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Delito de Opinião

Como vitamina num país de crise em crise

Marcelo Rebelo de Sousa

Pedro Correia, 28.10.21

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Quem receava que o Presidente da República se tornasse figura decorativa, desvirtuando o espírito da Constituição de 1976, enganou-se redondamente. Pelo menos com este titular. Marcelo Rebelo de Sousa acaba de dar outra prova disso: vendo a direita em acelerada convulsão e a esquerda roída por crescentes pulsões tribais, alertou para os riscos de um prolongado impasse político, rejeitou um cenário de pântano e deixou claro que teremos Orçamento do Estado ou eleições antecipadas. Compete aos partidos escolher.

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, 72 anos, foi reeleito há nove meses, consciente das imensas dificuldades que o aguardam neste segundo mandato. Por eleitores com salários médios cada vez mais próximos dos patamares mínimos, vendo adiado o sonho da “reconstrução” a que ele aludiu no discurso de vitória, em Janeiro. Após obter mais 122 mil votos do que conseguira em 2016. De então para cá, tem usado toda a sua magistratura de influência para atenuar distâncias entre aquele Portugal cada vez mais exíguo da gente realmente próspera e um Portugal povoado de pessoas concretas a quem o rendimento mal chega para cobrir as despesas do mês.

Há quem sobrestime o papel das agências de comunicação na formatação de políticos. A verdade é que nenhuma agência seria capaz de fabricar um candidato com a soma das virtudes mediáticas de Marcelo. O actual Chefe do Estado – que andou quatro décadas a preparar-se para a função que hoje desempenha - não necessita dos préstimos de comunicólogos encartados: basta-lhe a conjugação do instinto político com o talento que até os seus mais empedernidos adversários lhe reconhecem.

Em tempos que convidam à depressão colectiva e ao afastamento entre eleitores e eleitos, ele persiste em fazer a diferença. Com um sorriso aberto, um abraço solidário, uma palavra inspiradora. Sente-se bem na sua pele e não o esconde. Funciona como vitamina num país em que a melancolia é exibida como imagem de marca. Decepcionando quem desejaria ver em Belém um jarrão grave e sorumbático.

«O poder nada é sem autoridade», ensina a Rainha Isabel II. Sabendo bem do que fala: já viu chegar e partir 13 chefes do Governo – Boris Johnson é o número 14. Se a autoridade impera pelo exemplo, o poder vinga pela permanência. Quanto mais o jogo partidário agrava os problemas, mais o Chefe do Estado potencia a solução. Como os antigos zeladores e cuidadores do reino.

Marcelo sempre foi republicano, mas a comparação com a Monarquia não é descabida. Rei ou rainha não necessitam de apelidos "legitimadores". E nome de monarca raras vezes deixa de estar na moda através dos séculos. Basta lembrar os nossos, de Afonso a Manuel passando por Maria.

Mais de cem anos de República deram-nos 19 chefes do Estado. Mas só dois popularizados pelo nome de baptismo: o primeiro foi Sidónio, que Fernando Pessoa crismou de Presidente-Rei; o segundo é o actual inquilino do palácio à beira-Tejo.

Marcelo, apenas Marcelo. Em nome próprio: assim falarão dele os futuros manuais de História.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.10.21

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José António Abreu: «Remoendo o embaraço, lembro-me do início de O Animal Moribundo, de Philip Roth. Ao descrever a aluna por quem se sente atraído, o professor Kepesch refere que ela tem um corpo magnífico mas que ainda não sabe bem como usá-lo. Que o transporta como um miúdo de uma zona perigosa transporta uma arma de fogo carregada, tendo ainda de decidir se o faz para se proteger, se para iniciar uma vida de crime. E ponho-me a pensar que o modo como, ao longo dos meses de Verão, quase todas as mulheres trazem o armamento bem visível e tantas parecem ter optado, com uma convicção desafiante, pela vida de crime, mantém os homens alerta, antevendo duelos ferozes.»

 

Laura Ramos: «Redescobrindo terras de Vera Cruz, nessa união de língua entre os últimos povos do mundo que escrevem uma poesia direita, como dizia Vinicius, a nossa Ana Vidal vai dando uma imensa trabalheira à imprensa brasileira. Vais pagá-las, Ana, vais pagá-las.»

 

Leonor Barros: «Atentemos nestes chorudos ordenados: Fátima Campos Ferreira, 10 mil euros mensais, Catarina Furtado, 30 mil euros, Fernando Mendes, 20 mil euros, José Carlos Malato, 20 mil euros, Maria Elisa 7 mil euros, Jorge Gabriel 18 mil euros, Sónia Araújo, 14 mil euros, João Baião, 15 mil euros, Tânia Ribas de Oliveira, 10 mil euros ou Sílvia Alberto, 15 mil euros. Acresce dizer que estes e outros senhores da estação pública não sofreram a redução do ordenado quando, em Janeiro, esse bicho que dá pelo nome de filósofo grego se lembrou de dar uma ripada nos ordenados.»

 

Luís M. Jorge: «Há agora dois jornais diários abaixo dos 15 mil exemplares. E os de referência pouco ultrapassam os 50 mil. Não quero ser injusto para os projectos mais recentes: o triunfo do i seria sempre muito árduo, mesmo em tempo de fartura. Quanto à decadência do Público e do Diário de Notícias, a conversa é outra. Durante mais de uma década comportaram-se como jornais de nicho, ficaram reféns de uma ideologia ou dos Governos, ignoraram novos talentos e o poder multiplicador da internet.»

Dia de emoções fortes

Pedro Correia, 27.10.21

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Fotograma de Cape Fear, de J. Lee Marshall (1962)

 

A geringonça morre por implosão, entre o drama florentino e a telenovela mexicana.

O Bloco de Esquerda impõe o "distanciamento social" face a António Costa.

O PCP, afundado nas autárquicas, reforça a máscara protectora para evitar ser contaminado pelo vírus socialista.

Margarida Martins, até há poucos dias presidente da Junta de Freguesia de Arroios, em Lisboa, constituída arguida por suspeita de crime de peculato.

 

Pela primeira vez nos 45 anos de história da democracia portuguesa, um Orçamento do Estado é chumbado.

Eduardo Cabrita abandona enfim a pasta da Administração Interna. 

Aproximamo-nos dos padrões europeus: não há governo. Tal como na Holanda ou na Alemanha.

Nem há orçamento. Como aconteceu em Espanha, que esteve dois anos sem novas contas do Estado aprovadas no parlamento.

 

Do fundo do poço, escuta-se o eco já débil da voz de António Costa: «O governo cai no dia em que precisar dos votos do PSD para aprovar um Orçamento.»

Raras vezes o primeiro-ministro cessante esteve tão certo.

À atenção do PCP

Sérgio de Almeida Correia, 27.10.21

"Because factories cannot work without electricity, unlike retailers in Yiwu who can put up without air-conditioning, factory jobs are being cut

In Yuhuan, a county-level city also in southeastern Zhejiang province, factories have reduced production to two or three days a week, but many employees are working 15-hour days to deal with the backlog of orders.

Barely able to pay his mortgage, he and other workers have started looking for new jobs.

For many small businesses in Zhejiang province, the power crisis is adding to a string of existing cost pressures that have buffeted China’s manufacturing sector since the pandemic began."

Ao ler a peça que acima transcrevo não podia deixar de me lembrar das exigências de Jerónimo de Sousa e dos seus camaradas do PCP para viabilizarem o Orçamento de Estado de 2021

Fazer política como quem brinca na areia

Pedro Correia, 27.10.21

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A importância maior dos canais televisivos de informação reside na comunicação instantânea, colhida em directo. Nenhum político fica indiferente a isto. Os mais competentes aproveitam estes momentos a seu favor: qualquer tempo de antena é precioso para marcar a agenda numa actividade que tem horror ao vácuo.

Os menos talentosos, pelo contrário, encontram nos directos não um precioso aliado mas um incómodo adversário. Porque intervir em directo implica falar sem válvula de segurança. Neste cenário, um político mediano ou medíocre expõe em larga medida as suas fragilidades.

Na semana passada, Rui Rio surgiu duas vezes em directo. Com 24 horas de intervalo. Nunca para fazer marcação cerrada ao Governo, mas para visar alvos internos. Nisto, nada de novo: as declarações mais duras do actual presidente laranja foram sempre dirigidas a figuras do próprio partido.

A diferença, desta vez, é que pareceu imitar aqueles jogadores a que no futebol chamamos brinca-n’areia: gostam tanto de ter a bola que evitam passá-la aos companheiros, prejudicando a equipa. Querendo driblar outros, acabam por se fintar a si próprios.

As televisões estavam lá, mostrando um Rio brinca-n’areia. Na tarde de quarta-feira, manda dizer que no dia seguinte levará ao Conselho Nacional uma proposta para a convocação de eleições directas em 4 de Dezembro. Procurando confundir adversários por antecipação. Horas depois, porém, parece ele o confundido: em vez de antecipar, adia. Afinal vai propor que sejam congeladas as eleições até à votação final do Orçamento do Estado.

«Se [o Orçamento] não for aprovado haverá eleições legislativas. Não vejo como é que o partido pode fazer eleições internas e legislativas ao mesmo tempo. (…) Sou o líder do partido, fui o candidato a primeiro-ministro em 2019, liderei todo este tempo… Se amanhã houver eleições, quem é que é o candidato? Obviamente.»

Clareza no discurso? De forma alguma. Perceptível, a mensagem? Nem por sombras. Eis o risco dos directos: passou a ideia de que o presidente do PSD é inseguro e receia o confronto. Quem lidera a sério jamais precisa de lembrar que é líder.

Se esteve mal na quarta, pior andou na quinta. À entrada do Conselho Nacional, face aos jornalistas, de novo sucumbiu à vertigem do directo. E lá voltou a perder-se em reviengas.

«Como se está a ver que o PSD está a subir, que o PSD até pode ganhar eleições legislativas, há um assalto ao poder daqueles que põem o seu interesse pessoal à frente daquilo que é o interesse do país e o interesse do PSD. (…) Parece que perderam o sentido das coisas e de repente estão meios loucos.» Com este surpreendente desabafo: «Lamento profundamente que o partido tenha chegado a este estado.» Como se o presidente do partido não fosse ele. Há quase quatro anos.

Faria melhor Rio em imitar Jerónimo de Sousa. Raras vezes o secretário-geral do PCP fala em público sem estar de olhos fixos num papel. Goste-se ou não, ali não há lugar para improvisos políticos. Quem quer brincar na areia que vá para a praia.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.10.21

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Fernando Sousa: «Contra o stress de guerra tínhamos as nossas receitas. Uma madrugada desviámos um jipe do parque auto militar, passámos pela manutenção, pedimos ao sentinela para assobiar para o lado, levámos a comida que pudemos e rumámos para a Ilha de Moçambique. A ideia inicial era irmos caçar felinos, mas alguém com mais bom senso aconselhou esta. Já no destino, depois de uns banhos de mar, uma visita à mesquita e outra ao forte, pôs-se a questão onde dormir. Um dos nossos sugeriu o hospital militar.»

 

João Carvalho: «Num país em que há novos estádios de futebol abandonados, autoestradas às moscas, pavilhões multiusos sem uso, piscinas que só são depósitos de água, centros culturais para receber as rutes-marlenes no Verão, etc., é um alívio saber que a cidade judiciária há-de ter tribunais. Quero lembrar-vos que La Palisse e o Conselheiro Acácio nunca se enganaram.»

 

Luís M. Jorge: «Foi o pior dos tempos, foram tempos do pior. Numa rua calma, o engenheiro Armando erguia uma beata da borda de um canteiro quando se deixou sobressaltar pela voz do Albertino, velho camarada do Técnico.»

 

Luís Menezes Leitão: «O chanceler alemão Otto von Bismarck dizia que a política é a arte do possível (Politik ist die Kunst des Möglichen). Os nossos governantes resolveram, porém, adoptar uma nova  versão: a de que a política é a arte do inevitável. Efectivamente, a única coisa que o primeiro-ministro diz é que as medidas são inevitáveis e que não se pode tomar outras. Isto independentemente da injustiça brutal que as caracteriza e que toda a gente reconhece e até mesmo da sua total inconstitucionalidade.»

Limianos

jpt, 26.10.21

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Paulo Portas, que desta poda muito sabe, já avisara. Os deputados PSD da Madeira poderão de "modo autónomo" (ou seja, em acordo partidário esconso) viabilizar o orçamento, coisa que o seu dirigente já veio confirmar.

Convirá recordar que numa época de "vacas gordas" (apesar do então celebrizado "discurso da tanga") o PS de Guterrres fez um acordo parlamentar esconso com o CDS de Portas, através do manuseio de deputado Campelo, que aparentemente tudo trocou pelo queijo Limiano. O presidente Sampaio muito hesitou em aceitar tal solução. Os seus conselheiros dividiram-se na opinião. Mas acabou por aceitar tal opção - que de facto foi uma violação do espírito da constituição e, como tal, um perjúrio presidencial. Morreu, em paz, sem que tivesse sido efectivamente escrutinado por tal cedência.

O arranjo "limiano" - cujo vero conteúdo se comprovou, para quem pudesse ter dúvidas, quando o deputado Campelo, apesar de ter sido temporariamente sancionado pelo seu partido, veio a ser chamado para o governo quando Portas a ele acedeu - foi pestífero. Provocou um bamboleio tal que o governo caiu dois anos depois, apesar do PS ter exactamente metade dos deputados. Nesse trambolhão promoveu ao poder uma inconsequente direcção do PSD e causou uma atrapalhada sucessão no PS que desembocou numa incompetente direcção que logo se veio a desagregar, em rumo espúrio. Disto tudo brotou o longo consulado do pérfido José Sócrates - que as pessoas das lideranças políticas já bem conheciam, por mais vestais que se queiram continuar a afirmar. 

Toda aquela marosca, repito, foi no tempo "das vacas (europeístas) gordas". E teve o deletério efeito de longo prazo que teve. Agora, neste estado endividado, (quase) pós-pandémico e diante da crise internacional anunciada, não há espaço para tais artimanhas. E temos o pior presidente da república da história do regime, o mais volúvel e superficial, homem desprovido da gravitas que Sampaio tinha. Incapaz de pensar o país para além da sua vácua vaidade. Só podemos exigir a Rui Rio que não se ponha com brincadeiras destas. E a Costa que tenha tino. E vice-versa.

 

O fim da geringonça

jpt, 26.10.21

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Parece que a "geringonça" termina. Talvez desabe agora. Ou talvez ainda sobreviva, algo desarranjada, por mais um ano, se o orçamento for aprovado in extremis. Ou, menos provável, se vier a governar sob a entidade "Duodécimos", com navegação de cabotagem feita de bolinas lei-a-lei. Mas, nesse caso, muito provavelmente não sobreviverá mais do que um ano.

Quando em 2015 o poder se estabeleceu nesta "geringonça" muitos clamaram contra, apontando a sua ilegitimidade. Porque não havia sido anunciada, porque o PS não ganhara as eleições. Ora Costa anunciara a sua disponibilidade para tal (dissera nunca aprovar um governo PSD/CDS minoritário, não ter disponibilidade para se coligar com a direita, e propunha-se como governante. Só não percebeu quem não quis. Ou quem é, apesar de ganhar a vida como comentador político, manifestamente incompetente). E, mais do que tudo, as eleições legislativas não são mais do que a constituição de um parlamento do qual deverá emanar um governo, monopartidário ou de coligação. E é até aconselhável que as coligações governamentais não sejam pré-definidas mas que nasçam de um parlamento eleito, com a correlação de forças (de número de deputados e de apoio eleitoral às propostas partidárias) estabelecidas de fresco. Ou seja, esta solução teve todo o cabimento, político e ético. Foi até uma boa lição sobre a democracia, num país onde eleitorado abúlico e imprensa distraída tendiam a pensar as eleições legislativas como um concurso para primeiro-ministro (de preferência entre comentadores televisivos mais bem-falantes e melhor apessoados).

O acordo de governação que surgiu (tantas vezes erradamente dito "coligação") foi logo descrito pelos seus adversários como uma "geringonça" (metáfora criada por Pulido Valente, se não me engano), qual coisa mal amanhada, prestes a desconjuntar-se. Mas de facto isso não correspondeu à verdade: o PS governa há seis anos com governos minoritários e, até agora, com relativa paz política (e, nisso, acalmia social, dada a placidez da imprensa e o silêncio sindical), e com sucessos eleitorais. Claro que isso implicou trabalho político (o olear constante da "geringonça"; a reparação das suas peças) mas tamanha continuidade mostra bem que o mecanismo não foi tão mal amanhado como o disseram.

O relevante é que os adeptos desta associação entre PS/PCP/"socialistas revolucionários" assumiram, com bonomia jubilosa e notório carinho, o termo "geringonça" para a nomear e definir. Isto mostra como esta solução recebeu não só adesão política mas também um afecto atribuído a todas as "geringonças" (antiguidades ou velharias) às quais o gosto dominante pequeno-burguês reconhece uma simpática "patine", nisso atribuindo-lhes o estatuto de "vintage", ou às suas reformulações ditas "retro". Nisso a nossa "geringonça", a por muitos tão esperada "maioria de esquerda", apareceu como uma revisitação à Frente Popular de León Blum, e para tal ambiente afectivo tão necessário foi o recurso ao discurso contra o fascismo. O qual foi sendo imputado contra todos os seus adversários, explícitos ou implícitos, desde a "nazi" Merkel (pré-crise dos refugiados do Mediterrâneo) a todos os "neo-liberais" nacionais que a ele eram associados, a maioria destes apenas espartilhados pelos termos de um acordo com Bretton Woods e a União Europeia, germinado por uma governação socialista. Assim se reforçou o tópico de um vetusto "anti-fascismo" que caucionava esta governação, como se areando a "geringonça", e sempre alimentando-se de algumas, escassas, evoluções da extrema-direita em países congéneres e do breve desvario trumpiano.

Agora, neste estrebuchar da "geringonça", com a "patine" riscada e tantas peças danificadas, e sem que uma cópia (porventura chinesa) de aparência "retro" a possa substituir, será de pensar como esta maquineta, este moinho de café manual, por mais simpático que seja, por mais que nos alente através de memórias muito selectivas de outros tempos nossos avoengos, não é a solução adequada para este nosso quoditiano. Ela foi funcionando num contexto peculiar: a remodelação temporária das políticas económico-financeiras internacionais, neste efectivo "perdão de dívida" que a real "reestruturação da dívida" promovida pelo BCE, feito qual "Clube de Paris", desenvolveu nestes últimos anos (sei que os economistas contestarão isto, mas isso é porque pensam em "economês", linguajar ainda mais incompetente e aldrabão do que o famigerado "eduquês").

Mas há muito, décadas mesmo, que o país estagnou. Não se desenvolve. Empobrece e envelhece. Não é miserável, não está na cauda do mundo, como alguns escatológicos ululam. Não tem o maior Estado do mundo, nem o mais despesista, não é o mais improdutivo, não tem a maior e mais injusta carga fiscal, como algumas claques entoam. Nem é o mais desempregado ou emigrado, como tantos desopinadores aludem. Mas esta via de organização social e económica, por mais apelativa que seja a muitos que, convictamente, defendem a "justiça social", a "equidade" e os "direitos individuais e colectivos", está em falência face aos constrangimentos internacionais. E às ineficiências (e algumas malevolências) internas. O país precisa de reformas, e algumas serão dolorosas. E acima de tudo precisa de se libertar deste estatismo cultural, perceber que, como diria a dra. Graça Freitas, a actual máscara estatal dá uma "sensação de falsa segurança".

Para isso o país precisa de um novo poder. Não de uma outra "geringonça", nem de uma "maquineta", mas sim de um "sistema operativo" de centro-direita. Sem "patine" "retro"(gada). E também sem "memes" de "unicórnios". Mas que seja competente. E assim não se restringindo a outra cabotagem, à mercê da vontade de um seu eleitorado carregado de escorbuto e nisso ansioso por aguadas benfazejas. É preciso fazer reformas, sectoriais, indutoras de desenvolvimento ainda que sejam conjuntural e até afectivamente dolorosas. 

Para esse passo, para esse "sistema operativo" de centro-direita, muitos discutem agora qual a sua linha de demarcação, se a abrangência deve ou não incluir o partido do prof. Ventura. A questão não é essa. Neste regime nunca houve extrema-direita, nem após a descolonização o mítico general Kaúlza de Arriaga conseguiu animar o seu MIRN, nem mesmo uma "direita profunda" conseguiu germinar na deriva do PDC (que estrebuchou sob o folclórico Silva Resende). Este partido de agora é um mero epifenómeno, de forma algo serôdia acalentado por fenómenos aparentados em alguns países vizinhos, e muitíssimo reforçado pela necessidade de exposição pública da recente criatura racialista que o PS instituiu para minar o BE. Goste-se ou não do PCP será importante reparar como dirime ele, com algum menosprezo e sagaz silêncio, aquele fenómeno de "meia-estação". Pois os reais problemas e hipotéticas soluções estão alhures.

As linhas de demarcação para os constituintes deste "sistema operativo" devem traçar-se com outros critérios. A social-democracia (parcial fundamento do PSD), o liberalismo (presente no PSD; fonte da IL; presente no CDS) e a democracia-cristã (fonte do CDS) foram nos países actualmente nossos congéneres - ou seja, e para facilitar, a UE antes do alargamento para 27 - fontes de desenvolvimento humano, crescimento económico, democraticidade social e política. Alguns poderão recordar as particularidades (tétricas) da democracia-cristã italiana, e terão razão sobre essa... excepcionalidade. Outros logo se centram no extremismo de Thatcher - o qual dá sempre jeito para demonizar o desenvolvimentista liberalismo -, mas nunca o articulam com a crise pós-imperial e pós-industrial britânica daquele tempo. E nisso escondem, alguns por ignorância e outros por malevolência interesseira, que são as enormes crises que conduzem a soluções extremas.

Ou seja, a abrangência de um futuro e desejável poder deve congregar essa mescla de inspiração europeia e desenvolvimentista. E nisso arredar o conservadorismo. Este, no país, é muito uma questão de atitude que perpassa vários partidos. Não se trata do conservadorismo de "costumes", que muito clama nestas matérias "identitárias" com que alguma esquerda actual aliena o debate público. Mas de posturas renitentes às alterações socioeconómicas, muitas vezes sob roupagens patrioteiras anti-europeístas. Uma outra exclusão necessária é a dos radicais liberais. De facto não sei a efectiva influência que estes têm nos partidos de centro e direita, deles apenas conheço década e meia de algumas proclamações de rede social e jornal. Neles é reconhecível um radicalismo similar, ou mesmo maior, do que o que se encontra em alguns sectores da coligação de socialistas revolucionários que vem apoiando este governo.

Desenvolver o país é apostar em vias que poderão ser sectorial e conjuntalmente dolorosas - é isso a política benfazeja, privilegiar sectores em função do bem comum, a tal "justiça social" equitativa desenvolvimentista. Mas o radicalismo liberal, com evidentes traços revanchistas de anti-estatismo desbragado, e algum conservadorismo com tiques miguelistas tendem ao menosprezo sociológico, ao aventar do (necessário) extermínio dos mexilhões, nós-povo. E se é para ter um massacre de mexilhões eu preferirei votar no José Sócrates...

Enfim, como fazer reformas conjunturalmente dolorosas mantendo a justiça social desenvolvimentista? Se eu soubesse responder não estaria a blogar mas sim a fazer um relatório com as directrizes necessárias. E vendê-lo-ia. Mas estou certo que tal não convoca um pensamento  mágico, não será uma tarefa alquímica. Convoca um saber humanístico - não no pobre sentido de "humanitário" mas sim no original de "sábio". Um saber que conheça o passado, das vias que têm vindo a ser tentadas e procurando adequá-las em função não de uma "república perfeita" mas sim uma melhoria gradual. E isso implica escaparmos às pobres cliques partidárias que vêm gerindo os partidos. Um pouco à medida do que mesmo agora Carlos  Moedas aparenta ter conseguido fazer em Lisboa. Mas onde estão os "senadores" e as "câmaras corporativas" dos partidos?  Que documentos apresentando reflexões sectoriais e abrangentes têm os partidos clássicos vindo a apresentar?

Enfim, para um em suma apenas me repito: se for para eleger revanchistas exterminadores de mexilhões então irei votar no José Sócrates. E se for para promover apparitchiki das concelhias? No dia do voto irei ao Lidl reabastecer-me de Queen Margot. E brindarei a nós-mexilhões e aos "direitos adquiridos", às "conquistas de Abril".

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.10.21

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Ivone Mendes da Silva: «- Não íamos para Faro?

- Faro, neste momento, é suspeito.»

 

João Carvalho: «Sobre a queda parcial do aeroporto de Faro com uma rajada de vento, acabo de ver na televisão um passageiro a dizer em inglês ao repórter, com ar incrédulo e um sorrisinho dúbio, que o arquitecto da aerogare tem boas razões para estar preocupado. Estava na cara que o homem só pode ser estrangeiro e, seguramente, de algum país civilizado. Um responsável português preocupado com uma obra em Portugal? Estes estrangeiros civilizados têm sempre uma visão estreita da vida. É o que eu digo: viajam muito, mas nunca conseguem ver para lá da rua deles...»

 

José António Abreu: «A revisão constitucional é indispensável, não para impor soluções (essa é a receita da Constituição actual) mas para abrir possibilidades de escolha. Desde logo no modelo do sistema judicial.»

 

 

Rui Rocha: «Quando alguém lhe opuser direitos adquiridos, peça-lhe o recibo. É preciso esclarecer quem lhos vendeu, a que preço e se, de facto, foram pagos. Anda por aí muito gato por lebre.»

Tudo isto é poucochinho

Pedro Correia, 25.10.21

Uma semana antes do Dia de Finados, a "geringonça" exala o último suspiro. António Costa - outrora o grande agregador da esquerda, derrubador de putativos "muros de Belim" - acaba mais isolado que nunca. Nem PCP, nem Bloco de Esquerda, nem sequer o PAN aprovam o seu Orçamento do Estado.

Como diria António José Seguro, tudo isto é poucochinho. Cá se fazem, cá se pagam.

A peanha de Gagarin em Oeiras

jpt, 25.10.21

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Vai polémica com este monumento aos 60 anos de Yuri Gagarin no espaço, colocado num jardim de Oeiras. O representante do Taguspark responde, decerto que algo enfastiado, que o monumento se insere num museu que se quer "disruptivo" e instalado num "ecossistema com empresas dedicadas à aeronáutica". Eu resmungo com esta "apropriação cultural" do termo "ecossistema" pois se é certo que não é uma total incorrecção - em última análise as empresas de facto pertencem ao tal ecossistema -, a utilização do conceito é uma analogia típica do economês obscurantista. Quanto ao resto, se o Taguspark fosse um "ecossistema" integrando empresas cinematográfricas colocaria no seu "disruptivo" museu um monumento a Leni Riefenstahl, em cima de uma peanha decorada com a bandeira do III Reich? Ou, sendo menos radical, será que neste tétrico actual ambiente "woke" onde tantos intelectuais e docentes, para além dos jornalistas a la "Público", clamam a necessidade de retirar ou "contextualizar" obras de autores como Mark Twain, Eça de Queirós, Goscinny, entre tantos outros, devido às malevolências ideológicas que terão propagandeado ao longos das suas ocidentais (e portanto pérfidas) obras, neste ambiente, dizia, não será de exigir uma "contextualização" ao lado daquele monumento, explicitando aos incautos passantes o que foi a URSS e o movimento comunista em XX? Ou será que as pessoas se tornam traficantes de escravos, frades inquisitoriais e genocidas das alteridades ao cruzarem o pequeno mamarracho feito a António Vieira, lerem o "O Escudo de Arverne" ou o "Huck Finn", mas nada são influenciados quando lhes espetam no parque onde vão namorar, piquenicar ou fumar uns charros, a bandeira do feroz regime soviético?

Com toda a franqueza julgo que não. O monumento, no seu paupérrimo formato, é um evidente acto de propaganda russa, saudosista (e se calhar até revanchista, coisa que será das dinâmicas lá do país deles), emanado de um quadro cultural risível - quem o deu foi a "Fundação Internacional de Caridade", denominação que tudo diz, e que poria a antiga "esquerda" em guarda mas colhe agora muita simpatia, o que bem mostra a degenerescência do pensamento "gauchiste" actual. De facto, o único problema do monumento é ser bimbo. Alguns virão com a léria de que "gostos não se discutem" mas erram nisso, os gostos discutem-se.  Mas deixemo-nos de coisas, num jardim de Oeiras instalaram uma bimbalhice a homenagear o primeiro astronauta (ou "cosmonauta", como diz o Taguspark, fiel ao vocabulário da Guerra Fria, no qual o Oeste chamava "astronautas" a Armstrong e seguintes e o Leste chamava "cosmonautas" a Gagarin e seguintes. Que patético e anacrónico seguidismo do "museu" daquele "ecossistema"...). Não vem nenhum mal ao país e ao mundo. E não se justifica vir agora defender o "cancel culture", nesta particular volúpia de apagar a memória da URSS.

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Julgo que o debatível está alhures. Trata-se do manuseio estatal (por encomenda, indução ou mera permissão) do espaço público através da representação da História, o qual quer constituir e sedimentar a comunidade nacional, imaginar-lhe conteúdos e contornos, e articulações com o global. Mas a crítica actual a esses conteúdos simbólicos que o Estado promove, e assim inculca, segue a la carte - como se vê nesta irritação com a peanha soviética ou, de quando em vez, com um ou outro menir metálico de legitimidade contemporânea.

Tudo isto traduz um silêncio sobre o papel da "arte pública". E uma peculiar (e atrapalhada) hierarquização moralista dos factos do passado, e das respectivas potencialidades de malvadez e exclusão social que as refracções da sua simbolização actual transportam. Nisso direccionando uma atenção crítica selectiva que demonstra que não se está a discutir as modalidades históricas da discriminação em Portugal mas sim a reproduzir debates oriundos do estrangeiro, em particular dos EUA, dali decalcando as tensões sociais e o material cultural que as exprime.

Este "affaire Gagarin" é disso prova. Algumas pessoas irritam-se com o pequeno mono, lá no recôndito jardim que celebra um momento extraordinário. E esquecem tantas outras coisas - ou nelas nem reparam. Ou seja, naturalizam-nas, impensando-as pois delas se vão impregnando. Recordo que no mesmo ano da instalação da estatueta de Vieira e seus bons meninos índios, os infantes "nobres selvagens", coisa da lavra de Medina e Santana Lopes que tanta polémica levantou, brotou este mural na Graça lisboeta. Insere-se na institucionalização da chamada "arte de rua" (street art), uma nobilitação (agora diz-se "gentrificação") destas expressões pictóricas que por cá vem acontecendo desde meados da década passada (ver este artigo já de 2015), promovida pelos poderes estatais e instituições privadas, em particular empresas imobiliárias. Estes murais de grande dimensão, que servem de "ajardinamento" vertical, vão abundando, no país e em Lisboa (ver aqui ou aqui).

Tenho as minhas reservas sobre o gosto prevalecente, pejado de resquícios da já vetusta pop-art e de transposições de grande escala do grafismo "comics", que promove um figurativo que não me atrai e, em  muitos casos, me lembra os trejeitos de "Pierrot com lágrima"  (a homenagem aos "profissionais de saúde" num hospital do Porto em 2020 por um renomado artista, que colheu o comoção generalizada, é mesmo disso exemplo)... Mas isso é apenas o meu gosto, nada posso opor ao gosto dominante das franjas da nossa pequeno-burguesia autopercepcionadas como "rebeldes". Mas ainda assim franzi o cenho a este mural da Graça.

Desencontro-lhe relevância "estética", chamando-lhe assim para evitar outros debates. Mas face à sua simplicidade formal permito-me interpretá-la cingindo-me ao facialmente patente. Trata-se de uma obra do americano Shepard Fairey, afamado no género até pelo eco do seu retrato do ícone Obama. Fairey veio expor a Lisboa em 2017 e, com toda a certeza dado o gigantismo da obra, teve autorização estatal para esta "intervenção" (fez outra, também de grande escala, uma cara de mulher - sem a tal lágrima, mas quase ... - que ocupa o alçado de um prédio). A arte não tem que ser realista nem historicamente correcta. E um artista que trabalha no estrangeiro não tem que ali se restringir ao país que o acolhe.

Mas ainda assim pergunto-me, o que é esta obra de 2017, que faz aqui, o que sufragou esta paisagem encomendada? Uma La Pasionaria, com flor no cano da arma, assim aportuguesada numa piscadela de olho à iconografia do 25 de Abril? Terá o autor, distraidamente, aportado à Península Ibérica, ficado retido em Hemingway e Orwell, sonhando-se membro da brigada Abraham Lincoln, tomando Portugal como algo de Espanha, típico erro de gringo? Pois, numa interpretação mais simpática, isto poderá parecer uma algo desajeitada, pois descabida, alusão ao Exército Republicano da guerra civil espanhola, na sua boina preta de estrela vermelha, filiando a "revolução dos cravos" nessa iconografia. Se assim for é um atrapalhado, distraído e ignaro, desrespeito pela especificidade portuguesa. Aceite, apoiado, talvez financiado pela autarquia da capital. Aceite, indiscutido, pelos munícipes. 

Ou então não é isso, trata-se de algo mais "moderno", como me parece. Trata-se da edificação pictórica, a grande escala, no centro de Lisboa, de uma simbiose entre o advento da democracia portuguesa e o movimento comunista internacional, reduzindo o 25 de Abril ao comunismo a la Ernesto Guevara

Enfim, procurei mas não encontrei uma "memória descritiva".  Mas deverá ser possível detectá-la ...

Mas encontrei esta entrevista, dada na sua estada lisboeta. E o que explicita aqui é que a sua adesão a esta estética nem ancora num qualquer "soviet chic", esse execrável modismo que sobressaiu no final do comunismo russo. Trata-se mesmo de uma inaceitável e perversa deturpação da história recente portuguesa. Não é "punk" - como Fairey identifica algumas suas raízes culturais. É bem-comportadinha, burguesota, inscrita neste "esquerda" folclórica de festiva. Uma obra bimba. E falsária. E ninguém protesta com esta tralha abjecta. Nem mesmo os que agora tanto se irritam com a modesta peanha do herói Gagarin, lá no relvado de Oeiras.

 

 

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.10.21

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Fernando Sousa: «Em Nampula, a Polícia Militar ficava ao lado das nossas flats. Tinha uma mascote: um miúdo preto, de uns oito anos, escapado, pelo que se contava, ao massacre da sua aldeia e adoptado pela PM, que lhe fez uma farda e o graduou, se não me falha a memória em capitão. A unidade tinha ordens para respeitar o artifício. Os sentinelas saudavam-no com o cumprimento devido, acompanhado por um sorriso paternalista, ao que ele respondia fazendo-lhes, muito direito e sério, a continência. Dormia e comia no quartel. E do que mais gostava era de jogar à bola.»

 

João Carvalho: «Quando vou na rua e dou algum dinheiro a um pedinte, jamais me passaria pela cabeça pensar que apliquei dinheiro num pobre. Quando posso doar algum dinheiro a uma instituição de apoio humanitário, não me vejo a dizer que apliquei dinheiro numa obra que cuida dos que mais precisam. Aplicar dinheiro é um tique capitalista que nem me ocorre, menos ainda para legendar um donativo.»

 

Laura Ramos: «Devemos pedir contas, sim. Se a lei deixou de nos garantir a palavra dada, se os contratos de trabalho contêm cláusulas que de nada servem, se o imperativo nacional nos coloca numa situação de suspensão de direitos de estatuto, então é lícito trepar à nossa árvore podada e olhar a floresta.»

 

Rui Rocha: «Um tipo deita-se num país de treinadores de bancada e, sem que nada o faça prever, acorda rodeado de constitucionalistas. O tema preferido já não é a constituição da equipa do coração para o próximo jogo. O que se discute agora é a Constituição. Da República. Digo que se discute e digo pouco. Na verdade, proferem-se sentenças. Nos cafés, em cima das mesas, a Bola e Record foram desalojados. Agora, proliferam os textos constitucionais. À volta dos quais se reúnem os convivas mais improváveis, em raro esforço de exegese e prolação.»