Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Delito de Opinião

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 03.02.23

21523202_SMAuI.jpeg

 

Helena Ferro de Gouveia: «Patrãozinho? As contradições entre o discurso colonial, pleno de valores humanísticos, e as atrocidades em seu nome cometidas deixaram marcas profundas na sociedade portuguesa. Muitos, talvez de forma inconsciente, ainda alimentam o imaginário de um Portugal que se julgava escolhido pelo Destino para tirar outros das trevas do atraso cultural e civilizacional.»

 

Henrique Pimentel: «A monarquia é, exactamente por "separar as águas", um regime representativo muito próximo da perfeição, agora sem qualquer risco de perversão, porque limitado aos (afinal poucos) poderes constitucionais. Era bom que se discutisse, sim: talvez se limpassem tantas teias de aranha da cabeça das pessoas (afinal, quem são os conservadores?)»

 

José Gomes André: «Portugal vive de ciclos mediáticos. País tacanho e medíocre, mobiliza-se com as vagas de fundo promovidas pela comunicação social e rapidamente perde o interesse assim que os focos de luz se apagam. Discute durante meses a fio o aborto e logo o esquece para sempre. Debate a Europa, mas cedo deixa cair o tema na obscuridade. Emociona-se com crianças "que passam fome" até mergulhar numa árida discussão sobre bancos ou violência suburbana, a qual tem também curta duração. Vive por blocos. Desperta, vocifera, entusiasma-se, e em seguida é vencido por uma súbita inércia.»

 

JPT: «Viva o Sporting! Voltarei aqui, cabelo cortado e barba aparada. E com a alma (sim, a alma) lavada. Daqui a uns tempos. (até lá, e sem desprimor para outros, deixo o meu abraço ao Pedro Correia, leão...)»

Aqui não há transgénero

Pedro Correia, 02.02.23

chantal.jpg

Chantal Goya no filme Masculin Féminin, de Jean-Luc Godard (1966)

 

Oiço muitas vezes por aí chamar "o" Iniciativa Liberal ao quarto maior partido parlamentar português. No seu programa de domingo à noite, Ricardo Araújo Pereira pôs a ridículo este absurdo desnorte gramatical exibindo excertos de noticiários televisivos (incluindo da própria SIC) que mencionavam a IL, alternadamente, como pertencente aos géneros feminino e masculino. Chegando-se ao ponto de ouvir jornalistas diferentes, no mesmo telediário, usarem as duas fórmulas. Questiono-me se não haverá livros de estilo e editores que assegurem o controlo de qualidade nestes canais para impedir esta algaraviada sem senso algum.

A norma gramatical é clara: artigo e substantivo concordam em género e número. Aqui não há transgénero: masculino é masculino, feminino é feminino. Nem há transnúmero: singular é singular, plural é plural.

Assim, dizemos os Verdes ao aludirmos a um partido que integra a actual coligação governamental na Alemanha - no plural. E a UNITA ou a FRELIMO quando mencionamos estes partidos políticos, um em Angola (União para a Independência Total de Angola), outro em Moçambique (Frente de Libertação de Moçambique). 

A sigla IL só deve ser lida com artigo feminino - por a primeira letra ser abreviatura de Iniciativa. Ninguém diz "o FRELIMO" ou "o UNITA". Diferente é se disserem "o partido Iniciativa Liberal" - só aí o artigo é masculino. Mas faz pouco sentido usar 24 letras para aquilo que pode ser dito só com duas.

Enfim, regras que deviam ser fixadas desde as aulas da instrução primária, mas que jornalistas supostamente com formação universitária são incapazes de aplicar. O que diz muito sobre a qualidade do nosso ensino. E sobre a qualidade do nosso jornalismo.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 02.02.23

22426336_YjEH5.jpeg

Hoje é O Dia Mundial das Zonas Húmidas

«Esta data foi instituída por ocasião da assinatura da "Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, especialmente como Habitat de Aves Aquáticas", a 2 de Fevereiro de 1971, na cidade iraniana de Ramsar.

Este ano é pela segunda vez comemorado como dia internacional pela ONU. Visa sensibilizar a opinião pública para a protecção das zonas húmidas, fundamentais na preservação de vida na Terra.

O tema de 2023 ("É tempo de restaurar as zonas húmidas") convoca toda uma geração a tomar medidas para reavivar e restaurar as zonas húmidas degradadas. Este tema enquadra-se, assim, na Década das Nações Unidas para o Restauro dos Ecossistemas, iniciativa global que se prolonga até 2030.»

 

Eu não serei a melhor pessoa para opinar sobre a restauração de zonas húmidas degradadas, muitas das quais sem recuperação possível. Mas é uma iniciativa louvável a da recuperação dos ecossistemas quase extintos devido à seca generalizada, e cuja fauna e flora são de significativa importância para a existência de vida na Terra.


vigi.jpeg

Hoje é O Dia Nacional do Vigilante da Natureza

«Neste dia anual recordam-se os companheiros que morreram ou foram feridos no cumprimento do seu dever de protecção e conservação da natureza.

É um dia de celebração e reconhecimento pelo trabalho destes valorosos e dedicados profissionais que dão a vida em prol da protecção dos tesouros naturais e do património cultural do nosso país.

A 2 de Fevereiro, reflectimos sobre a coragem e o sacrifício que os Vigilantes da Natureza fazem em todos os locais da Terra pela protecção da flora e da fauna. É uma missão muito valiosa, indispensável.»

 

E todo o reconhecimento lhes é merecido e todos os agradecimentos lhes são devidos. Em detectando fogos, por exemplo, de modo que a intervenção dos meios seja rápida e eficaz, salvam tesouros naturais que de outro modo poderiam ficar extintos num curto espaço de tempo.

(Imagens Google)

Momento publicitário (2ª parte)

Cristina Torrão, 02.02.23

Não resisto a deixar aqui o link da RTP Play para o 10º episódio da série documental Duplas à Portuguesa, transmitido ontem. É dedicado à dupla Afonso Henriques e Egas Moniz.

Infelizmente, não tem direitos de transmissão para o estrangeiro, só poderei ver o programa no próximo dia 7, na RTP Internacional.

https://www.rtp.pt/programa/tv/p42647/e10

 

Entre os mais comentados

Pedro Correia, 02.02.23

Em 22 destaques feitos pelo SAPO em Janeiro, entre segunda e sexta-feira, para assinalar os dez blogues nesses dias mais comentados nesta plataforma, o DELITO DE OPINIÃO recebeu 21 menções ao longo do mês.

Incluindo um texto na primeira posição, quatro na segunda e sete na terceira.

 

Os 21 postais foram estes, por ordem cronológica:

 

Ler (16) (30 comentários)

Nos ciclos longos (27 comentários)

Governo Sócrat... perdão, Governo Costa (24 comentários)

Há tanto tempo. Parece que já foi numa outra vida II (38 comentários, terceiro mais comentado do dia)

Total falta de respeito democrático (72 comentários, segundo mais comentado do dia) 

Hoje é dia de (36 comentários, terceiro mais comentado do fim-de-semana)

Não passarão (70 comentários, terceiro mais comentado do dia)

Facto internacional de 2022 (36 comentários)

Da "ética republicana" (56 comentários, segundo mais comentado do fim-de-semana)   

Hoje é dia de (21 comentários)

Ruínas (e o meu fascínio por lugares abandonados) (24 comentários) 

Ética e lei (30 comentários, segundo mais comentado do dia)

Da irremediável decadência do francês (86 comentários, terceiro mais comentado do dia)

Penosa agonia (84 comentários, o mais comentado do fim-de-semana)

Frases de 2023 (23) (32 comentários)

Como Hitler, Mussolini ou Ceausescu (62 comentários, segundo mais comentado do dia)

Parabéns, general (34 comentários, terceiro mais comentado do dia

Duzentas e dezassete sondagens depois (50 comentários)

O Santo Palco (35 comentários, terceiro mais comentado do fim-de-semana)

Pensamento da semana (52 comentários, terceiro mais comentado do dia)

Frases de 2023 (5) (16 comentários)

 

Com um total de 915 comentários nestes textos. Do Paulo Sousa, da Maria Dulce Fernandes, da Ana CB, do JPT e de mim próprio.

Fica o agradecimento aos leitores que nos dão a honra de visitar e comentar.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 02.02.23

21523202_SMAuI.jpeg

 

José Maria Gui Pimentel: «É verdade que se verificou um alargamento das políticas monetárias expansionistas dos principais bancos centrais, o que ajudou a redireccionar fundos para os activos de maior risco (e, por isso, maior retorno). Note-se, ainda, o caminho divergente da dívida espanhola, cujo spread é o único que se mantém acima dos níveis do início de 2012, uma vez que aos problemas orçamentais e do sistema financeiro se alia a dimensão problemática do país (que dificultará um resgate externo).»

 

José Navarro de Andrade: «Quem na manhã de 22 de Junho de 1951 olhasse para o portão da MGM poderia assistir a uma estranha cena. Louis B. (nunca se soube o que era este “B”) Mayer, o Júpiter de Hollywood, ali estava de pé, na beira do passeio, à espera de um táxi. Ao tentar entrar nos estúdios, foi informado pelo porteiro que estava interdito e que a MGM queria o automóvel mais o motorista de volta; este e os outros cinco Chryslers guardados lá em casa. Desta maneira infame acabava um reinado de 27 anos de glória e fortuna máximas. À frente daquela que fora a fábrica de filmes mais luxuosa e popular do cinema americano, estava agora o introspetivo Dore Schary. Mudanças iam ser feitas.»

 

Luís Menezes Leitão: «Louçã, Semedo e Pureza — onde anda a Catarina Martins? — chegaram à conclusão que “o percurso das correntes originais”, UDP, PSR e Política XXI, está “esgotado e encerrado” e se propõem "fundar" numa conferência nacional marcada para Abril uma "nova corrente" que se chamará "socialismo". O Bloco de Esquerda não pára de nos surpreender com a sua capacidade de inovar. Calculo que a seguir nos irão dizer que decidiram inventar a roda.»

Em revista com vampiros

Maria Dulce Fernandes, 01.02.23

 

vampiros.jpeg


Deixem que vos conte dos vampiros.

Contrariamente ao que reza o populário, os vampiros não são seres mitológicos que deambulam pelas sombras, alimentando-se da energia dos vivos, lambuzando-se abundantemente em hemoglobina, até saciarem a fome e exaurirem a vítima. À primeira vista, nem são criaturas aterradoras como o Nosferatu, apesar de partilharem toda a sua essência destrutiva e parasitária.

O conceito de vampiro existe desde tempos imemoriais. Em quase todas as culturas clássicas e pré-clássicas existem lendas de demónios e monstros, antepassados de outros mais contemporâneos que assolaram o Leste da Europa nos primórdios do século XVIII, e cujas hediondas carnificinas deram origem ao actual vampiro e a famosos romances de terror nele fundamentados, desde Varney the Vampire de James Malcolm Rymer ou Carmilla de Sheridan Le Fanu, passando pelo Drácula de Bram Stoker e chegando ao presente, onde pontuam coisas engraçadas como Vampire Chronicles, de Anne Rice ou The Southern Vampire Mysteries de Charlaine Harris, e claro, a inenarrável saga Twilight de Stephenie Meyer, cujos nauseantes best sellers em quatro tomos foram adaptados ao cinema, quatro filmes considerados também blockbusters e criando toda uma subcultura vampírica  a nível global.

Em Portugal, desde meados do século XIX, o termo vampiro é politicamente co-relacionado.

Actualmente, o Vampiro Português é outro. É uma mutação, uma aberração mais desvairada do que o próprio monstro. Não é bonito, não é charmoso, nem sequer muito inteligente. É um estrige espertalhão.

É entediante, arrogante, relapso e contumaz, descendente de uma cultura que vem assolando há anos o extremo ocidente da Europa, numa onda corrupta de promiscuidade por demais evidente e comprovada.

Não faz muito tempo em que, e segundo a tradição, conseguiu encantar o incauto e imprudente plebeu, que o convidou a entrar em sua casa, onde se banqueteou até esgotar toda a sua essência vital. Desfigurou e transmudou tudo o que era legítimo numa amálgama acachapante que corta a respiração, tolda a visão e embota a razão.

Sugou-nos o sangue, deixou-nos os ossos, porque  o suor e as lágrimas ainda estarão para vir, mas acredito que vai chegar um dia em que o sol brilhará, ou então precisamos urgentemente dum Van Helsing, mas uma pessoa de carne e osso e com capacidades comprovadas e não uma figura de (pouca) acção de fabrico em série e made in China.

(Imagens Google)

Como se quiséssemos o sol só para nós

Pedro Correia, 01.02.23

sol.jpeg

Queremos mudar o mundo, queremos mudar o sistema, queremos mudar a sociedade. Tudo seria mais fácil se começássemos por mudar a nossa relação com os outros. Se adquiríssemos o talento de unir o que vemos fragmentado, de congregar o que está disperso. Se soubéssemos ir ao encontro de quem nos rodeia.

Às vezes basta um gesto apaziguador, uma palavra amável, um sorriso que se rasga na face sempre sisuda. «Na superfície das coisas vê-se a essência das coisas», escreveu Saul Bellow em Ravelstein.

A sociedade, o sistema, o mundo não mudam se não começarmos por mudar também algo de essencial na nossa relação com os outros. Nos actos mais singelos do quotidiano.

Escrevo estas linhas enquanto o sol vem espreitar-me da janela: é quanto basta para sentir-me grato por este dia. Penso nos que sofrem sob o mesmo sol que me aquece e me inspira e me ilumina. E questiono-me o que poderei fazer para atenuar a angústia ou aliviar a dor de alguém. Não da Humanidade em abstracto, como me sugerem os demagogos de plantão, mas de uma pessoa em concreto.

Uma palavra, um sorriso, um gesto, um abraço, um olhar. Às vezes só isto é necessário. E somos incapazes de dar esse passo. Como se quiséssemos o sol todo só para nós.

Hoje é dia de

Maria Dulce Fernandes, 01.02.23

voz alta.png

Hoje é O Dia Mundial da  Leitura em Voz Alta

«Esta data assinala-se este ano a 1 de Fevereiro. Este é dedicada não só à leitura, mas à arte e prática da leitura em voz alta. Milhões de histórias orais foram passando de geração em geração antes mesmo da invenção da escrita. Era a forma mais antiga de preservar o conhecimento, a percepção e a criatividade humanas.

Este dia ajuda-nos a trazer essa tradição de volta à leitura, promovendo a alfabetização.

A LitWorld é uma organização sem fins lucrativos que trabalha no campo da educação e alfabetização em particular. Em 2010, lançou o primeiro Dia Mundial da Leitura em Voz Alta . Agora tornou-se um movimento verdadeiramente global, com forte presença no Twitter.

A boa notícia é que o mundo está mais alfabetizado que nunca. A taxa global de alfabetização de jovens entre 15 e 24 anos aumentou de 87,2% em 2010 para 90,5% em 2019. Há uma curva ascendente semelhante para as taxas de alfabetização de adultos em todo o mundo.

Ainda existem, no entanto, diferenças significativas na alfabetização de país para país, com o Chade a registar uma taxa de alfabetização feminina de apenas 22% em 2016. Noutros países da África subsariana, como o Níger, o Mali e a República Centro-Africana, estava abaixo de 50% em 2018. O Dia Mundial da Leitura em Voz Alta é uma iniciativa que busca colmatar essas desigualdades.»

 

Gosto de ler histórias aos meus netos e eles gostam que eu lhes leia, porque "a Avó faz as vozes todas diferentes". Então não? Muitos personagens têm de ter vozes diferentes! Mas quando são muitos mesmo, perco-me e confundo as vozes, mas eles rectificam-me de imediato, e eu, com a minha maior lábia, respondo: "é para ver se estão mesmo com atenção".»

 

Robinson.jpeg

Hoje é O Dia de Robinson Crusoe

«Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, foi publicado em 25 de Abril de 1719 e tornou-se imensamente popular quando foi lançado, além de ser uma grande obra de literatura. Não é surpresa que a popularidade deste romance tenha gerado este dia especial, acarinhado pelos amantes da literatura.

Robinson Crusoe foi inspirado numa personagem da vida real: um marinheiro escocês chamado Alexander Selkirk, que ficou preso numa ilha desabitada durante alguns anos e teve de sobreviver sozinho. Comia peixes, fruta e cabras selvagens até que um navio britânico passou e o resgatou em 1709. Quando Daniel Defoe ouviu a história, acabou por transpô-la para livro alterando vários pormenores. No romance, o marinheiro naufragado consegue sobreviver na ilha por 28 longos anos.

Esta obra imortal inspirou muitos outros livros e foi usada para criar vários filmes.»

 

Robinson Crusoe foi um dos primeiros livros que li. Um livro da Colecção Histórias que o meu irmão estava a coleccionar. Ele teria os seus seis anos, eu ia a caminho dos dez. Não tinha heroínas, histórias de amor, príncipes ou princesas, mas agarrou-me logo nas primeiras linhas:

"Nasci em 1632, na cidade de York, onde meu pai passara a

viver, depois de ter conseguido, com seus negócios, alguns
meios de fortuna. Tinha dois irmãos mais velhos do que eu.
Um, tenente-coronel, que faleceu na batalha de Dunquerque,
na luta contra os espanhóis. Quanto ao outro, nada sabia
do que lhe sucedera, coisa que nem meus pais podiam in-
formar-me, tanto o tempo que nos deixara.
Como não tinha o que fazer, porque não aprendera ofício
algum, dei de encher a cabeça com fantasias[...]"

Era um tipo como eu, dado a fantasiar, e sobreviveu graças à sua fantasiosa imaginação. Releio este livro e outros livros da mesma colecção muitas vezes. Trazem-me de volta aquele eu que eu gostei tanto de ser, nos livros que eu tanto gostei de ler.

  (Imagens Google)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 01.02.23

21523202_SMAuI.jpeg

 

José António Abreu: «Bolas, se tivesse ido aos almoços do Delito já conheceria pessoalmente um membro do governo. Quanto custará uma caixa de robalos?»

 

José Maria Gui Pimentel: «O Daniel Oliveira é o cronista de esquerda (esquerda mesmo, não me refiro ao centro-esquerda) que mais aprecio. Numa palavra -- aliás, em duas -- honestidade intelectual, algo tão raro quanto valioso.»

O Benfica e a Ucrânia

jpt, 31.01.23

Bandeira ucraniana acenada em meio à destruição provocada pela guerra

Acaba agora o Janeiro - incrível como isto voa... E se assim acaba o Janeiro seguir-se-á, dirão que teria dito o Senhor de La Palice, o Fevereiro. Por isso há hoje dois marcos: para quem se interessa pelo assunto encerra hoje o mercado de transferências futebolísticas; e neste próximo mês cumprir-se-á um ano da guerra russo-ucraniana (sim, como disse acima, o tempo voa...). Por isso volto atrás, a esse início de 22 e à que Moscovo julgou uma "guerra relâmpago", na crença putinista da adesão ucraniana aos libertadores russos - "contra o poder nazi e drogado" - e da emergência do silêncio fariseu europeu e da atrapalhação bidenesca, esta antes demonstrada em torno de Cabul.
 
Lembro esse início por cá, os russos saudados, implícita e explicitamente, pelos do "compromisso histórico", aquele entre os comunistas brejnevistas (os do "simpático" António Filipe, que se desdobrou em dislates russófilos) e dos enverhoxistas, maoístas, trotskistas, polpotistas e quejandos, em tempos agregados sob os velhos Louçã/Rosas/Fazenda e agora ditos "sociais-democratas" sob as "meninas" do Rosas. Todos esses neste putinismo agregados aos fascistas, ditos "soberanistas", esses do tipo Tanger, o dirigente do CHEGA em tempos tão peculiar nosso cônsul em Goa - "once a fascist always a fascist" poder-se-ia clamar se não tivéssemos dado o nome de um hitleriano ao aeroporto da capital...
 
Enfim, devaneio, a embrulhar o que foi óbvio: no início da guerra ucraniana fascistas e comunistas ergueram-se a defender a legitimidade do "espaço vital" russo - o argumento nazi então adoptado pela futura professora do ISCTE Mortágua, a "inteligente" do BE. E a maioria da sociedade ergueu-se, irada ou incomodada, em defesa da agredida Ucrânia, tal como aconteceu nas congéneres democracias. Desde então seguiu o apoio possível (apesar das trapalhadas ministeriais - vão os tanques diz o MNE, não vão os tanques diz a ministra da Defesa, enfim, quem conheça os ministros que lhes pergunte o que andam para ali a fazer...). O país aderiu, Milhazes mandou os russos para o "caralho" e virou ícone, cerrámos fileiras com as democracias ocidentais contra o imperialismo russo e nisso até aturámos os generais comunistas e os académicos "alterglobalistas" e "abissais" a defender Putin nas tvs e jornais "de referência". "Comme il faut" na democracia, dar a voz pública aos trastes...
 
Isso implicou as possíveis sanções económicas (dada a dependência energética) - mas ainda assim imensamente maiores do que o então foi alvitrado. Cesuras político-diplomáticas. Enorme apoio militar a Kiev, e económico. E ruptura de relações desportivas, pois estas entendidas como vector de propaganda nacionalista. E tudo isso implicando, por cá e alhures, inflação, empobrecimento, convulsão política e aquecimento intelectual. No início também uma, compreensível mas logo combatida, xenofobia: alguns factos de "cancelamento" ou censura a vultos russos. Logo revertidos, no entendimento que as objecções a ter não são contra os cidadãos russos (muitos em êxodo após as mobilizações generalizadas). Mas sim contra o Estado de Putin, os seus grandes apoiantes (ditos "oligarcas") e as empresas russas. Tudo isso são os custos da luta (guerra) pela democracia, por defeituosa que esta seja e surja aqui e ali.
 
Mas entretanto, hoje, 31 de Janeiro, quando avançamos para um ano de guerra inaceitável, o Sport Lisboa e Benfica, instituição de utilidade pública e sempre sequiosa do apoio estatal, anuncia o segundo acordo com clubes moscovitas para transferência de jogadores de futebol. Não há um ruído na imprensa, não há um desconforto governamental, um remoque partidário. Nem um protesto dos "democratas" benfiquistas. A direcção do popular clube vira as costas ao Estado, à sociedade, no afã de uns milhõezinhos de euros naquela economia paralela do jogo. Ou seja, a escumalha da bola faz o que quer no país de opereta... E os nossos líderes nada mais anseiam do que o convite para os camarotes, enquanto os "colunistas" nada mais querem do que o fakeorgasm do Marquês...
 
E se isto não é um sinal da derrota democrática então não sei do que precisais. Eu reencho-me de Queen Margot e ouço o velho "Safe European Home". Porque o punk não são os putinistas identitários...
 

London Calling_Safe European Home/The Clash in Japan1