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O melhor filme português de sempre

por Pedro Correia, em 11.12.09

No dia do 101º aniversário de Manoel de Oliveira

 

Durante muito tempo, quando fazia a mim próprio a pergunta sobre qual seria o melhor filme português de sempre, hesitava na resposta.

Podia ser A Canção de Lisboa (1933), extraordinária comédia 'à portuguesa', como muito mais tarde se convencionou chamar -, prodígio de escrita cinematográfica, ímpar entre nós, com um trio de actores em estado de graça e uma agilíssima realização do arquitecto Cottinelli Telmo. Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva ainda hoje, tantas décadas depois, provocam gargalhadas no espectador com os seus diálogos saídos da inspiração de Chianca de Garcia e José Gomes Ferreira. É um filme cheio de momentos antológicos, como o da ida do falso veterinário Vasquinho ao jardim zoológico e a sua frase "Chapéus há muitos".

Podia ser O Pai Tirano (1941), outro filme único na nossa cinematografia - prova evidente de que o seu realizador, António Lopes Ribeiro, era não só um produtor de rasgo e um divulgador de mérito mas também um cineasta capaz de assinar um trabalho que transcendeu a sua época. Como Jean Renoir faria muito mais tarde em A Comédia e a Vida, aqui também o cinema e o teatro se enlaçam na banal existência quotidiana, gerando de caminho um singular retrato de um certo Portugal desses anos em que a guerra assolava o mundo. É um filme cheio de segundas intenções, começando pelo próprio título, e também percorrido por momentos antológicos protagonizados por excelentes actores, como Ribeirinho, Teresa Gomes, de novo Vasco Santana e uma fugaz diva do cinema português chamada Leonor Maia que passaria a ser conhecida por Tatão, o nome da sua personagem em O Pai Tirano. Haverá maior enlace entre a comédia e a vida?

 

Mas além destes dois houve sempre outro. Um filme que vi na altura apropriada, ainda criança. Porque é de crianças que trata. E não me lembro de mais nenhum produzido antes dele, em Portugal ou qualquer outra paragem, que soubesse tratar o mundo infantil de forma tão sensível e tão credível. Desde os instantes iniciais, com aquele inesquecivel pré-genérico que culminava no súbito aparecimento de um comboio em grande velocidade e um grito de horror. Falo de Aniki-Bóbó (1942): nada sabia do nome do realizador nem daquelas informações adicionais que fui acumulando sobre esta primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, produzida por Lopes Ribeiro. Mas impressionou-me como nenhuma outra, naquela época, esta história de uns meninos humildes na Ribeira do Porto que poderia servir de metáfora à condição humana. Adorei a personagem da menina Teresinha, aqueles cenários naturais que prenunciavam o fabuloso neo-realismo italiano e aquela pronúncia genuína e autêntica dos actores, nenhum deles profissional excepto Nascimento Fernandes.

(Sublinho o papel do sotaque porque é um pormenor técnico totalmente descurado nos filmes portugueses contemporâneos: hoje todos falam da mesma maneira nas longas-metragens, independentemente do lugar onde nasceram ou onde residem as personagens. Infelizmente a pronúncia do Norte quase desapareceu do cinema nacional.)

 

Pormenor interessante: Oliveira, que seria depois considerado o mais artificial dos nossos cineastas, assinou aqui aquele que seria durante muito tempo um dos filmes portugueses rodados em atmosfera mais real. Um pouco à semelhança de um Picasso, que subverteu as formas depois de mostrar ao mundo que sabia reproduzi-las com mestria clássica.

São poucos os filmes pelos quais nos apaixonamos e que conseguimos admirar em simultâneo. Aniki-Bóbó é um deles. Cada vez que o revejo vou consolidando a mnha convicção de que se trata do melhor filme português de todos os tempos.

Não sou o único a pensar assim: a Sight & Sound, uma das mais prestigiadas publicações sobre cinema à escala mundial, elaborou há uns anos a lista das 500 melhores películas de sempre. Só há uma portuguesa. Qual? Aniki-Bóbó.

 

Texto publicado há um ano no Corta-Fitas

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26 comentários

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De João Carvalho a 11.12.2009 às 15:32

Bela homenagem para uma bela memória da Ribeira do velho Porto.
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 00:03

Obrigado, compadre. Esta é, sem dúvida, uma das minhas melhores memórias cinematográficas.
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De mdsol a 11.12.2009 às 16:10

Um dó li tá
cara de amendoá..

:)))
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De Ana Vidal a 11.12.2009 às 17:23

Não seria a minha escolha para "melhor filme português de sempre", mas foi um filme que me impressionou imenso quando o vi há muitos anos - por essa aproximação à infância real, que ainda me tocava de perto - e voltou a impressionar-me depois, quando voltei a vê-lo com outros olhos. Um excelente filme e um excelente texto a defendê-lo.
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 00:04

Para mim é mesmo o melhor filme português de sempre, Ana. Com os outros dois que menciono forma a grande trilogia da nossa Sétima Arte. Vi-o várias vezes, em diferentes idades, e sempre o vi como se fosse a primeira vez.
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De Ana Vidal a 12.12.2009 às 00:42

Se lhes juntares "O pátio das cantigas" e a coisa passar a tetralogia... concedo.
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 00:48

Ok. Mas junto-lhe também «O Costa do Castelo» e fica uma... pentalogia.
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De Ana Vidal a 12.12.2009 às 01:12

Pronto, ganhaste. E prometo que não te peço para juntar também o "Call Girl" e ficar uma... sexologia?
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De João Carvalho a 12.12.2009 às 01:41

Vejo que se esquecem de um filme fundamental da época: "O Costa d'África". Suponho que ainda não foi recuperado e digitalizado (vá lá saber-se por quê) e, portanto, é dos menos divulgados, mas é genial.
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De Ana Vidal a 12.12.2009 às 01:50

E "O Leão da Estrela", que também era uma delícia?
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 10:56

Esses são muito bons, e 'O Grande Elias' também. Todos com cenas antológicas. Mas 'A Canção de Lisboa' é superior: não há praticamente um momento menos bom neste filme. E logo a seguir O Pai Tirano-O Costa do Castelo-O Pátio das Cantigas, os três rodados com poucos meses de intervalo.
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 10:57

Entre a Soraia Chaves e a Beatriz Costa, naturalmente considero a Soraia bastante mais talentosa.
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De Ana Vidal a 12.12.2009 às 15:10

Claro, claro, não tenho uma dúvida. Ao talento da Beatriz Costa faltava o chicote e o latex...
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 16:04

De facto, faltava-lhe o latex. Mas lata não lhe faltava.
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De Daniel João Santos a 11.12.2009 às 19:15

101 anos, impressionante.
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 00:05

É verdade, impressionante. E vê-lo ainda hoje ao lado de Vasco Santana como actor n' «A Canção de Lisboa», um filme de 1933, é também impressionante.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 11.12.2009 às 22:37

Pedro
Embora esteja longe de ter visto muitos filmes portugueses, sobretudo os mais recentes, inclino-me também para o "Aniki-Bobó".
E concordo com o Pedro, que "o mais artificial dos nossos cineastas", nos mostrou aqui a realidade "com mestria clássica".
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 00:07

Tenho o meu filme português preferido por cada década, Ana. Alguns exemplos:
- anos 30: A Canção de Lisboa
- anos 40: Aniki-Bóbó
- anos 50: Chaimite
- anos 60: Verdes Anos
- anos 70: O Rei das Berlengas
- anos 80: O Lugar do Morto
'Aniki-Bóbó' é, para mim, o melhor de todos.
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De d.a.i a 11.12.2009 às 23:18

Grande filme, embora para mim não tenha sido o melhor filme português.
Contudo, o mais impressionante foi sem dúvida a entrevista que deu, na RTP1, no ano passado, com 100 anos! A resistência física acompanhada de um raciocínio veloz, a capacidade de resposta a um "ping-pong" de perguntas e respostas entre entrevistador e entrevistado... O homem é eterno!!!
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 00:08

É verdade. E o facto de ser o único realizador que vem do cinema mudo ainda em actividade em todo o mundo é algo que nos deve orgulhar.
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De Maria a 11.12.2009 às 23:38

"Aniki-bébé / Aniki-bóbó / Passarinho Tótó / Berimbau, Cavaquinho / Salomão, Sacristão / Tu és Polícia, Tu és Ladrão"*

Parabéns, Pedro, belíssimo texto. Gosto muito desse filme de Manoel de Oliveira e também da curta-metragem com que se estreou, como cineasta, em 1931 – “Douro, Faina Fluvial” – é incrível pensar que esse senhor já filma há mais de 7 décadas...Identifiquei-me com a sua abordagem ao cinema português, apreciei, particularmente, a sua referência à mono pronúncia. Quando a história de um filme justifique, claro.
os diferentes sotaques dão “cor” e “carácter” às personagens, portanto, enriquecem...O problema é quando os actores não se preparam ou não o sabem fazer, como por vezes reparo quando imitam o sotaque micaelense (o meu, pois) resultando numa caricatura...

*Cantilena que as crianças entoam no filme - ”Aniki-Bobó” - baseado no conto de João Rodrigues de Freitas (1908 - 1976) escritor e advogado (amigo de Manoel de Oliveira).
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 00:09

Obrigado, Maria. Se Manoel de Oliveira não tivesse feito mais filme nenhum bastaria este para ter lugar cativo na história do cinema português.
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De Sérgio Ferreira a 12.12.2009 às 21:18

Partilho a mesma opinião do autor, Aniki-Bóbó é também para mim, para mais eu que sou do Porto, o melhor filme Português de sempre e é com manifesta tristeza que informo e apesar de da extensa busca efectuada pelo mercado nacional e internacional, não consegui encontrar este filme à venda pelo que tive que recorrer a uma cópia pirata que encontrei na internet, legendada em italiano(!) para conseguir apresentar este filme do Porto da década de 40 ao meu filho que tem 11 anos. Vergonha.
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De Pedro Correia a 12.12.2009 às 23:53

Acredito no que diz e subscrevo a sua conclusão: é uma vergonha.
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De Miguel a 14.12.2019 às 19:51

Revi-o agora com o meu filho de sete anos. O filme passou o teste com distinção: ele gostou muito.
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De Pedro Correia a 14.12.2019 às 20:06

Gostei muito de saber, Miguel.

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