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O direito à memória

por Leonor Barros, em 08.11.09
Se a arte imita a vida ou a vida imita a arte é tão discutível como nos perdermos em considerações sobre o ovo e a galinha. Tenho, não obstante, como certo que coexistem numa relação absoluta de interdependência e que os contextos sociais e políticos são muitas vezes impulsionadores de novas correntes literárias ou tendências.
Foi assim, quando em 9 Novembro de 1989, o Muro de Berlim foi metaforica e literalmente derrubado pela vontade dos homens e mulheres sedentos de mudança. O mundo geográfico alargou-se, fronteiras foram quebradas e com a abertura do Leste e a reunificação da Alemanha, uma nova ordem social surgiu. O encanto foi definhando com a passagem do tempo e as dificuldades de adaptação de ambos os lados intensificaram-se. Seriam afinal ein Volk – um povo só?
E o que tem a literatura a ver com tudo isto? Durante as décadas em que o mundo se dividiu, uma geração cresceu. Desconhecendo as diferenças entre o Leste e o Ocidente, assumiu como sua a realidade quotidiana dos países em que viviam. Sem nunca ter sofrido a separação violenta iniciada em 13 de Agosto de 1961, tinham histórias para contar, histórias além da História, histórias e aventuras de uma infância e adolescência mais ou menos feliz, mais ou menos colorida mas tão legítima como qualquer outra. Surgiu pois uma nova geração de escritores cuja temática central se debruça sobre a vivência anterior a 1989. Thomas Brussig e Jana Hensel são penas dois dos muitos autores que invadiriam o mercado editorial alemão. Brussig destaca-se pelo tom irónico e leve com que aborda a vida para lá do Muro e preenche com palavras o imaginário mitificado do Leste visto pelo Ocidente, enquanto Jana Hensel distingue-se pelo seu carácter autobiográfico, não-ficcional, portanto.
Na Alemanha, esta novíssima literatura não foi acolhida de braços abertos como haviam sido os cidadãos da RDA em Novembro de 1989. Frequentemente acusados de leviandade na abordagem de uma questão tão sensível como a história contemporânea alemã na segunda metade do século XX, e, em casos mais extremos, de desejar o regresso do passado e, com ele, o regime totalitário da RDA, os autores defendem-se, exigindo a legitimidade das memórias apolíticas que forjaram sua matriz.
E, porque acredito que existe memória sem cor política, não posso concordar mais: que faria com a memória da minha primeira ida ao teatro no defunto Monumental para ver o Pinóquio, titubeante e mínima, pela mão segura do meu querido pai? Deito-a fora, apenas porque aconteceu antes de Abril de 74? E o que faço à memória do homem da bolacha americana empurrando um carrinho verde pelo areal infinito e agreste da Figueira da Foz? Faço delete? Lembrar não é necessariamente homenagear ou militar, logo, lembrar a RDA não implica a observância do sistema político então vigente, tal como as memórias de antes de 1974 não atiram os seus donos para as secretárias da António Maria Cardoso, felizmente para mim. A memória é a matéria de que as vidas são feitas, sem ela não há passado e, sem passado, dificilmente chegaremos ao futuro.
 
 
Texto repescado do baú da memória
 
 

* Na fotografia Ampelmann ou Ampelmännchen, um dos símbolos da RDA, transformado em objecto de culto e comercializado em todo o tipo de parafernália para saciar a fome voraz dos turistas. Pode ser encontrado agora pela cidade inteira.


15 comentários

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De mia a 08.11.2009 às 14:24

além de certíssimo o seu texto é belíssimo . também me alembrei dos dias felizes cheios de futuro da minha infância e em particular do dia em que o meu pai me atou com uma corda na cintura e me atirou ao alva para eu aprender a nadar... o meu pai vive comigo para sempre mas esse dia foi desperto pela Leonor. bem haja!
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De Leonor Barros a 08.11.2009 às 17:51

Obrigada eu pelo seu comentário, mia.
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De Pedro Correia a 08.11.2009 às 23:49

Ao Alva? Gosto desse rio.
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De João Carvalho a 08.11.2009 às 14:29

Excelente.
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De Leonor Barros a 08.11.2009 às 17:52

Obrigada, João.
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De Luís Reis Figueira a 08.11.2009 às 15:28

Parabéns pelo seu belíssimo post, Leonor, que nos faz reflectir no facto de que ninguém deve renegar ou apagar o seu passado pela simples circunstância de ele ter sido bom ou menos bom, de ter sido vivido numa certa época ou noutra. Todas as existências são feitas de bons e maus momentos e a vida é exactamente o somatório de tudo isso. Nas últimas décadas, em Portugal, houve alguma tendência para se agir assim em relação a certos momentos da nossa história colectiva recente, tentando pura e simplesmente fazer 'delete' sobre eles. O que me parece importante, sim, não é fingir que tais períodos não existiram mas antes ter sobre eles um olhar crítico e uma acção esclarecida, que os impeça de voltarem da mesma forma, a atormentar o nosso futuro e o das gerações vindouras. Tal como disse - e muito bem - sem passado não há presente e sem este não há futuro. A vida é exactamente esse tapete contínuo, esse somatório de coisas boas e más, no qual não se podem abrir 'buracos' para se apagar aquilo que não foi tão bonito nem tão agradável como gostaríamos.
Um Abraço! ;-)
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De Leonor Barros a 08.11.2009 às 17:58

Um abraço, Luís. Todos temos direito à nossa memória e ela é sempre legítima mesmo que os acontecimentos tenham como pano de fundo ditaduras. Na Alemanha, esta questão esteve bem presente e quem se atreveu a confessar que tinha boas recordações não foi bem visto. Também compreendo que aqueles que sofreram a divisão de Berlim nem sempre tenham o distanciamento para comprender outros que tendo nascido já em Berlim Leste tivessem vivido outra realidade.
Em Portugal há ainda um longo caminho a percorrer em relação à memória. Apesar de nos gostarmos de ver como uns 'porreiros', extrovertidos e tolerantes convinha que olhássemos mais para a nossa história e para nós mesmos.
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De mdsol a 08.11.2009 às 17:30

Um beijo, Leonor.
:)))
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De Leonor Barros a 08.11.2009 às 17:58

Beijos, Maria do Sol :))))
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De Pedro Correia a 08.11.2009 às 23:48

Estou muito de acordo com o que escreves, Leonor. E há um pormenor no teu texto que aproveito para destacar. Dizes, e muito bem, que o Muro "foi derrubado". Costumamos dizer que o Muro "caiu", como se tivesse acontecido graças à lei da gravidade. Mas não "caiu": foi mesmo derrubado por milhares de pessoas sedentas de liberdade. É só um pormenor. Mas que faz toda a diferença.
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De Leonor Barros a 08.11.2009 às 23:54

Foi derrubado pela sede de liberdade e pela vontade dos homens, Pedro. É também por isso este momento da História me é tão grato.
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De Maria a 09.11.2009 às 00:18

Leonor, belíssimo texto - vou "guardá-lo", num lugar especial, onde guardo tudo que quero ter sempre presente. Também tenho algumas coisa guardadas no sótão ", não é muito acessível, mas, volta e meio, vou lá - viro e reviro e sempre encontro qualquer coisa que me estava a fazer falta e volto mais tranquila.
Obrigada, Leonor, pela sua lucidez.
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De João Carvalho a 09.11.2009 às 00:42

O sótão das memórias, das preciosidades, dos tesouros.
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De Maria a 09.11.2009 às 01:45

È isso João - "tesouros" - não cotados nas bolsa...
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De Leonor Barros a 09.11.2009 às 11:42

Beijinho, Maria

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