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Quem fala assim... (3)

Camané: «Não costumo cantar no duche»

por Pedro Correia, em 03.07.20

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«My Way, de Frank Sinatra, e Yesterday, dos Beatles, são músicas da minha vida»

 

Percebe-se rapidamente que é uma pessoa tímida. Mesmo a falar ao telefone. Mas o fadista - que considero o melhor intérprete da canção nacional da sua geração - revelou uma paciência inexcedível nas respostas ao interrogatório que lhe fiz.

 

Tem medo de quê?

Tenho medo de ter medo.

Gostaria de viver num hotel?

Não. Acho muito impessoal. Acabamos por entrar numa certa rotina que não me satisfaz.

A sua bebida preferida?

Coca-Cola.

Tem alguma pedra no sapato?

Tenho várias.

Não há meio de saírem?

Vão acabando por sair aos poucos. O tempo faz com que saiam todas.

Que número calça?

39.

Que livro anda a ler?

Adeus às Armas, de Hemingway. Parei de ler a 50 páginas do fim por excesso de trabalho, mas acabarei em breve. Estou a gostar muito.

Tem muitos livros à cabeceira?

Não muitos.

A sua personagem de ficção favorita?

Sherlock Holmes é uma personagem que sempre me atraiu. Mas também gosto do Drácula, de Mr. Hyde e de Jack, o Estripador.

Rir é o melhor remédio?

Sim.

É algo que faz com frequência?

Não tanto como devia. Devemos rir-nos de nós próprios, não devemos levar-nos demasiado a sério. Se nos rirmos com frequência acabamos por ter uma vida muito mais saudável e feliz.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Choro às vezes or coisas muito simples. A última vez que me aconteceu foi recentemente ao ver num canal da televisão portuguesa um documentário de um rapaz que ensina arte a pessoas com deficiência que já conseguiram vender quadros pela Europa toda.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto mais de conduzir.

É bom transgredir os limites?

Não. Às vezes gosto de correr riscos, mas não gosto de pôr ninguém em risco.

Qual é o seu prato favorito?

Cozido à portuguesa. Em qualquer estação do ano.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Talvez a preguiça.

A sua cor preferida?

Azul.

No futebol também?

No futebol é o vermelho.

Costuma cantar no duche?

Não. Aliás não costumo cantar em casa.

E a música da sua vida?

Há várias. Gosto muito do My Way, do Frank Sinatra. E também do Yesterday, dos Beatles.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Não. Habituei-me a reconhecer este hino. Está bem assim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Nelson Mandela [falecido em Dezembro de 2013]. É um homem que admiro pela sua coragem, pelo seu espírito de resistência e também pela sua bondade. São pessoas assim que conseguem fazer o mundo melhor.

As aparências iludem?

Acho que sim. 

Qual é a peça de vestuário que prefere?

As calças. Têm de ser confortáveis.

Qual é o seu maior sonho?

Cantar fado a vida toda. Sempre foi esse o meu sonho.

E o maior pesadelo?

É não poder concretizar esse sonho.

O que o irrita profundamente?

A inveja, a maledicência.

Qual a melhor forma de relaxar?

Ir ao cinema, ouvir música, ir à praia.

O que faria se fosse milionário?

Concretizava alguns sonhos materiais e tentaria ajudar algumas pessoas que necessitam, praticando voluntariado.

Uma mulher bonita?

Scarlett Johansson.

Acredita no paraíso?

Não sei.

Tem um lema?

Vive e deixa viver.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (29 de Novembro de 2008)

Belles toujours

por Pedro Correia, em 03.07.20

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Kira Miró

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Pensamento da semana

por Maria Dulce Fernandes, em 03.07.20

Tenho para mim que, se o chamado "novo normal" significa aprender a viver e a conviver com uma praga, então esse tal normal não trouxe nada de novo.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 03.07.20

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Ana Vidal«E agora, para aligeirar o fim-de-semana, aqui têm a última moda no Japão: saias pintadas de modo a parecerem transparentes. Não há dúvida, vivemos cada vez mais num mundo de trompe l'oeil... razão tinha o Magritte.»

 

Leonor Barros: «Hoje aconteceu-me ter vontade de esbofetear um livro. Sim, é verdade, insólito e até um pouco embaraçoso para quem tem os livros nos genes, outra mania com que vim equipada de origem, mas nada como admiti-lo. Ocupava um lugar de destaque, o parvalhão, e gritou-me Desculpa, mas vou chamar-te amor. Ai não vais, não. AMOR? Virei-lhe as costas e fui irritada aos deliciosos biscoitos crocantes de coelho, aves e legumes que fazem as delícias da população felina cá da casa. Que título mais ridículo. Parvalhão.»

 

Paulo Gorjão: «Diogo Freitas do Amaral anunciou hoje ao mundo em entrevista ao Expresso que não acha provável que apoie Pedro Passos Coelho. Acha-o demasiado liberal, pelo menos por enquanto. Acho delicioso este pormenor do pelo menos por enquanto. É o equivalente na política à porta de emergência em caso de incêndio. Pela minha parte gostaria que a probabilidade de não apoiar se confirmasse, apesar de, na verdade, não apoiando estar a dar um enorme apoio...»

 

Eu: «No futebol, a fraude pode compensar: ganhou quem merecia perder. Mas o estranho sortilégio deste jogo passa também por isto. O rosto de Gyan, devassado pelos grandes planos televisivos, era uma máscara de dor: uma etapa crucial da vida dele fechou-se para sempre quando aquela bola bateu na barra. Naquele momento, não havia ser humano tão fotografado no planeta. Naquele momento, não havia ser humano tão solitário no mundo.»

Canções do século XXI (1187)

por Pedro Correia, em 03.07.20

O regresso da censura

por Paulo Sousa, em 02.07.20

A liberdade de expressão é um tema maior da nossa sociedade.

Por achar que este blog é, além de outras coisas, um pequeno nicho virtual no altar da liberdade, o tema que aqui trago não poderia passar em claro.

O recente anúncio por parte do governo de que vai monitorizar o discurso de ódio na internet, não é mais do que o pisar de uma linha que nunca tinha sido assumida pelos governantes do Portugal europeu.

Podíamos começar por lhes pedir uma definição do que é um discurso de ódio.

Estará o discurso de ódio contra o nazismo incluído no critério dos censores? E contra os pedófilos? E contra os traficantes de pessoas? E como ficamos em relação aos violadores?

Será que esta ferramenta de defesa da opinião pública também se poderá aplicar ao mundo do futebol?

E porquê apenas na internet? O discurso de ódio nos cafés não agride também a mesma opinião pública que o governo pretende defender e acha incapaz de avaliar por si o que vê e ouve?

O ódio é um capricho que, pela diminuição da capacidade de análise e pela perda de enfoque que causa, enfraquece quem o sente. Também por isso não é ódio que sinto pelos aspirantes a censores do governo do socialista António Costa, mas sim e apenas desprezo. Será que o discurso de desprezo ainda passa nas malhas dos autopromovidos avaliadores dos discursos de sentimentos dos outros?

 

Há depois ainda um outro detalhe que me faz rir desses bananas.

Hoje a plataforma das matrículas escolares bloqueou pelo excesso de tráfego, tal e qual como acontece com os servidores da AT nos dias de “entrega” das declarações de IRS, e tal e qual como aconteceu com o SIRESP no fatídico dia do incêndio do Pedrogão.

O aumento de capacidade de resposta para todos estes casos estava previsto nos planos do governo, mas certamente devido a alguma cativação, por esquecimento ou então porque não calhou, acabou por não ser feito.

Será esse exímio e frio rigor que os odiosos propagadores do ódio cá do burgo terão de enfrentar. No dia em que o programa de censura arrancar, o servidor vai estar empacado porque há um conflito no sistema operativo, no dia seguinte serão as licenças, e depois disso será uma placa gráfica que vai queimar e alguém vai ter de telefonar a um primo que, tipo, percebe bué disso. O técnico vai ter que usar o seu telemóvel pessoal porque ainda estão a começar e as comunicações ainda não estão a 100%. O tipo que sabe fazer ligações de fibra óptica está com febre e telefonou ao patrão que, depois de o mandar para casa, desinfectou o telemóvel e lavou as mãos.

E enquanto esta novela segue, os odiosos propagadores do ódio continuam a pulverizar ódio nas contas das redes sociais dos frágeis e indefesos portugueses, incapazes que são de avaliar a informação a que têm acesso.

Se a ministra conhecesse Portugal saberia bem que não nos levamos a sério e que por isso os contratempos serão muitos maiores do que estes - não fosse a ficção sempre ultrapassada pela realidade. Os resultados serão apenas mais uns empregos para uns voyeuristas encartados que, incapazes de purgar o ódio da natureza humana, ficarão para a história como a serôdia censura socialista do início do sec XXI.

Seguras ou não seguras?

por Cristina Torrão, em 02.07.20

Os portugueses estão a usar máscaras “que não protegem o suficiente” da Covid-19 e as autoridades “facilitaram” ao admitirem modelos que oferecem apenas 70% de filtragem, quando existem no mercado “alternativas que superam os 90%”. O alerta, em jeito de lamento, é de Lourenço Aroso, dire(c)tor operacional da empresa PPTex, de Santo Tirso, que produz as máscaras comunitárias Protect Others, com um grau de filtragem certificado acima dos 95%.

Sinceramente, acho as palavras deste industrial um exagero. O artigo, com grande destaque na página principal do Sapo, hoje de manhã, cheira muito a publicidade.

Temos de ter em mente que o uso de máscaras não anula o chamado distanciamento social de, pelo menos, 1,5m. Respeitando-o, as máscaras com 70% de filtragem cumprem perfeitamente o seu objectivo: evitar a circulação livre do ar entre as pessoas, ao respirar. Ninguém precisa de máscaras cirúrgicas, com mais de 90% de eficácia, no dia-a-dia (a não ser talvez, em certos transportes públicos). Na Alemanha, até se aceitam simples lenços a cobrir a boca e o nariz nos supermercados e comboios e a pandemia, neste país, está bastante controlada (o maior problema continuam a ser os matadouros).

Apesar de reconhecer que as autoridades portuguesas cometeram erros desnecessários (e, para isso, baseio-me largamente nos textos aqui publicados pelos meus colegas de blogue), declarar que elas  “facilitaram” ao admitirem modelos que oferecem apenas 70% de filtragem é, na minha opinião, de um grande atrevimento.

Diamante bem polido

por João André, em 02.07.20

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Só conhecem Adam Sandler de comédias inanes, sensivelmente idiotas e quase indistinguíveis entre si?

Os desportistas que vêem em filmes têm papéis irrelevantes, são maus actores ou os filmes são veículos sem qualquer interesse?

Têm saudades de filmes sobre cidades, frenéticos e com uma energia contagiante?

Uncut Gems (o IMDb diz-me que em português se chama Diamante Bruto) é o filme para vós.

Peguei no filme porque tinha lido várias coisas interessantes sobre ele no The Ringer. Não tinha muito interesse em ver mais um filme com Adam Sandler e parecia-me que ele esgotara os papéis interessantes ao aparecer em Punch-Drunk Love, de Paul Thomas Anderson. Enganei-me. Os irmãos Safdie, que realizaram e escreverm o filme, injectam um ritmo intenso na história e Sandler dá o corpo a tudo o que lhe atirem. O seu Howard Ratner fala depressa, vive de uma dívida para a outra enquanto distribui roupas e malas Gucci, equilibra uma vida entre Manhattan onde tem o negócio e a amante que é também a sua empregada e a vida familiar, fora da cidade, com a sua mulher que já não o suporta e os filhos, com quem tem relações por mensagem e com quem discute pouco mais que basquetebol.

O ritmo é desde o início completamente alucinado. Os irmãos Safdie (juntamente com Ronald Bronstein) dão a ideia de ter escrito centenas de páginas de diálogo e Sandler faz o seu melhor para o dizer todo no filme. Mesmo quando não se filma mais que Sandler a caminhar pela rua ao telefone, o uso de zoom com câmaras colocadas de longe levam a um constante tremer subtil da imagem que nos transmite o nervosismo das personagens e a incerteza das situações. Outro uso inteligente da câmara é dentro dos carros, com as personagens apertadas e a aumentar a situação de claustrofobia e de cerco que se vai apertando em torno de Ratner. E a solução para todos os seus problemas é uma opala que ele quer vender em leilão.

A opala é o mcguffin que faz avançar o filme, mas são as suas personagens que o fazem respirar. Sandler como Ratner é simplesmente brilhante e faz perguntar porque razão não o vemos mais vezes em papéis dramáticos. As outras personagens, mesmo com tempo limitado, conseguem respirar e ter espessura. Julia Fox é uma revelação como Julia, a namorada de Ratner. Idina Menzel tem uma interpretação de enorme subtileza e espessura como a mulher de Ratner. Lakeith Stanfield demonstra novamente (pelo menos para mim), o alcance das suas capacidades dramáticas como Demani, um colaborador de Ratner que lhe traz potenciais clientes. No entanto é Kevin Gernett, a representar uma versão semi-imaginada dele próprio, que rouba o filme.

Garnett atrai qualquer atenção por causa da sua estatura (2,11 m). Um plano que o inclua a ele e a outros actores vai levar à existência de muito espaço não preenchido por outras pessoas. Os irmãos Safdie compreendem isto e normalmente filmam Garnett de forma individual, em grandes planos ou, se necessário com outros actores, enchendo o cenário de objectos. Isso não impede Garnett de agarrar as cenas. Para quem não saiba, Kevin Garnett foi um jogador de basquetebol da NBA. Era um dos melhores da sua geração e visto como uma dos melhores jogadores de sempre na sua posição. Era também conhecido como um jogador de enorme intensidade, tanto com a bola como a comunicar com outros jogadores.

Isso é facilmente visível no filme. Há uma ou outra frase que não sai com a convicção que se esperaria de um actor profissional, mas a intensidade do olhar de Garnett, a sua presença, os seus silêncios e o seu à vontade no mundo de alta velocidade em volta dele, acabam por ser magnéticos. A melhor cena do filme é quando, perto do fim, Ratner faz uma espécie de discurso/pedido a Garnett. Este fica calado a maior parte do tempo, mas a energia da cena é palpável e demonstra a química entre ele e Sandler.

Os irmãos Safdie pretendem nos seus filmes capturar as suas experiências a viver e crescer em Nova Iorque, especialmente em certos períodos temporais. Essencial para eles é demonstrar a vida de certas zonas e os hábitos dos judeus da cidade. Fazem-no não como tema, mas como enquadramento, não muito diferente daquilo que Woody Allen foi fazendo ao longo de décadas: criar histórias a partir dos ambientes e vivências pessoais. O resultado final é diferente, mas o paralelo existe e pareceu-me claro. Chamar a este filme um cruzamento entre Scorsese e Allen seria abusivo, mas não completamente errado.

No fim, o filme é essencialmente um dos melhores que vi nos últimos anos. Agarrou-me do princípio ao fim e se o final é algo brutal, não deixa de ser igualmente em linha com o resto do filme. Quando pensamos no momento é como se sempre soubéssemos que aquilo iria acontecer, que as personagens estavam fadadas a terminar assim.

Diamante em bruto? Talvez a pedra do filme. O filme em si é das pedras mais preciosas que se pode ter.

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Do meu baú (3)

por Pedro Correia, em 02.07.20

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Sou coleccionador compulsivo das entrevistas de falsos profetas. Sobretudo aqueles que profetizam desgraças e calamidades. Um dos mais simpáticos dentro do género, devo reconhecer, é João Ferreira do Amaral «economista conceituado», como o introduz Clara Ferreira Alves na entrevista (insolitamente apresentada como "almoço") que assinou com ele na revista do Expresso, edição de 4 de Maio de 2013

O título de capa é um daqueles que vendem sempre bem: «Vamos sair do euro.» Assim mesmo, neste tom categórico, sem margem para dúvida.

Como se fosse pouco, lá dentro (página 37) a certeza torna-se ainda mais indubitável: «É claro que vamos sair do euro.»

 

«Num restaurante de Lisboa com vista larga sobre o rio, pediu cabrito assado com batatas. Água. Mais nada. Fala dos assuntos com a voz desapaixonada do técnico e do conhecedor.» Assim alude a ele a jornalista, em prosa quase poética, sem disfarçar o deslumbramento pelo entrevistado: «Lê-lo é um exercício de clareza e de esclarecimento, e tem razão em muitas coisas que aponta. A saída deverá ser controlada para não ser traumática, e será um benefício para a economia. Portugal continuaria na União Europeia e no espaço Schengen. A história já lhe deu razão em quase tudo.»

Caramba, é difícil um simples leitor não se sentir esmagado com tanta sapiência. Tudo isto nos parágrafos de entrada, ainda sem termos acesso ao pensamento do entrevistado. 

 

«Não ponho sequer a alternativa de ficarmos», debita o professor, que trabalhou no Palácio de Belém, entre 1991 e 1996, como consultor de Mário Soares. E nem seria necessário convocar os portugueses para referendar tão relevante opção política. Motivo? «Visto que não entrámos com um, não há razão para precisarmos de um para sair.»

Possíveis consequências, para o País, de uma "saída ordeira" da moeda única? Hipótese desenvolvida num trecho da entrevista: «Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior são os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem...» E noutro trecho: «Vejo imensos [riscos]. Pode correr mal. Pode gerar-se um pânico.»

 

Sete anos depois, ao revisitarmos este ameno bate-papo, ficamos esmagados com tanta acutilância e tanta presciência daquele a quem «a história já deu razão em quase tudo».

Fez bem, de qualquer modo, o Presidente Soares em não ter seguido os conselhos deste seu sábio consultor.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 02.07.20

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Ana Cláudia Vicente: «Apresentando-se aqui em embalagem genérica, este composto rico em Vitamina C consta no stock da nossa botica desde o início do surto futeglobal. Parabéns à Holanda.»

 

Ana Margarida Craveiro«O que é o interesse nacional, e quem o define?»

 

João Carvalho: «É preciso ter lata ou estar a fazer pouco da gente, quando se sabe que mais de metade dos portugueses nem irão sair de casa nas férias para ir de autocarro à praia mais próxima. Ainda não satisfeito, vem o governo promover a aplicação das pequenas e médias poupanças em Títulos do Tesouro, com a garantia de uma boa retribuição. Garantia? Garantia de quem? Quem está desacreditado não pode dar garantias, não é?»

 

Leonor Barros: «O IVA aumentou, provocando uma subida nos preços de tudo e mais alguma coisa, ele é gás, pão, água, luz, tudo, rigorosamente tudo. Os salários sofreram uma redução anunciada, fazendo cumprir as tão elogiadas medidas de austeridade. Aproxima-se a passos largos a época do ano que os pais são extirpados de uma quantia ofensiva em manuais escolares que tão a propósito também sofreram um aumento acima da inflação. E neste cenário miserável o ministro das Finanças vem pedir aos portugueses para pouparem. Só pode ser brincadeira.»

 

Paulo Gorjão: «Almas mal-intencionadas diriam que começou a silly season. Não é verdade. Uma manifestação com cinco pessoas, mesmo que organizada por uma obscura Plataforma -- tipo Movimento Verde Eufémia -- merece cobertura noticiosa tal qualquer manifestação com 100 mil intervenientes.»

 

Eu: «Outra conquista de José Sócrates: um novo máximo histórico do desemprego em Portugal. Com os níveis europeus cada vez mais longe. Recordo: este é o mesmo político que em Fevereiro de 2005, quando o PSD estava no governo e a taxa de desemprego era de 7,1%, se indignava com estas palavras veementes: "Este número é bem a marca de uma governação falhada, de uma economia mal conduzida". Agora, com mais 3,8% de desempregados, chegou a altura de parafrasear o líder socialista na campanha para as legislativas de há cinco anos: estamos perante uma governação falhada.»

Ligação directa

por Pedro Correia, em 02.07.20

 

AO Informador.

 

Canções do século XXI (1186)

por Pedro Correia, em 02.07.20

O campeão da manha

por José Meireles Graça, em 01.07.20

Ultimamente tenho dado comigo a simpatizar com o nosso PM.

Calma, não mudei de opinião: o homem tem sobre o país, a economia e o mundo meia dúzia de ideias (e mais não seria preciso, se elas fossem boas), todas erradas, e isso no seu lado substantivo. No adjectivo, isto é, no feitio, no carácter, na cultura, nos modos, até mesmo na toilette, também não melhorou nadinha.

Por partes: Na luminosa cabecinha dos dirigentes do PS o país nasceu em 1974, titubeou à procura de amparo até 1986, sentou-se à mesa dos ricos em 1992, numa festa por multas para a qual contribuiu com boa disposição e anedotas, e é ocioso pensar nele fora do “quadro” da UE, da qual vem a chuva e o bom tempo. E continuará a vir até, quando chegarmos ao eldorado de uma federação, ficarmos com o mesmo estatuto que o Arkansas nos EUA, mas com óptimas praias que aquele infeliz Estado não tem, como dolorosamente lhe falta também o galo de Barcelos, os pastelinhos de Belém e uma quantidade adequada de dentistas e empregados de mesa.

O Arkansas já forneceu um Presidente e é justamente famoso pelas suas melancias. A comparação deixa a desejar pelo lado das cucurbitáceas mas resulta vantajosa no confronto entre Durão Barroso e Clinton – o primeiro nunca foi embaraçado, que se saiba, com histórias picantes em torno de charutos apagados. É porém um dos Estados mais pobres da União, e nada indica que venha a deixar de o ser. Esse destino ser-nos-á poupado, acreditam à volta de 90% dos 14 milhões de portugueses vivos, entre residentes e expatriados, pelo efeito do princípio dos vasos comunicantes aplicado à riqueza, que não se verifica em lado nenhum mas os europeístas, e Costa com eles, dizem que terá miraculosamente lugar aqui na Ibéria.

Quanto à economia, acha que a tal riqueza cresce pelo efeito de se a dividir por um número crescente de dependentes do Estado, desde que este se encarregue, baseando-se nas opiniões dos ungidos por diplomas das madraças de economia socialista, de fazer aqueles investimentos de grande rasgo e lucidez que um destes séculos porão o país a liderar o mundo nisto e naquilo, nos intervalos de falências periódicas.

O mundo de Costa é o da UE e logo a seguir o da ONU, onde o mestre de cerimónias é o seu colega e luzido estadista Guterres. Portugal está sempre do lado dos bons, isto é, aqueles sempre prontos a tomar medidas para combater as alterações climáticas, a desigualdade entre os antigos sexos, hoje géneros, e entre ricos e pobres e o Norte e o Sul, o imperialismo israelita, a América de Trump e o Brasil de Bolsonaro, a injustiça numa palavra.  Desde que tal combate se faça unicamente nas sociedades onde se pode fazer, isto é, no Ocidente; nas outras não, que deixaria evidente a horrível ideia de as civilizações não serem todas equivalentes.

Para quem ache que o que se deve procurar num político é o mesmo que se deseja para a namorada, o sogro, a nora, o amigo ou o sócio, isto é, para quem determine o seu voto não por ideias mas pelos sinais exteriores do feitio, Costa não serviria se o eleitor se incomodasse com a naturalidade e frequência com que mente, o português sumário em que se exprime, e até mesmo as farpelas com que se atavia quando decide ser natural. Mas não incomoda e, de toda a evidência, a sua popularidade deve muito ao andor em que a comunicação social beata e comprada o carrega e, sobretudo, aos bodos judiciosos que distribuiu pelo maior número possível de dependentes. Nada que não possa ser revertido – o seu antigo patrão Sócrates também foi um menino de ouro até dar com os clássicos burros na água.

Sucede que este homem tem a fina inteligência dos sobreviventes, que é mais adequadamente descrita como esperteza (transformou uma derrota numa vitória, comprou com mestria apoios inesperados, quebrou tradições da sua igreja partidária dando a impressão de fidelidade aos santinhos da congregação, apoiou-se nos serviços de um hábil vigarista que já despediu e recompensou, dominou competentemente uma comunicação social que conseguiu se demitisse completamente das suas funções) e foi até agora bafejado pela sorte, que porém acabou com a chegada da maldita Covide.

O país fez, para lidar com o problema, o que faz sempre – copiou. E como por toda a parte (salvo na Suécia e pouco mais) a receita consistiu primeiro em conseguir que as unidades de cuidados intensivos não fossem inundadas de casos que lhes ultrapassassem as capacidades (o achatar da curva) mas rapidamente evoluiu para a esperança louca de estrangular a pandemia com o prolongamento e endurecimento de medidas de isolamento, Costa foi obrigado (acredito que a contragosto – é o meu palpite) a acompanhar. Portugal não é hoje, e de há muito, um país independente, nem dispõe de qualquer autonomia face ao que decidem os directórios europeus, mas cabe notar que de qualquer modo a economia levaria sempre um grande tombo, qualquer que fosse o mix de políticas adoptadas, por causa da quebra do turismo e da exportação.

De modo que o pobre Costa deve ter visto há muito (antes da camarilha acéfala de que se rodeou, que anda aliás a dormir) o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés e apostou as fichas no maná europeu (que vai espatifar, a esperteza não chega para ter um ataque de clarividência em economia, nem ele pode vir dos gurus da especialidade), no desconfinamento e na propaganda.

Daí o ataque de fúria na famosa reunião no Infarmed. A ministra Temido julga que a alhada em que estamos metidos é a da Covide, que das galinhas sem cabeça que pontificam na matéria, isto é, médicos de especialidades várias, virá alguma solução que preste, e que a máquina da Saúde pública, as polícias, a patética DGS, o stop-and-go de medidas em que com habilidade se transfere a responsabilidade das políticas públicas para os comportamentos individuais, são necessárias e suficientes para estancar o desastre.

Mas não são. O problema, antes de outra coisa qualquer, sempre foi de engenharia (como diz um amigo meu, dono de uma excelente cabeça, ainda que lá não more um jota de ciências sociais, particularmente história, que sobranceiramente despreza), isto é, de meios e organização para lidar com ele. Ora, a administração pública portuguesa nunca se distinguiu pela eficiência; o SNS sobrevive com crónica falta de meios, que foram desviados para comprar votos; a elite política, que é quem decide, calha ser socialista, ou seja, farinha do mesmo saco da massa ignara dos governados; e para limitar os estragos convinha falar cada vez menos da doença e cada vez mais da recuperação, o que é difícil porque o génio histérico que saiu da lâmpada agora não quer lá regressar.

Tudo leva a crer que isto vai acabar mal, e não me refiro à doença, que se vai juntar ao catálogo das outras com as quais um certo número de pessoas de idade se passa todos os anos para o outro lado, mas à economia.

Sócrates lixou-se não por causa das suas roubalheiras, que nunca teriam sido denunciadas se o país não tivesse falido, mas pela vinda da troica. E o mesmo eleitorado, que lhe deu vitórias e agora lhe dá desprezo, está aí pronto para crucificar quem esteja ao leme quando o desemprego subir sem subsídios e quando a austeridade não puder ser mais disfarçada com expedientes.

De modo que o homem, com uma mão de cartas baixas díspares, está a fazer das tripas coração porque vê o monte das fichas a diminuir e pergunta a si mesmo se, com o galo com que está, conseguirá recuperar. E vê uma brutinha como a ministra Marta, que não conhece as regras do jogo e não sabe interpretar os sinais dos outros parceiros de mesa, a insistir em apostas altas sem bluff? É um desespero.

De onde vem então a minha alegada simpatia do primeiro parágrafo, só disto? Não. Deu protagonismo a duas mulheres, cada uma medíocre à sua maneira (no caso da Directora-Geral com laivos de comicidade patética, no da ministra com uma imagem atraente de política queque), e isso sempre me pareceu estranho. Percebi agora, através das declarações de um homem de mão que orna a Câmara de Lisboa com a sua irrelevância, que as duas senhoras são na realidade fusíveis, destinados a queimar na eventualidade de alguma coisa correr demasiado mal, como está a suceder em Lisboa.

Bem visto. E como não peço desculpa a ninguém por ter uma grande admiração por Victor Lustig, tiro com respeito o meu chapéu ao prestidigitador Costa – não me tinha lembrado desta jogada. É verdade que o país não ganha nada com isso, e quase certo que desta vez os truques não vão chegar. Mas que o nosso António, como o descreviam com ternura os dois compères na Quadratura do Círculo, é o campeão da manha, lá isso é.

Ofereçam um GPS a Costa

por Pedro Correia, em 01.07.20

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Alguém lá no palacete de São Bento, onde funciona a residência oficial do primeiro-ministro, devia oferecer um GPS a António Costa.

Veio ele dizer agora, em entrevista ao jornal catalão La Vanguardia, que não haverá qualquer problema com festejos de rua nos jogos da fase final da Liga dos Campeões, que irão disputar-se na capital portuguesa, pois o "dever cívico de recolhimento" imposto a 19 freguesias da Área Metropolitana de Lisboa, no âmbito do estado de calamidade que ainda aqui vigora, não abrange o centro da cidade, onde se situam o estádio José Alvalade e o estádio da Luz.

«Não se trata de Lisboa, mas apenas de alguns bairros pertencentes a municípios vizinhos», declarou Costa nesta entrevista. Dizendo, categórico e taxativo: «Não existe nenhuma relação com o centro da cidade de Lisboa, onde se celebrará [a Liga dos Campeões].»

 

Há aqui uma óbvia fuga à verdade - eufemismo próprio dos editorialistas da imprensa portuguesa como alternativa ao substantivo mentira quando visam governantes.

Costa parece ignorar que Lisboa é um dos concelhos abrangidos pelas mais recentes medidas de confinamento impostas pela necessidade de conter a expansão do Covid-19, estando representada nesta lista nada lisonjeira pela freguesia de Santa Clara, que abrange as antigas freguesias da Ameixoeira e da Charneca do Lumiar. 

 

Vamos lá medir distâncias. Apenas 3,6 km separam a Ameixoeira do Campo Grande, onde irão disputar-se alguns dos jogos. Até dá para ir a pé.

Mesmo várias freguesias de concelhos vizinhos agora abrangidos pelas medidas especiais de contenção estão a curtíssima distância daqueles estádios. Seguem-se alguns exemplos: vai-se de Odivelas a Carnide, onde se disputarão outros desafios, em apenas 2,8 km; o trajecto de Camarate (Loures) ao Campo Grande esgota-se em 5,3 km; basta percorrer 2,4 km para chegar da Venda Nova (Amadora) a Benfica; e vai-se de Moscavide (Loures) ao Campo Grande em escassos 5,7 km.

 

Serve isto para demonstrar que o chefe do Governo, nesta entrevista destinada a conter danos junto dos espanhóis após uma notícia com destaque de primeira página no conceituado El País que aludia a três milhões de lisboetas novamente confinados, respondeu à falsidade com informações inexactas (outro eufemismo). 

Serve também para confirmar que necessita com urgência de um GPS. Um dos seus assessores deveria encarregar-se disso já no próximo dia 17, quando Costa soprar as velas do bolo de aniversário. As melhores prendas são sempre aquelas que se tornam úteis.

Always handsome

por Cristina Torrão, em 01.07.20

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Henning Baum

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 01.07.20

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João Carvalho: «Em Portugal, onde o(s) governo(s) socialista(s) promete(m) sempre não aumentar impostos e criar melhores condições de vida, já todos sabemos o que isso significa: os impostos sobem, as promessas caem e os mais sacrificados são os primeiros a pagar as crises. Os portugueses viviam melhor há cinco anos.»

 

Rita Barata Silvério: «Basta ler a biografia de Charlie Sheen e vê-se logo que não bate bem: o gajo é cocaína, conduzir com os copos, divórcios com direito a pancadaria, curas de desintoxicação, filmes merdosos e redenções aos quarenta e tal. E gostamos. Eu gosto. Todos os bêbedos deveriam ter direito a redimir-se, mais ainda quando o resultado é uma série de televisão cujo argumento principal é o desprezo total pelas supostas bases da vida pequeno-burguesa a que todos, no fundo, aspiramos: ter um companheiro para a vida, filhos com a pequena comunhão feita, casa numa urbanização com piscina, ir de férias com casais amigos, um monovolume com todas as prestações e a anestesia garantida pela rotina da classe média.»

 

Eu: «A participação da PT na Vivo é vital para os interesses nacionais? Nada que tenha convencido o Financial Times. "A estupidez colonial ainda não morreu [em Portugal]", comenta o prestigiado jornal londrino, que a propaganda socrática tanto gosta de invocar nas raras vezes que ali surge uma boa notícia para a economia portuguesa. É, em síntese, uma decisão mal fundamentada, atentatória da liberdade negocial e do princípio basilar da livre concorrência, possivelmente ferida de ilegalidade à luz do direito comunitário e provavelmente geradora de efeitos muito mais perversos do que aqueles que pretenderia atenuar. E quase tão incompreensível como o pesado silêncio que o Presidente da República tem mantido nesta matéria.»

Entre os mais comentados

por Pedro Correia, em 01.07.20

Em 22 destaques feitos pelo Sapo em Junho, entre segunda e sexta-feira, para assinalar os dez blogues nesses dias mais comentados nesta plataforma, o DELITO DE OPINIÃO recebeu  22 menções ao longo do mês. Fazendo assim o pleno.

Incluindo três textos na primeira posição, onze na segunda e quatro na terceira.

 

Os textos foram estes, por ordem cronológica:

Até sempre, Barata (64 comentários, terceiro mais comentado do fim de semana) 

Um imperfeito anti-herói (220 comentários, o mais comentado do dia)

Terrorismo (112 comentários, segundo mais comentado do dia) 

É preciso é que a bola role (50 comentários, o mais comentado do dia) 

Mr. Lamb, I presume (36 comentários, segundo mais comentado do dia) 

Marx, Hegel, Kant e Nietzsche (74 comentários)  

Violência (78 comentários, segundo mais comentado do dia)  

"Líder da oposição": procura-se (46 comentários, segundo mais comentado do dia)  

Sete anos (28 comentários, segundo mais comentado do dia)   

Palavras dos leitores (30 comentários, terceiro mais comentado do dia) 

O ministro em fuga (50 comentários, segundo mais comentado do fim de semana) 

A vitória póstuma de Hitler (116 comentários, o mais comentado do dia) 

As canções da minha vida (17) (54 comentários, segundo mais comentado do dia) 

Crise no PAN, crise no jornalismo (58 comentários, segundo mais comentado do dia)

Covid-19 nos matadouros alemães (42 comentários, terceiro mais comentado do dia)  

Quem fala assim... (1) (30 comentários) 

Pensamento da semana (47 comentários, terceiro mais comentado do dia) 

Bom jornalismo (22 comentários)

O caluniador (106 comentários, segundo mais comentado do dia) 

PANdemia (36 comentários, segundo mais comentado do dia)

O passeio dos tristes (56 comentários)

Veritas odium parit (41 comentários, segundo mais comentado do dia)

 

Com um total de 1396 comentários nestes postais. Da autoria da Maria Dulce Fernandes, da Cristina Torrão, do Paulo Sousa e de mim próprio.

Fica o agradecimento aos leitores que nos dão a honra de visitar e comentar.

Canções do século XXI (1185)

por Pedro Correia, em 01.07.20

Há quem viva dentro de uma bolha

por Paulo Sousa, em 30.06.20

Perante os números que desmentem os cartazes que há uns meses mandaram fazer às crianças, nem tudo está a correr bem, nem a caminho disso.

A correlação entre os novos casos de covid na região de Lisboa e os transportes públicos superlotados apareceu há mais de um mês nas noticias através dos empregados da Sonae da Azambuja. Depois disso voltei a ouvi falar da lotação dos comboios de linha de Sintra através de uma publicação de um familiar no Facebook. Entretanto já entendemos que o actual problema do (des)controlo da pandemia no nosso país resulta exactamente do facto de existirem pessoas que não se podem dar ao luxo de estar confinadas em casa, porque assim arriscar-se-iam a morrer não pela doença mas pela cura.

Quem tem a sorte, ou o mérito, de na actual situação poder trabalhar a partir de casa, consegue assim o melhor dos dois mundos, uma vez que continua a produzir riqueza e a manter a economia em movimento, e ao mesmo tempo resguarda-se de ser infectado nos transportes e nos espaços públicos.

Mas claro que existem sempre aqueles que vivem num mundo pequenino e cuja visão não vai além do seu próprio umbigo.

Não chegassem todos os privilégios que têm em relação a quem trabalha no privado, os Sindicatos da função pública vem agora exigir mais dinheiro pelo privilégio de poder trabalhar a partir de casa.

O governo se estivesse de facto a negociar com eles deveria terminar com o tele-trabalho e assim contar com eles no seu posto de trabalho à hora habitual. Mas o que está é apenas a tentar garantir o seu voto nas próximas eleições. O interesse do país é um detalhe.

A História e o pedestal

por João André, em 30.06.20

Faz-me pena a questão das estátuas vandalizadas ou derrubadas, não porque isso não faça necessariamente sentido, mas porque acima de tudo distrai do essencial: várias (quase todas, diria) sociedades são de facto estruturalmente racistas, mesmo que apenas como herança do passado.

É hoje indiscutível que as condições em que cada pessoa nasce e cresce condiciona fortemente o seu futuro. Há quem destrua todas as condições de privilégio em que nasce e outros que ultrapassam as limitações do seu ambiente. Em geral, contudo, quem nasce pobre tem de subir um plano inclinado e quem nasce mais confortável terá uma inclinação mais suave pela frente.

O racismo passado criou condições para múltiplas pessoas serem condicionadas fortemente a terem montanhas bem íngremes pela frente só devido à cor da pele dos seus antepassados. O similarity bias continua a garantir que tais montanhas se mantenham inclementes mesmo quando se consegue começar a subir. Isto é também indiscutível. Há casos em que certos grupos conseguem ultrapassar essas dificuldades mas habitualmente obtêm um patamar intermédio entre o grupo dominante e o grupo mais fortemente discriminado. Um exemplo extremo eram os indianos na África do Sul, discriminados mas acima dos negros (situação que continuará).

No fundo tudo se resume a um aspecto simples: acreditamos que há grupos que são mais ou menos capazes devido à cor da sua pele ou à sua origem geográfica? Se sim, então a visão é racista (os estudos honestos modernos continuam a negar tal conceito) mas a situação actual é compreensível e uma consequência destas diferenças. Se se entender (como eu) que não há qualquer diferença significativa nas capacidades das pessoas de grupos diferentes, então é a sociedade que é racista se não virmos uma representação em cargos públicos, nos quadros das empresas, nas universidades, etc, razoavelmente equivalente à distribuição dos diferentes grupos na sociedade.

Esta é a realidade actual e não é por o presidente anterior dos EUA ser negro (ou mestiço) ou o primeiro-ministro português ser de descendência goesa que o resto da sociedade é não-racista. E se é racista, é normal que haja grupos cujas frustrações colectivas mantidas ao longo de séculos a certa altura extravasam. Ainda mais normal é que estas se manifestem em símbolos desse passado, sejam estes símbolos do racismo (nos EUA, Jefferson Davis) ou apenas representantes do seu tempo (George Washington ou Thomas Jefferson, que possuíram escravos).

Relembremos: as estátuas não são a priori história, antes representam figuras históricas. Nalguns casos as estátuas pertencem à história, pelo que representam, pelo que demonstram, pela arte que as construiu. Não devem por isso ser destruídas, mas não significa que tenham que ser mantidas. Não devemos simplesmente juntar uma turba furiosa para as derrubar, mas a presença de tal exigência deveria levar a uma reflexão sobre o valor da mesma estátua e a validade de a manter. Isso sim, ajudaria a pensar a história. O resto é apenas esconder o passado debaixo do pedestal.


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