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Da gripe A à gripe C

por Carlos Barbosa de Oliveira, em 04.11.09

A gripe A tem sido a grande figura mediática do Outono. Os vírus, como algumas pessoas, ganham protagonismo não pela sua capacidade  técnica ou intelectual, mas pela forma como se insinuam e conseguem passar a sua mensagem junto da comunicação social. Foi o que aconteceu com o vírus da gripe A. Sendo menos letal do que o vírus da gripe sazonal, ganhou mediatismo graças à prodigiosa capacidade de contágio, que pôs a Organização Mundial de Saúde em alerta e a indústria farmacêutica com os cofres a abarrotar.
Acontece o mesmo com algumas pessoas. Sendo medianamente competentes , conseguem alcançar um lugar  mediano que lhes permite  exercer, de forma tentacular, a sua influência. Vão ganhando  prestígio e poder até se transformarem em  vírus disseminadores da corrupção.
Foi  este vírus  que espalhou pelo  mundo  a gripe C. De crise. A gripe C é muito mais letal do que a gripe A. Ao longo deste ano condenou milhões de pessoas a uma morte lenta, atirando-as para o desemprego, de onde não sairão até ao fim das suas vidas. O vírus da gripe C é sádico. Não mata, mas infecta, sujeitando as vítimas a um sofrimento terrível: desemprego,   miséria e fome. Não provoca uma doença física, mas uma doença moral que mina toda a sociedade. A competência deste vírus não deixou dúvidas a ninguém  e a crise por ele desencadeada foi anunciada como sendo a mais grave desde 1929.  Não admira, por isso, que tenha estado no centro das atenções do mundo inteiro durante quase um ano.
Entretanto, os governos descobriram a vacina contra o vírus da gripe C. Para o combater,  injectaram dinheiro dos contribuintes nos agentes disseminadores: os bancos.  Os contribuintes reagiram mal, quando souberam que teriam ser eles a pagar a vacina. O ambiente social ameaçava entrar ebulição, quando se deu o milagre.
Corria a Primavera para o fim, no hemisfério norte, quando   o México anunciou que um vírus turista desembarcara em Cancún e lançara o pânico e a morte entre a população local. De imediato o centro das atenções desviou-se para este novo agente. As doenças físicas exercem sempre maior atracção sobre os media do que as doenças morais. São mais visíveis as suas características e os seus efeitos mais devastadores e espectaculares. Por isso os media se agarraram a ela com unhas e dentes. Mostrar cadáveres é muito mais emocionante do que falar de cidadãos enfermos.
Chegado o Outono ao hemisfério norte,  sendo o número de mortes provocados pela gripe A insignificante,as notícias centraram-se nos seus potenciais efeitos devastadores. Simultaneamente, era anunciado que a gripe C dava fortes indícios de rápidas melhoras. Sintomas da convalescença?  As bolsas recuperam,os governos continuam a injectar dinheiro nos bancos, para que os administradores possam continuar a receber vencimentos principescos,à custa do dinheiro dos contribuintes, e renova-se o apelo à moderação salarial.

Obviamente, as notícias de recuperação da crise são manifestamente exageradas. Assim como nenhum doente recupera de uma doença gastro-intestinal, comendo feijoada e caril todos os dias, também nenhuma crise financeira pode ser debelada se os seus agentes continuarem a ser premiados com salários indecorosos pagos pelos contribuintes. Não se recupera de uma doença grave com recurso às mèzinhas das receitas tradicionais: fortalecendo vírus (os bancos e o grande capital)  e mantendo os doentes à míngua, com salários baixos.

Com este receituário, a convalescença da crise é uma quimera. Uma recaída (esperada) poderá fazer o mundo entrar em coma profundo. É preciso fazer alguma coisa, antes que seja tarde mas, por agora, a única notícia boa é que o vírus Blair – ideólogo da mentira, do nihilismo da Terceira Via e um dos grandes  responsáveis pelo retrocesso da Europa  - foi afastado da corrida à  presidência europeia. Paz à sua alma.


10 comentários

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De Sérgio de Almeida Correia a 04.11.2009 às 18:37

Carlos,

Vais-me desculpar, mas há uma coisa de que eu discordo: eu acho que o caril, desde que não seja de frango (a única ave de que gosto chama-se Vitória e não é comestível), e se for bem feito, faz bem a tudo. Até para as maleitas que referes.
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De Si a 04.11.2009 às 18:56

Terrivelmente verdadeira esta epidemia, Carlos, e ainda a procissão vai no adro.......

(Um texto brilhante, já agora....)
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De paulofski a 04.11.2009 às 20:44

O pior é que não há vacina que nos valha! C......
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De nwuanda a 04.11.2009 às 21:05

Caro blogger. Bom diagnóstico. Boa metáfora. Bem escrito. Devia no entanto ter falado de potenciais curas. Creio que a forma de nos curarmos da gripe C passa, antes de mais, pela vontade dos agentes injectores do dinheiro, vulgo governos, em sair dela. Tem de se dar confiança aos consumidores. Estes sim precisam de confiar. A gripe é também C, mas de falta de confiança. Os milhões têm de ser canalizados na criação de riqueza para o país, ou seja, para as pessoas que cá vivem. Através de emprego e de bem-estar, mas também cobrando destas o melhor. Quando se quer o melhor temos obrigatoriamente de dar o melhor.

Mais não disse....por agora
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De João Carvalho a 05.11.2009 às 00:45

A gripe também é C de corrupção e a vacina passa pela Justiça.
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De Tite a 04.11.2009 às 21:26

O problema é que ainda há muita gente pouco consciencializada. Até que este vírus lhe bata à porta.
Viver uma gripe A, se tiver e tomar precauções pode sair dela airosamente. E da gripe C? Sair-se-á dela airosamente? Não o creio até pela falta de vacinas adequadas ao seu tratamento.
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De anamar a 05.11.2009 às 00:53

Belo texto, Carlos...
Brincando , se diz uma enorme verdade...
braço
:))
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De Francisco a 05.11.2009 às 11:30

Também ficava bem com C de Corrupção. Mas por momentos temi que fosse de Conspiração.
Certo, certo, e concordando muito consigo, é que se anda a roubar todos para entregar a aqueles que nos colocaram nesta situação por andarem a roubar-nos (a todos) durante os largos anos que nos trouxeram a este ponto.
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De Lúcia a 05.11.2009 às 12:37

bem... deixeid e ler o CR e o Do e quando chego... zás. - CBO na sua melhor forma!
Quem me dera puder escrever assim: 'O texto está bem feito, mas não concordo'!
O texto está bem feito; concordo e acrescento que há uma letargia na sociedade que permite que se faça uma data de coisas.
para além das vacinas, é preciso uma injecção de adrenalina no povo. Injecção C: de cidadania. Isto tb. falta!
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De cristal a 05.11.2009 às 20:57

Fantástico texto Carlos. Não é nada de novo, vindo de si e só o assinalo porque tenho andado muito calada e quero que saiba que passo por aqui e pelo rochedo regularmente. Faz-me bem e ajuda a combater os efeitos dos vírus todos.

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