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Espelho do país

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.12.09

A EDP - Electricidade de Portugal de Portugal S.A. é uma empresa que afirma ter "por missão produzir bem estar e aumentar a qualidade de vida e do ambiente, promovendo o optimismo e o dinamismo social" e cujos "princípios e políticas definidos para o Grupo são o reflexo da aplicação da Visão, dos Compromissos e da estratégia a determinados temas corporativos transversais a todos os negócios em que a EDP pretende posicionar-se de forma distintiva".

A linguagem pode parecer esotérica, mas talvez por isso mesmo é que a empresa tenha uma multiplicidade de órgãos, de conselhos e de departamentos, e milhares de colaboradores, prosseguindo, diz ela, princípios e políticas de "ética e de conduta", de "desenvolvimento sustentável", de "protecção pelo ambiente", de "biodiversidade", de "segurança", de "formação", de "comunicação", de "respeito pelos direitos humanos", de "combate às alterações climáticas" e de "combate à corrupção, suborno e financiamento de partidos políticos". Para além disso, afirma ter um código de ética, um provedor e está presente em vários continentes.

Em suma, à escala empresarial, a EDP é como que uma espécie de Estado, só que bem mais rico. E, como de repente se percebeu, com a vantagem de ter poucas ou nenhumas responsabilidades.

No meio desta babilónia, tal como o Estado ignora os seus contribuintes, a EDP despreza os seus consumidores nos momentos de aflição, limitando-se a fazer o básico, como seja o restabelecimento do serviço interrompido. 

São de há muito as queixas dos consumidores, obrigados a contratarem com a EDP para terem electricidade nas suas casas, de que a qualidade do serviço prestado é má, que as falhas de energia são mais frequentes do que o admissível, mesmo quando não há chuva nem vento, que a factura é normalmente elevada e que quando há problemas a empresa é a primeira a enjeitar responsabilidades. A culpa pelo mau serviço que presta ou é do frio, ou do calor, ou do vento, ou de uma cegonha irresponsável que pousa onde não deve e dá cabo da rede.

Depois do temporal que assolou a região do Oeste, que deixou milhares às escuras e ao frio durante o Natal, ontem fomos de novo confrontados, à hora do jantar, invariavelmente, com as queixas, justíssimas, dos consumidores do Prior Velho (Lisboa), sendo certo que tanto quanto se sabe por aqueles lados não houve nenhum furacão.

Eu até posso aceitar como explicação que as falhas na região do Oeste tenham origem nas más condições climatéricas, mas custa-me bem mais compreender por que razão a luz falta constantemente em Cascais e as quebras de serviço são rotineiras em Lisboa ou em Faro, incluindo em dias de bom tempo.

Não são poucas as vezes em que no escritório fico sem computador. No Verão dizem-me que é porque o quadro não aguenta os aparelhos de ar condicionado. No Inverno o problema é do frio, porque a EDP não pensou que seria desconfortável trabalhar gelado a uma secretária. E não são poucas as vezes, no final do dia, quando chego a casa e dou com os vídeos e os despertadores a piscarem, com o gelo semi-derretido e os congelados com vestígios de terem iniciado um processo de descongelação à minha revelia. E, pior do que isso, houve uma ocasião em que fiquei com o Arcam Alpha sem dar sinal de vida. A culpa, disseram-me depois da reparação, foi, de novo, de uma quebra de corrente.

Para a EDP tudo isto é normal. Para os portugueses também deve ser. Quem não pode passar sem a EDP e aceita o serviço prestado sem reclamar; quem todos os meses paga sem tugir nem mugir a conta da electricidade, não considera anormal o preço leonino das tarifas e das taxas cobradas, e aceita os aumentos como uma inevitabilidade, também não deve merecer mais nem melhor.

A EDP é, desgraçadamente, a imagem deste país: uma estrutura pesada e altamente burocratizada que está sempre a queixar-se dos investimentos que faz, paga por dez milhões e que derrete muitos outros em publicidade e marketing, enquanto meia dúzia se vai governando com os resultados e os dividendos, sem grandes trabalhos nem complicações de maior, mas que é incapaz de prestar um serviço à altura da cultura empresarial que promove e da imagem que quer dar de si.


65 comentários

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De ariel a 29.12.2009 às 12:53

Sérgio, falta acrescentar aí Oeiras como uma das localidades onde a qualidade de serviço da EDP se tem vindo a degradar a olhos vistos. Uma semana antes do tufão do Oeste de 20 para 21 de Dezembro, uma parte do Quinta do Marquês em Oeiras esteve sem luz desde as 22H30 de domingo até pelo menos às 10H00 da manhã de 2ª feira. Não sei a que horas regressou luz, não estava em casa, mas sei que a meio da tarde houve outra quebra. Na noite de Natal fomos novamente presenteados com uma quebra, mais curta, mas aí nem tive coragem de me lamentar em vista da desgraça que assolava a região do Oeste.
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De José António Abreu a 29.12.2009 às 15:47

De acordo. Eu também entendo que, em algumas zonas, este caso possa ser atribuído a "actos da natureza", para além de qualquer possibilidade razoável de controlo, mas a EDP (como outras empresas; veja-se como a Brisa levou o caso dos acidentes causados por animais nas auto-estradas até ao Tribunal Constitucional) mostra frequentemente o seu desprezo pelos mais elementares princípios de justiça. Há empresas em sectores concorrenciais que também não são bons exemplos mas, nos sectores sem concorrência, não é verdadeiramente de esperar outra coisa.
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De Bic Laranja a 29.12.2009 às 17:04

Todo o primeiro parágrafo (leia lá bem) é só treta. Todo o discurso colhido da E.D.P. é uma intrujice pegada (ora leia lá mais uma vez).
A E.D.P. com esta converseta não é espelho de coisa nenhuma senão duma civilização de banha da cobra. - Produzir bem-estar? Promover o optimismo? - Ora!... Aquilo é uma sociedade comercial; no pacto social só pode estar que a missão daquela empresa é produzir e vender electricidade. Com lucro, como compete às sociedades comerciais.
Cumpts.
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De Pedro Correia a 30.12.2009 às 01:07

Muito bem.
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De jonasnuts a 30.12.2009 às 02:11

Este post está em destaque na Homepage do SAPO.
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De João a 30.12.2009 às 08:49

O EDP não tem clientes, o mesmo com PT, só vítimas !!
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De Luis Couto a 30.12.2009 às 09:13

Bom dia,
A EDP, como já aqui foi dito, vive do monopolio da electricidade e dos milhões de euros que esbanja em publicidade (imagem). Como ficou provado não tem meios humanos nem equipamentos para fazer face a qualquer situação de catástrofe. A EDP só gere e ganha milhões, como o Dr. Mexia. A EDP explora os submissos subempreiteiros que a qualquer momento abrem falência. São estes que vão mantendo a rede eléctrica a funcionar.
Técnicamente não percebi como é que os postes só aguentam ventos de 110 Km/h!! Alguém consegue explicar isto??
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De Anónimo a 30.12.2009 às 09:43

Gostava de ver estes que tanto reclamam pela incapacidade de resposta por parte da EDP no restabelecimento da energia aos seus clientes que estivessem no terreno como os profissionais estiveram e deram tudo por tudo para resolver o problema.
Este país é um país de quem muito reclama e nada diz de concreto.
E Agora ! Quem Vai pagar os estragos vamos ser nos todos, os contribuintes. A Começar pelos produtos hórticolas , pagas e não bufas .... tenham calma pois ninguém tem mão na mãe natureza....
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De Sérgio de Almeida Correia a 30.12.2009 às 10:43

O problema não foi da resposta. O problema é de gestão, de intervenção e de cultura empresarial. A publicidade não resolve os problemas e só boa vontade não chega.
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De Luis Couto a 30.12.2009 às 11:49

Desculpe, mas não deve ter conhecimento que são poucos, quase nenhuns, os funcionários (electricistas) da EDP que estiveram no terreno. A EDP não tem recursos humanos nem subempreiteiros em Lisboa com capacidade técnica.Não fazem manutenção preventiva nem investimentos na reformulação da rede. Onde param os muitos Grupos Geradores que a EDP adequiriu??!! A EDP nem 1 camião com grua tem.!!! Sim é verdade. Neste momento a EDP só responde a reclamações de clientes. Por sí próprios NÃO têm a iniciativa de melhorar a rede. É o deixa andar.... e até têm tido sorte.... até o dia em que acontecem estes casos... enfim
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De dutilleul a 31.12.2009 às 20:01

Não, a EDP não tem electricistas, como diz. Tem muitos, muitos, muitos “engenheiros”, tem o Xô Mexia, todos primos uns dos outros e com cartão.
A EDP é uma metástase do regime.
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De eriksan a 30.12.2009 às 10:09

Lamentável. Como há tanta ignorancia neste país e se emitem opiniões sem fundamento algum. Alguem se informou minimamente do que é a EDP e da sua actividade no país e no estrangeiro e da riqueza que cria para todos? Certamente que não é isso que acontece com que escreve, lá no seu escritório em Cascais ou assim, longe da realidade.
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De Sérgio de Almeida Correia a 30.12.2009 às 10:48

Ainda estou para ver essa "riqueza que cria para todos".
Talvez fosse de primeiro consolidar as redes e o serviço que presta em Portugal antes de começar a viajar em executiva para o Brasil e a apregoar a "excelência" das suas performances. É que, como agora se viu, quando chamada ao terreno para restabelecer o serviço até conseguiu dar cabo dos electrodomésticos que não ficaram avariados com o temporal. Notável.
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De dutilleul a 31.12.2009 às 20:03

Mais um "engenheiro" do regime que me anda a "enriquecer" a vida!
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De David a 30.12.2009 às 10:49

Subscrevo e assino este conteúdo na integralidade, pois a EDP apenas tem uma missão: sugar o dinheiro dos clientes mediante uma facturação duvidosa e escandalosa, remetendo qualquer missão de serviço público ou relação comercial com a clientela para a utopia. Acrescento ainda que, no interior centro do país, as falhas de energia não relacionadas com as condições meteorológicas são uma constante, como se da normalidade se tratasse. Mas por cá, todo o funcionário dessa empresa tem um veículo de serviço para, no horário normal de trabalho se deslocar a visitas quotidianas a familiares e amigos fora da sua área de trabalho, e nós pagamos...
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De C. Costa a 30.12.2009 às 11:57

Toda a empresa quando é criada, é com a finalidade de ser lucrativa. Só os lucros, podem tornar uma empresa melhor. Há aqui pessoas indignadas com coisas que no entanto e porventura até fazem o mesmo. Utilizam o telefone da empresa, do carro, das fotocópias etc., etc.
Haverá alguma empresa no mundo preparada para uma coisa destas? Não sejam mauzinhos...assim não vamos a lado nenhum!
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De David a 30.12.2009 às 14:12

A utilização de carros e telefones de empresa é normal quando, se trate de uma empresa privada, com accionistas que não o Estado Português, e cuja missão não seja a prestação de um serviço público, de abastecimento de um bem indispensável e básico, A TODA A POPULAÇÃO. Ora a EDP é uma empresa de capitais mistos, com a finalidade suposta de prestar um serviço público essencial, à custa de todos os nós.
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De aaaa a 30.12.2009 às 18:22

EDP uma empresa de capitais mistos?.
è uma empresa privada (menos de 10 % do estado )com a capacidade de intervir na nomeação das grandes decisões, não na gestão normal.
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De 109568025 a 30.12.2009 às 12:33

vai chamar pai aoutro ó morcão
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De anonimo a 30.12.2009 às 14:23

- É tudo uma ditruição para o quatidiano do contribuinte, com tanta ...!
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De Nunomarques a 30.12.2009 às 14:26

Sim senhor, falam muito bem, realmente façam uma visita outros paises que dizem ser mais desenvolvidos do que o nosso e tomaram conxiencia que se calhar a nossa rede mt e at é das melhores em todo o mundo, a edp como qualquer outra empresa não tem contractos com bruxas nem o poder da videncia, falo assim porque tive um natal debaixo da chuva e em cima dos postes, sria muito mais facil repor a electcidade pelo chão com cabos 1.5 cmo alguns engenheiros de bancada aqui falam e também falavam no terreno, mas lembrem-se que a electrcidade é um bem essencial mas perigoso...e agora pergunto aos sr engenheiros o que podemos fazer para evitar que os ventos nao deitem os postes abaixo???? Para criticar é preciso saber falar, morei anos no canada, e aí sim é uma miséria....
E já agora quem aumenta a tarifa da Edp é o estado mais concretamente o regulador, e não a Edp. Sou um mero trabalhador nem ganho nada a defender a Edp, só axo injusto perante as situaçoes extremas, haver um esforço humano para as situações serem resolvidas, e o povinho tuga adora fazer criticas e ainda por cima aproveitarem-se a desgraça alheia, sim porque quem quer as indemnizaçoes são indeviduous com o fundo de desemprego a acabar, eu foi um dos lesados a ficar sem luz, meus amigos antigamente eram umas velas e nimguem e queixava, se a edp pagar indemnizaçoes por terem ido os postes abaixo com o vento, os artistas que gostam de viver a conta dos outros vao fazer questão de deitar os postes abaixo somente para indemnizações... mais uma vez relembro que o povo tuga tem a memoria curta, deem valo ao que teem, devem dar criticas mas constrctivas. Estamos a falar nma situação isolada e num caso extremo de mau tempo de MAU TEMPO... sim o santo antónio nao é cliente da Edp..Bom ano novo para voçes, espero que seja melhor que o meu natal
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De dutilleul a 31.12.2009 às 20:14

Está bem, nem todos são “engenheiros”. O Sr. ao menos é electricista
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De mjlb a 30.12.2009 às 19:47

Caríssimos, o artigo tem, em muitas coisas, nomeadamente no que diz respeito a nenhumas responsabilidades, a ver com uma situação que se passou comigo do qual passo a descrever: Após o Natal a EDP foi a minha casa cortar o serviço porque não tinha pago o mês de Novembro. Fiquei estupefacto visto que, até ao presente momento, não tinha recebido factura alguma. Fui à loja da EDP e, por absurdo que pareça, o funcionário diz-me que a EDP enviou de facto as facturas para a morada indicada, ou seja, um condomínio do lote 39 no outro extremo da cidade onde vivo, o que, por motivos óbvios, não recebi correspondência alguma da EDP. Passando a frente, o funcionário diz-me que tenho que pagar a divida referente à factura, até aqui tudo bem, e que tenho ainda que pagar a taxa de religação no valor de 25€ e que a dita religação se iria proceder dentro de 24h. Caríssimos, após a EDP constatar que houve erro na morada (sabe-se lá onde o foram buscar) além de ter de pagar a religação ainda tenho que esperar 24h por um erro estúpido da EDP? De facto, caro Sérgio Almeida, a EDP tem a grande “vantagem de ter poucas ou nenhumas responsabilidades tal como o Estado ignora os seus contribuintes, a EDP despreza os seus consumidores nos momentos de aflição.
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De dutilleul a 31.12.2009 às 20:06

E no litoral centro também. E no Minho, no Alentejo, ...

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