Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A modéstia e o mérito

por Pedro Correia, em 24.09.20

 

“A modéstia está para o mérito tal como as sombras estão para as figuras num quadro: dá-lhe força e relevo.” Frase de Charles de Gaulle, pronunciada no funeral nacional do seu antecessor no Palácio do Eliseu, René Coty, em Novembro de 1962. Nada mais certo.

O regresso da ideologia

por Paulo Sousa, em 24.09.20

A chegada da IL ao hemiciclo permitiu o regresso do saudável e saudoso debate ideológico ao espaço público.

Durante demasiado tempo, sempre que dois políticos se encontravam à frente das câmaras de uma televisão discutiam apenas a espuma do dia. Fora disso, o melhor que conseguiam era garantir que conseguiriam vedar as sempre incontinentes contas públicas, o que nunca foi mais de que uma redonda mentira.

Como já foi aqui referido pelo nosso colega José Meireles Graça, há poucos dias na SIC Notícias debateu-se a proposta da IL para a adopção de uma taxa única de IRS. Além da proposta em si havia como pano de fundo as declarações proferidas pelo Dr. Anacleto no seu programa da SIC. O deputado da IL, João Cotrim Figueiredo, acusou-o nas redes sociais de ter mentido e deturpado o conteúdo da proposta de flat rate. Esse foi o tema de arranque do debate. No decorrer da troca de argumentos o deputado bloquista enredou-se nas suas fintas semânticas e, provavelmente sem dar por isso, confirmou a mentira do seu chefe. Nada de novo para um conselheiro do Estado Português.

Olhando com atenção, dá para apreciar ainda a forma como o jovem delfim de Louçã afirma que esta proposta não é esta proposta, porque 'eu é que sei bem o que lhe vai na alma'. Esta é uma técnica que consiste na recusa do debate e avança para o julgamento moral. É populismo mas do bom. Se fosse usado pela direita seria asqueroso.

Eu, que gosto de enquadramentos históricos, gostaria de lembrar ao mano mais novo do Daniel Oliveira (aquele que faz rir) que nesta conversa ele assumiu a defesa da situação, ou seja, a defesa de um sistema fiscal que lhe permita (sem óculos escuros ele não consegue esconder a chispa) acabar com os ricos, mas que na prática nos empobrece a todos.

Já aqui referi que os partidos da esquerda unidos à volta do OE, constituem as forças conservadoras da actualidade. O BE e o PCP, os acólitos do PS, são tão coerentes como um apenas um revolucionário conservador poderá ser. Admito que tenham consciência do ridiculo, mas não conseguem resistir a uns biscoitos de reforço positivo.

Os irrecuperáveis vinte anos de estagnação económica, que marcarão estes anos da nossa vida, estão ligados a este modo de esmifrar a riqueza produzida pelos portugueses.

Li não sei onde que o debate político deverá trazer sempre à liça o passado, o presente e o futuro. Estes três diferentes tempos não deverão ter sempre o mesmo peso nas decisões, mas nenhum deverá ser humilhado. Os socialistas que há décadas nos governam são uns amantes obsessivos do presente. Eles desprezam o passado e odeiam o futuro. De facto, eles são os inimigos do futuro. Para os socialistas, em troca do poder imediato não existe nenhuma questão de princípio que não seja negociável. Manter o poder é a sua ideologia. É o seu alfa e o omega. Por ele, tudo.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 24.09.20

21523202_SMAuI.jpeg

 

Ana Margarida Craveiro: «Não, Sócrates não fez quaisquer cortes na saúde e educação. Sim, os portugueses aguentam mais uma subida de impostos - assim como assim, têm salários bem generosos, que permitem fazer ajustes rápidos. Sim, as empresas conseguem perfeitamente pagar mais impostos sem continuar a despedir funcionários. Sim, o Estado tem o tamanho certo: concentrado nas actividades fundamentais, eficiente, sem desperdícios. E finalmente sim, a culpa deste descalabro é toda, todinha, do PSD, esse partido de irresponsáveis que resolveu nos últimos anos gastar o dinheiro que não temos.»

 

António Figueira: «A famosa “lenda negra”, que nos séculos XVII e XVIII se criou na Europa no Norte para descrever o atraso cultural das monarquias ibéricas, pode em bom rigor dizer-se que descreve melhor a situação de Portugal que a de Espanha na mesma época. A presença asfixiante da Inquisição, a omnipresença da religião, o fanatismo e a superstição, a ignorância generalizada, a aridez da vida cultural, caracterizavam Portugal - mais pobre, mais fechado, mais centralizado - mais ainda que o seu vizinho ibérico.»

 

João Carvalho: «O ex-ministro Manuel Pinho diz: «Foi importante ter sido ministro cinco anos, mas agora estou a adorar a minha vida em Nova Iorque.» Nós não achamos que tenha sido tão importante o que fez por cá, mas também estamos a adorar sabê-lo noutras arenas lá longe. Especialmente, desde aquele dia em que ele garantiu: «a crise acabou totalmente» e «há sinais extremamente positivos». Foi num dia de Outubro de 2006.»

 

Leonor Barros: «A Língua Inglesa, não fugindo à semelhança de outras, tem muitas variantes. Ele há inglês jamaicano, australiano, indiano, americano, canadiano, britânico, neozelandês, mas para gáudio dos linguistas, creio até que David Crystal estará já reflectindo e pesquisando sobre este extraordinário e inusitado fenómeno, surgiu nos últimos anos uma nova variante: o inglês socratino.»

 

Paulo Gorjão: «O leitor, por mero acaso, está ver o presidente do Conselho de Administração da ERSE, Vítor Santos, a emitir comentários depreciativos num blogue sobre profissionais do sector que a sua instituição tutela? Não está, pois não? Agora, onde se lê ERSE leia-se ERC e onde se lê Vítor Santos leia-se Azeredo Lopes. Assim o leitor já admite essa hipótese? Admite, não é? Pois. Aparentemente, trata-se do exercício da liberdade de expressão... A liberdade de expressão permite dizer que o jornalista não leu a fonte e que escreveu "com base em espírito santo de orelha". Enfim, diria que são acusações muitos graves e totalmente inapropriadas, tendo em conta o cargo institucional de Azeredo Lopes, mas devo ser eu que estou a ver mal o filme.»

Canções do século XXI (1270)

por Pedro Correia, em 24.09.20

Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 23.09.20

 

Dependemos sempre do acaso, o outro nome que atribuímos ao desconhecido.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante esta semana

 

Palavras para recordar (71)

por Pedro Correia, em 23.09.20

pes_117740[1].jpg

 

MANUELA FERREIRA LEITE

Visão, 13 de Novembro de 2008

«Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite.»

Always handsome

por Cristina Torrão, em 23.09.20

Sam Worthington (2).jpg

Sam Worthington

 

Sem Título.png

Os habitantes dos bairros sociais abdicariam facilmente da sua "vista maravilhosa" para poderem ambicionar a que os seus filhos pudessem ter uma vida melhor que a deles.

Também podia dizer-lhes que não tem médico de família, nem a dentição completa, nem aquecimento, nem férias, mas não se queixem pois têm uma "vista maravilhosa".

Não quero médicos a mandar

por Pedro Correia, em 23.09.20

Há por aí alguns responsáveis autárquicos a exorbitar das funções que lhes são atribuídas, torcendo as normas legais: a pretexto da epidemia em curso, querem impor o uso obrigatório da máscara aos munícipes em todos os espaços públicos, incluindo ao ar livre. Algo que as autoridades centrais nunca decretaram - nem sequer quando o País se encontrava sob estado de emergência, com números de infecções e mortes mais preocupantes do que os actuais. Por um motivo muito simples: nada no nosso ordenamento constitucional autoriza tal medida.

Este excesso de zelo autárquico - e refiro-me concretamente, pelo menos, aos presidentes das câmaras municipais de Guimarães, Arruda dos VinhosCastro Marim e Vila Real de Santo António - é aplaudido por alguns talibãs do sistema sanitário que percorrem os telejornais, serão após serão, em defesa aberta de tal medida. Acontece que estes clínicos não foram eleitos para tomar decisões em nome do interesse público. É para isso que existem os governantes, sujeitos à legalidade democrática. No dia em que os médicos tomassem o poder e os políticos exercessem medicina estaríamos todos bem pior.

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 23.09.20

21523202_SMAuI.jpeg

 

Afonso Ferreira: «O barco aproxima-se da outra margem e vejo uma caravela ancorada em terra e prédios e prédios a riscar o horizonte. No meio dos passageiros surge um homem a berrar. Portugal fez tanta obra e deu tudo. E nós aqui tão pobres sem nada. Portugal fez tanta obra.... – diz ele numa ladainha circular desesperada. Por telefone oferecem-me indicações preciosas para chegar ao destino. Há que apanhar o metro. Há que perceber onde é o estupor, comprar o bilhete para o dito cujo, perguntar a estranhos se vamos na direcção certa. O metro serpenteia pela cidade como uma cobra veloz num espanto mudo. As estações, em revolta com o asfalto, sucedem-se umas às outras – 25 de Abril, Gil Vicente, São João Baptista –, como tesouros do progresso.»

 

Ana Vidal: «Um dia destes atiro para uma mala todas as lembranças, todas as memórias, todos os sonhos vividos, desejados ou apenas temidos, e levo tudo comigo para a derradeira aventura. Não faltarão cheiros, cores, sabores intensos, sol e chuva, terra e mar, muito mar. Tudo isso irá comigo, porque tudo isso se me colou à pele com os anos e já faz parte de mim. Um dia destes reaprendo a dizer lareira, mesa, pão, vinho, consoada, linho, lã, aconchego. Está decidido. Um dia destes salto a janela e volto para casa.»

 

João Campos: «Não deixa de haver alguma ironia no facto de ontem, dia europeu sem carros, ter sido o dia em que mais tempo perdi no trânsito dentro de Lisboa, tanto de manhã como à noite. E nem choveu.»

 

João Carvalho: «Passos Coelho diz que recusou voltar a sentar-se à mesa com José Sócrates porque este quis impor-lhe condições à partida. Silva Pereira, em nome de Sócrates, diz que é falso, que não foram exigidas condições prévias a Passos Coelho. Sei — sabemos todos — que o costume de mentir por tudo e por nada cresceu, está institucionalizado e parece que já muito poucos — cada vez menos — se importam com isso. Eu importo-me. Neste caso, perante duas versões tão contraditórias, é indiscutível que uma das partes mente. É apenas mais uma mentira e não sei — não posso saber — qual das partes é que mente. Não sei, mas sei qual delas costuma mentir.»

 

Paulo Gorjão: «É com profundo pesar que lamento ter de informar que por aqui se bateu em retirada, deste modo privando os leitores não só de um diálogo rico (mérito ao qual sou alheio), mas também da evidente douta sabedoria. É a vida.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A CP é um desastre ambulante que custa rios de dinheiro aos contribuintes e que para tal conta com a conivência dos ociosos dos sindicatos, com a irresponsabilidade dos partidos políticos, com a complacência dos sucessivos governos e, acima de tudo, com a tremenda falta de cultura cívica dos seus utentes.»

 

Eu: «Tenho acompanhado o percurso desta deputada desde a sua estreia em São Bento. Fiz-lhe, aliás, a primeira entrevista que deu logo nesses dias em que iniciou as funções parlamentares. Foi motivo suficiente para passar a seguir com atenção a actividade posterior de Ana Catarina Mendes. Tem sido um percurso seguro, consistente, credível. Agora como vice-presidente da bancada do PS, revela grande capacidade de trabalho, prepara-se bem para os debates, estuda os dossiês e não abdica do pensamento próprio nas questões de consciência.»

Canções do século XXI (1269)

por Pedro Correia, em 23.09.20

O debate

por José Meireles Graça, em 22.09.20

O deputado da Iniciativa Liberal debateu na SicN sobre a taxa única de IRS com um ex-deputado do Bloco, um expatriado  que se juntou aos portugueses que, com trânsfugas de outras nacionalidades, fingem que deputam no Parlamento Europeu.

O assunto não tem nem de longe tanto interesse como as mamas de Cristina Ferreira, que ultimamente têm uma preocupante tendência para crescer, nem muito menos a mais recente tolice de um governo qualquer, ou do nosso, para fechar a porta à Covid, o fantasma que não vai matar quase ninguém, enquanto os residentes que não morrem de doenças sérias não tratadas, fome ou exaustão, criam dívidas que julgam que não vão pagar.

Mas um partido político tem de ter bandeiras. E esta, a da taxa única, não tem nenhuma hipótese de ser desfraldada no alto de uma colina de preconceitos, o que não quer dizer que não valha a pena agitá-la – todas as bandeiras vencedoras hoje já foram vencidas no passado.

O tal ex-deputado do Bloco, de nome Gusmão, recita a vulgata da seita, que no caso consiste em dizer que muitos poupam 50 euros (esqueceu-se com admirável manha de esclarecer que seria por mês) enquanto uns poucos, os ricos, guardam milhares que não lhes fazem falta; que isto criaria um buraco nas contas públicas que só poderia ser tapado com cortes no SNS e no ensino público; e que nos países mais desenvolvidos (começou por dizer com aquela lata mentirosa de que os adeptos de Frei Anacleto Louçã e Soror Mariana detêm o segredo que era em todos os da UE, depois centrou-se na Holanda como o farol que, nesta matéria, deveríamos seguir) havia várias taxas de IRS, a mais gravosa sempre altíssima.

Cotrim Figueiredo, com serenidade, rebateu as indignações daquele pai dos pobres. Não disse tudo o que poderia ter dito (por exemplo, ficou por referir que a comparação de taxas sem referir os montantes a partir dos quais se aplicam significa que em Portugal se considera rico, para o efeito de o acabrunhar com impostos, quem é apenas remediado) mas nem houve tempo nem é possível dizer tudo sobre uma matéria complexa, e um debate velho, onde a cada argumento de um lado cabe um argumento do outro, quase sempre ficando de fora os pressupostos de cada trincheira.

Que pressupostos são esses? Do lado do indignado, são a superioridade moral (ele defende os pobres, o opositor os ricos), que é recorrente na esquerda em geral e aparece no Bloco dobrada em raiva virtuosa; a concepção da economia como um jogo de soma nula, isto é, em que as perdas de uns são os ganhos de outros; a ideia de que o investimento, e a gestão, públicos, são equivalentes no desempenho ao investimento e gestão privados; e a opinião de que a igualdade material entre os cidadãos é um bem em si, que não carece de demonstração por ser uma verdade axiomática.

Claro que não há qualquer superioridade moral da esquerda em geral, muito menos de um moço de aspecto piolhoso com os olhos coruscantes de ódio aos ricos, debitando argumentos serventuários de uma trombeteada generosidade e uma oculta inveja; na economia que cresce pouco ou nada, como foi o caso durante a maior parte da história da humanidade, os ganhos de uns eram efectivamente as perdas de outros, mas deixou de ser necessariamente assim desde fins do séc. XVIII; se a gestão privada fosse igual à pública, a nacionalização dos meios de produção não teria produzido, como invariavelmente produziu, sociedades de generalizada carência; e é preciso uma grande dose de cegueira para não ver que os países que nos vêm ultrapassando na hierarquia dos rendimentos por cabeça têm muitas coisas que nos faltam, uma delas sendo a competitividade e a simplicidade fiscais – a igualdade, ou melhor, a obsessão igualitarista, não faz parte desse lote.

Gusmão, estás por fora, meu chapa, a única coisa que contigo pode progredir é o retrocesso. Que poderias ter dito ao teu opositor que enriquecesse o debate? Algumas reflexões, dentro dos pressupostos dele que, já se vê, tem paciência, são os bons: que a fiscalidade simples e modesta, em vez de complicada e rapace, é adjuvante do crescimento, mas que há um tempo de espera que não é seguro que as nossas calamitosas contas públicas possam suportar. Pelo que começar pela reforma do IRC talvez fosse mais judicioso; que o nosso Estado gordo é uma mochila demasiado pesada para um viajante que quer andar mais depressa do que os outros, pelo que a reforma de que toda a gente fala ou implica extinções de serviços espúrios ou não é reforma; e que o Estado de Direito é para valer em todos os domínios, e que portanto a inversão do ónus da prova em matéria fiscal, os poderes inquisitoriais de uma casta de funcionários inimputáveis pagos com prémios pelos seus abusos são perversões a eliminar como condição prévia a qualquer reforma fiscal.

Isto e muitas outras coisas. Que talvez vejam a luz do dia quando houver uma quarta falência, ou o eleitorado descobrir que já só tem atrás de si a Albânia, ou, ou.

Até lá, alguém tem de manter acesa a chama do senso, do realismo e da esperança. Foi só por um quarto de hora? Ora, na Venezuela que Gusmão estima nem isso têm.

A pandemia dentro da pandemia

por Pedro Correia, em 22.09.20

Durante o recente estado de emergência em Espanha, 59 cadáveres ficaram por reclamar em Madrid. Imagino que terão sido pessoas como qualquer de nós: riram, choraram, conviveram, sonharam, amaram. Foram a «palha pensante» de que falava Pascal, aludindo à fragilidade da condição humana.

Na nudez absoluta da morgue, ninguém as procurou: incineradas ou depositadas na vala comum sem um lamento fúnebre, tornaram-se mero dado estatístico para discussões à hora do jantar. 

Esta é uma pandemia dentro da pandemia: a de que menos se fala mas a que mais devia preocupar-nos, pois comprova como se tornaram inóspitas as sociedades que criámos, gerando desenfreadas correrias que conduzem a lugar nenhum. Quantos dramas humanos se ocultam sob as luzes citadinas? Quanta dor silenciada na perpétua vigília de quem é incapaz de adormecer? Quanta solidão povoada de fantasmas assombrando noites que nunca verão nascer o sol?

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 22.09.20

21523202_SMAuI.jpeg

 

Ana Margarida Craveiro: «Que o primeiro-ministro não me é propriamente simpático, já toda a gente sabe. Mas confesso que a nossa relação piora quando o oiço dirigir-se a jornalistas. No jornal da hora de almoço de hoje, na SIC, Bernardo Ferrão não lhe fez a vida fácil: as perguntas complicadas sucederam-se, como se espera de um jornalismo que vigia o poder. Em resposta, José Sócrates soltou um dos seus habituais "você queria era isto, você veio com a perguntinha, mas você queria era perguntar", etc. Foi toda uma sucessão de você para aqui, você para ali, numa sucessão de más-criações em ritmo acelerado. Sempre fui ensinada de que não se tratam as pessoas por você, muito menos quem não tem qualquer intimidade connosco.»

 

Filipe Nunes Vicente: «Se supusermos que cada dia é uma unidade finita, que se renova incessantemente, os anos desperdiçados são uma falácia. Esses pedaços de tempo ficaram lá, nos dias que habitaram.  Podem então ser considerados perdidos? Não, porque tal classificação supõe que podem ser recuperados. Não podem: são como a  água que despejamos num rio. Resta saber se podemos considerar a perda. Um velho paradoxo grego explica que ainda temos tudo o que não perdemos (perguntem a um amigo se perdeu recentemente um par de cornos...). As partes da nossa vida, por piores que tenham sido, ainda são nossas. Temos memória, rugas e  úlceras que o podem confirmar. Resumindo: não podemos recuperar o tempo perdido,  porque o tempo não é nosso. O passado, ensinava Séneca, é tudo o que temos.»

 

João Carvalho: «Afinal, a linha de alta velocidade do Poceirão fica (ou ficava) pelo dobro do preço indicado pelo Ministério das Obras Públicas. O ministro Mendonça, claro, já explicou que há o custo das "acessibilidades" (são os acessos) e outras coisitas de somenos que são inerentes à obra. Ora, precisamente por serem inerentes à obra é que fazem parte do custo da obra, não é? Ninguém ergue um hospital a partir do primeiro andar se o vazio do rés-do-chão não tiver uma escadaria ou um elevador de ligação com a parte de cima (a integrar no orçamento da obra), nem se fabrica vestuário sem operários têxteis (cujo salário faz parte do preço da roupa).»

 

Paulo Gorjão: «Amuaste, diz Azeredo 'Calimero' Lopes, com o dedinho em riste, ao mesmo tempo que com a outra mão guarda os berlindes imaginários no bolso dos calções. Ora aqui está, quem sabe, o ponto de partida para mais um belo romance, porventura em parceria com José Rodrigues dos Santos.»

 

Eu: «O Caçador é um filme que começa com um casamento e termina com um funeral - duas faces do mesmo espelho. Mas é um filme que não nos fala de uma América crepuscular: fala-nos de uma América capaz de ressurgir com maior vigor de cada desaire da História, digam o que disserem os críticos acometidos de miopia. Uma América que, para esse efeito, não necessita de heróis: necessita de gente comum. Gente como Linda, Axel, Angela, Steven, John, Stanley e Mike. Gente que trabalha e que se diverte e que bebe cerveja e que vai à caça e que reza e que chora e que ri e que canta God Bless America. Não como um louvor patrioteiro mas como um hino à vida. O que tem duplo valor para quem viu a morte de frente.»

Canções do século XXI (1268)

por Pedro Correia, em 22.09.20

A História por cinco euros

por Pedro Correia, em 21.09.20

thumbnail_20200607_124754-1[1].jpg

thumbnail_20200607_124945[1].jpg

 

Frequentar alfarrabistas, como vou fazendo apesar das restrições impostas pelo novo coronavírus, tem as suas compensações. Aconteceu-me recentemente, ao encontrar num desses estabelecimentos muitos exemplares de uma antiga colecção de revistas Paris-Match que tiveram repercussão histórica. Pertenciam a uma senhora que faleceu com 103 anos. Como tantas vezes acontece, os herdeiros desmancharam a casa e desfizeram-se de livros e revistas, que acabam dispersos um pouco por toda a parte.

Cheguei a tempo de adquirir alguns exemplares. Por exemplo, o n.º 758 da Match de 19 de Outubro de 1963, dedicado em grande parte ao falecimento de Edith Piaf e Jean Cocteau, ocorridos no mesmo dia. Ou ao n.º 777,  de 29 de Fevereiro de 1964, reservado em larga medida a pormenores então inéditos do duplo homicídio de Dallas (visando o presidente John Kennedy e o seu suposto assassino, Lee Oswald).  Ou ao n.º 617, de 4 de Fevereiro de 1961, centrado no assalto ao navio de cruzeiros Santa Maria, tomado em alto mar por um grupo de declarados opositores ao salazarismo. 

Na altura a Paris-Match foi a única a entrar a bordo do navio sequestrado, fotografando e relatando o que lá se passava numa edição que teve eco em todos os continentes. «A fantástica aventura de [Henrique] Galvão e dos piratas da revolução», titulava a revista nessa capa - exclusivo mundial do repórter (mais tarde romancista) Dominique Lapierre, hoje com 89 anos, e do fotógrafo (também actor e duplo de cinema) Gil Delamare, que se lançou de pára-quedas sobre o navio. 

Edições que fizeram história. Abandonadas por alguém num alfarrabista. Trouxe-as, a cinco euros por exemplar: agora posso chamar-lhes minhas. Garanto que ficam em boas mãos.

Frases de 2020 (28)

por Pedro Correia, em 21.09.20

 

«Se o Benfica conquistar tudo o que quer conquistar, o País será feliz.»

Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica (3 de Agosto)

Portugueses que nos honram

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.09.20

Double-portugais-au-Mans-Filipe-Albuquerque-premie

"Double portugais au Mans. Filipe Albuquerque premier et António Félix da Costa deuxième en LMP2"", titulava a notícia desta manhã. E não é caso para menos. O resultado fala por si num ano que está a ter tanto de estranho quanto de fantástico para o automobilismo e o motociclismo nacionais. A classe dos pilotos portugueses continua a brilhar mundo fora. Enquanto Miguel Oliveira ganhava lugares na Riviera de Rimini, depois de duas quedas nos treinos, partindo de 15.º para alcançar um notável quinto lugar e ser actualmente o primeiro dos pilotos da KTM no MotoGP, outros dois portugueses mostravam toda a sua classe nas 24 Horas de Le Mans na super competitiva classe de LMP2.

Para quem ainda tivesse dúvidas, caíram todas pouco depois da vigésima quarta hora no circuito de La Sarthe com a vitória de Filipe Albuquerque nas 24 Horas de Le Mans, no seguimento da pole position que fez para a corrida.

Com o António Félix da Costa, já campeão do mundo de Fórmula E, em segundo lugar na prova francesa deste fim-de-semana, Portugal passará a ter dentro de alguns dias dois campeões do mundo. Ao Filipe bastar-lhe-á alinhar à partida da última prova, no Barém (Bahrein), para inscrever o título de campeão do mundo de resistência no seu palmarés.

Para todos todos eles, mais do que um abraço de parabéns, segue daqui o meu obrigado pela classe que vão exibindo dentro e fora das pistas, e pela forma como, com o seu profissionalismo, honram o nome de Portugal.

Quem nos dera que fôssemos todos como estes.

5f662afa77a6c.jpg(créditos: Arhur Chopin, ACO)

DELITO há dez anos

por Pedro Correia, em 21.09.20

21523202_SMAuI.jpeg

 

Adolfo Mesquita Nunes: «Se o FMI entrar por aqui adentro, não foi apenas o Governo que falhou. Foi Cavaco Silva que redondamente se encostou a uma qualquer bananeira que encontrou por Belém e que preferiu, afinal também ele, a aparência à realidade. É por isso que Cavaco nem quer ouvir falar de FMI, sobretudo nesta altura de pré-campanha eleitoral.»

 

Ana Vidal: «Retomo aqui, no Delito de Opinião, uma série dedicada a um dos meus pintores preferidos - René Magritte - que em tempos iniciei noutro blogue. Irreverência, ironia, subtileza, clarividência, ousadia, inteligência, talento. Todos estes adjectivos (e muitos outros mais) se aplicam a esta mente privilegiada, que interpretou a realidade que a rodeava de uma forma única. Não tenho, naturalmente, nem uma vaga ilusão de estar à altura dos quadros que inspiraram os textos. Leiam-nos como uma homenagem, nada mais do que isso.»

 

David Levy: «A Embaixada de Israel prestou apoio à 14.ª edição do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa - Queer Lisboa 2010. Esse facto aparentemente passou  despercebido durante algum tempo aos auto-intitulados defensores dos palestinianos e de todas as causas politicamente correctas. Descoberto o patrocínio, imediatamente se abriram as portas do Inferno. Já há manifestações de repúdio contra o apoio israelita a um festival que devia ser promotor da aceitação dos homossexuais, da tolerância e da paz. Causas bonitas e que estão sempre na boca de algumas pessoas, excepto quando colidem com os seus interesses.»

 

João Carvalho: «Com o fantasma do FMI a pairar cada vez mais perto, o que fazer? Como alguém já disse, a receita é simples e conhecida: bastaria que Portugal aplicasse as medidas que estão a funcionar na Grécia sob a batuta do FMI, com a vantagem de podermos fazê-lo sozinhos, por iniciativa própria e sem ingerência externa. Já alguém assistiu ao encerramento de organismos e instituições que parasitam por aí? E qual é o tamanho real do buraco financeiro em que a verdade completa das contas públicas está metida, escondida nas empresas públicas e nas chamadas empresas municipais? E quanto custa ao Estado (e com que proveito) a teia infindável de fundações que o governo esconde?»

 

Paulo Gorjão: «A propósito disto, há quem confunda a crítica à substância do exercício de um direito, com um ataque ao direito propriamente dito, num exercício de vitimização digno de um qualquer Calimero. Enquanto isto não tiver sido percebido, é impossível passar a um nível de maior elaboração. Resta-me apelar a que deixem jogar o Mantorras, que é como quem diz, por favor, leiam e oiçam sem reagir a tudo o que o presidente da ERC disser, caso contrário serão acusados de perpetrarem um vil e atroz ataque à liberdade de expressão. Fantástico...»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Deixou um vazio grande. Ela sabia que ia deixar. A mim, que sou gente como os outros também. E eu não ficaria de bem com a minha consciência se não vos dissesse o quanto gostei de conhecê-la. O quanto lhe estou agradecido pelo vazio que em mim deixou. Não serei hoje um homem melhor, nem um cidadão mais militante ou melhor companheiro. Apenas vejo com outros olhos. É uma sorte encontrar alguém que nos faz ver com outros olhos. »

 

Eu: «Assunção Cristas - que passou pela blogosfera antes de enveredar pela política - tem sido uma das presenças mais fortes na bancada democrata-cristã, onde não faltam bons oradores. Faz intervenções sérias, fundamentadas e incómodas para o Governo no plenário, incluindo nas sessões onde tem estado o primeiro-ministro. E desenvolve um trabalho digno de registo na comissão parlamentar de Economia e Finanças, onde coordena os deputados do CDS. Com o debate do Orçamento à porta, repetirá certamente o protagonismo evidenciado na anterior sessão legislativa. Sem partidarites, não é necessária demasiada argúcia para apontá-la como um valor em ascensão na política portuguesa: vamos ouvir falar ainda mais dela no futuro.»

Canções do século XXI (1267)

por Pedro Correia, em 21.09.20


O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D