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Delito de Opinião

Pagar 150 euros por colchão

Pedro Correia, 06.02.23

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Há uns tempos, levantou-se um coro geral de indignação, entre as bempensâncias lisboetas, contra as condições infra-humanas em que viviam imigrantes contratados para a apanha de frutos vermelhos nas estufas de Odemira. Aproveitou-se a ocasião para debitar a ladainha do costume, inflamada de indignação moral. 

Lamento que muitas dessas almas cândidas e benfazejas (e grandes consumidoras de frutos vermelhos, óptimos para a saúde) se indignem mais depressa com aquilo que se passa a 200 quilómetros de distância enquanto fingem não reparar no que se passa na própria cidade onde residem. Aqueles imigrantes de Odemira, apesar de tudo, vivem em melhores condições do que estes estafetas que a todo o momento distribuem refeições ao domicílio dos mesmos lisboetas tão arrepiados com as degradantes condições no Alentejo profundo. 

O trágico incêndio ocorrido neste fim-de-semana na Mouraria, provocando dois mortos e 14 feridos (incluindo quatro crianças) demonstra o que é a realidade actual nesta Lisboa impante de modernidade e efervescente de "consciência social": imigrantes asiáticos amontoados num cubículo desse bairro.

Foi na Mouraria, mas podia ter sido noutro local. Anjos, Intendente, Arroios - numa vasta cintura em torno do centro histórico da cidade. Em casos como este, que se multiplicam como cogumelos: prédio insolvente, resgatado por um banco, que leiloa fracções a estrangeiros ligados a redes de exploração de trabalho quase escravo. Cada um destes desgraçados paga 150 euros - não por apartamento, nem por quarto, nem por cama, mas por colchão amontoado junto a tantos outros.

Neste rés-do-chão vegetavam 22 seres humanos. Esses, que não merecem um sopro de indignação da parte das tais vozes indignadinhas que incentivam a existência destas redes - e das plataformas digitais que delas se aproveitam - cada vez que pedem comidinha ao domicílio. Sem perceberem sequer a relação entre uma coisa e outra. 

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 06.02.23

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Hoje é O Dia Internacional da Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina.

«Em pleno século XXI, a mutilação genital feminina ainda é frequente sobretudo nos países da África subsariana e nos países árabes, mas também na Ásia e na América Latina. Algumas comunidades encaram-na como um rito de passagem para a feminilidade. Outras praticam-na para controlar a sexualidade e o prazer das mulheres. A ONU instituiu esta data em 2012 como forma de alertar e sensibilizar a opinião pública mundial para esta aberrante prática.

Apesar de todas as campanhas de sensibilização, cerca de 200 milhões de raparigas e mulheres já sofreram mutilação genital. E o número continua a aumentar.

A mutilação genital feminina pode afectar gravemente a saúde sexual e reprodutiva de jovens e mulheres, que correm o risco de hemorragias pós-parto, morte fetal, trabalho de parto obstruído e infecção pelo HIV. Os seus efeitos psicológicos são insidiosos e duradouros.»

 

Tradição? O macabro é tradição no voodoo e congéneres, no Dia dos Mortos, etc., todas as mutilações são condenáveis, porque não têm qualquer base que as justifique. Este tipo de mutilação genital não tem nem um pequeno fiapo de fundamento. É tradição? E quando as tradições estão erradas, são para manter? A escravatura era uma tradição. Os autos de fé também... continuo?

 

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Hoje é O Dia dos Pauzinhos (Chineses)

«Uma grande parte da população mundial utiliza os pauzinhos como seu utensílio de escolha. As pessoas na China usam habilmente os pauzinhos desde 1200 a.C. Inicialmente serviam para cozinhar antes de se tornarem numa ferramenta popular para comer no Extremo Oriente. Quando nos servimos deles, esta acção envolve mais de 50 articulações e músculos diferentes. Não usamos apenas dedos e pulsos, mas também braços e ombros.

Como a comida na China antiga era escassa, os cozinheiros cortavam-na em pedaços muito pequenos para cozinharem com rapidez e economizarem combustível. Tornou-se redundante o uso de facas na mesa de jantar. Tornaram-se tão populares que, por volta do ano 500, japoneses, coreanos e vietnamitas também começaram a usá-los.

Os primeiros pauzinhos eram feitos de bambu e pareciam pinças porque estarem unidos na parte superior. Também eram conhecidos como pauzinhos tong, mas no século X evoluíram para as duas peças separadas que conhecemos hoje.»

 

Eu sou tong. Nunca tive jeito para articular os pauzinhos soltos. Já fazia muita comida chinesa antes do advento dos sushi e dos sachimis, e servia-a em loiça de bago de arroz e com os pauzinhos. Há, sei lá bem - trinta anos? - comprei um wok e um livro de receitas. Não me saí mal no preparo nem na apresentação, mas os pauzinhos sempre foram uma tortura. Vamos ao chinês? Podemos ir. Normalmente não é necessário, mas pelo sim, pelo não, levo sempre um elástico.

A estrada de Damasco

Paulo Sousa, 06.02.23

Ana Sá Lopes é uma jornalista conhecida da imprensa escrita, assim como de programas de rádio e de frequentes aparecimentos televisivos. Actualmente é redactora-principal do Público. Quem já leu o que escreve e já ouviu o que diz, sabe que é uma pessoa de esquerda, frequente defensora do poder socialista assim como de muitas propostas mais à esquerda. Nada de novo de baixo do sol.

Com esta informação como pano de fundo, confesso que fiquei surpreendido com a sua crónica de ontem no Pùblico, quando, no que respeita às suas convicções sobre a superior capacidade do estado em gerir a saúde, assume ter atirado a toalha ao chão.

Reconhece que, por experiência pessoal, pode afirmar que nos hospitais Beatriz Ângelo e das Caldas da Rainha, o fim das PPP’s correspondeu a um serviço muito pior.

Ao contrário do que certamente faria se deles não necessitasse, o que é sempre um mau motivo, reconhece que “os serviços de excelência dos tempos da PPP, que cobria uma faixa enorme de população, não necessariamente a mais favorecida, desapareceu”. Mais à frente reconhece que o SNS está à beira da implosão.

Lamento que tenha sido necessário lidar com a necessidade de assistência médica para deitar para trás das costas a ideologia, mas vergo-me à honestidade intelectual que lhe permitiu escrever esta crónica.

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Pensamento da Semana

José Meireles Graça, 06.02.23

Dizem os entendidos que o PM Costa está cansado e que o governo se esboroa. Mas não: um político de 62 anos, se tiver saúde, não pode estar cansado; e seria uma surpreendente conjugação astral se só este governo, e não os anteriores com pessoal das mesmas proveniências, tivesse casos e casinhos. De modo que, lentamente, a vacuidade do projecto político vai ficando evidente; e a tampa que a geringonça pôs nas denúncias foi levantada.

 

Este pensamento acompanhará o DELITO durante toda a semana

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 06.02.23

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João André: «No que me diz respeito identifico-me logo à partida: sou de centro-esquerda. Que quer isto dizer? Bom, tal como a definição pode mudar com o país (alguém de centro-esquerda nos EUA seria facilmente de direita na maioria dos países europeus), também pode mudar com cada pessoa. Apresento assim as minhas coordenadas.»

 

João Campos: «Uma excelente notícia: o regresso do Contra Informação - ou de um programa idêntico com outro nome. O último episódio foi transmitido em 2010, mas parece que passou muito mais tempo, não parece? Por desgastado que estivesse, o formato era interessante e o seu fim deixou um vazio por preencher na televisão nacional. O novo programa com os bonecos deverá estrear em Março, na SIC.»

Os melhores livros do meu ano (3)

Pedro Correia, 05.02.23

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Já vos confessei noutros momentos: sou cada vez mais adepto de releituras. Tenho-o feito com proveito e gosto. Quando o livro é mesmo bom, abre-nos novas perspectivas quando mergulhamos nele. À segunda ou à terceira, já nos interessa menos a trama e estamos mais atentos a certos aspectos da construção frásica, da linguagem ou da crítica social ali contidos. Aconteceu-me, noutros anos, com vários romances de Eça - como Os Maias ou A Cidade e as Serras. Enquanto me resta um só dos seus livros por desvendar: A Ilustre Casa de Ramires. Ainda não aconteceu em 2022.

Reservo às releituras o terceiro e último bloco de dez títulos que funciona como súmula dos 88 que pude ler no ano passado. Em boa verdade, nenhum me decepcionou: gostei muito dos livros que já me haviam atraído, achei insólitos ou desinteressantes os que já me haviam suscitado reservas. Mas nunca senti que estava a perder o tempo. Isso é o que mais importa.

Partilho esta lista convosco: são seis romances ou novelas de autores portugueses, dois romances estrangeiros, um volume de crónicas e outro de contos. Por ordem alfabética, mantendo o critério assumido aqui e aqui.

 

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A PAZ DOMÉSTICA, de Teresa Veiga (1999). Este curto romance é um dos meus preferidos entre os que se foram publicando em Portugal no último quarto de século. Primeira - e bem-sucedida - incursão no género de uma das nossas mais enigmáticas escritoras, que nunca dá entrevistas e raras vezes é vista em eventos sociais. Contista por vocação, nota-se esta característica na economia de meios do romance, valorizando-o. Retrato de uma mulher ao longo de algumas décadas - que é também, de algum modo, o retrato do País.

 

ALEXANDRA ALPHA, de José Cardoso Pires (1987). Não é bem uma releitura. Explico já: este é um livro que nos dá luta. Só em 2022, à terceira tentativa, consegui lê-lo até ao fim. Da primeira, há vários anos, pareceu-me pastoso e aborrecido; da segunda, mais recente, perdi-me a meio daquela intriga e troquei-o por outro, mais estimulante. Agora está concluído. Romance com fragmentos de sátira à intelectualidade alfacinha dos anos 80, aliás com figuras facilmente identificáveis, mas longe de ser o melhor de Cardoso Pires.

 

ALVES & C.ª, de Eça de Queiroz (1925). Uma das obras que permaneceram um quarto de século guardadas em estado virginal na arca do escritor, quase tão célebre como a de Fernando Pessoa. Novela de atmosfera lisboeta, esboçando nesta prosa ainda de juventude a demolidora crítica à burguesia da capital, que a geração de Eça considerava a classe social mais decadente do País. O escritor guardou o texto sem o rever, mas o essencial do seu estilo mantém-se neste retrato irónico de um marido enganado mas complacente.

 

CONTOS COMPLETOS, de Fernando Pessoa (2012). O poeta de Mensagem era um escritor compulsivo: chegava a escrever em bilhetes de eléctrico. Quase autor póstumo, com apenas um livro publicado em vida. Tantos anos depois, o espólio pessoano ainda produz novidades. Como este livrinho, que recolheu a sua esparsa prosa de ficção, inédita ou dispersa por publicações há muito falecidas. Desperta curiosidade, mas nada tem de empolgante. Só um dos contos, "O Banqueiro Anarquista",  justifica leitura mais atenta.

 

ECLIPSE DO SOL, de Arthur Koestler (1941). Este romance foi muito divulgado em Portugal com outro título: O Zero e o Infinito. Corajosa denúncia do estalinismo por parte deste autor, que conheceu por dentro o pesadelo totalitário e teve forte influência nas obras similares de George Orwell. Esta versão portuguesa decorre do original alemão, que durante muito tempo se imaginou perdido, e não do exemplar inglês, base da tradução anterior. O novo título faz sentido. A denúncia mantém-se vigorosa. E actual como nunca.

 

O ANJHO ANCORADO, de José Cardoso Pires (1958). Trinta anos antes de Alexandra Alpha, Cardoso Pires escreveu esta novela numa toada quase musical, em sagaz olhar sobre a atmosfera social de um país enclausurado à luz do sol. João, empresário a caminho da meia idade, e Guida, jovem professora recém-saída da universidade, encontram-se e desencontram-se numa tarde de fim-de-semana à beira-mar entre gente ignota e rude que os observa à distância. Inacreditável, este livro nunca ter gerado um filme.

 

O HOMEM QUE ERA QUINTA-FEIRA, de G. K. Chesterton (1908). Espécie de antepassado das novelas de espionagem, ou de paródia antecipada às ditas, quando o anarquismo estava em voga naqueles anos que precederam a I Guerra Mundial. Chesterton aborda com humor o mesmo tema a que Joseph Conrad deu tratamento sério no romance O Agente Secreto, publicado em 1907: impossível não ver relação entre as duas obras. No confronto entre ambas, há quem prefira esta sátira ligeira e muito divertida: é o meu caso.

 

REVOLUCIONÁRIOS QUE EU CONHECI, de Vera Lagoa (1977). No PREC, em 1975, produziu-se muita literatura panfletária, para consumo imediato, alimentando o confronto ideológico travado neste país que alguns queriam "em marcha acelerada para o socialismo". Na facção oposta avultava Vera Lagoa, recentemente recordada em Três Mulheres. A série da RTP levou-me a reler este livro, que reúne demolidoras crónicas jornalísticas. Com trechos divertidos, outros injustos. Era um sinal daqueles tempos.

 

SIGNO SINAL, de Vergílio Ferreira (1979). Um dos romances menos conhecidos do autor de Aparição, que aqui faz uma espécie de autópsia do processo revolucionário português, centrado numa aldeia devastada por um terramoto. A cáustica sátira política surge aqui a traço grosso, envolta numa linguagem desbragada raras vezes usada por Vergílio Ferreira - mas que faz algum sentido por caracterizar aquela época de todas as ilusões, povoada por uma vasta galeria de vira-casacas e oportunistas de todos os matizes.

 

UMA ABELHA NA CHUVA, de Carlos de Oliveira (1953). Talvez o melhor romance daquela escola literária que entre nós se convencionou chamar "neo-realista". Numa linguagem depurada e límpida, raras vezes usada por outros autores da mesma corrente estilística, e sem os chavões da praxe que transformavam personagens em caricaturas. Neste drama aldeão há gente concreta e paixões atávicas que se sobrepõem a qualquer cartilha ideológica. Inspirou o filme homónimo de Fernando Lopes, que merece ser revisto.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 05.02.23

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A 5 de Fevereiro celebra-se O Festival das Lanternas Flutuantes

«Este festival acontece no 15.º dia do primeiro mês do calendário chinês. Em 2023, calha a 5 de Fevereiro. As lanternas flutuantes são luzes tradicionais chinesas feitas de papel ou seda oleada projectadas para serem lançadas em cursos d'água ou no ar. As lanternas destinadas à água chamam-se lanternas flutuantes ou lanternas de água, enquanto as que voam no céu chamam-se lanternas do céu.

As lâmpadas também são decoradas com formas de papel, geralmente animais ou caracteres chineses. Uma lanterna é feita de uma moldura quadrada fina com alguns espetos de bambu segurando os lados juntos. Os chineses acreditam que deixar as lanternas flutuar nos lagos, mares, rios ou poços de água trará fertilidade à terra porque os espíritos da água recebem-nas com alegria.

A história do Festival das Lanternas Flutuantes é muito longa e emocionante. As pessoas faziam a suas lanternas usando bambu ou papel machê nos tempos antigos. As lanternas geralmente tinham a forma de dragões ou cavalos e eram decoradas com fitas coloridas. Podem ser pendurados no tecto, em casa, ou em templos durante celebrações de casamentos ou aniversários. 

Há dois mil anos, na dinastia Han (25 d.C.—220 d.C.), o imperador Ming imitou os monges budistas que acendiam lanternas a cada 15.º dia do ano chinês. Então ordenou que lanternas fossem acesas no palácio, templos e casas para mostrar respeito a Buda. 

A tradição dos Festivais das Lanternas Flutuantes é popular não apenas na China mas também na Coreia, no Japão e outros países asiáticos.»

 

Sempre na senda de eventos que possam fazer interessar as mentes mais jovens na multiculturalidade, tomei as devidas providências para levar a minha neta ao Espaço Espelho de Água em 2019 para participarmos na Noite das Lanternas Flutuantes. Só posso dizer que não correu bem. Até hoje não cheguei a entender bem porquê.

 

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Hoje é O Dia Mundial da Nutella

«Este dia surgiu em 2007 na internet por iniciativa de uma blogger norte-americana a viver em Itália chamada Sara Rosso, fã do popular creme de chocolate com avelã, cacau e leite. Rapidamente a iniciativa se tornou global.

A Nutella foi criada em 1963 em Itália. Está disponível em cerca de 75 países, sendo vendido um frasco desta marca no mundo a cada 2,5 segundos.

Como os seus ingredientes variam de país para país, os apreciadores devem provar este doce, sempre que puderem, em latitudes diferentes.»

 

Já vi comer Nutella às colheradas. Arrepia. Não sou fã, senão para misturar com pistachios, ou morna com gelado de morango.

(Imagens Google)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 05.02.23

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Eu: «Onde foi parar a ficção? A pergunta começa a ter razão de ser face aos filmes em cartaz nestas semanas que antecedem a distribuição dos Óscares. Lincoln segue a trajectória final do mais amado presidente norte-americano. O Impossível é a reconstituição fiel do drama vivido por uma família espanhola que sofreu na pele, na carne e no sangue o trágico maremoto de 26 de Dezembro de 2004 - acompanhado com emoção em todo o mundo. Argo relata-nos uma operação de resgate de cidadãos dos EUA na Teerão pós-Xá totalmente baseada em acontecimentos reais, como aliás o filme faz questão de acentuar. 00.30 Hora Negra suscitou polémica precisamente pelo seu carácter realista, de estrita colagem aos factos. Todos estes filmes têm pelo menos dois traços comuns: assentam em pressupostos "verídicos" e estão nomeados em diversas categorias na corrida aos Óscares. De repente, também no cinema as utopias parecem ter passado de moda. O produtor, o realizador, o exibidor e os espectadores exigem uma espécie de caução do real para determinar a qualidade de um filme.»

Blogue da semana

Pedro Correia, 04.02.23

A culinária vegetariana e vegana está cada vez mais na moda. Ao contrário do que muitos imaginam, com base num conceito já ultrapassado que associava esta variante gastronómica a uma extrema e desinspirada frugalidade, é variada e criativa. Sei do que falo, pois consumo cada vez menos carne. Não apenas fora de portas, mas também em casa. Arrisco até dizer que alguns dos meus pratos favoritos são veganos. Dois exemplos: lasanha com ragu de lentilhas castanhas e cogumelos, molho bechamel e mozarela de amêndoa; pedaços de tofu marinados e grelhados em molho de caril, com lentilhas coral, leite de coco e caju.

Serve este intróito para dizer que o meu blogue da semana navega nestas águas. É o Cozinha de Sentidos, de Gualter Rainha - de São Miguel para o mundo, sempre com propostas de bem comer dignas de despertar o apetite em qualquer leitor.

Resistência em alemão (8)

Cristina Torrão, 04.02.23

OS QUATRO MÁRTIRES DE LÜBECK

2 - Johannes Prassek

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Imagem daqui

Johannes Prassek nasceu a 13 de Agosto de 1911, no seio de uma família humilde, em Hamburgo. Estudou Teologia e Filosofia na Escola Superior dos Jesuítas, em Frankurt am Main, e completou a sua formação no Seminário de Münster. Foi ordenado padre a 13 de Março de 1937, em Osnabrück, e, a partir de Março de 1939, foi colocado como capelão na Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Lübeck, onde dava aulas de religião e participava na orientação espiritual dos fiéis.

Johannes Prassek era caracterizado como sendo corajoso, foi inclusive homenageado por ter ajudado na evacuação de um hospital destruído pelos bombardeamentos de Lübeck, a 28 e 29 de Março de 1942.

Não escondia a sua rejeição pelo regime nazi. Expressava-a nas suas homilias e, quando lhe diziam que não criticasse o regime tão abertamente, ele respondia: «Alguém tem de dizer a verdade». Nas suas aulas de religião e em conversas, declarava-se contra os planos estatais de eliminação de doentes físicos e mentais, além de criticar o tratamento desumano da população civil dos territórios conquistados pelos alemães. Por ter aprendido polaco no Seminário, dava clandestinamente apoio espiritual a polacos, forçados a trabalhar na fábrica de munições e armamento de Lübeck. Encorajou inclusive jovens polacos, que se conheceram e apaixonaram na Alemanha, a viverem em comum, mesmo sem casamento, pois ele estava impedido de os casar. Na sequência deste seu comportamento, celebraram-se, depois do fim da guerra, muitos casamentos entre polacos, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lübeck.

Depois de o seu domicílio ser revistado, a 28 de Maio de 1942, foi detido pela Gestapo, com o fundamento de divulgar as homilias do bispo Clemens August Graf von Galen, assim como ser má influência para soldados. Esteve cerca de ano e meio em prisão preventiva, junto com os padres Eduard Müller e Hermann Lange e o pastor luterano Karl-Friedrich Stellbrink. Depois de um processo dirigido pelo Segundo Senado do Tribunal do Povo de Berlim, deslocado a Lübeck, foi condenado à morte. Um pedido de clemência por parte do seu bispo Hermann Wilhelm Berning (que incluía os outros dois padres católicos), foi recusado.

Johannes Prassek foi executado pela guilhotina, a 10 de Novembro de 1943, na prisão Holstenglacis, em Hamburgo. Junto com os seus dois colegas de martírio, foi beatificado a 25 de Junho de 2011 por Bento XVI.

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Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lübeck, Klaus Kegebein - Eigenes Werk, CC BY-SA 4.0

Além de vários centros paroquiais com o seu nome, no Norte da Alemanha, o beato Johannes Prassek é o patrono de uma grande paróquia da arquidiocese de Hamburgo (formada com a junção de cinco antigas paróquias). Também um parque no bairro hamburguês de Barmbek-Süd foi inaugurado, com o seu nome, em 2011.

Os melhores livros do meu ano (2)

Pedro Correia, 04.02.23

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Foi uma das poucas boas heranças dos longos meses da pandemia, pontuados por estados de emergência, recolher obrigatório e teletrabalho em larga escala: sobraram-me horas para a leitura. Daí ter lido cem livros em 2020, outros cem em 2021 e 88 no ano que há pouco terminou.

Ontem destaquei aqui dez dessas obras que me acompanharam em 2022, escritas apenas por autores portugueses: seis romances, uma ensaio memorialístico, uma biografia, um livro de crónicas e outro de apontamentos literários. De escritores já antigos, como Vergílio Ferreira ou Urbano Tavares Rodrigues, e outros contemporâneos, ainda jovens, como Djaimilia Pereira de Almeida ou Afonso Reis Cabral.

Hoje destaco outras dez, mas só de autores estrangeiros. São oito romances, um ensaio literário e um extenso volume com prosa diarística. De três galardoados com o Prémio Nobel (Thomas Mann, John Galsworthy e Mario Vargas Llosa) e de épocas muito diversas - de meados do século XIX até quase à década em que hoje vivemos. Gostei de todos, em graus diversos. Alguns foram excelentes surpresas.

Alinhados também por ordem alfabética, para maior facilidade de consulta.

 

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A FAMÍLIA FORSYTE, de John Galsworthy (1922). Um monumento literário sobre meio século de vida de um clã de prósperos negociantes londrinos que simbolizavam o apogeu e decadência da Inglaterra vitoriana. Com personagens inesquecíveis: o pérfido Soames e o seu primo direito Jolyon, mais dado às artes dos que aos negócios, além de Irene, a mulher que ambos disputaram. Originou filmes e séries, sempre com sucesso.

 

A FESTA DO CHIBO, de Mario Vargas Llosa (2000). Um dos melhores romances do popular escritor peruano, aqui num ousado exercício de estilo que cruza a ficção com segmentos de reportagem em torno de um dos mais execráveis ditadores da América hispânica: o dominicano Rafael Trujillo, assassinado em 1961. Autópsia de uma tirania com bisturi literário de mestre exibindo uma escrita inigualável.

 

DIÁRIOS 1950-1962, de Sylvia Plath (2000). Viver era escrever para a poetisa norte-americana, que sofria de depressão desde a adolescência e foi capaz de elevar esta doença à categoria de obra de arte enquanto matéria literária. Eis a versão mais completa dos seus diários, só há meses publicada em português. Permite-nos perceber como a tragédia do suicídio, aos 30 anos, se prenunciava nos belos textos que redigia.

 

E TUDO O VENTO LEVOU, de Margaret Mitchell (1936). Epopeia em torno da Guerra Civil norte-americana (1861-1865) que dilacerou os EUA com reflexos que chegaram aos nossos dias. Scarlett O'Hara, que resiste às adversidades do destino na vasta propriedade rural de Tara, na Geórgia, simboliza a tenacidade sulista, deslocada num mundo em mudança vertiginosa. Uma das grandes personagens femininas da literatura.

 

MORTE EM HAVANA, de Leonardo Padura (1997). Inesquecível, o Quarteto de Havana integrado por quatro policiais, cada qual ambientado numa das estações do ano - que na Cuba comunista são pequenas variações do mesmo sistema concentracionário, emoldurado por um oceano que em vez de libertar oprime. Mario Conde, polícia que sonhava ser escritor, protagoniza os quatro romances, de que este é o meu eleito.

 

NOSTROMO, de Joseph Conrad (1904). O escritor anglo-polaco era capaz de conciliar a novela de aventuras com a fabulosa criação de atmosferas densas e perturbantes. Aqui numa fictícia república da América do Sul, inaugurando um subgénero que fez furor com títulos como Tirano Banderas (Valle Inclán, 1927), O Senhor Presidente  (Miguel Angel Asturias, 1947) ou O Outono do Patriarca (Gabriel García Márquez, 1975).

 

O BARULHO DAS COISAS AO CAIR, de Juan Gabriel Vásquez (2011). Um dos melhores romances da nova geração sul-americana. O autor, colombiano, presta homenagem ao realismo mágico mais pelas palavras do que pelas ideias numa obra sem concessões ao imaginário pícaro. O livro disseca com desassombro a tragédia do terrorismo ligado ao narcotráfico, que paralisou o Estado e estilhaçou a sociedade.

 

O  INFINITO NUM JUNCO, de Irene Vallejo (2019). Deslumbrante ensaio que se aproxima de um romance sobre o apego à leitura, iniciado antes da invenção do papel. Leva-nos aos grandes pensadores da Grécia antiga, faz-nos conhecer as penas mais talentosas da velha Roma. Caso extraordinário de paixão desmedida pela palavra escrita que a historiadora espanhola transmite com inegável fascínio aos seus leitores.

 

O MONTE DOS VENDAVAIS, de Emily Brontë (1847). Exemplo clássico da ficção gótica, centrada numa mansão onde o rasto dos mortos assombra os vivos. O inferno transposto para o bucólico cenário rural inglês em forma de romantismo exacerbado, tendo no centro a figura do demoníaco Heathcliff na sua demencial obsessão por Catherine, uma das primeiras e mais emblemáticas heroínas da literatura. 

 

OS BUDDENBROOK, de Thomas Mann (1901). A fortuna da família Buddenbrook, argamassada há três gerações no norte da Alemanha, ameaça ruir quando os filhos tomam o lugar dos pais naquele final do século XIX, já com a velha burguesia luterana a dissolver-se enquanto âncora moral da sociedade. Genial romance de juventude que valeu o Nobel ao prosador germânico: nunca voltaria a escrever tão bem.

Mais cem escritores indispensáveis (20)

Pedro Correia, 04.02.23

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«O homem nunca sabe por quem sofre e espera. Sofre, espera e trabalha para pessoas que nunca conhecerá e que, por sua vez, sofrerão e esperarão e trabalharão para outras que também não serão felizes, pois o homem deseja sempre uma felicidade muito além da porção que lhe foi outorgada. Mas a sua grandeza consiste precisamente nisso.»

Alejo Carpentier (1904-1980)

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 04.02.23

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Hoje é O Dia Mundial da Luta Contra o Cancro

«A incidência do cancro tende a aumentar em todo o mundo, morrendo anualmente cerca de 10 milhões de pessoas, o equivalente à população de Portugal. Os especialistas estimam que, se nada for feito, em 2030 as mortes por cancro atinjam 13 milhões de pessoas.

No entanto, mais de um terço dos casos de cancro pode ser evitado. Outro terço pode ser curado se for detectado precocemente. Hoje, sabemos mais sobre cancro do que nunca. Por meio do investimento em pesquisa e inovação, testemunhamos avanços extraordinários no conhecimento científico, medicina, diagnóstico e tratamento. Quanto mais sabemos, mais progresso podemos fazer na redução dos fatores de risco, aumentando a prevenção e melhorando o diagnóstico precoce, o tratamento e os cuidados ao doente.

Apesar destes avanços inspiradores, muitas pessoas encontram barreiras e dificuldades a cada passo, nomeadamente económicas, de educação, geográficas ou mesmo de estatuto social. Mas estas barreiras não são imutáveis. Ao aumentar a literacia e a compreensão do público em torno do cancro, reduzimos o medo, aumentamos a compreensão, dissipamos mitos e conceitos erróneos e mudamos comportamentos e atitudes. Em benefício de todos.»

 

Nunca é demais lembrar que o sucesso desta luta está no diagnóstico precoce. Se chegarmos à doença antes de se desenvolver e espalhar, as hipóteses de vencer aumentam exponencialmente. 

 

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Hoje é O Dia Internacional da Fraternidade Humana

«Em 4 de Fevereiro de 2019, o Papa Francisco e o Imã Ahmad al-Tayyeb assinaram em Abu Dhabi o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e a Convivência Comum. Neste dia Fevereiro passou a celebrar-se a fraternidade humana, com data patrocinada pela ONU.

O caminho para irmanar povos de diferentes religiões tem suas raízes na encíclica papal Gaudium et spes, onde o trabalho das instituições internacionais é apreciado como um instrumento de desenvolvimento e reconciliação e se expressa ajuda, tanto aos que acreditam em Deus como aos que não têm fé, para que "possam tornar o mundo mais conforme à dignidade eminente do homem, aspirar a uma fraternidade universal apoiada em bases mais profundas, e responder, sob o impulso do amor, com um esforço generoso e unido aos apelos mais urgentes do nosso tempo".

O conceito da dignidade dada por Deus a toda a criação, em virtude da qual somos chamados a valorizar os nossos semelhantes, é o fundamento sobre o qual também se apoia o Documento sobre a Fraternidade Humana.»

 

A Convivência Comum e pacífica é uma aprendizagem. Neste caso particular, duas religiões que se fundamentam no mesmo princípio do criacionismo, que têm profetas comuns e leis idênticas, travam-se de razões desde tempos imemoriais por uma questão de fé ou de interesses económicos? Há que lutar pela Paz, porque só em paz pode verdadeiramente haver luz.

 

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Hoje é O Dia do Cânhamo

«Este dia pretende destacar a crescente indústria do cânhamo. Esta planta tem sido essencial para sectores como o têxtil e a construção.

As fibras obtidas do cânhamo foram usadas para fazer tecidos e outros materiais por algumas das primeiras civilizações. O cânhamo era procurado na China antiga, ao ponto de os chineses costumarem dizer: “A China é a terra da amora e do cânhamo”. Também era muito popular na Índia antiga.

A associação do cânhamo à cannabis gera apreensão e resistência em certos grupos. No entanto, há cada vez mais produtos à base de cânhamo com disponibilidade para compra: óleo, isolamento, plásticos, tintas e até biocombustíveis.»

 

Tive um saco de cânhamo que comprei em Marrocos em 1978. Durou-me imenso tempo e como a alça dava para pôr à tiracolo, era o meu saco de eleição para onde quer que fosse. Tenho saudades das coisas do baú dos tesourinhos. A maior parte delas não as doo porque ninguém as quer e porque me relembram, como o meu saco de cânhamo, que houve uma altura (alguns números abaixo) em que as usava e me caíam lindamente.

(Imagens Google)

Cristina Ferreira e as redes sociais

jpt, 04.02.23

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A popular apresentadora de televisão foi acolhida na Assembleia da República, na qual defendeu a regulação dos conteúdos das "redes sociais". Presumo que a verdadeira "namorada de Portugal" esteja ainda desiludida com a revogação dos preceitos mais "controleiros" da lei - dita "Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital" - que o (ex-)deputado socialista Magalhães havia tentado estipular - e que haviam desagradado aos malvados adoradores do Algoritmo, ao próprio Presidente da República, reconhecido instangrameiro, e, presumia-se, aos tuíteristas do Tribunal Constitucional. Ciosa defensora da pluralidade informativa e da ética republicana na comunicação social, Ferreira, ela própria com responsabilidades directivas televisivas, estará preocupada com os processos monopolistas decorrendo nesses meios, sempre em prol de uma efectiva liberdade de informação promovida por uma comunicação social livre de pressões políticas, ameaçada que tal liberdade está pelo verdadeiro vazio legislativo existente.

Entretanto, Ferreira, que em tempos idos deixara no ar a hipótese de se candidatar a Belém, vai já pavimentando esse caminho. Presumo que para esse desiderato contará com o apoio do ilustre Senador, antigo cabeça de lista nacional escolhido pelo então primeiro-ministro José Sócrates, cônjuge de membro dos governos por aquele capitaneados e actual colega europarlamentar de Silva Pereira - entre outros -, e que do alto da sua (senatorial) experiência política nos alerta para o processo em curso, que será alimentado pelas tais "redes sociais" e pela imprensa "monopolizada". Processo no qual "o Ministério Público, entretido que está na sua guerrilha diária contra o Governo e os políticos, por via do seu órgão oficioso, o Correio da Manhã," minam a democracia, tal como ela deve ser. Esperemos então pelo pacote legislativo que nos defenderá da perfídia ôntica da ralé das "redes" e dos ilegítimos anseios dos capitalistas da comunicação social.