Momentos orgásmicos da política
Hoje à tardinha, pouco antes do cair da noite, é o dia de todos eles. Comentadores, politólogos, intérpretes de sinais, todos eles vão entrar-nos em casa sem cerimónia através de tudo o que seja televisão. Canal generalista ou noticioso, pouco importa. O dia é deles.
Os comentadores, misto de jornalismo opinativo e de tarot, lá estarão a confirmar que tinham tudo previsto conforme antes se podia ter percebido. Ora porque realmente não disseram, ora porque já tinham dito que, se não houvesse sol ou chuva, o céu estaria seguramente enevoado. São politólogos previsíveis e intérpretes de ideias clarividentes.
Os politólogos, os que juntam a verdade do mundo desde que o mundo é mundo à psicanálise social, darão um toque de profundidade à realidade através da voz grave e sussurrante com que podiam estar a dizer «deite-se no psiché» ou «estenda-se no orçamento». São comentadores imaginativos e intérpretes de sinais escônsios.
Os intérpretes de sinais, os mais versáteis especialistas na complexidade das coisas simples, providenciarão as explicações sobre os indícios a partir de uma boca aberta que não pode ser de sono ou de um dedo enfiado acima da boca que nunca é comichão no nariz nem falta de educação. São comentadores descontrolados e politólogos incontidos.
Sobra um grupo, o maior: todos nós, comuns mortais apanhados do lado de cá das televisões. Sem pachorra para o déjà vu, alimentaremos durante um par de horas a ideia fixa de que haverá algo para ver, num frenesim desesperado de canal em canal. Não haverá, porque o dia é deles, o dia nacional do orgasmo político. Temos tempo pela frente. A nossa hora orgásmica há-de chegar, que o aperto excessivo do cinto já entumesce as partes baixas do limite da paciência humana.

