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Delito de Opinião

Os apoios eleitorais fortuitos

jpt, 25.09.21

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Todos, e mesmo se militantes de um partido, somos livres de apoiar as candidaturas políticas que entendemos. E se essa liberdade deve ser defendida em geral, mais ainda é pertinente - no caso dos militantes - aquando das eleições autárquicas, onde mais abrangentes e até sistémicas concepções da sociedade não estão (tanto) em jogo. Ainda assim espera-se (não se obriga, espera-se...) alguma contenção nessas deambulações naqueles que optaram por ter uma carreira política activa e que usufruem desse estatuto. 

É disso muito elucidativa esta imagem do encontro de anteontem entre José Pacheco Pereira e Fernando Medina, numa acção de campanha deste último. Alguém dirá que foi "fortuito" mas é óbvio que não se trata de um acaso que tenha surpreendido o comentador político. O homem está no seu direito de ter estas demonstrações públicas. E o seu apreço por esta "esquerda" é consabido - alguns esquecem o encontro na Aula Magna em 2013, uma espécie de réplica dos "Estados Gerais" de Guterres, no qual se congregaram o centro-esquerda, a esquerda e as esquerdas comunistas. Durante o qual Pacheco Pereira surgiu saudando "amigos, companheiros e camaradas", aventando o que veio a ser conhecido como "geringonça", da qual assim se poderá reclamar se não ideólogo pelo menos profeta. Algo que se lhe impunha - como ficou patente ao invocar, em registo de analogia, o Manuel Alegre da Rádio "Voz da Liberdade" na Argélia - como uma luta contra um verdadeiro fascismo que assombra(ria) o país, mesmo se dito mera "direita radical". 

E é relevante que Pacheco Pereira continue opinando contra a "direita radical" que quer usurpar o seu PSD. E nisso defendendo - "por dentro", enquanto militante - a sua presidência partidária actual. A qual acolheu e lançou a actual candidatura municipal de Carlos Moedas. Ainda assim Pacheco Pereira entende necessário o "fortuito" apoio público à candidatura rival. Por puro silogismo depreendo que para o consagrado comentador Moedas pertencerá à tal "direita radical", contra a qual urge levantar a "Voz da Liberdade". É uma posição legítima, ainda que possa parecer algo contraditória, pois a cada cabeça sua sentença.

Mas este "fortuito" apoio público lembra-me outras intervenções de Pacheco Pereira. Por vezes tem aludido a que os locutores da tal "direita" se acoitam em órgãos de comunicação social - presumo que se trate, fundamentalmente, do "Observador" -, os quais invectiva por serem alheios à procura de viabilidade financeira e por pertencerem a grupos económicos. Alusões que são uma evidente desvalorização moral (e intelectual) desses opinadores, produtores de opinião pública. Que assim quer fazer parecer quais mercenários, ao serviço de interesses (económicos) esconsos. E ainda que eu pense essa análise algo redutora, mecanicista por assim dizer, ela é legítima pois é a opinião do analista.

E é nessa linha de raciocínio que olho para esta atitude "fortuita" - e também da continuada - do "social-democrata" Pacheco Pereira. Nisso, e de certa forma, eu sou-lhe um "co-idealista", acredito (matizadamente) nas potencialidades de uma tutela estatal indutora da redistribuição o mais equitativa possível, e assim reprodutiva, dos recursos societais. Aquilo a que a gente da minha geração e da minha profissão chamou - porventura com alguma candura - "desenvolvimentismo". Acontece que 75 anos depois da explosão da crença desenvolvimentista sabemos bem, por evidência mundo afora, que o nepotismo desbragado, o clientelismo sedimentado, isso do (neo)patrimonialismo, são inibidores do desenvolvimento. E da (social-)democracia. E face a isto não há qualquer erudição bibliófila nem "escavação" arquivística local que possa servir de contraditório. Ou seja, o apoio a esta situação actual do país nada é "social-democrata", é apenas situacionista. E anti-desenvolvimentista.

Porque segue Pacheco Pereira nesta via? Eu posso elaborar sobre o percurso do meu antigo (e excepcional) professor, de quem muitos livros e artigos li. Posso especular sobre um enquistamento intelectual proveniente no mergulho arquivístico na épica anti-fascista e pós-Abril. Que o fará pensar a actualidade através de pobres analogias com esse passado. Mas, de facto, o que devo seguir é o seu método de análise dos actos locutores. E perceber que estes seus apoios a forças inibidoras do desenvolvimentismo social-democrata e, até mesmo, anti-democráticas, são devidos ao financimento estatal que recebe e ao apoio estatal ao seu trabalho em órgãos de comunicação social sem intuitos lucrativos, pertencentes a grupos económicos.

Ou seja, nada há de "fortuito" no apoio de Pacheco Pereira ao PS e a Medina. É apenas reflexo das declarações (e pressões) do  primeiro-ministro António Costa: "A democracia não pode prescindir da Quadratura do Círculo" (Janeiro de 2019). E nesse trabalho (remunerado) recuperado o comentador se prestar à pantomina de ombrear com uma secretária-geral adjunta em exercício do PS enquanto ela se finge "comentadora" - esta pérfida idiossincracia portuguesa, isto de mascarar políticos no activo de "comentadores" televisivos. Nem há algo de "fortuito" nesse apoio quando o presidente apoiado financia o projecto pessoal do comentador político: Acordo entre Câmara Municipal de Lisboa e Associação Ephemera. (2021, Abril). E do que dele li ao longo dos anos só posso concluir isto: a sua arrogância intelectual é tanta que nem perceberá até onde chegou. Até onde desceu.

Enfim, o que nos cumpre, cidadãos democratas, em particular os lisboetas, é votar amanhã consoante o nosso viés democrático. Mas contra esta hidra municipal, inculta, patrimonialista. Que anda para aí à chinchada... Sabendo que nada é "fortuito". Muito menos as arengas dos "comentadores" remunerados.

Leituras

Pedro Correia, 25.09.21

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«Um homem que representa um papel, não para outros, mas sozinho, expõe-se a perigos psicológicos evidentes.»

John Le Carré, O Espião Que Saiu do Frio (1963), p. 134

Ed. Minerva, 1973. Tradução de Adelino dos Santos Rodrigues. Colecção Minerva de Bolso, n.º 14

O meu voto amanhã

jpt, 25.09.21

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Esta cena do Estado nos tratar como criancinhas estúpidas, proibindo que falemos publicamente de política na véspera das eleições, tem que acabar. Mesmo.
 
Para quem se possa interessar: amanhã, domingo, para a CML votarei na lista encabeçada por Carlos Moedas. Faço-o resmungando. Pois votar num tipo que trata Medina pelo primeiro nome dá-me uma enorme azia - pois a proximidade a Medina só descredibiliza, polui. E, também, porque não tenho paciência para estes gajos que me tratam por "tu". Nem andámos juntos na escola nem fizemos a tropa ao mesmo tempo. Para falar comigo que usem a terceira pessoa, porra. No singular, com apelido. No plural, respeitando quem os elege. Alguém que diga isso a Moedas, se voltar a ir a votos. E aos outros patetas que montaram a campanha (que assim começou, dizem-me, por mero e preguiçoso decalque de similar expressão numa velha campanha espanhola).
 
Para a minha Junta de Freguesia dos Olivais - onde manda uma inenarrável presidente socialista, que será secundada por Vanda Stuart e Ágata? Que se lixe, votarei no PCP.

Pensamento da semana

João Pedro Pimenta, 25.09.21

Para supostamente defender as melhores causas já se cometeram as piores atrocidades. Em nome de Deus, da Justiça, da Igualdade, da Fraternidade e do Paraíso Terrestre muitas vidas humanas foram sacrificadas. Também a Liberdade já implicou muitas vítimas, recordando aquela frase, ao que parece datada dos tempos da 1ª República: quando ouço gritar "viva a liberdade" vou logo ver quem está a ser preso. A última boa causa é a não descriminação em função da raça, género, sexo, credo, etc. Para já não tem implicado muitas vidas humanas, mas já levou à queima de livros, que, como o passado indica, leva muitas vezes a que as fogueiras sejam destinadas a pessoas. Esperemos que se fiquem por aqui e que não contribuam para a pesada história dos crimes em defesa das boas causa e da sua pureza.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.09.21

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Ana Cláudia Vicente«Em chegando o fresco, divisa-se ampla oportunidade para preenchimento (ou deflexão da atenção) do que os mais ortodoxos designam por lacuna gravatal: há espaço para toda a sorte de lenços, cachecóis, coletes, casacos, camisolas, etc. Esta é, seguramente, em termos de estilo, das estações em que os homens têm mais margem de expressão. Mais uma razão para o Outono ser das minhas alturas favoritas do ano.»

 

Ana Vidal: «Quase a chegar às livrarias o meu livro "A poesia é para comer" (hei-de falar dele aqui um dia destes, com mais calma), ando especialmente sensível a um tema que desde sempre me apaixonou: a gastronomia. Por isso escolhi para destaque da semana o novo blogue da jornalista Alexandra Prado Coelho, para vosso - e meu - deleite. Há de tudo um pouco, desde dicas preciosas sobre eventos culinários a bons artigos, algumas (poucas) receitas e muitas notícias interessantes para quem se interessa pela boa mesa.»

 

José António Abreu: «Começa a ser difícil encontrar livros publicados recentemente em que não tenha sido usada a grafia do novo (enfim, novo...) acordo ortográficoCusta-me particularmente que algumas das minhas editoras favoritas o tenham por fim adoptado. Apesar de saber que o fizeram, verifico os livros que publicam como se fosse crível terem entretanto mudado de ideias. Por vezes folheio o mesmo livro em diferentes livrarias, na esperança irracional de me ter enganado antes ou de alguns exemplares – e bastar-me-ia um – terem conseguido escapar às novas regras (mas os livros são afinal muito conformistas). Ou talvez o faça não por ter esperança mas exactamente pelo contrário – para vencer a descrença e confirmar a separação, esta nova e surpreendente incompatibilidade que se estabeleceu entre mim e os livros.»

 

Teresa Ribeiro: «Faz-se campanha na televisão do grupo, põe-se o público a salivar - de facto, aquela colecção de filmes do Clint Eastwood a preço de saldo é uma tentação - e depois nas bancas nem vê-los. Shame on you, Mr. Balsas. Sei que está a precisar desesperadamente de incrementar os seus negócios, mas isto não se faz.»

Semana de reflexão

João Sousa, 24.09.21

Há coisa de duas semanas, uma empresa de "investigação e estudos de mercado" (a Pitagórica) veio aqui ao bairro fazer uma sondagem sobre as autárquicas: se eu ia votar, se não ia votar, em votando se iria manter o sentido de voto, se eu pensava que o partido vencedor seria o mesmo ou um diferente, coisas do género. Isto pode não significar nada, mas a verdade é esta: nunca, desde que eu moro aqui, alguma empresa de sondagens alguma vez mostrou interesse em qualquer um dos meus votos. Sondagens sobre os meus hábitos de leitura, o meu consumo televisivo, a minha vida sexual, isso é mato: raro é o trimestre durante o qual não recebo o telefonema da praxe. Mas questões relacionadas com política - nunca.

Durante esta semana, o bairro foi regularmente sujeito aos raides de uma viatura de propaganda do PS. Na quarta-feira, a traquitana chegou mesmo a estacionar durante meia-hora aqui no cruzamento central, infernizando-nos o almoço com o altifalante. Além disso, no dia anterior, alguém encheu-me a caixa de correio com um jornal de campanha do PS: 24 páginas (que seguiram imediatamente para o Ecoponto) de conversa fiada que superavam, na quantidade, o próprio Boletim Municipal.

Este bairro não passa de quatro ruas, nenhuma delas com mais de trezentos metros, que se cruzam duas a duas numa espécie de jogo do galo. Raro é o prédio que tenha mais de três andares. É estranho tal investimento propagandístico do PS aqui. Aliás, a campanha do PS em todo o concelho tem sido bastante sobredimensionada, exibindo em largos cartazes o apoio de figuras mais ou menos públicas como um cozinheiro assíduo das televisões.

E o PS, por acaso ou talvez não, é cliente da Pitagórica.

O PS pode até admitir, como dizem nos jornais, perder 10 a 15 autarquias nestas eleições - mas estou convencido de que o PS tem genuínas esperanças de ganhar a Câmara do Seixal à CDU.

Não é incomum, quando digo a alguém que moro no Seixal, esse alguém fazer uma piada como "Eh pá, tu moras na terra vermelha". É uma certa ideia feita, esta, a de que o Seixal é um antro de comunistas. Acontece que não é, de todo, verdade. A autarquia, sim, tem sido comunista desde (talvez) sempre. Mas é-o em largo contraste com as eleições nacionais onde, desde pelo menos 2009 (não recuei mais, por falta de tempo, nas minhas investigações), o concelho é uma espécie de socialistão:

2009
PS: 34,82%
CDU: 19,17%

2011
PS: 28,72%
PSD: 24,87%
CDU: 18,86%

2015
PS: 34,09%
PSD: 23,14%
CDU: 17,85%

2019
PS: 38,80%
CDU: 15,13%

Nas autárquicas, apesar da manutenção do PCP no poder, é notório um contínuo encurtar da distância do PS:

2005
CDU: 44,74% (24.293 votos)
PS: 23,85% (12.950 votos)

2009
CDU: 47,85% (27.949 votos)
PS: 22,41% (13.090 votos)

2013
CDU: 43.42% (22.658 votos)
PS: 23,78% (12.409 votos)

2017
CDU: 36,87% (21.901 votos)
PS: 29,60% (17.582 votos)

O PS deve estar a sentir o cheiro de sangue na água. Acredito haver o sério risco de uma "vitória surpresa" do PS no Seixal que até serviria para atenuar o impacto mediático de algumas derrotas noutros locais. As mudanças demográficas aqui do concelho não estão, de todo, a ajudar a CDU - mas isto será (talvez) assunto para uma outra ocasião.

Sempre, sempre ao lado dos amigos

Sérgio de Almeida Correia, 24.09.21

Okamura-Le-Pen-Wilders-800x450.jpg(Martin Divisek/EPA/EFE)

Em 16 de Setembro pp., a comunicação social deu conta da aprovação pelo Parlamento Europeu de uma resolução sobre a nova estratégia União Europeia-China.

A referida resolução tece um conjunto de considerandos visando a actuação recente da RPC, com especial referência ao que se passa nas Regiões Administrativas Especiais de Hong Kong e Macau. Aí se recomenda que o Vice-Presidente da Comissão/Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança (VP/AR) e o Conselho "elaborem uma estratégia UE China mais assertiva, abrangente e coerente que una todos os Estados Membros e defina as relações com a China no interesse da UE no seu conjunto”.

Para o Parlamento Europeu, a defesa dos nossos valores e da promoção de uma "ordem multilateral assente em regras” deverá ser fundamental, acrescentando-se que sendo a China “um parceiro de cooperação e de negociação para a UE, mas também um concorrente económico e um rival sistémico num número crescente de domínios”, tal “estratégia precisa de ter em conta a natureza multifacetada da relação da UE com a China” e assentar em seis pilares, a saber:
1) Diálogo aberto e cooperação;
2) Empenho reforçado em relação aos valores universais, às normas internacionais e aos direitos humanos;
3) Análise e identificação dos riscos, das vulnerabilidades e dos desafios;
4) Estabelecimento de parcerias com parceiros que partilhem as mesmas ideias;
5) Fomento da autonomia estratégica aberta, inclusive nas relações comerciais e de investimento;
6) Defesa e promoção dos principais interesses e valores europeus mediante a transformação da UE num interveniente geopolítico mais eficaz.

Numa primeira leitura, aparentemente, não há lá nada que se afigure inadequado aos objectivos da União Europeia e de Portugal.

Depois, no desenvolvimento desse primeiro enunciado verifica-se que há referências aos direitos humanos, aproveitando-se para se instar “a China a autorizar um inquérito independente e transparente sobre as origens e propagação do vírus SARS‑COV‑2”; convidam-se “os Estados Membros da UE a acompanharem melhor o impacto da interferência do Governo chinês na liberdade académica” e condena-se com “a maior veemência possível as sanções infundadas e arbitrárias impostas pelas autoridades chinesas”, não se deixando de sublinhar que “a apreciação e o processo de ratificação do Acordo Global de Investimento UE China não poderão começar até que sejam levantadas as sanções chinesas contra deputados ao Parlamento Europeu e instituições da UE”.

Há, igualmente, todo um conjunto de outras apreciações sobre múltiplos assuntos, destacando-se, em especial, a condenação às violações das Declarações Sino-Britânica de 1984 e Luso-Chinesa de 1987, quanto ao futuro, respectivamente, de Hong Kong e Macau.

A resolução é extensa e mereceu imediato repúdio por parte das autoridades chinesas, o que não será de admirar tendo presente a forma como a RPC encara o direito internacional, as relações entre Estados soberanos e os mecanismos de cooperação internacional, os quais só são importantes, digo eu, quando sirvam os seus próprios interesses e de acordo com a leitura que em cada momento seja feita pelas suas autoridades.

É isso que explica, por exemplo, que a RPC rejeite sistematicamente quaisquer críticas que lhe sejam feitas pela comunidade internacional, alegando sempre que se tratam de intromissões nos seus assuntos internos.

Mas, ao mesmo tempo, não faltam as manifestações de solidariedade com os regimes venezuelano, sírio, cubano ou norte-coreano de cada vez que estes são objecto de condenação internacional; como se essas manifestações de solidariedade não fossem elas próprias interferências nos assuntos internos de terceiros estados. Apoiar política, militar e economicamente regimes opressores também é uma forma de interferência nos assuntos internos de outros países.

De igual modo, é essa postura dúbia e interesseira que justificou a recepção em Xangai de uma delegação taliban de alto nível, cerca de um mês antes da queda de Cabul, sabendo-se que esse movimento representava a oposição interna daquele que era ainda ao tempo o governo legítimo do Afeganistão. Não obstante, até agora, a RPC não reconheceu oficialmente o novo governo islâmico afegão, embora tenha dado sinais de poder vir a fazê-lo em breve.

Todavia, esse posicionamento, podendo ser criticável, não nos diz directamente respeito. Bem ao contrário do que acontece com a actuação dos deputados portugueses no Parlamento Europeu. E quanto a estes, no que à aludida resolução diz respeito, nem todos estiveram de acordo com o seu teor.

O resultado da votação revelou que a resolução, em cuja versão final tiveram papel destacado os deputados Isabel dos Santos e Pedro Marques, foi aprovada com 571 votos a favor, 61 contra e 40 abstenções. Quanto a este ponto o que aqui deverá ser a todos os títulos salientado é que os únicos portugueses que votaram contra a resolução foram dois deputados do PCP: Sandra Pereira e José Pimenta Lopes.

Conhecendo-se as posições passadas do PCP, de inequívoco apoio aos regimes ditatoriais e às violações de direitos humanos cometidas na Venezuela, em Cuba, na Coreia do Norte, na Síria ou na Rússia, do mesmo modo que ontem subscreviam os atentados aos direitos humanos na União Soviética, em Angola, na Etiópia ou nos defuntos países do Leste europeu, deverá ser registada a firmeza e coerência desses dois parlamentares comunistas portugueses no Parlamento Europeu.

A deles, é verdade, mas também a de todos aqueles ao lado de quem os comunistas portugueses votaram. Entre esses inclui-se um grupo de parlamentares da extrema-direita europeia onde pontuam os representantes alemães da Alternative für Deutschland, do Rassemblement Nationale de Marine Le Pen, dos nacionalistas flamengos do Vlaams Belang, dos extremistas checos e do PVV holandês.

Aos comunistas portugueses não chegava absterem-se na votação dessa resolução para tentarem passar despercebidos. Para o PCP era importante mostrar que votavam ao lado da extrema-direita europeia. Em defesa dos interesses de grupo e das negociatas que à sombra dos atropelos aos direitos humanos, e a pretexto do combate ideológico, se vão cometendo por esse mundo fora.

Para um partido que se reclama campeão do antifascismo, das “conquistas de Abril” e “dos direitos dos trabalhadores”, não deixa de ser significativo que quando estão em causa os direitos humanos e as liberdades se predisponha a votar ao lado dos radicais da extrema-direita europeia. Nem a Lega per Salvini, antiga Lega Nord, se atreveu a tanto, já que Adinolfi Matteo, Baldassarre, Bizzotto e os outros votaram a favor da resolução.

Felizmente, coerência é coisa que aos comunistas portugueses não falta. E amigos ao lado de quem possam votar também não. 

É bom lembrá-lo neste momento quando se está à porta de mais um acto eleitoral e os extremos se tocam.

A fruta da presidente da junta

jpt, 24.09.21

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No Padrinho 2 a ascensão de Corleone (De Niro) é soberbamente retratada. E culmina com a cena na banca de fruta: o recente "padrinho" deixa de pagar, os produtos passaram a ser-lhe ofertados. Em 2021, em Lisboa, reporta a "Sábado", a gula de uma socialista (claro) presidente da Junta de Freguesia de Arroios é tamanha que também cruza os mercados locais cobrando ofertas de comestíveis. 
 
Tipos como Sócrates há em todos os partidos e todos os regimes. Lacaios desses tipos (os Jugulares e afins) também. Mas isto, políticos a sacar a fruta do mercado? É um nojo. Mas é também algo extremo, até radical. O sinal claro do estado a que o PS chegou. É o grau zero. E a partir daqui nada mais haverá, pois não há espaço para queda nem redenção possível. 
 
E há pessoas que votam nesta escumalha.

 

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 24.09.21

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Ana Vidal: «Não posso demorar-me, desculpem, vim aqui só dar-vos a boa notícia. Tenho uma festa daqui a pouco em casa dos queridos Ira e George, e ainda tenho de passar pela Coco que ficou de escolher-me um vestido. Zelda, Scotty, please wait for me! Salvador, cariño, no seas tan dramatico... Yes, Cole, I'll take sweet Alanis with me, it's a promise. Assim que ela acabar de cantar aqui, pode ser? A bientôt, mes amis. Paris m'attend!.»

 

Ivone Mendes da Silva: «Algumas correntes do pensamento filosófico contemporâneo acreditam ser possível não perder nem o Porto-Benfica nem o jantar do Delito. Claro que o ravioli e as vieiras já tinham partido e do crème brulée embrulhadinho em massa filo nem sinal, nem aroma. Pois claro, ubíquo mas não tanto.»

 

João Carvalho: «A Madeira possui serviços da República que não têm apenas a competência — mas a obrigação — de velar pelo cumprimento das políticas adoptadas pela administração pública e de zelar pelos interesses do país e da região no que respeita à condução dessas mesmas políticas regionais. Portanto, faz sentido perguntar pelos pareceres e cabimentação orçamental das despesas que o Ministério Público na Madeira necessariamente visou, tal como faz sentido perguntar pelos relatórios anuais elaborados pelo Tribunal de Contas na Madeira sobre a justeza das mesmíssimas despesas.»

 

José António Abreu: «Em jeito de adeus ao Verão. Que os romances perdurem. (Ou não; façam como entenderem.)»

 

Leonor Barros: «Quem nunca leu o rótulo do frasco de champô que atire a primeira pedra.»

 

Luís M. Jorge: «A Madeira faz parte do território nacional nem que seja de grilhetas. Querem votar no Jardim? Votem. Querem roubar à descarada? Roubem. Mas daqui não saem até pagarem ao tostão. Os impostos que lá estão enterrados remuneram-se com o suor e as lágrimas dos madeirenses. Não há outra estratégia, não há outra maneira. E é bom que isto fique claro a tempo das próximas eleições.»

 

Rui Rocha: «Não é a mesma coisa publicar na primeira página ou nas páginas interiores, a cores ou a preto e branco. Tratando-se de situações de fronteira, é evidente que qualquer meio de comunicação tem o seu próprio código de ética ou livro de estilo, nos quais estão definidas orientações para este tipo de situações. Deste modo, a publicação pelo Sol da imagem de um cadáver, em primeira página, na sua última edição, não pode ser considerada um acidente. Trata-se, pelo contrário, de uma atitude deliberada e consciente. »

 

Eu: «O rigor da meteorologia serve afinal de metáfora a este quadro humano tão singular mas também tão emblemático. Quantas mulheres terão sentido o mesmo “aperto na garganta” que esta americana vislumbrada pelo génio de Hemingway entre os pingos de chuva?»

A Lisboa de Medina (20)

Pedro Correia, 23.09.21

Portugal ganhou com o Covid-19

jpt, 23.09.21

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"Ganhámos com o Covid-19", vangloria-se o secretário de Estado da Modernização Administrativa. Quando a epidemia aportou à Europa tivemos uma ministra da Agricultura a perspectivar que isso seria bom para as nossas exportações - mostrando bem o quão "a leste do paraíso" estava o Conselho de Ministros desta questão. Depois tivemos muitas decisões e discursos erráticos. Em Janeiro, quando éramos o pior país do mundo em termos absolutos, também tivemos um oficial de comunicação [ex(?)-jornalista] de uma universidade pública a ter muito sucesso ao consagrar a ministra da Saúde como "Super-Marta". Por esta... ter invectivado uma jornalista que a questionava sobre a tétrica situação que vivíamos. Em Maio apanhei o deputado Pinotes que, enquanto comentava futebol, clamava "está tudo a correr bem". Nem duas semanas depois viu-se, no regresso a medidas de controlo. Ou seja, para estupor e vil demagogia estaríamos já vacinados. 

Mas agora, no nojento afã demagógico de vésperas de eleições, vem-me este clamar isto. Em cima de tudo o que aconteceu, dos mortos e sofrimentos, das falências e desempregos, das mágoas e máculas, vem-me este tipo dizer "que ficámos bem na fotografia". No meu tempo um tipo ouvia uma coisa destas e respondia-lhe como deve ser, aludindo à imoralidade materna e/ou pendor anal do locutor. Mas agora não se pode, dizem-nos "preconceituosos", "fóbicos". Fica assim, então, o pior, mais peludo e abjecto dos insultos: Eurico Brilhante Dias!

The Russians Are Coming

jpt, 23.09.21

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The Russians Are Coming (1966) foi uma bela paródia sobre o temor, paranóia até, com o "perigo soviético". Uma era em que se augurava a omnipresente infiltração russa, em que todas as desgraças ou mesmo meros engasganços se explicavam pelos pérfidos efeitos da conspiração comunista. E também em que todas as medidas menos populares ou "canónicas" se justificavam pela sua afirmada utilidade na necessária oposição a tais ameaças.

Nestes últimos tempos muito me tenho lembrado deste filme. O "fascismo" vem sendo apregoado como "aqui mesmo ao virar da esquina" - convém lembrar as declarações da então nova deputada Moreira logo no dia das eleições legislativas, clamando contra o perigo eminente e iminente desse "fascismo", na figura do então último deputado eleito, o prof. Ventura. Pois este veio servir como "inimigo útil" para afirmação desse movimento - o qual agora finalmente realizou a sua vocação, coligando-se com o PS. E desde então - mesmo que a extrema-direita ocidental tenha regredido, com o apagão progressivo de Farage, Bannon, Trump, etc., já para não falar da afinal normalidade democrática dos conservadores britânicos, do sossego nos redutos ditos "Padania", bem como na Flandres e na "Neerlândia" como agora teremos que dizer - esse tal "fascismo", o perigo da "extrema-direita radical" continua a ser brandida como justificativo da configuração actual. O espantalho ficou mais viçoso com o bom resultado do prof. Ventura nas eleições presidenciais, muito devido ao fraco cardápio de candidaturas e ao voto de protesto à direita e centro contra o evidente conúbio entre Sousa e o PS na defesa das metástases nepotistas do regime.

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Este tópico "direita radical" - e a sua versão original "fascismo" - serve, fundamentalmente, de justificação para os defensores da Situação. Exemplo dessa artimanha é um texto recente em que Pacheco Pereira refere os ataques a Paulo Rangel ["O Caso de Paulo Rangel" - texto de 9 de Setembro, com acesso completo apenas para assinantes]. Nele, e apesar das evidências, como esta infecta capa do pasquim "Tal & Qual", o autor nega a existência de qualquer campanha  contra o eurodeputado. Resume tudo o que aconteceu a uma (mera) "homofobia". E explicita que esse episódio apenas demonstra uma tramóia da tal "direita radical" (aliás "fascista", poder-se-á concluir) em se apropriar do PSD, desviando-o do bom caminho. A qual, malevolamente, utiliza Rangel como instrumento inconsciente, verdadeiro "cavalo de Tróia".

Não deixa de ser interessante que a defesa da Situação o conduz até este interessante ponto: hoje, na sua coluna na mesma revista "Sábado", a três dias das eleições autárquicas, o militante e ex-dirigente do PSD, aflora essas eleições atacando Santana Lopes - em termos porventura pertinentes mas que não fazem esquecer ser ele candidato na secundária Figueira da Foz. Nada lhe ocorre sobre a Lisboa da hidra camarária, nada sobre o renhido despique em Coimbra, nada sobre Braga, por exemplo. Pois, de facto, o que importa a Pacheco Pereira e aos Situacionistas é brandir o tão útil "espectro que assombra" Portugal, o "espectro do fascismo". E nisso, já agora, cruzarem este período eleitoral sem terem tido a decência de se demarcarem do deputado socialista José Magalhães, esse da maledicência vergonhosa e, acima de tudo, que apelou ao espancamento armado dos simpatizantes do PSD. Nem isto convocou o social-democrata a afastar-se do seu ex-colega produtor de opiniões. Nem isto! Decerto que os grupos económicos deficitários proprietários dos órgãos de comunicação social nos quais Pacheco Pereira actua gostam desta via. A da defesa arregimentada da Situação. Contra o tal "fascismo". Pois "The Fascists Are Coming", como é consabido.

E as pessoas continuam a ler e ouvir esta farsa. Um dia alguém fará o filme...