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Jingle Bells (12)

por Leonor Barros, em 23.12.09
É velho, é gordo, usa sempre a mesma roupa, só trabalha dois ou três dias por ano, nada que abone em favor dele, nos tempos que correm há que trabalhar muito, estar muito ocupado e cumprir tarefas múltiplas com afinco, velocidade e stresse, muito stresse, tem barba, não apara ou retoca as sobrancelhas e, ainda por cima, como se as características citadas não fossem o suficiente, é míope. Tem o péssimo hábito de andar permanentemente de barrete, igual se em casa ou na rua, aparentemente não se coíbe de coisa alguma entre estranhos, usa botas altas, o que, embora seja tendência corrente entre o público feminino seguidor dos ditames da moda, não torna o velho gordo a mais elegante das criaturas, alguém que o leve a um fashion stylist, não se lhe conhece outra roupa e desconhecem-se-lhe companhias, femininas ou masculinas. Passa a vida rodeado de animais, razão pela qual, muito provavelmente, é parco em palavras e profere ocasionalmente sons monocórdicos e repetitivos, aos três de cada vez. Pode ser encontrado com mais frequência a partir de Novembro, embora já tenha sido avistado em Outubro, em Dezembro faz aparições frequentes em centros comerciais, na televisão, em revistas, folhetos publicitários, podemos encontrá-lo em esforços hercúleos pendurado em varandas, parapeitos, paredes de prédios e chaminés, mais uma vez, uma figura nada dignificante e pouco abonatória, teme-se acusação de home jacking, serve amiúde como arma de arremesso, uma ameaça constante à vida infantil, nos dias que correm é crime ameaçar crianças, há que lhes deixar fazer tudo o que lhes passa pela cabeça, e continua tranquilo cumprindo as tarefas costumeiras, ano após ano. O velho tem os dias contados, porém. O velho é velho, nos dias que correm ninguém é velho. O pobre velho ver-se-á em breve num desses programas televisivos que operam verdadeiros milagres e declaram guerra feroz às imperfeições. Veremos o velho de boca aberta, entrapado com um turbante e, se tudo correr como esperado, teremos um velho que já não é velho, igual a todos os outros velhos que já o foram, e com uma lista invejável de plastias: abdominoplastia, rinoplastia, o nariz rotundo é muito pouco elegante, uma blefaroplastia para um olhar mais jovem. O velho é gordo. Nestes dias, gordura é um pecado quase tão mau e hediondo como a velhice, dois pontos negativos imperdoáveis, velho e gordo. O velho será submetido a um intenso programa de cardio-fitness com um regime alimentar equilibrado com as percentagens sensatas de hidratos de carbono, fibras e proteínas. O velho e gordo tem o péssimo hábito de ser transportado por renas, nos dias correntes, ninguém é transportado por renas, sob pena de ser processado pelas organizações de protecção dos animais e o velho adora compras, um comprador compulsivo sem comparação, outra falta reprovável particularmente em tempos de crise. O velho além de velho, gordo e comprador compulsivo tem outra característica inadmissível: a generosidade. Com tudo o resto pode viver-se. A generosidade não. O velho tem os dias contados.


16 comentários

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De Lúcia a 23.12.2009 às 11:03

Podem tirar-nos tudo, mas não nos tirem o Pai Natal!

Aproveito para desejar a todos os que fazem parte desta magnífica equipa do DO um excelente Natal, cheio de tranquilidade (o que é uma habilidade nos dias que correm), coisas boas e... magia!:)
Um beijinho a todos
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De Leonor Barros a 23.12.2009 às 14:31

Muito obrigada, Lúcia. Uma Feliz natal também.
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De maria do mar a 23.12.2009 às 11:07

muito, muito, muito bom. Grande post. Genial. Feliz Natal na companhia de miúdos, menino Jesus, filhoses e aquecedores.
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De Leonor Barros a 23.12.2009 às 14:32

Muito obrigada, igualmente
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De Ana Vidal a 23.12.2009 às 12:43

Um extreme make-over ao Pai Natal? Só nos faltava mesmo essa... mas tens razão, o velho não pode ser mais politicamente incorrecto, nos dias que correm. Benza-o Deus.

Grande texto, Leonor.
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De Leonor Barros a 23.12.2009 às 14:33

É só o que falta, Ana. Passam a vida a dizer-nos como ser tão asceticamente feliz que por este andar nem o Pai Natal escapa.
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De mike a 23.12.2009 às 13:54

eh eh eh eh... belíssimo texto, Leonor. :D
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De Leonor Barros a 23.12.2009 às 14:34

Obrigada, Mike.
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De Maria a 23.12.2009 às 14:50

Leonor, estou lavada em lágrimas, está mesmo muito acabado o velho e eu para lá caminho...;))
Belíssimo texto, Leonor, obrigada .
Tenha um bom Natal - à sua maneira;))
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De Leonor Barros a 23.12.2009 às 23:13

Obrigada, será certamente, mas olhe que há bacalhau e sonhos feitos por mim, apesar da minha refilice.
Um beijinho e bom Natal
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De Pitucha a 23.12.2009 às 15:03

Boas Festas para ti e para a tua família.
Beijos
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De Leonor Barros a 23.12.2009 às 23:14

Beijos, Pitucha. Obrigada e um Bom Natal para ti também.
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De Teresa Ribeiro a 23.12.2009 às 23:11

Excelente :)
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De mdsol a 24.12.2009 às 00:07

Mais um grande texto Leonor. Abençoada a hora em que começou esta rubrica.

Um Natal quentinho, Leonor

:))
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De Leonor Barros a 24.12.2009 às 14:36

Já está no fim. Será amanhã o último post. Beijinhos e obrigada pelo carinho :)

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