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Gravidade extrema

por Teresa Ribeiro, em 21.10.09

Se algum filho da puta vier dizer aqui que "os médicos também adoecem e morrem, conforme os coveiros também dão enterros razoáveis, portanto helooow!, qual é o problema?" que fique sabendo que não lhe respondo, que apago o c... do comentário e que, a seguir, rezarei para que esse filho da puta se desgrace e cague torrencialmente sangue, derivado a um divino e grosso toro que lhe penetre a anilha, tão fundamente como puder ser - este é um excerto de um longo post assinado por Besugo, um veterano da blogosfera, médico de profissão. Assumidamente perturbado pela notícia de um cancro que afectou uma sua colega, queixa-se de, entre outras coisas, trabalhar pelo menos, 24 horas por semana - seguidas - na urgência.

A seguir, vêm os comentários. Destaco este: Deste seu post, é só substituir a palavra médico por professor/a e doente por aluno (pesem embora as devidas diferenças). Talvez a partir deste simples exercício lhe seja mais fácil avaliar o que me vai na alma. E este: Cheguei a casa estafado de dois dias de trabalho infernal. Como tu, servidor público, do mundo da Justiça. Li-te e arrebitei. No total são 22, na sua maioria de felicitações, identificando-se com o tom do autor do post.

Convido-os a ler tudo, apesar do tudo, aviso já, ser constituído por um longo chorrilho de impropérios. O interesse está na reflexão que nos propicia tão inusitado desabafo. Há ódio nestas linhas, uma raiva infinita que é fruto de muito ressentimento contra os "utentes". Isto é preocupante e dá muito que pensar.


35 comentários

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De João Carvalho a 21.10.2009 às 11:25

Um absurdo. Ressalvo: se meio mundo anda a passar-se, é altamente provável que isso tenha correspondência em todas as profissões e na própria blogosfera.

O problema é contarmos com profissões que era suposto serem como que sacerdócios, na dedicação, senso e entrega à causa dos outros. Temos de nos pôr a pau e ser mais selectivos, porque os riscos estão a crescer desmesuradamente. O médico em apreço que se trate, para provar do seu próprio xarope.
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De maloud a 21.10.2009 às 11:48

Leio o Besugo há anos (já, já tinha lido o desabafo) e gostava de viver na Régua para o ter como médico. O interesse é tal que já pedi a família e amigos do Douro, alguns médicos, que me descodificassem aquele extraordinário nick.
O João dê uma volta pelo Blogame Mucho e pelo Gravidade Intermédia e julgo que me dará razão.
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De maloud a 21.10.2009 às 19:41

Assim à sorte, João, que eu não tenho muito jeito para estas coisas
http://chumo.blogspot.com/2009/01/um-boi-o-requiem.html
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De João Carvalho a 21.10.2009 às 19:48

Obrigado por me ter facilitado a vida, porque estes dias têm sido de fraca disponibilidade. Assim de repente, achei um bocado surrealista. Mas gostei: é um deambular um tanto vadio, mas muito de autor.
Permita-me que exponha uma suspeita: este para onde fez o favor de me dirigir é de um médico; o é mecionado pela Teresa Ribeiro neste 'post' não é de um médico. Cheira-me.
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De maloud a 21.10.2009 às 20:01

O Besugo é médico na Régua. Durante anos esteve no Blogame Mucho a três, para o fim só ele lá escrevia e depois de um longo silêncio reencontrei-o no Gravidade Intermédia a solo.
No post aqui linkado, acho que ele se passou. Às vezes passa-se. Principalmente com o Sporting. O post anterior tinha aquele laço rosa da campanha do cancro da mama e dizia mais ou menos isto: Vai correr tudo bem.
Os meus lá do Douro julgam saber quem ele é e dizem-me que é uma excelente pessoa.
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De Teresa Ribeiro a 21.10.2009 às 12:43

A questão é: quantos médicos andam a precisar de se tratar? Se algo se infere daqui é que o sistema está profundamente errado e anda a afectar médicos e utentes. Sou muito crítica em relação ao desempenho dos médicos. Entendo que se não têm vocação para lidar com gente, que se dediquem à veterinária. Mas também penso que não podem trabalhar sem condições. Essas horas infinitas de trabalho inimperrupto, por exemplo, não deviam ser permitidas. São um risco para a saúde dos médicos e dos próprios utentes.
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De javali a 21.10.2009 às 12:17

Está deprimido, o tipo. Devia ir ao médico.
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De Teresa Ribeiro a 21.10.2009 às 12:44

O pior, Javali, é se o médico que vai consultar também está deprimido.
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De luís Branquinho a 21.10.2009 às 12:57

O que há mais é profissionais que têm de adiar sistematicamente a resolução dos seus problemas pessoais por falta de tempo. Com a agravante de que têm de andar com a cara alegre, porque dependem de patrões que não lhes perdoam a falta de profissionalismo que é andar de trombas no escritório. Esta cultura é transversal, por isso não me comovem as lamúrias dos médicos, dos professores e dos juristas. So what? Também faço directas a trabalhar e, ao contrário dos médicos, que empocham bem por cada banco que fazem, não ganho um tostão a mais pelas noites que não durmo. Cumprimentos.
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De Ping-Pong a 21.10.2009 às 13:07

A mim, assusta-me este desabafo.

Assusta-me, ainda, que aquele médico destile a sua raiva sobre os doentes quando sabe, ou deveria saber, que sem eles não teria aquela profissão.

Mais, assusta-me que como profissional que é, ou deveria ser, não coloque as questões superiormente. Ou colocou? O quê fez para criticar e pedir que as coisas mudassem? É director de serviço, segundo diz. Logo, terá muita, alguma, capacidade de contribuir para a mudança.

Depois, se a raiva que ele destila tem como causa o que aconteceu a uma colega sua, é pertinente que se pergunte: que raiva devem ter os amigos e familiares dos outros doentes?
Será uma raiva legitimidada, obviamente, atentos os critérios daquele senhor.

Portanto, vamos todos enraivecer-nos!!
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De Pedro Correia a 21.10.2009 às 13:09

Há um filme agora em cartaz, intitulado 'O Dia da Saia', que recomendo. Tem precisamente a ver com este tema da 'gota de água' que um dia chega e faz transbordar o copo. No caso, é uma professora que ultrapassa os limites do suportável, após anos de insultos e enxovalhos, e sequestra uma turma inteira. Acontece em todas as profissões - e, naturalmente, acontece também com os médicos. Pior ainda quando acontece em profissões que envolvem armas de fogo, como sucede com frequência com os polícias.
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De Teresa Ribeiro a 21.10.2009 às 13:17

Lembras bem. Os polícias têm a agravante de andar armados. Felizmente que isto não é como nos States, se não desconfio que ja andaria para aí mais gente aos tiros. Impressionou-me muito a prosa transtornada do Besugo, mas também ler aqueles comentários, de profissionais diferentes a responderem-lhe "amen". Cruza isto com o aumento no país do consumo de anti-depressivos e ansiolíticos e obténs um quadro interessante...
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De Ana Mestre a 21.10.2009 às 14:18

Mas o homem acha que não fica doente??? Coitado está meio lunático...
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De Habituem-se a 21.10.2009 às 14:19

Os médicos estavam habituados à constante reverência dos doentes. Agora estranham, porque felizmente as coisas estão a mudar e as pessoas já os vêem como profissionais como quaisquer outros e cobram-lhes a incompetência quando ela se manifesta. E exigem boas maneiras, que é o que se exige a qualquer um. E respeito que é o que merece um ser humano, sobretudo na doença. Não gostam? Habituem-se!
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De Francisco a 21.10.2009 às 15:04

Tenho os ouvidos um bocado endurecidos para médicos, professores, juristas, enfermeiros, juízes, etc..
Qual será a proporção do stress dos médicos e enfermeiros que decorre de há 4 anos lhes terem dito para lavar mãos - nenhum, todo, algum?
E o stress dos professores? Também terá um contributo de todos terem que trabalhar até depois das 15h? E ter que se preocupar com o serviço que o colega não fez?
E os enfermeiros ainda estão stressados porque a bata não é branca ou porque alguém lhes disse que não podem usar no serviço brincos, fios e relógios?
E os juízes será que estão stressados porque têm que pagar pelos erros grosseiros?
A falta de ética, de brio e de profissionalismo dá nisto: queixas que caem em saco roto - porque o saco está roto; gasto; consumido; cansado e de algibeiras vazias.
Há quem se sente em cima da bola e se queixe que não há futebol e há quem meta as mãos na massa sem pedir nada.
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De Luís Lavoura a 21.10.2009 às 16:34

Li por alto o post e achei horroroso.

O médico tem problemas laborais e, aparentemente, pessoais, e põe-se a disparar em todas as direções, de forma irracional, mas com especial ódio sobre os seus utentes. A chamar filho da puta a todos e mais alguns, como se todos esses utentes tivessem culpa dos seus problemas.

Os utentes do médico não têm culpa de que ele seja obrigado a trabalhar muitas horas seguidas. Tembém não têm culpa de que a mulher do médico esteja com um problema de saúde grave. Também não têm culpa de que o médico não tenha realizado os testes que deveria a tempo e horas - e nem é certo que tais testes tivessem despistado o problema de saúde. Os utentes não têm cumpa de nada disso. Mas, os utentes do médico têm o direito de querer ser bem atendidos, independentemente de o médico andar com problemas ou não. Certamente, os utentes do médico têm o direito de que ele não vá para a internet chamar-lhes "filhos da puta" por atacado.

Enfim, um caso muito triste. Lamento muito os problemas do médico, mas nada justifica este tipo de reação.
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De maj a 22.10.2009 às 05:00

Leu por alto e não percebeu nada.
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De Ana Vidal a 21.10.2009 às 17:54

Impressionou-me imenso este desabafo descontrolado e raivoso contra os utentes e também os aplausos nos comentários. Talvez seja só uma fúria passageira, mas mesmo assim não me inspira a mínima confiança na profissão que está em causa. Sou filha de médica e toda a minha vida assisti a um enorme respeito pelos doentes (que era retribuído), para além de um autêntico sacerdócio que se traduziu no tratamento e assistência a populações pobres que não tinham quase nunca com que pagar as consultas. Uma vida difícil? Muito, mas também muito compensadora a outros níveis. Penso que essa noção de missão, mais do que profissão, se está a perder. E é gravíssimo que assim seja: há profissões especiais, que requerem capacidades e perfis especiais, quer queiramos ou não. O que leio neste post, para além da frustração da falta de condições para exercer a profissão com qualidade, é a frustração da própria escolha da profissão. E isso é preocupante.

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