Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Errar nem sempre é humano

por Ana Vidal, em 02.12.09

 

Por estes dias, o assunto número um em Espanha é o terrível erro que condenou injustamente um homem inocente a uma vida manchada pela nódoa indelével dos piores crimes que alguém possa imaginar: violação, tortura e assassinato de uma criança. Sem margem para dúvidas, médicos e juízes recuaram nas conclusões precipitadas e deram o dito por não dito. Mas o mal estava feito. Diego, de 24 anos, foi linchado em praça pública por um crime que não cometeu, e nunca mais se livrará deste estigma. Por mais que se repitam os pedidos de desculpa, por maior que seja a indemnização que o seu advogado lhe consiga, subsistirá para sempre a dúvida nos olhos de um qualquer vizinho que tenha crianças em casa e saiba da história. É irreparável o mal que lhe fizeram, porque os seus direitos fundamentais foram liminarmente arrasados em nome do "sagrado" direito à informação. O jornal ABC chegou a fazer uma primeira página inteiramente ocupada com a fotografia do "monstro", cuja legenda era «O olhar do assassino de uma criança de três anos». No mínimo, deveria agora repetir a capa com a legenda «O olhar de um inocente injustiçado", mas não o faz porque isso não vende jornais. Nem sequer o El País, habitualmente mais discreto e prudente, resistiu à condenação prévia. E o que dizer das televisões, expondo à exaustão as imagens da detenção e alimentando a fúria e o ódio do público? Que ao menos este triste exemplo sirva para se repensar o poder irresponsável e voraz da comunicação social. Se errar é humano, há que limitar a dimensão e os efeitos do erro. Esta é uma das razões (não a única, nem sequer a mais importante) pelas quais eu não admito - em nenhuma circunstância, para nenhum caso - a existência da pena de morte.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


54 comentários

Sem imagem de perfil

De 100anos a 02.12.2009 às 05:36

Errare burricum est.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:36

Neste caso, é mais desumano do que outra coisa.
Sem imagem de perfil

De mdsol a 02.12.2009 às 09:02

Texto de uma oportunidade imensa. Texto sóbrio mas que ilustra de maneira claríssima os entusiasmos fáceis nos julgamentos alheios. Exemplo real relatado que deita por terra elocubrações ainda que sofisticadas do ponto de vista do raciocínio e da lógica. É que esta, não raras vezes é uma batata, como sabemos. Ana, docemente este texto é eloquente na chamada de atenção. Há erros e erros. Há erros muito desumanos. E são tão mais desumanos quanto mais são evitáveis.
Nem sempre herrar é umano.

:))
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:44

Obrigada, Maria do Sol. Não pretendi "fazer flores" com o texto, se bem que o tema seja inesgotável. A verdade nua e crua, sem artifícios, chama melhor a atenção para estes casos graves. Consideramo-nos muito civilizados e apontamos o dedo tranquilamente ao atropelo dos direitos humanos por todo o mundo, mas por vezes esquecemo-nos de olhar para o nosso umbigo, que também não é de fiar.
Sem imagem de perfil

De Paulo Quintela a 02.12.2009 às 11:00

Aplaudo demoradamente, à falta de palavras mais eloquentes.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:45

Não são precisas palavras eloquentes, Paulo. Nem aplausos (mas obrigada por eles). Basta que todos façamos uma reflexão séria sobre estes assuntos.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 02.12.2009 às 12:36

Excelente Ana.

Espero que os jornalistas aqui do blogue a leiam com toda a atenção.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:47

Lerão, tenho a certeza. Mas não pretendo dar-lhes lições, até porque os jornalistas deste blogue se regem por uma ética que os impediria sempre de uma conduta deste género.
Sem imagem de perfil

De Nuno Pereira a 02.12.2009 às 12:56

O mundo não é tão mau como o pintam!
Algumas pessoas felizmente não são tão barbaras como à primeira vista fazem querer.
Ainda bem que este caso ilibou um inocente apesar da falha dantesca de alguem tentar imputar-lhe uma culpa sem sentido e de certeza com danos irreparáveis.
Vivemos numa Sociedade de assassinos, de chulos e de corruptos. Mas é preciso uma grande carga de bom senso para antes de apontarmos o dedo em riste, o deixarmos em posição de o encaminhar para a verdade!
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:50

O drama, caro Nuno, é que a justiça não basta para ilibar um inocente. A condenação pública é bem mais duradoura e não se compadece com erros, judiciais ou médicos.
Sem imagem de perfil

De CNS a 02.12.2009 às 13:10

Excelente texto, Ana. Não poderia estar mais de acordo consigo. Hoje nega-se um direito fundamental: Ao da presumível inocência. Porque liberdade é também o respeito pelos direitos de terceiros.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:52

Exactamente, Cristina. Virámos lobos, nós que nos achamos tão sofisticados...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 02.12.2009 às 13:11

Excelente texto. Fizeste muito bem em trazer este caso impressionante aqui ao blogue.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 15:12

Obrigada, Pedro. É um caso impressionante, de facto: todas as provas e aparências apontavam para a culpa do rapaz, que sempre se declarou inocente e afinal era mesmo... dá que pensar.
Sem imagem de perfil

De lili a 27.04.2010 às 00:57

''todas as provas e aparências apontavam para a culpa do rapaz...''. Foi correcto que se tenha feito a lei, a lei é feita a partir da culpa provada.
O que já não está correcto é que a Imprensa não tenha dado a mesma cobertura, agora que o caso já não era sórdido, tortuoso, inumano.

Parabéns pelo texto, está muito bom. :)
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 27.04.2010 às 11:24

Obrigada, Lili.
Imagem de perfil

De Nicolina Cabrita a 02.12.2009 às 13:32

Subscrevo. Excelente post !

Folgo em «lê-la» novamente. É impressão minha ou tem andado um bocadinho «fugida» ?
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:54

Um bocadinho, sim. Mas nos últimos dias estive em Espanha, por isso me impressionou tanto este caso. Obrigada pelo acolhimento caloroso.
Sem imagem de perfil

De Luísa a 02.12.2009 às 14:37

A justiça, seja a exercida pelos órgãos competentes, seja a feita por todo o mundo, é, infelizmente, demasiado humana, não só nos seus erros, como nas suas escolhas. Não só não é infalível, como também não é cega, e eu quase diria que «vinga» nos pobres e incautos anónimos a sua timorata incapacidade para punir os poderosos. Num quadro destes (e para além de qualquer outro tipo de considerações), não há condições e ainda menos legitimidade para a aplicação de penas capitais, tem toda a razão.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 14:57

Palavras terríveis mas muito certeiras, Luísa: também me parece que vingamos nos mais fracos as nossas cobardias e frustrações. A justiça popular sempre me apavorou.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 02.12.2009 às 14:55

Sou totalmente contra a aplicação da pena de morte por diversos motivos, um dos mais relevantes é a existência (que temos sempre de admitir) de erros judiciários. Mas antes disso por um imperativo ético: se começamos por relativizar o direito à vida, ainda que para punirmos o mais vil dos criminosos, acabamos por relativizar todos os outros direitos. Além disso o estado nunca deve investir-se da condição de carrasco aplicando penas de Talião nem fazer da vingança um objectivo da sua filosofia penal: a tesa da legítima defesa não é aqui aplicável dada a desproporção de meios e situações. Uma vida jamais se compensa eliminando outra.
E há ainda, no fundo da tabela, o argumento utilitário, a que alguns também serão sensíveis: em parte nenhuma do mundo a aplicação da pena de morte levou à diminuição da actividade criminosa.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 15:09

Exactamente o que eu penso, Pedro. Em última análise, parece-me até mais perdoável um homicídio cometido nos limites da tensão ou do desespero (estou a generalizar, claro) do que a condenação fria e analítica de um juíz à pena capital. A morte é irreversível, e não reconheço a ninguém o direito de impedir a possível regeneração de um ser humano. Nem o direito de se julgar um deus.
Imagem de perfil

De Nicolina Cabrita a 02.12.2009 às 15:38

Há uns anos vi uma reportagem de um canal de televisão francês sobre a pena de morte nos EUA. Entrevistaram vários directores de cadeias que defendiam a pena capital. Lembro-me que pediram a um deles que comentasse o facto de se ter chegado à conclusão, depois da introdução das provas através de testes ao ADN, que cerca de 30% dos condenados à morte não tinham cometido os crimes pelos quais foram condenados. A resposta do indivíduo deixou-me gelada. Entendia ele que na «guerra contra o crime» têm de se aceitar os «danos colaterais».
Todas as vezes que me gabam as virtudes do sistema judicial americano lembro-me sempre deste episódio.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 02.12.2009 às 16:23

30%??? Meu Deus, não fazia ideia de que eram tantos...
Estou arrepiada, com essa percentagem e com a resposta do entrevistado.

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D