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Freepost

por Carlos Barbosa de Oliveira, em 29.01.09

Portugal não é apenas esse país exótico que inventou os PIN para viabilizar projectos turísticos, comerciais  ou industriais  em áreas protegidas, ou  altera um PDM num piscar de olhos, para proteger a actividade de um sucateiro cuja influência pode ser importante no resultado eleitoral de um concelho recôndito.
Portugal é o país do “jeitinho”, do “empenho”, ("ó sr doutor, se me arranjasse qualquer coisa ao miúdo que anda há dois anos ao alto sem  conseguir trabalhar… Obrigado stôr"), onde (quase) ninguém já acredita ser capaz de mostrar o seu valor se não tiver um encosto, um padrinho, uma “cunha”.
Mas Portugal é, também, um dos países europeus onde os cidadãos mais fogem ao cumprimento dos seus deveres fiscais, utilizando as mais imaginativas artimanhas para iludir o Fisco.
Em Portugal, não é só o merceeiro que rouba no peso do fiambre. Também o médico ou o advogado evitam passar recibo sobre os seus serviços e, quando lho exigem, vai de carregar sobre o preço da consulta. No final de uma refeição num restaurante, há sempre um  empregado solícito que pergunta: deseja factura?
Quando pedimos a um electricista, um canalizador, ou um carpinteiro algum serviço em nossas casas, a pergunta sacramental, antes de fazerem o orçamento, é: quer recibo?  Ou seja, quer que lhe ponha mais 20 por cento de IVA  na conta?
Claro que o português não quer, por isso responde logo: não, deixe lá isso! 
Portugal é o país onde a  Segurança Social detectou, nos últimos meses, 80 mil infractores. Ou seja, 80 mil cidadãos que se locupletaram indevidamente com quantias que não lhe eram devidas, pagas por todos nós. Baixas fraudulentas, gente a receber subsídio de desemprego, enquanto trabalha noutro local, ou está a  gerir o seu boteco.
Portugal é o país onde a alta finança se move tranquilamente em off shores, a banca está sempre sob suspeita e as gasolineiras aumentam o preço dos combustíveis quando desce o preço do petróleo.
Resumindo: somos um país de vigaristas!
Perante este panorama, espanto-me quando vejo  os portugueses obcecados e deprimidos  com a ideia de um Conselheiro de Estado ser um troca-tintas ou de um PM ter metido a mão na massa de um “outlet”.
Mas afinal não são os nossos governantes portugueses? Não pertencem eles à oligarquia de interesses de um Centrão que governa o pais há mais de 30 anos, retribuindo-se favores e prebendas, partilhando salomonicamente os cargos decisórios?
O Centrão lembra-me, com inusitada frequência, o comportamento de duas famílias  que lutam pelo poder de uma região. Convivem alegremente nas festas de casamento entre membros dos clãs, fazem discursos elogiando o significado daquela união, mas vão ao funeral dos membros da família adversária com aquela doce sensação de que ganharam mais poder com o seu  enfraquecimento.
Perdem a compostura e sacam de naifas ou revólveres, para eliminar o adversário, no momento em que a conquista de uma posição favorável no tabuleiro de xadrez depende de uma ida às urnas. Encarniçam-se, fazem jogo sujo, mas unem-se para alertar os seus súbditos que a luta se limita aos dois clãs.
Sinceramente, não tenho pachorra para tanta mesquinhez. Estou fora deste filme, porque quando se trata de lutas de “famiglia”, prefiro o recurso ao DVD, para  ver os requentados episódios de “La Piovra”! Ao menos, aquilo é (aparentemente) apenas ficção. 
Parafraseando aquele “graffitti” na cidade do México, onde se podia ler  “Basta de realismo, queremos promessas!”, apetece-me dizer:
Basta de telenovelas noticiosas, queremos saber o fim da história!

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21 comentários

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De Pedro Oliveira a 29.01.2009 às 21:48

A drºa cândida foi tudo menos ambigua.Sócrates hoje foi enganado pela PGR, pois não o deve ter informado desta entrevista no canal 1 que o desmascara perante a teoria da cabala.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 30.01.2009 às 10:55

Não tive oportunidade de ver a entrevista, por razões laborais, mas em cabalas não acredito. Acredito em coisas mais terrenas, Pedro
Abraço
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De José a 29.01.2009 às 22:08

É VERGONHA MUNDIAL, NEM NOS PAÍSES QUE SE DIZEM DO 3º MUNDO!... VEJAM O EXEMPLO DO BCP:
- CONTINUA A EXTORQUIR E A SAQUEAR DINHEIROS DAS CONTAS DAS VÍTIMAS (CLIENTES) SILENCIADAS E INDEFESAS, DANDO SEGUIMENTO PARA O BANCO DE PORTUGAL COMO SENDO DÍVIDA DE INCUMPRIMENTO (CRC) DO CLIENTE. ASSIM DESTA FORMA O CLIENTE FICA CADASTRADO NO BANCO DE PORTUGAL PARA TODA A SUA VIDA, NÃO PODENDO FAZER QUALQUER MOVIMENTO BANCÁRIO... ENQUANTO OS PRINCIPAIS RESPONSÁVEIS CONTINUAM ENRIQUECENDO; CONTINUANDO INTOCÁVEIS E AINDA GOZAM...
bcpcrime.blogspot.com
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De mike a 29.01.2009 às 22:39

Muito bom post. Mas acho que está a querer saber demais, caro Carlos.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 30.01.2009 às 10:56

Bastava-me saber (um pouco) mais, mike!
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De violeta a 29.01.2009 às 23:14

Parabéns pleo post, revejo nele a minha opinião.
Falamos, falamos mas não apssamos de uns hopócritas... os outros que cumpram.
Sobre facturas e baixas fraudulentas teria muito a dizer, ams fico-me por aqui.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 30.01.2009 às 10:59

Pois é, Violeta, temos a postura de S. Tomás.
Obrigado
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De Paulo Sousa a 29.01.2009 às 23:26

Comentava mas tenho uma boa colocação dependente da boa vontade de um Boy... fica para depois.
Só sabem é dizer mal!!!
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De Bluevelvet a 29.01.2009 às 23:55

Ó Carlos, mas isso é pedir demais.
Contente-se em saber várias versões do enredo, porque o fim da história não vai saber nunquinha.
Veludinhos azuis
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 30.01.2009 às 11:00

Mal deste país se nunca soubermos o fim da história, Bluevelvet
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De Ricardo S a 30.01.2009 às 00:25

Excelente texto. Este é o cancro do País, a fonte do nosso atraso. E ninguem o conbate porque todos vao dele beneficiando, de uma maneira ou de outra...
Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 30.01.2009 às 01:27

Muito bem, Carlos. Um dos melhores textos já publicados aqui no nosso DELITO. Nunca é de mais falarmos deste tema.
Abraço
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 30.01.2009 às 11:02

Obrigado, Pedro
Abraço
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De patti a 30.01.2009 às 10:06

O Freeport vai ser outra Maddie, outra Casa Pia, outro Apito Dourado.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 30.01.2009 às 11:07

Se for como o Casa Pia, ou o Apito Dourado, teremos pelo menos a certeza de que lhe vamos conhecer o fim, Patti.
O problema é se for como o caso Maddie, porque esse não terá fim. Graças, curiosamente, à falta de cooperação da polícia inglesa ( na linha do que aconteceu com Vale e Azevedo) e a um ex-assessor de Gordon Brown. Um caso nunca explicado e pouco explorado, mas que valia bem uma investigação jornalística.
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De bilaxa a 30.01.2009 às 12:13

Magnífico!
Um retrato cruel e ajustado.
Parabéns e não se canse de escrever...

PS: tomei a liberdade de citá-lo no meu blog.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 30.01.2009 às 12:23

Obrigado!
Espero não me cansar de escrever, porque esse é o meu ganha pão, bilaxa. Vamos a ver é se, com a crise, tenho onde o fazer...

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