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Como disse?

por Ana Vidal, em 13.10.09

 

Anda meio país indignado com este video que surgiu no omnipresente YouTube e foi exibido num programa de televisão brasileiro (Saia Justa), em que uma cara bonita - e burra, pelos vistos - das novelas brasileiras exibe à exaustão a sua boçalidade e confrangedora ignorãncia. Eu, que já conhecia o video há uns dias - pela mão de um amigo que, tal como eu, tem amigos no Brasil que muito preza - fiquei espantada ao ver que o fenómeno atingiu proporções tão disparatadas como as patetices que Maitê Proença diz para a câmara, a ponto de ter honras de telejornal em horário nobre. Pergunto-me para quê tanta agitação e tanta importância dada a tão pouco: qualquer pessoa pode fazer um video caseiro e pô-lo a circular no YouTube, por mais irrelevante, patético e ignorante que seja. Vale o que vale.

 

Não altera em nada as relações entre Portugal e Brasil que uma figurinha mediática desconheça o estilo manuelino, que não saiba distinguir o rio do mar, que ignore que o pátio de um mosteiro se chama claustro ou até que subtraia trinta anos à ditadura de Salazar. Não faz ruir pontes culturais entre os dois países que a mesma criaturinha se divirta com os túmulos de Camões e Pessoa depois de uma indigestão de pasteis de Belém. Não belisca nem a superfície da dignidade da mais ínfima pedra dos Jerónimos que ela acabe a sua exibição a cuspir numa fonte histórica. Enfim, não nos devia aquecer nem arrefecer que Maitê Proença pense que todos os portugueses se chamam Manuel e Maria, são padeiros e ainda usam fartas bigodaças ou lenços pretos sobre carrapitos. A ignorância é dela, o preconceito é dela, a figura triste é dela, a pobreza de espírito também. Não somemos a todos estes atributos uma importância que ela não tem, indignando-nos como se a sua opinião fosse decisiva nas nossas vidas.

 

Sejamos magnânimos, dando a Maitê o benefício da dúvida de uma outra explicação, apesar de tudo menos penosa para os seus pobres neurónios: talvez o romance com um famoso romancista português lhe tenha corrido mal e ela queira apenas vingar-se, atingindo pelo caminho (por falta de pontaria, provavelmente) o resto dos portugueses.

 

Nota - Já não acho tão irrelevante que um programa de televisão dê cobertura a esta brilhante "peça jornalística", mas o jornalismo - lá como cá - parece andar pelas ruas da amargura.

 

Adenda: A saga continua. Maitê Proença pede desculpas e diz que não queria ofender ninguém (??). E depois acrescenta, sem perceber que volta a ofender toda a gente, que o Saia Justa  é um programa de "humor inteligente". Pronto, está tudo explicado: somos nós que não percebemos o humor inteligente dela. Seja como for, cá para mim esta saia ficou bem mais justa com a saída de Rita Lee e de Marisa Orth.

 

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43 comentários

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De João Manuel Vicente a 14.10.2009 às 01:43

Sabe o que lhe digo?

É que por cá o que mais há é um patrioteirismo musculado e alarve. As brutalidades e boçalidades que em reacção ao filme da Maitê vi estes dias na blogosfera e nas caixas de comentário quase que me assustaram!

Acho que a Maitê, numa liberdade que eu nunca me lembraria de lhe negar - para mais só pelo facto de ele não ser uma das nossas, ou seja, uma compatriota -, disse o que bem entendeu dizer e se acaso no meio de muitas verdades tenha dito algo mais "ofensivo" (o que não julgo), está no seu pleníssimo direito.

Ninguém tem de se ofender. Aliás, teremos todos de não nos levarmos tão a sério, somos tão bons ou maus como quaisquer outros.

Rir de nós próprios e relevar o humor dos outros relativamente a nós é tão só um sinal de maturidade e inteligência.

E sabe o que é que esta reacção musculada me faz lembrar? Aquela das caricaturas do Maomé, do sacrilégio que se não poderia sequer brincar com aquilo.

Credo! Infelizmente está a ser a própria reacção portuguesa a este filme da Maitê que lhe está afinal a dar razão no que respeita ao tom com que em geral falou de nós no seu filme...
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De Ana Vidal a 14.10.2009 às 11:38

Sabe o que lhe digo? Não se apresse a dobrar a espinha. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra...

Concordo inteiramente consigo, em princípio. Rirmos de nós próprios, não nos levarmos tão a sério e reconhecermos as próprias fragilidades é um excelente e saudável exercício. O que não vejo é como aplicá-lo neste caso de Maitê Proença, porque não vejo onde estão essas verdades que você encontra neste video. Para isso eu teria de levá-la a sério a ela, o que também não acho que valha a pena.

Mas se partirmos do princípio que cada um tem o direito de ofender quem quiser, também teremos de admitir que as reacções que provoca sejam proporcionais. Eu só acho que tanta asneira junta não chega a ofender-nos, e não reconheço a Maitê autoridade ou importância para fazê-lo.

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De 100anos a 14.10.2009 às 02:24

É bonita e é burrita: tem atenuantes.
Nunca será uma intelectual, mas é maldade pura escarrapachar-lhe isso naquela carinha tão laroca.
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De Ana Vidal a 14.10.2009 às 11:39

Não faz mal... ela nunca vai perceber.
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De mdsol a 14.10.2009 às 09:02

Ana
Completamente de acordo com o que diz. Sensato e essencial. No fim de contas, quem fica mal na fotografia (neste caso vídeo) é a senhora em questão. Quero lá saber...
:)))
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De Leonor Barros a 14.10.2009 às 09:54

Subscrevo, Ana.
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De Teresa Ribeiro a 14.10.2009 às 10:09

A cuspidela, confesso, irritou-me. Mas tens razão. O melhor é fazer mentalmente o mesmo em relação a essa tonta, que deve estar a descontar em nós todos alguma dor de corno.
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De Ana Vidal a 14.10.2009 às 11:41

A cuspidela é de um mau gosto atroz, concordo. Sugiro uma multa pesada, a favor da conservação dos Jerónimos... ;-)
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De ariel a 14.10.2009 às 10:30

Tem razão Ana, tudo o que ela diz são inanidades que não merecem um segundo sequer de atenção. Agora a cuspidela, lamento imenso, é de um mau gosto tão alarve, que não consigo deixar passar em claro.
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De Ana Vidal a 14.10.2009 às 11:42

Concordo, e até já apontei um castigo adequado...
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De Amêijoa Fresca a 14.10.2009 às 10:42

A relação desproporcional entre a inteligência e...

A sabedoria aloirada
com sotaque brasileiro,
numa conversa marada
de conteúdo foleiro.

Tanta estupidez natural
roçando a anormalidade,
de um saber miniatural
fedendo a imbecilidade.
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De Ana Vidal a 14.10.2009 às 11:43

Pois é, Amêijoa. Não se pode ter tudo, não é?
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De patti a 14.10.2009 às 10:48

Oh Ana e ainda para mais um verdadeiro português não cospe assim!
É um acto ancestral, muito mais rebuscado vindo do fundo do peito.
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De Ana Vidal a 14.10.2009 às 11:44

LOL. Claro Patti, estou contigo: é uma ofensa à cuspidela nacional!
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De mdsol a 14.10.2009 às 11:48

ahahaha Boa Patti!

:)))
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De patti a 14.10.2009 às 10:54

Oh que querida, afinal a Maitê é uma grande brincalhona e veio a correr pedir desculpas aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=l5laQamJIQo&feature=player_embedded#
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De João Carvalho a 14.10.2009 às 11:28

Não posso estar mais de acordo. Nós por cá passámos a vida a contar anedotas básicas sobre brasileiros, não é verdade?

As nossas televisões é que estão a deixar-nos mal. Onde é que já se viu este episódio ter honras de telejornais?
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De Ana Vidal a 14.10.2009 às 11:44

Isso é que eu não entendo mesmo, João.
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De ariel a 14.10.2009 às 16:10

Oh João, é verdade que contamos anedotas de brasileiros, como contamos anedotas de alentejanos etc e tal. Os braseiros contam anedotas dos portugueses e algumas com imensa graça já as ouvi até da boca do Jô Soares. É óbvio que sendo ele uma figura publica e um profissional, não se lembraria de fazer afirmações de tal boçalidade a armar o engraçado num programa da televisão, rematando em beleza com uma cuspidela merdosa , que isto e só isto, buliu comigo. Serei provinciana? Seja. Agora estou de acordo que não merece honras de telejornais, mas estamos em época defeso e à parte os gatos fedorentos , há pouco mais com que nos entreter.
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De João Carvalho a 14.10.2009 às 16:39

Claro que sim. Mas a última coisa que o defeso devia consagrar seria dar honras de espaço informativo à falta de senso da matéria merdosa em apreço. A coisa corre o risco de ficar ela por ela em matéria de senso, se tratada deste modo.

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