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Delito de Opinião

A econotribo

José Meireles Graça, 27.07.21

Em tempos, a propósito de um programa da Rádio Observador, casquei em não sei quê do que disseram três economistas residentes. Um deles, um socialista com cujas opiniões antieuropeístas concordo, discordando de tudo o mais, não deve ter tomado conhecimento da minha objurgatória; outro, aliás outra, uma opinion maker com a qual simpatizo, não reagiu; e o terceiro, o mais próximo, provavelmente, das minhas opiniões, e portanto o mais sensato, encabritou-se por espaço de dois minutos no Twitter, levando a coisa para um plano pessoal completamente alheio aos meus propósitos, salvo numa leitura pouco atenta.

Um prof da especialidade, com quem me dou interneticamente muito bem, achou graça; um seu colega não ficou demasiado longe de me achar burro; e um amigo chegado, com óptima cabeça e aquela desgraçada formação, inteirou-me de que “deves ter alguma coisa contra os economistas”.

Tenho e acho que se deve ter porque é gente demonstravelmente perigosa: não há política económica moderna mal-sucedida que não seja inspirada por gurus daquela ciência oculta; e todos os desastres foram previstos por algum sacerdote da seita desdenhado pelos colegas, que todavia, com o prestígio adquirido, nunca mais acertou na previsão de coisa alguma. A despeito do recurso extensivo a disciplinas científicas ancilares, como a matemática, um dialecto próprio que com o tempo foi sendo desenvolvido, e uma produção de papers que não caberia na biblioteca de Alexandria, é tropa que não se entende: há economistas liberais de múltiplas declinações, social-democratas e socialistas de várias obediências, até mesmo (que Nosso Senhor, na Sua infinita misericórdia, lhes perdoe) comunistas à velha boa maneira e outros que, credo!, não são comunistas, apenas pretendem depurar o capitalismo dos seus defeitos e acabar com as desigualdades, de modo a que, já próximo da perfeição, lhe aconteça o mesmo que  ao burro do escocês.

Exemplos de próceres destes clãs toda a gente conhece:  Daniel Bessa é um liberal entre muitos; Cavaco era o exemplo acabado do social-democrata, tão completa e cegamente que, com geral admiração de quem sempre o admirou, continua a ser; Mário Centeno passa por socialista (talvez com algum exagero porque, provavelmente, nem o próprio chega a alcançar aquilo que é); de comunistas talvez o mais conhecido seja Eugénio Rosa, e o consagrado frei Anacleto Louçã é ainda o melhor exemplo do adepto da economia sem ricos, por causa da igualdade, mas com grandes taxas de crescimento da felicidade, um indicador bem mais justo do que o PIB.

(chamo-lhe “frei” porque a peça tem um palavreado intensamente untuoso, lá está, freirático; e porque paira sobre tudo o que diz uma espessa nuvem de superioridade moral – para frei Anacleto as pessoas de direita, isto é, as que assim define, são pecadores que ainda não viram a luz que lhe ilumina o coração amantíssimo).

Escolhi estes porque, tirando o comunista, são ou eram professores; e pensando coisas muitas diferentes têm sempre um grande cuidado, no discurso, em não ferir as susceptibilidades uns dos outros (“não ponho em causa a competência do professor xis, mas não terá porventura completa razão porque pérépépé”). É isso um claro sintoma de que estes clãs constituem uma tribo – a econotribo.

De longe em longe, aparece um adiantado mental que desperta entusiasmo – foi o caso, por exemplo, de entre os listados acima, de Cavaco, quando ainda era ministro das finanças de Sá Carneiro. O pobre homem veio a deixar marca, no seu futuro consulado, como coveiro dos restos do manicómio em autogestão que herdara, tendo ancorado o país firmemente à Europa e sobretudo aos seus fundos, a par do papel central do Estado na economia e na vida dos cidadãos – um legado deletério que nem o próprio nem a corte de apaniguados reconhece como tal.

Pois bem, apareceram agora dois economistas com um discurso relativamente inovador, ambos tendo despertado grande entusiasmo nas minhas hostes.

Um é Nuno Palma, que seguia há muito e a quem já me referi bastas vezes com geral aprovação. Palma é um historiador económico, e só posso esperar que os seus trilhos de investigação sejam aprofundados – conhecer e entender o passado é a maneira mais segura de evitar erros porque há pouca coisa de novo debaixo da roda do Sol.

Nuno despertou uma multiplicidade de reacções de mandarins da opinião, por ter tocado num nervo quando, incidentalmente, se referiu, de mais a mais num encontro partidário, ao Estado Novo como não tendo sido, do ponto de vista do desempenho económico, o desastre que a propaganda abrileira fez passar para a opinião pública como dado adquirido.

Já Ricardo Reis, numa notável entrevista, veio dizer sem ambages o que alguns dos seus pares – os mais lúcidos, num meio em que semelhante artigo escasseia – dão a entender com abundância de quiquiquis, mas a coisa tem sido razoavelmente silenciada.

Percebe-se porquê: a opinião de esquerda atacaria o moço sem contemplações se este não estivesse protegido por credenciais académicas estrangeiras impecáveis e uma carreira invejável lá fora. O quê, os americanos, que são o sal da terra, respeitam este tipo? Tem de ser muito bom. E como o muito bom diz coisas inconvenientes o melhor é não as amplificar. Já a opinião de direita, em se tratando de próceres da Academia, também não tem grande interesse em promover o estrangeirado, não vá ele lembrar-se de regressar: cá no torrão lugares não há muitos.

Palma, benza-o Deus, tem outro tipo de protecção: historiadores falam do passado, que não interessa a ninguém, portanto pode-se-lhes bater; com ideias para o futuro é que temos a burra nas couves.

Que diz então Reis? Identifica três razões para a nossa estagnação: i) Impostos excessivos; ii) Má alocação de capital; iii) Empresas zombie.

Diz bastante mais, é claro, e coisas que valem a pena. Sucede porém que nisto, que é o essencial, discordo de um terço.

A referência a empresas zombie não é uma novidade: numa definição, são empresas que, ao longo de mais de uma década de existência, não geram lucros suficientes na sua actividade regular, dependendo persistentemente de crédito bancário. Isto, segundo a literatura pertinente desta moda de pensamento, tem como efeito diminuir a produtividade por sector, além de encorajar a sobrevivência no mercado de firmas ineficientes, uma vez que o acesso “fácil” a crédito bancário lhes permite continuar a sua actividade. Esta mobilização de recursos, por sua vez, diminui o crédito disponível para empresas viáveis, dificultando o seu crescimento e a continuidade das que existem, e impossibilitando o nascimento de inovadoras e mais produtivas.

Este discurso assenta obviamente no pressuposto de que os bancos não sabem o que andam a fazer ꟷ quem sabe são os académicos, os mesmos que enxundiam os quadros da entidade de supervisão e, frequentemente, dos próprios bancos. E, a julgar pela história recente destes, poder-se-ia legitimamente achar que é assim – bancários são gente que, efectivamente, não sabe o que anda a fazer.

Sucede que não saberão, talvez, cabendo porém lembrar que o caso particular do BES (que apoiou sem dúvida empresas zombie) não ilustra uma qualquer inépcia de gestão, mas antes jogos de poder, incluindo o poder político, além de complicadas relações familiares, também elas de poder. Correu mal, mas se formos lá atrás o que vamos encontrar é uma reprivatização assente em muita vontade e pouco capital – o PREC deixou sombras compridas. Isto para não falar da crise de 2008, espoletada por uma bolha no imobiliário que chegou cá porque às nossas praias, e às de quase todo o mundo desenvolvido, chega o lixo todo. Porque os bancos americanos apoiaram empresas zombie? Não, porque apoiaram zombies propriamente ditos, impingindo-lhes casas que não poderiam pagar se alguma coisa abanasse, como abanou.

Fizeram-no por causa dos prémios de gestão e porque a sustentabilidade das organizações cedeu o passo à eficiência, medida em resultados que esqueceram a prudência.

Não se permite que haja na gestão bancária, provavelmente por boas razões, o instituto falimentar do mesmo tipo que existe para as empresas comuns. Aliás, os bancos não são firmas, são instituições crescentemente reguladas. E não é portanto razoável esperar que sejam particularmente bem geridos, até porque um dos mecanismos para isentar os decisores de responsabilidades pelo que corre mal é colectivizar as decisões, diluindo-as em colégios de pessoas albardadas de sólida formação académica, sobrando-lhes normalmente em teias de aranha teóricas o que lhes falta em experiência.

Mesmo com todas estas limitações, quem decide emprestar pretende um ganho. E esse, ao contrário do que pode caber na cabeça esquemática de um académico, pode estar mais na empresa suficiente do que na muita boa – a muito boa tende a discutir o preço, esmagando as margens, e a suficiente (na realidade portuguesa esta, e não a outra, é que é frequente) pode, com uma adequada avaliação de risco, proporcionar muito maiores ganhos.

A treta da produtividade do sector significa pouco porque, sendo aritmeticamente inegável que se as empresas com pior desempenho forem eliminadas a média sobe, isso não nos garante que o que se perdeu acresça automaticamente para quem ficou, incluindo os postos de trabalho. Por exemplo, se umas empresas exportadoras num determinado sector forem relativamente débeis o seu encerramento pode beneficiar apenas concorrentes estrangeiros; além do que, com frequência, o melhor desempenho tem mais a ver com políticas de marketing ou outras que afectam o numerador, sem tocar na produtividade material dos bens produzidos, o que significa que o mercado passará apenas a pagar mais por menos. Num exemplo paralelo, cabe lembrar que o salário mínimo português, que está demasiado perto do médio, sinal seguro de disfunção, passaria a estar menos no caso de, sem mais, despedir um número suficiente de trabalhadores com aquele salário mínimo, mantendo os outros, coisa que aliás parece ter sucedido recentemente por causa do aumento do desemprego na restauração. Uma evolução positiva, portanto, segundo indicadores acéfalos, excepto para os desempregados.

De resto, ou se acredita no mercado ou não: este fará a selecção pelos melhores critérios, que são os que resultam da soma das escolhas dos agentes individuais. Falta de dinheiro para emprestar não parece que haja: se, armados de paciência, formos ouvir um quadro de topo de um banco, é fatal como o destino que este, inclinando a cabeça ponderosa, murmure com gravidade que dinheiro há, o que falta são projectos com qualidade. E enquanto se espera pelos tais projectos vai sobrando financiamento para automóveis, férias e electrodomésticos, mais fácil de obter do que, por exemplo, para leasing de máquinas industriais, coisa que não estou absolutamente certo de que se tenha conhecimento nos think tanks de americanices.

Pretender que decisões de gabinete, em obediência a métricas discutíveis, são o melhor piloto para orientar políticas de crédito, sem mais, e que as empresas mais eficientes não podem por si liquidar as menos eficientes, desafia, entre outras coisas, o senso e a experiência.

E isto dando de barato que os instrumentos contabilísticos para fazer estas análises são fiáveis (não são, uma das falhas mais gritantes das análises financeiras é a crença na comparabilidade dos balanços e contas de empresas nacionais, com completo descaso do campo de minas que é o plano de contabilidade, as suas incidências fiscais e a capacidade que têm aqueles documentos para traduzir a verdadeira situação das empresas).

Carlos Pereira da Cruz, um consultor de gestão que respeito muito e que acima linquei, diz há muito: Deixem as empresas morrer.

Também digo. As que estão moribundas, desde que com a condição certificada por médico competente e não por um distante director do hospital. Sem isso, e se fosse gestor bancário, pensava duas vezes antes de liquidar uma empresa. Preferiria diminuir lentamente a exposição, subindo entretanto ao preço. Isto, claro, se, sendo CEO o professor Reis, lhe conseguisse explicar que a realidade portuguesa não é bem a que imagina. Talvez ao fim de algum tempo, inteligente como é, já não precisasse de explicação alguma.

Publicado no Observador

Antes pôr as mãos na água do que no fogo

Pedro Correia, 27.07.21

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Há verdadeiros mistérios nos canais informativos. Um deles acontece todas as semanas, na SIC Notícias. Nuno Rogeiro apresenta um excelente espaço de notícia e análise de temas internacionais em condições quase clandestinas: é remetido para o princípio da tarde de domingo, algures no Jornal das 2, numa rubrica de duração incerta intitulada “Leste Oeste”. Com direito a separador próprio, mas tratada como se a quisessem esconder.

Dia impróprio, horário impróprio. Merecia outro tempo e outro espaço. Porque este comentador fala do que mais ninguém diz, não apenas na SIC mas noutros canais de produção doméstica. A sua rubrica é uma genuína janela sobre o mundo num contexto televisivo que reduz o noticiário internacional a fenómenos climáticos, catástrofes naturais e acidentes em larga escala. Rogeiro rema contra esta maré tablóide, alargando-nos horizontes. E não raras vezes destaca o que os outros ignoram. Foi assim, por exemplo, no drama do terrorismo de matriz islâmica em Cabo Delgado: andou meses a mencionar este tema, a que mais ninguém ligava. Calculo o que terão dito vários editores nas mais diversas redacções: milhares de mortos sem ser por fogos ou cheias em Moçambique “não é notícia”. 

Quem tem lugar cativo nos alinhamentos televisivos é Marcelo Rebelo de Sousa – o “Tio Celito”, como muitos o conhecem em Angola. Consegue estar em foco precisamente quando não há notícia, fomentando corridas entre canais na tentativa de captar as imagens mais irrelevantes. O prémio, na recente deslocação de Marcelo a Luanda, coube a Tiago Contreiras, um dos enviados especiais da RTP: conseguiu imagens exclusivas do engravatado Presidente a molhar os dedos no oceano interdito a banhos e a dizer: “Está quente!”

Pensando bem, mais vale um político pôr as mãos na água do que no fogo. O “tio Celito” esteve em Luanda, tal como António Costa, para participar na cimeira comemorativa dos 25 anos da CPLP. Apesar das bodas de prata, quatro dos nove chefes do Estado faltaram: Jair Bolsonaro (Brasil), Filipe Nyusi (Moçambique), Francisco Guterres (Timor-Leste) e o controverso ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang. O Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Embaló, deu lá um pulo mas saiu mais cedo. E o de São Tomé e Príncipe, Evaristo Carvalho, só pensa na despedida: o seu mandato chegou ao fim.

O aparente imobilismo da CPLP face ao drama de Cabo Delgado diz muito sobre a ineficácia desta organização, que devia “deixar de ser um clube de países amigos para descer aos cidadãos”, como acentuou Cândida Pinto, outra enviada especial da RTP a Luanda. Eis um tema que Nuno Rogeiro várias vezes tem abordado na sua rubrica. Faria muito bem a SIC Notícias em tirá-lo da clandestinidade, colocando o seu “Leste Oeste” em horário de maior audiência em vez de surgir como tapa-buracos das tardes de domingo. Fica a sugestão. O público-alvo do canal, cada vez mais exigente, certamente agradeceria.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 27.07.21

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Ana Lima: «Há quase 20 anos que não ia à Feira da Ladra. Fui num dos últimos sábados. Continua a ser um local cheio de novidades apesar das coisas velhas que se vendem, sejam elas antiguidades, velharias ou apenas trastes. Os sapatos usados e já sem forma, os discos que alguém ouviu, as cartas endereçadas com uma letra bonita, as chaves sem fechadura, as fechaduras sem chaves, as bonecas sem pernas ou sem olhos, os olhos sem bonecas.»

 

João Campos: «O que falta à política - e, de certa forma, à sociedade portuguesa - não é seriedade, rigor, honestidade ou habilidade. Quer dizer, também falta um pouco disso tudo, mas falta ainda mais do que isso. Falta espinha dorsal.»

 

Laura Ramos: «Volta, João Pedro George, acidental biógrafo de Luís Pacheco. Fazes-me falta

Conversas em família (8)

Maria Dulce Fernandes, 26.07.21

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Entretidas, cada uma a colorir um caderno com desenhos de animaizinhos de companhia riscados a preto e branco, tecíamos considerações sobre os bicos dos lápis de cor e os das canetas com ponta de feltro.  A diferença,  colossal em  textura, tonalidade e translucidez, era patente na diafaneidade que transparecia em cada folha acabada de pintar.

Íamos tagarelando disto e daquilo, contando piadas e dizendo disparates uma à outra de modo a arrancar cascatas de riso límpido e borbulhante, daquele bem trinado e de tal modo contagiante que nos deixava esfalfadas,  mas sem vontade de parar. 

Com o ambiente de alegre cumplicidade bem instalado, arrisquei a pergunta de introdução à conversa que pretendia encetar “ - Conta-me lá neta, como te sentes em relação à mudança de escola?” Continuou a pintar, com a cabeça meio de lado, apoiada na mão esquerda , sem levantar os olhos da obra prima"- Se queres saber, avó, estou bastante apreensiva". Rasguei um sorriso daqueles confundidos e fascinados, que apenas a minha neta me consegue desenhar. “ - E então porquê tanta apreensão?” “- Porque, sabes avó, não conheço a escola, nem o recreio, nem os professores, nem os coleguinhas” - E achas que esse desconhecimento é uma coisa má? Já pensaste que pode ser uma aventura fantástica?”- Como assim, avó? “- Ora, vai ser tudo novo para ti, neta, a escola, as pessoas, os novos amigos que irás sem dúvida fazer, o avô poder ir buscar-te todos os dias e irem passear ao parque. Fazeres os trabalhos de casa na mesa da avó, enquanto contas as tuas aventuras diárias. Vai ser fantástico,  vais ver.  Vai ser uma experiência tão gratificante e ilimitada… olha, como diz o Buzz Lightyear – para o infinito e mais além!” Sorriu travessa. “ - É que fico receosa – outro sorriso escancarado - porque sempre conheci apenas a minha escolinha.”- Ah! Mas mudanças são sempre salutares porque se aprende  bastante e têm muitas vantagens" - Por exemplo o quê, avó?” - Por exemplo o regulamento. “-  Hum? O regulamento? “  - Sim! Na tua escola, os meninos têm fardamento obrigatório, certo? Todos vestem de igual a farda da escola. Na escola nova, cada um veste a roupa que quiser.” – A sério? Posso vestir vestidos e saias? “- Claro que sim! “

Encetou um bailado louco, rodopiando e pulando feliz da vida. “ – Eu gosto tanto de poder vestir os meus vestidinhos ! “ – Vês? Vai ser bom!  Vá, vamos lanchar. Queres waffles? “ – Sim! Com gelado! “ – Já somos duas! “ – Avó! E a dieta para caberes no vestido? “ – Fica para amanhã! Sem falta! ‘Bora lá!”

A morte de Carvalho

jpt, 26.07.21

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(Amílcar Cabral e Nino Vieira, entre outros combatentes. Desconheço a autoria da imagem)

1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica.

2. Os oficiais subalternos que desde 1973 se organizaram por causas corporativas e que - acima de tudo cansados da desvairada guerra - vieram a fazer os golpes de Março e Abril de 1974 foram nisso, e evidentemente, corajosos. Mas uma coragem menor em grau do que aquela que, tantos deles, haviam demonstrado nas estuporadas e injustas guerras africanas. Não se trata apenas de lembrar que os operacionais desses golpes estavam calejados em bem mais complexos e violentos contextos de guerra. Mas também lembrar que o estado do Estado Novo era já patente (veja-se o percurso de Spínola e, também, de Costa Gomes nesse estertor do marcelismo).

Não nego homenagem a quem arriscou muito nesse início de 1974. Mas trata-se de não sobrevalorizar, mitificar, esses riscos. Enfim, resumo-me: fosse eu um pouco mais ingénuo e surpreender-me-ia com este actual universo ideológico e propagandístico atarefado em decapitar os mitos glorificadores de Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e afins, enquanto se afadiga em glorificar os oficiais que vieram a Lisboa em 1974 enterrar o já defunto regime, enfrentando para isso alguns dos seus desanimados camaradas de armas, em tantos casos também camaradas de geração de Academia Militar.

3. Figuras relevantes do início da democracia morreram neste XXI. Militares como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Eurico Corvacho, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Alpoim Calvão, civis como Mário Soares, Almeida Santos, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, etc. Aquando dessas mortes sempre se levantaram algumas discussões públicas sobre as suas personalidades políticas. E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história. Ou seja, para a esmagadora maioria da população as diferenças ideológicas não implicaram desajustados ajustes de contas com os falecidos. Num, de facto, canónico "descanse em paz" dedicado a cada um desses. O sentimento geral é o de que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que "o que aconteceu no PREC ficou no PREC". E nisso decorre uma avaliação diferenciada mas democrática do processo posterior e das suas personagens.

Mas agora na morte deste Carvalho as coisas são diferentes. A repugnância pelo indivíduo é patente em muitos de nós. Pois Carvalho em democracia comandou um grupelho terrorista assassino. Agora, e mais uma vez como em todos os meses de Abril foi habitual, moles de gentes que por aqui andam invectivam o nojo pelo terrorista como característica da "extrema-direita". Tal advém de uma mera táctica, executada por consabidos avençados desta era geringoncica, na qual que convém aos poderes fácticos namorar os resquícios afectivo-ideológicos dos velhos grupelhos m-l. Ou, pura e simplesmente, daqueles que exsudam um efectivo desprezo pela democracia. Ora os crimes que exigem um total repúdio por Carvalho não "ficaram no PREC", são muito posteriores. Os democratas podem ter diferentes visões dos anteriores falecidos, é isso normal. Mas apenas os biltres podem saudar a memória de um assassino.

4. Posso compreender que um militar, camarada de armas, venha agora falar da "bondade" e "generosidade" de Carvalho. Mas a resposta ao nosso respeitável General Eanes só pode ser uma: onde está a generosidade e bondade de quem manda matar 16 vulgares cidadãos em nome de um desvairado e ultra-minoritário ideário?

5. O estado da cultura portuguesa é uma vergonha. O antigo ministro da Cultura João Soares vem dizer que "desculpa as asneiras" de Carvalho. Ou seja, fundar e capitanear um movimento terrorista assassino em democracia são meras "asneiras". É esta a densidade semântica de um gajo que chegou a ministro da cultura. Estamos, é óbvio, no "grau zero".

 

Ainda sobre a Carta

João Sousa, 26.07.21

"Convém não esquecer: uma autoridade que se ocupa da mentira acaba por se ocupar da verdade. Uma entidade pública que vigia a desinformação acaba por criar a informação. Pela verdade e pelo nosso bem: o despotismo começa sempre aí."

António Barreto, Público (24/07/2021)

Polémico e contraditório até ao fim

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

Pedro Correia, 26.07.21

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Poucas personalidades foram mais contraditórias, no último meio século em Portugal, do que o comandante das operações militares do 25 de Abril de 1974. Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, hoje falecido, tinha 37 anos nesse dia que derrubou o Estado Novo e viria a pôr fim à guerra que Portugal travava em três frentes africanas.

Com duas comissões cumpridas em Angola e uma terceira na Guiné, Otelo Saraiva de Carvalho não era militar de vocação. Sonhara ser actor e chegou a pisar os palcos em peças amadoras na sua cidade natal, Lourenço Marques, como então se denominava a capital de Moçambique, ainda sob domínio português.

Estes dotes histriónicos acompanharam-no sempre, dando-lhe um carisma que incendiou plateias nos anos de brasa da revolução, culminados na eleição presidencial de 1976, em que foi o segundo candidato mais votado. Com 16,5%, correspondendo a quase 800 mil votos entrados nas urnas, acabou derrotado por Ramalho Eanes. Que também o venceria nas eleições seguintes, em 1980. Neste ano, Otelo só recolheu 1,5% dos boletins. O seu tempo passara. O país que ele ajudara a abrir ao mundo, reconquistando a liberdade, não o acompanhou nas suas teses de «democracia popular» contra a democracia representativa.

(...)

À frente do Copcon, Otelo deu início à «revolução a todo o vapor», para usar um slogan muito popular na época. Enviava militares a apoiar ocupação de casas e terras, em nome do «poder popular». Convenceu-se de que podia ser o «Fidel Castro da Europa», como ele próprio confessou após uma visita a Havana, em que foi recebido com passadeira vermelha pelo ditador cubano.

Outras frases lhe ficaram associadas naquele Verão quente de 1975, em que este país de brandos costumes esteve a um passo da guerra civil. Disse de si próprio que estava pronto a «tomar o cavalo do poder» e quando os confrontos começaram nas ruas – de Rio Maior até ao Alto Minho as forças anticomunistas destruíam sedes dos partidos da esquerda radical – admitiu a hipótese de enviar «contra-revolucionários para o Campo Pequeno».

Quase meio século depois, neste país hoje membro da União Europeia, é difícil imaginar esses tempos para quem não os viveu. Havia um Governo provisório que não governava, uma economia paralisada por greves e «saneamentos de patrões», mandados de captura em branco que conduziam centenas de pessoas ao estabelecimento prisional de Caxias ao abrigo da chamada «legitimidade revolucionária». Portugal era então capa nas grandes revistas internacionais por se ter tornado num «manicómio em autogestão». (...)

A célebre frase de Ortega y Gasset sobre o homem ser produto das circunstâncias aplica-se como uma luva a Saraiva de Carvalho, que durante a ditadura chegou a ser instrutor da Legião Portuguesa e não possuía qualquer formação política. Nos meses que antecederam a preparação do golpe militar, entre Setembro de 1973 e Março de 1974, ele viria a emergir como o líder das operações. Bem-sucedidas, ao ponto de não terem causado derramamento de sangue entre militares das facções em confronto – velhos conhecidos das missões de guerra em Angola, Moçambique e Guiné.

No quartel-general dos revoltosos, instalado na Pontinha, ele teve o momento de glória máxima – que os camaradas de armas sempre lhe reconheceram, atribuindo qualidades de estratego militar ao então major Saraiva de Carvalho. Todo este processo, que pôs fim a uma das mais velhas ditaduras da Europa, vem relatado no seu livro Alvorada em Abril, obra escrita na primeira pessoa e publicada em 1977. Indispensável como testemunho histórico.

Otelo ficou a meio da rota da liberdade. Esteve no 25 de Abril, mas faltou à chamada no 25 de Novembro. Ao contrário de Ramalho Eanes, Vasco Lourenço, Garcia dos Santos, Jaime Neves, Pires Veloso e tantos outros. (...) Vencedor em Abril, figurou entre os vencidos de Novembro. Não deixou, no entanto, de ser um ícone revolucionário. (...)

Saraiva de Carvalho festejou 40 anos, em Agosto de 1976, já com o melhor da sua biografia atrás de si. Nunca foi ministro, nunca foi deputado, nunca se deixou atrair pela «democracia burguesa», como tantas vezes se referia com manifesto desdém. Conquistou a celebridade muito cedo, conheceu o crepúsculo político com idêntica rapidez. E lidou mal com isso.

 

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Foto: Inácio Ludgero / Visão

 

O pior veio depois, já na década de 80. Figura cimeira da Força de Unidade Popular, que o apoiou com manifesto insucesso na segunda corrida a Belém, acabou por patrocinar as chamadas Forças Populares 25 de Abril, organização terrorista de extrema-esquerda que entre 1983 e 1987 assassinou 17 pessoas – incluindo o director-geral dos Serviços Prisionais, Gaspar Castelo-Branco. Em plena democracia, sem sequer o álibi do combate à ditadura. A alusão ao 25 de Abril, pervertendo esta data, tornava tudo ainda mais inaceitável.

Foi detido, sob a acusação de ser o cérebro da organização, e viria a ser condenado em tribunal. Cumpriu cinco anos de prisão por estes crimes cuja autoria sempre recusou, dizendo-se vítima de uma armadilha forjada pelo braço judicial do PCP. Acabou indultado e amnistiado em 2004, com outros membros daquela organização, culminando um processo que causou enorme celeuma.

(...)

Em Abril de 2011 afirmou em entrevista ao Jornal de Negócios que Portugal precisava novamente de «um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar». Nesse mesmo ano, noutra entrevista, confessou: «Se soubesse como o país ficava, não tinha feito a revolução.» Em 2012, noutra das suas bravatas, considerou que estavam a ser «atingidos limites» que poderiam justificar uma intervenção das forças armadas para «derrubar o Governo» de Passos Coelho.

Era assim o cérebro da revolução dos cravos, agora falecido com 85 anos incompletos: herói para uns, vilão para outros. Polémico do princípio ao fim.

 

Versão abreviada de um texto que ontem publiquei na edição digital do semanário Novo

Emposse patriótico

Sérgio de Almeida Correia, 26.07.21

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No Telejornal de ontem (25/07/2021), a TDM deu-nos conta da tomada de posse da Direcção da Escola Portuguesa de Macau (EPM) para mais um mandato. Importa, pois, neste momento desejar os maiores sucessos a quem tem a missão de dirigir o projecto educativo que aquele estabelecimento ainda representa.

Em 2018, quando se completaram vinte anos sobre a sua criação, tive oportunidade de participar num programa televisivo, gravado nas suas instalações, que assinalava esse marco e onde me foi possível tecer algumas considerações sobre aquele que eu entendia dever ser o papel da EPM e o modo como o futuro deveria ser encarado.

Durante estes anos, não obstante todas as vicissitudes e a falta de vistas decorrente do modo da sua criação, cujo preço está a ser pago todos os dias com juros, formou gente muito boa, gente que depois cumpriu academicamente com mérito, lá fora, que seguiu a sua vida, e hoje está inserida profissionalmente em diversos países com excelentes resultados. E isto é de salientar.

Mas, ao mesmo tempo, não obstante muitos dos que por lá trabalham e estão envolvidos no projecto serem pessoas por quem tenho estima e amizade, não posso deixar de assinalar que são cada vez mais preocupantes os sinais que me chegam do afastamento da EPM daquela que foi a sua matriz fundacional.

É natural que sendo a EPM uma instituição de ensino integrada no sistema educativo da RAEM seja obrigada a, também ela, se adaptar aos novos tempos. E, em particular, aos fortes ventos que por aqui se fazem sentir. O Estado português nunca teve o peso que devia ter tido e isso foi-se sentindo ao longo da sua missão e de cada vez que havia problemas para resolver. 

A sangria de professores expatriados até não seria hoje o mais grave se houvesse possibilidade de substituí-los por outros de igual competência, qualquer que fosse a sua origem, língua materna ou nacionalidade. Como também não seria grave, por comparação com outros reputados estabelecimentos de ensino, o elevado custo das propinas porque há muitos que podem usufruir de subsidiação por parte da RAEM. Ou a qualidade das refeições que de tempos a tempos sempre vem à baila, e algumas outras exigências menos compreendidas – o que não quer dizer que não tenham razão – por alguns encarregados de educação que aqui e ali vou ouvindo. Tudo isso se poderia resolver com vontade, equilíbrio e bom senso.

Pior mesmo é ver o que não tem remédio. Refiro-me ao subreptício apagamento dos símbolos nacionais numa instituição que traz Portugal no nome. É muito triste ver que a Escola, desde há uns tempos, "perdeu" a bandeira portuguesa, à qual nem sequer é permitido coexistir no átrio de entrada com as bandeiras chinesa, da RAEM e a da própria escola.

Não sei de quem será a culpa. Temo, como habitualmente, que de ninguém. Ou, talvez, do funcionário que teve a tarefa de guardá-la.

Enfim, aos poucos há que ir hibernando o espírito. Até que volte a ser dia.

No meu íntimo registo apenas que há sempre quem queira dar o exemplo de ser o primeiro a correr e a aplaudir à frente do megafone. Antes mesmo de se começar a ouvir o slogan.

Foi assim antes do 25 de Abril, manteve-se depois, e continua a ser. 

A única diferença é que agora correm mais depressa e já têm medo de olhar para trás. Alguém poderá vê-los. E não gostar.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 26.07.21

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João Carvalho: «O programa matinal da RTP-1 Bom Dia Portugal tem um apontamento chamado "Bom Português". Ensina (?) a escrever em conformidade «com o novo acordo ortográfico». Por exemplo:

– "hectare ?"
– "hetare ?"

Depois de testar gente na rua, o apontamento diz como é e conclui invariavelmente que «assim se escreve em bom português». Porém, valia a pena que o(s) autor(es) do apontamento e toda a hierarquia da RTP Informação soubessem escrever bom português: não existe um espaço antes de um ponto de interrogação (ou ponto de exclamação, ou vírgula, ou ponto final, ou ponto e vírgula, etc.) — bom português é saber escrever: "hectare?" Este é um erro que a RTP ensina (?) diariamente no seu mau português escrito.»

 

Leonor Barros: «68 estouvadas, delirantes, desmioladas e pujantes primaveras. Aguenta firme, miúdo. É só rock n'roll mas nós gostamos.»

 

Rui Rocha: «A propósito dos acontecimentos dramáticos na Noruega, está a ser disputado, mais uma vez, um jogo de tabuleiro. O seu nome técnico é imputação de terroristas. Mas, a designação popular também pode ser arremesso de loucos ou de desequilibrados. Neste jogo, tal como no xadrez e nas damas, existem peças brancas e peças mais escuras. Alguns que se dizem de esquerda, atacam com os terroristas brancos. Outros, que se arrogam de direita, atacam com os terroristas mais escuros. Dizem que o jogo foi inspirado pelos festivais, muito comuns em cidades do Sul de Espanha, de moros y cristianos. É um jogo peculiar. No final da partida, cada um dos jogadores fica convencido de que ganhou. Mas, na verdade, este é um jogo em que todos perdem.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O melhor mesmo é renunciar desde já. Sempre evitará ficar com o mesmo estatuto daquele rapaz amigo de Paulo Portas que agora também vai para administrador da CGD e que ficou famoso pela conviccção com que dizia querer aumentar o território de Portugal continental até aos Açores à custa da ZEE, fazer um Museu da Bíblia e uma Disneylândia no Sul de Portugal.»

 

Eu: «“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, [Cesare] Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?»

Otelo

José Meireles Graça, 25.07.21

Hoje é dia de lembrar o herói de Abril para toda a esquerda, e de palavreado inconsequente para a maior parte da chamada direita. As ideias que Otelo amassou para o país eram uma amálgama de guevarismos delirantes ao serviço de uma imensa vaidade, um alto grau de inconsciência e uma teimosa estupidez. Este aspecto, a estupidez, que o levava a asneirar com grande suficiência se inquirido fosse sobre o que fosse, não fará parte dos necrológios, como não fará a sua fria crueldade nem os assassinados pelas FP25, senão de forma enviesada. “Deus tenha misericórdia da sua alma”, disse o meu amigo João Távora. João é um católico fervoroso, e respeitador da convenção segundo a qual não se diz mal dos defuntos no dia do seu passamento. Eu não sou nem uma coisa nem, em se tratando de figuras históricas, a outra. Para me associar à contenção fora preciso que em algum momento este triste exemplar de homem tivesse mostrado alguma forma de arrependimento.

Há pouco tempo, saiu um livro que faz ver Otelo à luz que merece. Para quem viveu aquela época lembra factos soterrados e traz alguns novos; para quem não viveu a “gesta” do 25 de Abril e a primeira quinzena de anos que se lhe seguiu, desvenda o sinistro projecto, e as proezas criminosas, do herói que hoje figura nos ditirambos de quem tem banca na opinião oficial e oficiosa, e no comunicado da presidência da República, caracteristicamente inócuo – se um asteróide atingisse o Alentejo, causando milhares de mortos e feridos, Marcelo associar-se-ia às famílias na sua dor, indo proporcionar-lhes selfies para pôr nas salinhas de entrada, e felicitaria o SNS por ter adequados stocks de mercúrio-cromo.

Nada disto tem, para o futuro, mais importância do que a que têm as pequenas histórias. E Otelo só não se juntará à galeria dos Fuas Roupinho, Hermenegildo Capelo, ou Marcelino da Mata, porque nenhum destes, ou dos outros heróis portugueses, ficou conhecido pela sua vaidade nem por ser depositário de doutrinas dementes em nome das quais estivesse disposto a praticar crimes.

O que deve suscitar reflexão é o algodão em rama opinativo: não tanto o do dia de hoje, que se justifica pelo respeito aos costumes, mas o que se adivinha. Otelo foi condenado, num processo em que ficou abundantemente provada a sua responsabilidade num projecto terrorista que se traduziu por assassínios, assaltos e tropelias menores, num tempo em que as instituições democráticas já estavam a funcionar, e foi indultado e amnistiado muito antes do fim do cumprimento da pena.

As razões para o indulto e a amnistia que as escabiche quem tiver curiosidade de procurar nos porões da história recente. As decisões foram legais, e assentavam num desejo de “pacificação” por uma banda (isto é, a recuperação para o jogo democrático das correntes de extrema-esquerda), e prémio ao estratega do golpe militar por outro: devemos-te o regime, toma lá um perdão, e ficamos quites.

Bom negócio, sem dúvida, para quem o aprovou, o PS e o PCP, sob o patrocínio de Mário Soares. Ficou claro então, como já havia ficado antes, e viria a ficar depois, que a esquerda em Portugal, mesmo que amalgamá-la seja injusto (Mário Soares jamais se aliaria com o PCP para governar), defende os seus.

Não seria má ideia ter isso presente, começando por não pôr Otelo no altar do excesso do equilíbrio e da compreensão: o santo é de pau carunchoso, a igreja é a da esquerda, alguns dos clérigos que vão ao púlpito são terroristas que circulam com naturalidade no meio das pessoas e os fiéis de outras obediências são apenas tolerados: nós.

Fascinação por Portugal

Cristina Torrão, 25.07.21

Nos meus primeiros anos, na Alemanha, dei aulas de português a alemães. Não havia muitos a quererem aprender a nossa língua (nada que se comparasse com o castelhano, que chegava a superar o próprio inglês), mas a maior parte dos interessados possuía uma verdadeira fascinação por Portugal, que aliás passava muito pelo cliché de que a vida nos países do Sul era mais despreocupada, sempre com bom tempo, etc. Quando eu dizia que em Portugal se rapava muito frio, no Inverno, olhavam-me como se eu tivesse dito que vinha de Marte.

Muitos me perguntavam que estava eu a fazer na Alemanha, sendo natural de um país tão maravilhoso. Eu alegava haver ali melhores condições económicas, além de mais conforto no Inverno, ao que os alemães replicavam o dinheiro e as comodidades não serem tudo na vida. E eu pensava que só se podia dar ao luxo de julgar assim quem nunca tinha tido preocupações monetárias, nem tentado escrever, numa sala de aula, com as mãos geladas e a doer, apesar das luvas, e tendo dificuldade em ver a ponta da caneta devido ao cachecol grosso enrolado ao pescoço.

Enfim, o que me traz aqui, hoje, é o motivo de fascinação por Portugal mais surpreendente que ouvi. Ele era médico, ia a caminho dos quarenta e via o nosso país como uma espécie de terra mágica. Um dia, eu quis saber o motivo e o homem saiu-se com uma resposta totalmente inesperada:

- Foi o Otelo!

Quedei-me perplexa. O único Otelo que ligava a Portugal era o da revolução, acontecida havia cerca de vinte anos. Mas que tinha aquele alemão a ver com o 25 de Abril, um alemão que, mesmo depois de bastantes aulas, tinha dificuldades em construir as frases mais simples no idioma de Camões? Só podia ser outro Otelo…

Ocorreu-me a peça de Shakespeare. Haveria algo no enredo que pudesse explicar tal devoção? Shakespeare e Portugal? Nada me constava, mas confesso que estava (e estou) mais familiarizada com Hamlet, Romeu e Julieta, Ricardo III e até com uma bastante desconhecida, António e Cleópatra, que fez parte do meu curso universitário.

Receei parecer ignorante e inquiri cautelosa:

- Disse Otelo?

- Sim, o da vossa revolução.

- Otelo Saraiva de Carvalho?

- Esse mesmo! - Os olhos brilharam-lhe. - Nunca consegui dizer o nome completo. Ensine-me lá!

Repeti o nome, tão simples para nós portugueses, mas que põe a língua de um alemão atrapalhada. Saraiva tem um ditongo (terror alemão) e Carvalho, na melhor das hipóteses, é pronunciada cárfálio.

De qualquer maneira, nunca me passara pela cabeça que, em meados dos anos 1990, um alemão, que não percebia patavina de português, soubesse quem era Otelo Saraiva de Carvalho!

- Mas de onde o conhece?

- Dos comícios.

- Comícios? Ela não faz comícios há muito tempo…

- Mas fazia muitos em 75.

- Esteve em Portugal nessa altura?

- Estive, claro.

- E assistiu a comícios sem saber falar português?

- E é preciso saber português para uma pessoa se entusiasmar num comício do Otelo?

Procurava uma resposta à altura:

- Bem… não sei… era ainda criança.

- Eu tinha dezassete anos, quando ouvi falar no ambiente revolucionário que se vivia em Portugal. Abalei com um grupo de amigos. Foram dos melhores meses da minha vida! Arranjámos trabalho ligado à Reforma Agrária, depois de fazermos amizade com gente que igualmente nos guiava de comício para comício. Nunca mais me hei de esquecer de um, em Lisboa, com Otelo. Tive a sorte de ficar muito perto do palanque. O homem era incrível! O seu entusiasmo, a sua convicção… Mesmo sem entender patavina, fiquei maravilhado.

 

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Otelo Saraiva de Carvalho

*31-08-1936

†25-07-2021

Fim de semana (5)

Pedro Correia, 25.07.21

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O parque de Sete Rios é um dos mais belos espaços verdes de Lisboa

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Aldeia dos Macacos, celebrizada no filme A Canção de Lisboa

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Hora da sesta no jardim zoológico: podemos apadrinhar um destes animais

 

Estamos no centro de Lisboa, mas ninguém diria. É um grande parque verde povoado de 300 espécies animais. Parece cenário de filme. E já foi mesmo: basta lembrarmos A Canção de Lisboa, aqui filmada por Cottinelli Telmo, com Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva à frente de um excepcional elenco.

Fundado em 1884, o Jardim Zoológico de Lisboa está muito bem conservado, quase a meio deste seu segundo século de existência. Acabou a era em que enfiavam bichos em jaulas: agora estão em espaços muito mais amplos e arejados que reproduzem na medida do possível os seus habitats naturais. A grande maioria destes dois mil animais já nasceu em cativeiro. Podemos apadrinhar qualquer deles. Há intercâmbios constantes entre zoológicos de outros países para evitar os riscos da endogamia.

Se há passeio recomendável na capital, é precisamente aqui. Para miúdos e graúdos. Recordo as primeiras vezes que visitei este jardim, ainda em criança, e a sensação de deslumbramento que senti ao observar ao vivo tantos animais que só costumava ver na televisão. O tempo passa, mas esta sensação nunca se perde. E é com gosto redobrado que confirmo como o Zoo de Lisboa se adapta aos novos tempos, continuando a seduzir os visitantes. Que são poucos, devido à pandemia que de tudo nos afasta - do parque de Sete Rios também. Não deixemos que ela nos vença: há que sair de casa, há que passear, há que evitar os comportamentos fóbicos induzidos pelas notícias e lutar contra o medo.