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Delito de Opinião

Quando o Óscar chega tarde de mais

Pedro Correia, 17.03.26

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Em cada temporada dos Óscares, lembro-me sempre de Howard Hawks. Foi um dos gigantes da arte de realizar filmes. E também um cineasta que nunca recebeu um Óscar em competição. Não por falta de obras-primas no seu currículo. Mas porque, por algum motivo obscuro, a Academia de Hollywood sempre o considerou um realizador “menor”. Algo muito estranho, já que raros cineastas produziram tantos filmes memoráveis como Hawks, que iniciou a sua actividade ainda no tempo do cinema mudo.

Legou-nos filmes como As Duas Feras (1938), Paraíso Infernal (1939), Sargento York (1941), À Beira do Abismo (1946), Rio Vermelho (1948), A Culpa foi do Macaco (1952), Rio Bravo (1959) e El Dorado (1967). Foi ele quem reuniu pela primeira vez Humphrey Bogart e Lauren Bacall, em Ter e Não Ter (1944). E juntou Marilyn Monroe e Jane Russell, em Os Homens Preferem as Louras (1953).

O reconhecimento foi tardio – e só surgiu por efeito de ricochete da crítica francesa, que o idolatrava. Hollywood deu-lhe enfim um Óscar honorário em 1974 quando Hawks, de 78 anos, já deixara de filmar. A consagração surgiu demasiado tarde, tal como sucedeu, por exemplo, com Charles Chaplin e Groucho Marx (Óscares honorários de 1971 e 1973, quando tinham 82 e 83 anos, respectivamente).

O génio é muitas vezes reconhecido tarde de mais. Lá como cá.

O mito do embargo a Cuba

Paulo Sousa, 17.03.26

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Bandeira de Cuba às escuras

Segundo algumas luminárias (palavra escolhida na senda do apagão cubano), há décadas que o regime cubano é vítima do imperialismo gringo, que lhes levantou um embargo e que assim os impede de prosperar. É apenas uma treta em que alguns cérebros pouco irrigados, mas eventualmente bem intencionadas, querem muito acreditar.

O embargo dos EUA não é um bloqueio naval nem uma proibição mundial de comércio, apenas impede que empresas americanas negoceiem livremente com Cuba, limita movimentos bancários assim como a importação de alguns bens cubanos para os EUA.

Por isso, e apesar de muita desinformação, ora assente em ignorância, ora em má-fé, ora em ambas, o embargo dos EUA, não impede que outros países tenham relações comerciais com Cuba.

Quem se quiser debruçar sobre os dados estatísticos disponibilizados pela ONEI – Oficina Nacional de Estatística e Información, o INE cubano, recomendo esta página que confirma o que acima afirmo. No mapa 8.5 pode consultar-se a evolução das exportações cubanas e no mapa 8.6 as importações. Portugal consta nos dois mapas.

Simplificando a coisa, o problema económico de Cuba, que decorre do respectivo sistema económico, manifesta-se numa balança comercial gravemente deficitária. Em 2022, o último ano disponível no site da ONEI, Cuba importou 9833 milhões de pesos e exportou 2170.

Sem propriedade privada, não há estímulo à iniciativa privada, e sem iniciativa privada não há concorrência, e sem concorrência não existem novos produtos, nem bens transaccionáveis que possam ser exportados, pelo menos em volume suficiente que permita o país funcionar.

Quem duvidar olhe para o que se passou na Europa de Leste depois de se terem curado da doença que ainda enferma os desgraçados dos cubanos.

Haverá quem não aprecie estes dados e prefira a cantiga dos calimeros vitimas do embargo americano. A esses recomendo que vão lá explicar aos cubanos como o comunismo é bonito e como funciona tão bem.

Não de todos: só da maioria

Pedro Correia, 17.03.26

O Presidente da República não tem de ser "de todos os portugueses": esta foi uma fórmula encontrada em 1976 por António Ramalho Eanes, num contexto histórico muito específico, quando o regime democrático estava a definir os seus contornos e o País escapara à tangente de uma guerra civil que só poderia ter consequências devastadoras. Carlos III é que é o soberano de todos os súbditos do Reino Unido, Naruhito é que é o imperador de todos os japoneses. Eis uma das diferenças essenciais entre monarquia e república: um Presidente não pode, e em muitas ocasiões não deve, esconder as suas convicções. Em Portugal compete-lhe - isso sim - cumprir e fazer cumprir a Constituição: se necessário, contra uma parte dos portugueses.

Só isto. Que é tudo.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 17.03.26

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Eu: «A sessão pública de ontem, em que Rui Rio e Rodrigues dos Santos (outrora conhecido por "Chicão") anunciaram uma plataforma comum para as autárquicas, tinha uma atmosfera menos animadora do que muitos funerais. Com um a falar em alhos e o outro a falar em bugalhos. Sintonia zero. Nem podia ser de outra maneira: é uma soma de derrotados. Um ano após o início da pandemia, e no quarto ano do exercício de Rio à frente dos laranjinhas, o PS alarga a vantagem: tem agora mais 14 pontos percentuais do que o PSD. E o que faz o alegado "líder da oposição"? Vai de dislate em dislate. Apresentou uma lista de cem candidatos a presidências de câmaras com 97% de homens, queixando-se de haver «muito poucas mulheres disponíveis». Colou-se (pela enésima vez) ao PS, desta vez para dificultar ao máximo as candidaturas independentes nas autarquias.»

Varandas reeleito com obra para mostrar

Pedro Correia, 16.03.26

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Eleito presidente do Sporting Clube de Portugal em Setembro de 2018, após o período de pesadelo protagonizado por Bruno de Carvalho, começou por combater os inimigos internos que lhe fizeram combate feroz desde o primeiro dia. 

Teve uma brigada de arruaceiros da Jumentude Leonina a persegui-lo de estádio em estádio, nas mais diversas zonas do País, gritando-lhe insultos e colocando tarjas contra ele nas auto-estradas.

Enfrentou uma manifestação à porta do estádio José Alvalade exigindo-lhe aos gritos que se demitisse no próprio dia da estreia de Ruben Amorim como treinador da equipa principal, tendo os protestos alastrado às bancadas nesse jogo em que os jogadores foram assobiados desde os minutos iniciais.

Viu um "jornal" intitulado Leonino ser criado com uma intenção óbvia: contribuir para a sua queda. Três quartos dos textos de opinião ali publicados sugeriam que se fosse embora tão cedo quanto possível.

Viu as contas do clube chumbadas por escassa maioria de sócios, em plena pandemia, quando grande parte das receitas correntes estavam suspensas, forçando-o a gerir o Sporting com o orçamento da época anterior. Obviamente inadequado às circunstâncias de emergência em que o País vivia.

 

Quem resiste a isto resiste a tudo. Com inegável mérito. Os factos falam por si: nove títulos no futebol profissional (três campeonatos, duas Taças de Portugal, três taças da Liga e uma supertaça), dois títulos europeus no futsal e três no hóquei em patins (além de um Mundial de clubes nesta modalidade), a primeira Taça no basquetebol em 30 anos e diversos outros títulos conquistados nas modalidades.

Dois mandatos depois, Frederico Varandas tornou-se o presidente mais titulado de toda a história do Sporting. Pôs fim a quase duas décadas sem a conquista do título máximo do futebol português, venceu o primeiro bicampeonato em 73 anos e a primeira dobradinha (campeonato + Taça) em 23 anos.

O estádio, entretanto remodelado e com mais lugares disponíveis, está cheio como nunca. O número de sócios ultrapassou todas as marcas anteriores. Jamais os jogadores se haviam valorizado tanto em Alvalade. No plano financeiro, registam-se resultados positivos há cinco exercícios ininterruptos

 

Varandas acaba de ser reeleito, com todo o mérito, por números expressivos, num sufrágio pacífico. Sem insultos, sem artefactos pirotécnicos, agora sem exibições de javardice por parte daqueles que durante anos disseram o pior dele enquanto exibiam o emblema do leão na lapela. E até o tal "jornal" criado para tentar deitá-lo abaixo meteu a viola no saco, ao ponto de ainda só se ter atrevido a publicar um texto de opinião em 2026. Um texto em que podemos ler isto: «O Estádio de Alvalade hoje está mais cheio, mais seguro e mais ordeiro do que esteve durante anos.»

Seu apoiante nas etapas mais difíceis, desde a primeira hora, registo tudo isto com imenso agrado, embora sem grande surpresa. Os líderes avaliam-se pela obra. E também pelos medíocres opositores que vão gerando. Triunfo suplementar de Frederico Varandas, que superou teste após teste. Vencedor por goleada num Sporting que retomou a vocação de seguir na frente.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 16.03.26

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João André: «A Comissão Europeia terá muitos especialistas em cotas de peixe ou regulamento para queijos, mas provavelmente nunca terão tido uma única negociação para entrega de medicamentos.»

 

Paulo Sousa: «O acto de desobediência civil encerra uma vertente de desafio à autoridade, enquanto que num “quero lá saber” existe apenas um misto de apatia e de indiferença. O “quero lá saber” revela um desencontro de sintonia entre o emissor e o receptor, neste caso a autoridade e o cidadão. É como se falassem línguas diferentes, pelo que não é desobediência mas apenas desacerto.»

 

Eu: «Desde Março de 2020, estivemos cerca de seis meses submetidos a "estado de emergência" - algo inédito em Portugal fora de situações de guerra, impondo drásticas restrições aos direitos, liberdades e garantias consagrados no texto constitucional de 1976. Sempre em nome do combate à pandemia. Desde o tempo em que ninguém podia comparecer "mascarado" à sala de sessões do Parlamento por ordem expressa de Ferro Rodrigues, em que havia municípios a regar as ruas com desinfectante para afugentar o vírus e em que a directora-geral de Saúde, com manifesto receio, abria garrafas de água munida de lenços de papel nas conferência de imprensa em que comparecia a um metro da ministra, estando ambas sem máscara.»

Leituras

Pedro Correia, 15.03.26

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«Perguntem a qualquer detido, a qualquer preso político, qual tinha sido o pior tempo que tinha passado e todos dirão a mesma coisa: a solitária. Não importa como lhe chamavam - segregação administrativa, isolamento protector, disciplina individual, reeducação pessoal - o terror de ficarem sozinhas com os seus pensamentos tinha adaptado mais pessoas à vida social do que os Dez Mandamentos, o Credo dos Apóstolos e a Magna Carta juntos.»

K. C. Constantine, O Caso de Joey (1988), pp. 160-161

Ed. Caminho, Lisboa, 1990. Tradução de Ana Mafalda Telo. Colecção Caminho Policial, n.º 120

Pensamento da semana

Pedro Correia, 15.03.26

 

Quem é mesmo líder, por aptidão natural, nunca necessita de se apresentar com esse rótulo: isso é-lhe reconhecido tanto por apoiantes como por adversários. Tal como os homens sérios também não necessitam de proclamar esta evidência. Uma pessoa apenas "medianamente séria" é algo inexistente.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 15.03.26

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Paulo Sousa: «Já entendemos que isto é uma corrida de fundo, que cada dia é como mais um passo dado, e por isso estamos cada vez mais perto do fim de tudo isto. Não sabemos é quanto tempo ainda falta, nem em que estado é que lá chegaremos, nem como ficará o mundo depois deste tormento.»

 

Eu: «O melhor deste mais recente título da preciosa colecção Livros Vermelhos da Guerra & Paz acaba por ser a evocação memorialística: o laurentino [Eugénio] Lisboa recorda os dias da suave infância e adolescência na cidade natal, à beira-Índico, quando ganhou o saudável vício da leitura. Em casa e nos bancos escolares. Nasceu aí este seu amor consumado pelos livros que está longe de se esgotar: "O gosto de ler nunca mais se perde".»

Descubra as diferenças

Pedro Correia, 14.03.26

 

ANTÓNIO JOSÉ SEGURO, 8 de Fevereiro:

"Prometi lealdade e cooperação institucional com o Governo, cumprirei a minha palavra. Jamais serei um contrapoder. (...) A estabilidade política que defendo é um meio para garantir condições de governabilidade, nunca um fim para manter tudo na mesma. Terminado um ciclo de três eleições e quatro idas às urnas em apenas nove meses, abre-se um novo ciclo de três anos sem eleições nacionais. Não há desculpas. Portugal tem uma oportunidade única para que os partidos políticos, o parlamento e o Governo encontrem soluções duradouras para resolver os grandes problemas que enfrentamos."

 

LUÍS MONTENEGRO, 8 de Fevereiro:

"Ao doutor António José Seguro, Presidente eleito, garanto toda a disponibilidade para trabalharmos em prol do futuro de Portugal com espírito de convergência e cooperação, e todo o sentido de servirmos Portugal e o povo português de forma construtiva, cada um ao nível da responsabilidade que a Constituição lhe atribui. Esta cooperação, estou certo, será a nota dominante que garantirá a estabilidade política em Portugal neste período que agora abrimos de cerca de três anos e meio sem eleições nacionais."

Blogue da semana

Pedro Correia, 14.03.26

Ela merece o destaque. A Romi, que nos acompanha há muito, lendo e comentando. Também com paciência para ir cuidando do seu blogue: é visita que recomendo. Ali nos fala de tudo um pouco enquanto os dias desfilam - um livro que leu, um filme que a emocionou, uma memória que guarda para sempre. 

Fazemos parte, ela e nós, desta precária galáxia SAPO condenada à extinção já com data marcada. Para que plataforma alternativa emigrará? Por enquanto, felizmente, ainda é possível lê-la na morada habitual. Esta, a dos Desabafos - nosso blogue da semana.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 14.03.26

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José Meireles Graça: «Não é da Covid que quero falar. O bicho não tem cor discernível, não tem peso nem superfície apreciáveis, mesmo que em cima dele surfem cobardes políticos, oportunistas sortidos, pobres diabos que se deixaram tolher de medo, e cientistas estreitos transmutados em estrelas da televisão; e nem sequer é um bicho, mas fede.»

 

JPT: «Esta gente não tem pingo de vergonha.»

 

Maria Dulce Fernandes: «Nestes tempos de reclusão, a falta que faz viajar lá por fora, cá por dentro, pela imaginação, num sonho, sei lá, arejar os horizontes tão amarfanhados pelo receio e pelas proibições.»

 

Eu: «O partido-vanguarda funciona sempre como cão-guia. Quando o proletariado usa bengala.»