Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Vinte anos de liberdade a Leste

por Pedro Correia, em 09.11.09

 

Hoje o mundo celebra a queda do Muro de Berlim, o símbolo mais inequívoco de um universo opressivo, nascido do equilíbrio do terror nuclear entre as duas superpotências que dominaram a geopolítica do pós-guerra. O mundo inteiro? Não. Numa 'aldeia' de irredutíveis comunistas há quem prefira celebrar não o muro caído mas o muro ainda erguido, entre 1961 e 1989, cortando ao meio um país, cortando ao meio uma cidade de onde os próprios habitantes não podiam sair por imposição de uma potência estrangeira - a URSS - que a ocupava militarmente. Este Astérix de sinal contrário, adepto das legiões romanas com sotaque russo, é o Avante! , órgão central do Partido Comunista Português, que em editorial derrama lágrimas pela queda do império soviético, suspirando de nostalgia pela Revolução de Outubro.

"A constituição do primeiro Estado operário; as conquistas civilizacionais – políticas, sociais, económicas e culturais - alcançadas na União Soviética nascida da Revolução de Outubro; o processo de construção do socialismo então iniciado e os seus êxitos; as múltiplas repercussões no mundo de todo esse exaltante processo, dando nova dimensão à luta de libertação nacional dos trabalhadores e dos povos e à luta pela paz – e, com tudo isso e por tudo isso, o papel que a URSS passou a desempenhar à escala planetária, criaram novas e promissoras perspectivas num mundo até então submetido ao domínio absoluto do sistema capitalista, apresentado como uma «inevitabilidade» decorrente de uma «ordem natural das coisas» fabricada pela ideologia dominante à medida dos interesses do grande capital internacional", escreve o Avante!. Como se vivêssemos no mundo pré-1989, antes da queda do comunismo nas capitais do Leste. Como se vivêssemos no mundo pré-1973, antes de Soljenitsine ter feito a minuciosa descrição do universo concentracionário dos gulags na mais emblemática das suas obras. Como se vivêssemos no mundo pré-1956, antes da revelação - pelo próprio secretário-geral do Partido Comunista soviético, Nikita Khrutchov - dos crimes cometidos por Estaline, o czar vermelho desse falso "primeiro Estado operário" que os comunistas ortodoxos portugueses, possuídos de um saudosismo serôdio, agora glorificam.

"A derrota do socialismo, com o desaparecimento da União Soviética e da comunidade socialista do Leste da Europa, constituiu uma tragédia, não apenas para os povos desses países mas para toda a humanidade: com o capitalismo dominante, o mundo é, hoje, menos democrático, menos livre, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico", refere ainda o editorial do órgão oficial do PCP.

Nem por um momento ocorre ao Avante! reflectir sobre o que levou essas sociedades tão progressistas a implodir estrondosamente e os trabalhadores 'libertados' de Leste a correr rumo à 'opressão' do Ocidente. É que essas sociedades se fundavam numa mentira que o PCP gosta de repetir ainda hoje: não havia Estados-operários mas ditaduras burocráticas, assentes num capitalismo de Estado para o qual cada cidadão era um sujeito destituído de direitos - começando pelos direitos laborais. O próprio direito à greve era severamente reprimido, como experimentaram na pele os operários que se rebelaram em Berlim-Leste (1953) ou na Polónia (1956, 1970, 1981), já para não mencionar a Roménia do camarada Ceaucescu, que mandava construir os seus faustosos palácios com mão-de-obra escrava.

Este era o falso ''paraíso socialista' que terminou em 1989. O mundo ficou mais livre depois da queda do Muro - depois da queda de todos os muros do Báltico ao Adriático. E ficou também mais igualitário e justo. Porque nenhuma liberdade era realmente digna desse nome na Europa quando permitíamos, por acção ou omissão, que metade do continente ainda não tivesse perdido as grilhetas, para usar uma expressão marxista que o Avante! só emprega quando lhe convém. Como se houvesse alguma superioridade moral nas grilhetas comunistas.


11 comentários

Imagem de perfil

De José Manuel Faria a 09.11.2009 às 12:17

Um texto forte que vai ser apelidado de anti-comunista primário. Por vezes é necessário radicalizar , para acordar mentalidades. Estranho a linha moderada do PCP não reagir! Pode haver uma explicação o "centralismo democrático".

ps: A área social ( educação/saúde) era boa sem ser perfeita.

Sem imagem de perfil

De CNS a 09.11.2009 às 13:03

A memória sem lucidez de nada serve senão para o afundar no autismo. A memória com lucidez, como esta que corre neste texto, permite crescer.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.11.2009 às 22:31

Caro José Manuel Faria, respondo-lhe com uma citação de um excelente texto do Daniel Oliveira, no 'Arrastão':
«Se ser anticomunista é dizer que o que se passou no Leste da Europa foi, não um conjunto de erros ou desvios, mas um crime contra a humanidade, sou anticomunista. E isto só é um insulto para quem ache que a luta pela dignidade humana só é viável com a supressão da dignidade de milhões de homens e mulheres. Para mim, não são apenas os fins que não justificam os meios. Os meios são os fins. Não se liberta ninguém sem liberdade, não se conquista a igualdade com opressão, ninguém se emancipa se for transformado num mero um instrumento ao serviço de uma causa. E isto para mim já nem tem discussão. Entre a pobre democracia em que vivo e qualquer ditadura escolho o que tenho. Nem que seja apenas um mal menor.»
Sem imagem de perfil

De Amêijoa Fresca a 09.11.2009 às 14:14

Dois mundos separados
por um muro vergonhoso,
os orientais encarcerados
a um regime manhoso.

Um muro cimentado
limitando a liberdade,
um povo libertado
para bem da civilidade.

A leste da liberdade
o mundo era opressivo,
era esta a realidade
de um regime agressivo.

A liberdade conquistada
após anos de opressão,
uma ditadura infestada
da hedionda repressão.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 09.11.2009 às 14:23

Gostei e linkei.
Este texto devia ser lido nas escolas.
http://vilaforte.blogs.sapo.pt/328321.html
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.11.2009 às 21:54

Obrigado, Paulo. Um abraço.
Sem imagem de perfil

De Odete Pinto a 09.11.2009 às 15:30

Um post para ler, sentir e guardar, absolutamente.
Como é possível a muita da nossa comunicação social fechar os olhos a tudo isto? E quase insensar o PCP, sobretudo as televisões, não divulgando estas tomadas de posição no Avante?
Por favor, esclareçam o povo português que não lê jornais!!!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 09.11.2009 às 21:55

Vergonhosa, a posição do PCP. E que os deixa sem a mínima autoridade moral para condenar regimes opressores noutros quadrantes.
Sem imagem de perfil

De Maria João Marques a 10.11.2009 às 01:02

Excelente post.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 10.11.2009 às 01:12

Obrigado pela simpatia, Maria João.
Sem imagem de perfil

De tv online a 24.11.2010 às 23:03

Estou a ver na televisao informacao sobre a greve. O governo para o resto nunca tem números exactos, para a adesão à greve tem...

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D