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Um manual de mau gosto

por João Carvalho, em 19.10.09

Há dois ou três livros cuja leitura considero ser essencial para a vida: a Bíblia e O Capital (deixo o terceiro ao juízo dos leitores) são obras indispensáveis, goste-se ou não do conteúdo e concorde-se ou não com a ideologia, para entendermos o nosso mundo.

Não é preciso ser-se crente para se perceber uma obra que encerra valores que a própria Humanidade consagra, mesmo que alguns não sejam do nosso tempo por estarem hoje consagradas normas social e genericamente dadas por adquiridas. Por isto e por todas as razões, dizer que «a Bíblia é um manual de maus costumes» e ainda acrescentar que é «um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana» é bem mais do que uma ligeireza irresponsável. Saramago é um manual de mau gosto e não é de agora.

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85 comentários

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De Daniela Major a 19.10.2009 às 19:23

Alguém devia dizer isto a Saramago:

This virtue of faith can no man give himself, nor yet any man to another". - Thomas More.
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De João Carvalho a 19.10.2009 às 19:58

Muitíssimo bem lembrado.
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De Afundação Suores a 19.10.2009 às 20:40

Era bom dizer-lhe isso, mas ele não sabe Inglês. Pois se já no Português é o que se sabe...
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De gin-tonic a 19.10.2009 às 21:25

Não é propriamente um tema, dada a sua complexidade, que se possa abordar numa caixa de comentários mas gostaria de pegar numa frase de um conentário do João Carvalho: ""Se há algo qye a Igreja preza hoje em dia (...) é a compreensão e tolerância."
O seu "hoje em dia" leva-me a pensar que concorda que nem sempre foi assim. E não foi...
Cardeal Cerejeira escrevendo a Salazar (1940) após o fim das negociações sobre a Cocordata:
"Eu agradeço-te e felicito-te poe ela, como Patriarca, como português e como teu amigo. Deus te pagará. Nem ele te pôs onde estás, com o poder e o prestigio que tens, senão para que tu O servisses e à sua igreja, para o fazer reinar em Portugal".
Em 1946 o mesmo Cardeal dizuia a Salazar:
"mais do que ninguém precisas das luzes de Deus e da protecção de Nossa Senhora, contra os perigos de toda a ordem que te ameaçam e a todos nós, e para bem guaires o barco português nos dificeis caminhos do presente. Precisas de levar ao fim, na inteira fidelidade a ela, a missão que Deus te deu..."
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De João Carvalho a 20.10.2009 às 10:13

É evidente que a Igreja não foi sempre o que é hoje em dia. E o exemplo em Portugal no Estado Novo é coisa nenhuma, se comparado com a Inquisição e por aí fora.

Porém, já que falou no comportamento do antigo cardeal-patriarca, vale a pena referir um caso por oposição, para sermos justos e que V. esqueceu ou não quis lembrar: o caso do bispo do Porto, que desafiou Salazar apenas em nome da solidariedade para com a pobreza e acabou exilado durante dez anos.

Isto serve para recordar que houve sempre homens bons, mesmo nos piores momentos. Por exemplo: fala-se muito de várias ditaduras terem sido apoiadas pela Igreja, mas esquecem-se muito as que desafiaram ditadores, já sem falar na quantidade de mártires religiosos que lutaram por grandes causas.
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De Daniel João Santos a 19.10.2009 às 21:32

Não tenho capacidade para acompanhar a genialidade de Saramago... graças a Deus.
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De João Carvalho a 20.10.2009 às 10:13

Pois, pois...
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De rafael a 19.10.2009 às 23:41

Quando comecei a ler o post, pensei que os comentários versassem sobre as palavras de Saramago, mas depois de los ler, parece-me ter havido uma inflexao para discutir a religiao e os seus actores terrenos.

Quanto a Saramago, que prezo como autor, parece-me, pela pequena descriçao lida no Publico, que incorre no mesmo erro: confundindo acçoes com ideias e principios morais (espero que a palavra nao seja inapropriada...).

Saramago critica a guerra santa e a atitude da igreja face aos povos de manipulaçao de vontades (e tem razao), mas esquece-se que muitos do que sao considerados os valores mais nobres da humanidade também se inscrevem na Biblia.

E quanto ao papel social da Igreja nos dias de hoje, -sem esquecer afirmaçoes que chegam a ser criminosas de alguns das suas mais altas figuras- como aafirmar que o caminho da luta contra a sida passa pela abstinencia ou pela monogamia, dizendo que o preservativo até pode ser fonte de contágio- mas pensando no que sao muitos padres, freiras e leigos dedicados, podemos concluir que sem muitos destes "catolicos de base", inspirados justamente no tal "manual de maus costumes", o mundo seria muito menos solidário e fraterno, em suma, seria um mundo pior.

Quanto a ele nao acreditar em Deus e achar a Biblia e outros livros religiosos uma parvoíce, está no direito dele e é livre de o dizê-lo, é o que pensa. Mas meter tudo no mesmo saco, é que parece mal...
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De João Carvalho a 20.10.2009 às 10:16

Como é evidente, subscrevo, Rafael.
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De Anónimo a 20.10.2009 às 00:26

É o que tenho dito: é preciso descer à profundeeza da caixa de comentários do delito para ler este ping-pong delícioso:)
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De João Carvalho a 20.10.2009 às 10:17

V. é ping ou pong?
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De Alvaro Redol a 20.10.2009 às 11:42

Saramago não critica nem ofende nenhuma das religiões apoiadas na seleta judaica de costumes, tradição oral e escritos que se chama Bíblia . Apenas opina (e quanto a mim com verdade) que esta Bíblia é um manual... etc., etc..
No Estado Novo, a sua leitura não era proibida, mas não era incentivada, antes pelo contrário. Ainda hoje, quantos católicos leram a Bíblia ? Quantos sequer conhecem para além dos episódios mais folclóricos?
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De João Carvalho a 20.10.2009 às 11:58

É a sua opinião.
Saramago critica razoável e legitimamente e ofende desnecessária e gratuitamente. Ainda por cima, mistura a Bíblia com maus comportamentos da Igreja.
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De macarvalho a 25.10.2009 às 21:41

Naturalmente que a Bínlia não é para ler de empreitada, nem é um mero romance. Mas nunca um manual de maus costumes, como abusivamente foi apelidada, de forma feroz e totalmente desrespeitosa.
Mas, falar agora de alguns episódios folclóricos?. Essa, para mim, é novidade. Quanto respeito nestas simples palavras!
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De Adolphe Artin-d'Équin a 30.08.2014 às 12:57

Cinco annos volvidos respondo:

Um Catholico―contrariamente a um Protestante―não tem o dever de ler a Biblia.

Se alguem aqui ler qualquer volumosa obra antiga, não entenderá grande parte do que se encontra escripto. Eu sou historiador, e por isso sei reconhecer grande parte das referencias dos Lusiadas e do Quixote, por exemplo. Mas sempre me maravilho, ao ler textos criticos, com pormenores que me passaram despercebidos. E isto são duas obras extraordinariamente accessiveis.

Se se offerecer as tragedias gregas a um qualquer cidadão commum―ou mesmo commedias como a Lysistrata de Aristophanes, cuja subtileza passará largamente despercebida―elle não entenderá metade do texto. Não possui, simplesmente, conhecimentos sufficientes.

Se se offerecer o corpus de Platão a qualquer cidadão commum―sensivelmente do mesmo volume que a Biblia―elle do mesmo modo não entenderá practicamente nada. E uma cousa é decorar e saber recitar Platão. Outra totalmente differente é saber imaginar problemas philosophicos.

Exactamente o mesmo vemos com a Biblia. Por alguma razão temos a exegese e a Alta Critica biblicas. Por alguma razão escreveram os bispos dos primeiros seculos uns aos outros, perguntando e dando palpites quanto a como interpretar trechos das Escripturas.

Por alguma razão entendeu o proprio Luthero na decada de 1520 que para realmente se entender a Biblia esta tem que ser lida no original―afastando-se totalmente dos textos traduzidos para o vernaculo que antes defendera.

O paradoxo actual é a arrogancia extrema de uns e a ingenuidade quasi enternecedora de outros de accreditar que as pessoas teem capacidade intellectual para ler Platões e Biblias e entender o texto.

Eu sou historiador; e em conversas com historiadores amadores e outros apaixonados cinco minutos bastam para lhes fazer ver todo o seu amadorismo: fazem sempre as perguntas erradas. Não basta ler muito para saber. O mais importante é saber fazer as perguntas certas.

Do mesmo modo, cinco minutos de conversa com um competente philosopho ou theologo são sufficientes para me mostrar o quanto eu, da forma mais fundamental, sou como o historiador amador quanto a estes themas, que apprecio e estudo immenso, mas―eis a questão―como amador. E querem alguns ler a Biblia...

O problema, claro, é que tantos hoje julgam que sabem tudo. E gostam de citar por exemplo philosophos sem os entender.

Qualquer amador erudito necessita um bom philosopho, um bom theologo, ou um bom historiador para que lhe expliquem afinal a causa das cousas.

Mas isto não é reconhecido. As pessoas julgam que estes themas elevados são como o futebol. E todos querem dar a sua opinião, em vez de perguntar. A falta de humildade é gritante.

Os Catholicos portugueses, na decada de 1930, condenaram da forma mais vehemente o fascismo italiano e o nazismo allemão―ao poncto do embaixador relatar a Berlim que a influencia Catholica, no regime e fora d'elle, impossibilitava qualquer desenvolvimento de uma politica nazificante desejada em Berlim.

Na mesma epocha, o Cardeal e o Presidente do Conselho tiveram conflictos sobre o papel do Christianismo na sociedade, particularmente nas Forças Armadas e na Mocidade Portuguesa, com o primeiro sempre tentando dar um character o mais possivel Christão a esta.

Que sabe Saramago sobre tudo isto?

Que saberá Saramago sobre a Inquisição? Que sabe elle sobre como eram julgados os homens? As mulheres? Os clerigos? Quem era multado? Preso? Exilado? Quantos eram afinal condenados à morte?

Que saberá elle por exemplo sobre o clima, as colheitas, os preços da comida, a criminalidade na sociedade e... as penas da Inquisição―e como tudo isto estava relacionado?

Que saberá elle sobre as differentes penas applicadas a um clerigo em Portugal, a um Christão-velho na metropole, a um indio no Brasil ou a um indiano na India pelos mesmos delictos?

Que saberá elle, afinal, sobre o Sancto Officio? Pouco mais que os restantes leitores, o que equivale a dizer practicamente nada...

Enfim, desisti de discutir certos themas em 4300 characteres. É como discutir o fazer amor com um menino de sete annos: um exercicio absurdo. Apenas se pode tentar explicar. Mas a maior parte não quer ouvir: quer opinar apenas. E por isso não faz perguntas.

A falta de humildade é gritante.
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De rosa a 20.10.2009 às 15:47

Saramago está velho e ganhou 1 p. Nobel-logo é "inimputável". Aliás tenho a ideia que ele menciona isso na entrevista: que não se importa de incomodar!A mim (para além da ofensa gratuita) o que me faz impressão, é que Saramago parece ter deitado "o bebé junto com a água do banho" e isso é triste.A biblia tem cenas horríveis , é certo, mas está repletas de coisas muito interessantes. Por alguma razão, ainda desperta toda esta paixão, tendo sido escrita há tanto tempo...
Sei que o post já vai longo,mas ...ler o capital??Aquilo é tão grande, e tão impenetrável...!
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De João Carvalho a 20.10.2009 às 16:05

A opinião é meramente minha, Rosa. Mas acho importante 'O Capital', a par da Bíblia, para entendermos o mundo em que vivemos.
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De rosa a 22.10.2009 às 00:04

Mas está muito acompanhado, nessa sua opinião!
Quero dizer, já li/ouvi, muitas vezes essa mesma opinião...principal/te com o acontecer desta ultima crise... O queria mesmo saber (se ñ for pedir muito) era: ñ é muitoooo difícil de ler, o capital...(ou serei eu k sou preguiçosa)?
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De João Carvalho a 22.10.2009 às 01:23

É a Rosa que é pregioçosa, sim, Nem tentou. Não é propriamente um conto que se leia de um fôlego, mas não é impenetrável como parece. Torna-se interessante, se souber lê-lo em jeito de consulta-aqui-consulta-ali.
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De rosa a 23.10.2009 às 01:07

...bocado como ler a Biblia, então? :)
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De Gin-tonic a 20.10.2009 às 19:32

Não esqueço o papel do Bispo do Porto, nem de muitos outros padres no combate à ditadura, tão pouco o de outros padres espalhados pelo mundo, principlamente na América Latina. Mas o João Carvalho fez bem em colocar o reparo. Como disse: é muito dificil discutir assuntos deste melindre numa caixa de comentários.
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De João Carvalho a 20.10.2009 às 20:11

Sem dúvida que é difícil, mas esta abordagem sucinta em textos fáceis de ler também é um desafio. Especialmente quando o fazemos com elevação, por grande que seja a discórdia.
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De Ai Jesus a 21.10.2009 às 00:34

Ping-pong não está bem escrito, João? É isso?
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De João Carvalho a 21.10.2009 às 00:48

Há quem escreva de outra maneira, mas eu gosto assim. Porquê?
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De Anónimo a 21.10.2009 às 00:53

Perguntou-me lá em cima: "V. é ping ou pong?"

Pensei: queres ver que deste um erro!?
Já me habituei a vir aqui aprender a escrever correctamente consigo:)
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De João Carvalho a 21.10.2009 às 11:41

V. falou em 'ping-pong', o que implica um 'ping' de um lado e um 'pong' do outro...

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