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Lenine, herdeiro de Danton

por Pedro Correia, em 16.12.09

 

Um dos mais estimulantes ensaios políticos surgidos este ano em Portugal, assinado por Rui Bebiano, tem como foco central a Revolução de Outubro e o seu protagonista máximo, Vladimir Lenine. É um acontecimento histórico que ainda hoje gera os maiores equívocos e as mais delirantes interpretações. O Avante!, por ocasião do 90º aniversário deste acto fundador do totalitarismo contemporâneo, em Novembro de 2007, considerava-o um "marco maior na caminhada humana pela emancipação".

A visão de Rui Bebiano, professor de História Contemporânea na Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, não podia ser mais antagónica. Neste seu livro, Outubro, o autor desmistifica a figura de Lenine, que "nas várias histórias do comunismo e dos ideais socialistas surge na maioria das vezes tratada de forma bastante benévola ou mitificada". Menciona, aliás, inúmeros intelectuais que visitaram Moscovo nas décadas de 20 e 30 e só lá viram a "sociedade do futuro", caucionando com a sua palavra um dos regimes mais sanguinários de todos os tempos. Intelectuais como Bertrand Russell, Henri Barbusse, George Bernard Shaw, Romain Rolland, H. G. Welles e Stefan Zweig - todos seguiram as pisadas do jornalista norte-americano John Reed com a sua obra de megapropaganda Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, que Lenine gostaria de ter visto publicada "em milhões de cópias em todas as línguas". Não custa perceber porquê. Outro companheiro de estrada do totalitarismo foi o influente crítico norte-americano Edmund Wilson. "Na União Soviética, senti-me como se estivesse num santuário moral onde a luz nunca pára de brilhar", escreveu ele nesses anos de chumbo do sistema concentracionário soviético.

 

A obra teórica de Lenine já prenunciava o Terror Vermelho instaurado na Rússia em 1918 após a supressão dos liberais, monárquicos, sociais-democratas, socialistas revolucionários e todos quantos podiam travar a insaciável sede de poder do Partido Comunista. No seu livro Que Fazer? (1902) sublinhou a necessidade de construção de uma "vanguarda revolucionária" para o derrube da "sociedade burguesa". Em O Estado e a Revolução (1917) antecipava a tomada violenta do poder para a instauração da ditadura revolucionária, consumada meses depois, com o assalto ao Palácio de Inverno, que afinal "foi um putsch militar e não uma insurreição das massas".

Lenine, como recorda Rui Bebiano (também autor do blogue A Terceira Noite), proclamava que "não existe moral na política, apenas conveniência". Não admira, assim, que tenha sido o autor moral da "organização sistemática da violência revolucionária como instrumento de transformação e ferramenta do poder", da "repressão sem contemplações de qualquer modalidade de dissidência" e do "exercício sistemático da brutalidade contra populações inteiras". No auge do Terror Vermelho enviava telegramas aos seus sequazes, incentivando-os a meter "balas nas cabeças" dos opositores políticos. Só entre 1918 e 1920, segundo os registos históricos, houve na URSS 12.733 execuções. Como acentuou John Gray, no seu livro A Morte da Utopia, "no fim de 1921, cerca de 80 por cento das pessoas que estavam presas nos campos de concentração [soviéticos] eram camponeses ou operários".

 

Lenine, que era um homem inegavelmente culto, apreciava música clássica. Um dia, ao ouvir pela enésima vez a Apassionata, confessou a Gorki: "Se continuar a escutá-la, não acabo a revolução." Trocou Beethoven pelas balas demolidoras contra a "democracia burguesa" que tanto odiava. A seu ver, como salienta Rui Bebiano, "toda a atitude reformista  se tornava inútil e abominável, salvo quando servisse como instrumento da mudança integral".

Era, no fundo, um legítimo herdeiro de Danton, que na noite anterior à sua morte dizia: "O verbo guilhotinar, notai, não se pode escrever no passado. Não se diz: 'Fui guilhotinado'."

O futuro que ambos propunham, Danton e Lenine, era esse mesmo: o da guilhotina. Surpreende haver ainda hoje quem os celebre de forma acrítica como libertadores da espécie humana.

 

Outubro, de Rui Bebiano (Angelus Novus, 2009). 102 páginas.


2 comentários

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De João Carvalho a 17.12.2009 às 00:57

Tenho reparado que gira por aí (e por aqui) uma moda que dá em pugnar por uma espécie de "contraditório" que chega a ser patético. Se a gente disser que a rainha de Inglaterra representa uma casa real sem paralelo ou que Charlot representa o topo da comédia de cinema, saltam logo a exigir uma apreciação sobre a rainha da Holanda ou o Fidel de Cuba, ou uma análise sobre o Louis de Funés ou o Costinha.

Está a tornar-se uma moda cansativa. Parece que deixámos de falar de um tema apenas por nos apetecer ou acharmos oportuno falar desse tema. O nosso atento comentador Paulo Quintela é um homem da moda.
Sem imagem de perfil

De Paulo Quintela a 17.12.2009 às 10:13

Serei homem da moda na mesma medida em que o atento João Carvalho será homem de apetites, sendo certo que nem Hitler nem a inquisição estão na moda.

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