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por Luís Naves, em 16.01.20

Estava a ver um jogo de futebol pela televisão e, a certo ponto, disse em voz alta que o treinador devia tirar o jogador fulano. Passados dois ou três minutos, o tal jogador marcou um grande golo que deu a vitória à minha equipa. É simples: não percebo nada de futebol. Claro que sei distinguir uma obra de arte, aquela finta inesperada, seguida do pontapé perfeito que mais parece um poema. Mas, por favor, não levem a sério as minhas opiniões sobre quem deve jogar. Se isto é tão evidente no futebol (ou na medicina), qual a razão de não ser óbvio nas artes? O amador não é entendido e os artistas trabalham para o esquecimento, pois só um felizardo em mil sobreviverá ao juízo do tempo, com sorte à mistura, como aconteceu por exemplo a Fernando Pessoa. Imaginem que Pessoa escrevia ao gosto da época, sem a liberdade artística que teve por ser quase anónimo; que ouvia os conselhos de amigos que sabiam tanto de poesia como eu de futebol (os heterónimos são um disparate, Fernando); ou que, em vez de ser conhecido apenas por um punhado de artistas, o poeta decidisse seguir as modas. Felizmente, ele decidiu a nosso favor, as gerações futuras: o pouco que publicou em vida era inacessível para as massas e muito do que não publicou era demasiado estranho, mesmo para entendidos. Ainda hoje nos parece um milagre.


16 comentários

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De marina a 16.01.2020 às 14:06

Mas todos esses artistas incompreendidos no presente podem continuar a artistar , ninguém os impede. Pessoa escreveu , Van Gogh pintou , e muito bem. O que não podem pretender é que hoje , hoje , presente , a malta pague por coisas de que não gosta. Os herdeiros de Cabrita podem fazer uma pipa de massa no sec. XX , pas de probleme , todos contentes.
E quem selecciona esses instaladores de empreitadas que qualificações tem para avaliar o que será Arte no futuro ? uma bola de cristal ?
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De Luís Lavoura a 16.01.2020 às 14:27

Mas Pessoa escreveu o que escreveu sem que ninguém lhe pagasse nada para o escrever. Foi um homem perfeitamente livre: nas suas horas vagas, bebia vinho tinto e escrevia o que lhe apetecia e achava por bem, e ninguém tinha nada a ver com isso.
É muito diferente de um artista que quer fazer esculturas gigantescas e caras de produzir, e difíceis de expôr ou de guardar porque são muito grandes, e que pede que alguém lhe pague para as fazer. Esse escultor não é perfeitamente livre, como Pessoa - só esculpe se alguém lhe pagar para o fazer.
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De João a 17.01.2020 às 12:31

" escreveu sem que ninguém lhe pagasse nada para o escrever. Foi um homem perfeitamente livre:"
Esquisito! Ser livre sem dinheiro!! Já passei por isso (não ter dinheiro) e não tinha liberdade para fazer nada do que eu gostava. Mais tarde já com umas massas senti-me livre para fazer coisas que eu desejava (não todas porque o dinheiro não chegava). Desculpe lá mas na minha opinião um sem abrigo só tem liberdade para dormir ao relento.
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De João a 16.01.2020 às 14:40

Há dias vi um programa (não me lembro do nome, aparece um Senhor que fala várias línguas principalmente espanhol) na RTP2 sobre cultura. Falava de um pintor que vendia, entre outras coisas, fresquinhos cheios de fezes do dito artista (em espanhol, ele utilizava a palavra mierda). E dizia: tudo o que sai do interior de um artista é arte, ora as fezes sairam do interior do artista, logo são uma obra de arte. Não vejo problema se alguém aparecer a dar milhares ou milhões por um daqueles frascos.
NOTA: eu considero-me artista (tal como o Senhor Cabrita Reis se considera) e vou tentar vender garrafinhas com o meu chichi. Vou pelo chichi e não pelas fezes para não ser acusado de plágio. Tenho esperança de conseguir umas massas.
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De Luís Lavoura a 17.01.2020 às 09:49

Se beber muita água conseguirá ganhar mais massas ainda.
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De João a 16.01.2020 às 14:42

Esqueci-me de uma coisa no comentário anterior.
Ser não for bem sucedido agora, esperarei pela posterioridade tal como Fernando Pessoa. Os vindouros são mais inteligentes.
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De JPT a 16.01.2020 às 14:51

Credo! O artista que faça arte. Ninguém o quer censurar. Mas as ruas têm buracos, têm lixo, têm candeeiros sem lâmpadas, têm erva para podar e grafitis para limpar (mal, pois, também são arte, excepto, claro, se forem no nosso prédio). E o dinheiro público é limitado. Não é para ser gasto (ou investido, tendo em conta os restantes membros da empresa vendedora da coisa) em auto-denominadas obras de arte que nem arte (no sentido de domínio de uma técnica) nem labor denotam. O que Pessoa fez, deu muito trabalho, na liberdade criativa de Pessoa, há muita técnica. Não é uma banana colada numa parede, ou umas vigas alinhadas numa praia, que nem à ferrugem resistirão, quanto mais à linha do mar e ao juízo do tempo (um vindouro verá aquilo como restos de um molhe). Os amigos do autor deviam estar mais tranquilos: há mercado para estas coisas (bancos, berardos e outros burgessos interessados em tralha dedutível em impostos), pelo que não há razão para os contribuintes terem de as pagar e, para mais, de gramar com elas.
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De Luís Lavoura a 16.01.2020 às 15:01

Se isto é tão evidente no futebol, qual a razão de não ser óbvio nas artes? [...] os artistas trabalham para o esquecimento

O Luís Naves faz uma pergunta e logo a seguir dá-lhe a resposta: é que os artistas trabalham para o esquecimento, mas os futebolistas não, eles trabalham para o reconhecimento imediato.

Ou seja, uma boa equipa de futebol marca golos no decorrer dos 90 minutos de jogo, enquanto que um bom artista pode vender poucas obras de arte (e/ou vendê-las baratas) durante a vida, mas as suas obras serão muito caras num futuro longínquo.

Mas o que acontece se um artista, como seja um escultor de exteriores, ou um arquiteto, precisa necessariamente de vender as suas obras para poder trabalhar? Então os critérios passam a ser mais os de um futebolista e menos os de um artista: ele tem que oferecer satisfação imediata ao cliente para poder sobreviver como artista.
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De jpt a 16.01.2020 às 17:10

Tolstoi era uma celebridade, mais ou menos no mesmo tempo. Há sempre, quando se fala nisto, quem fale de Van Gogh. Mas Rafael (o de Urbino) também era uma celebridade. São apenas exemplos, a ideia do desconhecido,anónimo, recôndito recolhido, a quem o futuro pertence é muito limitada. E eu percebo um bocado de futebol, no início de XXI meter duas vigas de metal num parque público e chamar-lhe arte é apenas isso.
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De JPT a 16.01.2020 às 18:51

E quem percebe de futebol, sabe que, antes de mais, é um jogo, pelo que o facto de um jogador se arrastar em campo e, de repente, marcar um grande golo, não prova que o Dr. Naves não "percebe nada de futebol", nem corrobora o juízo do treinador burro que manteve um perneta sortudo em campo. O "chouriço" faz parte do futebol (e da "arte", nem falar). O facto de escolhermos de acordo com as regras da lógica, da experiência e do bom senso não garante o sucesso das nossas escolhas, mas é certamente melhor que a alternativa, como, por exemplo, pagar 300K para espetar uma dúzia de vigas na praia, e contar que os vindouros fiquem embasbacados com a nossa visão artística e probidade cívica.
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De Luís Naves a 17.01.2020 às 12:18

Lá está, além de não ser dr. desconhecia essa história do chouriço. Só se reforça a minha tese: não percebo nada de futebol. Pensava que era uma coisa mais científica...
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De jpt a 17.01.2020 às 12:23

há também a "paiada". Mas a distinção correcta entre "chouriço" e "paiada" está apenas no segredo dos iniciados.
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De Anónimo a 17.01.2020 às 12:31

Desculpe o Dr. (cautela e caldos de galinha). Mas não é por o Neca, ou o Queiroz serem Professores, que o futebol é uma ciência exacta (tal como não é pelo Bambo e o Karamba serem Professores que a astrologia o passa a ser). PS: "chouriço" é um termo muitíssimo comum, mais entre o "hoi polloi" do que entre os que vendem a natureza científica do jogo da bola. “Foi um grande chouriço que definiu o jogo” Vítor Oliveira, 08/09/2017; André Almeida "Chamem-lhe chouriço, eu chamo-lhe crença. Quis fazer golo", curiosamente, no mesmo dia.
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De marina a 16.01.2020 às 17:52

Lorenzo Quinn, Paige Bradley , Zenos Frudakis... para a próxima será possível contratar um destes ? é bestial hoje e será daqui por 200 anos., era capaz de apostar -:)
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De V. a 16.01.2020 às 20:08

As comparações e as metáforas sobretudo entre duas coisas separadas pelo tempo são mistificações do raciocínio, como se diz em inglês, próprias da política e das fantasias que derivam da ideologia — como a própria justificação que Cabrita Reis (de quem sou fã, aliás) oferece gratuitamente às massas incultas. Acho que ele não percebeu, como acontece com as pessoas que se dizem de esquerda, que é esse paternalismo que ofende, não é bem o preço.

Ou seja, fazer uma coisa mais simples para os simplórios lá de Leça entenderem é que ofende, não são os 300 mil euros. Se esses 300 mil euros tivessem sido gastos numa coisa como as que faz para as exposições se calhar não tinha sido graffitada.

Os factos são factos em absoluto.
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De Anónimo a 17.01.2020 às 02:54

"Se isto é tão evidente no futebol (ou na medicina), qual a razão de não ser óbvio nas artes?"

Evidente !? E que raio de suposta comparação. um jogador pode estar a jogar nada e de repente marcar um golo.

O autor julga todos os artistas e todos os "especialistas de futebol" pensam da mesma maneira sobre tudo?

Nem vamos falar de medicina...basta a ver as periódicas manias.

Aquilo é pura preguiça.
Ali não há arte nem sequer a do esforço.
Ali não há arte nem sequer a da inteligência.

Há mais arte no acaso.


lucklucky

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