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Estamos a sair do armário!

por Teresa Ribeiro, em 15.11.09

Ninguém pode dizer, honestamente, que se espanta com o que se foi sabendo pelos jornais acerca de casos como o Apito Dourado, Operação Furacão, Freeport e agora o Face Oculta. Tráfico de influências, corrupção, nepotismo sempre foram parte integrante da nossa realidade. Todos nos reconhecemos como naturais do país das cunhas, da fuga ao fisco e do gamanço de material de escritório. Quem nunca pediu favores a um tio ou nunca se lamentou por não ter um tio a quem pedir favores que atire a primeira pedra.

Cresci a ouvir familiares, amigos, colegas, taxistas e até políticos em campanha a perorar contra "eles". Percebi cedo que dizer "sistema" era apenas uma variante lexical para falar "deles". E também me habituei a assistir a pequenos golpes com a abulia de quem segue um boletim meteorológico. Compactuávamos com isto por impotência, inércia ou  conveniência, conforme o lugar que ocupávamos na cadeia alimentar.

Agora espantamo-nos com o que sempre soubemos. Escandalizamo-nos como virgens enganadas. É divertido este jogo. Na verdade representamos a mesma peça, só que passámos para o segundo acto, onde a acção se desenrola com mais ruído apenas porque, tal como nas tragédias gregas, por um golpe do destino tudo isto se começou a tornar - imagine-se! - oficial.

A verdade, quando sai do armário, é sempre desestabilizadora. Que o digam os psicanalistas que, tal como os tipos das Chaves do Areeiro, ganham a vida a abrir portas, só que levam mais caro. E o problema é que na maior parte dos casos não sabemos muito bem o que fazer com ela.


15 comentários

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De Mário Teixeira a 15.11.2009 às 12:29

O problema para mim não são os casos, pois são inevitáveis. E ai concordo que estamos a sair do armário.
O que não acho de todo correcto é antes de os processos estarem concluídos já estarem na praça público. O MP e os outros intervenientes nos processos são autenticamente irresponsáveis e deveriam ser exemplarmente punidos para que estes julgamentos na praça pública acabassem.
É lógico que interessa a muito boa gente que se saiba mal ou bem dos processos e seus conteúdos.
Serve isto para lançar areia nas engrenagens e prejudicar directamente algumas pessoas. Isto é lamentável. Bastante mesmo.

Quanto aos processos, quem pratica crimes deve obviamente ser julgado e punido por isso, seja quem for.
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De causavossa a 15.11.2009 às 12:44

Por mim já fiz! Em jeito de agradecimento por finalmente me ter encontrado! Terá sido psicoterapia grupal?
http:/ causavossa.blogspot.com /2009/11 agradecimento-democratico-de-um-cidadao.html
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De mdsol a 15.11.2009 às 12:58

Sem procurar "afinidades forçadas" este seu post fez-me recordar um textinho que rascunhei no dia 4 de Abril de 2007 com o título "Eles". A questão de fundo parece-me a mesma: "eles" existiriam sem a parte de nós que se demite, acomoda e deixa andar?
:)
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De Teresa Ribeiro a 15.11.2009 às 13:37

Vou um pouco mais longe, Mdsol. Não nos excluo. Quando metemos cunhas ou tentamos meter, ou lamentamos não ter conseguido meter estamos ou não a ser coniventes? Mais do que acomodação existe uma certa cumplicidade que explica, por exemplo, as vitórias tão badaladas de alguns autarcas... Isto dá pano para mangas. Vou já espreitar o seu post :)
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De Teresa Ribeiro a 15.11.2009 às 13:43

Por nabice minha, não consegui acesso ao dia 4 de Abril, Mdsol :(
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De mdsol a 15.11.2009 às 14:11

Não se preocupe Teresa. É mesmo um rascunho. Mas, ainda assim, http://okayempatins.blogspot.com/2007/04/eles.html

:)))
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De João Carvalho a 15.11.2009 às 14:01

Exactamente, Teresa: as vitórias consecutivas de certos autarcas está também nisso. «Ele pôs a nossa terra no mapa. Ele fez o quê? E só ele é que fez?...»
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De Odete Pinto a 15.11.2009 às 21:27

É verdade o que diz, Teresa Ribeiro - não nos podemos excluir porque, indo à causa das coisas, ainda estamos longe de contar, como cidadãos; por isso, em casos de grande aflição, recorremos a "ajudas", como há umas semanas li aqui num post muito interessante, sobre saúde, que infelizmente não guardei, como gostaria.

E quando, por uma questão de dignidade, não o fazemos, pagamos um elevado preço.
Há 5 anos, amigos aconselharam-me a recorrer a uma pessoa que muito admiro e estimo, dado que os meus filhos estudaram no seu colégio. Por respeito ao meu filho que estava com sério problema, recusei os conselhos. O resultado é o que se pode ler a seguir. Peço desculpa por ocupar muito espaço.

PARTIR EM BUSCA DE CIDADANIA
Um dos meus filhos, engenheiro informático com especialização em multimédia, inteligência artificial e vários cursos internacionais, ficou subitamente desempregado (2003) "graças" à moda das falências duvidosas (para não dizer fraudulentas). Por mais que tentasse, só lhe apareciam contratos temporários, a recibo verde, e uns 250/300 contos de salário e só para a casa (banco) iam 150 contos.
Vendo a situação, um dia enchi-me daquela coragem que vem do fundo da mágoa e disse a este meu filho: vai-te embora deste país para que os meus 3 netos (2 são gémeos) cresçam numa sociedade melhor e mais equitativa.
Colocou o curriculum na net e foi logo convidado por uma empresa americana de software, para trabalhar em Madrid. (mudou-se há um ano para Barcelona, a convite de uma empresa de “head hunting”).
Só sei que cheguei a Sta. Eugénia, em Madrid, para começar a tratar da papelada enquanto o meu filho trabalhava, e comecei pelo que estava mais perto, que era o centro de saúde.
Fui lá tentar fazer a inscrição e perguntaram-me se queria consulta para dali a 30 minutos, porque “no queremos que tenga problemas”!. Não há senhas nem bichas. Não há taxas moderadoras, os reformados não pagam medicamentos. Além disso, nos centros de saúde fazem-se análises, electro-cardiogramas e nalguns até radiografias.
Os centros de saúde estão abertos ao sábado e há consultas médicas no domicílio, caso se justifique, além de os medicamentos serem mais baratos. Só não há é baldas de passar receitas de medicamentos sem justificação nem pr’o cão e pr’o gato ..porque o receituário e sua validação não sai dos centros de saúde.
Há uma pequena/grande diferença, porém. Antes da inscrição formal no centro de saúde, temos que apresentar o comprovativo do recenseamento - fundamental para planificar até as vagas nas escolas) !
Também o recenseamento e o registo na "polícia de estrangeiros" ou na Segurança Social é fácil: um/a funcionário/a (não é porteiro) está à porta e pergunta-nos o que precisamos. Dá-nos os formulários (muito simples) e indica-nos onde seremos recebidos.
Tudo isto sem senhas, nem bichas e sem lojas do cidadão. Algum tempo depois recebemos o DNI (documento nacional de identificação) onde, além do respectivo número, consta ainda o nº de contribuinte, o nº de eleitor, de segurança social e de saúde.
Foi com grande aflição que insisti, em princípios de Agosto 2004, que tinha de matricular 3 crianças – 2 na pré-primária e 1 na primária (meus netos) e receava já não haver vagas. Disseram-me, admirados com a minha aflição, que não me preocupasse “no queremos que tenga problemas”!. A partir de 1 de Setembro tudo estaria resolvido, visto que tinha cumprido o meu dever cívico e o recenseamento estava feito. E assim foi.
No dia 13 de Set. 2004, as crianças começaram as aulas, sem problemas.
E não é que, sem que ninguém falasse ou pedisse, o meu neto mais velho que ali iniciou o 1º ano de escolaridade, teve aulas exclusivas de castelhano para não ficar prejudicado no aproveitamento escolar, em relação aos colegas? (*).
A administração pública espanhola parece preferir tratar bem os cidadãos e tudo fazer para lhes simplificar a vida para que eles também produzam mais para o país.
É assim que se forja e cimenta o tão celebrado orgulho espanhol.
Acham que eles mostram o orgulho pondo bandeiras nas janelas em tempo de futebóis?
Resumindo, o cidadão sente-se bem tratado e obviamente cumpre com satisfação os seus deveres de cidadania - porque, além do mais, os percebe com clareza (essa generosidade).

2005
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De Teresa Ribeiro a 16.11.2009 às 00:06

Agradeço este seu depoimento, que li com muito interesse. Nunca é demais sabermos detalhes acerca da forma como os cidadãos de outros países, nomeadamente os dos nossos parceiros da UE, são tratados para avaliarmos a nossa propria situação.
Sempre pensei que a nossa baixa cultura de cidadania tem a ver com a percepção de que somos permanentemente negligenciados, nas mais diversas circunstâncias. O efeito perverso desta relação deficiente é justamente a desmotivação e o florescimento de esquemas ilícitos destinados a assegurar uma melhor qualidade de vida.
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De Odete Pinto a 16.11.2009 às 15:35

"O efeito perverso desta relação deficiente é justamente a desmotivação e o florescimento de esquemas ilícitos destinados a assegurar uma melhor qualidade de vida."

Exactamente!
Obrigada pelas suas palavras.
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De Ana Vidal a 15.11.2009 às 16:29

Li todo o teu post com um sorriso comprometido, pelo reconhecimento de uma verdade inquestionável: habituámo-nos (ou habituaram-nos "eles", durante tempo de mais) a demitirmo-nos de todas as responsabilidades, esperando que alguém decida tudo por nós e nos resolva a vida, mal ou bem. O resto entregamos à sorte, ao destino, sei lá... tudo menos sermos nós próprios os culpados dos nossos desaires. Falo de um colectivo nacional, não de cada um de nós. E neste ambiente viciado, o nepotismo e a cunha são inevitáveis.
Mas tens razão, parece que estamos mesmo a passar à fase seguinte: sermos capazes de tirar do armário os nossos esqueletos nem que seja para arejarem um bocado, enquanto nos finjimos escandalizados por tê-los lá...
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De Teresa Ribeiro a 15.11.2009 às 18:50

Ana, gostei muito de ler o teu comentário porque a sintonia entre o que eu penso acerca de tudo isto e o que escreveste aqui é total. Arejemos pois os nossos esqueletos, enquanto nos fingimos escandalizados.
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De Ana Vidal a 15.11.2009 às 19:34

Tudo isto é fado, Teresa... :-)
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De Pedro Correia a 15.11.2009 às 19:12

O pior é que estamos a descer continuamente no índice dos países menos corruptos do mundo, como ainda este ano se viu, sem que algumas virgens sempre muito ofendidas se ofendam com isso. Terão deixado de ser virgens entretanto?
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De Amêijoa Fresca a 15.11.2009 às 19:26

Nestes dias contados
de imunda putrescência
tantos casos são ocultados
após espumosa efervescência.

A potente ocultação
sinónima de venalidade
patenteia a deleitação
desta abjecta realidade.

No estado de coma
da nossa democracia,
há muito quem coma
desta vil plutocracia.

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