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Canções do século XXI (1334)

por Pedro Correia, em 27.11.20

Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 26.11.20

O homem saiu da caverna, mas esta, verdadeiramente, nunca saiu do homem. Daí alguns dos maiores crimes contra a Humanidade terem sido cometidos pelas nações supostamente mais civilizadas: raspa-se um pouco desse verniz civilizacional e logo surge o grunho rupestre.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

Epidemias ontem e hoje

por Cristina Torrão, em 26.11.20

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Durante a peste de Coimbra, em 1477-79, resolveram os do Porto estabelecer um cordão sanitário em torno da sua cidade, que vedava a entrada a todos os que viessem de Coimbra. Tendo-se notado casos de peste numa rua portuense, em 1486, foi resolvido entaipar a dita rua e isolar os respectivos moradores. Outras vezes, em princípio de epidemia levavam-se todos os doentes para lazaretos especiais fora dos muros da cidade. Havendo notícia de peste no estrangeiro, impedia-se a entrada nas fronteiras ou submetiam-se a quarentena passantes e navios.

(…)

Isto sem falar de precauções de carácter geral: abstenção de prazeres sexuais; moderação no comer e no beber; «evitar o banho de cada dia»; fuga a ajuntamentos e contactos com pessoas; uso e abuso da água com vinagre para lavar as mãos, a cara e o interior das casas; permanência dentro da habitação tanto quanto possível, etc.

(…)

Recomendava-se, em qualquer caso, que se bebessem fortes doses de vinagre e líquidos avinagrados.

(pp. 122 a 124)

 

Leríamos este texto de modo diferente, se o tivéssemos feito há um ano. Teríamos compaixão pelas pessoas medievais e dávamos graças a Deus (ou a quem se queira) por vivermos numa época livre de pestes e epidemias. Aliás, este ponto de vista é latente em certas passagens deste capítulo, dedicado à higiene e à saúde, sem pôr em causa a excelência de A. H. de Oliveira Marques, falecido em 2007, o primeiro historiador português a publicar um livro sobre o quotidiano medieval, nas suas várias facetas.

Ao ler o texto hoje, vemos as semelhanças com um tempo que julgávamos morto e enterrado. Nem sequer faltava a recomendação de beber líquidos julgados eficazes, como “fortes doses de vinagre e líquidos avinagrados”. E, se o ingerir de tanto vinagre pudesse provocar outros problemas de saúde, não seria com certeza tão perigoso como a lixívia…

Enfim, anedotas à parte, o certo é que também se recomendavam mezinhas que, muitas vezes, eram fatais. E resta-nos o consolo de viver num tempo, em que se sabe o que são vacinas e se dispor de meios para as obter.

Mas será que as já existentes trarão o efeito desejado?

 

Dados sobre a obra citada: A SOCIEDADE MEDIEVAL PORTUGUESA, A. H. de Oliveira Marques (A Esfera dos Livros, 6ª edição: Setembro de 2010)

Penso rápido (98)

por Pedro Correia, em 26.11.20

Demasiadas pessoas passam um ano sem ler um livro, seja de que género for. Há gente que se gaba até de nunca ter aberto um livro desde os bancos escolares. Há indivíduos que nunca folheiam sequer uma revista, excepto nas salas de espera dos consultórios médicos. Muitos eleitores presumem andar informados e esclarecidos passando ao lado de conteúdos certificados pela deontologia jornalística: preferem imaginar o que se passa espreitando tuítes da trincheira mais próxima, vídeos acéfalos na Rede ou o primeiro boato que lhes é remetido através de compinchas no WhatsApp. 

Alguém que jamais trocaria o cirurgião pelo curandeiro, o hotel pela pensão manhosa ou o produto de qualidade pela quinquilharia do chinês prefere "informar-se" recorrendo às versões digitais da intriguista do prédio, do bisbilhoteiro do bairro ou do tasqueiro fala-barato.

Quando se fala na degradação da cidadania, não podemos culpar só os políticos. Há que começar a apontar o dedo a quem anda desinformado e ainda se orgulha disso.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 26.11.20

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João Carvalho: «O ministro das Finanças declarou que o Orçamento do Estado que apresentou era melhor antes de introduzidas as alterações negociadas com o PSD. É natural: o OE compete à Assembleia da República, mas parece aceitável que seja o Governo a apresentar o projecto de receitas e despesas que pode e quer cumprir. Só fica uma dúvida: por que raio é que este Governo nunca cumpriu um OE nem um PEC?»

 

Paulo Pinto Mascarenhas: «Pediu-me ajuda urgente por mensagem logovisual e eu enviei-lhe alguns velhos vídeos da primeira década do século, início das duas últimas décadas da independência nacional portuguesa, quando um primeiro-ministro chamado José Sócrates começou a tornar o país absolutamente dependente do exterior, endividando as gerações futuras até o tornar ingovernável, nas mãos dos credores internacionais.»

 

Rui Rocha: «Desapareceu de sua casa (e da sua, e da sua e da minha também): Nome - abono de família. Descrição - prestação atribuída mensalmente, com o objectivo de compensar os encargos familiares respeitantes ao sustento e educação das crianças e jovens. Foi visto pela última vez nas obras do aeroporto de Beja. Pede-se a quem souber do seu paradeiro que contacte de imediato o Estado Social

 

Eu: «Farley Granger: Alfred Hitchcock descobriu nele um toque de vulnerabilidade que o tornava ideal para algumas das suas personagens mais emblemáticas, sempre divididas no plano moral. Foi assim que protagonizou o primeiro filme a cores do grande mestre do suspenseA Corda (1948). Seria ainda moralmente mais ambivalente em O Desconhecido do Norte-Expresso (1951), obra-prima de Hitchcock, baseada na novela homónima de Patricia Highsmith e um dos títulos dominantes do cinema negro americano.»

Canções do século XXI (1333)

por Pedro Correia, em 26.11.20

Como o país

por José Meireles Graça, em 25.11.20

Em Agosto do ano passado contava uma história, verídica mas inverosímil, sobre uma empresa destruída pelo Fisco com base em acusações suportadas em irregularidades contabilísticas que foram interpretadas, sem qualquer base probatória ou sequer senso comum, como indícios seguros de evasão fiscal.

O texto era extenso e mesmo assim cortei nos detalhes, para não o tornar intragável, mas arrolava o essencial. Com desconto das proporções, e desculpa pela hipérbole, a historieta era um exemplo da banalidade do mal.

Ao falar deste conceito, diz a Wikipédia:

“… agiu segundo o que acreditava ser o seu dever, cumprindo ordens superiores e movido pelo desejo de ascender em sua carreira profissional, na mais perfeita lógica burocrática”.

“… o mal não é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. É político e histórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço institucional para isso - em razão de uma escolha política. A trivialização da violência corresponde… ao vazio de pensamento, onde a banalidade do mal se instala”.

Temos um alegado crime – a evasão fiscal; temos a derrogação de uma regra básica do direito criminal – quem acusa tem o ónus da prova; temos o abandalhamento total de qualquer consistência da acusação – nem precisa de ser razoavelmente indiciária; temos a recompensa dos agentes – merecem o louvor das chefias na proporção das exacções que praticam, em cujos proveitos participam; temos a aprovação pública – o cidadão que recebe do Estado mais do que para ele julga contribuir entende que quem é acusado de evasão o está a roubar e o que contribui mais do que recebe entende que, se todos pagarem mais, seja como for, é menos esbulhado; temos a ignorância da opinião pública e da publicada – a primeira é confortada na ideia de que, salvo prova em contrário, quem detém meios de produção é caracteristicamente, além de inepto, ladrão, e a segunda dá todos os dias provas da sua prodigiosa ignorância, embrulhada num parti-pris estatista e anti iniciativa privada; e temos um poder político que encontra sempre boas razões para aumentar a punção fiscal, com a qual compra votos por distribuição de benefícios, e não acha nunca oportuno, ou justo, ou desejável, aliviar a pressão fiscal porque, fazendo-o, corre o risco de ser apeado.

Altos níveis de fiscalidade, baseados em escolhas políticas, são aceitáveis desde o momento que o regime tenha, como tem, legitimidade democrática. Com isso compromete-se o desenvolvimento, mata-se a iniciativa e garante-se a dependência das esmolas dos países ricos (um ouro do Brasil que, tal como o original, se julga que não terá fim), a par de um lento e firme deslizar para o último lugar da riqueza no nosso continente, mas é a receita que o eleitorado tem comprado.

Mas não comprou um corpo de funcionários inimputáveis nem poderes demenciais sem escrutínio válido. O recurso aos tribunais implica ou pagamento do que não é devido, ou a apresentação de garantias de valor equivalente, que inexistem tanto mais quanto delas se necessite, e recursos para esperar porque as sentenças vêm com o vagar que se toma como uma respeitável tradição. Mesmo para quem a eles possa aceder, executar as sentenças é um calvário; nas despesas incorridas o Estado não participa; e a Administração pode tranquilamente pontapear o Direito, mesmo o que ela própria redigiu e o político acéfalo de serviço assinou, porque a sentença que exonera o contribuinte não castiga o funcionário que levantou o auto – é como se o cidadão, que se queixa de ter sido agredido numa esquadra de polícia, visse o tribunal dar-lhe razão e o polícia agressor, além do prémio de desempenho, pudesse tranquilamente continuar a escaqueirar as trombas não suficientemente humildes de quem teve o azar de com ele tropeçar no caminho.

O eleitorado esta realidade não comprou, mas ela mantem-se porque ignorada pela opinião pública, a qual  se inteirada decerto pensaria: ora bem, se os acusaram alguma coisa devem ter feito – que é o que dizem as pessoas que têm um reflexo condicionado de acatamento da autoridade e acreditam que para privar as pessoas da sua liberdade é necessário o respeito de um conjunto de regras que a civilização impôs, mas para as privar da sua fazenda não.

Ignorada pela opinião pública, uma velha rameira que de todo o modo o cidadão dono do seu nariz deveria tratar com sobranceria, mas também pelos jornalistas, uma turba decaída que se quer encostar ao Estado na exacta medida em que perdeu, por razões várias, o seu modo de vida pouco antes de ter perdido a gramática, e pelos decisores políticos, que com razão recuam com horror nas obscuras matérias fiscais, que são deixadas para os especialistas.

Destes, o principal é a invariavelmente sinistra figura do Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, cuja missão é garantir a quem o nomeou que não haverá quebra de receitas, agradar aos esbirros que nominalmente estão sob a sua direcção, lisonjear a comunicação social confortando-a na ideia de que está a combater eficazmente a evasão fiscal e aldrabar os parlamentares fazendo-os crer que não vivemos num Estado de Polícia fiscal. O actual é igual a esse título aos anteriores (incluindo o dos tempos da troica, um ostensivo desastre que tenho vergonha de reconhecer ter sido escolhido pelo partido de que sou militante), e todos têm sido pessoas moralmente desprezíveis. É moralmente desprezível quem, em nome da perseguição a infractores, não se importa de coonestar procedimentos que não pode deixar de saber que triturarão inocentes.

Deixemos lá isso, o que lá vai lá vai.

Não vai. Porque o edifício e as máquinas referidos na história para que remete o primeiro parágrafo foram leiloados em Dezembro e o conjunto foi arrematado por um valor que, mesmo sendo como foi de uva mijona, excedia largamente a totalidade do endividamento da firma, se excluirmos as indemnizações ao pessoal (decorrentes da insolvência que o Fisco induziu), a parte do endividamento que era, na realidade, capital, por não ser exigível nem implicar serviço de dívida, e a imaginária dívida fiscal, baseada em vendas sem factura que nunca existiram nem poderiam ter existido dada a natureza dos bens, os destinatários, que eram em mais de quatro quintos clientes de outros países, e o volume, por se tratar de bens de equipamento de grande atravancamento que implicariam gigantescas movimentações de TIRs clandestinos – uma fantasia que só poderia caber na cabeça retorcida de umas moças ou moços que ganham a vida estragando a de outros, sob a férula de uma hierarquia de agentes da Gestapo.

Pois bem: volvido quase um ano sobre o leilão, nenhum credor recebeu um centavo, o arrematante não pagou um cêntimo, e nenhum antigo fornecedor pôde sequer fazer encontro de contas com o IVA que perdeu porque a celerada legislação existente não o permite sem o reconhecimento definitivo dos créditos, e mesmo isso com apertados prazos já excedidos. Tudo isto porque o edifício foi construído sobre três lotes num parque industrial pertencente a uma câmara municipal, que os vendeu, licenciou devidamente a obra há mais de vinte anos e passou a competente licença de utilização, como o fez uma miríade de serviços públicos envolvidos, incluindo o ministério da Indústria.

A Câmara em questão não deveria ter vendido três lotes contíguos e autorizado a construção em cima deles porque o Plano de Pormenor da zona não o permitia; ou então deveria ter previamente alterado o Plano, coisa que não podia fazer porque tinha de estar em vigor por dez anos, como explicou candidamente, muitos anos volvidos, um diligente funcionário da edilidade; e quando o maldito Plano foi alterado a autarquia exigiu um novo processo de licenciamento para corrigir a sua asneira, com as competentes despesas, taxas e sabe Deus que alterações, como se a fábrica não tivesse estado a funcionar no maior respeito da legalidade desde que o Parque nasceu.

É esse licenciamento que, oficialmente, está a encravar tudo; e o que sobre este derradeiro embaraço realmente penso peço licença para guardar para mim.

Até porque, a esta altura do texto creio que quem começou a ler já deve estar farto – mas que embrulhada.

Como o país.

 

Always Handsome

por Cristina Torrão, em 25.11.20

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Michael B. Jordan

 

Nota: declarado há uma semana "Sexiest Man Alive" 2020 pela revista PEOPLE

Acabou a bebedeira

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.11.20

Aos poucos, o circo das eleições presidenciais estadounidenses vai chegando ao fim.
Passada a fase do folclore, dos foguetes, do barbecue e da bebedeira, perdidas que foram mais de quarenta acções judiciais nos tribunais federais, num deplorável espectáculo de sombras em que se seguiu um guião escrito por um fantasma e com executantes medíocres, por cujo rosto escorria a tinta mais ordinária, chegou a hora da ressaca.
Torna-se evidentemente natural que a bebedeira não poderia ser eterna, pois todos sabemos que, também, nem o amor o é, sendo assim natural que assentada a poeira as coisas comecem a regressar à normalidade.
É verdade que nada voltará a ser como antes. Trump está politicamente morto, aguardando-se agora as exéquias. Obama não voltará; os Clinton e os Bush fazem parte dos livros de história. A página virou-se.
Neste momento, o palco pertence a Joe Biden. E por muita desconfiança que se pudesse ter relativamente às suas propostas, às suas capacidades físicas e intelectuais e à composição da equipa, o que ontem se viu justifica a mais fundada das esperanças.
Num discurso curto, claro e bem articulado, alinhavando as linhas de força da política interna e externa dos EUA para os próximos quatro anos, rodeado de gente devidamente qualificada, experiente e de uma honradez a toda a prova, Biden foi capaz de fazer em poucos minutos o que há mais de quatro anos não se via: apresentar um discurso de Estado sem floreados, mentiras, graçolas de mau gosto e ignorância.
No ouvido ficou-me a frase de que “America leads not only by the example of power, but by the power of the example”, o que não sendo tudo diz muito.
A partir de Janeiro veremos o que acontece, mas o simples facto de passar a haver um programa e uma agenda na Casa Branca, depois de quatro anos de bacanal político, delírio, insânia e balbúrdia melbrookiana são afinal uma pequena prova, se não da existência de Deus, pelo menos de que também a loucura não é eterna.

E este é um excelente sinal para o futuro. Para todos nós que ainda acreditamos nalguma coisa antes de nos levarem para a vida eterna.

Palavras para recordar (72)

por Pedro Correia, em 25.11.20

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JOSÉ PACHECO PEREIRA

Público, 23 de Março de 2013

«Tirando estes dois homens, Rio e Costa, e pouco mais, não há no sistema partidário quem pudesse dar corpo a uma alternativa que desse esperança aos portugueses de que não estão condenados a uma austeridade sem fim, num ambiente de medo e empobrecimento.»

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 25.11.20

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João Carvalho: «O mundo mudou. Os partidos é que nem por isso: têm-se oposto genericamente às reformas e agudizam fórmulas obsoletas de actuação. Só os partidos? Não: os sindicatos também cristalizaram. Os velhos líderes sindicais não têm imaginação para encontrar modelos de actuação ajustados às novas realidades. Nem sequer conseguem repensar os padrões ultrapassados por que se regem.»

 

Rui Rocha: «Em qual dos cinco estágios se encontram o Governo, a opinião pública, os parceiros sociais, os empresários, o primeiro-ministro, eu próprio ou o leitor perante esse grave problema? No meu caso, vou pensar nisto.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Aquilo que Otelo [Saraiva de Carvalho] diz quanto à forma como a partidocracia se impôs e a oposição comodamente se instalou, dissociando os portugueses da participação e da realização das aspirações colectivas, pode parecer um sacrilégio dito por ele. Mas é hoje uma verdade incontornável. Custa ouvi-lo da boca de Otelo. Não deixará por isso de ser menos verdadeiro.»

 

Tiago Moreira Ramalho: «Digo muitas vezes, tantas que já nem sei se é a sério se a brincar, que a introdução de My Unwritten Books de George Steiner é a coisa mais bonita que já li. Encerra, em poucas, pouquíssimas linhas, a essência cobarde que reside em cada um de nós. Os livros que Steiner nunca escreveu são as declarações de amor que nunca fizemos, são o café que nunca combinámos, são o beijo que sempre tememos. Os livros que Steiner não escreveu são metáfora de todas as nossas frustrações, todos os nossos ‘se’, todas as nossas possibilidades passadas que gostaríamos futuras, na ilusão de que no futuro faríamos diferente.»

Canções do século XXI (1332)

por Pedro Correia, em 25.11.20

Uma época para pôr filmes em dia

por João Pedro Pimenta, em 24.11.20

Este fim de semana, graças ao "recolher obrigatório", consegui cumprir uma proeza há já muito desejada: ver o Lawrence da Arábia até ao fim. Um filme de quase quatro horas, com uma espectacular fotografia, daqueles que se vêem melhor no grande ecrã, coisa que implicaria também aí uns três intervalos no cinema (hoje já raramente há um).

Já não vou a uma sala de cinema desde Fevereiro, mas acho que nunca vi tantos filmes como este ano. Vida mais caseira oblige. De obras clássicas como a citada, ou o "Dr Jivago", também realizado por David Lean, ou ainda "A Janela Indiscreta", "Blade Runner" e "Os Três Dias do Condor", até ao "The Hangover" - parte 3, "Dumb and Dumber", ou às últimas Missões Impossíveis, passando por algum cinema português de décadas passadas, como a exibição dos filmes de José Fonseca e Costa que a RTP tem vindo a fazer, e "clássicos modernos" que me faltavam, ("Forest Gump", Signs", "A Noiva Cadáver", etc), tenho visto de tudo e ainda me faltarão algumas fitas que queria ver este ano. A TV por cabo, a possibilidade de gravação, a Netflix e os DVDs é que têm permitido esta saciedade cinematográfica sem sair do sofá.
 
Com esta bagagem variada, daqui a uns tempos ainda me dá para fazer crítica de cinema. Tendo em conta que a maior parte dos críticos parecem estar sempre a escrever uns para os outros, com um vocabulário muito deles, tratando os filmes como se fossem ensaios filosóficos e não narrativas, e aquele mau hábito de descrever o desfecho ("e na última cena do filme, quando, antes de morrer..."), acho sinceramente que não faria pior figura.
 

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Cada povo tem o Churchill que merece

por João Sousa, em 24.11.20

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"A vacina não será ainda o fim desta pandemia, pode não ser sequer o princípio do seu fim, mas pode ser o fim do princípio da crise pandémica" - António Costa ontem.

Pintores sem prazo de validade

por Pedro Correia, em 24.11.20

cruzeiro-seixas-arte-pintura-obras-moty-gq-portugaO Rapto ou o Tão Amável Intruso, óleo de Cruzeiro Seixas (1972) no Museu Gulbenkian

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Júlio Pomar (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Manuel Cargaleiro (93 anos), João Abel Manta (92 anos), Arnulf Rainer (91 anos), Jasper Johns (90 anos) e Frank Auerbach (89 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande Cruzeiro Seixas se despediu de nós a 8 de Novembro, a menos de um mês de completar 100 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 24.11.20

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João Campos: «Zapping. Na RTPN, Joana Amaral Dias fala em três milhões de pessoas (números dos sindicatos) e diz que a greve geral de hoje mostra que há uma "alternativa" às medidas "duríssimas" do Governo. Falta é explicar qual é a alternativa. Mas isso já seria pedir demasiado.»

 

João Carvalho: «"Não foi aprovado qualquer regime de excepção" aos cortes salariais nas empresas públicas, segundo o ministro dos Assuntos Parlamentares, até porque, "se isso acontecesse, seria ao contrário das disposições normativas agora apresentadas". O que se fez, ainda segundo Jorge Lacão, foi "adaptar às especificidades das empresas" os cortes salariais. Entenderam? Eu explico: não foi aprovado um regime de excepção nos cortes salariais. Com uma excepção: as empresas públicas. Entenderam agora?»

 

José Catarino: «Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Meixão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada...»

 

Luís M. Jorge: «Portugal, berço inesgotável de pategos, rejubila quando encontra um professor Silva em Oxford ou uma investigadora Zezinha no Massachusetts. Isso não impede que a pátria uive e se contorça ao descobrir que os nossos jovens mais qualificados fazem carreira lá fora. Está mal, pois está. Se fossem reverentes, como lhes competia, ficavam em Alverca a comer torresmo e a suspirar pelo Sócrates, a CGTP, a banca do regime ou a carcaça veneranda de Salazar.»

 

Rui Rocha: «Analisar a greve geral de hoje (um direito inquestionável dos trabalhadores, sublinhe-se) do ponto de vista da sua oportunidade no actual contexto social e económico seria um exercício muito interessante. Mesmo muito estimulante. Mas, a verdade é que, logo a seguir ao almoço, não me está a apetecer nada. Pronto, sobre este assunto, faço minhas as palavras do Manuel Alegre. Esclarecidos, não é? Não se fala mais nisso. Agora, não escondo que, como qualquer conflito social, a greve pode ser muito inspiradora. A ideia de serviços mínimos, por exemplo, tem muito potencial. Vejamos um caso concreto. No meio de alguma trapalhada que não vem agora ao caso, parece que foram fixados serviços mínimos na Justiça. Rejubilemos! Em que outro dia do ano é possível garantir que a Justiça portuguesa cumpre os mínimos?»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Desconfio que não será este post que me irá dar a comenda que Vítor Dias pretende que o bloco central me atribua. Enquanto a comenda não chega (Vítor Dias hoje está em greve e não deve poder fazer muito por isso) continuo a aguardar que ele e os seus camaradas me justifiquem o que levará o regime cubano a despedir mais de um milhão de funcionários públicos e em Portugal não tenha havido uma palavra de solidariedade para com esses postergados do regime castrista que deverão dedicar-se à iniciativa privada se quiserem continuar a ser gente.»

 

Eu: «Em dia de greve geral, a mais bem sucedida de sempre em Portugal, é de elementar justiça lembrar os países do mundo que negam total ou parcialmente aos seus cidadãos este direito fundamental. Eis alguns: ChinaCoreia do NorteCubaBirmâniaSíriaEgiptoIrãoMarrocosArgéliaBielorrússiaArábia SauditaLíbiaLaosVietname e Zimbábue. À atenção dos nossos dirigentes sindicais, que devem estar na primeira linha da defesa dos camaradas que sofrem brutais restrições ao direito à greve além-fronteiras. E também de certos políticos portugueses, que olham para alguns dos países mencionados acima como modelos inspiradores. Apesar de esses mesmos países negarem lá o que os tais políticos exigem cá.»

Canções do século XXI (1331)

por Pedro Correia, em 24.11.20

Elogio da crónica

por Pedro Correia, em 23.11.20

 

1

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Tenho pena que as crónicas estejam a desaparecer das páginas dos jornais. Habituei-me desde muito novo a ler alguns dos melhores cronistas da imprensa portuguesa – numa época em que a crónica era um género imprescindível.

Lia textos do Pedro Alvim, do Rodrigues Miguéis, do Baptista-Bastos, do Carlos Pinhão, do Abelaira, do O’Neill e da grande Alice Vieira sempre com uma ponta de deslumbramento. Era uma prosa diferente da escrita impessoal das notícias: paginada de modo especial e com um tom coloquial que não se vislumbrava noutros locais dos periódicos – estabelecendo um clima de convivência quase íntima com o leitor. Através dos anos, fui mantendo o meu interesse pela crónica, frequentando diversos autores – de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, passando por Ferreira Fernandes e António Lobo Antunes.

Vou também praticando o género, sempre que posso: é a disciplina jornalística que mais se aproxima da literatura. Tenho pena de vê-la à beira da extinção, substituída pelo comentário anódino e sensaborão ou pela fatigante “análise” política que muitas vezes não é mais do que um mero piscar de olho a “fontes” de circunstância. Esquecendo por completo o leitor.

Ao menos no Brasil o género está bem vivo e recomenda-se. Há mesmo quem reclame por lá a paternidade brasileira da crónica, que gerou verdadeiros autores de culto – de Rubem Braga a Luís Fernando Veríssimo, de Carlos Drummond de Andrade a Arnaldo Jabor, de Nelson Rodrigues Millôr Fernandes, de Fernando Sabino a Roberto Pompeu de Toledo. É um prazer ler o português revigorado destas crónicas brasileiras, de ontem e de hoje.

 

2

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Nos anos 50 e 60, os cronistas no Brasil eram uma tribo calorosa e solidária, como relata Humberto Werneck, organizador da excelente colectânea Boa Companhia: Crónicas, editada em 2005 pela Companhia das Letras. A tal ponto que, quando chegava a crise de inspiração, a mesma ideia servia de mote a diferentes cronistas forçados à rotina diária. Fernando Sabino, que escrevia em O Jornal, do Rio de Janeiro, relata o episódio da queda de um edifício na cidade, que originou uma troca de impressões à mesa de um bar com Rubem Braga (cronista do Diário de Notícias, também do Rio) e Paulo Mendes Campos (que mantinha uma crónica no Diário Carioca). No dia seguinte, “por coincidência”, as três crónicas tinham estes títulos: “Mas não cai?”, “Vai cair” e “Caiu”.

Melhor ainda é outro episódio que dois deles protagonizaram. Rubem, com falta de ideias, solicitou sem cerimónia uma crónica “emprestada” a Fernando Sabino, que foi à gaveta e passou-lhe a história de um garoto que pedia esmola para comer uma sopa, por um cruzeiro, numa casa de pasto. Intitulava-se O preço da sopa. O outro publicou-a alterando três pormenores: o garoto foi a um restaurante, a sopa custou cinco cruzeiros e a crónica passou a chamar-se simplesmente A sopa. Uns tempos depois, chegou a vez de Sabino pedir idêntico favor a Rubem Braga, que entendeu devolver-lhe a história da sopa. Que lá voltou a ser impressa, com a assinatura de Fernando Sabino e dois novos ingredientes: a sopa já custava dez cruzeiros e o título era Esta sopa vai acabar. E acabou mesmo...

Fragmentos deliciosos de um tempo que parece tão irremediavelmente distante do nosso.

Uma questão de perspectiva

por Cristina Torrão, em 23.11.20

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«as pessoas passavam por mim e diziam palavrões, quase ninguém era simpático

entrava num estabelecimento e era sempre a última que eles atendiam, podia ter chegado primeiro e dava igual

ia pela rua a empurrar o carrinho de bebé onde levava a Shirley, depois levava os dois meninos pendurados em mim, um de cada lado, e os carros passavam de propósito nas poças para molhar a gente

e uma vez deixaram-nos uma ratazana morta à porta de casa, claro que fui eu a ver

e fui eu que tive de passar dias a fio a ver aquele VOLTEM PARA A VOSSA TERRA pintado a letras brancas na nossa porta, até o Clovis lhe passar tinta por cima

e era eu que passava os serões sozinha e aflita com medo de eles atirarem um trapo com gasolina a arder para dentro de nossa casa»

(pp. 278/279)

 

Essa coisa de ser atendida em último lugar, num estabelecimento, apesar de ter chegado primeiro, aconteceu-me nos primeiros tempos de Alemanha (1992/1993). Ficava furiosa, mas dizia a mim própria que tal era devido à estupidez do dono do estabelecimento (apesar de os outros clientes aceitarem, sem hesitar, a "amabilidade" do homem). Acabei por contar o sucedido a uma vizinha alemã que, numa ocasião, entrou no dito estabelecimento, quando eu lá estava, e não gostou da maneira antipática como o tal comerciante me tratou. Aconselhou-me a apresentar queixa contra ele. Mas nunca o fiz. E, até este momento, as únicas pessoas que sabiam do sucedido eram o meu marido e a tal vizinha.

Já não sei, porém, como agiria se um colega de trabalho me mandasse para a minha terra, sem a menor vergonha, perante milhões de testemunhas. É preciso ter um estômago bem forte para aguentar tal humilhação.

Matar o Homem Branco

por jpt, em 23.11.20

"Temos de matar o homem branco, assassino, colonial e racista" — Mamadou Ba (SOS Racismo)

Simpatizo com o dr. Ba. Na sua linha de acção política não gosto da demagoga e egocêntrica deputada Moreira e ainda menos dos "white (old) boys" histriónico-demagogos que folclorizam (e racializam) tudo isto, em particular os de coração socratista (delenda est carthago, nunca esquecer isso), obviamente com olhos sôfregos nos desejados subsídios para os "desfavorecidos" que eles partilharão, na condição de "compagnons de route", aka "intelectuais orgânicos". Mas simpatizo com o dr. Ba. Chamai-lhe "macholice" minha mas aprecio um tipo que vem de fora, negro ainda para mais, e assume posições públicas difíceis. Dele discordo, imenso - o que o homem acaba de dizer do Mithá Ribeiro é uma verdadeira vergonha -, mas tiro-lhe o chapéu ao vê-lo sozinho a andar na rua, sem tergiversar, ainda que rodeado de alguns holigões fascistóides aos gritos provocatórios. Entenda-se bem, esses gajos costumam ser perigosos ... 

Dito isto, vejo partilhada na imprensa e nas redes sociais (e também aqui), em regime de invectivas, esta sessão académica do dr. Ba, um convívio via zoom. Na qual ele repega Fanon e considera que "é preciso matar o homem branco". Erguem-se as vozes contra este "evidente" discurso de ódio. Acontece que o homem não está a apelar à constituição de milícias "negras" dedicadas a matar-me, ou a outros tipos com a minha indigna cor de pele. Está a citar, glosar, está a aludir à sua vontade de destruir um narrativa histórica. Eu discordo dele, mesmo, e até sorrio diante do monumento ao anacronismo. Mas este homem não me quer dar um tiro, quer sim devastar a minha compreensão do mundo, e minar-me(nos) o proselitismo. O que é uma coisa completamente diferente.

Mas o problema fundamental é encontrar alguém que o conheça e que ele ouça, acate. E que lhe explique que, com zoom ou sem zoom, ele não está num campus pois optou pela praça pública. E qu'isto não é uma faculdade (por mais que os burguesotes "radicais de campus" comunitaristas o sonhem). Ou seja, que ele pode usar o Fanon, ou outros quaisquer, pode citá-lo(s), pode glosá-lo(s). Mas depois tem que explicar tintin por tintin o que quer dizer - ele fá-lo um pouco mas não o suficiente. Para aqueles que não estão no campus ...

Porque assim, com esta candura, isto ainda descamba. A não ser que seja esse o objectivo, uma martirofilia. Mas não creio, é mesmo só ...


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