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Os fins não justificam os meios

por Pedro Correia, em 13.12.09

 

Neste tempo onde as modas florescem e falecem a uma velocidade estonteante, poucos escritores assistem a uma glória póstuma semelhante à de Albert Camus. Quando faltam poucas semanas para ser assinalado o 50º aniversário da sua trágica morte, num brutal acidente rodoviário, anunciam-se novos lançamentos editoriais em Paris que se destinam a iluminar o legado do autor d’ A Peste: um vasto Dictionnaire sobre a sua obra, com 992 páginas; Les Derniers Jours de la Vie d’ Albert Camus, de José Lenzini, com a chancela da editora Actes Sud; e a biografia elaborada pela sua filha Catherine, para a editora Lafon, que promete imagens e documentos inéditos, sob o título Solitaire e Solidarie. Título perfeito que vem juntar-se a tantos outros dedicados ao vencedor do Nobel da Literatura de 1957, de quem Jean-Paul Sartre – que foi seu amigo antes do tão propalado corte de relações entre ambos, em 1952, por divergências políticas – chegou a censurar por escrever “demasiado bem”.
 
Militante comunista em 1934, na sua Argélia natal, de pai operário e mãe analfabeta, Camus rompeu com o marxismo ao tomar conhecimento dos crimes de Estaline. Ao contrário de Sartre, e remando contra os postulados de Marx, rejeitou o conceito de “violência progressista” insurgindo-se contra os totalitarismos de todos os matizes e o terrorismo como forma de acção política com o mesmo vigor com que, enquanto jovem jornalista, se indignara contra a exploração colonial nas páginas do Alger Républicain com uma série de reportagens na Cabília que deixaram rasto. Ficou célebre a sua declaração proferida em 1957 na Suécia, quando ali se deslocou para receber o Nobel: “Neste momento, lançam-se bombas sobre os eléctricos em Argel. A minha mãe poderá ir num desses eléctricos. Se isso é a justiça, prefiro a minha mãe.” As bombas da Frente de Libertação Nacional, que se opunha ao domínio colonial francês, eram a seu ver tão injustificadas como os tiros mortais contra os dispersos soldados alemães que restavam em Paris após a Libertação, em Agosto de 1944. “Uma vez mais a Justiça tem de ser comprada com o sangue dos homens”, protestou num célebre editorial do Combat. Eis um tema recorrente na sua obra literária e jornalística: os fins não justificam os meios.
 
A memória deste homem que desconfiava de todos os poderes é hoje cortejada pelo poder político: o presidente Nicolas Sarkozy anunciou a intenção de transferir os seus restos mortais da aldeia de Loumarin, na Provença, para o Panteão – honra apenas concedida, na última década e meia, a André Malraux (1996) e Alexandre Dumas (2002). Proclama-se admirador da sua obra, a tal ponto que quis conhecer a praia de Tipaza, cenário de uma cena capital d'O Estrangeiro – um livro que não cessa de ser campeão de vendas – durante uma recente visita oficial à Argélia. E foi ao ponto de sublinhar: “Graças a Albert Camus, sinto a nostalgia, cada vez que venho à Argélia, de não ter nascido no norte de África.” Palavras que poderiam ser subscritas por milhares de admiradores do escritor.
Camus está na moda - o que não deixa de ser irónico, pois ele definia o intelectual como "um homem que sabe resistir à moda dos tempos". A explicação para isto pode ser encontrada no inesquecível obituário que Sartre lhe dedicou no France-Observateur, a 7 de Janeiro de 1960: "O seu humanismo teimoso, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate incerto contra os acontecimentos maciços e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela espontaneidade das suas recusas, reafirmava, no coração da nossa época, contra os maquiavelismos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do facto moral."

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21 comentários

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De maloud a 13.12.2009 às 18:39

Parece que o filho Jean não está disposto a alimentar as vaidadezinhas sarkozianas e se opõe à entrada do pai no Panthéon.
Por mim, que o li de certeza antes do petit Nicolas o ter descoberto, ficaria sempre no Loumarin.
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:04

Os filhos, os gémeos Jean e Catherine, opõem-se à deslocação do túmulo do pai para o Panteão. De facto, parece bem mais adequado à figura de Camus o facto de estar enterrado em Loumarin, a propriedade rural que comprou graças ao dinheiro do Nobel e onde viveu feliz no último ano de vida.
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De António P. a 13.12.2009 às 18:58

Boa tarde Pedro,
Convém relembrar Camus num momento em que se aproxima o 50º aniversário da sua morte.
Ainda bem que o Estrangeiro é um campeão de vendas. Possivelmente o romance que mais me marcou quando o li na adolescência. A ele tenho voltado várias vezes.
Parabéns pelo post.
Um abraço
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:06

'O Estrangeiro' também é um dos livros da minha vida - e a melhor obra de ficção de Camus. Continua a ser um fenómeno de vendas, até no mundo anglo-saxónico, António. Hei-de voltar ao tema: a trágica morte de Camus ocorreu a 4 de Janeiro de 1960. Faltam três semanas para a efeméride ser assinalada.
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De Nicolina Cabrita a 13.12.2009 às 19:13

A bondade dos fins impõe o uso de meios igualmente bons para os atingir, e por isso a tortura, por exemplo, não é um meio legítimo. Aprendi isto nas aulas do Prof. Cavaleiro Ferreira, aquelas que começavam às oito da manhã, e foi por essa altura que li Camus. E aqui estamos nós, 25 anos depois...
Um abraço, Pedro, nesta tarde fria de domingo.
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:08

Obrigado, caríssima colega. O tempo passa mas os valores em que acreditamos permanecem. Os fins não justificam os meios - eis um deles.
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De Ana Cristina Leonardo a 13.12.2009 às 19:21

Não sabia que estava na moda. Mas há modas que são muito bem-vindas. Com sorte, pode ser que fique na moda mais de uma estação
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:10

Acredito que sim, Ana Cristina. Como ficcionista e como ensaísta. O pensamento político de Camus permanece actual, na recusa do totalitarismo, do terrorismo e da chamada 'violência revolucionária', afinal tão cega e tão absurda como qualquer outra.
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De mdsol a 13.12.2009 às 21:42

Camus, o que foi jogador de futebol e preferia sem hesitação o futebol ao teatro?

:))))))
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:11

Jogou futebol e teve mesmo o sonho de ser futebolista profissional, o que não se tornou possível por ter adoecido gravemente com tuberculose.
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De mdsol a 14.12.2009 às 00:14

Yes!

[Estava tão pesarosa por ter feito um comentário tão "a correr" num post tão sério...]

:))))
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:21

Os seus comentários são sempre oportunos, Maria do Sol.
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De d.a.i a 13.12.2009 às 22:24

Parabéns Pedro pelo texto e pela memória do 50º aniversário da sua morte, que se aproxima.
Li e estudei a fundo algumas das suas obras, nomeadamente o "L'Étranger" que li e reli algumas vezes - romance intemporal, que dá ao leitor a sensação, quando se relê, de que algo nos escapou, tornando-se ainda mais interessante esta nova leitura.
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:11

É verdade: sinto o mesmo cada vez que leio esse magnífico romance. Obrigado pelas suas palavras.
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De João Carvalho a 13.12.2009 às 22:32

Justíssimo texto.
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 00:12

Camus sempre foi um dos meus escritores preferidos. Hei-de voltar a falar dele aqui, compadre.
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De Chloé a 14.12.2009 às 04:37

Ora, Pedro Correia, les beaux esprits se rencontrent :-) Camus , o incomparável Camus . Fonte de tantos caminhos.
Foi o meu escritor-sol dos 20 anos (que digo eu, de sempre).
Para além do Estrangeiro, A Peste, etc , foi por causa de Camus que voltei a gostar de ler teatro e li e reli vezes sem conta o Calígula, o Equívoco, Estado de Sítio,..
Como é possível crescer sem ler tudo isso?
Deve ser, porque não vejo esta malta a ler disso :-)
(Dou-me agora conta que ele ganhou o Nobel ainda antes de eu nascer, embora pouco :-). Logo, só podia ser, definitivamente, um escritor da minha geração)

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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 10:42

E foi o segundo escritor mais jovem a ganhar o Nobel -logo após Rudyard Kipling. Tinha 43 anos quando o ganhou, Kipling tinha 42 - exactamente meio século antes (foi o primeiro escritor de língua inglesa a recebê-lo).
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De Teresa Ribeiro a 14.12.2009 às 11:10

Também um dos livros da minha adolescência e da minha vida. Excelente texto, parabéns.
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De Pedro Correia a 14.12.2009 às 12:09

Obrigado, Teresa. Sou leitor do Camus também desde a adolescência - A Peste, A Queda, O Exílio e o Reino, O Estrangeiro. É um escritor que nunca me desiludiu - nem no plano estético nem no plano das ideias.

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