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Delito de Opinião

Prever o futuro nos Andes

Carlos Barbosa de Oliveira, 08.10.09

                 San Martín de Los Andes

 

Fevereiro de 1994.
Acabara de chegar a Tucuman, última etapa antes de penetrar nos Vales de Calchaquies e rumar a  Salta para uma viagem no Tren a Las Nubes.
Depositadas as malas no hotel, fui jantar. Na altura de pagar a conta entreguei pesos argentinos e recebi, como troco, um conjunto de notas - que me fizeram lembrar os “remimbi” chineses - onde se lia: “Circulação válida apenas para as províncias de Salta e Tucuman”.

Perguntei ao empregado o que queria dizer aquilo. Chamou o gerente que me explicou, então, que face à grave crise financeira da província, o governo local fora autorizado a emitir moeda com circulação restrita às províncias de Salta e Tucuman. As notas tinham valor igual ao peso, mas só podiam circular naquelas províncias, não podendo ser utilizadas em mais nenhuma parte da Argentina. Ou seja, o dinheiro que circulava por ali era uma espécie de dinheiro do Monopólio que apenas tem valor quando jogamos.

Tren a Las Nubes

 

Andei por Salta durante duas semanas sempre a pagar e receber dinheiro falso. (Admito que haja um termo técnico mais apropriado, mas a realidade é que se tratava mesmo de dinheiro virtual, uma vez que não tinha valor em mais nenhuma província argentina). Fiquei entretanto a saber que a maioria das empresas pagava os seus salários com aquela moeda.
Em Cafayate, uma pequena localidade cercada pelos Andes, maioritariamente habitada por índios, hospedei-me no único hotel existente. Na altura de pagar a conta, pretendi fazê-lo com moeda local, mas não aceitaram o pagamento e exigiram que pagasse com cartão de crédito ou em pesos emitidos pelo banco central. Perguntei a dois empregados como eram pagos os seus salários: em moeda local, responderam-me.

Foi então que percebi como o esquema funcionava. O hotel recebia em dinheiro real e pagava aos empregados com “notas de Monopólio”. Justificava a sua actuação, alegando ter de pagar os impostos em moeda “real”!
E como fazem os habitantes de Salta quando viajam, pela Argentina? – perguntei a um funcionário de um banco.

 

Quebrada de Humahuaca (Andes)

 

 

A resposta meio envergonhada, embrulhada em sorrisos de celofane, fez-me adivinhar o futuro.
"Aqui as pessoas viajam pouco, porque esta é a província mais pobre da Argentina. Mas se tiverem necessidade de o fazer, podem trocar o dinheiro no banco. "
E como é feito o câmbio?
- Por cada quatro pesos locais, recebem um peso federal!
Por momentos, pensei-me a viver uma aventura de Lewis Carrol, uma versão melodramática de "Alice no País das Maravilhas" . Recuperado do choque, antevi o futuro da Argentina.
Sete anos mais tarde, no quarto do meu hotel de Buenos Aires, em vésperas de Natal, impossibilitado de regressar a Portugal para passar a noite com a família, pude reviver o pesadelo anunciado  por um funcionário de um banco, à mesa de um restaurante em Tucuman.

 

Bancos assaltados, supermercados pilhados, ruas transformadas em campos de batalha, famílias prósperas à beira da ruína, um povo inteiro em banca rota, em fúria contra Caballo e Menem
De um dia para o outro, a próspera Argentina cantada em loas por Bush pai, como exemplo a seguir, despertava para a realidade, desaguando no oásis da miséria.
Durante quase um mês vivi dentro do Corralito. Soube o que era ter de me levantar às 3 da manhã para ir para uma fila de um banco levantar 250 pesos, que me tinham de dar para a semana inteira, porque não era possível levantar mais dinheiro
Conheci a inutilidade dos cartões de crédito e dos telemóveis. Sobrevivi. E vivi momentos mágicos no meu país azul celeste. 

Na Europa  e nos EUA não aprenderam nada com o Corralito. Foi pena, porque nos poderiam ter evitado alguns dissabores. 

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