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Presidenciais 2021

por João Pedro Pimenta, em 24.01.21

A CNE que diga o que quiser. Desde que a Net espalhou a palavra o dia de reflexão perdeu a sua utilidade.

Como deixei claro no post anterior, estas eleições não podiam calhar em pior altura. No pico do Inverno e nos dias mais negros de uma pandemia fatigante e galopante, numa eleição presidencial em que o incumbente concorre a um segundo mandato (e praticamente nem teve campanha eleitoral nem ao menos um programa presidencial), a abstenção prevê-se elevadíssima. Ao menos que não haja filas extensas. Marcelo, em condições normais, estaria reeleito. Sendo tudo menos normais, e mesmo que seja de todo improvável que não fique em primeiro, uma segunda volta não é de descartar, o que tornaria mais interessante a luta pelo segundo lugar, que está em aberto.

Ana Gomes quer consolidar o seu lugar de "justiceira" actual do regime, com a sua oposição implícita a António Costa e mais ainda a Marcelo. Não sei o que tem exactamente a ganhar nesta altura da sua vida, mas a resposta pode ser algo entre o sentido do dever e o chamamento do protagonismo.

Já André Ventura não quer de forma alguma ir para Belém, mas tenta aqui a prova das sondagens e a consolidação do seu movimento para tentar no futuro influenciar uma maioria de direita. Fá-lo com uma campanha de declarações estrondosas, como a dos "portugueses de bem", de vitimizações constantes e de tentativas de se fazer notar, facilitada com os manifestantes que protestam à sua passagem.

À esquerda, as habituais candidaturas do PCP (quase nunca falha) e Bloco. Condições diferentes em relação a 2015: Marisa não traz nada de novo, parece conformada, e nem o seu ar "genuíno" e mais simpático do que Catarina Martins e as manas Mortágua a sustenta. Ainda é nova, e talvez precise de novos desafios. Por outro lado, João Ferreira, já não exactamente um desconhecido, tenta segurar e medir o eleitorado PCP numa candidatura que tresanda a futuro secretário geral do PCP. Note-se o percurso exactamente igual ao de Carlos Carvalhas, que também foi candidato à câmara de Lisboa (ficou em segundo), cabeça de lista às europeias e candidato à presidência da república, antes da tarefa digna dos sete trabalhos de Hércules de substituir Cunhal na chefia do "Partido". No geral, teve uma campanha competente, apesar de ter sido o candidato que mais gastou (para quê?). Ficarei surpreendido se Ferreira não ficar à frente de Marisa, até porque o eleitorado desta que não seja tão fiel ao Bloco tenderá a votar em Ana Gomes.

E por falar em Carvalhas, a grande novidade da campanha chama-se Tiago Mayan Gonçalves. Ao contrário da generalidade das pessoas, não era para mim o candidato mais desconhecido, antes pelo contrário. Conheço o Tiago Mayan há mais de vinte anos, já lhe chamei presidente numa associação estudantil internacional à qual pertencemos e aliás estive com ele em situações que já partilhei neste blogue (como esta, no âmbito de um congresso dessa associação). A alusão a Carvalhas reporta à parecença física com o antigo SG do PCP, e a uma situação, há já vários anos, em que alguém apontando para um cartaz comunista com a fotografia do seu líder, exclamou: "olha, o Tiago no cartaz", para desespero do agora candidato liberal. A verdade é que sem notoriedade anterior e sem ser uma figura pública (confessou a Miguel Sousa Tavares que aquela era a primeira vez que era entrevistado para a televisão), revelando algum nervosismo inicial e a inexperiência natural, conseguiu passar a sua mensagem de candidato liberal, dirigindo-se sem punhos de renda a Marcelo, traçando um fosso com Ventura e fazendo contrastar as suas ideias com as da esquerda. Para primeira experiência política em nome próprio, sem ser a fazer campanha por outros, leva nota positiva.

Por fim Vitorino Silva, como agora é chamado pelo nome próprio o "Tino de Rans". Sem ofensa, acho que podia ser o modelo do Zé Povinho para os nossos dias, em versão mais educada, e palpito que ele até nem desdenharia. A sua candidatura parece não fazer lá grande sentido, até por ser repetida, e terá previsivelmente menos votos do que há cinco anos. Mas é possível que arrebanhe alguns eleitores fartos da partidocracia e convencidos por um candidato com aura genuína, que não sendo um génio está longe de ser parvo e que é o "que se dane" possível para quem se dá ao trabalho de ir votar não se reconhecendo no candidato incumbente e nos candidatos partidários.

Posso desde já dizer, sem surpresa, que o meu voto, não me reconhecendo em todas as suas ideias, vai para Tiago Mayan. Não fosse ele e não saberia em quem votar: no presidente actual que nem programa tem, na candidata justicialista que tudo põe em causa, nos candidatos da esquerda mais dogmática, que o fazem pelos seus partidos, na candidato da direita populista que apregoa a ideia aberrante de que não seria presidente "de todos os portugueses", no candidato "do povo" de que poucas ideias concretas se conhecem...?

Três desejos mais, votem em quem votarem: que a abstenção não seja tão grande como alguns prevêem; que não piore o estado caótico da pandemia; e que não haja segunda volta.


10 comentários

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De O Inconveniente a 24.01.2021 às 09:42

Espero que estas eleições sirvam, acima de tudo, para abanar.
Que sirva para que os profissionais políticos, acomodados no conforto dos seus gabinetes, preocupados com os estratagemas pessoais e pouco transparentes, para beneficiar os amigos, acordem de vez.
Espero que estas eleições sirvam para que a política seja feita para os portugueses e não servindo-se dos portugueses.
O melhor protesto não é a abstenção. O melhor protesto é o voto fora do sistema.
É fazer com que os políticos profissionais percebam que têm de mudar de rumo, de serem mais competentes, sob pena de verem o seu lugar em risco.
Que as eleições sirvam para isso, para dar um sinal de que precisamos de políticos com espírito de servir, com processos transparentes e que deixem de negar determinado problema, apenas porque não lhes interessa.
Que estas eleições sirvam para que o sistema perceba de vez que não é dono da verdade, que não tem a exclusividade para decidir o que é e o que não é válido para ser discutido.
Por fim e de forma mais isolada, que sirva para punir um candidato que desprestigiou esta eleição, que não se esforçou minimamente, que se manteve na arrogância de achar que eram favas contadas.
Por isso, o seu voto em Mayan é pertinente.
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De João Pedro Pimenta a 24.01.2021 às 19:06

Não creio que no meio da uma pandemia, e em que os resultados válidos são apenas a eleição de um órgão pessoal, saiam daqui grandes mudanças imediatas.
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De O Inconveniente a 24.01.2021 às 22:45

Não vão sair, de facto. Mas o aviso está feito. E quem avisa amigo é.
O inteligente perceberia que o mote para as autárquicas está lançado. Por isso, meter a cabeça debaixo da areia e fingir que está tudo como antes, prevê-se ser um tiro no pé.
O imbecil, por outro lado, continua como até aqui.
A partir de hoje e até às autárquicas, dará para distinguir o inteligente, do imbecil.
E o português do interior deu um claro sinal de que é capaz de trabalhar nessa distinção.
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De João Pedro Pimenta a 25.01.2021 às 01:07

As aut´´arquicas também são um caso muito particular, ou antes, muitos casos particulares, porque dependem das circunstâncias locais, caciquismos, notoriedade dos candidatos, etc. As candidaturas independentes vieram aparentemente alterar isso (e digo aparentemente porque muitas são de ex-autarcas ou elementos dos aparelhos ressabiados por não terem sido escolhidos) e os pequenos partidos têm dificuldade em entrar.
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De Anónimo a 24.01.2021 às 10:34

Porque não corrigir "de todos os presidentes" para "de todos os portugueses"?
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De João Pedro Pimenta a 24.01.2021 às 19:05

Tem razão o anónimo. Obrigado pelo aviso. Já está corrigido.
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De Marques Aarão a 24.01.2021 às 10:40

Pedindo desculpa pela linguagem grosseira e admitindo que possa nem merecer publicação, diga a CNE o que quiser, mas faço-lhes uma suja analogia:
Estando aconselhado a não sair de casa, convidam-me a ir votar, munido de esferográfica, mas poisando as mãos em tábua de uso geral, a um lugar onde não se pode estar mais seguro.
Mal comparado, como se para utilizar uma sanita para arrear o calhau, mesmo levando papel higiénico, ter que assentar o traseiro nas bordas do frequentado sumidouro.
Vem-me à memória uma velha máxima, "eleve o seu nível de vida cagando de pé", que curiosamente considera para o caso esta útil experiência..
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De João Pedro Pimenta a 24.01.2021 às 19:10

Está pblicado. A crítica á válida, mas olhe que que tive poucas dificuldades e muito pouca espera para votar.
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De Anónimo a 24.01.2021 às 18:19

Por acaso não é a mesma pessoa que aparece nos tempos de antena a dizer 'conheço o Tiago há mais de vinte anos'? Não fiei o nome do nas TVs.
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De João Pedro Pimenta a 24.01.2021 às 19:11

Não, não sou. Esse era o Tiago Silva, que também conheço, não tão bem,.

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