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'Artitectura': os mal-amados (5)

por João Carvalho, em 21.11.09

Pałac Kultury i Nauki (ou PKiN), Varsóvia (Polónia)

O Palácio da Cultura e Ciência perdeu o resto amaldiçoado do nome que já teve: Pałac Kultury i Nauki imienia Józefa Stalina. José Estaline mandou fazê-lo e disse que era uma oferta da União Soviética ao povo polaco. Foi construído entre 1952 e 1955 e passou a dominar Varsóvia dia e noite.

Espécie de bolo-de-noiva gigante (o "bolo russo", como lhe chamam os polacos), nasceu das mãos de Lev Rudnev, que o projectou como tantos outros arranha-céus russos da época, misturou-lhe renascentismo e uns maneirismos variados, juntou-lhe alguns traços polacos que colheu no caminho, deixou-o crescer desmesuradamente, salpicou-o com uma pitada de estalinismo q.b., enfeitou-o com o que lhe veio à cabeça e serviu-o bem quente.

O nome de Estaline foi banido com a "destalinização", mas a memória ficou: Varsóvia odeia o dador e a oferta. Não admira: o novo-riquismo disforme ditou que fosse, de 1955 a 1957, o edifício mais alto da Europa e ainda é o maior do país e o oitavo mais alto da União Europeia; o complexo Palácio abafa uma cidade cujo centro histórico, ainda por cima, é Património Histórico classificado pela UNESCO.

Durante a construção, 3500 operários russos foram instalados num bairro suburbano a expensas da Polónia – com cinema, restaurante, centro comunitário e piscina – e a obra registou 16 acidentes de trabalho mortais.

Depois da saída soviética, em 1989, o ódio esmoreceu e o impacto do complexo foi atenuado: recebeu no topo quatro relógios de 6,3 metros de diâmetro, em 2000, e os prédios erguidos entretanto alteraram a volumetria urbana. Mas será possível um dia gostar de tamanha aberração? Nunca: a sua omnipresença é uma sombra do passado odioso que ficou a pairar sobre a sofrida capital.

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16 comentários

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De Pedro Correia a 21.11.2009 às 15:51

Está tudo dito aqui sobre uma das maiores aberrações arquitectónicas de que há memória na Europa, esplendor do chamado 'estilo estalinista'. A volumetria desmesurada, a configuração absurda, a forma como se impõe no horizonte sem qualquer consideração pelo espaço envolvente tornaram-no um recorrente ódio de estimação dos habitantes de Versóvia, que ainda por cima o viam como símbolo do invasor russo. Não esqueçamos que a Polónia foi partilhada por Hitler e Estaline em 1939.
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De João Carvalho a 21.11.2009 às 16:45

Este 'post', como sabes, é muito dirigido a ti...
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De Pedro Correia a 21.11.2009 às 15:55

Já agora, deixo mais duas sugestões para esta tua interessantíssima série, compadre. A 'Girafa', na Praça de Madrid, na capital espanhola - espécie de monumento urbano do franquismo, de gosto hiper-duvidoso - e o moderníssimo edificio Mirador, que tanta polémica tem causado entre 'nuestros hermanos'.
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De João Carvalho a 21.11.2009 às 16:46

Lá irei, seguramente, compadre.
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De Teresa Ribeiro a 21.11.2009 às 17:30

Estou a gostar muito desta tua série.
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De João Carvalho a 21.11.2009 às 17:59

Gostei de saber isso, Teresa.
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De mdsol a 21.11.2009 às 19:19

Esta série é muito interessante e pedagógica. Sempre tive a impressão que que os regimes não coseguiam disfarçar na arquitectura...
Parabéns João.

:)))
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De João Carvalho a 21.11.2009 às 22:41

Obrigado, Maria. Os regimes não conseguem disfarçar e, mais ainda, até deixam as suas marcas arquitectónicas, intencionais ou fruto de regras omnipresentes. Muitas vezes são identificáveis com facilidade e, por norma, são marcas infelizes, as dos regimes no património construído.
Por cá, o Estado Novo também teve a sua arquitectura, normalmente feia e austera, para não dizer triste e soturna. Está, por exemplo, em muitas escolas e palácios da Justiça por este país fora.
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De Chloé a 21.11.2009 às 20:33

É um autêntico mono, na verdade. Também já o contemplei horripilada in loco. Mas Varsóvia não tem só este traço de Stalin . Toda a escala do centro da cidade é rasgada com uma grandeza que respira megalomania soviética.
PS- não quero dizer que não tenha gostado. Pelo contrário, gostei imenso de Varsóvia e de outras cidades polacas que visitei. E gostei muito especialmente dos polacos.
Em Varsóvia nunca esquecerei uma manhã de domingo (com as igrejas cheias...) passada no também imenso parque central da cidade, totalmente invadido por muitas centenas de pessoas sentadas nos relvados, a ouvir música. A marcar o teatro das operações, uma estátua monumentalíssima de Chopin, sentado a tocar.
Uma bela antítese simbólica para o bolo de noiva;)
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De João Carvalho a 21.11.2009 às 22:44

Creio que Chopin está actualmente muito presente neste megamono estalinista. Nos anos 60, os Rolling Stones deram um concerto lá dentro.
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De Ana Vidal a 23.11.2009 às 02:16

Medonho, de tão megalómano. Bela série esta, João. Posso dar-te uma sugestão? A "máquina de escrever", em Roma (monumento a Vittorio Emanuel). Ou já estava na tua lista de aberrações arquitectónicas?
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De João Carvalho a 23.11.2009 às 02:58

Há-de aparecer por cá, Ana. Obrigado.
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De João Pedro a 23.11.2009 às 16:08

Tirando a sua localização e envolvente, não acho que o edifício seja nada feio. Provavelmente o nome e o dador que lhes estão associados fazem com que se o olhe com um espírito reprovador.
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De João Carvalho a 23.11.2009 às 19:10

Bem... Na verdade, o arquitecto Lev Rudnev também deve ter gostado, embora possa não ter dito a verdade. E Estaline idem, porque Rudnev ficou vivo e não foi mandado para o Gulag. Portanto, V. gosta e não se sinta sozinho. Hehe...
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De Pedro Correia a 23.11.2009 às 22:34

Consta que a direcção e redacção do Avante também gostam. Por ser uma «conquista do socialismo».

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