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Ferro proibicionista

por Pedro Correia, em 16.12.19

Em tempos proibicionistas, com a liberdade de expressão cada vez mais comprimida, o senhor Ferro Rodrigues lembrou-se de interditar a palavra "vergonha" naquele que devia ser o espaço da liberdade por excelência: o hemiciclo da Assembleia da República. Um local onde desde o tempo da monarquia constitucional se pronunciaram as mais acaloradas diatribes contra o poder de turno e só foi transformado em mausoléu da interdição durante os anos em que ali se sentavam as silenciosas sumidades da Assembleia Nacional.

Se "vergonha" é expressão a banir, com horrores de blasfémia, questiono-me o que acontecerá no dia em que um deputado da Nação se atrever a proclamar que se está «cagando para o segredo de justiça». Mas talvez aqui o senhor Ferro Rodrigues abrisse uma benevolente excepção.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.12.19

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Tundavala, de Paula Lobato de Faria

Romance

(edição Clube do Autor, 2019)

"Por vontade expressa da autora, a presente edição não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 16.12.19

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Ana Margarida Craveiro: «Estão quase a acabar os anos 00, sem que eu tenha aprendido a referir-me a eles em voz alta. A data de vencimento da minha carta de condução aproxima-se, e já não parece um futuro longínquo. A invenção da televisão de qualidade já leva dez anos (Sopranos, 24, Sete Palmos de Terra, House, por aí fora), e o James Cameron voltou a realizar filmes. Dez anos. Pois.»

 

Leonor Barros: «Deve ser Natal. Não são só os Pais-Natal enforcados nas varandas e os meninos Jesus em cascata nas janelas. Não são os bolos-rei, azevias e sonhos que invadiram as pastelarias e se espraiam em tabuleiros oferecidos. Não são só as lojas permanentemente cheias, as filas para pagar, embrulhar presentes, pedir talões e cheques-brinde. Não são só as notícias dos sem-abrigo de quem ninguém se lembra nos restantes dias do ano, as acções de solidariedade mais profícuas que coelhos em Primavera, comos somos solidários e caridosos. Não são só as canções de Natal ad nauseam em tudo o que é canto.»

 

Teresa Ribeiro: «Se alguma coisa se desconstrói a partir do discurso deste homem são as ideias que andam a angustiar as últimas gerações de pais. Gerações que perderam a autoridade natural dos progenitores à moda antiga e que agora andam aos papéis, sem saber como educar os filhos e ainda por cima obcecadas com a ideia de que o sucesso é uma condição de sobrevivência.»

 

Eu: «A obra teórica de Lenine já prenunciava o Terror Vermelho instaurado na Rússia em 1918 após a supressão dos liberais, monárquicos, sociais-democratas, socialistas revolucionários e todos quantos podiam travar a insaciável sede de poder do Partido Comunista. No seu livro Que Fazer? (1902) sublinhou a necessidade de construção de uma "vanguarda revolucionária" para o derrube da "sociedade burguesa". Em O Estado e a Revolução (1917) antecipava a tomada violenta do poder para a instauração da ditadura revolucionária, consumada meses depois, com o assalto ao Palácio de Inverno, que afinal "foi um putsch militar e não uma insurreição das massas"

Canções do século XXI (987)

por Pedro Correia, em 16.12.19

Livros que inspiram viagens (2)

por Paulo Sousa, em 15.12.19

No meu texto anterior sobre livros que inspiram viagens fiquei de contar um episódio ocorrido no Montenegro, ou Crna Gora, como os locais o identificam. Aqui vai ele.

Entrámos neste país vindos da Bósnia e logo à chegada fomos surpreendidos com uma bandeira da União Europeia afixada numa parede do posto de fronteira. Interpretamos como sendo um sinal por parte dos montenegrinos relativo a que bloco político e económico desejam pertencer, o que é especialmente significativo após a sua cisão da Sérvia em 2006, e essa sim tem memórias recentes suficientes para ser anti-NATO, e pró-russa.

Três quartos dos montenegrinos são cristãos ortodoxos. Os restantes são católicos e muçulmanos. Os católicos residem principalmente no litoral, facto que não se pode desligar da proximidade de Itália, nomeadamente da República Veneziana.

Kotor foi classificado Património Mundial pela UNESCO e é um sítio a visitar pelo menos uma vez na vida. A cidade amuralhada ao fundo da segunda baía tem uns traços da medievalidade de Óbidos mas junto à água e rodeada de montanhas. Tem todos os ingredientes para justificar a quantidade de cruzeiros que a visitam e manobram dentro da baía.

A Capela de Nª Senhora das Rochas, construída numa ilha que não é mais que uma imensidão de pedras transportadas pelos marinheiros devotos, é um local único.

 

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A ilha-hotel de Svety Stefan, ligada ao continente por um passadiço, foi visitada ao longo do sec XX, após a “negociada expulsão” dos pescadores que lá habitavam, por inúmeras estrelas de renome mundial.

Podgorica, a antiga Titograd, é a maior cidade do país. O esforço nos melhoramentos é visível. Viajámos após o anoitecer entre Podgorica e Kotor e a estrada era um estaleiro de obras ao longo de quase toda a sua extensão.

A antiga capital do reino do Montenegro é Cetinje. Tem actualmente um décimo da população da capital, mas é o seu centro histórico e religioso. Foi o refúgio seguro contra o poder otomano vindo do interior e os venezianos que dominavam o litoral. Lenda ou facto, os gradeamentos presentes por toda a cidade foram fundidos com canhões capturados aos otomanos.

De forma a fugir à inflação recorde do dinar sérvio, os montenegrinos adoptaram o marco alemão em 1999, ainda antes da secessão da Sérvia. O euro, tal como para nós, chegou naturalmente em 2002.

No censo de 2003, pouco mais de 40% da população declarou ser de etnia montenegrina. Assumiu a etnia sérvia cerca de 30%. Outros inquéritos apresentam resultados diferentes e a explicação resulta da prática religiosa uma vez que, segundo a Igreja Ortodoxa Sérvia, todos os seus membros são de etnia servia. Entretanto, a Igreja Ortodoxa Montenegrina foi restaurada e esta rejeita a associação automática dos seus fieis à identidade sérvia.

O livro que vale a pena ser lido antes desta viagem é, afinal, apenas uma parte do Reinos Desaparecidos de Norman Davies, onde constam alguns dos detalhes que aqui transcrevo mas, além deste, muitos mais sobre a história deste país que foi o único que entrou na Primeira Guerra Mundial do lado dos Aliados e que acabou por perder a sua independência.

Depois de ler vários relatos unânimes sobre a beleza natural deste país, a expectativa era grande e logo desde o início, confirmada. É de facto uma joia que vai sendo muito lentamente descoberta. A travessia do Parque Natural de Durmitor foi memorável, sem menorizar o desfiladeiro do Rio Tara, o maior da Europa, e a incrível baía de Kotor.

 

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A estória que fiquei de contar começa quando chegamos a Podgorica e começamos à procura de uma rede wi-fi onde pudéssemos procurar uma estadia para esse dia.

Ser a maior cidade do país não faz dela uma grande cidade. Conversámos entre nós que era como se Leiria de repente passasse a ser a capital de um país e tivesse de receber todos os serviços inerentes a isso. Algumas embaixadas localizam-se em blocos de apartamentos quase serôdios e as poucas avenidas encontram-se forradas com bandeiras vermelhas com a bizantina águia das duas cabeças.

Uma sequência de restaurantes e cafés pareceu-nos um sítio provável para encontrar internet. A paragem foi curta pois, recorrendo a uma popular aplicação informática, logo encontramos uma promoção dentro das muralhas de Kotor. Vinte e poucos euros para quatro adultos junto ao centro, não se pode pedir mais (ou menos!).

No regresso ao carro... Encontrámos apenas o local onde o tínhamos estacionado! Olhámos incrédulos uns para os outros e verificámos várias vezes se estávamos a procurar no sítio certo. Não havia dúvida; o carro tinha desaparecido! A viagem estava a correr bem e a sorte tinha virado.

Regressámos ao café onde tínhamos estado e contámos o sucedido. Perguntámos se era habitual roubarem carros, ao que nos responderam que naquela rua apenas a Polícia os fazia desaparecer. E eram rápidos.

Lembrámo-nos de que, quando começámos à procura de estacionamento, nos deparámos com um sinal de estacionamento proibido, mas com a indicação horária em que se aplicava. Por não dominarmos a língua servo-croata não entendemos se queria dizer algo como “das 10h às 20h” ou “excepto das 10h às 20h”. A dúvida sobre se poderíamos estacionar ou não, foi dissipada ao vermos várias dezenas de carros ali estacionados.

O nosso tinha sido escolhido no meio dos outros.

No café disseram-nos que, para o recuperarmos deveríamos ir à entrada da cidade, junto a um pavilhão desportivo, onde ficava o parque dos carros rebocados. Escreveram-nos uma nota para mostrar a um taxista e lá fomos nós.

O taxista quando viu a indicação escrita começou logo a rir-se de nós e num tosco inglês disse-nos que em Podgorica só a Polícia é que fazia desaparecer carros.

Chegámos ao parque e dirigimo-nos ao posto da polícia.

Ninguém falava inglês e um dos polícias presentes fez uma chama telefónica para alguém a quem podíamos explicar o que se passava. Relatada a situação mandaram-nos esperar. E ali ficamos por mais de vinte minutos. Para não dar um ar de acomodados, não nos sentamos. Andamos por ali em círculos a falar uns com os outros, não muito alto para não incomodarmos quem não nos entendia, mas não muito baixo para que não se esquecessem de nós.

Após esta espera, chegou finalmente alguém que falava inglês. Mais tarde reparámos que eram oito em ponto e que a sua chegada se devia à mudança de turno.

O polícia, com os seus mais de dois metros, poderia ter pertencido à selecção de basquetebol da Jugoslávia. Quando soube do que se passava começou logo a explicar que os sinais de trânsito eram para cumprir, blá blá, blá... e que em Varsóvia a polícia nunca perdoa nenhuma multa. Nós ouvimos com atenção mas... Varsóvia!!! o que é que este gajo estaria a pensar??

A multa era 50€ pelo estacionamento e 50€ pelo serviço de reboque. Dizer o que nos passa pela cabeça nestas horas só complica as coisas e enquanto olhávamos para cima, a única coisa que víamos eram 25€ a voar bolso fora de cada um de nós.

Sermão terminado, pediu-nos a identificação do proprietário. Quando olhou para o passaporte que lhe demos levantou as sobrancelhas e mandou-o contra a secretária. Abriu as mãos e perguntou:

- São portugueses?!

- Sim.

- Porque é que não disseram logo?

- ...

- Os meus colegas viram o P na matrícula e pensaram que eram polacos.

- Hãaa??

- Não me digam que são do Benfica??

- Hãaa????

Quase automaticamente um de nós abriu a mochila a que chamamos de kit de emergência e, ali mesmo dentro da esquadra, agarrou no cachecol vermelho e abriu os braços.

O gigante fardado sorriu para nós e desatou a explicar-nos que era árbitro de futsal e que tinha estado numa formação em Portugal há uns meses atrás. Antes do regresso tinha ido à Catedral da Luz assistir a um jogo. Falou logo na águia Vitória e que agora até o filho dele já era benfiquista.

Das mãos de um de nós logo apareceu um telemóvel com uma filmagem pessoal do voo da dita águia. Perguntou-nos de que jogo eram as imagens e quando soube que era do recente Benfica-Guimarães disse de imediato: 5-0. Jonas very good!.

Ainda pensámos em abrir uma casa do Benfica em Podgorica, mas como tínhamos um voo de regresso a casa para apanhar em Belgrado daí a poucos dias, a ideia acabou por não vingar.

A conversa ainda durou mais um bocado até o quinto benfiquista do grupo nos informar que só podia retirar uma das duas multas, e assim, poder relatar este belo contratempo passou a custar a cada um de nós 12,50€. Nem foi muito. Tenho histórias bem piores que esta e que foram bastante mais caras.

Antes da tirada nocturna pela estrada em obras até Kotor, ainda fomos jantar ao restaurante muçulmano Pod Volat, que é excelente e que encerrou com chave de ouro a nossa passagem pela capital deste belo país.

O comentário da semana

por Pedro Correia, em 15.12.19

 

«Gente inteligente procura compreender o universo, gente burra procura criar um que os compreenda.»

 

Do nosso leitor António. A propósito deste texto do JPT.

Olivia

por Pedro Correia, em 15.12.19

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Só ela resta do imenso elenco de E Tudo o Vento Levou (1939), o clássico dos clássicos, que estreou há precisamente 80 anos.

Em 2004 reapareceu em palco, como uma das apresentadoras da cerimónia de distribuição dos Óscares de Hollywood: parecia que os anos não tinham passado por ela. Ficará sempre na memória dos cinéfilos sobretudo pelos filmes que fez com Errol Flynn - quase todos inesquecíveis.

Era de uma espantosa fotogenia: ainda hoje aqueles grandes olhos, revistos a preto e branco, conseguem iluminar qualquer ecrã.

Olivia de Havilland, a última deusa do cinema clássico. Nascida a 1 de Julho de 1916, hoje com uns luminosos 103 anos.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.12.19

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Imagens Imaginadas, de Pedro Mexia

Prefácio de Rui Chafes

Crónicas

(edição Tinta da China, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 15.12.19

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Sérgio de Almeida Correia: «Por acaso tudo se passa entre nós. Talvez, também por acaso, sejamos um país. Quem sabe se, por acaso,  essa notícia nos diz respeito? Enfim, não sejamos pessimistas. Neste país tudo acontece por acaso. Até o inexplicável. E, pensando bem, por acaso, até é capaz de ser bom que tudo se passe assim. Por acaso.»

 

Teresa Ribeiro: «A braços com casos sucessivos de corrupção, o Brasil tem proporcionado à Imprensa brasileira abundantes manchetes sobre o tema. Na última Veja, mais um escândalo envolvendo políticos é pretexto para uma bela reportagem seguida de um top ten das causas que propiciam actos de corrupção, elaborado a partir de uma consulta feita a várias figuras com idoneidade para se pronunciar sobre a matéria.»

 

Eu: «São publicações que  prestam culto a "famosos" que ninguém conhece, ignoram o significado do termo "intimidade", adoram escrever o verbo "assumir", imaginam um "casal" em cada par que vislumbram ao virar da esquina, acreditam que uma pessoa se realiza essencialmente pela "relação" que estabelece seja com quem for, e não concebem que uma jovem possa viver sem ser "com o coração destroçado" após ter terminado o namoro, forjado ou real, que essas mesmas publicações garantiam ser "eterno" semanas antes.»

Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 15.12.19

Sou visita desta casa há muitos anos, porque nela encontro sempre o que procuro: matéria de reflexão, escrita escorreita, de onde se olha para fora (não para o umbigo) e espírito de cidadania. Passem por lá, pois esta semana este é o blogue que se recomenda.

Pensamento da Semana

por Maria Dulce Fernandes, em 15.12.19

Comer doze passas, brindar com vinho, iluminar os céus com fogo, bater com tachos, subir para uma cadeira e saltar com o pé direito, vestir cuecas azuis, ter dinheiro na mão e agitar acima da cabeça, deitar fora o que não presta, mergulhar no mar…
Estas são algumas das mais comuns tradições cumpridas na passagem para o Ano Novo.
É inegável que a última seja a mais seguida, pois mesmo quem não liga a estas coisas, acaba por ir na onda.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Canções do século XXI (986)

por Pedro Correia, em 15.12.19

Leituras

por Pedro Correia, em 14.12.19

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«A vida, ainda que nos espante, é um misto incompreensível de amor e ódio.»

José Rodrigues MiguéisA Escola do Paraíso (1960), p. 172

Ed. Estampa, 6.ª ed, 1984

Parabéns, Luís

por Pedro Correia, em 14.12.19

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O Luís Menezes Leitão acaba de ser eleito bastonário da Ordem dos Advogados. Prova máxima de confiança nele por parte dos colegas de profissão. E uma excelente notícia para esta ordem profissional: tenho a certeza de que fica bem entregue à liderança do nosso estimado parceiro de blogue.

Segue o meu caloroso abraço de felicitações ao Luís, em nome de toda a tribo delituosa.

Em viagem - Parte 1

por Maria Dulce Fernandes, em 14.12.19

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O pai já não está connosco há 25 anos. Partiu novo, deixando um vazio imenso que coisa alguma conseguiu preencher. Aventureiro carismático e muito castiço, era um gastrónomo de primeira água e apreciava um bom vinho. Adorava música, bons filmes, bons livros, praia, mulheres bonitas, a esposa, os filhos e as netas.

Vivi com ele a primeira grande aventura da minha vida num maravilhoso Setembro de 1970: um Volkswagen Variant com porta-bagagens em cima, uma tia sexagenária, uma miúda de 12 anos, um garoto de 8, a mãe, o bebé com 4 meses e o pai ao volante. As roupas e necessaires iam em cima, em grandes malas e o espaço traseiro do carro tinha sido transformado numa espécie de nurserie do menino: tinha caixas forradas a azul e etiquetadas com as roupas de bebé, as fraldas, os biberons, as papas, um fogão Campingaz e alguns apetrechos de cozinha, e uma alcofa, que porta-bebés ainda era praticamente um produto de ficção científica.

E então fomos estrada fora, depois duma preparação concisa através de mapas e trajectórias alternativas fornecidas pelos experts do ACP, rumo a Solingen, perto de Colónia, na Alemanha, onde morava a Line, a filha mais nova da tia Eugénia.

A primeira paragem foi em Talavera de la Reina, onde pernoitámos num simpático Hostal, gerido por um casal com uma caterva de filhos, todos alegres e salerosos, e onde o meu pai abriu a primeira garrafa da colheita especial ”para levar para a Alemanha”, que guardava zelosamente. Os hospedeiros eram de uma simpatia e amabilidade contagiantes, pondo de imediato ao dispor das senhoras a cozinha e outras facilidades necessárias para tratar das crianças. A ideia que me ficou dos espanhóis é a de pessoas afáveis, alegres e fantásticas, o que me leva a crer que a geração pós-franquista degenerou significativamente.

De Talavera de la Reina partimos para mais uma tirada até Zaragoza e depois até à Costa Brava, com paragem obrigatória em Barcelona - a Costa Brava é linda, grandiosa, magnífica - e atravessámos outra fronteira já na subida para os Pirenéus, para pernoitar em Perpignan, noutra pousada gerida por outro casal espectacular, onde pus pela primeira vez à prova os dotes linguísticos que adquiri num único ano de francês. A verdade é que me safei muito bem e a partir daí tomei-lhe o gosto.

Saídos de Perpignan, seguimos por uma via a que chamavam autoestrada – Uau !!! – e almoçámos num sítio totalmente práfrentex, chamado área de serviço. A caminho de Dijon, onde pernoitámos, pela primeira vez num hotel de luxo, atravessámos a pior tempestade eléctrica que vi na minha vida que culminou com uma chuva torrencial de proporções bíblicas. Foi uma noite aterradora e praticamente insone; nos breves minutos que conciliávamos o sono éramos despertados abruptamente por hordas de hunos gritantes, que nos bombardeavam sem cessar. Em concílio familiar ficou decidido que no dia seguinte era uma directa até Colónia e pronto, mas não sem antes passar no Luxemburgo para deixar uma encomenda que um amigo por lá emigrante nos tinha pedido para levar.

Depois das peripécias do costume, qual bando de ciganos chegámos à grandiosidade do Luxemburgo, que se atravessava nuns meros 20, 30 minutos. O pai estacionou numa bomba de gasolina, para atestar e pedir direcções. O funcionário que o atendeu ere jugoslavo e falava apenas  a sua língua e um mau italiano; tanto quanto o pai entendeu, tínhamos de atravessar duas pontes e virar na via sinistra. Transmitidas as indicações ipsis verbis, as palavras caíram que nem raios na população da Variant, que depois de uma noite terrífica, queria tudo, menos ir para a via sinistra. Novo concílio: não se entregava qualquer encomenda e era o toca a sair de imediato daquele funesto país.

E foi assim que, depois de passarmos duas pontes e virarmos à esquerda, nos encontrámos de novo no caminho para Solingen, onde chegámos bem tarde nessa mesma noite, ajudados por um simpático casal de alemães acabadinho de sair dum pub, que teve a enorme  pachorra de nos levar a Übenstrasse 14, que não ficava nem mais nem menos senão no ponto oposto daquele da nossa entrada na cidade. É que perdemos quase todas as saídas de autoestrada menos aquela, porque sempre que o navegador - a mãe - dizia que saíamos a seguir, surgia a indicação "Ausfahrt"... e como ninguém queria ir para a Áustria, íamos continuando em frente...

 

(Post inspirado nos últimos posts de viagens publicados)

Delito à mesa (17)

por Pedro Correia, em 14.12.19

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Uma das salas do Medieval

 

As cidades também nos conquistam pelo estômago: eis dois restaurantes clássicos de Évora agora revisitados para proveito de quem não anda em busca de modernices de importação nem da última moda mastigatória.

 

Já não é a primeira vez que menciono isto: considero Évora uma das capitais da gastronomia portuguesa. Regresso sempre com a certeza antecipada de que farei por cá refeições dignas de guardar na memória. E a convicção reforçada de que as cidades também nos conquistam pelo estômago.

Volta a acontecer-me. Comecei por matar saudades do Dom Joaquim, que já apresentei aqui: lá me esperava desta vez uma salada de camarão com papaia e manga (entrada), seguida de terrina de bochechas de porco estufadas em vinho tinto com esmagada de batata trufada e legumes salteados.

Mantém o patamar de excelência que me levou a elegê-lo como melhor restaurante da nobre e bela urbe alentejana.

 

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Superada a prova inicial com gosto e proveito, em dias subsequentes tenho lançado âncora noutras enseadas gastronómicas eborenses, aproveitando esta época em que por cá se circula com muito mais tranquilidade e desafogo do que nos Verões recentes, insuflados de turismo internacional.

Permiti-me revisitar o Medieval, um dos meus portos de abrigo na cidade, chova ou faça sol. Sei de antemão, por experiência acumulada, o que encontro nesta casa: genuína comida tradicional do Alto Alentejo, sem concessões a modernices de importação nem às mais recentes modas mastigatórias.

Antecipo um conselho: evitem trazer pressas. A cozinha cá do burgo tem o seu ritmo muito próprio de elaboração, nada condizente com o frenesim lisboeta daqueles que chegam afogueados e pedem «o que estiver mais pronto a sair» porque têm o carro «mal parado», não desgrudam os olhos do telemóvel e alegam «não ter tempo a perder com refeições».

Coitados. Sabem lá eles o que é perder ou ganhar...

 

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Migas com carne de porco preto

 

Abanquei aqui pronto a matar saudades das típicas migas com carne de porco preto. Ele, o bicho, com fritura adequada. Elas como eu gosto: moldadas com água a ferver numa massa de pimentão e alhos pisados, depois douradas em frigideira ou tacho de barro antes de rumarem à mesa.

Casamento perfeito. E abençoado com um jarro de tinto da casa, oriundo da região de Borba.

 

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Noutro dia, pousei n' O Trovador. Menos popular e mais sofisticado do que o anterior, mas respeitando os pergaminhos gastronómicos locais. E mantendo a atmosfera caseira que tanto aprecio nestas incursões.

Aqui optei pela clássica sopa de cação, prato que só consumo no Alentejo. Chegou à mesa em dose abastada, convenientemente repartida: travessa reservada ao peixe cartilaginoso, parente dos tubarões, e a terrina onde repousava o caldo - numa base de azeite, cebola, alho, louro e abundantes coentros - e generosas fatias de bom pão de trigo alentejano.

A mistura é feita no prato, ao gosto de cada um.

Garanto-vos: em qualquer dos casos, apetece regressar. Não só pela qualidade do que se come mas pelo módico preço que se paga. E pelo incomparável sossego que se desfruta: o tempo aqui rende sempre mais.

 

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Sopa de cação

 

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Restaurante Medieval                                                                                     

Rua do Raimundo, n.º 47, Évora.

Telefone 266 744 116.

Horário: 10.00-22.00. Encerra à segunda-feira.

 

Restaurante O Trovador                                                                                       

Rua da Mostardeira, 4-6, Évora.

Telefone 266 707 370.

Horário: 12.30-15.30, 19.30-23.00. Encerra ao domingo.

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.12.19

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Os Imortalistas, de Chloe Benjamin

Tradução de Mário Dias Correia

Romance

(edição Planeta, 2019)

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Ferro Rodrigues

por jpt, em 14.12.19

0378.jpgQuando vivia em Maputo contactei - por razões profissionais ou conjugais - com inúmeros governantes portugueses ali visitantes, na sua maioria socialistas. Oscilavam entre o pungente (Vitalino Canas era um exemplo tétrico de défice mental) à extrema compostura arguta (Sousa Franco ou Luís Amado foram disso exemplos). Isto não é uma avaliação política: um imbecil nunca poderá ser bom governante mas alguém muito decente e capaz pode falhar rotundamente. É apenas uma consideração pessoal. Recordo isto devido ao episódio "vergonha" que Ferro Rodrigues acaba de protagonizar na AR a que preside. Pois há cerca de duas décadas ele visitou Maputo como ministro e a impressão que deixou foi a melhor: educado, afável, muito bem preparado.

Politicamente pouco me interessa. Para mim ele é, acima de tudo, o homem que acabado de ser eleito presidente do grupo parlamentar do PS, sob o novo secretário-geral Costa, foi discursar ao parlamento reclamar o legado governativo de Sócrates (estava este, então recém-regressado ao país, a pavimentar a sua via para Belém, entre posfácios de Eduardo Lourenço, conferências sobre Rimbaud, e elogios alheios ao seu magnífico PEC4). O qual foi detido logo a seguir (julgo que até na semana seguinte). E deixemo-nos de coisas, se até eu, mero emigrante de longo prazo, vulgar antropólogo docente, sabia desde 2007/8 das trapalhadas da banca, das aleivosias da malta que o rodeava, das coisas bem estranhas dos negócios em Moçambique (sobre as quais ninguém fala), do combate à liberdade de imprensa - e do quão misteriosa era a fonte dos seus recursos pessoais - é completamente impossível que o seu predecessor no PS tudo ignorasse. Sabia-o perfeitamente, sabiam-no os seus mais próximos (como o sabiam todos os membros daqueles governos, e o pessoal "menor" circundante daquele poder). Ou seja, Ferro Rodrigues não foi apenas conivente com o socratismo. Reclamou-o como legado a preservar. E o seu opróbrio (vede como evito o termo "vergonha") é esse.

Pode agora surgir Ferro Rodrigues a querer censurar o léxico do extremo-direitista Ventura, erro crasso que este muito agradece, como é óbvio. Mas o que me nada me surpreende é a impudicícia (vede como evito o termo "vergonha") com que os socialistas defendem esta patetice. Explico-me melhor: acabo de ler no mural FB de um prestigiado socialista a sua reflexão sobre o caso, até elíptica. E no seu mural há um comentário que ele acolhe, e até responde plácido ainda que discordante: trata-se de uma veemente concordância com Ferro Rodrigues aposta por um deputado (poeta,filósofo, bloguista) importante deste poder. Porfírio Silva de seu nome, o homem que acusou Passos Coelho de usar o cancro da sua mulher como propaganda eleitoral.

A minha pergunta é esta: pode Ferro Rodrigues, que aceita ombrear no seu grupo parlamentar com um filho da puta destes, ter algum critério sobre o léxico alheio? E já nem pergunto o mais óbvio, pode alguém que aceita dialogar com um filho da puta daqueles colher algum respeito pelas suas opiniões?

No meio disto quem se sai a rir, claro, é o comentador da bola. Irá longe, parece-me.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 14.12.19

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Luís M. Jorge: «Il trionfo del Tempo e del Disinganno. O título deste oratório de Handel foi atraiçoado em libretto nas várias versões. Houve quem lhe chamasse O triunfo do Tempo e da Verdade. Outros, menos optimistas, traduziram-no para O triunfo do Tempo e da Desilusão

 

Eu: «Convém escolher melhor os exemplos quando se mencionam candidatos que baixaram imenso de umas eleições para outras. Se é verdade que Otelo Saraiva de Carvalho caiu de 792.760 votos (16,2%) nas presidenciais de 1976 para 85.896 (1,5%) nas presidenciais de 1980, é muito mais esmagadora a diferença obtida por Mário Soares entre os escrutínios de 1991 e de 2006: 3.459.521 (67,9%) no primeiro, 778.781 (14,34%) no segundo - abaixo do "folclórico" Otelo de 1976. Um notável trambolhão do qual ainda não se refez por completo. Nem muitos dos seus apoiantes.»

Canções do século XXI (985)

por Pedro Correia, em 14.12.19


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