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Delito de Opinião

Silêncio, mata-se

Pedro Correia, 29.12.09

 

O título, infelizmente, não podia ter sido mais bem escolhido. Silêncio, mata-se. Foi desta maneira que a mais prestigiada organização internacional de jornalistas, Repórteres sem Fronteiras, salientou a dramática situação que se vive no Irão, onde nos últimos dois dias foram mortas pelo menos oito pessoas e 300 acabaram encarceradas - incluindo destacados membros da oposição, jornalistas e activistas de direitos humanos. Prisão e censura são dois termos de grande actualidade em Teerão nos dias que correm: "A violência das forças da ordem tem vindo a ser acompanhada de uma nova vaga de ciberataques" que tolhe a actividade dos correspondentes estrangeiros e a própria comunicação dos iranianos através da Internet. Na sua página na Rede, os RSF mencionam casos concretos. Emadoldin Baghi, jornalista e figura emblemática da defesa dos direitos do homem no Irão e fervoroso militante contra a pena de morte, "detido no seu domicílio em Teerão, a 28 de Dezembro, por indivíduos trajando à civil e levado para local desconhecido". Alireza Behshtipour Shirazi, director do sítio oficial do principal candidato da oposição nas presidenciais de 12 de Junho, Mir Hussein Moussavi, "detido no seu domicílio em Teerão e levado para local desconhecido". Shiva Nazar Ahari, conhecida bloguista e activista dos direitos humanos, "encarcerada desde 20 de Dezembro na secção 209 da prisão de Evin".

Este é o Irão de Ahmadinejad, recentemente recebido no Palácio de Miraflores, em Caracas, por um Hugo Chávez em êxtase. "Exemplo de firmeza e constância pela liberdade de seu povo, pela grandeza da pátria persa, a pátria iraniana", chamou-lhe o Presidente venezuelano, um dos raros dirigentes internacionais capazes de dizer frases destas sem corar de vergonha. Este é um regime que chama aos membros da oposição "agitadores ao serviço de potências estrangeiras", com eco imediato no deslumbrado Avante!, porventura vislumbrando algum resquício de comunismo na ditadura xiita de Teerão. Salazar dizia o mesmo dos opositores - alguns dos quais comunistas. Mas nem isso confere hoje algum decoro ao jornal dos mais ortodoxos membros do PCP, cego e surdo à repressão quando se pratica nos países 'amigos' - por acaso alguns dos menos recomendáveis do planeta.

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