Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 18.07.19

 

«Ser livre é depender do que se gosta.»

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (836)

por Pedro Correia, em 18.07.19

Autoria e outros dados (tags, etc)

A esquerda não desapareceu

por Diogo Noivo, em 17.07.19

Captura de ecrã 2019-07-17, às 13.09.56.png

 

Num ensaio muitíssimo recomendável, Félix Ovejero traça a genealogia recente da esquerda espanhola e, por extensão, da europeia. Em síntese, argumenta que as forças políticas progresistas evoluíram do primado da raison iluminista para o menu do “tudo para todos”. Pelo caminho, abraçaram lógicas identitárias, de segregação das sociedades em tribos, incompatíveis com a razão e com a emancipação dos povos. Por outras palavras, a esquerda ilustrada negou-se a si própria. Note-se que esta tese saiu da pena de alguém que se situa convictamente no lado esquerdo do espectro político.

Ovejero e outras personalidades da esquerda espanhola, como o filósofo Fernando Savater, o escritor Fernando Aramburo e o político Teo Uriarte (membro fundador da ETA, que há muito abandonou a organização), firmam hoje uma carta aberta onde revelam que, embora tímida e em extinção, a esquerda democrática e liberal não desapareceu. Lê-se no texto que “os nacionalismos identitários e os populismos promovem políticas de divisão e exclusão que visam perverter os nossos fundamentos democráticos. Os melhores valores cívicos comuns de tolerância, respeito e fraternidade estão, portanto, ameaçados”.

Mais importante, e tendo em mente os acordos que o PSOE poderá celebrar em breve com nacionalistas catalães e bascos, os autores da missiva alertam: “A pretensão de chegar a acordos, por acção ou omissão, com populismos e nacionalismos identitários e separatistas – qualquer que seja a escala, nacional ou de comunidade autónoma, como no caso de Navarra – certamente contribuirá para o enfraquecimento dos nossos valores democráticos consagrados na Constituição de 1978. Não se podem ambicionar tais alianças, que contaminam a própria identidade da esquerda e conduzem inevitavelmente à deterioração da vida pública e trazem mais divisão cidadã”.

Entre outros méritos, esta carta demonstra o quão disparatado é enquadrar o “conflito catalão” na clássica dicotomia esquerda-direita. Portanto, revela o quão primária é a afinidade ideológica de muitos dos que por cá se batem pela independência da Catalunha.

O caso catalão cava uma fronteira, mas não a que separa a esquerda da direita. É a que separa a democracia representativa da democracia plebiscitária, a que distingue o conceito de cidadania das políticas identitárias, a que evita a confusão entre o direito ao voto e o respeito por direitos, liberdades e garantias. Era importante que deste lado da fronteira se percebesse isto. Ou, pelo menos, que se perceba que é um pouco imbecil bater-se pela independência da Catalunha envolto numa bandeira de esquerda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Teresa, Bermudo e Urraca.JPG

Miniatura medieval representando D. Teresa, ao centro, com sua filha Urraca Henriques e o genro Bermudo Peres de Trava. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos (Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol.  6v.)

 

Calcula-se que foi em Julho de 1122 que D. Teresa deu a sua filha mais velha, Urraca Henriques, em casamento a Bermudo Peres de Trava. Este consórcio gerou um verdadeiro vendaval no condado Portucalense.

Nesta altura, D. Teresa já tinha perdido muitos apoios, pois os nobres de Entre-Douro-e-Minho nunca aceitaram a influência da família de Trava. Convém, no entanto, fazer aqui um parênteses para explicar que o condado Portucalense, recebido por D. Teresa à altura do seu casamento com D. Henrique, era a junção de dois antigos condados: o Portucalense propriamente dito, que ia sensivelmente até à região do Douro, e o condado de Coimbra, que englobava o restante território, de fronteira sul indefinida, mas pertencendo-lhe ainda o castelo e a localidade de Soure. As terras de Viseu, Seia e Coimbra mantiveram-se fiéis a D. Teresa, pelo que, nos anos que antecederam São Mamede, poderia ter-se verificado a divisão. Para isso, contribuía igualmente o facto de os senhores do Norte, com mais posses e maior poderio militar, desdenharem dos cavaleiros vilãos de Viseu e de Coimbra, alguns deles estrangeiros, antigos companheiros de armas de D. Henrique.

A relação de D. Teresa com Fernando Peres de Trava terá começado à volta de 1120 e, à altura do casamento de Urraca Henriques, os dois tinham já, ou estavam prestes a ter, uma filha. Orientados pelo arcebispo de Braga, os nobres portucalenses acusaram D. Teresa de incesto, já que dava a mão da sua filha ao irmão do seu amante. Acusavam-na aliás de incesto duplo, pois alegavam a própria D. Teresa haver tido um caso com Bermudo Peres de Trava, casando assim a filha com o antigo amante. É, no entanto, provável que esta relação tenha sido inventada, no intuito de danificar ao máximo a reputação de D. Teresa, a fim de a substituir pelo filho, o mais depressa possível.

A pergunta que se põe é: porque patrocinou D. Teresa este casamento? Não previa ela as terríveis consequências? Uma das razões poderá ser precisamente o facto de ela não ter tido relação íntima com Bermudo Peres de Trava. De resto, há que compreender a estratégia de D. Teresa, que aspirava ao reino da Galiza, a fim de ser coroada rainha, título que já vinha usando, com o beneplácito dos nobres portucalenses, e usado igualmente por um papa, numa bula, como tratamento à filha de Afonso VI. D. Teresa planeva englobar nesse reino o condado que lhe pertencia, não admirando, por isso, que visse vantagens na sua aproximação à mais poderosa família galega.

Há indícios de que ela tenha tentado casar com Fernando Peres, anulando o casamento deste; há mesmo quem considere que eles realmente casaram secretamente, numa cerimónia em que o nobre galego terá repudiado a sua primeira esposa. À luz das leis medievais, tal atitude podia ser motivo suficiente para a Igreja anular o consórcio. Ora, tudo isto, aliado ao matrimónio de Urraca com Bermudo, reforçaria a ligação das duas famílias, dando-lhe legitimidade e aumentando a pressão sobre os barões de Entre-Douro-e-Minho.

Como sabemos, o contrário aconteceu, o que não admira muito, tendo D. Teresa dois arcebispos como contraentes: o de Braga e o de Santiago de Compostela. O braço-de-ferro entre a “rainha” e os nobres portucalenses duraria ainda seis penosos anos, até 1128, quando se deu a Batalha de São Mamede.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O País do trabalho sem direitos

por Pedro Correia, em 17.07.19

perfect-grilled-mackerel-1456790327.jpg

 

Férias no Algarve. São 18.30 quando chego a um dos meus restaurantes favoritos, sem marcação prévia. Em busca do peixe bem grelhado de que tanto gosto. 

Atende-me um empregado que bem conheço. Hoje [ontem] parece-me pouco satisfeito.

- Que se passa? - pergunto.

- Falta de folgas. Cansaço. Dias após dias sem folgar.

- Mas ontem [segunda-feira] estiveram fechados, aliás como é costume...

- Sim, mas foi o último dia. O patrão acaba de avisar-nos que durante os próximos dois meses não teremos folgas. Até 15 de Setembro estaremos sempre a funcionar.

- E vão ter alguma compensação financeira por isso?

- Nem mais um cêntimo. É pegar ou largar, disse ele.

- E ele nega-vos mesmo a folga semanal?

- Sim. Ainda tentámos que no desse meia folga, ao menos isso. Mas recusou.

 

Eis um quadro que se vai multiplicando por esse Algarve fora. Acumulam-se os clientes, acumula-se a receita, acumulam-se os lucros - e diminuem os direitos dos trabalhadores, a começar pelo mais básico: o direito ao descanso.

Até Deus, que é omnipotente, descansou ao sétimo dia. Estas entidades patronais, julgando-se num mundo em que são elas a ditar as leis, arrogam-se no direito de explorar até ao tutano quem lhes presta serviço. É o caso deste restaurante, que tem um número fixo de empregados: em vez de reforçar os quadros nos meses de maior afluência de público, adequando a oferta à procura com o recrutamento de trabalhadores temporários, estica ao máximo os recursos de que dispõe, insuficientes nesta quadra, negando-lhes contrapartidas remuneratórias ou as mais que justas folgas de compensação.

Às sete da tarde, as duas salas estão cheias e começa a formar-se fila à porta para jantar. Os empregados correm de mesa em mesa: já ao almoço ocorreu algo semelhante e terão pelo menos mais três horas seguidas neste ritmo frenético.

 

Não é difícil fazer uma estimativa perante tal afluência, multiplicando comensais diários por custo médio de refeição: a meio da semana, neste estabelecimento, já a despesa estará coberta. A partir daí, tudo é lucro. O problema é que estes patrões - que adoram intitular-se "empresários" - mostram pressa em matar a galinha dos ovos de ouro. São cada vez mais frequentes os casos de cozinheiros e empregados de mesa que, cansados de tanta exigência a tão baixo preço, procuram vias profissionais alternativas. 

Tenho um amigo, proprietário de três restaurantes em Lisboa sempre cheios, que se queixa disto mesmo:

- Eles deixam de aparecer, muitas vezes nem avisam. Temos de improvisar tudo, transferindo pessoal de um estabelecimento para outro às vezes em cima da hora de abertura.

- Porque é que vocês não lhes pagam mais? - indago.

- Eh pá, sabes, a vida está difícil para todos...

 

Segue-se o habitual rosário de queixumes da parte de quem prospera a olhos vistos mas só pretende dividir escassas migalhas desses dividendos. Em Lisboa como no Algarve.

Mesmo em férias, vou pensando: eis o País que não mora nas estatísticas nem na propaganda do "Portugal positivo". O País do lucro máximo de alguns à custa dos direitos mínimos de muitos. O País onde é possível trabalhar dois meses sem sequer meio dia de folga diária, quase em regime de servidão feudal. O País do trabalho sem direitos a que partidos que tanto invocam a "classe trabalhadora", como o BE e o PCP, fecham os olhos neste quarto ano contínuo de "geringonça".

Foi para subsidiar patrões como estes que o Governo Costa/Centeno decretou logo no início uma das medidas mais demagógicas de que há memória em anos recentes: a redução da taxa do IVA na restauração. Os restaurantes não baixaram preços nem recrutaram gente: limitaram-se a ampliar as margens de lucro. Enquanto o Estado via diminuir quase 400 milhões de euros a receita fiscal neste sector, que logo tratou de compensar por outras vias, esmifrando os do costume - nós, os contribuintes - com a maior carga tributária de sempre: 35,4% do produto interno bruto.

 

Pela primeira vez, confesso, não apreciei o peixe grelhado que comi aqui.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.07.19

x9789896944025.jpg.pagespeed.ic.HVNafZZOHd[1].jpg

 

Trump Debaixo de Fogo, de Michael Wolff

Rita Carvalho e Guerra e Pedro Carvalho e Guerra

Política

(edição Edições 70, 2019)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 17.07.19

39b608e95118d5d9c8efc36c2a387b46--hourglass-top.jp

 

João Carvalho: «Se o PS não perdoa depressa a João Cravinho a veleidade (leia-se: iniciativa) de propor há três anos um pacote de medidas anti-corrupção e se ele não perdoa ao PS a recusa e enxovalho que recebeu em troca, os socialistas irão apresentar-se a eleições com as mãos sujas. Ou com as mãos lavadas à Pilatos.»

 

Eu: «"De repente comecei a acreditar em Deus. Tá impossível acreditar em qualquer outra coisa." (Millôr Fernandes, na sua coluna da Veja); "Ainda acredito que é possível que os cidadãos voltem a dar ao PS a maioria absoluta." (Elisa Ferreira, em entrevista ao Sol).»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Instantes em sépia com capa de muitas cores (25)

por Maria Dulce Fernandes, em 17.07.19
Sangue oculto
 

sangue_sns.jpg

 
Diz-se que o sangue fala mais alto.
O meu nunca falou realmente comigo, limitou-se sempre a circular e a exsudar quando o cérebro e as hormonas a isso o obrigavam.
Diz-se que tudo é uma questão de sangue.
O meu é um banalíssimo ORh+, nem sequer o factor Rhesus faz dele uma estrela, nunca será elevado à categoria de raridade nem condecorado por salvar vidas.
Diz-se que o sangue lava a honra.
Uma honra suja será sempre uma desonra aos olhos dos homens, por mais que se tente limpar e as nódoas de sangue não iriam branquear em nada qualquer imagem de honra perdida... E afinal o que é a honra? Não pode ser uma fénix, porque se esfumou e não renasceu das cinzas.
Diz-se que sonhar com sangue é desgosto
Nunca sonhei com sangue em quantidade para o poder culpar das lágrimas que já chorei.
Diz-se "Sangue do meu sangue"
Ninguém tem o meu sangue! O meu sangue é só meu, vem fechado numa embalagem própria, inócua e inviolável, corre-me nas veias, alimenta o meu corpo, dá-lhe a cor da vida.
 
É silencioso, para um imparável e arquejante corredor de fundo, sensaborão, para quem dá sabor à vida, inodoro, para quem o odor enlouquece os homens e invisível, para quem cria lagos imensos de morte. 

Vezes há que gela, outras que ferve, outras ainda em que  exulta, faz-me vibrar e corre que nem doido, no dédalo da  imaginação que  irriga constantemente, incansável e diligente.
 
Há quem tenha sangue azul; o Pai dizia-nos que sim, que nascemos com sangue azul e o Tejo aos pés, já ali em baixo.
Deve ser por isso que quando quis dar sangue, participar e integrar-me como boa pessoa e cidadã que sou, me informaram que não, que não o podia fazer.  
Não faz mal, fica meu e só meu e mimo-o com chocolates e outras coisas boas, porque afinal padecemos os dois do mesmo sofrimento: estamos ambos encerrados neste corpo sem poder sair

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (835)

por Pedro Correia, em 17.07.19

Autoria e outros dados (tags, etc)

bond-25-lashana-lynch.jpg

 

A capacidade de adaptação é essencial à sobrevivência. Mais do que um truísmo darwinista, trata-se de um princípio intuitivo para qualquer bípede que tenha de fazer pela vida. Devemos, contudo, ponderar as diferenças entre “adaptação” e “invenção”. A primeira acomoda à realidade aquilo que já existe, a segunda cria algo de novo. E o que é novo, por incipiente e frágil, tem maior probabilidade de não sobreviver. Tudo isto vem a propósito da última polémica em torno do espião mais famoso do mundo.

De acordo com uma fonte alegadamente bem informada, na próxima entrega da saga James Bond o código 007 é passado a uma mulher. A actriz escolhida será Lashana Lynch (na foto). Após 24 filmes – na verdade, contando com os não-oficiais, são 26 – e passados 57 anos da exibição do primeiro título da série, Bond troca a testosterona por estrogénio. O rumor despoletou uma arenga feroz. De um lado, os puristas indignam-se, pois Bond em versão feminina matará a essência e a história do personagem. Do outro lado, os hereges exigem que Bond espelhe as agendas e as causas do momento.

Confesso que a cor da pele da actriz me é absolutamente indiferente. Veria com bons olhos a substituição de Daniel Craig por Idris Elba, um actor, de resto, várias vezes apontado como o próximo a estar ao serviço de Sua Majestade. Não é uma cedência minha ao politicamente correcto nem às causas fracturantes, apenas creio que Elba tem três bons argumentos a seu favor: é um excelente actor; é britânico; e permitiria uma evolução do Bond de Daniel Craig sem uma ruptura abrupta com o passado. Bom, e Elba é homem.

Como bem escreve o Francisco José Viegas aqui ao lado, Daniel Craig é o melhor de todos os Bond. A sua substituição será difícil e o adiamento é prova disso – o actor expressou em termos contundentes a pouca vontade de protagonizar o filme agora em produção. Craig encarnou um James Bond celibatário e mulherengo, mordaz e inventivo, isto é, igual a todos os outros. Mas, em simultâneo, mostrou um espião que se engana, que tem dilemas, que sofre, inovações que muito se agradecem numa sociedade que parece viver obcecada com o êxito e com a perfeição. Com Craig houve uma solução de compromisso entre passado e presente, uma adaptação bem-sucedida. Transformar James Bond em mulher será uma invenção, um corte absoluto com o legado de mais de vinte filmes. Porventura uma agente secreta feminista e cáustica que use os homens a seu bel-prazer dê um filme interessante – tenho a certeza que me divertiria – e até uma saga com êxito, mas não será um Bond.

No texto já citado, o Francisco recupera declarações Phoebe Waller-Bridge, a guionista do próximo filme, que deviam ser óbvias e que denotam uma mudança importante na forma como a franquia cinematográfica retrata o sexo feminino: "Bond é Bond, mas as mulheres também são (felizmente) novas e diferentes daquilo que aparecia nos ecrãs nos anos 70 ou 80". Waller-Bridge tem fama de feminista desenfreada e será dela a intenção de atribuir o código 007 a uma mulher, um rumor que não bate certo com as declarações anteriores. Esperemos que impere o bom-senso e que se fuja daquilo que o Alexandre Guerra justamente apelidou de idiotice. É James, não Jane.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases de 2019 (20)

por Pedro Correia, em 16.07.19

 

«O Presidente da República não é comentador político.»

Marcelo Rebelo de Sousa, falando aos jornalistas no sábado, dia 13

Autoria e outros dados (tags, etc)

DECO

por José Meireles Graça, em 16.07.19

Há muitos anos, frequentei um curso na Católica, em Lisboa, para “executivos”. Abominei: os testes dirigiam-se à memória (lembro-me de ser preciso empinar o “diamante de Porter”, salvo erro, mais uma data de coisas que não ganhavam em conhecer-se de cor); os professores eram da variedade doutoral, isto é, da que vomita uma receita e uma maneira de ver, aceitando mal diálogos com os alunos, que são tratados como uma massa bruta na qual é necessário gravar algumas crenças tomadas como definitivas; e a suposta disponibilidade, via internet, do corpo docente, existia muito na propaganda comercial do curso mas pouco na realidade. Numa palavra, professores de ciências sociais que tomavam por exactas, um equívoco que existe até mesmo em áreas supostamente apenas aritméticas, como análise financeira.

Numa cadeira, salvo erro de marketing, recomendava-se como leitura obrigatória o “Choque do Futuro”, de Alvin Toffler, um aldrabão que explorava a mania americana de o prever, identificando algumas tendências do presente que projectava com habilidade e falta de senso e de humildade. Este pastelão o professor tomava como ouro de lei. Hoje, se ainda for vivo e der aulas, deve recomendar o último guru que, com roupagem pseudocientífica, faz o papel dos áugures romanos. O facto de os áugures modernos se enganarem tanto como os antigos decerto não o impressionava, o que é a definição mesma de burrice – bater com a mesma cabeça sempre na mesma parede.

Aquilo era intenso, aos sábados, e a meio da manhã havia uma pausa para café. Várias mesas estavam cobertas de bolos – éclairs, tíbias, palmiers e o restante sortido das pastelarias rascas – mas de sandes honestas de fiambre ou queijo, nada.

O corpo discente era no geral de meia idade e tinha muitos licenciados de várias áreas que pouco ou nada tinham a ver com gestão. Como achasse absurda aquela dieta para quem já tinha barriguinha (não eu, por acaso, que tinha um corpo escultural) fui reclamar junto do director do curso, que abriu os olhos de espanto, não tanto pela reclamação em si mas pelo arrojo de um “aluno” se permitir, com liberdade, dizer claramente ao que vinha. Na Católica, a julgar pela minha experiência, imaginavam que o respeitinho é tão necessário como a esferográfica.

Lembrei-me desta história a propósito deste estudo da DECO – parece que as coisas não mudaram muito, excepto por agora haver maquinetas. Infelizmente, os diligentes empregados do catering foram substituídos (o que provavelmente tinha de acontecer, senão os preços ficavam incomportáveis), mas o cardápio não.

Um problema, na medida (e só nessa, a meu ver) em que haja alunos que queiram outra coisa que não seja lixo adocicado. Eu não queria, presumia que os meus colegas também não queriam, e reagi.

A DECO não acha isto bem, e pelo contrário entende (ou melhor, entende uma senhora nutricionista que tem os tiques dirigistas, autoritários e fascisto-higiénicos da espécie) que

“… seria importante regulamentar a oferta alimentar destas máquinas nas instituições de ensino, à semelhança do que já existe para as máquinas do género colocadas nas instituições do Serviço Nacional de Saúde. Era importante que a oferta alimentar fosse regulada com enquadramento legislativo porque ainda não há orientações nem nenhum documento de carácter legislativo publicado para as máquinas de venda das instituições do ensino superior”.

É fatal: Não há problema, real ou imaginário, em que a DECO não ache que precisamos de mais leis, mais orientações, mais regulamentos e, já se vê, mais coimas e mais fiscais. Como se o país não estivesse já soterrado em legislação que quem pode não cumpre, e como se houvesse algum défice de inúteis e improdutivos na função pública cuja missão é fiscalizar o próximo.

Senhora dra. Rita Luís, tenho o maior respeito pelas suas opiniões (na realidade não tenho, mas convém-me dizer que sim for the sake of the argument) mas as universidades são frequentadas por adultos e estes não precisam que lhes imponham na prática a dieta xis ou ípsilon. Mais: têm o direito de escolha. Faça V. Exª propaganda das suas certezas junto deles e dos fornecedores, convença-os e deixe o Diário da República e as polícias em paz.

Todos os maluquinhos, antigamente no café e hoje nas redes sociais, começam com frequência as frases com a expressão “se eu mandasse…” e a seguir vem a solução milagrosa para salvar o país dos seus males, ou as pessoas delas próprias.

É uma infeliz medida do nosso tempo que os maluquinhos tenham chegado ao poder.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Um assunto de porteiras

por Pedro Correia, em 16.07.19

thumbnail_20190614_131941.jpg

thumbnail_20190614_131009.jpg

 

A reprodução descarada e obsessiva da lógica das redes sociais pelos órgãos de informação está a contribuir para o descrédito acentuado do jornalismo que vai restando.

Há dezenas de jornalistas, em quase todas as redacções, que nada mais fazem durante dias inteiros senão escrutinar o que se cochicha e bichana nas redes, acabando por dissociar-se por completo do mundo concreto e do país real. Nas suas prédicas em papel ou no digital, recorrem aos temas e à semântica que pupulam nessas «vias alternativas à informação», como há já quem lhes chame no meio jornalístico, disparando assim contra o próprio pé.

 

Reparem no que acontece naquilo a que ainda é costume chamar «canais de notícias» na televisão. Num curioso fenómeno de mimetismo, generalizou-se o modelo CMTV, absorvido inicialmente pela TVI 24 e agora já vampirizado também pela SIC Notícias: fecham três ou quatro mecos num estúdio durante horas a discutir coisa nenhuma sobre a bola que agora nem rola nos relvados e assim supõem cumprir a missão jornalística.

Mas não cumprem: essas tertúlias de bitaiteiros são meras correntes transmissoras de boatos e rumores. Basta comparar as imagens que reproduzo acima: foram propaladas com escassas horas de intervalo no mesmo canal - a primeira às 18.17, a segunda às 22.32. Sujeitas a esta lógica editorial mais que duvidosa: primeiro imprime-se a lenda, depois (se não chover) imprime-se o facto. Assim duplica-se a audiência (o que não parece ser o caso, longe disso, no canal em causa, a avaliar pelos mais recentes números tornados públicos).

 

Isto já se pratica hoje sem sofisticação nenhuma, como é patente no exemplo que deixo aqui em baixo. Talvez farto de publicar notícias, essa coisa anacrónica e maçadora, um jornal de difusão nacional acaba de instituir uma secção intitulada "Negócios e Rumores". Como se fosse um assunto de porteiras em vez de jornalistas, sem desprimor para as porteiras.

Assim ao menos não ilude ninguém: o leitor, à partida, já sabe que irá mesmo ser enganado. 

 

thumbnail_20190711_114028-1.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.07.19

636595210_orig[1].png

 

O Movimento Operário e Sindical no Distrito de Aveiro (1900-2016), de Quim Almeida

Ensaio histórico

(edição Página a Página, 2019)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 16.07.19

39b608e95118d5d9c8efc36c2a387b46--hourglass-top.jp

 

André Couto: «Assistimos nos últimos dias a uma lufada de apoios a António Costa. Ao contrário do que Pedro Santana Lopes atabalhoadamente transmite, não é o desespero de quem tem medo de perder as eleições.»

 

Eu: «Conheço a Helena. Sei que não pensará hoje duas vezes nestes insultos com que os adeptos de Costa a brindaram em 2007. Sei também que não se deixará iludir por todos quantos a pretendem agora levar em ombros, transformando-a numa campeã das causas da esquerda "unitária", liderada pelo PS. Ela é uma das personalidades mais bem formadas que tenho encontrado, tanto no plano pessoal como no plano político: impermeável ao insulto, imune à lisonja.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Canções do século XXI (834)

por Pedro Correia, em 16.07.19

Autoria e outros dados (tags, etc)

As ovelhas

por João Campos, em 15.07.19

Fui passar o fim-de-semana à terra, aproveitando a passagem por lá tanto da minha irmã como de um amigo de infância emigrado. Normalmente, a ida à aldeia não serviria de pretexto à bloga (só talvez pela açorda de marisco na Zambujeira do Mar, que continua extraordinária), mas quando ontem já preparava o regresso a Lisboa esta notícia do Público fez-me pensar se a viagem de Intercidades prevista para as 19:25 não se revelaria atribulada. 

Comboio Intercidades atropela ovelhas e fica parado quatro horas

O comboio saiu de Lisboa pouco depois das 14h e chegará ao Algarve com quatro horas de atraso.

Em circunstâncias normais, um acidente desta natureza com o comboio que faz o percurso Lisboa - Faro não devia causar atrasos na composição que faria o percurso inverso horas mais tarde, mas quem viaja com frequência na CP sabe que hoje em dia as circunstâncias da ferroviária serão tudo menos normais. Se o comboio acidentado a ir para baixo fosse o mesmo comboio que devia voltar para cima mais tarde, e se não houvesse uma composição de reserva, o atraso seria inevitável. Sabendo que a minha namorada estava nas imediações de Sete Rios, pedi-lhe que passasse na estação e tentasse saber alguma coisa. 

"Aqui não têm qualquer informação de atraso", diz ela pelo telefone. "Dizem que os comboios não são os mesmos, e que o comboio não bateu num rebanho de ovelhas, mas apenas numa ovelha".

Não fiquei especialmente descansado, mas não havia muito mais a fazer (e dei por mim a pensar quão grande teria de ser uma ovelha capaz de rebentar com uma locomotiva). Perto da hora fui para a estação, encontrei um antigo colega de escola e entretemo-nos à conversa. Como era de esperar, às 19:25 não vimos nenhum comboio atravessar o arco da ponte da muito arruinada Estrada Nacional 266, logo antes de entrar na estação de Santa Clara - Sabóia. Os minutos foram passando. Nada de comboio, e nada de informação - a estação encontra-se há muito encerrada, funcionando apenas como apeadeiro, pelo que não há um empregado a quem se possa perguntar algo. Os altifalantes permaneceram em silêncio. O aparelho de contacto estava avariado ou desligado - premia-se um botão, ouvia-se um pi-pi-pi, e nada. A "linha de apoio" da CP continua muda - imagino que seja mais fácil comunicar com Proxima Centauri do que obter "apoio" da ferroviária. Perto das 20:00 (já com meia hora de atraso, portanto), lá soou qualquer coisa nos altifalantes roucos da estação: que ia chegar um comboio Intercidades às 20:30, perdão, às 20:10, e mais algumas palavras imperceptíveis. Mas era melhor do que nada - era, finalmente, uma informação. 

Só quando vimos um comboio a vir de Norte quando devia vir de Sul é que percebemos mesmo o que se passava.

O comboio parou e, em menos de nada o revisor viu-se rodeado por todos os passageiros que aguardavam em Santa Clara - Sabóia. E esclareceu: aquele era o comboio que saíra de Lisboa pouco depois das 14:00 e que tivera o tal incidente com a ovelha ou as ovelhas. E aquele era também o comboio que partiria de Faro com destino a Lisboa, e que devia parar naquela estação às 19:25 (estaríamos perto das 20:15). Considerando que a viagem entre Sabóia e Faro leva uma hora e quinze minutos, é fazer as contas (para recordar as sábias palavras do Guterres) ao tempo que ainda teríamos de esperar ali, no meio de nenhures, numa estação fechada e muito pouco abrigada, com a noite já a cair. Perante os protestos, lá balbuciou um "eu entendo, mas não é culpa minha", enfiou-se na carruagem e partiu rumo ao Algarve.

Sendo da terra, pude voltar a casa dos meus pais para jantar (os outros passageiros não tiveram a mesma sorte), antes de regressar à estação para tentar a única alternativa a uma espera longa e incerta, ou ao adiar da viagem para o dia seguinte: apanhar um comboio "especial" que a CP faz às Sextas de Lisboa para Faro, e aos Domingos de Faro para Lisboa, e que devia parar ali às 21:25. Lá chegou com cinco minutos de atraso: uma automotora de três carruagens com todos os lugares ocupados e com dezenas de passageiros amontoados pelo chão. Foi assim que voltei da província para a capital neste Verão de 2019: sentado no chão de uma automotora, felizmente entretido a ler banda desenhada (ao contrário dos telemóveis e dos tablets, os livros e as bandas desenhadas nunca ficam sem rede ou sem bateria); à minha frente, um velhote de pé - saiu na Funcheira, sorte dele -, um homem de meia idade sentado no chão a olhar para o vazio e outro, de pernas cruzadas no chão, a fazer qualquer coisa num computador portátil. Dois estudantes sentavam-se nos degraus da porta e falavam de futebol, passando de craques recentes a partidas disputadas décadas antes de terem nascido. Havia crianças e idosos a permanecer de pé, gente sentada em cima de malas e no chão, a desviar-se sempre que alguém queria chegar à casa de banho, a levantar-se quando a posição se tornava insuportável. O revisor, esse, nunca apareceu - e imagino que terá mantido o mínimo contacto possível com os passageiros. 

Lá cheguei a Lisboa minutos antes da meia-noite. E em Sete Rios, onde ninguém iria embarcar naquele comboio, já se sabia qualquer coisa: que o comboio Intercidades procedente de Faro com destino a Lisboa Oriente circulava com um atraso de três horas e trinta e tal minutos, e que a hora prevista de chegada seria à uma e dezoito da manhã (mais o pedido de desculpas "pelos incómodos causados"). Uma informação que, cinco horas antes, teria decerto sido útil para os passageiros que esperavam em Sabóia - e, imagino, nas Amoreiras e nas Ermidas (talvez na Funcheira ou em Messines se soubesse de alguma coisa, o que não será de todo garantido), mas que ali pouca utilidade teria. Quem habita no interior - naquele interior só lembrado quando há desgraças - não merece comboios pontuais, e muito menos informação sobre os atrasos. Esperem ou amontoem-se nos comboios, se quiserem. Da próxima vez que o Marcelo e o Costa se lembrarem de ir fazer propaganda para o interior, sugiro que viajem como eu e muitos outros viajámos hoje: sentados durante no chão sujo de uma automotora durante horas. Talvez lhes servisse de lição antes de dizerem asneiras e fazerem promessas vazias. 

O amigo emigrado que encontrei no fim-de-semana disse-me que na Alemanha, onde vive, os passageiros ficam fulos se um comboio se atrasa dois minutos. Pensei muito nisso hoje (ontem) à tarde. Talvez a culpa de todos estes atropelos até seja nossa: bufamos pelos atrasos e pelas supressões constantes, mas acomodamo-nos. Não reclamamos, não partimos a loiça, não abanamos umas carruagens, não fazemos um motim numa bilheteira, não cobrimos um ministro ou um secretário de estado de alcatrão e penas. Nada. Encolhemos os ombros a cada declaração autista de um (ir)responsável político. Gracejamos quando o atraso se repete (e repete). Cagamos umas larachas - para usar uma expressão da terra - nas redes sociais e ficamos por aí, apaziguados pela falsa empatia dos likes e dos emojis furiosos. Enfim, seremos ovelhas, também - e nesse sentido até teremos talvez sorte pelo atraso dos comboios, que pelo menos assim não nos colhem na linha. 

 

ADENDA: Devia ter transcrito este post para as folhas do livro de reclamações, já que me saiu bem melhor. Pormenor interessante: um utente que queira fazer uma reclamação na Estação de Sete Rios terá de escrever de pé, sobre o balcão estreito, quase em cima de quem precisar de utilizar a bilheteira. Enfim, dadas as condições de viagem que a CP me proporcionou ontem, não deixa de ser ironicamente adequado ver-me obrigado a passar longos minutos de pé a preencher os formulários e a descrever o ocorrido. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Lavourada da semana

por Pedro Correia, em 15.07.19

21377337_nD3fU.jpeg

 

«Ficou mal apanhada na fotografia. Com um sorrisinho um bocado idiota, para não dizer de atrasada mental.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.07.19

250x[1].jpg

 

Agradar e Tocar, de Gilles Lipovetsky

Tradução de Pedro Elói Duarte

Ensaio sobre a sociedade da sedução

(edição Edições 70, 2019)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 15.07.19

39b608e95118d5d9c8efc36c2a387b46--hourglass-top.jp

 

Ana Margarida Craveiro: «No passado, defendi o "não" ao referendo ao aborto. Lembro-me bem do tipo de insultos que recebi, e de ver denunciada por toda a parte a minha insensibilidade, intolerância e ignorância, por recear que a lei a debate viesse normalizar uma prática que deve sempre ser evitada.»

 

Leonor Barros: «Não era preciso vir a OCDE constatar isto. Bastava competência, bom senso e um cabal conhecimento do terreno.»

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D