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Confissões de uma bibliófila incurável

por Leonor Barros, em 10.10.09

O meu problema com os livros é que gosto de livros e gostando de livros não me fico apenas pelo mundo que albergam nas letras em carreirinha páginas fora até ao último ponto ou derradeira palavra. Gosto do livro, do objecto, das letras na contracapa, das capas e gosto de me sentir acompanhada por eles. Seria incapaz de viver numa casa sem livros. Caso que me queiram infligir um castigo maior, podem fechar-me num espaço despojado de livros. Por oposição, um espaço coroado de livros oferece-me a tranquilidade longe do mundo como se não tivesse havido ontem nem amanhã acontecesse, o tempo pairasse indelével entre estantes e lombadas e Cronos abrisse um parêntesis na sucessão de momentos a que se convencionou chamar dias ou meses. Mas o meu problema com os livros é que gostando deles perco-me até por edições novas das mesmíssimas obras, as mesmas que li e que tenho, apoderando-se de mim um misto de gula de os devorar e de luxúria de os possuir. Aconteceu-me mais uma vez quando me cruzei com a última edição de Os Cus de Judas a propósito da comemoração dos trinta anos de carreira literária de António Lobo Antunes. Um ímpeto irresistível que me levou a passar-lhe os dedos sobre a capa levemente rugosa e a tentação das tentações: o perfume único que exalam as páginas acabadas de imprimir. O livro é o mesmo, o mesmo que terei lido há cerca de trinta anos, o miolo apenas com pequenas correcções fixadas na edição ne varietur que também tenho em casa, por sinal autografado pelo autor num dia de calor à sombra dos jacarandás. E lá veio a gula, logo a seguir a luxúria. Decididamente tenho um problema com os livros.

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13 comentários

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De Teresa Ribeiro a 10.10.2009 às 19:10

Tantos pecados juntos. E tão bons :)
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De Leonor Barros a 10.10.2009 às 19:18

Já que é para pecar, Teresa, que seja com os bons :)))
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De Ana Vidal a 10.10.2009 às 21:18

Percebo-te bem, Leonor. Também não concebo uma casa sem livros, nem livros que não sejam abertos.
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De Leonor Barros a 11.10.2009 às 10:35

Inconcebível, Ana
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De mdsol a 10.10.2009 às 22:50

Entendo-a Leonor. Os livros são um refrigério imenso.

:))
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De Leonor Barros a 11.10.2009 às 10:35

Eu sabia que iria entender :-)
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De João Carvalho a 11.10.2009 às 01:52

Pronto, eu confesso. Há uma loja que ponho acima de uma livraria: um alfarrabista. Só o cheiro é que não: o aroma da impressão fresca é inigualável.
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De Leonor Barros a 11.10.2009 às 10:24

É, não é, João? Aquele cheirinho é irrestível
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De Chloé a 11.10.2009 às 02:57

Belo texto! E estou em total sintonia :-) Achei graça à invocação d' Os Cús de Judas ', lembro-me de ter acabado de sair (a 1ª vez...) e de o ter oferecido como presente de anos a um amigo. Foi a provocação e a cobiça geral do jantar (já passaram 30 anos? Nããão !)
O pior dos problemas é onde arrumar tantos e tantos volumes? Acabarão a invadir a cozinha e o q.b - já me vaticinaram :)
Acho que era a Françoise Sagan quem dizia que os livros eram bens transitórios, passava-os, emprestava-os sem problemas, achava ser assim que cumpriam a sua função.
Pois isto pica-me a consciência regularmente. Porque eu sou precisamente ao contrário e admiro essa atitude de extrema abnegação... Para mim os livros são os meus livros, dão corpo a conquistas, a fases da vida, a momentos, a pessoas que não figuram neles mas moram lá dentro. E são o meu pedaço, muito meu, do autor. É lamentável, eu sei, mas tenho um forte instinto de posse sobre eles, assino-os logo com medo de ser expropriada e só empresto a 4 ou 5 pessoas contadas ( e mesmo assim com uma lista feita à socapa). Disgusting :(
Gato escaldado...
Pior, pior é que depois também compro, compro, mesmo quando ainda tenho uma pilha no quarto que ainda não consegui abater.. Hoje em dia leio mais devagar: tenho menos tempo e tornei-me numa leitora gourmet , slow food :) Já não conseguiria ler o Quarteto de Alexandria numa semana, como me aconteceu.. há 30 e muitos!
Às vezes penso que a minha descendência, daqui a 50 anos, pode ficar a conhecer-me como num raio X através da minha biblioteca!
PS- E aquelas salas giríssimas, em casas riscadas pelo arquitecto XPTO , decoradas na última vaga pela decoradora OTPX , onde não enxergamos um livro?!?! Ou pelo menos um livro com ar de ter sido consumido. Chega-se ao ponto de serem de gente que lê, mas esconde os livros, que o minimalismo manda sacrificar aos espaços esconsos. Nunca compreenderei, são espaços que não têm alma.
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De Leonor Barros a 11.10.2009 às 10:35

Obrigada, Chloé O espaço é um problema, cá em casa só não há livros na cozinha, embora gostasse de ter lá uma estante para os de culinária.
Já passaram 30 anos sobre a primeira edição de Os Cus de Judas e também já emendei o post porque eu não o li logo, só uns anos mais tarde, mas poucos mais.
Discordo da Françoise Sagan , é que se há coisa que é para sempre são os livros. E quanto ao resto, essas casas minimalistas enfadam-me de morte, seria incapaz de ter uma casa sem livros e assim despojada, não que a minha seja vitoriana, mas pelo menos livros há e muitos, além de objectos que vou trazendo das minhas viagens.
Com a passagem do tempo estou menos possessiva com os livros, embora só os empreste a quem saiba que mos devolverá no fim. É engraçado porque às vezes empresto livros aos meus alunos e eles regressam sempre. Gosto que os meus livros sejam lidos por outras pessoas também, mas é verdade que não os empresto de qualquer maneira
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De Pedro Correia a 11.10.2009 às 21:06

Como eu te percebo, Leonor. Tenho o mesmíssimo problema. É uma espécie de doença. Incurável.
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De Leonor Barros a 11.10.2009 às 21:28

Incurável, Pedro.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 12.10.2009 às 12:24

Já não sou o consumidor compulsivo de livros de outros tempos, mas tenho o mesmo problema de espaço. Para não me separar dos meus livros, que já não cabiam em casa, ofereci umas centenas à Junta de Freguesia, para uma biblioteca a criar. Era uma maneira de não me separar deles e saber que podiam ser úteis a outras pessoas.
Não compreendo pessoas como o VPV que afirmam com total desprendimento, que o destino que dão a muitos livros é o caixote do lixo!

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