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A trágica sombra da História

por Pedro Correia, em 03.10.09

Os polacos alimentam um poderoso ressentimento histórico contra a Rússia, como ficou bem patente na recente aprovação - por unanimidade e aclamação - no Parlamento de Varsóvia de uma moção que apela aos russos "de boa vontade" para criticarem os "crimes do estalinismo". Este facto, que irritou Moscovo, ocorreu a 17 de Setembro, dia em que se cumpriam 70 anos sobre a entrada dos blindados soviéticos no Leste da Polónia, que prontamente ocuparam, como consequência do pacto Molotov-Ribbentrop, assinado a 23 de Agosto de 1939: uma cláusula secreta deste acordo previa a partilha do território polaco por Hitler e Estaline, dando assim início à II Guerra Mundial - a mais mortífera da História.

No próprio dia 17 de Setembro de 1939, o ministro dos Negócios Estrangeiros soviético, Vyacheslav Molotov, emitiu em Moscovo uma declaração na qual comunicava ao mundo o fim da existência do Governo polaco, destroçado pela acção conjunta dos dois inimigos ideológicos tornados aliados de circunstância na mesma ambição imperialista de expandirem as fronteiras dos respectivos países.

 

"Os polacos, tão desesperadamente empenhados em fugir à ofensiva alemã [desencadeada duas semanas antes, a 1 de Setembro], não tinham meio de resistir", assinala Martin Gilbert na sua magistral obra A Segunda Guerra Mundial, agora finalmente lançada em português (edição da Dom Quixote, com excelente tradução de Ana Luísa Faria e Miguel Serras Pereira), 20 anos após a edição original no Reino Unido.

Os polacos foram as vítimas imediatas desta guerra apocalíptica - a última em que houve cargas de cavalaria e a primeira que registou o lançamento da bomba atómica. A sua heróica resistência durou um mês incompleto: a rendição ocorreu às 14 horas de 27 de Setembro, quando 140 mil soldados - incluindo 36 mil feridos - depuseram as armas perante os alemães que sitiavam Varsóvia. A tropa nazi demorou três dias a entrar na capital em chamas, tolhida por um temor quase supersticioso. "Eles têm medo de mandar entrar os soldados numa cidade que não tem água nem luz e está cheia de doentes, de feridos e até de mortos", escreveu um oficial polaco no seu diário.

A 28 de Agosto, Joachim von Ribbentrop - o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, que viria a ser executado em 1946 por decisão do tribunal de Nuremberga - voara para Moscovo. E ali, após dois dias de negociações, fechou um acordo com os soviéticos, concedendo-lhes, em nome de Hitler, o domínio da Polónia do Leste e também da Lituânia. "Foi o próprio Estaline quem desenhou a nova fronteira no mapa, que em seguida assinou", escreve Martin Gilbert no seu livro, de 1080 páginas. Em troca, o ditador de Moscovo comprometia-se a fornecer à Alemanha 300 mil toneladas de petróleo por ano - promessa que cumpriu.

 

A 8 de Outubro de 1939, Hitler anexou formalmente a Polónia mais ocidental ao Reich, dividindo-a em três províncias: Prússia Oriental, Danzig-Prússia Ocidental e Posen. O que restava do país sob domínio alemão foi transformado em Governo Geral, com sede em Cracóvia, sendo a capital, Varsóvia, despromovida a sede provincial. "A Polónia será tratada como uma colónia. Os polacos converter-se-ão nos escravos do Grande Império Alemão", afirmou na altura Hans Frank, que Hitler escolheu para governador-geral.

No dia 27 de Outubro, Hitler proclamava a Ordem Nova na Polónia anexada. Agindo como agentes de uma potência colonial, os ocupantes mandaram os polacos "deixar os passeios livres" para os alemães, pois "as ruas pertencem aos conquistadores e não aos conquistados". Os invasores germânicos tinham também prioridade em lojas e mercados, sendo os polacos obrigados a tirar os chapéus a todas as "personalidades importantes do Estado, do Partido [Nazi] e das Forças Armadas".

A História ajuda-nos a entender a posição actual do Parlamento polaco: sete décadas é um prazo demasiado curto para esquecer  o brutal totalitarismo soviético, cúmplice activo das atrocidades nazis.


7 comentários

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De João Carvalho a 05.10.2009 às 10:09

Não têm tão boas relações com os alemães. Têm muito de comum, culturalmente falando, e têm muito boas relações comerciais com os alemães, que os içaram rapidamente para o topo dos países do Leste após o fim do império soviético. E é tudo, porque os horrores da Guerra ainda estão presentes.

A diferença, apesar de tudo, é que a Alemanha de hoje tratou de fazê-los saber que não é a Alemanha de então, ao contrário da Rússia, que se converteu a uma democracia ainda cheia de defeitos e de tiques do passado recente.

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