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Europeias (21)

por Pedro Correia, em 27.05.19

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UM ROMBO NO PSD

 

«Crescemos pouco», disse esta noite na RTP 3 o vice-presidente social-democrata David Justino. Neste sucinto comentário aos resultados eleitorais percebe-se o desnorte que paira nas cabeças dirigentes do partido: ao contrário do que diz o braço direito de Rui Rio, o PSD nada cresceu. Pelo contrário, acaba de registar o pior resultado da sua história numa eleição de âmbito nacional. Situando-se 11,5% atrás do PS nesta que constitui a maior "sondagem" aos portugueses a quatro meses da eleição para a Assembleia da República.

A incompetência revelada pela cúpula social-democrata na questão do tempo de serviço dos professores, como na devida altura aqui se alertou, foi fatal para as aspirações eleitorais do PSD: bastou António Costa fazer voz grossa numa comunicação ao País para Rio se transformar num boneco de plasticina, claramente apavorado com a perspectiva de disputar legislativas antecipadas. Desautorizou o seu grupo parlamentar, recuou em toda a linha e transmitiu uma imagem de confrangedor amadorismo, evidenciando um insólito temor reverencial perante o partido do Governo.

Estas coisas pagam-se caras. «A política não é para aprendizes», como escrevi na altura. E agora reitero com renovada convicção.

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 27.05.19

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Ana Margarida Craveiro: «É também isto que está em causa nestas eleições: menos regulação, melhor regulação. São duas faces de uma mesma moeda. E a moeda foi cunhada por esta Comissão.»

 

Ana Vidal: «Ofereço a Dias Loureiro este texto do escritor mexicano Juan José Arreola, por me parecer um bom epitáfio para uma saga lamentável, que durou uma eternidade. O gesto da demissão poderia até ter sido bonito, se tivesse ocorrido há mais tempo. Agora, até a frase que acabei de ouvir-lhe - "A minha protecção é a minha consciência" - parece uma anedota.»

 

Eu: «A sua permanência [de Dias Loureiro] no Conselho de Estado, muito para além do que o bom senso aconselharia, abalou consideravelmente o prestígio deste órgão, que na prática deixou de funcionar, e constituiu uma forma de insustentável pressão sobre o Presidente da República, como já em Dezembro alertei. A degradação da nossa vida democrática não acontece por acaso: acontece precisamente por casos destes.»

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Pensamento da Semana

por Diogo Noivo, em 27.05.19

“Os alimentos que se recomendam actualmente são tão apetecíveis como uma dieta constante de papel secante. (...) Ontem à noite ingeri o típico jantar livre de colesterol: abóbora fervida, leite desnatado e gelatina. Tenho a certeza que isto não me fará viver mais tempo, mas creio que a existência me parecerá mais longa.”

Groucho Marx, Memoirs of a Mangy Lover, Da Capo Press, 1997

 

Este pensamento acompanhará o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (784)

por Pedro Correia, em 27.05.19

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Blogue da Semana

por João Pedro Pimenta, em 26.05.19

É uma das vozes que há mais tempo nos conta o que se passa no interior da Rússia e países limítrofes, que conhece há quarenta anos e cujas mudanças radicais acompanhou. A política interna e externa dos herdeiros da União Soviética, as suas relações com Portugal e alguns aspectos picarescos contadas de perto. Também já nos deu a honra de escrever para o Delito. O Da Rússia, de José Milhazes, é o blogue da semana.

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Rebelião eleitoral

por Luís Naves, em 26.05.19

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Ainda é cedo para se perceber o que aconteceu nestas eleições europeias, mas parece ter ocorrido uma rebelião contra os partidos do sistema. Os socialistas já não lideram a esquerda europeia, pelo menos sozinhos, e ficaram atrás dos verdes em dois grandes países, França e Alemanha. O Partido Popular Europeu (PPE) e os Socialistas e Democratas (SD), que controlavam o parlamento, perderam o seu confortável monopólio e terão de juntar a família de partidos liberais ao núcleo dominante (Portugal não elegeu ninguém para este grupo). Os conservadores do PPE continuam a perder votos para uma direita radical que teve um desempenho mais ou menos: vitória em França e Itália, mas resultados decepcionantes na Holanda e Alemanha (Portugal também não tem ninguém neste grupo). Na nossa comunicação social, a amálgama de populistas, extremistas e reformistas é descrita como um conjunto homogéneo que tem a intenção de destruir a Europa, mas a coisa é mais complicada e consiste, na realidade, na ascensão de vários movimentos de protesto que pretendem mudanças, nem sempre compatíveis entre si. Finalmente, no Leste, há também um fenómeno claro, refiro-me à forma como os partidos pós-comunistas estão a ser cilindrados, agora não apenas na Hungria e na Polónia, mas em toda a região. O que significam estas rebeliões eleitorais? É cedo para percebermos, mas o voto de protesto na Europa aumentou; a crise financeira está finalmente a produzir os seus efeitos políticos e começa a viragem de ciclo (o fim da Era Merkel e o início de outra fase). O próximo parlamento europeu será bem mais interessante do que o anterior e o Brexit é inevitável. Em relação a Portugal, onde se instalou uma desilusão melancólica, o eleitorado acentua a agonia da direita, mas vota à esquerda sem a convicção do passado.

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Nunca me tinha acontecido. É meio-dia e meia, como de costume ando na rua em manhã de domingo, e preparo-me para rumar a casa quando só então me lembro que estamos em dia eleitoral. Isto diz muito sobre a falta de motivação para participar nesta consulta destinada a escolher os nossos próximos 21 representantes no Parlamento Europeu.

Lá me encaminho para o bairro de São Miguel, um dos mais acolhedores de Lisboa, que visito sempre com gosto em dias de chamada às urnas, temperado por uma saudável dose de inveja: bem gostaria de viver aqui.

Na escola básica, secção n.º 3, exerço o direito de voto. Tudo quase vazio, em ambiente de modorra dominical: ninguém diria que hoje é jornada de mobilização cívica. Encontro duas ou três pessoas conhecidas, muito menos do que é costume: fala-se da conquista da Taça pelo Sporting, dos petiscos que apetece ir provando, do calor que já aperta.

Exerci um direito, cumprindo um dever: revejo-me nesta dicotomia e sinto-me incapaz de justificar o discurso pró-abstenção que por aí campeia. Como se fosse indiferente à cidadania sermos ou não representados por dirigentes que resultam do sufrágio universal.

Neste dia, pensemos nas regiões do planeta povoadas por centenas de milhões de pessoas a quem é negado o direito ao voto. Pensemos nas ditaduras que ainda dominam vastas extensões do mundo. Em países como China, Síria, Irão, Bielorrússia, Guiné Equatorial, Coreia do Norte, Azerbaijão, República "democrática" do Congo, Arábia Saudita, Vietname, Argélia, Cuba ou Usbequistão.

É quanto basta, creio eu, para nos motivar a exercer o voto. Seja qual for a nossa escolha.

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A abstenção eleitoral

por jpt, em 26.05.19

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Ainda a tarde mal começou e já leio vários lamentos sobre a quantidade de abstencionistas, o alheamento e a ignorância dos eleitores face a estas (e outras) eleições. Quereis combater a abstenção? Depurai-vos de essencialismos, de purismos sobre a política. E que cada votante - após ter cumprido o seu direito cívico (e não dever cívico, como palram os estatistas) - receba um simpático (e parco) vale de compras oferecido pelas empresas das "grandes superfícies". Vereis como a abstenção cairá, e muito significativamente.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.05.19

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O Livro das Tréguas, de Lídia Jorge

Poesia

(edição D. Quixote, 2019)

"Este livro segue a ortografia anterior ao Novo Acordo"

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A taça é nossa

por jpt, em 26.05.19

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É só futebol mas vivo-o (it's only rock 'n' roll, but I like it). Até demais ... E é, como disse, clarividente, o Francisco José Viegas, um antídoto contra a solidão.

Ontem, aqui na tasca vizinha, tamanha me foi a comoção final que a pressenti, à ceifeira, seu hálito e até seu afago: mais uma destas e ainda me dá o treco! E depois?, qual seria o problema? Que interessam os desconseguimentos, as interrupções, o desfeito e o infeito? Que mais será de pedir nisto do que o enfeite  do final feliz?

 

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 26.05.19

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Adolfo Mesquita Nunes: «Alguém tinha de demonstrar que a Ordem dos Advogados tinha de ser reformada no sentido do esvaziamento das atribuições do Bastonário e da própria Ordem. É o que Marinho Pinto tem feito, embora de forma involuntária, demonstrando diariamente que não existem já condições para que uma Ordem, ou um Bastonário, consiga representar as várias formas, todas elas legítimas, de exercer a profissão. Que ele por lá se mantenha pelo tempo necessário.»

 

Ana Cláudia Vicente: «Tenho  visto alguns debates, lido algumas entrevistas e reportagens, mas para lá das habituais palavras de ordem e desta fixação  oportunista e centrífuga nas questões da governação nacional, estou para saber o que pretendem aprovar ou reprovar os candidatos a parlamentares europeus durante os próximos cinco anos.»

 

Ana Margarida Craveiro: «Perdoem-me o umbiguismo, mas tenho vindo a reparar que esta casa, o DELITO DE OPINIÃO, se distingue por uma coisa muito, mas muito simpática: a cumplicidade. Este blogue é dos poucos onde se conversa, amavelmente, nas caixas de comentários. Sem insultos, com discussão civilizada, entre autores e leitores, que acabam por ser também autores.»

 

Leonor Barros: «À semelhança de quase todos os pintores e artistas plásticos, também Egon Schiele, o autor do quadro que eu contemplava fortuitamente e que acabara de entrar na minha vida, estaria nos antípodas de imaginar o futuro das imagens quase grotescas, longílineas e esquálidas que povoam a sua paisagem artística.»

 

Paulo Gorjão: «Em bom rigor, Paulo Rangel, enquanto federalista assumido, deveria igualmente defender um imposto europeu, ou não?»

 

Eu: «O Presidente da República não pode esperar mais tempo: tem de dizer com toda a frontalidade a Dias Loureiro que não o quer no Conselho de Estado.»

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Pensamento da semana

por João Sousa, em 26.05.19

Olhemos bem para Vénus: tem uma atmosfera composta por 96% de dióxido de carbono e tão densa que, à superfície, a pressão é 92 vezes maior do que na Terra; está completamente oculto por um espesso manto de nuvens de ácido sulfúrico; o seu efeito de estufa é tão intenso que a temperatura média à superfície ronda os 460º C.

Dificilmente se conseguiria imaginar local mais hostil. Parece-me, por isso, uma estranha premonição que os Antigos, sem saberem tais factos, tenham dado a este planeta capaz de nos asfixiar, esmagar, corroer e queimar - o nome da deusa do amor.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (783)

por Pedro Correia, em 26.05.19

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Leituras

por Pedro Correia, em 25.05.19

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«Todo o preconceito é determinado por outros preconceitos, e os mais frequentes são os que derivam dos seus contrários.»

Elias Canetti, A Língua Resgatadap. 14

Ed. Cavalo de Ferro, Amadora, 2018. Tradução de Maria Hermínia Brandão

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Greta Thunberg na Assembleia da República

por Cristina Torrão, em 25.05.19

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Imagem daqui

 

Depois de o meu colega de blogue jpt ter publicado este excelente texto sobre Greta Thunberg, hesitei em publicar o meu. Mas já o tinha alinhavado, desde que a decisão de convidar a activista sueca a discursar na Assembleia da República causou reacções indignadas nas redes sociais, e resolvi avançar.

Sabemos que a maior parte das crianças crescem super-protegidas e super-vigiadas, até se criou a expressão “pais-helicópteros” para designar os progenitores que constantemente “voam” à volta dos seus rebentos, não lhes permitindo um momento livre e/ou sem ser planeado. Há uma preocupação constante de afastar as crianças de tudo o que seja problema, polémica, ou má notícia. Não são introduzidas nas tarefas domésticas, tudo lhes cai sobre a mesa, como por milagre, as roupas aparecem lavadas nos armários, como por mão de fada invisível. São postas em colégios privados, para e de onde são transportadas de carro, e, chegadas a casa, aterram no sofá, onde se ocupam com os seus telemóveis ou a televisão. Passeios de fim-de-semana? Só se for no Centro Comercial. Quantas crianças tiveram já oportunidade de criarem os seus próprios passatempos, brincadeiras e brinquedos? Quantos adolescentes já deram passeios de quilómetros pela Natureza? Quantos foram sensibilizados para os problemas da pobreza, da discriminação e da solidão? Pais e sociedade queixam-se de que os jovens são preguiçosos, sem interesse por nada, nem sequer empatia pelo sofrimento alheio. Porque será?

Perante este cenário, como não admirar uma activista como Greta Thunberg? Eu admiro, acima de tudo, a sua coragem. Quantas miúdas de quinze anos se atreveriam a faltar às aulas para se plantarem em frente do Parlamento, com cartazes a exigir uma melhor política ambiental? Foi assim que ela começou.

Podem dizer-me que a maior parte dos que participam nas suas manifestações o fazem apenas para faltar à escola. Também me podem dizer que gritam pelo ambiente e contra as alterações climáticas, fazendo, eles próprios, uma vida consumista e sem abdicar dos seus confortos. Ora, este movimento é precisamente a melhor oportunidade para eles tomarem consciência do que se passa e mostrarem aos pais que a vida de todos tem de mudar. É uma boa oportunidade de mostrarem que, por mais boas intenções que os pais tivessem, ao poupá-los ao lado menos bom da vida, cometeram um erro. É nosso dever ouvir a sua voz e reflectir sobre o que os preocupa.

Há uns anos, a activista paquistanesa Malala Yousafzai ganhou a admiração e o respeito da civilização ocidental. Tinha quinze anos, quando sofreu o atentado, dezasseis (a idade de Greta Thunberg), quando discursou na Assembleia da ONU, dezassete, quando foi agraciada com o Nobel da Paz (como co-premiada). Porque se fala agora de infantilização do mundo, em relação à jovem sueca? Por ela dizer o que vai mal na nossa civilização, enquanto Malala Yousafzai atacava os “trogloditas muçulmanos”? É sempre mais fácil arranjar culpados exteriores a nós.

Considero a acção da jovem sueca tão importante como a da paquistanesa. «A nossa casa está a arder», disse Greta Thunberg, na reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça. Chernobyl e Fukushima mostraram-nos que andamos realmente a brincar com o fogo. O trânsito insuportável nas grandes cidades e nas auto-estradas europeias mostram-nos que estamos a ir na direcção errada (todos os dias há engarrafamentos de dezenas, ou mesmo centenas, de quilómetros nas auto-estradas alemãs). Os voos baratos empestam o céu, assim como os cruzeiros empestam os mares e o ar que respiramos (nas suas deslocações europeias, Greta Thunberg viaja sempre de comboio, por ser um meio de transporte muito menos poluente que o avião). A nossa avidez por carne cada vez mais barata criou uma indústria desumana, em que pessoas trabalham em condições esclavagistas e em que animais deixaram de ser seres vivos para serem objectos que se podem manipular a nosso bel-prazer e em que a Natureza é destruída, a fim de produzir soja para os alimentar (cerca de 79% da soja no mundo é esmagada para fazer ração animal; é, por isso, desonesto dizer que são os vegetarianos/vegan os responsáveis pela destruição da floresta sul-americana, mesmo que todos eles consumissem soja, o que não acontece).

É uma ilusão acreditarmos que podemos dominar a Natureza, ou utilizá-la a nosso bel-prazer. A única hipótese que temos é de cooperar com ela. Na minha opinião, Greta Thunberg merece ser ouvida na Assembleia da República, quanto mais não seja, para que sirva de exemplo aos nossos preguiçosos e mimados jovens. Ela mostra-lhes que há problemas graves no mundo e que urge levantarem-se do sofá, adquirirem personalidade e tomarem posição. Ela mostra-lhes que é o futuro dos filhos e dos netos deles que está em causa. Ela mostra-lhes que a vida deles não consiste apenas na satisfação dos seus desejos, com fadas que tratam de tudo o que implique trabalho.

Ela mostra-lhes que vale a pena ter ideais.

“Não acredites em quem te diga que não podes mudar nada / Eles têm apenas medo da mudança.

A culpa não é tua de o mundo ser como é / Só seria tua culpa se ele assim ficasse”.

(excerto da letra de uma canção dos Die Ärzte, banda alemã; tradução minha, original em baixo):

 

Glaub keinem, der Dir sagt, dass Du nichts verändern kannst

Die, die das behaupten, haben nur vor der Veränderung Angst.

Es ist nicht Deine Schuld, dass die Welt ist, wie sie ist

Es wär nur Deine Schuld, wenn sie so bleibt.

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Verniz de civilização

por Luís Naves, em 25.05.19

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Num dos melhores episódios da série clássica Twilight Zone, O Abrigo, de 1961, conta-se a história de algumas famílias abastadas numa rua suburbana da América. No início, vemos a amizade desse grupo de vizinhos, na festa de aniversário em casa de um deles, médico; em conversa, o anfitrião é criticado pelo esforço e dinheiro que investiu na construção de um abrigo anti-nuclear. De súbito, a confraternização é interrompida pelo anúncio de rádio, que dá conta de um suposto ataque inimigo, com explosões dentro de 15 minutos. Rapidamente se instala o pânico, que vai crescendo até uma histeria criminosa, pois todos querem ter acesso ao abrigo anti-nuclear e acham injusto que só haja lugar para três sobreviventes. O episódio está muito bem escrito e resolvido, tem excelentes actores, e esta história continua a ser certeira. Já não há ameaça credível de extinção global em 15 minutos, mas existem outras formas de possíveis colapsos com culpa humana, porventura mais lentas, igualmente inexoráveis. As ameaças são evidentes: a insustentabilidade de uma economia de crise que atropela as pessoas, o sonambulismo da política, toda a nossa vida baseada em níveis de consumo irrealistas. E, no entanto, persiste uma espécie de alheamento, que nos faz rir de quem tenta construir abrigos contra catástrofes no futuro (não são os abrigos físicos, como no filme, mas soluções difíceis, que as sociedades travam com palavreado vazio). Se nada mudar, um dia não vamos tolerar o abrigo do vizinho, o que significa o estalar do verniz civilizacional naquele momento em que as pessoas perceberem que vem aí uma grande mudança e nem todos se salvam.

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Europeias (21)

por Pedro Correia, em 25.05.19

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O DIA MAIS ESTÚPIDO

 

Este é o dia mais estúpido. O chamado "dia de reflexão", em que o estado-tutor nos trata como crianças de colo. Ou como palermóides, incapazes de reflectir noutro dia qualquer. 

É o dia das proibições - aliás, em parte, extensivas ao seguinte, o da jornada eleitoral. É o dia das "pesadas multas" a quem imprima ou debite textos de incentivo ao voto neste ou naquele, como se tal condicionamento não configurasse um grosseiro atentado à liberdade de expressão. E uma evidente violação do princípio da igualdade nesta era em que tudo se comenta ao minuto nos meios digitais.

Recordo-me de certa vez, ainda nas cercanias das urnas, Mário Soares ter declarado sem rodeios aos jornalistas que tinha acabado de votar no filho, candidato por Lisboa. Os bonzos que funcionam como fiéis guardiães da "lei eleitoral" tremeram. Mas Soares, claramente indiferente às consequências, não pagou qualquer multa. Devemos-lhe também esta lição de cidadania por ter demonstrado aos portugueses como tais normas são obsoletas e caducas.

Para mim, se há matéria que hoje mereça reflexão, é esta: vivemos num país em que qualquer recém-nascido já transporta número de contribuinte embora só aos 18 seja autorizado a ter número de eleitor. Isto diz tudo sobre o estado a que chegámos.

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Instantes em sépia com capa de muitas cores (6)

por Maria Dulce Fernandes, em 25.05.19

Carroussel 

 

A música não é sequer musical, não é melodiosa, não flui no ar como bolhas de sabão que reflectem rostos contentes e arco-íris de satisfação. É mais um som de ruidoso contentamento, misturado com tinir de vidros e porcelanas, risos e choros de crianças, gargalhadas e reclamações de indignação. 

A luz é doce e difusa, entrecortada permanentemente pelas sombras dos que sobem e dos que descem, sombras grandes, pequenas, largas, estreitas, amargas ou confortadas.  

É a magia do carrossel, no seu esplendor centenário, que atrai as idades como insectos para luz, em filas intermináveis e ordeiras, todos expectantes e entusiasmados, todos contando os minutos ao segundo, todos desejando chegar rápido a sua vez de subir no carrossel. 

 
 A velha que carrega no botão olha-os a todos já sem os ver. São tantos, tantos anos, tantas caras, tantas vozes, tantas e tão diferentes auras de emoção. Vão entrando e ocupando os lugares, a cavalo num alazão de madeira, numa girafa ou num leão, numa carruagem sem corcel, numa chávena de chá que rodopia incessante. A velha faz soar a buzina e começa mais uma volta. São minutos de deleite em que a realidade fica à porta e a fantasia se segura pelas rédeas daquela crina de palha. São momentos para saborear, para degustar com a sensibilidade e a pureza da infância, que se intromete por um instante e abafa a acrimónia da soberba e a alienação da existência. 

 
 A velha não precisa de ver para saber. O carrossel é antigo, mas é sólido. Como qualquer carrossel que se preze, ondula pelos altos e baixos do seu percurso fixo naquele mastro central, transportando os seus passageiros num arrebatamento de doçura e emoção, com pequenos objectos espelhados,  reflectindo trejeitos mélicos de bulício colorido e adocicado. 

A velha sabe que os tempos são outros e que todos querem a atenção dispensada a monarcas, sentar-se em tronos de reis, que as vénias não demorem e que se lhes afague o ego com aquele unto repelente que segregam e os torna semi-deuses no seu feudo particular. 

 
 A velha sabe que não há tronos no carrossel. É para todos, para todas as bolsas, para todas as cores, para todas as greis. Mas a velha também sabe que a ilusão da felicidade se obtém em dando a todos o que cada um pensa que o faz feliz. É por isso que a velha murmura, sorri e inventa tronos em montes de pedras. 

 
 Dias há em que os auto-reis se creem sentados no carrossel em cadeirões magistrais de veludo bordado a ouro. Então a velha sabe que esteve bem, apesar de não poder deixar de pensar no quão ocas e tristes de viver serão aquelas vidas arrogantes. 

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.05.19

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As Forças Estranhas, de Leopoldo Lugones

Tradução de Miguel Filipe Mochila

Romance

(edição Cavalo de Ferro, 2019)

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DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 25.05.19

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Cristina Ferreira de Almeida: «--Que tal o novo monitor de matemática? / --Muito fixe. Tem uma banda e é vegan. / --Aposto que é do Bloco de Esquerda. / --Não, acho que é da EDP. Não há um partido EDP? / --Praticamente.»

 

João Carvalho:«Não entendo por que motivo os jornalistas mais velhos deixaram de ajudar os mais novos. Poderá não haver pachorra para ensinar coisas básicas a jovens licenciados, mas o clima nas Redacções já foi bem diferente.»

 

Teresa Ribeiro«Enquanto à esquerda se argumenta que nem preenchemos as quotas para imigração e à direita se acende o rastilho da xenofobia, eles fazem as malas. Portugal já não é solução para uma boa parte dos que vieram à procura de uma vida melhor.»

 

Eu: «Justa ou injustamente, do último governador português de Timor guardar-se-á sobretudo a memória de um gesto: a sua retirada, acompanhado do contingente militar estacionado naquela nossa antiga parcela ultramarina, para a ilha de Ataúro, fronteira a Díli, deixando o território mergulhado numa sangrenta e dilacerante guerra civil cujas feridas ainda hoje não cicatrizaram.»

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    134. M
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    136. M
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    143. D