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Obama, o formidável pacifista

por Pedro Correia, em 09.12.09

 

Apreciei a delicada admoestação de Mário Soares a Barack Obama a propósito do reforço de tropa americana no cenário de guerra do Afeganistão. "Barack Obama viu-se obrigado pela sua própria retórica, dada a distinção que fez entre as duas guerras, a enviar para o Afeganistão mais 30 mil soldados das suas Forças Armadas. Provavelmente, contra a sua vontade e estratégia. Enviou-os com o pretexto de marcar o regresso das tropas dentro de um ano. Em 2011. Foi uma medida que lhe custou muito tomar - não duvido -, mas que representa uma concessão táctica muito impopular, pelo qual irá pagar um alto preço", escreveu Soares na edição de ontem do Diário de Notícias.

Reparem nas atenuantes lançadas pelo ex-Presidente da República nesta suavíssima crítica ao actual inquilino da Casa Branca: Obama "viu-se obrigado" a enviar os soldados, o que sucedeu "contra a sua vontade e estratégia", e certamente "lhe custou muito tomar" tal decisão. Quase como se nem fosse ele o titular do poder executivo norte-americano.

Aliás, em nome da mais elementar coerência, nem poderia ser de outra forma. "Obama é, fundamentalmente, um humanista e um pacifista, na linha do melhor pioneirismo americano, de Lincoln e Jefferson a Wilson, de Franklin Roosevelt, a Kennedy, Carter (também ele laureado com o Prémio Nobel) e a Clinton. É alguém que quer a paz, o desarmamento (sem excluir o nuclear) e a justiça social no seu País", escrevera o mesmíssimo Soares, também no DN, a 20 de Outubro, pouco antes de ser anunciado o reforço do contingente militar americano no Afeganistão. Como desdizer agora o que se proclamou com tanta convicção há mês e meio ainda sem alguns irrelevantes factos se intrometerem entre o doce panegírico e a dura realidade?

Imaginem, por momentos, o que sairia da pena vigilante e contundente de Mário Soares se o presidente dos Estados Unidos ainda se chamasse Bush ou se o envio de magalas para Cabul se devesse ao dedo do pernicioso Dick Cheney. Nada que se parecesse com a meiga reprimenda a Obama: pelo contrário, seria algo digno de fazer estremecer paredes e calçadas.

É nestas alturas que sinto ainda mais apreço pelo nosso ex-presidente. Quase tanto como a admiração que nutro pela arguta Academia de Oslo, que se prepara para entregar o Nobel a esse formidável pacifista perante quem o mundo se ajoelha em expressivas manifestações de júbilo. Hossana, Obama: nunca como hoje estivemos tão perto de alcançar a paz perpétua.


14 comentários

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De João Pereira a 09.12.2009 às 11:04

Este nobel da paz até que tem a sua lógica...

Ora pensemos, o antigo presidente dos EUA em tudo o que mexia era topas e bombas para cima. Agora que mudou, vamos a ver se o novo presidente com o prémio pensa que agora está sobre pessao para ver se pára um bocadinho com a "guerra"...
O que é que se sucede... ele manda o reforço para o afeganistão.
Até que podemos tirar outras conclusões disto. "Vamos acabar com o armamento cá e no afeganistão para depois não termos nenhum, logo, não fazemos guerra" (mas que observação estupida agora...)

Falando em guerra. Ela que até é precisa. Portugal nunca está em guerra e até pode ser esse o motivo porque não andamos a avançar. Ora, pensem comigo, se houvesse guerra, era logo uns 10 mil que morriam. Com a guerra há destruição. Então, 10 mil mortos e destruição, o que é que se pode tirar disto. aumentam os postos de emprego. Tanto em construção civil, como medicina legal e coveiros. Espetáculo, não?

VAMOS À GUERRA! Até temos uma frota de submarinos e tudo!! :D

Aquele abraço, João Pereira
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De João Carvalho a 09.12.2009 às 13:26

«Aquele abraço, João Pereira»? Pode deixar: se eu o vir, transmito-o.
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De Pedro Correia a 09.12.2009 às 21:36

Você começa guerras com abraços, João Pereira? Isso soa-me a armistício.
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De CPrice a 09.12.2009 às 11:14

"escorre" diplomacia dessas palavras.

Hoje ouvi nas noticias algo que ainda não confirmei mas que me desiludiu: que os enviados do Presidente haviam assegurado em Copenhagen que os EUA não iriam ceder às pressões que aconselham a redução na emissão de 20% da poluição mundial.
Apetece-me perguntar pressões de quem? do futuro que não estamos a preparar para as gerações vindouras?

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De Pedro Correia a 09.12.2009 às 21:38

Obama até queria, Catarina. Mas 'viu-se obrigado' a ceder a pressões, 'contra a sua vontade e estratégia', decisão que certamente 'lhe custa muito a tomar'. Mário Soares 'dixit'.
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De Luís Lavoura a 09.12.2009 às 11:31

Gostei deste post. Deveras.
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De l.rodrigues a 09.12.2009 às 11:47

A leitura que faço deste assunto é que Obama se comprometeu com o Afeganistão durante a campanha, considerando essa a "boa guerra" pós 9/11.

Os desenvolvimentos no país, nomeadamente o fracasso do processo eleitoral afegão, vieram demonstrar que a "boa guerra" era um atoleiro tão sem sentido como o Iraque, mas há que salvar a face e dar às chefias militares algum sentido de missão, nomeadamente objectivos concretos e não as "longas guerras" de Cheney e Bush.
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De Pedro Correia a 09.12.2009 às 21:39

A 'boa guerra', de facto, é um atoleiro.
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De Ana Vidal a 10.12.2009 às 01:33

Faço a mesmíssima leitura, L. Rodrigues. E era inevitável que, mais dia menos dia, o estado de graça em que Obama tem vivido começasse a ceder a vez a uma realidade a que nem ele pode ficar imune. Continuo a ter esperança nele e no seu perfil humanista (concordo com Mário Soares nessa avaliação), mas não me espanta que comecem a aparecer as facturas de tantos e tão poderosos apoios de campanha. Toca a todos...
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De sara a 09.12.2009 às 15:49

já agora podia dizer como é que se vai deixar o paquistão e o iraq depois de bush ' desfaz estes paises.
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De Pedro Correia a 09.12.2009 às 16:10

É fácil. Ganha-se um 'Nobel da Paz', o doutor Soares elogia e a partir daí está tudo resolvido.
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De Rui Alberto a 09.12.2009 às 19:02

Não era pior que o nosso querido ex-presidente comentasse também a recusa do presidente Obama em assinar a moratória às minas anti-pessoais. O que para nobel da paz diz muito
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De Pedro Correia a 09.12.2009 às 20:30

E já agora podia comentar também o facto de a prisão militar americana em Guantánamo continuar com 'hóspedes'.

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