Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

Viagem à Venezuela - III

Paulo Sousa, 14.01.26

Mais de duas horas depois e após algumas paragens nos cais palafíticos que serviam as povoações ribeirinhas, abandonamos o canal principal do rio e subimos um afluente de menor largura. A escolha por passagens cada vez mais estreitas foi-se sucedendo até que praticamente se deixou de ver o céu sem que fosse cruzado pela vegetação. O sentimento de estar num labirinto era total e fez-me lembrar do início de “A Selva” de Ferreira de Castro.

IMG_0617.JPG

DSCN0654.JPG

DSCN0599.JPG

A vida selvagem nunca se inibe. Os estranhos ali somos nós.

DSCN0704.JPG

O ambiente era mesmo o que se pode imaginar como floresta chuvosa tropical. Sempre que imagino ou oiço falar de uma selva chuvosa, recordo-me daqueles dias no delta do Orinoco.

O lodge era composto por um grupo de cabines individuais à beira da água, assentes em estacas que as deixavam a seco mesmo com a subida do nível das águas. Tudo construído com materiais da selva e até a cobertura era feita de vegetação. A circulação entre a casa principal, onde eram servidas as refeições e estava o gerador que permitia iluminar todo o conjunto de cabine, fazia-se sobre um passadiço madeira assente sobre estacas. Imagino que apesar da distância até à foz ainda ser de umas boas dezenas de quilómetros, a subida e descida da água resultasse dos efeitos das marés.

IMG_0612.JPG

orinoco 3.png

orinoco 4.png

Outra coisa que está sempre presente são os ruídos da natureza. O que sobressai são os pássaros, mas também os insectos e os macacos, os monos que durante a noite gritam a plenos pulmões e que, juntamente com o calor e a humidade, complicam a necessidade de descansar.

O gerador desligava-se cedo e com ele a iluminação eléctrica. Ouvir os sons da natureza durante tanta hora acabou por se tornar cansativo.

A cama tinha uma rede anti-mosquito que, mais tarde quando me deitei, me fez a sorrir ao ouvir tantas melgas e mosquitos. A alegria foi curta e terminou quando entendi que a rede estava tão rota e com buracos tão grandes que me fizeram sentir ser o banquete de uma festa de casamento. Com conhecimento de causa, posso garantir que é muito melhor estar à mesa do que na ementa.

DSCN0512.JPG

DSCN0515.JPG

A comida dos três dias que se seguiram andou sempre à volta de peixe do rio frito, principalmente piranha, cujo sabor recomendo vivamente. É um peixe muito branco e pouco gordo, que não fosse pelo tamanho podia ser palmeta.

Os filhos do guia viviam por ali e eram eles que tratavam da pescaria. Uma ponta de um pau, dois ou três metros de fio de nylon, um anzol e um pedaço de carne eram o suficiente para abastecer a cozinha. Tentei a minha sorte, mas acabava sempre por ficar sem isco. Tal como durante a noite, descobri que eu tinha jeito mas era para alimentar a bicharada.

DSCN0722.JPG

IMG_0649.JPG

piranha 1.png

piranha 2.png

continua

Ele quer ser presidente dos empreiteiros

Pedro Correia, 14.01.26

Humberto.jpg

 

Tal como 99,9% dos meus compatriotas, até há poucos dias nunca tinha ouvido falar num tal Humberto Correia (não é meu parente, garanto, apesar do apelido). Fiquei a saber que se candidata a Presidente da República ao vê-lo participar no único debate que juntou os 11 concorrentes admitidos pelo Tribunal Constitucional, realizado na RTP em Dia de Reis (irónica data). 

Quem é este Humberto pouco delgado? Fiquei a saber o mesmo. Tão desconhecido era, tão desconhecido ficou após mais de duas horas em antena. Em vez de aproveitar o generoso tempo disponível para se apresentar aos eleitores, dizendo pelo menos o que faz na vida, desatou a desbobinar baboseiras próprias de quem ignora em absoluto quais são os poderes concretos do Chefe do Estado.

Anotei este dislate: «Se eu for eleito, o Governo, seja qual for a sua cor política, terá de construir 100 mil habitações sociais por ano. É preciso construir habitações de 30m2 que serão alugadas a 90 euros por mês. E de 50m2 que serão alugadas a 150 euros por mês. A nossa missão é resolver o problema de habitação de todos os portugueses.»

Ele quer, pode e manda - em sonhos. Confundindo chefia do Estado com poder executivo: como se bastasse carregar num botão para obrar resultados, fazendo as casas medrar como cogumelos.

O senhor anda visivelmente equivocado: queria candidatar-se não a Presidente da República, mas a presidente da Associação de Empreiteiros. Alguém tenha a caridade de lhe dizer que surgiu como figurante na fita errada.

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 14.01.26

21523202_SMAuI.jpeg

 

Paulo Sousa: «Desde a primeira contaminação Covid da família, até ao momento actual, nada teria sido possível sem um profundo sentido de humanidade, com especial destaque para os profissionais médicos envolvidos. Não que duvidássemos do sentido de missão e de devoção pelo outro que move, e durante uma pandemia mais do que nunca, um exército de devotados servidores da medicina, mas se há histórias que merecem ser celebradas, esta é uma delas.»

 

Pedro Belo Moraes: «Admirador dos Estados Unidos da América que sou, a Trump não lhe perdoo tê-los tornado pequenos no Mundo. O nacionalismo bacoco, o isolacionismo estéril, a rejeição do multilateralismo criaram mais desordem e incerteza no globo.»

 

Teresa Ribeiro: «Percebo o transtorno que representa ter os sub-12 em casa. Mas e os outros? A população adolescente e pré-universitária, que obviamente é a que mais assume comportamentos de risco, andará por aí à solta enquanto os pais se confinam. E confinam-se então para quê? Só se for para entubar a economia, antes que a liguem às máquinas, pois que em termos sanitários não vamos sentir grande diferença, pois não?»

 

Eu: «Há sete candidatos, com uma média de idades de 50,5 anos (o mais velho tem 72 anos, o mais novo festeja amanhã o 38.º aniversário). Até agora, não ouvi uma palavra de qualquer deles sobre a deserção dos jovens. Apesar de poucos temas terem a gravidade que este tem.»

O fim dos blogs SAPO

jpt, 13.01.26

Blog – Boarische Wikipedia

Ontem a SAPO, plataforma que nos acolhe, anunciou aqui que irá descontinuar a sua secção blogal, activa desde 2003. Avisa que a partir do próximo 30 de Junho será impossível a publicação nos blogs ou o seu manuseamento. E que todos serão apagados em 30 de Novembro. Ou seja, terão os bloguistas nisso interessados de exportar os seus conteúdos arquivados para uma outra plataforma digital. 

O encerramento desta secção fundamenta-se no descrescente "apelo e utilidade" dos blogs face à disseminação de plurais redes sociais - as quais têm, como é consabido, uma dinâmica mais célere de publicação e de "leituras" (de facto, de visualizações). Não tenho dados estatísticos sobre isso - não sei quantos blogs activos estão na plataforma nem qual é a sua audiência global. Mas nada me custa a acreditar nisso - mesmo se este Delito de Opinião continue, anos a fio, a ter uma grande audiência, compatível com as dos grandes blogs da "Idade de Ouro" da blogosfera (quando havia um fiável "sitemeter" quase omnipresente na rede blogal portuguesa).

Este final não é totalmente surpreendente. Algumas medidas deixavam a ideia da desconsideração da SAPO pela actividade dos blogs. Até há cerca de dois ou três anos o Portal SAPO tinha uma secção de destaques de postais de blog colocada a cerca de metade da sua página inicial geral: cada postal ali colocado recebia largos milhares de visitantes. Depois essa secção passou para o sopé dessa página, implicando uma grande redução do afluxo de visitas aos "destaques", ainda assim usualmente superior ao milhar. E há alguns meses mesmo esse singelo rodapé blogal foi eliminado. Trata-se assim de uma "morte anunciada".

A decisão é empresarial (a plataforma SAPO pertence à MEO) e não questiono a justeza económica do encerramento da publicação de blogs. Lamento-a, claro. Acima de tudo porque este término esgarçará uma real comunidade de leitores. E, pessoalmente, pois nesta SAPO há muito que venho escrevendo neste Delito de Opinião, e antes também no muito lido sportinguista És a Nossa Fé. E para a SAPO exportei há muitos anos o meu blog ma-schamba (activo entre 2003 e 2015) e alojei o Nenhures (até Maio de 2025) - para o qual ia paulatinamente transferindo anteriores postais do meu "O Flávio"  e do anterior colectivo "Courelas", que haviam sido publicados no sistema wordpress. Nessa congregação procurando evitar que os textos - independentemente de serem minudências - se viessem a volatizar no "éter" digital.

E lamento também porque se me aparenta ser ela extemporânea. Pois julgo haver agora um relativo ressurgimento destes espaços mais plácidos, de escrita com menor frenesim típico das "redes sociais". Em Portugal vai-se disseminando a utilização da plataforma Substack - como o comprova esta lista já bem composta de páginas ("substacks" no jargão) portuguesas, elaborada no "Diga-se de Passagem" de João Lameira. Foi nessa Substack  que criei em Abril passado o meu blog "O Pimentel" - e como referi neste postal em poucos meses ali colhi nove vezes mais subscritores do que em mais de uma década na SAPO e os postais têm cerca de 3 ou 4 vezes mais leitores do que no meu anterior Nenhures, aqui alojado. O que acontece é que a Substack é uma plataforma um pouco mais desenvolvida mas muito manuseável, com múltiplas formas de publicação e potenciando as interacções. Enquanto esta SAPO cristalizou nas técnicas, não procurando uma verdadeira "evolução na continuidade" (para glosar uma expressão intentada em 2014). E assim reforçando o  progressivo abandono, de autores e de leitores.

[ADENDA: Nem de propósito!: horas depois de publicar este postal descubro que José Pacheco Pereira - que na primeira década do século teve o "Abrupto", durante longos anos o blog português mais lido, acaba de abrir o seu local na Substack (publicando em inglês) -, o que demonstrará o actual crescimento, o "apelo" para falar como a SAPO, desta plataforma.]

Enfim, reconheço a legitimidade da empresa encerrar o serviço gratuito de produção de blogs. Mas penso diferente quanto à anunciada "solução final", a do posterior apagamento dos arquivos alojados. A questão ultrapassa a mera consideração de custos: a empresa disponibilizou um serviço gratuito, com isso terá lucrado. E agora deita tudo fora.

A matéria dos arquivos de blogs sempre me ocorreu: em 12.4.2004 escrevi o postal "Arquivos Bloguísticos": "Não sei se isto do bloguismo é uma moda mais ou menos breve ou se é um meio de comunicação que veio para ficar, ainda que com progressivas transformações. Mas quando leio existirem milhares de blogs em Portugal (para lá dos milhões mundiais que o Technorati traça) não posso deixar de me surpreender com a sua dimensão... Assim sendo gostaria de saber como está a ser feito o arquivo de tudo isto, deste fenómeno relativamente importante do princípio do século e que virá a dizer algo sobre a sociedade de agora. Há uma política de arquivo bloguístico? Tem a instituição central de arquivos ("Torre do Tombo") uma política, uma lei e um instrumento de arquivo - o qual presumo que só poderá ser robótico? Ou ainda não se pensou no assunto?..."

Voltei ao assunto algumas outras vezes, como neste postal com o mesmo título "Arquivos Bloguísticos" (7.1.2008): "Ao longo dos anos alguns bloguistas vêm falando da necessidade de uma política de arquivo bloguístico - p. ex. no Adufe [que era do Rui Cerdeira Branco, com quem vim a blogar no És a Nossa Fé] desde 2004. E lembro que então também no Último Reduto e no Memória Virtual [que era de Leonel Vicente] se discutiu o assunto [sendo sintomático que todos esses blogs, como tantos outros, foram apagados quando o sistema weblog.com.pt que agregou grande parte da blogosfera portuguesa foi encerrado.] Que me lembre Pacheco Pereira fá-lo também desde 2004, voz avisada na matéria sublinhada pela sua notoriedade. Este seu "Documentos para uma Década Triste" vem retomar a questão, dando-lhe um âmbito ainda mais vastoInterrogo-me sobre o que pensarão as instituições do Estado português às quais caberia actuar. É que os anos vão passando ..."

Em suma, para uma futura análise historiográfica do primeiro quartel de XXI português (da sua "cultura popular", se se quiser), a produção bloguística será muito importante, permitindo um corte interessantíssimo, pois muito específico, na vox populi. Sobre vários assuntos, oriunda de vários segmentos. Mas o Estado português dormiu na forma, descurou a sua preservação - ainda que tendo sido várias vezes avisado sobre o assunto. E agora a MEO, uma grande empresa local, ribomba que irá deitar para o lixo os "papéis velhos", na incultura de considerar desnecessário o "arquivo morto". Pois muito se perderá nesta convocatória a que os remanescentes acorram a recolher e republicar o ... passado. Como aconteceu nas "desinfestações" anteriores. 

De dilação em dilação até à prescrição final

João Sousa, 13.01.26


[foto: Miguel A. Lopes - Lusa]

José Preto deixa de ser advogado de Sócrates.

Quando soube da rabulazinha de renúncia de Pedro Delille, recordo-me de pensar que estaríamos no início de uma nova técnica dilatória. Não fui, claro, só eu a pensá-lo. A própria juíza presidente do colectivo, no despacho em que concedeu 20 dias para Sócrates nomear outro advogado, alertou:

«Em tese, a interrupção da audiência de julgamento permite que, no futuro, o Mandatário constituído no processo possa novamente renunciar, e assim sucessivamente, com outros mandatários, produzindo um efeito dilatório intolerável para a boa administração da justiça que cabe aos Tribunais assegurar, com valor constitucional, porquanto é garante do estado de Direito democrático».

Em menos de dois meses, já tivemos: José Preto ser o novo advogado de Sócrates; José Preto ser internado no Santa Maria com uma pneumonia, ter alta ao fim de doze dias e ir para casa "cozer" uma virose contraída durante o internamento; Inês Louro, advogada oficiosa nomeada para acompanhar Sócrates durante a ausência do seu advogado, recusar-se invocando "objecção de consciência" por ser militante do Chega e antiga militante do PS; Ana Velho, segunda advogada oficiosa, pedir dispensa devido à "dimensão e complexidade do processo"; José Preto deixar de ser advogado de Sócrates. Seguramente que não fui exaustivo.

E agora, o que se segue? Agora, aproveitando acasos e fazendo encenações, receio que será, nas palavras da juíza: "... e assim sucessivamente".

O comentário da semana

Pedro Correia, 13.01.26

images.jpg

«O Delito é como a pastelaria do meu bairro. Aqui entro todos os dias, e é muito bom ter por certo que vou encontrar pessoas com quem gosto de passar um bocadinho. Há dias muito bons, há outros mais banais, assim é a vida, mas é sempre um gosto encontrar gente variada que expressa as suas opiniões, das quais podemos divergir, ou os seus interesses, que podem ou não não ser os nossos. O Delito enriquece o meu dia, por isso, a todos os que o fazem, quero manifestar o meu reconhecimento, com uma menção especial para o Pedro Correia, a alma da casa. Que venham muito anos deste blog e que sempre continuem seus delitos saudáveis.

Delito amável, muito obrigada.»

 

Da nossa leitora Margarida Palma. A propósito deste meu texto.

Cotrim: um autogolo e o recurso ao VAR

jpt, 13.01.26

Viagem à Venezuela - II

Paulo Sousa, 13.01.26

O ponto de acesso ao Orinoco é a Ciudad Guayana, onde cheguei num voo doméstico de cerca de uma hora. Por um motivo técnicos, quando estávamos a poucos minutos do destino e já avistávamos a imensidão da barragem de Guri, o avião teve de regressar ao aeroporto de partida. Aterrou, foi reparado e na segunda tentativa tudo correu pelo melhor.

Em conversa com o vizinho do assento do avião que me calhou nesse segundo voo, soube que a capacidade hidroeléctrica daquela barragem fazia dela a segunda maior da América do Sul. Imediatamente ao seu lado, existia uma fábrica com oito fornos para a fundição de alumínio. Este é um tipo de industria que consome muita energia e por isso aquele era um sítio privilegiado e que lhe permitiria exportar muitas toneladas deste metal. Disse-me que depois de a economia ter sido nacionalizada, os melhores técnicos tinham abandonado o país, o que juntamente com a falta de manutenção, fazia com que apenas um dos fornos estivesse em funcionamento.

IMG_0610.JPG

Vista aérea da fábrica

Chegado ao aeroporto, esperava-me um condutor que me iria levar até à selva. Seguiram-se algumas horas de carro a atravessar imensas planícies onde se criava gado. Segundo o condutor, era um negócio que nesse tempo pouco ia para além da subsistência dos seus proprietários.

Uma coisa que nunca falhou em toda a viagem, foram as inúmeras pinturas patrióticas e alusiva aos seus excelsos líderes, Bolivar, Chaves e Maduro.

chaves 1.png

chaves 2.png

chaves 3.png

chaves 4.png

chaves 5.png

Finalmente cheguei ao porto de rio, perto de Tucupita, e pude sentar-me na pequena embarcação de madeira que me levou até ao ecolodge Orinoco Queen.

A viagem rio abaixo, demorou mais de um par de horas. Quando estava em deslocação deixei de ouvir fosse o que fosse, uma vez que o motor de dois tempos que tocava o barco era ensurdecedor.

orinoco.png

Nas paragens que foram acontecendo ao longo das povoações por onde íamos passando, ouviam-se os outros barcos, rio abaixo e rio acima, desde grande distância. Nos cais em madeira descarregava-se materiais vários, sendo que o mais vulgar eram jarricans de gasolina. Bem baratos por sinal. Um de quarenta litros custava menos que uma garrafa de água.

DSCN0498.JPG

orinoco 5.png

Ainda antes de ter embarcado e a rede de telemóvel já tinha ficado para trás. Quando me lembrei de enviar uma última mensagem antes de passar vários dias dentro da selva, já era tarde de mais. O Orinoco é um bom sítio para fazer um desmame de telemóvel.

Pouco tempo depois de zarparmos começou a chover. Àquela velocidade os grossos pingos tropicais, além de nos poderem encharcar muito rapidamente, faziam doer. A chuva passou a aparecer várias vezes por dia. Mais ou menos intensa, mais ou menos duradoura, mas o calor fazia que depois desta terminar, tudo secasse muito rapidamente. No barco o resguardo era uma grossa cobertura de plástico tipo estufa. Nessa viagem partilhei-a com o outro passageiro, um índio Guarau que tinha ido às compras. Abrigado, fiquei impedido de apreciar a vista. O barqueiro tapou-se também, deixando apenas uma parte do rosto de fora para poder continuar a governar o barco.

DSCN0503.JPG

A velocidade foi sempre a máxima que o motor conseguiu imprimir, mas sempre que se avistava um barco no sentido contrário, o condutor desacelerava para conseguir vencer a onda provocada pelo rasto do outro, sem nunca arriscar que virássemos.

chaves 6.png

E o gajo aparecia mesmo em todo o lado

Continua

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 13.01.26

21523202_SMAuI.jpeg

 

José Meireles Graça: «Em Ventura não posso votar. O principal problema do país não são os ciganos, nem a imaginária excessiva brandura do Código Penal, nem a suposta falta de poderes das polícias (pelo contrário: a ideia de que, para fazer cumprir a lei, são necessários atropelos a direitos individuais é uma chantagem típica de direitistas raivosos e acéfalos – para esse peditório não dou). O problema sério é a economia, e dentro desta o conjunto de razões pelas quais o país não cresce. E, sobre isso, Ventura debita truísmos pouco convincentes.»

Como conseguiram?

Pedro Correia, 12.01.26

jogogalo.jpeg

 

«Aquele que no dia da eleição ou no anterior fizer propaganda eleitoral por qualquer meio será punido com prisão até seis meses.»

Lei Eleitoral, art. 141.º

 

Quase 220 mil portugueses terão ontem votado por antecipação, cumprindo o seu direito cívico. Enquanto a campanha eleitoral decorre ainda. Com propaganda política por todo o lado, tornando ainda mais ridículo o disposto no anacrónico artigo 141.º da Lei Eleitoral que permanece em vigor.

Só pergunto: como conseguiram tal proeza sem necessidade de um "dia de reflexão"?

Um ano com D. Dinis (71)

O neto chamado Dinis

Cristina Torrão, 12.01.26
 

D. Dinis teve um neto com o seu nome, nascido a 12 de Janeiro de 1317.

Porém, as desavenças entre o rei e o seu herdeiro Afonso, que desembocariam numa guerra civil, eram já graves. D. Dinis parece ter tido muita esperança neste neto, que foi jurado como herdeiro do trono pelos concelhos do reino com apenas cinco meses. 

A 14 de Junho, Dinis deu mais uma vez azo à euforia que lhe provocara o nascimento do neto, ao exigir que os concelhos do reino jurassem o pequeno como herdeiro do trono. Uma atitude que, porém, caiu mal ao filho Afonso. A criança, de apenas cinco meses, não carecia de legitimidade, nem tão-pouco faltava ao reino um príncipe herdeiro adulto. Porque dava o soberano um sinal claro em relação ao neto, em vez de o fazer com o filho?*

O pequeno infante Dinis morreria com cerca de um ano de idade, cumprindo o mesmo destino de um seu irmão, chamado Afonso, nascido em 1315.

Em Estremoz, Dinis recebeu a notícia da morte do neto, nas vésperas do primeiro aniversário do pequeno. Na sua desolação, a família real convencia-se de que Deus, por algum motivo, a castigava. Seria pelos diferendos entre os seus membros? O certo é que nem Isabel encontrava resposta para tanta calamidade e, em Fevereiro, Dinis resolveu ir em peregrinação a Santiago de Compostela.

Embora acompanhado de grande comitiva, incluindo os seus cavalos, o monarca andava muito a pé. Os prelados aconselhavam-no a assim fazer, pelo menos, metade do caminho.

(…)

O rei rezou longamente junto ao túmulo do apóstolo (...) Suplicou paz para o reino… E um herdeiro para o filho! Porque já lhe levara Deus dois netos legítimos, não consentindo inclusive que o sucessor de Afonso tivesse o seu nome?*

Dos sete filhos do futuro D. Afonso IV, apenas três atingiram a idade adulta: duas filhas, Maria e Leonor, e um filho, futuro rei D. Pedro I, nascido a 8 de Abril de 1319.

 

Pedro I.jpg

D. Pedro I, neto de D. Dinis 

 

* Excertos do meu romance Dom Dinis, a quem chamaram o Lavrador.

Viagem à Venezuela - I

Paulo Sousa, 12.01.26

Há cerca de dez anos estive na Venezuela. Além de Caracas, visitei também a região do Orinoco, cuja bacia hidrográfica tem cerca de um milhão de quilómetros quadrados o que equivale aproximadamente a dez vezes a área terrestre de Portugal. Não é uma região muito falada, pois quando o assunto toca a florestas tropicais sul-americanas, todas as atenções recaem sobre o Amazonas.

Como é normal em todos os destinos, logo à chegada importa arranjar moeda local. Devido à impossibilidade de levantar dinheiro com cartões internacionais, a única hipótese era, e continua a ser, levar dinheiro vivo para trocar por bolivares. Já não me recordo em detalhe, mas o cambio oficial era cerca de dez vezes mais desfavorável do que o das ruas, pelo que escolhi o não oficial. O tipo com quem falei levou-me a outro e poucos minutos depois já estava sentado no banco traseiro de um carro estacionado no parque em frente ao aeroporto. O dealer dos câmbios disse também ser português da Madeira, embora o sotaque não o permitisse distinguir dos locais. Em troca de uma nota de cem euros entregou-me um tijolo de notas locais que mal conseguia segurar numa só mão. Há quem tenha as mãos maiores do que as minhas, por isso para ser mais rigoroso, e olhando para uma régua de escritório, era um volume com cerca de quinze centímetros de altura. Arqueei as sobrancelhas e coloquei aquela enorme quantidade de papel dentro da mochila. Quando já me preparava para sair, olhei para o banco da frente e vi um outro bloco de igual dimensão à minha espera. Cada calhamaço daqueles equivalia afinal a uma nota de cinquenta das nossas. Lembrei-me das aulas de iniciação à economia, onde a inflação era apenas mais um conceito a memorizar. O que acabara de ali assistir era a mais eficaz das visitas de estudo sobre aquela matéria.

Já abonado com papel-moeda, segui de táxi até ao Hotel Pestana. A viagem desde o aeroporto obriga à travessia da montanha que separa Caracas da costa. Além dos infindáveis cartazes evocativos da pátria, de Simón Bolivar e Hugo Chávez, vi este mural com um palavra que associava muito mais a Espanha que à Venezuela: “Juntos PODEMOS!”. Com o passar dos anos, através de notícias posteriores, concluí que aquela referência não era casual nem inocente.

podemos.png

podemos 2.png

Com a aproximação da metrópole começaram a surgir as muito coloridas favelas caraquenhas, onde vive a maior parte da população.

DSCN1209.JPG

Já dentro da malha da cidade, o condutor apontou para algumas da inúmeras filas, las colas, à frente das padarias. O quotidiano dos venezuelanos era, e continua a ser, assim. Horas e horas em filas para o pão. Achei que deveriam passar a chamar ao Presidente, Nicodelascolas Maduro. O taxista concordou, mas a moda não deve ter pegado. Foi uma pena porque lhe assentava bem. 

E assim chegámos ao Hotel Pestana, que à entrada exibe uma brilhante placa metálica evocativa da sua inauguração.

pestana.JPEG

Em conversa com o recepcionista disse-lhe que registava o detalhe de não terem designado o Sr. José Sócrates por engenheiro, mas ele não entendeu o alcance da conversa e encolheu os ombros. Disse-lhe também que a referida figura estava nesses dias encerrado na cela 44 do Estabelecimento Prisional de Évora. Riu-se e respondeu: Es un político... ¿qué esperabas? Senti o impulso de responder que a Europa não é a América Latina, mas a negação do meu argumento tinha sido o princípio da conversa.

Soube que mais tarde passaram a aceitar pagamentos em dólares, mas nessa altura era proibido aceitar pagamentos em moeda estrangeira, e por isso comecei logo a aliviar-me dos blocos de notas que me derreavam as costas. Mais tarde, para outros pagamentos, e depois de esbanjados os primeiros quilos de notas, foi o próprio recepcionista que, perante uma nota europeia cor de laranja, telefonou a alguém informando quantos euros é que eram para trocar. Em pouco mais de um minuto chegou alguém de mota, e o recepcionista disse-me para ir ter com ele para trocar o dinheiro. Observada e avaliada a nota que tinha, entregou-me outro grosso bloco de papel, que simplesmente me limitei a transportar até à recepção. E se cumpria a lei de defesa da economia da República Bolivariana da Venezuela, nem as padarias fazem vida sem uma ou duas máquina de contar notas.

IMG_0596.JPG

Se me lembro do propósito desta foto, todos estes índios juntos (há tribos menos populosas) equivalia a cinco euros.

Um indicador do nível do hotel ou da riqueza do país, é a variedade das opções do pequeno-almoço. Um hotel fraco, num país rico, a escolha é curta. Tal e qual como um hotel bom, num pais pobre, mas o que ali encontrei foi mais um indicador da carestia do país. Não quero maçar o leitor com demasiados detalhes, mas nunca tinha visto um tabuleiro dos queijos fatiados, preenchido com fatias quadradas de queijo afastadas umas das outras à distancia das respectivas.

Continua

DELITO há cinco anos

Pedro Correia, 12.01.26

21523202_SMAuI.jpeg

 

José Meireles Graça: «Reforçar a votação em Marcelo serve para reforçar a sua majestade vácua, e para mais coisa nenhuma.»

 

Paulo Sousa: «Eu vi as imagens, e de facto o nosso PR estava irritado. Bem sabemos do seu talento em representar o típico gajo tuga. Cheguei mesmo a pensar que, num excesso de inspiração teatral, lhe ia sair uma daquelas clássicas: “Isto só neste país, pá!”. Mas não. Lá se conteve.»

 

Eu: «Estas presidenciais pós-natalícias têm vindo a transformar-se num nítido nulo, totalmente dominadas pela pandemia em curso. Os protagonistas políticos cederam palco aos virologistas. Existe apenas um vago ruído de fundo nos fugazes intervalos da monotícia Covid. A democracia segue dentro de momentos.»

Salazar e a proposta dos EUA de pagar pelas colónias.

Luís Menezes Leitão, 11.01.26

salazar.jpeg

A estratégia dos EUA de quererem pagar a países europeus para que estes deixem de controlar territórios no exterior já tinha sido tentada em relação às colónias portuguesas na presidência de Kennedy. Em 1963 Kennedy pediu ao embaixador americano Charles Elbrick que arranjasse um encontro entre o subsecretário George Ball e Salazar. Elbrick arranja o encontro e Ball transmite a Salazar que os EUA tinham passado a defender a independência de Angola e que por isso os portugueses teriam que abandonar esse território. Em contrapartida os EUA compensariam Portugal de todos os prejuízos que este sofresse com a perda de Angola.

Salazar ouve atentamente essa proposta sem fazer qualquer comentário. No final da exposição limita-se a perguntar:

— Mais alguma coisa?

— Não, responde Ball.

— Então muito obrigado. Muitos cumprimentos ao Presidente Kennedy. Passe bem, Senhor Embaixador.

Depois de saírem do gabinete, Elbrick vira-se para Ball e diz-lhe:

— É a última vez que vamos ouvir falar deste assunto.