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Delito de Opinião

Zulmira

Marta Caires, 29.01.09

A Zulmira - vou chamá-la assim porque acho graça ao nome - é minha colega aqui no serviço, pessoa muito educada, que gosta de hotéis de cinco estrelas e spas. Uma mulher do nosso tempo, profissional e mãe, que, ao olhar para a história do Sócrates e do 'Freeport' ficou escandalizada. Não tem dúvidas que ali há marosca, cunhas e favorecimentos de tios e primos, luvas e facilidades. Nisto, a nossa Zulmira não tem diferença do povo, do cidadão, do comum dos portugueses. A história -mesmo sem arguidos e acusações formadas - está decidida contra o primeiro-ministro, ainda que Sócrates se enfureça no Parlamento e, indignado, se desdobre em explicações e comunicados.

Eu, por mim, não sei, ando cautelosa com as sentenças. Estes casos, estas novelas de investigações, esta Justiça de televisão, com imagens repetidas, as bandeirinhas do 'out-let' a esvoaçar, a malta de tocaia à porta do tio e do Smith. Já vi isto tantas vezes, o Apito Dourado, a Casa Pia e a Maddie. Quem não se lembra da compaixão pelos pais que acabou em dúvidas cruéis, os cães a encontrar sangue e nós transformados em impiedosos espectadores, indiferentes à comoção dos dois médicos ingleses. É. Não sei o que pensar da culpa, mas a Zulmira sabe, tem uma certeza que sibila no tom de voz, sobretudo quando fala do tio, dos primos do primeiro-ministro.

Cheira-lhe a esturro, há de certeza um nó solto de favorecimento e tráfico de influências. E a Zulmira diz tudo isto, enquanto levanta o auscultador e marca um número. Quer uma consulta rápida para o especialista, a cunhada está doente, pede também para o padrinho que é pessoa a quem deve muitos favores. O doutor não os podia ver e passar à frente dos velhinhos que esperam pela consulta há três meses? Ficava-lhe agradecida, sim, sim, muito agradecida e disponível para o que fosse preciso. O 'Freeport' regressa à televisão, mais bandeirinhas e, com um olhar reprovador, Zulmira abana a cabeça, ali há cunha.

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