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Com dedicatória

por Teresa Ribeiro, em 01.12.09

Por instinto conduziu-o pelo braço. Olhos em frente, a furar médicos e enfermeiros naquele vaivém por entre aflitos, o que ela queria era segurá-lo pelo braço, porque a mão, aquela mão dele, estava ao contrário.  Se ele imaginasse como lhe era insuportável segurá-lo pela mão, teria percebido porque teve ela de ser tão desembaraçada em tudo, para poder negar àqueles espectros de bata branca o espectáculo banal do seu pavor.

Depois, quando o chamaram e começaram a fazer-lhe perguntas ela recuou ao tempo em que era ele que as fazia. O que diz o teorema do valor intermédio de Bolzano? Ao tempo em que a sua preguiça o exasperava: Burra! E ela, rancorosa, a amaldiçoar aqueles jogos florais, o desafiava: Detesto matemática! (Se calhar o Freud - claro que o Freud - somaria dois mais dois).

Quando os espectros de bata branca, indiferentes ao passado que os fundia, lhe perguntaram: Quantos são 16 + 3? e ele respondeu 18, ela só por pudor não fez o pino, a ver se a realidade a seguia nesse movimento rotativo e se repunha. Para poderem os dois escapar dali incólumes. Ela de franja e de soquetes e ele, grande e forte, a levá-la dali pra fora. Pela mão.


17 comentários

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De Valupi a 01.12.2009 às 13:44

Que desespero tão belo. Ou não será desespero, antes a amorosa matemática da finitude.
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De Teresa Ribeiro a 01.12.2009 às 18:17

A "matemática da finitude" às vezes não é nada amorosa, Valupi :)
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De Valupi a 01.12.2009 às 21:09

Pois. Daí.
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De Paulo Quintela a 01.12.2009 às 13:57

Tocante.
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De Teresa Ribeiro a 01.12.2009 às 18:17

Obrigada, Paulo.
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De Teresa Ribeiro a 01.12.2009 às 18:18

Neste caso é mesmo 18 - noves fora, nada.
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De João Carvalho a 01.12.2009 às 19:40

Então é mesmo triste.
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De Maria a 01.12.2009 às 17:39

Bonita e comovente "dedicatória" Teresa.
Bolzano , o seu "Teorema" Freud - a servir tão bem a "essência" do seu texto - na minha humilde interpretação/intuição, claro;))
Gostei muito...
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De Teresa Ribeiro a 01.12.2009 às 18:20

A minha intuição diz-me que intuiu muito bem. Obrigada, Maria.
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De Ana Vidal a 01.12.2009 às 19:22

Sei muito bem o que isso é, Teresa. Comoveste-me e trouxeste-me recordações com este belo texto, penosas mas muito importantes. Uma coisa te digo, se servir de consolo: por muito que nos doa, é bom, mesmo assim, ter ainda um braço ou uma mão para segurar e guiar. Mesmo que o mundo nos pareça ao contrário.

Um beijo
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De Teresa Ribeiro a 01.12.2009 às 20:25

Eu sei, Ana, que pior é mesmo não haver nada para agarrar. É um consolo. Tenho de o repetir todos os dias: que é um consolo, é um consolo, uma porra de um consolo. Beijo também para ti.
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De Ana Vidal a 01.12.2009 às 20:46

Eu sei, nessa fase nada parece ser um consolo. Só um dia mais tarde percebemos isso. Mas a vida é assim mesmo, suponho.
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De Pedro Correia a 01.12.2009 às 19:30

Sei muito bem a que te referes neste belíssimo texto, um dos melhores que tenho lido aqui. Sei por experiência própria como tantas das nossas inabaláveis certezas começam a desamparar-nos quando se invertem os papéis a que nos habituámos desde a nossa primeira madrugada no mundo.

Um beijinho, Teresa.
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De Teresa Ribeiro a 01.12.2009 às 20:26

Obrigada, Pedro. Desamparo é a palavra certa.
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De Chloé a 02.12.2009 às 03:32

Belíssimo texto, subscrevo. Agreste como a revolta que o tempo e a troca de papéis nos reserva. Não é que seja surpresa, mas é uma experiência nova, e justamente por isso ninguém pode antecipá-la.
Por mais que nos digam, é nos soquetes que está a boa ordem da vida :-). E sofre-se muito, moídas que ficamos entre a súbita carência desse modelo ameaçado e a enérgica eficiência tutelar das nossas meias de vidro...
Quando o momento chega, é sempre prematuro. :-(

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De Teresa Ribeiro a 02.12.2009 às 11:35

Pois, Chloé, impossível não sentir esta inversão de papéis como algo que é contranatura. E afinal não passa de um processo banal. Cruel e injusto como tantas outras banalidades que fazem parte da vida.

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