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Pacheco Pereira e o seu sósia

por Pedro Correia, em 27.11.09

  

 

José Pacheco Pereira escreveu inúmeras páginas contra a tentação tão portuguesa de denegrir a função política e que cede às mais básicas pulsões populistas, tendo servido de fermento à ditadura. José Pacheco Pereira escreveu inúmeras páginas sobre a necessidade de introduzirmos racionalidade no debate político português, evitando as infiltrações extremistas susceptíveis de corroer o nobre mas frágil edifício institucional da democracia.

Pensava ontem à noite nisto enquanto concluía que não podia ser o mesmo Pacheco Pereira aquele que se desgrenhava no ecrã à minha frente, atirando argumentos cheios de carga emocional e populista para a fogueira da discussão na Quadratura do Círculo. Fogueira que praticamente só ele alimenta, na permanente tentativa de falar em cima dos restantes intervenientes, procurando a todo o passo travar-lhes o raciocínio. É um Pacheco Pereira que parece sempre à beira do delito passional, agarrado a duas ou três teses férreas das quais não se demove um milímetro em função dos argumentos alheios, o que no fundo inviabiliza qualquer debate. Lobo Xavier, nas raras vezes em que o companheiro de mesa lhe permite falar, é muito mais hábil na defesa dos pontos de vista que interessam ao PSD para se firmar como eficaz partido de oposição. António Costa mal consegue juntar duas frases sem ser de imediato atropelado pela torrente verbal de Pacheco, ao melhor estilo das reuniões gerais de alunos de há várias décadas. Carlos Andrade parece todo o tempo investido da ingrata missão de procurar reduzir o ruído que este irreconhecível Pacheco Pereira provoca em estúdio, olhando nervosamente para o cronómetro, com a angústia do guarda-redes antes do penalti.

O "debate", nesta Quadratura, é nulo: tudo se esgota no incessante martelar das teclas de Pacheco, cada vez mais prisioneiro das suas obsessões, cada vez mais transfigurado pelo ódio cego a José Sócrates. E nestes instantes vou sentindo uma irreprimível nostalgia do Pacheco antigo, que nos mandava tomar as devidas precauções contra o frenesim populista, inimigo desbragado dos "políticos" e de todo o debate travado em moldes racionais. Nada a ver com esta penosa reencarnação do ilustre pensador, tão mal representado pelo seu sósia, que parece desdizer hoje tudo quanto o Pacheco original dizia outrora.

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30 comentários

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De A. Luís a 27.11.2009 às 11:20

Caro Pedro!

Curiosamente, ontem escrevi, muito mais resumidamente, sobre a "Quadratura do Círculo", praticamente "em directo" com a sua emissão na Sic-N...
Se se quiser dar ao trabalho de ler as duas ou três linhas que redigi, faço o favor. Aqui:
http://latitudequarenta.blogspot.com/2009/11/os-marretas.html

Abraço.
António Luís
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 14:46

Já li, António Luís. Um abraço.
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De ariel a 27.11.2009 às 11:41

" A inveja e o ódio, mesmo se acompanhados pela inteligência, limitam o indivíduo à superfície daquilo que constitui o objecto da sua atenção.
Johann Wolfgang von Goethe , in 'Máximas e Reflexões' "

" O ódio é um sentimento negativo que nada cria e tudo esteriliza: - e, quem a ele se abandona, bem depressa vê consumidas na in ércia as forças e as faculdades que a Natureza lhe dera para a acção. O ódio, quando impotente, não tendo outro objecto directo e nem outra esperança senão o seu próprio desenvolvimento - é uma forma da ociosidade. É uma ociosidade sinistra, lívida, que se encolhe a um canto, na treva. (...)
Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora' "

Eu que não perdia a quadratura do Circulo, agora só esporadicamente vejo. Há coisa bem mais proveitosas e estimulantes para ocupar o meu tempo ao serão e ter um sono mais repousante.
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 14:46

Bem oportunas, essas citações que nos deixa, Ariel.
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De António P. a 27.11.2009 às 12:02

Bom dia Pedro,
Ainda bem que não sou só eu que vê este Pacheco Pereira obcecado e desgrenhado.
Estava a dar em maluco (eu ). Obrigado pela ajuda.
Cumprimentos
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 14:47

Não tem de quê, António. Abraço.
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De João a 27.11.2009 às 12:07

Saber envelhecer tem muito que se lhe diga.
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De mdsol a 27.11.2009 às 13:10

É o desenlace normal do abuso continuado do oportunismo intelectual. Concedo que é humano, sei que a carne é fraca. Em terra de cegos quem tem um olho é rei, e seria necessário uma inquebrantável formação ética para não ceder à tentação do hábito de usar argumentos para atingir objectivos exteriores ao conteúdo das discussões. Medrou e, agora, o efeito colateral transformou-se na essência da sua performance.

Só a costela goesa do António Costa (já bastante oriental, portanto) para lhe dar paciência para aturar as interrupções, a sobranceria e aquele olhar mortiço de quem não tem parceiros suficientemente "iluminados" para que a discussão atinja um nirvana que se veja.

Esta arrogância é antipedagógica e, por isso, a sua dimensão prosélita cai tão mal.
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 14:50

Detesto ouvir debates em televisão com alguém sempre a falar por cima dos outros, o que é uma técnica para:
a) impedir o raciocínio dos outros participantes;
b) impedir os telespectadores de perceberem alguma coisa.
PP usa e abusa destas expedientes com a complacência total do 'moderador'.
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De Luísa a 27.11.2009 às 13:47

Pedro, não consigo, neste particular, deixar de ter uma visão ligeiramente diferente da sua. Concordo que quem vai melhor é o Lobo Xavier, calmo, lúcido, absolutamente convincente. O António Costa é perfeitamente previsível e repetitivo, lembrando o fenómeno argumentativo da cassete. E nunca se arreda - à cautela – do formalismo das coisas. Quanto ao Pacheco Pereira – o evidente bode expiatório do programa – faz umas análises bem apanhadas (embora se perca, por vezes, em rodeios e acabe por falhar o alvo). Pessoalmente, confesso que me revejo em muito do que diz. Se calhar, também eu enfermo de uma doentia animosidade em relação ao PM. Não pela sua tortuosidade e má-fé, porque essas, para mim, fazem parte, nalguma medida, da «criatura política». Mas porque não tem categoria suficiente para as saber disfarçar.
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 14:57

A 'animosidade doentia' é má conselheira, Luísa. JPP, outrora o paladino da razão no debate político, sempre na linha da frente contra as pulsões 'populistas' que tendem a desqualificar a função política, tem hoje o discurso que ele próprio dantes criticava nos outros. Por essa via pode José Sócrates ficar descansado: nenhum mal lhe virá daí, como aliás se viu na recente campanha para as legislativas. Numa coisa estamos de acordo: Lobo Xavier é claramente o melhor interveniente neste programa. Pena é que seja também o que menos fala.
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De A. Pais de Almeida a 27.11.2009 às 14:18

É curioso ver quem se coloca do lado de António Costa e Marinho Pinto contra Pacheco Pereira e Lobo Xavier.
Muito curioso mesmo.
Quanto a mim, estou do lado dos que não aceitam que o governo do país continue entregue a quem se envolve em sucessivas trapalhadas, que nunca chegam a ser esclarecidas porque, entretanto, alguém estrategicamente colocado se encarrega de impedir que o sejam.
Mas tenho a esperança de ainda ver o dia em que o bom senso triunfará neste pobre país e os papagaios voltarão a ser apenas papagaios.
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 15:00

Pronunciei-me sobre um programa de televisão, não sobre o Governo. E sobre Marinho Pinto não escrevi uma palavra, o que torna ainda mais incompreensível o seu comentário. Se quer mudar de assunto, aqui vai: Pacheco Pereira é o opositor ideal de José Sócrates. Bem se viu o que resultou do seu trabalho como 'ideólogo' do PSD de Manuela Ferreira Leite nesta campanha legislativa - uma nova vitória dos socialistas.
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De CPrice a 27.11.2009 às 15:48

.. um não saber estar que até a mim (crédula que me farto!) me espantou e envergonhou ..!


__

Bom fim-de-semana Caro Pedro :)
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 15:00

Bom fim de semana, Catarina. Todos vamos ficando um pouco menos crédulos à medida que o tempo passa.
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De Sara a 27.11.2009 às 18:35

Irrita-me solenemente ver as constantes interrupções sempre vindas da mesma pessoa. Acima de tudo é de uma falta de respeito que não é concebível... Eu já lhe tinha mandado uma achega, provavelmente. E em 'directo'!
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De Borges Ferreira a 27.11.2009 às 21:09

Está a referir-se ao dr. Costa, é? Também acho.
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De Chloé a 27.11.2009 às 23:10

A propósito da má partilha de tempos, diga-se que o António Costa, aliás, gere muito bem os seus silêncios. Ou melhor, deixa-se interromper com demasiada facilidade. Se repararmos, a maioria das vezes convém-lhe imenso essa sofreguidão de Pacheco Pereira.
Quanto a este, está um pouco maçador e caricatural, é verdade que sim, eu também noto com pena.
Acontece muitas vezes a quem é valente.
E neste caso a quem se bate coerentemente e sem peias por uma verdade cuja percepção crua parece escapar aos demais debatedores nacionais, tão amolecidos quanto afinal (se virmos bem) o povo português.
Nisto, PP está de facto muitíssimo sozinho, é natural que sobrem tiques de solitário.
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De Anónimo a 28.11.2009 às 00:15

Por isso, Chloé, juntou-se ao António Preto e à Helena Lopees da Costa. Já não está sózinho. Antes estivesse.
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De Chloé a 28.11.2009 às 02:29

Anónimo, receio que vc. não tenha percebido. Bebeu uns copos, foi? Ou é a confusão que também é uma boa arma? Dichotes assim, completamente disparatados e à toa, têm ferro de ganadaria.
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De Fábio Morgado a 28.11.2009 às 04:14

Parabéns pelo brilhante comentário, penso que é tempo de alterar não só o formato mas também pensar seriamente em "reformar" o Dr. Pacheco Pereira pois começa a soar a algo semelhante a poluição sonora o que esse senhor diz, perde-se em debate mas também em qualidade televisiva.
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De causavossa a 28.11.2009 às 10:38

Tanta cegueira em Portugal, tantas lealdades sem um pingo crítico.
Estaríamos melhor em Portugal sem Pacheco Pereira?
Estamos melhor em Portugal com Sócrates, Vara, Penedos, ...?
A ética, a verdade, a humildade, a competência, a cultura, são valores em extinção?
Afinal há muito mais Portugueses satisfeitos com o brilhante Portugal em que nos tornamos diariamente! Quando não houver um cêntimo na mesa do orçamento para alimentar tão extensas cortes, as suas lealdades mudarão certamente!

Eu por mim, que penso pela minha cabeça e sou um verdadeiro Alfacinha, continuo a preferir António José Seguro, António Barreto, Medina Carreira, Mário Crespo, Ramalho Eanes, Guilherme de Oliveira Martins, ... e todos aqueles que tentam cultivar todos os dias os valores pouco universais do espírito crítico com a tolerância, a empatia, a decência, a verdade, a solidariedade...
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De Pedro Correia a 28.11.2009 às 15:02

Há muito tempo que este programa devia ter um novo formato. Não se compreende, desde logo, como não há ali um representante da área política à esquerda do PS.

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