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Delito de Opinião

Pensamento da semana

Paulo Sousa, 17.06.21

Sendo governados por uma fauna que, regular e consistentemente, tem descredibilizado o regime, que se prepara para malbaratar em pouco tempo os milhares de milhões da bazuca, que pelas dívidas já contraídas comprometeu as escolhas das próximas gerações, que se prepara para fazer da regionalização – chumbada por referendo – mais uma prateleira para tachos destinados aos jotas e jotinhas, depois de olhar para as sondagens e sabendo que apenas pouco mais de um terço dos portugueses se recusaria a ser governado por um líder autoritário, a pergunta impõe-se:

Que destino de emigração recomendariam a um jovem que não tenha medo de trabalhar?

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 17.06.21

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José Maria Gui Pimentel: «Provavelmente [Nuno Crato] é o ministro que mais tem a perder. Vai deixar rapidamente de ser o gajo porreiro de que todos gostam, tornando-se em mais um ministro da Educação odiado. Gabo-lhe, muito sinceramente, a coragem. É uma agradável e surpreendente escolha.»

 

Luís M. Jorge: «O CDS fica com os negócios estrangeiros, essa orquídea na lapela, a lavoura e o ministério dos pobrezinhos. Paulo Macedo será o rambo da coligação — não vai ser fácil gerir os cortes na Saúde. Quanto ao PSD, varia entre o funesto (Relvas, Aguiar Branco) e o interessante (Paula Teixeira da Cruz). A escolha de Vítor Gaspar para as Finanças revela bom senso: é um homem da Europa, o que dá jeito nas horas difíceis.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Desejos de boa sorte para quem começa e para todos nós que dentro de quatro anos (assim o espero) teremos de fazer o balanço (em euros e em votos).»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 16.06.21

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Ana Lima: «Não ligo nada ao facebook. Mas até apetece criar um daqueles grupos que por lá se vêem para registar o protesto e ver o que dá. É que não sei o que se passa nas outras cidades mas, em Lisboa, depois de, nos últimos tempos, a coisa ter melhorado, voltou-se à mania de, em muitos cafés e pastelarias, a determinadas horas, limitar a hipótese de ocupação das mesas aos que querem fazer uma refeição, deixando a quem quer beber um café a alternativa do balcão. Eu disse bem: cafés e pastelarias.»

 

João Carvalho: «Como sabem, tenho sido um fã assumido do demissionário ministro Mendonça e não seria capaz de vê-lo partir, seja lá para onde for, sem lhe desejar que mande de lá saudades, que é coisa que cá não deixa.»

 

Leonor Barros: «Se por acaso apanhassem um aluno a copiar o que fariam? Eu respondo o que faria, anulava-lhe o teste e atribuía-lhe a classificação de zero valores. Nada de novo, portanto e nada que centenas de professores por esse Portugal fora não tenham feito. Acontece que nesse misterioso mundo da justiça esta atitude do mais elementar bom senso de penalizar os prevaricadores não se aplica e não se aplica porque ao que parece os candidatos à magistratura copiaram num teste e ainda lhe foi dada a benesse, pasme-se, de terem dez valores. Acresce a esta aberração estarmos perante futuros magistrados, gente que terá o futuro dos outros nas mãos mas que, a acreditar na notícia, usa uma trapaça para atingir os seus objectivos. Entregues aos bichos, é o que estamos todos.»

 

Rui Rocha: «O Moinho de Pão fica mesmo ao lado de um dos Tribunais de Braga. O seu ciclo de vida diário está alinhado pela agenda de magistrados e funcionários judiciais. Tipicamente, as mesas enchem-se até às 9h00, para um pequeno-almoço retemperador, sempre necessário depois do sono. Esse que, tratando-se de quem se trata, só poderá ter sido o dos justos. Depois, algures entre as dez e picos e as onze e tal, a sala volta  a estar completa. Os mesmos que tomaram o pequeno-almoço, saboreiam um cafezinho e, quem sabe, uma nata dessas que o forno há dias colocado junto ao balcão mantém sempre quentes.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Sei que nos últimos anos faltou muita lucidez, bom senso, inteligência e seriedade. E também sei que sobrou esperteza. Muita, como continua a ver-se. Mas esses votos não interessam neste momento para nada e agora há que seguir em frente. A não ser que se queira dar mais corda a alguns corvídeos que têm primado pela miopia e pela estupidez.»

Holandês, dos Países Baixos

Pedro Correia, 15.06.21

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Agora desatou tudo a escrever e a dizer "Países Baixos" - horrorosa expressão - para designar o que anteriormente se designava por Holanda. Duas palavras, somando 12 letras, em substituição de uma só com sete. 

A coisa foi tão célere que até o alegado "dicionário" Priberam se apressou a alterar a definição: agora Holanda não é nome de país, como sempre supusemos, mas mera "região dos Países Baixos" - além de "tecido fino de linho" e "papel espesso" (!).

Como sempre acontece, logo surgem os mais papistas que o papa: reescrevem a História normalizando pelo padrão actual tudo quanto ficou para trás. Como se lê neste texto da página oficial da UEFA, em que o Checoslováquia-Holanda, jogo de abertura do Europeu de 1976, é agora denominado "Checoslováquia-Países Baixos". Deixaram metade da cosmética retroactiva por fazer: se rebaptizaram a Holanda, deviam ter rebaptizado também a actual República Checa, mesmo quando não se designava assim, para mantar o critério.

Não tardará muito para que livros como A Holanda (1885), de Ramalho Ortigão, ou A Amante Holandesa (2003), de Rentes de Carvalho, sejam rebaptizados também, por imposição da novilíngua.

 

Não sei o que me deixa mais perplexo. Se esta mania tão contemporânea de complicar o que é simples e alterar o que vem de longe, se a repetição mecânica da novidade em piloto automático, com todos a evitarem parecer fora de moda.

Procuro no inefável Priberam se já inventaram gentílico alternativo ao tradicional holandês. Parece que não: nem rasto de "paisesbaixenses", "paisesbaixeses" ou "paisesbaixanos". Conclusão: deixou de dizer-se Holanda, mas continua a haver holandeses - e nada mais que holandeses - nos denominados Países Baixos.

Avisem-me, por favor, quando a coisa mudar de novo.

Fantastárquico

Sérgio de Almeida Correia, 15.06.21

Untitled.jpg(créditos: Mário Cruz/LUSA/Observador)

 

O processo de escolha do candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal do Porto tem todos os ingredientes para se escrever um guião de um filme de terror.

A bem dizer, há muitos anos que por aquelas bandas não surge um candidato digno desse nome saído de um processo de escolha democrático sem escolhos, guerras de paróquia, investidas pessoais e amuos de luminárias. O falecido Pedro Baptista dizia que "aquilo é irreformável", e não estava longe da razão. 

Da indicação oficial de Eduardo Pinheiro, que só resistiu vinte e quatro horas, ao nome de José Luís Carneiro, que obviamente não estava disponível para se estatelar ao comprido, passando pelo nome do agora europeu, e já duplo derrotado em anteriores eleições, Manuel Pizarro, até se chegar a Rosário Gamboa, e agora a Tiago Barbosa Ribeiro, ora dentro, ora fora, foi todo um percurso inenarrável, ao qual a direcção do partido não é alheia e de onde não sai incólume. Ainda menos o secretário-geral.

Naturalmente que qualquer que venha a ser o resultado no Porto, a culpa será de todos eles. Nunca dos portuenses que assistiram incrédulos a tudo o que se passou. E não apenas no PS, também convém dizê-lo. 

Há gente com lugar cativo que se continua a não perceber o que anda a fazer na política e nos partidos. Lamentável.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 15.06.21

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Fernando Sousa: «Vi esta foto de RC pela primeira vez em 2006. Confesso que me confundiu. Penso que isso aconteceu por ter recusado logo qualquer semelhança entre os seus olhares e os meus. Cinco anos depois, voltou a cair-me debaixo dos olhos e a dar-me que pensar. Mas agora decidi separar as águas e gostar dela, pela imensa versatilidade da velha Rolleyflex e a força do tema. É uma bela foto.»

 

João Campos: «Encontro-me neste momento a (reler) O Hobbit, de Tolkien. Reparo, uma vez mais, nos hábitos tabagistas de Bilbo, Gandalf e Thorin. À luz deste exemplo que aqui apontei há tempos, é de esperar, mais dia menos dia, uma edição revista, moderna e muito politicamente correcta na qual os longos cachimbos dos personagens são substituídos por saudáveis pastilhas elásticas, e os belos anéis de fumo que fazem trocados por grandes e inchados balões.»

 

Rui Rocha: «Já todos tínhamos percebido que o papel de Assis era o de uma lebre. Agora, ficámos a saber que se trata de uma lebre no churrasco. Sem se comprometer com uma única ideia política concreta, o António José está cada vez mais Seguro.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Saber crescer política e democraticamente é um exercício como caminhar pelas ruelas de Córdoba. Tão depressa nos perdemos como logo a seguir nos reencontramos. E retomamos o caminho que se faz caminhando. Todos os dias. Respirar tanto céu enquanto te sinto caminhar a meu lado é uma felicidade. Ou tão-só uma forma de liberdade. Um acto de amor.»

 

Eu: «Eis alguns factos, que atrapalham certas teorias. A primeira dessas teorias, que José Sócrates debitou até à exaustão, é que estávamos perante uma crise internacional que a todos afectou inapelavelmente - crise a que o Orçamento de Estado para 2011 daria a resposta adequada, como chegou a assegurar aos portugueses.»

Emoções #8

A emoção da fé

Maria Dulce Fernandes, 14.06.21

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O ye, of little faith

É a fé que nos salva, diziam na catequese.

Pode ser verdade. Não sou crente, mas acredito. Tenho fé. Sim, tenho a minha fé.

Nos chamados lugares sagrados, sempre me senti consciente da minha pequenez. Falta-me sempre o peito para tanto coração e caio amiúde num pranto que não sei explicar, apenas sei sentir.

É assim em Fátima, no Bom Jesus, em Lamego. Foi assim em Santiago de Compostela, em Lourdes ou em Roma.

Sempre defendi que somos o fruto das nossas escolhas e não acredito em  predestinação,  mas vezes há em que tudo se conjuga para que o acaso se transmute num acontecimento único.

Aconteceu tantas vezes.

Em Roma, por exemplo.

Fomos cedo para a Praça de S. Pedro. Nove da manhã ou talvez nem tanto, para evitar o mundo que se adivinhava. Trinta ou quarenta minutos depois, entrámos na basílica. Estranhámos pedirem-nos para revistar as mochilas à entrada. Já tínhamos passado por todo esse processo à chegada à praça, entre as colunas. Muita Guarda Suíça e provavelmente muitos mais à paisana. Um deles disse-nos que podíamos ficar ou sair, mas não poderíamos voltar a entrar. Decidimos ficar. Era o dia do aniversário do meu marido e tínhamos um almoço especial nos planos, mas ficámos. Simpático, deu-nos um livrinho com o programa e os cânticos. 

A missa de ordenação de novos padres começou e o Papa Francisco entrou com todo o séquito papal. Estava ali, mesmo ali, quase à distância de um braço. Chegados ao altar-mor, começaram a celebração que durou quase três horas.

Chorei grande parte do tempo. No restante, cantei os cânticos com toda a emoção que uma estranha sensação de felicidade redescoberta me permitiu.

Quando terminou e deixaram entrar a mole humana que aguardava, sentimo-nos sozinhos e sentámo-nos cá fora a chorar.

A emoção da fé envolveu-nos e embalou-nos naqueles momentos de puro fascínio.

E a praça cá fora transbordava de gente unida pela mesma fé.

Foi uma emoção extraordinária.

Custa sempre ser o último a saber

Augusto Santos Silva

Pedro Correia, 14.06.21

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Noutros tempos, o titular da pasta dos Negócios Estrangeiros era um dos homens mais bem informados do país. Este atributo vinha-lhe do exercício da própria função: a diplomacia só é bem-sucedida quando surge alicerçada em sólido conhecimento de pessoas e situações.

Como acontece com outras tradições, também esta se vem perdendo. Precisamente no mandato do actual inquilino do Palácio das Necessidades, um dos raros membros do Governo que seguramente leram Maquiavel. Dizia o sábio florentino que a boa informação é condimento indispensável para o governante prudente tomar decisões acertadas.

Augusto Ernesto dos Santos Silva, 64 anos, destaca-se no terceiro posto da hierarquia governativa, enquanto ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. A condução da diplomacia parece assentar que nem uma luva a este catedrático que enverga gravata socialista depois de se aliviar da ganga da extrema-esquerda que usou na juventude. Antes de António Costa, serviu António Guterres (ministro da Educação e da Cultura) e José Sócrates (ministro dos Assuntos Parlamentares e da Defesa Nacional). Sempre com inegável zelo, indesmentível argúcia e algum brilho retórico.

Até por isto, causou estranheza vê-lo invocar surpresa ao ser confrontado com a decisão do Executivo britânico de retirar Portugal da via verde para voos turísticos após duas semanas de foguetório pátrio enquanto víamos desembarcar forasteiros oriundos da pérfida Albion. Nós, cidadãos comuns, ficámos surpreendidos. De um ministro servido por competentes serviços de informações e experimentados funcionários no terreno, esperava-se mais.

Também soube a pouco o meio inicialmente utilizado por Santos Silva para exprimir perplexidade em nome do Governo português: a rede social Twitter, outrora o instrumento de comunicação favorito de um tal Donald Trump.

«Tomámos nota da decisão britânica de retirar Portugal da ‘lista verde’ de viagens, uma decisão cuja lógica não se alcança. Portugal continua a realizar o seu plano de desconfinamento, prudente e gradual, com regras claras para a segurança dos que aqui residem ou nos visitam», tuitou o ministro nesta reacção minimal. Quase pedindo desculpa por alegar desapontamento.

Já esta semana, comparecendo numa entrevista à TVI em óbvia estratégia de contenção de danos, partilhou com os compatriotas a sua mágoa face a Londres: «Durante as três semanas em que Portugal esteve na lista verde nunca as autoridades britânicas nos fizeram sentir qualquer preocupação que tivessem.»

Como mais antigo aliado da Grã-Bretanha, servimos de barriga de aluguer para albergar a final da Liga dos Campeões disputada entre clubes ingleses. Fornecemos estádio e bebidas. Eles vieram sem máscaras, emborcaram hectolitros de cerveja – e uma semana depois retiram-nos dos destinos autorizados invocando o aumento de contágios cá na terra. Gente ingrata.

Por estes dias, o ministro exibe uma expressão tristonha. Percebe-se porquê. Custa sempre ser o último a saber.

 

Texto publicado no semanário Novo

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 14.06.21

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Fernando Sousa: «Casa onde Salazar nasceu, no dia 28 de Abril de 1889, no Vimieiro, sala de visita de amigos e refúgio das tensões do poder. Não se entende porque não a deitam simplesmente abaixo ou arranjam de uma vez por todas. Assim, sobre estacas, a ameaçar ruína, mostra no mínimo hipocrisia - ou algo pior.»

 

Rui Rocha: «A ideia de separar as fatias de queijo com uma fina película é genial. Assim, as fatias de queijo não se colam umas às outras. Agora, só falta inventar qualquer coisa que impeça que as fatias de queijo se colem às finas películas.»

 

Eu: «Daqui a pouco o Presidente da República inicia a ronda de audiências aos partidos parlamentares sobre a formação do novo Governo, como determina a Constituição. De forma pouco auspiciosa, Cavaco Silva começa por ouvir um partido fantasma: o Partido Ecologista Os Verdes, que sempre usou o PCP como barriga de aluguer. Em quase 30 anos de existência, nunca concorreu autonomamente a eleições. O que dirão os "dirigentes" do PEV ao Presidente? Naturalmente, o mesmo que logo a seguir dirá a delegação do PCP.»

Sopa turva

José Meireles Graça, 13.06.21

Há uns anos, escrevi um texto seminal e definitivo sobre aspectos essenciais da fritura do bacalhau, nomeadamente no tocante à distinção, que até então a doutrina mal fazia, entre o frito e o fritado do precioso gadídeo. Uns anos volvidos, uma amiga querida sugeriu que o mesmo discernimento e empenho fossem empregues na dilucidação da problemática do ovo estrelado, ao que com gosto anuí.

O segundo post deixou de fora, por economia de tempo, alguns aspectos relevantes, em particular a comparação de vários tipos de ovos, diferenças regionais entre Norte e Sul, e influência deletéria que a poluição gourmet, e a cozinha autoral, têm vindo a exercer na confecção dos géneros em geral, incluindo portanto o ubíquo ovo na sua preparação mais comum.

Proponho-me hoje, com o habitual desprendimento e apenas com a pretensão de abrir caminho para a elaboração de estudos mais aprofundados sobre esta matéria tão rica de implicações, deitar uns olhos inquisitivos e meditativos sobre a sopa.

A razão é que, a pretexto de ir jantar a Lisboa com pessoas de representação, fiquei por lá uns dias. E hoje, como estivesse com falta de apetite ao almoço, fiquei-me por uma sopa de feijão verde (é assim que a sopa de vagens é designada no dialecto local).

Toda a minha vida as refeições começaram com sopa ou caldo, de inúmeras variedades, com excepção de paleio, um género que nem por ser abundante, largamente consumido e sem contraindicações para a saúde, faz pratos aceitáveis para cristãos tementes a Deus.

Estabeleçamos desde já a diferença entre sopa e caldo: quem for procurar vai descobrir que os soi-disant entendidos dizem que o segundo é um concentrado e por isso pode servir de base para a primeira; e, se forem nutricionistas, aproveitam para pendurar uma série de elogios na sopa, e reservas ao caldo porque falta isto e aquilo.

Tretas: sopa é o que assim é considerado pela tradição local; e caldo também. De modo que eu como sopa de nabos, num prato bem fundo, e um primo que nasceu a 50 km chama-lhe caldo de nabos e faz muito bem; e, do lado de lá da fronteira, fazem um caldo galego que não é muito diferente da nossa sopa de cozido. Quem quiser transtornar o assunto pode aliás ir ao francês e apurar a distinção entre soupe, potage, bouillon e consommé, com a garantia de escaldar, não a língua, mas a cabeça.

E então, a tal sopa, estava boa? Não, não estava: era na realidade um caldo de batata com umas rodelas de cenoura e uns talos de vagens. Se fosse caldo verde, em vez dos talos tinha uns fiapos de couve galega segada; e se fosse sopa de beldroegas, ou de olhos (olhos de couve, entenda-se), ou de couve branca, ou doutro vegetal qualquer, teria uns tímidos vestígios da espécie à qual pilhasse o nome.

Sucede que as boas sopas não são nem caras nem excessivamente difíceis de cozinhar, e portanto cabe perguntar por que razão os restaurantes não as fazem, nem têm variedade na oferta. O motivo é que o cliente típico não as pede, e a que têm na ementa é mais para o velho ocasional, ou a criança, ou o tipo que tem a dentadura num oito. Para o cliente ordinário não, que esse não sai de casa para comer uma sopa, credo.

Pois não. É que, além do mais, é uma coisa muito nossa, típica de um país pobre em que gerações sucessivas tiveram de se alimentar com o que tinham à mão, e pôr-lhe água para enganar a fome, e aquecê-la para matar o frio.

Coisa pobreta e antiga, portanto – nada a ver com a União Europeia, e o TGV, e as estrelas Michelin, e o PS costista, e os gostos das hordas de motoristas de táxi que, em matéria de typical, se ficam pelas sardinhas, que não os escaldam se as deixarem cair em cima das alpergatas, e pelo peixe e marisco, que é muito mais barato do que o que encontram nas terras brumosas de onde provêm, e é além disso cozinhado com sal porque as autoridades de saúde, para já, só impuseram o seu ponto de vista fascista nas padarias.

Mesmo em casa, pergunto-me se essa geração do Uber Eats, e do takeaway, se dá ao trabalho de fazer a sopa dos seus pais e avós – talvez ache que é uma coisa ultrapassada.

É como as contas sãs, a ética da pessoa de bem, o espírito de missão e outras obsolescências caídas em desuso – não desapareceram, apenas estão em stand-by.

O quê, o PS misturado com esta temática? Isso não será forçar a nota? Não, nem por sombras: ele também há a sopa turva, e dessa, realmente, ainda comemos todos os dias.

Leituras

Pedro Correia, 13.06.21

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«Sou francamente pessimista na minha perspectiva da vida, que é feita sobretudo de sofrimento e do medo da morte, e parece-me que um homem que consiga viver um dia inteiro sem sentir sofrimento físico deveria considerar-se absolutamente feliz.»

Czeslaw Milosz, A Minha Intenção (1959-1998), p. 51

Ed. Cavalo de Ferro, 2019

Euro-2021, não Euro-2020

Pedro Correia, 13.06.21

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Até 11 de Julho, irei acompanhar o Europeu de Futebol na medida do possível. Como fiz aqui em 2016. Está documentado.

Euro-2021, para mim. Chamar-lhe Euro-2020 é fake news, como dizia o outro na sua linguagem rudimentar.

Em 2020 estávamos encerrados, devido à pandemia: foi adiado o Europeu, foram adiados os Jogos Olímpicos. Não contem comigo para alimentar aldrabices ou reescrever a história.

O comentário da semana

Pedro Correia, 13.06.21

«Anteontem a minha filha mais nova apareceu com febre. Para não ficar doente e sozinha em Lisboa (o irmão tem que trabalhar) fez um teste rápido que deu negativo e pediu-me para a ir buscar (vivo numa quinta a 75 km de Lisboa). No caminho parámos no Centro de Saúde onde conseguiu uma consulta de urgência por causa da baixa mas a médica mandou-a fazer um teste PCR. Como tinha um casamento amanhã e hoje era feriado não havia laboratórios disponíveis e lá fomos à CUF de Santarém. Esta manhã veio o resultado: positivo.

Ainda tive esperança que fosse um falso positivo, frequente nos testes PCR com ciclos altos mas dois outros amigos que estiveram com ela noutro casamento no sábado passado informaram que também estavam infectados.

Como o irmão tinha vindo passar o feriado connosco - tranquilizado pelo teste rápido negativo - agora estamos os quatro na trampa. A minha mulher foi vacinada há dias (ainda não pode estar imunizada) eu vou (ia?) receber a segunda dose daqui a uma semana, o meu filho ainda não está agendado e tem trabalho com prazos. Eu e a minha mulher fazemos anos para a semana e lá se foi o programa. Para complicar estamos a meio de uma remodelação com duas pessoas a trabalhar mais uma mulher-a-dias imprescindível pela porcaria feita nas obras.

Pouco tem a ver com o postal. Nem festejos futebolísticos nem noitadas de copos mas a base é semelhante: gente nova saturada a conviver em casamentos que estiveram adiados. E lá aumentam os números de Lisboa e Vale do Tejo.»

 

Do nosso leitor Francisco Almeida. A propósito deste meu texto.