2009 às 16:27

É preciso ter em conta que os problemas são tão numerosos que umas linhas de comentário apenas esboçam alguns deles. Por exemplo, as escolas passaram a ser dirigidas por directores, que escolhem todos os representantes em órgãos como o Conselho Pedagógico e a Comissão de Avaliação. Nunca receei nem receio prestar provas, e tenho-o feito amiúde, mas nesta avaliação não tenho a menor hipótese. Por melhores que sejam as minhas aulas, por mais que me esforce, não passarei da cepa torta do bom. Bom ano para todos.
Sem imagem de perfil

De bohren a 31.12.2009 às 16:37

Bom post.
Sem imagem de perfil

De fofocas a 31.12.2009 às 17:11

Parabéns Sr.Sergio - estou de acordo com tudo, além da lucidez que 2010 possa e deva trazer aos sindicatos, devia também trazer vergonha aos sindicalistas, desses agrupamentos professorais por só olharem para o umbigo deles... gostam de aparecer na televisão, até poêm gravata os proletários... há quanto tempo não dão aulas? querem manter os privilégios ou a bandalheira? quantos não foram forçados a "escolher" essa profissão por inadaptação a outras?... e agora são todos "BONS"...
Haja vergonha e bom senso para uns e Paciência e Firmeza para outros.
Imagem de perfil

De Sofia Loureiro dos Santos a 31.12.2009 às 17:39

É e sempre foi essa a minha opinião. O problema nunca esteve na Ministra Maria de Lurdes Rodrigues como não está na Ministra Isabel Alçada.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D