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Delito de Opinião

Pensamento da semana

Pedro Correia, 25.09.23

Pelo menos 95% da nossa actividade cerebral é inconsciente. Só entre 3% e 5% é pensamento lógico. E a mente inconsciente é cem mil vezes mais veloz do que a consciente, como a neurociência já demonstrou. Isto explica muito dos nossos atavismos, da nossa suposta irracionalidade, enfim da própria natureza humana.

 

Este pensamento acompanhará o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 25.09.23

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João André: «Os oceanos cobrem cerca de 70% da superfície da Terra. Aliás o planeta poderia muito bem chamar-se "Água" (como refere Bill Bryson). Estes, especialmente devido às propriedades termodinâmicas da água (não vos vou aborrecer com isso) e à influência da vida, poderão estar a absorver o CO2 ou simplesmente a absorver o excesso de calor (são como um reservatório de frio, se quisermos). A sua influência não tinha sido correctamente descrita em modelos anteriores e por isso as previsões podem falhar.»

 

Teresa Ribeiro: «A inteligência não é uma qualidade, é uma responsabilidade.»

 

Eu: «Tenho algumas dezenas de livros autografados: são estes, compreensivelmente, aqueles de que mais gosto na minha biblioteca. Livros de escritores tão diversos e de épocas tão diferentes como Jorge Amado, Fernando Arrabal, José Saramago, Dinis Machado, Manuel Alegre, Fernando Namora, Couto Viana, Romeu Correia, Modesto Navarro, Manuel António Pina, Adolfo Simões Müller, Mário Castrim, Maria Ondina Braga, Baptista-Bastos, José Augusto Seabra, Clara Pinto Correia, Inês Pedrosa, João Aguiar, João Tordo.»

Pensamento da semana

Pedro Correia, 24.09.23

 

Tudo chega ao fim: o Verão também. Aliás, se virmos bem, em termos mediáticos o Verão já terminou há vários anos. Passou a ser designado como «onda de calor» - designação da moda. Três palavras em vez de uma para significar o mesmo. Complicar tornou-se lema dominante no discurso jornalístico. Nada refrescante, convenhamos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 24.09.23

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JPT: «Há alguns meses Durão Barroso comentou a posição francesa sobre a excepção cultural no seio da liberalização comercial. A reacção francesa foi iracunda e bastante desvalorizadora da Comissão Europeia, algo que vindo da pátria de Monnet e de Delors não deixou de ser surpreendente. Em Portugal li, logo, algumas céleres vozes criticando o dito de Durão Barroso. Claro, e para além do assunto, há que bater no homem. Por várias razões, uma das quais é esta esquizóide forma de xenofobia lusa, a de dizer mal de qualquer patrício mal ele tenha assomado além fronteiras.»

 

Teresa Ribeiro: «A sensibilidade não é uma qualidade, é uma textura

 

Eu: «Os Lusíadas, que consulto com frequência, permanecem à parte, na sala. Numa das estantes do corredor, alinho as obras de Eça. Perto de Borges e Shakespeare: o nosso melhor romancista de todos os tempos justifica lugar à parte. Os outros ficam na divisão a que decidi chamar escritório. Com merecidos destaques em prosa e poesia, também em função da quantidade de livros que disponho de cada autor. Sophia de Mello Breyner, poesia completa. E os seus sublimes Contos Exemplares -- que tenho também em duplicado, como acabo de descobrir. Ruy Belo, poesia completa. Alexandre O'Neill, poesia completa. E a excelente biografia do autor de Um Adeus Português escrita por Maria Antónia Oliveira (Dom Quixote, 2005). A obra inteira de Miguel Torga. O inevitável Pessoa. Saramago, quase todo. Vergílio Ferreira, quase todo. A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino. Barranco de Cegos, de Redol. Os Meninos de Ouro, de Agustina. Os Contos do Gin-Tonic, de Mário-Henrique Leiria. (E onde pára Mau Tempo no Canal, de Nemésio, que não consigo encontrá-lo?)»

Quanto mais incompetente, melhor

Pedro Correia, 23.09.23

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O intragável naco de prosa que aqui reproduzo foi ontem dado à estampa num dos principais diários portugueses, aliás com pergaminhos na defesa do nosso idioma, surgindo com a assinatura do próprio director dessa publicação. Alguém que, aparentemente, se mostra incapaz de distinguir entre Conselho e Concelho. Não digam que é um problema do teclado, ou do corrector digital, ou do revisor de textos - figura já quase inexistente nas redacções dos jornais que ainda restam. 

É ignorância mesmo. O que me leva a questionar, uma vez mais, que critérios de competência e qualificação são hoje adoptados pelos administradores dos órgãos de informação para porem à frente de títulos históricos da imprensa portuguesa indivíduos que ignoram a diferença entre ConselhoConcelho

Não se incomodem a inventar uma justificação politicamente correcta. A resposta verdadeira sei muito bem qual é.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 23.09.23

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Hoje lemos: Herman Melville, " Moby Dick"

Passagem a L-Azular: "Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que sinto na minha alma a humidade e a chuva de Novembro, sempre que minha hipocondria me domina de tal modo que é necessário um forte princípio moral para me impedir de sair deliberadamente para a rua e socar metodicamente o chapéu das pessoas - … então considero que é a altura de fazer-me ao mar e o mais depressa possível.”

"Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que sinto na minha alma a humidade e a chuva de Novembro" já sei o que aí vem. Os juros vão aumentar, os bens alimentares vão aumentar, os transportes vão entrar em greve... é tudo culpa da guerra! Alguma culpa terá o massacre consentido a leste, mas a culpa, essa  rameira  que todos empurram e ninguém aceita, é de quem se está marimbando para quem desespera e espalha esmolas como se placebos fossem a cura dos males do país.

(Imagem Google)

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 23.09.23

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Ana Vidal: «Eu levava-lhe palavras e silêncios / medidos sempre com mil cuidados / para não perturbar trompas e clarinetes de nibelungos / para não desafiar os deuses vodun na sua eterna vigília / para não profanar em vão / o reino do artista // Palavras e silêncios / eram tudo o que eu tinha para dar-lhe / Por lá ficaram / suspensos entre o Báltico e a costa do Benim / marítima deriva num pátio de Lisboa / o reino do artista.»

 

José Navarro de Andrade: «Que a questão dos enterros tem alguma importância, prova-o, no séc. XIX, a Maria da Fonte, uma guerra civil cuja origem deveu-se, entre outras, à introdução de normas higiénicas que acabaram com as sepulturas dentro das igrejas ou ao lado delas, e obrigaram a construção de cemitérios lá longe, no meio do campo. Isto suscitou o horror das massas campesinas, que se ergueu na Patuleia. Há quem diga que esta palavra deriva etimologicamente de "patolo" ou seja, de tolo, rústico, ou parolo como diríamos hoje, mas há quem afrme que vem de "pata-ao-léu", ou seja a populaça de pé descalço.»

 

Teresa Ribeiro: «A cortesia não é uma qualidade, é um anacronismo.»

 

Eu: «Fui sócio da Folio durante uns anos: alguns dos melhores livros que tenho cá em casa chegaram-me por esta via, na sequência das encomendas que ia fazendo para Londres (era obrigatório, nessa época, um número mínimo de aquisições por ano). As edições são de qualidade muito superior às que geralmente encontramos no mercado, embora a preços correspondentes a esse acréscimo de qualidade. Deixei de ser sócio por motivos de "ajustamento orçamental", como agora se diz, mas alguns dos meus livros de que continuo a gostar mais têm esta marca: The Quiet American, Dubliners, Rebecca, To Kill a Mockingbird, The Mutiny of H. M. S. Bounty, por exemplo. E dois volumes sobre mitologia grega. E cinco sobre a história da Idade Média. E uma excelente biografia de Beethoven.»

A habitação e os bancos

José Meireles Graça, 22.09.23

As medidas que Medina tomou para ajudar os aflitos no pagamento das prestações dos empréstimos para habitação poderiam perfeitamente ter sido tomadas pelos próprios bancos – reescalonar pagamentos, que é do que se trata, não sendo bom, é melhor do que incumprimentos que, ultrapassado um certo nível, podem passar a bolha que rebenta.

Não o fizeram porque a gestão bancária é caracteristicamente estúpida, ao contrário da percepção pública. Isto é assim porque a concorrência entre bancos é ilusória por uma multiplicidade de razões, porque a autonomia decisória é limitadíssima por causa do colete de forças regulamentar do BCE e do seu balcão local, o BdP, e porque as camadas superiores da direcção estão povoadas de carreiristas cinzentos que não suportam as consequências negativas das suas decisões mas beneficiam dos resultados, que auto-atribuem à excelência oca das suas decisões. Há também o factor humano: o gestor que, confortável na sua sinecura, toma decisões que afectam a vida dos “clientes”, entende tanto dos problemas deles como o saciado dos dos que têm fome.

E Medina? É um político de carreira a tomar decisões políticas com grande componente técnica. Um refrescante contraste com um professor de economia a tomar decisões que imagina técnicas, tendo uma componente política que embrulha pedantemente em palavreado com tinturas académicas.

E em matéria de elogios (que aliás, se para isso me desse o vezo, compensava enunciando o estendal de asneiróis que nos levou onde estamos) chega para, pelo menos, um ano.

"Foi com ela que tudo começou"

Cristina Torrão, 22.09.23

Permitam-me a divulgação:

Em Setembro e Outubro, há ciclos de Conferências e Conversas para celebrar os 900 anos da Carta de Foral de Viseu.

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No ano em que Viseu assinala os 900 anos da outorga da sua Carta de Foral, por Dona Teresa, o Município de Viseu promove o Ciclo de Conferências "V900” e o Ciclo de Conversas "Foi com ela que tudo começou”, ao longo dos meses de Setembro e Outubro. Os encontros são de entrada gratuita, tendo como palco principal a Casa do Miradouro/Polo Arqueológico de Viseu António Almeida Henriques, em pleno Centro Histórico, estando a participação sujeita a reserva prévia para o email cultura@cmviseu.pt.

Sempre ao final da tarde, com início pelas 16 horas, as conferências e conversas contam com personalidades das mais diversas áreas, unidas pela escrita e investigação sobre "Teresa de Leão”, o seu tempo e o seu contexto político, militar e religioso. Em suma, sobre Regina Tarasia, o rosto de uma governação de indiscutível importância para a independência e soberania do Condado Portucalense.

O Ciclo de Conversas "Foi com ela que tudo começou”, convida o público a conhecer Dona Teresa através da literatura, apresentando quatro importantes personalidades e as suas obras em torno da Condessa-Rainha.

A 23 de Setembro, Cristina Torrão apresentará "Memórias de Dona Teresa”, editado em 2018. Um romance que procura analisar a questão "Terá sido Portugal fundado por uma Mulher?” e no qual Dona Teresa "moribunda agonizante, recorda toda a sua vida, na urgência e na clareza de quem nada tem a perder”.

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Os meus agradecimentos e parabéns à Câmara Municipal de Viseu.

Taremi e a sonolência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social

jpt, 22.09.23

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O iraniano Taremi, avançado do Futebol Clube do Porto, é um bom avançado. E é manhoso, perito naquela consagrada tarefa de "cavar penalties" - e os mais-velhos lembrar-se-ão do sempre entusiástico Paulo Futre, então ainda jogador, a declarar qualquer coisa como "fui para a área para cavar o penalti". Nisto das grandes penalidades a nossa percepção, opinião, convicção, muito depende das marés que os trazem. Nos finais de 1983 o grande Chalana mergulhou para a grande área do (literalmente seu) estádio da Luz, o herói Rui Manuel Trindade Jordão converteu o justíssimo penalti, a malvada União Soviética foi assim arrasada, perestroikada / glasnostada avant la lettre, e a Pátria seguiu à bela campanha do Euro-84, 18 anos após a primeira (e então única) qualificação para um torneio de selecções. Já em 2000 um falsário árbitro inventou um penalti aos 119 minutos da meia-final do campeonato da Europa, afirmando ser mão a óbvia coxa de Abel Xavier e assim possibilitando que as potências do pérfido Eixo discutissem o triunfo final.

São apenas exemplos maiores do que acontece todos os fins-de-semana - aliás, todos os dias, nesta era digital, em que é preciso encher de bola os milhares de canais televisivos globalizados. E todos os adeptos, sem excepção, tendem a "puxar a brasa à sua equipa". Uns mais descaradamente, outros menos. Mas, repito, todos... Ainda assim nas últimas décadas algo vem mudando: primeiro com mudanças nos regulamentos disciplinares, com punições aos saltimbancos menos talentosos. E depois através da disseminação das ajudas tecnológicas às arbitragens, associada à tal globalização da televisão digitalizada, o que tornou as escandaleiras muito mais... escandalosas. Ou seja, a aldrabice dentro de campo passou a ser mais punida, menos produtiva e - exactamente por estas razões - menos respeitada.

Neste âmbito e nesta época Taremi será um dos "últimos moicanos", até um item de património cultural intangível, pois um lídimo representante de eras passadas. Pois atira-se para o chão sem rebuço e colhe lucros com a risonha desfaçatez com o que o faz. O que lhe será facilitado pelo seu enquadramento laboral, protegido que está pelo truculento e histriónico falso azedume regionalista do seu patrão e das massas a este congregadas.

É óbvio que os adeptos do seu clube sobre ele pensam, sentem e opinam de modo diferente - por questões da mera bola mas também "animados" pela propalada "alma" regional, essa que nos campos de futebol se imagina gritando até à exaustão "São Jorge!" contra os "mouros" ditatoriais, totalitários, cleptocratas, os centralistas que colonizam e esmagam o sacro Portucale. Por isso as quedas de Taremi são-lhes sempre naturais, legitimamente causas de castigos à Besta Alheia, pois efeitos de intencionais acções dos demónios coloniais, essas energias eólicas, hídricas, fósseis, animais, mesmo metafísicas. E, por  vezes, até humanas.

Mas, de facto, o homem vem exagerando nas suas coreografias. Como aqui narrei há algumas semanas, fartei-me de rir ao vê-lo num Porto-Arouca, jogo que ficou celebrizado pelos 20 e tal minutos de descontos dados, a ver se o Porto não perderia o jogo, tamanha a desfaçatez com que ia fingindo ser alvo de incorrecções alheias. Seria até ridículo se os árbitros, sempre temendo as influências portistas e o crivo crítico do batalhão portista de comentadores radiotelevisivos e da imprensa escrita, não tendessem a aceitar as evidentes pantominas. Assim, pura e simplesmente, falsificando... as apostas desportivas, acção que julgo punível por lei extra-futebolística.

Leio agora que Carlos Xavier - antigo excelente jogador do Sporting e agora comentador do canal televisivo desse clube - "passou-se" com as constantes trapaças taremianas. E disse na televisão o que os adeptos dizem quando entre amigos. Qualquer coisa como o sacaninha deste estrangeiro veio para cá e agora é um fartar vilanagem.... Mas em vez de estrangeiro chamou-lhe "muçulmano", no que foi um verdadeiro autogolo. Cai o Carmo e a Trindade, hoje em dia entidades ecuménicas... E logo se conhecem invectivas de instituições consagradas na abjecta ditadura iraniana, que apresentam queixas de "racismo". Os mariolas regionalistas (de retórica secessionista) do FC Porto associam-se a esta inadmissível intervenção. Em vez de matizarem, como seria curial, a situação, para melhor entendimento estrangeiro do mero "fait-divers"...

Entretanto o agora comentador Carlos Xavier retractou-se (e não "retratou-se", como escrevem os patetas do AO 90, pois isso trata-se de outra coisa completamente diferente). Ainda assim a Federação Portuguesa de Futebol - essa instituição tutelada pelo Estado e que deste vem recebendo inúmeros apoios, o que não a impede de tentar descaradamente tornear o regime fiscal quando contrata trabalhadores - tem o atrevimento, decerto que inconstitucional, de instaurar um processo contra o canal televisivo do Sporting por causa do que um comentador disse. Estamos em 2023, nas vésperas do 50º aniversário do 25 de Abril. E a FPF instaura um processo destes. E o Dr. Fernando Gomes, seu presidente, não só não é rispidamente chamado à atenção por parte dos eleitos para os órgãos de soberania máximos da República, como decerto é e continuará a ser anfitrião e visita, muito cumprimentável, do PR, do PM, do PAR, de ministros, deputados, juízes, procuradores e etc. Se assim é para quê comemorar os 50 anos do regime? Para que irão gastar bons dinheiros em exposições, livros, conferências dos professores Fernando Rosas, José Pacheco Pereira e outros, sobre censura, e etc.

E entretanto uma tal de Entidade Reguladora para a Comunicação Social - sobre a qual apenas sei o que era a Alta Autoridade para a Comunicação Social, coisas risonhamente contadas pelo meu grande amigo Aventino Teixeira, que a essa pertenceu durante anos - tem também o desplante de anunciar que está "a analisar" as declarações de Carlos Xavier. Sobre o clima de guerra no comentariado futebolístico que grassa há tantos anos, e sua influência nas mundivisões mas também nas acções violentas do público dos espectáculos desportivos, nada diz a tal de ERC. Sobre o aldrabismo militante do jornalismo futebolístico, tantas vezes obviamente encomendado pelos agentes económicos envolvidos, nada diz a tal de ERC. Sobre o ataque à liberdade de imprensa efectivado pelo inaceitável processo instaurado pela FPF - como se esta fosse um Estado (ditatorial, censório) dentro do nosso Estado - nada diz a ERC. Está sim a analisar uma "gaffe" deselegante, inapropriada, excitada, do bom e íntegro Carlos Xavier.

Isto não é uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social filiada ao actual "wokismo". É apenas a sua sonolência. A sonolência dos pequenos mandarins avençados, ali instalados pelos poderes...

Deixemo-nos de coisas. Taremi é um sacaninha, um jogador estrangeiro que no nosso país constantemente aldraba o jogo - mas em outros não o faria, pois seria constantemente castigado se fizesse coisas destas. Quer ele continuar assim, quer o seu patrão que continue assim? Ok, então faça-se isso sem queixumes, invectivas ao "racismo" e "xenofobia" alheia... Façam-no com elegância, até humor... Há trinta anos o grande avançado Jurgen Klinsmann tinha a fama (e o proveito) de se atirar para o chão nas grande-áreas adversárias, de "mergulhar". Foi contratado pelo Tottenham para a então ainda inicial, mas já milionária, Premier League. Logo se estreou a marcar. E introduziu este "mergulho" comemorativo - esse que ainda tanto se vê, mundo afora... Nessa festiva ironia mostrando que em nada se restringia à mera aldrabice, abjecta.

Nem à tal sonolência bem-remunerada dos pequenos mandarins.

(Jurgen Klinsmann's first Tottenham goal)

O "Kuxuva", restaurante goês em Maputo

jpt, 22.09.23

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Sou mesmo avesso ao tétrico "saudosismo", aquilo do "antes é que foi bom", no fundo nada mais do que um "ó tempo, volta para trás". Que é inibidor, acima de tudo porque embrutecedor, pois sendo a memória selectiva sempre ela nos conduz a pensar e sentir o passado depurado das pústulas dolorosas que teve, enquanto maximizamos as leves actuais cicatrizes que delas nos sobraram. Sim, claro que se preferiria ser mais-novo do que este agora mais-velho, mas isso é outra coisa, tem a ver com as cáries, o desentumescimento, artrites e radiculites, o desmemoriar, a mouquidão, etc. E, acima de tudo, a inadjectivável morte, a alheia e até a nossa próxima, cada vez mais próxima.
 
Já a "saudade" é outra coisa. Falo da real, não a metafórica "do futuro", que isso sempre me pareceu trinado de poetice. É legítima essa "saudade" por alguns dos nossos que tão bem nos fizeram sentir, entusiasmando-nos, e já não nos estão próximos: aquela antiga e bela namorada agora decerto que já vetusta hárpia, o querido amigo depois desavindo, afinal um traste que é melhor nem encontrar, os ídolos que nos constituíram gente, a beleza de Vítor Damas e Rui Manuel Trindadade Jordão no verdadeiro José de Alvalade, Bernstein a ensinar música na televisão, o cego Borges a cirandar pelo mundo... E, mais do que tudo, pelos nossos ascendentes, naturalmente já findados, a argúcia culta da minha avó materna, conjugada com a boa mesa (ou assim me sabia) que comandava, o Senhor meu tio, homem verdadeiramente marcante. E, claro, os pais: o que não daria eu para me sentar aos 59 anos a falar com eles nos seus 60? Agora, "saudade" do passado tal qual ele foi, como seria bom voltar? Nada disso, por demasiado lânguido, que um tipo saudoso fica um odalisco.
 
O que louvo é a "saudadezita". Isso do inesperado, o de súbito ser assomado, nisso mimado, por excertos do passado, laivos do vivido, breves odores, sumarentas risadas, vislumbres, aquela carícia afinal indelével, acordes, sabores, estes até indiscerníveis... Sim, "saudadezita" que não diminutiva, bem pelo contrário, engrandecedora, pois resquícios alentando-nos no refrescar do necessário "avante".
 
Essa "saudadezita" que me invadiu ao ler este artigo. Pois durante quase duas décadas fui cliente regular do "Petisco", o célebre restaurante "goês" de Maputo, casa modesta, pois sem ademanes, cozinha familiar assente em legado de gerações, ambiente gentilíssimo, comida deliciosa - e decentemente barata. Lá fui inúmeras vezes, em família, junto a amigos, mesmo em momentos da vigorosa indústria de seminários, e até a festas de aniversário da petizada, naquela minha era de pai algo recente. E quantas vezes a ir buscar comida, o "take-away" obrigatório, nisso sempre me abastecendo da magnífica panóplia de achares e chutneys, e de piripiri. E, como é óbvio, filiando-me nas suas chamuças, ali âncoras da minha adesão à ideologia chamucista. O "Petisco" foi-me paisagem vivida, calcorreada. Sentida.
 
Há algum tempo soube que fechara, devido a razões várias - entre as quais o embate sofrido com a pandemia Covid. Muito o lamentei. Mas sei agora que a industriosa família se reorganizou, apesar da dolorosa perda entretanto sofrida. E que agora abriu um novo restaurante, nas imediações do anterior (na Mártires da Machava), mantendo-se fiel ao reconhecido perfil gastronómico: a cuidadosa continuidade da tradição goesa, já de si uma mescla de séculos, mas ali completando-se na harmonia com os saberes circundantes.
 
É o "Kuxuva" - "saudade" em changana ("mas "saudade" não há só em português?", clamarão os das versalhadas avulsas). E a esta "Saudade" eu prezo, pratico-a. E nesta madrugada deixo-me pensar, não nostálgico mas viçoso, que se chegar a Mavalane "te" direi "leva-me directo à Mártires da Machava", "ao Kuxuva". E alambazar-me-ei.
 
(Postal para o Nenhures)