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Pregar aos chicos

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.10.09
António pregou aos peixes. Este senhor prega aos chicos. O primeiro chegou a Santo. O segundo não aspira a tal, mas tem tudo para isso. A única diferença entre um e o outro é que enquanto o primeiro pregou para os peixes, que o escutaram, o segundo prega para chicos que não percebem o que ele diz porque sofrem de iliteracia. É que apenas aprenderam a conjugar dois verbos na perfeição: sacar e safar. Em mais de trinta anos de democracia este país não viu outra coisa que não fosse uma cultura de chico-espertismo. Uma criança não vai para a escola para aprender. Vai para sacar uma notas que depois lhe permitam safar-se lá fora e assim continuar a sacar outras notas que depois lhe permitam continuar a safar-se. E é assim pela vida fora até à hora da reforma. Alguns há que conjugam esses verbos tão bem que mesmo depois da reforma continuam a conjugá-los: a sacar e a safar-se. De caminho também sacam algum para os filhos e para a família e ajudam os amigos a safarem-se. Na actividade privada ou em empresas públicas, na tropa ou na banca, com os subsídios à agricultura ou os fundos europeus. Sem esquecer a política, onde uma multidão de chicos entra e sai para sacar e safar-se. Do general ao trolha, do banqueiro ao arrumador, do taberneiro ao escritor. É certo que há um tratado que continua por escrever, mas escrever para quê se já todos o leram. Nas entrelinhas. No recato de um gabinete, numa chamada telefónica, num piscar de olhos cúmplice. E alguns há que dominam esse tratado na perfeição. Pouparam o tempo da leitura e safaram-se. Na política houve quem atravessasse todo o arco a safar-se. Da esquerda à direita, de Lisboa a Bruxelas. Um discurso aqui, uns votos ali, um saquezito aqui, uma safadeza ali, uma peúgas para mim, uns bilhetinhos para ti. Ernâni Lopes é um homem bom. António também era. Os homens bons são homens decentes. Pena é que na casa dos chicos ninguém os aponte como exemplo. Se este país fosse educado na seriedade, no trabalho e na honestidade não existiria. Seria um país de homens bons, um país decente. Um país de Ernânis. Não teríamos espertalhões. Não haveria chico-esperto que se safasse, que conseguisse sacar alguma coisa. Os tribunais não serviriam para nada. Nenhum magistrado se safaria. Na carreira, evidentemente. O Conselho Superior de Magistratura seria um corpo espúrio do regime. O Millennium não pagaria dividendos. O Porto nunca teria sido campeão. O Colégio Militar não existiria. Portugal, muito provavelmente, também não existiria como país. Como Camões, Sena ou Cardoso Pires também nunca teriam existido. Eles ainda são hoje, para os sucateiros deste país, para os árbitros, para os senhores que mandam na bola e nos bares de alterne, o exemplo do fracasso. Já de Saramago não dizem o mesmo. Do Diário de Notícias ao Nobel, lá se foi safando: safou-se do PREC, de Cunhal, do PCP, do Ribatejo, das portuguesas e de Portugal. Até chegar a Estocolmo. Escrevendo, ora com vírgulas, ora sem vírgulas, lá se foi safando e sacando os respectivos direitos de autor. Medina Carreira também nunca teria existido, embora haja quem diga que este senhor não existe de todo e que não passa de um fantasma da República. E Cavaco Silva também não seria Presidente da República. Nem José Sócrates primeiro-ministro. Nem eu estaria onde estou. Nem este blogue (nem muitos outros mais) teria conhecido as luzes da blogosfera. Ernâni Lopes, que sabe de economia como poucos, devia meditar nisto. Ele faz-me lembrar alguns juízes, alguns advogados e alguns políticos que vivem fora do mundo. Os gatos fedorentos não existem por acaso. Sacando e safando-se. A mim ninguém me ensinou a conjugar o verbo sacar. E o safar ainda menos. Tenho pena. Por mais que tente nunca conseguirei aspirar a ser um sucateiro respeitável. Ou um "advogado de sucesso". A mim limitaram-se a dizer-me que a decência não pode ser cabulada. A decência não se ensina. Transmite-se. E para isso é preciso tê-la. Como aos tomates. Ernâni Lopes devia ter percebido isto.


10 comentários

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De james a 31.10.2009 às 18:01

Concordo com o Pedro Correia, com uma pequena excepção: enquanto Hernâni Lopes tem obra, Medina Carreira não tem, apenas tem livros brancos e disso estamos fartos.
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De james a 31.10.2009 às 18:10

Peço desculpa de lhe ter trocado o nome, Sérgio.
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De Pedro Correia a 31.10.2009 às 18:36

Excelente texto, Sérgio. E um excelente retrato dos tugas e de Tugal.
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De A. Pais de Almeida a 31.10.2009 às 20:31

Você tinha obrigação de saber quem é Ernâni Lopes e o que o País lhe deve. Ou não?
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De Pedro Correia a 31.10.2009 às 23:29

Se essa era para mim, passou-me ao lado. Não percebi de todo.
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De Luis Melo a 31.10.2009 às 19:14

Mais um filho, que trabalha na empresa liderada pelo pai, que foi nomeado para o cargo pelo primeiro-ministro, mas que obviamente contratou o filho pelo mérito, e nunca por qualquer tipo de cunha, por isso a ética nunca se pôs, porque as capacidades do mesmo dissipariam quaisquer dúvidas.

Mas no final o filho vê-se envolvido num escândalo de corrupção, que envolve a empresa liderada pelo pai, e outras para as quais trabalha, e que vai-se a ver e são do primo, ou do cunhado, ou do amigo de faculdade.

E assim vai este país, à beira mar plantado (prestes a afogar-se) que um dia alguém disse – e muito bem – ser dominado por “chicos-espertos”. Mas pudera, quando somos governados por pessoas desta estirpe…
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De Luis Melo a 31.10.2009 às 19:14

Mais um “chico-esperto”

Operação Face Oculta: Armando Vara constituído arguido

Vara descobriu mais cedo que alguns, que sendo um “chico-esperto” poderia chegar mais longe neste país. Prova disso é a sua chegada ao Governo depois de muito cacique dentro do PS, a licenciatura em Relações Internacionais na famosa Univ. Independente 3 dias antes da nomeação para a administração da CGD, ou a promoção ao escalão máximo de vencimento 6 semanas depois de ter entrado na administração do BCP.

Em Portugal, infelizmente, casos como este eram raros e agora são mais que muitos. E são este tipo de coisas que nos estão a levar para o abismo. Os níveis de corrupção e pouca vergonha estão prestes a chegar aos sul-americanos.

O pior é que nenhum de nós mexe uma palha ou se indigna com este tipo de situações. Porquê? Porque o que queremos não é acabar com isto, é simplesmente fazer parte. Para disfarçar, vamo-nos indignando com Vale e Azevedos e companhia. Esquecemo-nos é que estes nunca tiveram um cargo público e aqueles estão fartos de os ter e de se aproveitar deles para enriquecer iliciatamente e brincar com o nosso dinheiro e futuro.
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De José Ricardo Costa a 01.11.2009 às 08:41

Grande post, excelente diagnóstico. E tem toda a razão nisto: tudo começa na escola.

JR
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De João Sousa a 01.11.2009 às 09:44

Ainda há uns meses, pessoa cujo trabalho implica mover-se no meio da classe política me dizia: "Armando Vara? Armando Vara é do que de mais repugnante foi criado pelo nosso sistema partidário."
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De ariel a 01.11.2009 às 12:29

Grande post caro Sérgio, grande post .

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