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O livro

por Leonor Barros, em 21.10.09

Não sendo mulher de fé nem de fervores místicos, a Bíblia, para mim, é apenas um livro. Fundamental na cultural ocidental, inspirador para muitos, crentes ou não crentes, prenhe de uma imaginação delirante em alguns episódios e carecida de uma explicação racional nos mesmos ou noutros, que contudo podem encontrar na sua força metafórica a solução para o irresolúvel nas mentes pragmáticas. Sendo um livro, como qualquer outro, permite a uma pletora infindável de interpretações, tantas quanto os leitores e tantas quanto os contextos sociais, políticos e religiosos o permitirem. A História prova-o e não é por acaso que, regendo-se pelo mesmo livro, existem religiões diferentes, cristãs na sua essência, mas com diferenças substanciais quanto a ritos e práticas, todas elas com um denominador comum: a Bíblia. Se perguntarmos a uma Testemunha de Jeová por que não comemora aniversários ou o Natal, ela responderá porque não está na Bíblia, se questionarmos um rastafari por que fuma erva a resposta será porque está na Bíblia. Sendo para mim um livro, a Bíblia não é mais do que isso, portanto, para mim, descrente, as palavras de Saramago reflectem, além da sua condição de provocador implacável, papel que cumpre com mestria, a literatura deve ser sempre provocação, uma interpretação. A Bíblia pode não ser apenas “um manual de maus costumes”, mas pode também sê-lo se o isolarmos da palavra de Deus. Saramago tem direito à sua interpretação.


18 comentários

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De João Carvalho a 21.10.2009 às 12:01

Não subscrevo integralmente, Leonor, mas vejo aqui uma reflexão muito adequada e, sobretudo, muito serena. Gostei de ler.
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De Leonor Barros a 21.10.2009 às 12:08

Certo, João, eu já sabia que dificilmente concordaremos neste campo. Obrigada
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De João Carvalho a 21.10.2009 às 12:42

Mas é sempre um gosto. Sinceramente.
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De Grifo a 21.10.2009 às 12:02

Ele tem o direito de não interpretar...
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De ariel a 21.10.2009 às 12:29

Muito bem Leonor. Por mim agradeço-lhe esta reflexão serena e lucida.
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De Leonor Barros a 21.10.2009 às 15:59

De nada, Ariel. É um prazer partilhar convosco as minhas cogitações.
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De Pedro Correia a 21.10.2009 às 13:13

Saramago tem todo o direito a interpretar a Bíblia como quiser e a falar dos 'judeus' como falou, com aquele misto de sobranceria e desdém que lhe fica tão mal. E os seus críticos têm todo o direito a contestá-lo. Não há delitos de lesa-majestade quando estão opiniões envolvidas. Mesmo quando os criticados já receberam o Nobel. Ou precisamente quando o receberam.
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De Leonor Barros a 21.10.2009 às 13:30

Obviamente que sim, mas aquilo que perpassa dos comentários e do que tenho lido sobre o assunto é que, de facto, Saramago cometeu um delito de opinião. Pode ter uma opinião estapafúrdia mas tem direito a ela. Sobranceria e desdém não ficam bem a ninguém, com ou sem Nobel, e Saramago não é a mais simpática e afável das criaturas.
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De Pedro Correia a 21.10.2009 às 14:16

Saramago não é, de facto, a mais simpática e afável das criaturas, Leonor. Não gostei, particularmente, da forma como mencionou 'os judeus' nas declarações já prestadas. Escuto sempre uma espécie de campainha de alarme quando ouço alguém referir-se com manifesto desdém aos 'judeus'.
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De CPrice a 21.10.2009 às 14:29

..eu também as ouço, Pedro. Ainda bem que confirmo a "teoria" em audições alheias.

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De Leonor Barros a 21.10.2009 às 16:00

Não ouvi essas declarações, Pedro, mas confio em ti, claro. Embora possa parecer o contrário, nada me move em defesa de Saramgo, só porque é Saramago, mas tudo me move quando são as opiniões e a liberdade que está em causa. Neste caso estão.
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De Leonor Barros a 21.10.2009 às 16:08

O Nobel não traz aos galardoados bom senso e parcimónia se já não a tiverem antes. Só a título de exemplo, Wangari Maathai também disse que o HIV tinha sido criado em laboratório para erradicar a raça negra. Posteriormente retratou-se .
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 21.10.2009 às 13:18

A liberdade de expressão não pode ter tabus. Criticar um livro, não me parece que seja crime, nem causa de reacções inflamadas como as de Sousa Lara e Mário David. Qualquer dia ainda haverá quem proponha que se queimem os livros de Saramago e se condene o homem ao degredo.
Muito bom o teu post, Leonor.
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De Leonor Barros a 21.10.2009 às 13:31

Nem mais, Carlos.
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De Ana Mestre a 21.10.2009 às 14:48

Leonor, concordo que a Bíblia tem uma interpretação diferente de pessoa para pessoa, como todos os livros aliás, mas acho que há maneiras e maneiras de interpretarmos . Para mim, e já o disse, o Saramago está a fazer uma excelente campanha de marketing para o livro...
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De Leonor Barros a 21.10.2009 às 16:02

Claro, aliás, ele consegue-o sempre, porque vai anunciando a "bomba" que vai ser lançada com cada livro seu. Já comecei a ler Caim e parece-me que não está no seu melhor, embora esteja a gostar.
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De Alvaro Redol a 22.10.2009 às 16:04

O desdém com que Saramago fala dos judeus.
A sobranceria e desdém pelos outros povos do seu tempo: samaritanos, filisteus, etc. era uma característica dos príncipes religiosos da Judeia e do próprio Cristo. Leiam-se os Evangelhos , especialmente o de João.

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