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Breve evocação

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.10.09

"Whatever you do will be insignificant, but it is very important that you do it" - M. Gandhi

 

Ontem, no mesmo dia em que era divulgado um relatório sobre a banalização da violência entre os jovens, do qual a edição de hoje do Público faz eco, vi a minha tarde abruptamente cortada pela notícia, esmagadora, avassaladora, da morte às mãos de um pretenso esquizofrénico de uma pessoa amiga e do seu irmão. Mais do que a morte em si, que a todos um dia nos alcança sem aviso prévio, foi a brutalidade do acto, a sua frieza, que me deixou desconcertado. Que pode levar um homem a degolar um seu semelhante, a desferir repetidos golpes de arma branca contra quem não tinha outro meio de defesa do que as próprias mãos, e depois seguir calmamente o seu caminho deixando as vítimas a esvaírem-se em sangue? Conheci o Pedro há quase três décadas, namorava ele com a mulher com quem veio a casar e que lhe deu dois filhos. Depois, com o correr dos anos, fomos perdendo contacto e, ultimamente, tirando uma das últimas vezes em que ele estivera pelo Algarve, raramente nos encontrávamos. Ia sabendo dele por amigos comuns e alguns familiares que amiúde com ele se cruzavam. Quando ontem soube o que tinha acontecido, senti desabar sobre os mais indefesos toda a injustiça do mundo. Dir-me-ão que se tratou de um acto isolado, de um gesto tresloucado. Mas eu não acredito que haja loucura que justifique a violência. As mãos que lhe permitiam cuidar das flores com o mesmo desvelo e a prazenteira amabilidade com que falava a todos os que encontrava nada puderam fazer perante tamanha violência. Sei que de nada servirá, que não haverá conforto que possa valer a quem perdeu os seus em circunstâncias tão inauditas, mas lá, onde estiverem, o Pedro e o irmão podem ter a certeza de que por aqui continuará a haver quem faça da luta contra a violência uma bandeira. Para que ainda que por breves instantes continue a valer a pena tomar um café com um amigo ou fazer uma onda no Guincho. Para que as estrelícias, as margaridas, as gerbérias, as rosas, em suma, para que todas as flores de que eles tanto cuidaram nos últimos anos possam continuar a nascer, a florir e a morrer. Em Cascais ou em qualquer outro lugar. Livres e ternas.


16 comentários

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De João Carvalho a 29.10.2009 às 16:02

Bela evocação, Sérgio. Por insignificante que seja, junto-me a ti. Estou sempre pronto a minorar a selvajaria herdada por alguns homens que ainda conseguem conservar (e manifestar) o mais básico do lado animalesco.
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De Alvaro Redol a 29.10.2009 às 17:00

Não é o lado animalesco do homem de hoje que comete este tipo de crime. O homem enquanto animal predador, mata na defesa do "sua" gruta, mata o concorrente à mesma fêmea, mata na defesa ou conquista dum território, mata na defesa da família ou grupo. Mata por uma razão, mata com um propósito. O assassino do amigo do autor do post, já está muito longe do animal, já está no topo da evolução, é um homem! Não insultemos os animais!
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De João Carvalho a 29.10.2009 às 19:10

Bem visto, meu caro.
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De Pedro Correia a 30.10.2009 às 00:08

Sem dúvida - muito bem assinalado.
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De Paulo Quintela a 29.10.2009 às 16:47

Belissimo texto.
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De Alvaro Redol a 29.10.2009 às 17:15

A violência entre os jovens nada tem que ver com a morte do seu amigo.
A verificada entre os jovens faz parte da natureza humana. Serve para estabelecer hierarquias, é uma aprendizagem para a luta pela vida. É curioso que ela se manifeste tão mais violenta e cruel quanto mais rica e "educada" é a sociedade onde ocorre, e mais elevado o estatuto social dos praticantes.
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De João Carvalho a 29.10.2009 às 19:12

Educação/evolução é sofisticação. Para o bem e para o mal.
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De ariel a 29.10.2009 às 17:24

Trata-se de uma bestialidade inominável. É uma bela homenagem a sua, Sérgio.
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De Luís Lavoura a 29.10.2009 às 17:38

Não ercebo bem o que é que a violência entre os jovens, ou a violência na sociedade em geral, pode ter a ver com um homicídio cometido por um esquizofrénico ou, digamos, um desequilibrado mental. Se o indivíduo é esquizofrénico é de esperar que se guie mais pelos seus próprios problemas mentais do que por quaisquer modelos sociais.
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De Sérgio de Almeida Correia a 29.10.2009 às 18:38

Concordo que a divulgação do relatório não tenha rigorosamente nada a ver com o que ontem se passou. Quis apenas sublinhar a coincidência. Não pretendia discutir ou distinguir as razões da violência, mas tão-só a sua gratuitidade. Todos sabemos que a esquizofrenia tem diversos matizes e que pelo menos numa das suas formas, a hebefrenia , se manifesta normalmente a partir da adolescência. Até que ponto as consolas, os jogos cujo único denominador comum é a violência, um certo laxismo educacional que se manifesta sob a capa de uma aparente modernidade, certas práticas escolares, determinadas praxes que primam pela anormalidade boçal, não contribuem para o aparecimento de personalidades desenquadradas e doentias, é coisa que não sei. Também não sei até que ponto um verdadeiro esquizofrénico pode ser dado como curado e entregue à sociedade, circulando por aí livremente até que aconteça uma coisa como a de ontem. Ou se o apelo à doença mental - não comprovada - não é apenas um modo de desculpabilizar a brutalidade, a perversidade do carácter e a miséria da alma humana quando posta a descoberto.

P.S. Já agora, agradeço o link para o relatório.
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De Maria a 29.10.2009 às 19:59

Sérgio, junto-me à sua dor e compreendo bem a sua reflexão sobre o caso - eu também já perdi um amigo vítima de um esquizofrénico colega da vítima, até eram amigos, aliás, das vítimas porque matou dois e também de forma macabra e mataria mais caso não o tivessem imobilizado e lembro-me que, isto já foi há uns anos (na ilha de Santa Maria, Açores) não foi fácil - esses doentes são muito perigosos e as famílias não conseguem controlar tudo e o que se passou foi que ele não estava a fazer a medicação à revelia do médico e da família – Hoje, em prisão e medicado, sofre desalmadamente pelo que fez. A viúva desse meu amigo culpa mais, os que na altura deveriam ter tido mais cuidado na vigilância da doença, já há muito diagnosticada - no fundo - o sistema que permite esse estado de coisas...
Conheço um jovem, também, com esquizofrenia que se encontra ao abandono da família por esta não ter condições a todos os níveis de cuidar dele como ele carece. Uma assistente social, minha amiga, diz-me que tem travado uma luta com a segurança social e os médicos para o internarem compulsivamente, porque ele não querendo não houve ainda um psiquiatra que quisesse dá-lo como incapaz de estar por sua conta na rua – um sem-abrigo – correndo riscos e pondo em risco as outras pessoas – desistiram completamente do rapaz que neste momento terá uns 25 anos. São situações que eu, também, não compreendo e não me conformo...
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De Alvaro Redol a 30.10.2009 às 11:38

Penso que ninguém pode provar as causa da violência, a não ser as congénitas, as da própria espécie. A única acção que parece controlar a violência é a própria violência. Num regime totalitário há menos violência entre cidadãos do que num regime democrático. Isto porque o chefe, o "alfa", é uma polícia violentíssima. Todos os outros viram-se de barriga para ao ar em sinal de submissão. Há séculos atrás , os esquizofrénicos eram mortos: morta a cobra, acabava a peçonha. Há umas décadas atrás , os esquizofrénicos eram enclausurados em hospícios, eram amarrados, batidos, usavam coletes de força, levavam choques eléctricos. Hoje tenta-se integrá-los na família e na sociedade. O que se fará amanhã para resolver o problema? Talvez apareçam técnicas para os curar.
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De Maria a 30.10.2009 às 12:25

O meu comentário, talvez, possa ter levado a alguém pensar que, porventura, eu alvitrasse o enclausuramento desses doentes...Não, não era isto que eu queria dizer - eu, ao fim ao cabo, só tenho dúvidas -também sou apologista pela integração na família e na sociedade mas com melhores condições de apoio.
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De Leonor Barros a 29.10.2009 às 19:20

Que triste e que revoltante, Sérgio. Um abraço.
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De Pedro Correia a 30.10.2009 às 00:07

Parabéns por este texto tão sentido e comovente, Sérgio. É de facto revoltante assistirmos à banalização da violência no nosso quotidiano, desmentindo todas os arautos de 'progresso'. Infelizmente, no que toca à natureza humana, não detectamos progresso algum.
Foi com um nó no estômago que li estas linhas.
Um grande abraço.
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De NC a 30.10.2009 às 23:07

«Que pode levar um homem a degolar um seu semelhante, a desferir repetidos golpes de arma branca contra quem não tinha outro meio de defesa do que as próprias mãos, e depois seguir calmamente o seu caminho deixando as vítimas a esvaírem-se em sangue?»

A resposta parece-me simples: uma doença mental, ao que julgo saber, incurável e de muito difícil tratamento. Compreendo a sua revolta, este caso é uma verdadeira tragédia. É difícil aceitar que a morte tenha atingido dois homens sãos de forma absolutamente gratuita, tanto mais que aquele que está doente e que, além disso, é um perigo para os outros, ficou vivo. No entanto, se pensarmos bem, temos de concluir que nesta história todos os intervenientes são vítimas. A verdade, nua e crua, é que vida nem sempre é lógica, menos ainda justa. É como é.

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