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Delito de Opinião

Uma bênção

Cristina Torrão, 28.11.21

Hoje é o primeiro Domingo do Advento. Na Alemanha, devido à proximidade das Igrejas Católica e Luterana, o Advento é uma época de preparação para o Natal intensamente vivida. Para isso, muito contribui a Coroa do Advento, um arranjo com folhas de azevinho ou de pinheiro manso, contendo quatro velas. No primeiro Domingo, acende-se uma vela e, nos seguintes, vai-se acrescentando mais uma, até chegar às quatro, no último Domingo antes do Natal. A Coroa do Advento é uma invenção luterana do século XIX e não falta em nenhuma casa alemã, seja Católica, seja Protestante. O Calendário do Advento, com a mesma origem e, no início, pensado para crianças, é igualmente uma grande tradição.

Vivemos tempos difíceis, com a pandemia mais activa do que nunca, evitando grandes convívios nos mercados de Natal alemães (alguns tornaram mesmo a ser cancelados). Também muitas famílias já se perguntam se será avisado reunirem-se para a Consoada. Devido à tristeza e à falta de esperança, crianças e jovens ligados à Igreja Luterana andaram ontem, no centro de Stade, a distribuir bênçãos.

Vinham na forma de um pequeno saquinho de papel, atado com um lacinho. O Horst e eu também tivemos direito, sem fazer ideia do que vinha lá dentro. Resolvemos abrir só hoje, no primeiro Domingo do Advento. Eu escolhi o lacinho verde (o outro era prateado) e deparei com uma velinha enfeitada com três estrelinhas e um poema, escrito num papel vermelho. A sua autora chama-se Hanna Buiting e eu gostei tanto, que resolvi traduzi-lo, embora seja extremamente difícil traduzir poesia. Mas darei o meu melhor.

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Do que se necessita

Há muito esperada

Envolta em eternidade

Em todo o lado conhecida

E no entanto

Rodeia-te um mistério

A ti, criança do presépio

Início de todos os inícios

Realizadora de desejos

Pessoa-saudade

Como te hei-de receber?

Diz-me

Murmura nos meus sonhos

A tua bênção

Para que ela me envolva

E o Natal aconteça

 

É esta a verdadeira função da Igreja: ser uma luz na escuridão, um sinal de esperança, um momento de reflexão. Obrigada, Igreja Evangélica Luterana de Stade! Obrigada às crianças e aos jovens que distribuíram as bênçãos!

 

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A nossa alternativa à Coroa do Advento. Hoje acendemos a primeira luzinha.

Leituras

Pedro Correia, 28.11.21

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«A vida não é apenas cada um de nós. É preciso que pensemos em alguma coisa mais do que no nosso egoísmo, em alguma coisa que seja mais elevada e diga respeito a todos. (...) Quando nós pensamos em todos os outros, sentimo-nos com menos importância.»

Ferreira de CastroA Tempestade (1940), p. 206

Guimarães Editores, 1980 (10.ª ed). Colecção Vozes do Mundo

Nada muda para que tudo mude

Pedro Correia, 28.11.21

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Foto: José Coelho / Lusa

 

Na noite em que desperdiça a enésima oportunidade de pugnar pela unidade do PSD optando por disparar contra dirigentes distritais e concelhios após novo triunfo tangencial para a presidência do partido em eleições internas que não desejou nem convocou, Rui Rio abriu uma garrafa de champanhe. É caso para isso, na óptica de quem nele apostou. Os laranjinhas estão mais perto de concretizarem o desígnio que o líder vem acalentando há quatro anos: regressar ao poder, agora de braço dado com o PS. António Costa é potencial aliado, não adversário - daí as palavras cautelosas que Rio sempre utiliza quando alude ao primeiro-ministro. O mesmo que durante estes quatro anos o desprezou com desdém olímpico.

O PSD é partido com vocação para o exercício do poder - e este impulso prevalece sobre qualquer outro, como demonstra o escrutínio de ontem, em que participaram 36 mil militantes, com o presidente em funções a vencer por uma diferença de 1700 votos. Teve 52%, contra os 48% de Paulo Rangel. Em Janeiro de 2018 vencera Santana Lopes com 54%. Em Janeiro de 2020 vencera Luís Montenegro com 53%. Agora diminui um pouco mais a margem do triunfo, parecendo satisfeito por liderar meio partido. Quem o conhece bem diz que só assim se sente «picado» - e apenas picado salta com espírito guerreiro para o recinto de luta.

O homem que em 2008 não se sentiu suficientemente «picado» para concorrer à liderança social-democrata no auge do poder socrático e em 2019 perdeu por larga margem as legislativas contra o PS de Costa vai certamente guardar outra garrafa de champanhe - desta vez para celebrar nas eleições de 30 de Janeiro a nível nacional. Pode ser que vença, mesmo saindo derrotado. 

Rangel foi perdendo firmeza e segurança à medida que se escoavam as escassas semanas de campanha contra um adversário que sempre recusou enfrentá-lo cara-a-cara e classificava esta pugna interna de «balbúrdia»«tempo perdido». Tanto quanto me recordo, foi a primeira vez que algo semelhante sucedeu no PSD: um líder rejeitar o debate com um companheiro de partido. Talvez aqui tenha funcionado a lógica adoptada há um ano pelo grupo parlamentar social-democrata quando tomou a iniciativa de propor o fim dos debates quinzenais no parlamento com o primeiro-ministro: havia que «deixá-lo trabalhar».

Não se abre novo ciclo: vai prosseguir o anterior. Nada muda para que tudo mude - era este o lema de Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina. Um homem que se desligava das paixões terrenas contemplando os astros. Questiono-me em quem votaria se vivesse neste Portugal de 2021.

Pensamento da semana

Paulo Sousa, 28.11.21

As empresas privadas geridas de forma anacrónica por empresários com a 4ª classe, descrição recorrente e simplista feita pelas forças conservadoras do país, estão entre as entidades que beneficiam da reduzida atractividade da nossa economia.

A barreira fiscal, a espessa burocracia dos serviços, a disfuncionalidade da justiça, são incapazes de atrair o investimento estrangeiro, que introduziria competitividade ao nosso mercado. Assim, estas limitações acabam por ser o maior seguro de vida que se possa dar aos que já esgotaram o seu potencial.

Sem reformas na fiscalidade e no funcionamento dos serviços públicos, o marasmo das últimas duas décadas irá mesmo perdurar.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 28.11.21

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Ana Vidal: «Acaba de chegar às livrarias um dos motivos que me têm afastado do DELITO ultimamente. Agora já não me pertence e espera o vosso veredicto. O texto é meu, a capa é um belíssimo quadro do pintor Joaquim Baltazar, que traduz na perfeição o espírito do livro. Enfim, uma sugestão para o Natal

 

José Maria Gui Pimentel: «Em relação à proposta do Governo, para a eliminação de quatro feriados, acho que faz algum sentido. Mas apenas isso: algum. Isto porque em Portugal no papel até se trabalha muito, em muitos sítios bastante mais do que na maioria dos países europeus. O nosso problema diz sim respeito à produtividade. Aumentar a produção por outros meios pode resultar mas acarreta consequências sobre a qualidade de vida (já das mais baixas da UE) que não são despiciendas.»

 

Leonor Barros: «Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro. Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.»

 

Luís M. Jorge: «Eis o canto do cisne da escola económica judaico-cristã. Agora que os efeitos da crise chegam à Espanha, à Itália, à França e à Bélgica, e já nem a Alemanha consegue colocar as suas obrigações de dívida pública a dez anos, suponho que vai ser um pouco mais difícil encontrarmos preguiçosos e irresponsáveis para incriminar.»

 

Eu: «Notícias frescas da eurozona: Itália à beira da recessão, no próximo ano o desemprego continuará a disparar em Espanha, a Economist vaticina o colapso do euro. E os nossos vizinhos até já admitem sem rodeios um cenário de regresso à peseta. "Mereceste reinar", escreveu Quevedo num soneto dedicado a Filipe III. De quantos dirigentes europeus contemporâneos poderá um historiador futuro dizer o mesmo?»

Os melhores romances e novelas portugueses do século XX

VII - Década 1961/1970

Pedro Correia, 27.11.21

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Barranco de Cegos, de Alves Redol (1961)

Domingo à Tarde, de Fernando Namora (1961)

Angústia para o Jantar, de Luís de Sttau Monteiro (1961)

Viver com os Outros, de Isabel da Nóbrega (1964)

A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964)

Alegria Breve, de Vergílio Ferreira (1965)

O Delfim, de José Cardoso Pires (1968)

Montedor, de Rentes de Carvalho (1968)

A Noite e o Riso, de Nuno Bragança (1969)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.11.21

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Ana Vidal: «É oficial: o Fado foi reconhecido pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade. Estão de parabéns todos os portugueses, quer gostem ou não deste género musical. E estão de parabéns, particularmente, os principais impulsionadores desta candidatura, com especial destaque para Rui Vieira Nery. Por mim, ergo com muito gosto a bonita guitarrinha estilizada que recebi na homenagem que a Sociedade Portuguesa de Autores fez recentemente a todos os que de alguma forma estão ligados ao Fado: autores, intérpretes e instrumentistas. É uma honra fazer parte desse universo.»

 

João Campos: «É mais ou menos recorrente: o final do ano traz consigo as "listas" que toda a gente faz, em jornais, revistas e blogues, sobre os melhores livros, filmes e discos do ano. Invariavelmente, ao longo dos últimos anos dou por mim a contribuir para essa tradição, mas sem assinalar nada que tenha sido feito nesse ano, pois nunca ando a par dessas coisas. Acontece que em 2011, por qualquer combinação astral esquisita, posso nomear um livro, um disco, uma música e um filme - todos de 2011.»

 

João Carvalho: «Não é a primeira ilha em que me instalo para ficar nunca-sei-até-quando: a minha primeira ilha foi a Taipa, em Macau. Nem sequer é a segunda ilha onde fico: a minha segunda ilha foi São Miguel, que acabo de deixar para trás, já com saudades. Faço inversão de marcha e regresso a Angra com um dado já adquirido: esta é a minha Terceira...»

 

Teresa Ribeiro: «O ventinho de fim de tarde arrepia a superfície do lago onde vogam os patos. Da janela do 4º andar consegue vê-los todos. Seis, sem contar com os bravos. Menos dois que na semana passada. Junto ao prédio, a bebé do terceiro andar, a fugir aos guinchos da avó, e o miúdo que mora em frente com o som do auto-rádio no máximo, chamam a atenção de um cão vadio. Ao longe um bando de adolescentes fustiga com paus a vegetação que espiga na orla do lago. Serão aqueles que os matam?»

A chico-espertice como método

João Sousa, 26.11.21

Um apoiante de Rui Rio (ou talvez um funcionário do call-center ao qual Rio delegou a sua campanha?) achou por bem criar um perfil no Facebook, supostamente de Passos Coelho, onde este expressaria o seu apoio em Rui Rio. Passos Coelho já veio a público declarar não ter nada a ver com o assunto. A maior ironia é que Rui Rio foi muito mais esforçado na sua oposição ao governo de Passos Coelho do que alguma vez foi na oposição (qual oposição?) ao governo de Costa.

Fui à bola

jpt, 26.11.21

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Esta semana fui à bola, algo que não fazia há anos, desde bem antes do advento do Covidoceno. Sobre isso botei uma memória agradada (no colectivo sportinguista  És a Nossa Fé e no meu recôndito Nenhures). Acontece que não me ocorre nada para aqui deixar dedicado ao fim-de-semana, pois "já me falta o rancor" para arengar sobre sondagens - a semana passada diziam o PS com maioria absoluta e o PSD de Rio quase abaixo daquela hecatombe do PS de Almeida Santos, esta semana afinal o PSD já empatado com o PS, desde que vá com Rio, claro, um verdadeiro teorema Pitagórico que se me escapa... Nem se me puxam as teclas para resmungar sobre as medidas relativas ao covid-19 promovidas por um desaustinado governo, prisioneiro do manto diáfano de propaganda que venera,  nem sobre as reacções avessas dos liberalóides, cuja guincharia em prol de uns quaisquer direitos individuais que estarão a ser assaltados cada vez mais se afirmam como um gorjeio proudly queer (lamento o estrangeirismo mas lembro que a minha irmã e a minha filha me vetaram o uso do vernáculo adequado a estes doutores adamados). Enfim, é certo que poderia botar um postal sobre a Super-Marta, que dá sempre pano para mangas. Mas é sexta-feira, vou tratar de uns papéis e depois irei jantar à tasca operária cá do bairro.

Por isso deixo abaixo, para quem tenha interesse e tempo livre, a croniqueta que meti a propósito da futebolada (tem um pequeno linguajar atrevido, adequado à bancada, mas como é uma auto-citação julgo que a família perdoará):

 

Dia de não-feriado

José Meireles Graça, 26.11.21

Ontem foi dia de não-feriado. Compreende-se: os feriados cívicos celebram datas marcantes e comemorar duas datas de dois anos seguidos, 1974 e 1975, seria demasia: naquela madrugada inteira e limpa, no dizer inspirado da poetisa Sophia, grande para os que assim a acham, ou estava uma grande e pouco épica nevoeirada ou brilhou o sol do unanimismo.

Brilhou o sol do unanimismo: cada um viu no 25 de Abril o fim de um regime que não deixava ninguém manifestar as profundidades de que era depositário, e acreditou que no seu lugar ficaria a liberdade, o leite, o mel, o regresso dos soldados, a Europa rica, a democracia, o socialismo, a saúde, a explosão da criatividade artística reprimida e o consumo de coca-cola.

Como não podiam ficar essas coisas todas em simultâneo, o unanimismo desfez-se: uns queriam o modelo do Peru, de Cuba, de Moscovo ou de Pequim, e outros o da Suécia, ou da Dinamarca, ou de Bona ou do ami Mitterrand. Ou seja, o 25 de Abril celebra a unidade poética e ilusória, assente em equívocos, dos quais o primeiro era a negação do motivo verdadeiro do golpe, a recusa da guerra colonial; e o 25 de Novembro o senso e a poupança ao inferno cheio de boas intenções.

Doutro modo: uma data refere-se à unidade; e a outra à divisão.

Divisão entre vencedores, que foi a gente imperfeita e confusa da barafunda democrática, e vencidos, que foram comunistas e primos de vária pinta – a malta cujos descendentes ideológicos, quando não são os próprios cheios de colesterol, se alojam hoje no PCP e no Bloco.

A ter que celebrar alguma (e eu não celebraria nenhuma, por razões que abaixo explico), o 25 do quatro é que é.

O quê, associamo-nos então à comunistada e à bloqueirice, no primeiro caso correndo o risco de contrair dementarite totalitária e no segundo acne mental?

Sim. Quem não tem muita confiança no seu sistema imunitário é que tem receio de contágios. E depois:

Aqui há uns anos o meu amigo Hélder Ferreira envolveu-se numa discussão em torno do interessante problema de saber se se pode ser amigo de comunistas. Ele (e eu também, embora não tivesse molhado a sopa) achava que sim, uma turba de outros reaccionários que não. Porque aquela gente, se pudesse, roubava a muitos de nós – os que não fossem trabalhadores por conta de outrem – o modo de vida, e porque em nome da nossa liberdade fazia o que podia para a substituir pela deles, na qual não cabem vozes dissonantes, e portanto não caberíamos nós. Donde, como se pode ser amigo de quem defende um estado de coisas que nos anula, e a muitos meteria na cadeia? Não são adversários, são inimigos.

Raio de problema. Que encontra solução na contradição inerente ao respeito pelas liberdades, das quais o melhor exemplo é o da de opinião: ou abrange quem diz coisas completamente opostas às nossas convicções ou não é liberdade. E também no facto de um amigo comunista o poder ser (amigo) por acreditar sinceramente que nós não correríamos qualquer risco sério no caso de vingar a sua deles distopia – já que juram por fantasias irrealizáveis não há razão para duvidar da boa-fé em acrescentar essa ao lote.

Celebramos então aquele momento em que julgávamos que não havia desfiladeiros, crateras e vulcões entre nós, e esquecemos o outro em que nos livramos do perigo de o 25 de Abril de 1974 desembocar, afinal, num 1917 moscovita?

Não é preciso esquecer nenhuma das datas. Mas como, dos três dês que não sei quem inventou retroactivamente para o 25 de Abril – democratizar, descolonizar e desenvolver – o primeiro foi conseguido apenas pelo 25 de Novembro, o segundo abriu feridas com as quais a História ainda não acertou contas e o terceiro empalidece em comparação com o Estado Novo (mesmo que a maioria das pessoas, por ignorância condicionada, assim não o entenda), talvez fosse um óptimo terreno de entendimento acabar com um feriado, e não o substituir pelo outro.

Precisamos de datas pela mesma razão que todos os países que não estão cansados de o ser as têm? Precisamos sim. Mas como estamos afogados em dívida e a trabalhar menos é que, certamente, não a vamos pagar, podíamos acabar com o feriado do 25 de Abril sem o substituir pelo 25 de Novembro.

E então, de feriados cívicos, nicles? Estamos servidos: ele há o 1º de Maio, que os comunistas julgam que é um dia deles mas se tornou um feriado mundial que celebra o trabalho, e o 10 de Junho, dedicado a Portugal por razões oscilantes. E há o 5 de Outubro, que comemora um regime celerado fundado no assassinato de um homem bom, mas está ungido pela tradição. A qual santifica as coisas, se durar tempo suficiente, mas bem poderia neste caso ser corrigida nos discursos.

Não para celebrar o regime republicano, que nunca o mereceu, mas o Tratado de Zamora, que teve lugar no mesmo dia, e tem a vantagem de ser uma data plausível para o nascimento do nosso a tantos títulos detestável país, mas que é o único em que todos – comunistas, bloquistas, pessoas normais – não somos  estrangeiros.

Esta gente ensandeceu de vez

Pedro Correia, 26.11.21

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Andaram a vangloriar-se que Portugal era um dos países do mundo com maior taxa de vacinação. De facto, ocupamos a quinta posição, com cerca de 88% da população vacinada. Durante todo este tempo aludiam à vacina como panaceia seguríssima contra a pandemia. Mas preparam-se para voltar a fechar e paralisar tudo: o primeiro passo foi ontem anunciado pelo Governo. Decretando novas restrições nos acessos a restaurantes, recintos desportivos, bares e ginásios. Recuperando o uso compulsivo de máscaras em locais de trabalho e todos os espaços fechados. Anunciando que para assistir a espectáculos ou concertos não basta afinal exibir o certificado de vacinação que dantes tanto enalteciam: há que fazer testes à covid-19. Quem não os fizer, fica à porta.

Voltamos à bolha, voltamos à redoma. 

Dizem que procedem assim porque lá fora, noutros países europeus, as infecções voltaram a alastrar a ritmo acelerado. Apontam os exemplos da Áustria ou da Holanda - omitindo que nestes países a taxa de vacinação é muito inferior à nossa: 69% no primeiro caso, 72% no segundo.

Agora lembraram-se de começar a vacinar as crianças a partir dos 5 anos, contrariando tudo quanto tinham garantido anteriormente. E já andam histéricos, recomendando sérias restrições ao convívio familiar nas quadras festivas de Dezembro. Como se afinal não fizesse qualquer diferença os portugueses estarem vacinados.

Terão concluído enfim que as vacinas não nos imunizam? Caramba, nada alimenta tanto o "negacionismo" como esta conclusão.

 

Uma das figuras que mais vezes aparecem nos ecrãs televisivos em defesa aberta de novas restrições é o epidemiologista Manuel Carmo Gomes, que esta noite fez uma extraordinária sugestão na recém-surgida CNN Portugal: todas as pessoas devem passar a fazer testes imediatamente antes e depois de qualquer convívio familiar «para despistar os falsos negativos». Garante que os testes são «bastante acessíveis em termos financeiros», esquecendo-se de especificar quanto este estapafúrdio conselho deverá pesar na bolsa de cada português

Entretanto, o monotema da pandemia inunda de novo os espaços informativos. Como se nada mais acontecesse. Como se não houvesse uma infinidade de outras doenças a ameaçarem seriamente a vida dos portugueses. Estas doenças voltam a tornar-se clandestinas: é tabu falar delas. Mas vão matando mais que nunca.

Oiço-os, com infinita paciência, e começo a chegar a uma perturbante conclusão: esta gente ensandeceu de vez.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.11.21

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Ana Lima: «Em dia de dérbi (ou derby) aí vai uma contribuição para todos os adeptos das duas equipas (e de outras): trata-se de um texto publicado numa revista que se publicou entre Março de 1926 e Março de 1927, de seu nome "Ordem Nova", e que tinha como objectivo a mobilização para a luta política a favor da ditadura, promovendo as suas ideias e propostas.»

 

Ivone Mendes da Silva: «- Tens mesmo de ir ver o jogo?

- Sim e ainda tenho de vestir alguma coisa.

- Nunca hei-de perceber porque não ficas em casa.»

 

Rui Rocha: «Mário Soares afirma que Otelo tem muito bom coração. Ramalho Eanes assevera que Otelo tem o coração perto da boca. Se tivermos em conta que a história testemunha que Otelo teve o dedo colado ao gatilho e que, com a outra mão, manteve o fósforo junto do rastilho, chegaremos à conclusão que, no meio de tudo isto, o que é preciso é ter estômago.»

Reconciliação histórica

Paulo Sousa, 25.11.21

Há algum tempo que tenho dado um enfoque especial à leitura de romances sobre a Guerra do Ultramar, entretanto rebaptizada como Colonial, e também sobre a maior movimentação populacional da nossa história que se lhe seguiu, e que trouxe ao nosso léxico o substantivo Retornado.

Não foi assim há tanto tempo e ainda é fácil de encontrar muita gente capaz de relatar na primeira pessoa detalhes do que então se passou. Não cultivamos a nossa memória e este período histórico será mais uma das vítimas do desprezo com que tratamos o nosso passado comum e os seus protagonistas.

A leitura dos livros Olhos de Caçador de António Brito e Nó Cego de Carlos Vale Ferraz leva o seu leitor a mergulhar no quotidiano de uma geração arrancada das suas terras e lançada para os confins do império, do qual conheciam apenas os contornos geográficos observados nos mapas suspensos na sala da instrução primária. À imagem da composição social da época muitos destes soldados eram originários de um Portugal profundo, pouco instruído e pouco esclarecido. O serviço militar levou-os a travarem conhecimento com gente de todo o país, a ouvirem os seus sotaques e a conhecerem as suas particularidades. Muitos chegaram à tropa analfabetos e de lá saíram com conhecimentos técnicos que lhes permitiram mais tarde exercer profissões a que não teriam acesso sem a formação que ali receberam. Mas atrás deles ficaram milhares de outros, mortos, estropiados e deformados para o resto das suas vidas. Definitivamente ninguém regressou igual ao que foi, tendo muitos deles nem sequer regressado.

Estes romances transmitem uma vivência muito intensa, seja quando a narração respeita à tropa macaca, os aramistas, os que nunca saíam de dentro do arame farpado dos quartéis, seja quando a acção é perpetrada por tropas especiais, que faziam incursões pelo mato adentro. Ambos os autores levam-nos para o dia-a-dia dos soldados que cumprem ordens emanadas por oficiais superiores formados em tempo de paz e por vezes mal preparados para lidar com uma guerra assimétrica, travada entre tropas regulares e forças dispersas apostadas apenas em flagelar e desaparecer. Além das inúmeras baixas que estas flagelações provocavam, a ansiedade da espera pelo próximo ataque alimentava a dúvida moral assente na pergunta O que é que estamos aqui a fazer?

As opções políticas de então, enquadradas na geopolítica da época, colocou estas dezenas de milhares de portugueses no lado errado da história e isso apenas acentua o drama da condição do soldado que assenta na sujeição e na obediência do que demasiadas vezes parece não fazer sentido.

Tendo de combater com as limitações logísticas resultantes do embargo internacional a que Portugal estava sujeito, estes soldados preencheram com o seu sacrifício tudo o que lhes faltava e que não era apenas armamento. A imensidão dos espaços e a progressão lenta dos reabastecimentos perturbavam profundamente o seu conforto físico, onde o acesso a refeições regulares e a água potável nem sempre estava assegurado. Haverá certamente quem discorde com esta minha descrição, até porque não é baseada em experiência pessoal, mas apenas na leitura destes romances, mas afinal de contas todos podemos exprimir também uma opinião sobre a Implantação da República, e sobre esse acontecimento estamos todos em pé de igualdade.

A acção de ambos os livros desenrola-se no norte de Moçambique, no que chegou a ser conhecido pelo Estado das Minas Gerais, onde as colunas militares chegaram a ter de lidar com mais de sessenta minas num único quilómetro. Esta arma silenciosa e furtiva, e que para desgraça dos povos mantém a letalidade muitos anos depois da guerra, atrasava durante dias deslocações que poderiam ser feitas em poucas horas. A pressão psicológica a que os picadores, que sondavam cada centímetro das picadas, estavam sujeitos era tremenda e sabemos hoje que mais de metade das baixas então sofridas foram causadas por minas.

O esforço de um pequeno país em manter três frentes de combate, tão dispersas e tão longínquas, não tem paralelo na história. Li algures que isso foi apenas repetido pelo Império Britânico e durante muito menos tempo. A variável mais importante que permitiu tal feito foi o esforço, a obediência e o sacrifício dos soldados portugueses. A sua resistência e frugalidade já a traziam da vida difícil que sempre tinham tido no Portugal salazarista. Estou certamente a ser demasiado simplista, mas este é sentimento que sobra após estas duas obras.

Depois de tanto sofrerem, pela imensidão da distância aos seus sítios de origem, aos seus entes queridos e por terem sentido o absurdo da guerra, embora nem todos na mesma medida, esta geração regressou a um Portugal diferente daquele que tinham conhecido e que então se reinventava. Apesar desta reinvenção ter sido desencadeada pela mão das Forças Armadas, a nova narrativa não reservava o espaço de reconhecimento que esta multidão de gente merecia.

Na vida de demasiados destes portugueses, e das suas famílias, a guerra continuou a consumir-lhes os dias e as energias atormentando-os por muitos mais anos. Todos conhecemos quem tenha sofrido, ou ainda sofra, de Stress Pós-traumático, e isso é algo que o país demorou demasiado tempo a dar a devida importância. Se não se fizesse tanto por esquecer tudo isto, aquilo porque estes soldados passaram deveria até entrar nas comparações dos debates actuais sobre a violência de género. O esquecimento é apenas mais uma camada de violência.

Através d’O retorno de Dulce Maria Cardoso e d’O último ano em Luanda de Tiago Rebelo, revive-se o choque de quem teve de abandonar tudo o que tinha, de quem simplesmente fugiu para salvar a vida, sem nada nas mãos, alguns para uma terra que nunca tinham pisado e onde não conheciam ninguém. Nem todos se adaptaram bem ao que encontraram mas não duvido que o Portugal que somos hoje é também um Portugal moldado pelo que os retornados acrescentaram à “metrópole”, com a vivência que trouxeram, com o seu “fazer pela vida” que agora se chama empreendedorismo, e até pelo nível médio de instrução, que era bem superior ao do rectângulo europeu. Este acontecimento, que por si só já seria profundamente marcante, coincidiu com os anos quentes do PREC e com um nível de incerteza que hoje, para quem não viveu esses tempos em idade adulta, será difícil de imaginar.

O país mudou do paradigma imperial para a partilha da identidade europeia sem que se tivesse feito o luto pelo fim do que fomos durante quinhentos anos. Mergulhámos na Europa da CEE, e mais tarde da UE, mais num golpe do desenrascanço que nos caracteriza do que por uma convicção sentida e vivida. Vendo bem, a nossa atitude quase não difere da desse meio milénio. Já não vivemos à custa de outros territórios, mas vivemos à custa dos impostos que outros pagam. Mudou a origem da riqueza, mas o mamar é o mesmo. Talvez por isso, não valha mesmo a pena fazer luto por coisa nenhuma.

Ainda assim, e porque gosto de registos históricos, deveria ser lançada uma campanha que promovesse e premiasse a elaboração de registos das memórias pessoais do que então aconteceu. Poderiam ser elaborados relatos escritos, poder-se-iam reunir e digitalizar fotografias, aerogramas ou simplesmente recorrer a gravações de áudio num normal telefone para registar conversas entre quem viveu esses tempos. Muito há ainda para registar. Como sempre são os pequenos detalhes que acrescentam a dimensão humana aos frios livros de história, onde se incluem os que ainda não foram escritos. O que nunca for dito será como se nunca tivesse acontecido. Mesmo havendo quem prefira enterrar no esquecimento alguns traumas pessoais, o país precisa de se reconciliar com este passado historicamente tão recente. Precisávamos de uma ou duas dúzias de romances passados nesta época assim como mais filmes e series. Talvez assim as gerações mais novas olhassem para os antepassados que por lá andaram e lhes reconhecessem o esforço e o sacrifício que fizeram pelo nosso país.