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1º de Dezembro de 2009

por Pedro Correia, em 01.12.09

  

 

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

 

(...)

 

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

 

Poema 'Pátria Minha', de Vinicius de Moraes (excerto)


18 comentários

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De Amêijoa Fresca a 01.12.2009 às 19:57

Sobre o nosso 1.º de Dezembro de 2009...

Neste dia importante
da nossa longa história,
o descalabro é gritante
com uma dívida predatória.

A independência nacional
hipotecada em milhões,
num desvairo irracional
que esmiúça os mexilhões.

Tantos milhões a arder
em fogueiras de vaidades,
não há forma de prender
os heróis das fogosidades.

A corrosão ética encanada
nas ferrugens democráticas
deixa a gentalha empanada
de sordidezes plutocráticas.

Enterrados em milhões
de défices gigantescos,
temos políticos trapalhões
com seus dons quixotescos.
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De Pedro Correia a 01.12.2009 às 20:38

De facto a dívida é «predatória», Amêijoa.
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De Ana Vidal a 01.12.2009 às 20:53

Onde andará o Tric? O endividamento era a mola que o fazia saltar sempre...
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De Pedro Correia a 01.12.2009 às 21:53

Refugiou-se na sua biblioteca, que consta ser vasta.
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De Maria a 01.12.2009 às 20:14

Belíssimo poema, Pedro - forma tão bonita de se referir ao 1º de Dezembro - bravo, Pedro.
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De Pedro Correia a 01.12.2009 às 20:40

Gosto muito deste poema, Maria. E gosto de associá-lo a dias como o de hoje. Obrigado pelas suas palavras.
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De Ana Vidal a 01.12.2009 às 20:55

O poema é lindo, Pedro. Grande poetinha.
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De Pedro Correia a 01.12.2009 às 21:55

Vale a pena lê-lo na íntegra, Ana. Demasiado grande para o trazer aqui nesse formato.
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De mdsol a 01.12.2009 às 21:01

O poema é lindo e foi uma ideia e tanto trazê-lo hoje.
Li-o com calma, enquanto bebericava...
uma infusão de hipericão :)))))
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De Teresa Ribeiro a 01.12.2009 às 21:49

Olha, mais uma bebedora de hipericão :)
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De Rui a 02.12.2009 às 00:17

Belo texto, Pedro. Tenho andado menos visitador da blogosfera , mas acertei em cheio neste regresso. Quem viveu uns tempos noutras paragens, como tu, sabe como misturamos sentimentos onde este conceito de Pátria nem sempre surge de forma distinta, ou distinguível de onde nos encontramos. Mas a língua permite-nos sempre este reencontro com os outros, para o melhor e para o pior. E Vinicius di-lo como poucos. Em português, entendamo-nos. Abraço
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De Pedro Correia a 02.12.2009 às 13:13

Dizes bem, Rui: "A língua permite-nos sempre este reencontro com os outros, para o melhor e para o pior." Quem viveu fora de Portugal, como eu e tu vivemos, compreende isto ainda melhor.
Não te mantenhas muito tempo afastado da blogosfera.
Um grande abraço.
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De Chloé a 02.12.2009 às 03:44

Esta Pátria aqui é mais Mátria :-)
Uma ideia que aliás me é muito agradável.
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De Pedro Correia a 02.12.2009 às 13:14

Tal como Manuel Alegre, gosto da palavra pátria. E da palavra mátria também.
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De Maria a 02.12.2009 às 18:55

Já agora , "puxando a brasa à minha sardinha" a minha ilustre patrícia, conterrânea (qual delas a pior, não me ocorre outra melhor) - Natália Correia também dava o nome de "Fátria" ao conceito de Pátria - também é bonito, acho eu...
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De Maria a 02.12.2009 às 19:22

Desculpe , Pedro, escrevi mal, "Frátria" é que é...

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