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Delito de Opinião

(Após) Portugal-Turquia

jpt, 23.06.24

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Repito a ligação para esta minha historieta, com mais de uma década (gosto tanto dela que a agreguei ao meu "Torna-Viagem", o livrinho que impingi aos amigos e conhecidos), uma conversa com uma polícia de trânsito sul-africano sobre Cristiano Ronaldo.
 
Passou a tal década (ou mais). Cristiano Ronaldo é o maior atleta da história portuguesa. Um símbolo, admirado por muitos de nós. E também mundo afora, polícias do Mpumalanga e outros - como a menina que ontem se perfilava diante dele durante os hinos, com as mãos na cara tamanha a emoção espantada, tocando-lhe para ver se ele era real, ou o petiz (malandrete), que aos 10 anos se escapou campo adentro para tirar uma fotografia com ele.
 
Mas CR7 é também um barómetro, mede o cretinismo nacional. Pois desde há décadas que é constante a raiva contra ele, as críticas constantes, a vir ao de cima a maldita inveja lusa contra o sucesso (se obtido "lá fora" então é pior). O que vem muito do mais rasteiro do clubismo, alguns, apesar de tudo, ainda o apupam pelas origens sportinguistas - e outros, ainda mais abjectos, pelas origens humildes. (E não esqueço o povo de Guimarães, num particular de 2013, a gritar vivas a Messi apenas para o macerar, a mostrar como é escumalha o "berço da Nação").
 
É já um veterano - a sua idade acerca-se da que tinha Lopes quando foi campeão olímpico, Livramento campeão europeu de clubes, Agostinho no cume do Alpe d'Huez, Pepe na sua lenda de central insigne. É um veterano goleador... Os cretinos, que são minoria mas vasta, continuam a bolçar que "está velho", que "joga à mama", que "é egoísta", que "não joga nada".
 
Ontem, por parvas razões, vi parte do jogo da selecção num café lisboeta. A clientela, uma mole sorvedora de caracóis, passou a tarde clamando esses impropérios, enquanto perdigotava a repugnante molhanga. Retirei-me para casa, vi um John Ford que nunca vira ("Os Cavaleiros", com o Duke e o grande William Holden). Depois passei pelo FB, onde - apesar do "banho turco" - ainda havia básicos a repetirem impropérios contra o CR7.
 
Deitei-me, a ler o Dalton Trevisan que trouxera da Feira do Livro. Não haja dúvida, aquela desgraçada Curitiba de Trevisan é aqui mesmo.

Victor

Sérgio de Almeida Correia, 23.06.24

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Não poderia faltar. Por isso lá estive. 

Onde? Perguntar-me-ão.

Ali, na Casa Garden, paredes-meias com o Jardim Luís de Camões, onde está o espartano busto do dito, gravado no tempo da antecâmara feita na solidez da rocha que o protege das intempéries.

Ontem esteve lá o Victor. O autor, em 1989, da capa do I Glossário Jurídico Luso-Chinês. Nessa altura ninguém sabia quem era ele. E ainda hoje não sabem. Os portugueses. Os outros sabem.

Pois bem, o Victor lançou um livro, imaginem só, com todos os desenhos que fez para os cartazes do Dez de Junho. Desde 1990. Falhou dois anos. Houve um espírito menor iletrado que passou pelo Instituto Cultural sem ter percebido quem era o Victor.

A bem dizer não é um livro. É uma enciclopédia. Uma novela. Um filme. Está lá tudo. Até o quase de que quase nunca ninguém fala. Mais a senhora dona Amália e o Eusébio.

Mas ontem o Victor falou. Disse umas palavras com tudo aquilo que lhe ia na alma. Emocionou-se. Eu vi. E foi como se a noite anterior ainda não tivesse acabado. E o Álvaro, o Miguel e eu, que quase nunca estamos com o Victor, tivemos o privilégio de nos termos encontrado com ele de véspera. Mais o Nelson. Até parecia que tinha sido combinado. Ah, les grands esprits. Sauf moi.

E depois, aquela cumplicidade no olhar, tão querida e descomprometida, de quem já fez o caminho das pedras sem se perder. E voltou sempre. Deixando tudo no mesmo sítio, seguindo a ordem natural das coisas, a natureza dos homens, a beleza das mulheres, e o respeito por tudo aquilo que nos rodeia. O respeito e a gratidão.

O Victor sublinhou-o. Eu também o sublinho.

A ética dos homens livres, que sabem qual o preço da sua liberdade e o custo da ousadia, medem isso mesmo. Lêem todos o mesmo painel que o Victor registou. São três palavras muito simples, e que dizem tudo. Liberdade, respeito e gratidão.

A ordem dos factores não é aleatória. Não se nasce antes de morrer. Embora haja alguns que conseguem morrer sem nunca terem nascido. E mandam.

O Victor é tudo isso. Porque o talento dos grandes nunca sai desse parâmetros. Não há cagança, há discrição. Não há serodismo, há História.

Tal e qual como na profundidade do olhar do mocho, protegido na sua terna penugem, atravessando a cortina do tempo na verticalidade dos anos. Um após outro.

E depois, o Victor é um tipo de uma generosidade extrema, de uma alma imensa, com uma portugalidade tão vincada que me faz sentir o quanto sou pequenino, o quanto somos todos menores perante um traço maior que nos define nos cinco continentes. Para todo o sempre.

É claro que gostei do livro (obrigado pela dedicatória e o autógrafo), do momento, de sentir o quanto o Victor estava emocionado.

E recordei-me daquele dia de manhã em que me telefonou porque tinha levado o quadro errado, porque o meu não estava na galeria, estava em casa dele. Agora está em Cascais, onde pertence.

Mas não foi por isso que fiquei grato ao Víctor, nem é por tal que escrevo estas linhas.

Eu escrevo porque gosto de cumprir as minhas obrigações.

Neste caso é mais do que uma obrigação. E ao contrário da minha sombra, eu não tenho gosto em deixar uma obrigação por cumprir. Cumpri-las também me dá gozo, me dá prazer, e é um acto intrínseco de liberdade.  Como quando bebo um gin & tonic e fumo um charuto. 

E escrevo aqui e agora, nesta hora de onde não avisto o golfo de Sorrento, porque os cartazes do Dez de Junho do Victor deverão, a partir de hoje, percorrer o mundo. E depois deverão ser expostos na Assembleia da República, no Museu da Presidência, percorrendo as escolas de Portugal e ilhas. Espero que a Isabel Moreira esteja atenta.

Espero que o outro Victor, o de Tóquio, ainda os possa acolher na nossa Embaixada. E que eu possa lá ir. Mais a outra sombra que me me acompanha.

E que em Lisboa, no Porto, em Paris, em São Paulo, em San José, na Horta, talvez no Peter´s, onde for, encontrem um espaço e um mecenas, já que há tantos nas revistas, para pagar o transporte dos cartazes. Para que todos possam ver e conhecer o Victor. Em toda a sua simplicidade.

O que lá está não pode ser descrito. Não vemos todos a mesma coisa. E sabemos haver gente com olhos que não vê, e cegos que vêem para lá dos limites da Eternidade. Ou que viam. Como o meu padrinho Fernando Luís. Ou o Jorge Luís Borges. Que saudade, de ambos, meu Deus.

Em rigor, a razão de escrever estas linhas é que também há coisas que têm de ser ditas. Para que não se pense, um dia, que os portugueses importantes de Macau, e aqui agradeço ao anónimo, são pequenos lucíferes anões, milionários, sem pátria, que têm tempo de antena à segunda, terça e quarta-feira sempre com o mesmo fato e a mesma gravata.

Até porque o Victor não usa gravata. Não sei mesmo se ele sabe o que isso é, embora eu goste muito gravatas. De boas gravatas. E faça gosto em usá-las. Quando posso. Até se desfazerem. Às vezes depois disso.

Não, o que aqui me traz é muito mais importante do que tudo isso, só tendo paralelo na generosidade do Victor. E o Carlos irmão que me perdoe com toda a sua simpatia.

Porque o que é mesmo importante aqui ficar escrito, e os meus amigos que me desculpem, a começar pelo José Manuel, o Rui e o Luís, que já cá não estão, é que o Victor, que é igualmente um amigo, é o maior português de Macau desde os tempos do Camilo Pessanha. Isto tinha de ficar escrito.

E isto é tão rigoroso quanto a minha saudade pela Mélita, a minha paixão pela música do Brel, o encanto pela Loren, pela poesia do Fernando, a escrita do José ou do António, ou a minha paixão pela ternura da M.T. e os meus amigos.

O Victor é uma espécie de Serge Gainsbourg que fala português. Sabe rir em chinês e ainda pisca o olho aos amigos.

Não falo nelas porque nisso ele é como eu, e eu não sei quem é a sua Jane Birkin. Não temos tempo para lhes piscar os olhos porque gostamos de os ter bem abertos quando mergulhamos no seu olhar. E nos perdemos até reencontrarmos o caminho de volta.

Tirando isso, que acima ficou escrito para memória futura, recomendo-vos que façam uma visita à Catarina Cottinelli e à Casa Garden.

Certamente que já não encontrarão por lá a Amélia, nem o Carlos, que têm outras vidas, e já fizeram o seu trabalho, como outros também o fizeram, a partir do Porto, para trazerem, e entregarem, verdade seja dita, o Victor a Portugal e aos portugueses.

E uma vez mais, no mesmo dia em que Portugal estraçalhou os nossos amigos turcos em Dortmund, sob a batuta de um inspirado capitão, recomendo-vos a liberdade, o olhar, a generosidade, o encanto e a serenidade de um português de Macau.

Português como nós. Quer dizer, um bocadinho maior do que nós. 

Coisas que todos os milionários querem comprar, mas que só está ao alcance de espíritos superiores.

De génios na sua arte. De talentos que não se mercadejam. De gente como o Victor.

Saravah, Victor. A bênção, Senhor.

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P.S. Fez bem em estar presente o cônsul-geral de Portugal, Alexandre Leitão. Amanhã, provavelmente, será também caricaturado. Como muitos outros o foram. Mas só os imbecis não são suficentemente inteligentes para não se rirem da sua própria caricatura.

Petiscos inesquecíveis

Maria Dulce Fernandes, 23.06.24

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Há muitos muitos anos, já tinha eu deixado de ser uma criança, era casada, trabalhava e tinha uma criança minha, devia rondar os meus 24 anos (o que contradiz a minha frase inicial, já que nos dias que correm, ter 24 anos é considerado ser ainda uma criança), quando chegou mais um 26 de Setembro, que tinha a particularidade  de ser o dia em que a Joceline e o Lars celebravam os seus aniversários e de ser também o dia em que mudava a hora para a hora de Inverno.

Neste dia, todos os anos, havia sempre festa no quintal da casa de Caxias, onde a Line, o Dietmar, o Lars, a Katryn e o Markus moravam.

Este ano o tema era o Hawaii e foi rir do início ao fim, pelas muitas plantas e colares de flores, piscinas de plástico cheias de água, boias de todas as cores, cocos, barris de cerveja à pressão, bebidas malucas com gomos de frutas e chapelinhos de papel, muitas sangrias de muitas cores e travessas cheias com saladas várias e frutas malucas das quais nunca tinha ouvido falar, mas o Dietmar sim, e, mais estranho ainda, sabia precisamente onde as encontrar.

Tínhamos então uma espécie de Luau e, surpresa das surpresas, o prato principal era porco assado num forno feito no chão com umas grades de ferro, carvão e madeiros que, ao que parece o Dietmar preparou a semana inteira. Fez o seu hocus pocus com tempero não revelado, deixou ficar tudo em brasa e colocou em cima da grade o porco embrulhado em grandes folhas de papel de alumínio. Depois pôs-lhe em cima uma chapa furada, mais brasas, outra chapa e tapou com terra. Segundo reza a “Lenda do Leitão" (que o não era, por ser um grande porco) ou "Porco no Buraco", como o Dietmar dizia, o preparado começou às 8 horas da manhã, para estar bom para o jantar, coisa que também me custa a acreditar, porque esta malta nunca se levantava antes das 10, 11 horas e faziam então a primeira refeição à qual chamavam brunch. A primeira vez que ouvi o anglicismo e o seu significado foi com estes meus primos, no Algarve, anos antes.

A saída do porco do buraco do chão foi incrível. Já com local próprio para depositar o bicho, sacaram-no quatro homens, cada qual com uma pá, dois de cada lado. Procedeu-se à remoção da folha de alumínio e aí é que foi. O cheirinho era divino demais para aquela proveniência de pata fendida. Com a grande tesoura de podar, retalhou-se o animal, que estava tão tenro e tão saboroso que não há palavras para o descrever. Depois de provar um bom naco, aproveitei o que poucos queriam por “fazer mal”, a pele, que, estaladiça e sumarenta, era pura ambrósia e foi a melhor que comi até hoje.

Não faço ideia da quantidade de calorias ou decilitros de colesterol que ingeri naquela noite, mas com 24 anos não se pensava muito nessas coisas. E depois havia as saladas, as frutas e as bebidas para diluir os excessos, e eu, menos pacífica e mais caribeña de nenhum costado, devo ter bebido uns litros de Cuba Libre. 

Hoje, tenho aqui um pastelinho de bacalhau, uma salada de alface iceberg com tomates cereja e duas gelatinas, tudo acompanhado por uma garrafa de água reserva del cano... vai ter de servir.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 23.06.24

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João Campos: «Desenganem-se ingleses e espanhóis, já a contar com a companhia dos portugueses no vôo de regresso do Brasil. Por este andar, a FPF vai ter de pedir é um charter à Cruz Vermelha

 

Luís Menezes Leitão: «No caso da selecção, era preciso que uma equipa de aleijados, cujos jogadores ficam lesionados aos primeiros minutos em campo, fosse golear por 5-0 uma das equipas mais fortes fisicamente deste campeonato. Mas depois ainda era necessário que a Alemanha ganhasse aos EUA, sabendo-se que a tendência natural dessas duas equipas, que ainda por cima têm dois treinadores alemães, vai ser jogar para o empate, que as apura a ambas, e as poupa para a fase seguinte. Dizer que neste caso o apuramento é possível é tão absurdo como dizer que Portugal vai pagar a dívida, sabendo-se que para isso precisa de um saldo primário que nunca foi obtido e que é apenas 10 vezes o esperado para este ano de 2014. Como dizem os brasileiros, caiam na real.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Por muito que treinem, se não houver um líder com coragem, com preparação, com visão e arrojo, é impossível construir o que quer que seja. Seja na Federação Portuguesa de Futebol, seja na selecção ou no governo do país. A sorte por vezes ajuda, mas é preciso ir buscá-la. E como milagres já não há, sugiro que quando despacharem o Paulo Bento comecem por arranjar um bom barbeiro, para homens, e que saiba de futebol para lhes ir dando umas sabatinas enquanto usa a navalha. Vão ver como eles crescem num instante.»

 

Eu: «Hoje, com a febre dos "directos", qualquer irrelevância se torna manchete. Um dos problemas do nosso tempo é a falta de hierarquia nas notícias. Tudo vale, desde que preencha tempo de antena ou provoque reacções em cadeia nas redes sociais - com prazo de validade cada vez mais curto. A morte de mil pessoas num atentado surge nos telediários imediatamente antes ou imediatamente após uma peripécia da treta protagonizada por qualquer futebolista ou vedeta de telenovela. Há quem faça vénias ao fenómeno, em nome da suposta "democratização" da informação. Mas informação não é isto. E não existe democracia digna desse nome sem informação séria, credível, editada e hierarquizada. Tudo quanto a moda dos "directos" não é.»

Ler (34)

Nada melhor do que um prazer que se partilha

Pedro Correia, 22.06.24

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Adquiri estes nas minhas três deslocações à Feira do Livro de Lisboa em Maio e Junho. De variados géneros - da ficção ao ensaio, passando pelo teatro e até ao desenho.

A Hora dos Lobos, de Harald Jähner (D. Quixote)

A Próxima Guerra Civil, de Stephen Marche (Zigurate)

Agarra o Dia, de Saul Bellow (Relógio d' Água)

Entre a Mentira e a Ironia, de Umberto Eco (Gradiva)

Fui Tão Feliz Com a Minha Thompson, de Sérgio Sousa Pinto (Avenida da Liberdade Editores)

Goodbye, Columbus, de Philip Roth (D. Quixote)

Jornada Para a Noite, de Eugene O'Neill (Cotovia)

O Render dos Heróis, de José Cardoso Pires (Moraes)

Os Ratoneiros, de William Faulkner (Portugália)

Pnim, de Vladimir Nabokov (Relógio d' Água)

 

São muito diferentes. Dois foram adquiridos em pavilhões de alfarrabistas, com chancelas de editoras há muito extintas (Moraes e Portugália). Andei anos em busca de ambos. Num caso por se tratar de um dos romances menos conhecidos de Faulkner, aliás há muito esgotado no mercado português. Noutro por ser talvez o único que me falta ler de Cardoso Pires.

A original obra pictórica de Sousa Pinto comprova que o talento deste deputado socialista - que conheço há 27 anos - não se esgota na escrita ou na oratória: está patente também nos seus desenhos, com óbvia influência de mestres da banda desenhada, como Hugo Pratt. A jovem editora que lhe lançou a obra merece-me igualmente simpatia. Gosto de incentivar novos projectos nesta área, contrariando os profetas da desgraça sempre prontos a jurar que os livros estão condenados. Alguns evacuam há décadas sentenças deste género, felizmente nunca confirmadas.

Russo que renegou o seu país sob a ditadura soviética, Nabokov escreveu Lolita, romance fundamental do século XX - é quanto basta como carta de recomendação. Bellow e Roth são ficcionistas norte-americanos que aprecio - mais o Nobel de 1976, confesso, mas senti curiosidade em conhecer a primeira novela do autor de A Conspiração Contra a América, publicada quando tinha apenas 26 anos. O dramaturgo O'Neill - Nobel de 1935 - é autor que lerei pela primeira vez.

Quanto aos ensaios políticos, um vira-se para o futuro próximo, outro para o passado. A Hora dos Lobos detalha a vida quotidiana na Alemanha em ruínas do pós-guerra, com raro aliciante: observar factos históricos na perspectiva dos derrotados em conflitos bélicos. Contrariando o relato dominante, na óptica dos vencedores.

Há ainda o livrinho de Eco, pensador sempre estimulante. Mesmo quando escreve sobre temas aparentemente menores.

 

Destes dez, já li dois. E sobre um deles até escrevi aqui, recomendando-o sem reservas: A Próxima Guerra Civil Americana. Tema mais actual que nunca: está já em marcha a próxima corrida à Casa Branca.

Sobre o outro terei ocasião de escrever também. Quando gosto a sério de um livro, sinto vontade de divulgar a notícia. Faz parte do sortilégio da leitura: nada melhor do que um prazer que se partilha.

Lápis L-Azuli

Maria Dulce Fernandes, 22.06.24

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Hoje lemos: Michel Houellebecq, "Serotonina".

Passagem a L-Azular: "Os nossos anos de estudante são os únicos felizes, quando o futuro parece aberto, quando tudo parece possível.  Depois disso a idade adulta e a carreira são apenas um processo lento e progressivo de acabar por cair na rotina. Provavelmente é também por isso que as amizades dos nossos tempos jovens, aquelas que fazemos durante os nossos anos de estudantes e que eram as nossas únicas amizades verdadeiras, raramente sobrevivem até à idade adulta: evitamo-las para não sermos confrontados com testemunhas vivas das nossas esperanças esmagadas, da evidência da nossa derrota.”

Acaba por ser um facto para muita gente. Conversamos sobre o futuro como se fosse já no dia seguinte, confidenciamos as nossas aspirações, construímos cidades com todos  os nossos castelos no ar. Sonhamos. Sonhamos acordados e dormimos nesse sonho de amanhã.

O desfecho raramente é o previsto. Curiosamente muitas concretizações acontecem de modo imprevisto e totalmente contrário àquele que se preconizou, mas no final a sensação de plena realização apaga os riscos traçados nos muitos rascunhos em papel de sebenta que desenhámos a lápis para o nosso futuro.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 22.06.24

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Ana Cláudia Vicente: «A melhor das sortes aos atletas portugueses para o embate de mais logo.»

 

João André: «E pronto, Portugal joga hoje. Não vi o jogo EUA-Gana por isso não posso fazer análises tácticas. Klinsmann não é dado a grandes tácticas, mas é excelente na motivação e preparação física. Os EUA têm alguns belos jogadores (Michael Bradley ou Clint Dempsey) e são muito dinâmicos. Se Portugal jogar a pastar como no primeiro jogo, o resultado não será bonito. Teremos que esperar para ver. Sei que não verei o jogo: não tenho televisão em casa e neste momento ando sem internet. Verei o resultado pela manhã.»

 

Luís Naves: «Acumulam-se sinais de ruptura política iminente. O País não sairá do seu labirinto se não conseguir criar saldos orçamentais primários significativos, o que implica cortes adicionais da despesa não inferiores a 4 ou 5 mil milhões de euros nos próximos três anos. O Governo não tem força política para concluir as reformas. Na prática, pode esperar durante um ano e será cilindrado pela oposição, entretanto renovada com uma liderança que beneficiará do efeito do homem providencial; em alternativa, pode criar a ruptura e avançar para a clarificação política, com algumas hipóteses de vencer as legislativas, que seriam em Outubro.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Uma das riquezas maiores da blogosfera é permitir-nos saltitar de blogue em blogue, acompanhando diferentes assuntos e múltiplas polémicas, dando-nos o prazer de confrontar perspectivas diversas sem que os autores tenham necessariamente de entrar em diálogo. E aquilo que sobremaneira aprecio, independentemente do estilo e do tom que cada um coloca no que escreve, no que opina, no que comenta, é a autenticidade da escrita, a inteligência da exposição, o refinado sentido de humor, a capacidade de se rir de si próprio, e a atitude corajosa de quem se predispõe a tratar questões e temas susceptíveis de gerarem conflitualidade e de indisporem terceiros, sem com isso se importar.»

 

Teresa Ribeiro: «Hesitei entre o Ronaldo e o Ronaldo. Mas depois achei mais palpitante a notícia da jornalista que engravidou, de modo que foi aí que cliquei, mas devagarinho para não incomodar os bebés.»

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 21.06.24

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José Navarro de Andrade: «E a selecção? Ora, um bando de fedelhos demasiado bem pagos, descomandados por um teimoso. Claro que se ganharem no Domingo e depois ao Ghana, não hesitarei em enaltecer a persistência e a coerência de Paulo Bento, além da codícia dos nossos bravos, dando por bem empregues os € 26,79 que paguei à Sport.TV.»

 

Luís Naves: «Um excelente texto de JM Ferreira de Almeida, em Quarta República, onde o autor explica a forma como as formações tradicionais da esquerda e da direita têm convergido em políticas pragmáticas. Concluo, da leitura, que o mundo está em mudança, não sendo sensato insistir nas divisões ideológicas entre esquerda ou direita, pois as diferenças entre os dois estão a esbater-se.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Nesta altura deve haver muita gente a espumar depois de saber da recusa do Banco de Portugal em ver na nova administração os perfumados de sempre. Agora a família vai entregar a instituição a um dos que nunca seria reconhecido como um dos deles. Por falta de pedigree. A República, por vezes, ainda sabe estar à altura das situações.»

 

Eu: «Não admira que os contos de Cortázar tenham fascinado tantos cineastas -- Antonioni, Godard, Chabrol, Eastwood. Pela linguagem, tão original e apelativa. Pela capacidade de efabulação, cruzando banalíssimos quadros do quotidiano com erupções da fantasia mais delirante. Pelo imaginário, que salta consecutivas barreiras cronológicas. Por uma indefinível sensação de estranheza, desamparo e angústia que assalta tantas das suas personagens e se apodera delas, conduzindo-as aos mais inesperados desfechos.»

Costa despresidente

José Meireles Graça, 20.06.24

Interessa a Portugal que António Costa seja exportado para Bruxelas, para efeito de funcionar como mestre de cerimónias nas reuniões dos chefes de governo e de Estado da União?

Interessa; e não interessa.

Interessa a quem imagine que o fornecimento de personalidades para lugares de topo de organismos internacionais se traduz em vantagens palpáveis para o país, que resulta prestigiado com esses emigrantes de luxo. E não interessa a quem faça a si mesmo as perguntas que deveriam ocorrer a tal propósito (e a elas dê respostas pouco entusiasmadas), a saber: Para que serve o organismo? Por que razão iria para lá este patrício, e não um camone qualquer? Se, com as limitações inerentes a quem, na melhor das hipóteses, pode ser considerado um primus inter pares, a sua magra influência só puder ser negativa, em que ficamos?

O Conselho Europeu está a cavalo na Comissão, a qual integra um representante de cada um dos 27 países e se ocupa do dia-a-dia, isto é, trata do que é menos importante, sendo que a soma de todos os “menos” dá mais relevância ao Presidente da Comissão, que está lá para manter diariamente acesa a chama do “ideal europeu” enquanto o Conselho para harmonizar conflitos de interesses entre países. A opinião pública europeia, e até mundial, já topou a coisa: O cargo mais importante é o do (actualmente da) Presidente da Comissão e o Parlamento coloca o carimbo da democraticidade no conjunto das embrulhadas, a que acrescenta alguns lirismos quando, para acomodar maiorias, minorias ruidosas, ou garantir aprovação de nomeações, o deixam influenciar as iniciativas legislativas – as quais não lhe pertencem, o que desde logo indicia tratar-se de uma Assembleia sui generis, uma maneira simpática que encontrei para não dizer que é espúria.

É portanto preciso um Conselho, mas as simpatias eleitorais na maioria dos países, a começar pelos de maior relevo, estão a deslocar-se para a direita e esta liga mais às diferenças nacionais e desconfia de terraplanagens internacionalistas. De modo que o ambiente tenderá a ser menos pacífico: federalistas assumidos ou encapotados, europeístas frenéticos, líderes de países que querem mais poder e menos unanimidade, visionários, chocarão com quem não esteja disposto a abrir mão de mais poderes. Se o problema fosse apenas criação de pontes e gestão de sensibilidades (isto é, jogo de rins) talvez Costa fosse o ideal – lá jogo de rins tem ele.

Ir para lá é que parece menos que garantido, que há mais candidatos, e Costa tem para apresentar um passado de governante falhado nos resultados económicos e um problema judicial por resolver.

Não vou demonstrar o ponto do falhanço, aliás obscurecido porque o desempenho da União no mundo é ele próprio, nos últimos anos, medíocre, coisa que não se quer acreditar que tem uma componente na diarreia legislativa, regulamentar, metediça e burocrática da UE – Portugal perdeu lugares na Europa que os perdeu no mundo.

Quanto às sombras que pairam sobre o ex-PM, já estariam dissipadas se o Ministério Público não fosse um Estado dentro do Estado, que à boleia da repressão dos crimes de colarinho branco (e dos outros) detém poderes deficientemente sindicados e uma assinalável ineficácia, uma paz podre que apenas se mantém porque a opinião pública (e não poucos correligionários meus no largo espectro da direita que não foram bafejados pelas luzes do entendimento que felizmente me assistem) acha que os magistrados daquele organismo têm um par de asas nas costas, e os suspeitos ou acusados um par de cornos na cabeça. Esta originalidade portuguesa talvez não seja compreendida lá fora e as suspeitas sejam levadas a sério. E se, num caso ou noutro, não forem, pode dar jeito fingir.

Admitindo que vá, e que pode ter alguma influência, é preciso ter uma grande ingenuidade (ou ser socialista) para supor que pode desempenhar um papel positivo. Porque o homem é a favor de mais Europa quando é preciso menos; e porque acredita piamente que o desenvolvimento vem da mistura de apoios (isto é, subsídios nascidos de impostos), à escala europeia como à nacional, em conjunto com mais dirigismo e menos liberdade económica.

Que concluir então? Hesito: se a escolha fosse entre Costa e um tipo mais liberal, e menos disposto a cavalgar fantasias perigosas como o futuro verde a golpes de directivas (que já pôs de joelhos a indústria automóvel alemã, por exemplo, por causa da “aposta” voluntarista nos eléctricos) por este optaria, mesmo que fosse um Francês. Mas não: é entre ele e outro tenébrio oriundo daquela família política.

Temos o prestígio nacional, diria (se é que ainda não disse) Marcelo. O prestígio que não têm os infelizes naturais da Noruega ou Suiça, que estão fora, ou da Dinamarca, Suécia ou Irlanda, que estão dentro, ou, já agora, da maioria dos países, incluindo os que já nos ultrapassaram. Que Marcelo fique lá com esse prestígio, que não é muito diferente do do galo de Barcelos, que eu fico com o risco de ter um Português a envergonhar-nos, como Guterres na ONU.

Neste ponto, tenho a tentação de afirmar que Costa para Presidente do Conselho nem mo-lo digas. E todavia dois factores me levam a reconsiderar: quem lá esteja não faz realmente diferença, o que conta são as relações de força entre os países, cujas posições são por sua vez tributárias das dos respectivos eleitorados; e, com Costa lá, pelo menos não está aqui.

De modo que sim, apoio Costa nesta maré. Mas, se perder ele, não perco o sono eu.

Sempre igual, sempre por achar

Pedro Correia, 20.06.24

Ouço repetir que não se deve regressar a um sítio onde se foi feliz. Nada mais errado. Pelo contrário, devemos voltar aos locais onde vivemos instantes de felicidade. Necessitamos como de pão para a boca deste ritual - as mesmas caras, as mesmas vozes, os mesmos odores, as mesmas paisagens. Um banho lustral que nos devolve à essência da vida, feita de contínuos recomeços.

Devemos voltar sempre, reeditando o exemplo de Ulisses no ansiado regresso a Ítaca: sempre igual, sempre por achar.

DELITO há dez anos

Pedro Correia, 20.06.24

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João André: «A Espanha vai certamente continuar a ser uma favorita em Europeus e Mundiais. Prontos para entrar estão Koke, de Gea, Javi Martinez, Illarramendi, Isco, Herrera, Thiago, Deulofeu, Jesé, etc. E ainda se manterão Busquets, Piqué, Ramos, Alba, Fábregas, Iniesta, Costa, Silva, Mata e, talvez, Casillas, que em dois anos não desaprendeu de ser guarda-redes. Xavi poderá não ter sido necessariamente o melhor jogador da história da selecção espanhola (em termos de puro talento outros poderão reclamar também o manto), mas foi sem dúvida o mais importante.»

 

José Gomes André: «A eleição do próximo Presidente da Comissão Europeia adquire grande preponderância. O PPE encontra-se porém num complexo labirinto, em parte por si gerado: prometeu que Juncker seria o escolhido caso vencesse as eleições, mas uma vez conhecido o resultado, regressou ao velho jogo de bastidores da política europeia, onde dominam os egos, os números de circo e a estrita defesa dos “interesses nacionais”. Como acaba esta história? Em mês de Mundial, provavelmente ao jeito do famoso ditado futebolístico dos anos 90: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha – ou seja, a escolha de Merkel...»

 

Teresa Ribeiro: «Enquanto janto, à hora dos telejornais, as imagens da Síria e do Iraque por vezes chegam-me difusas. É a banalização e a distância a produzir os seus efeitos. Os mesmos que se produzem nos decisores políticos e nos que por diversos motivos conseguiram passar pelos intervalos da chuva desta crise. Enquanto comem o bife já não vêem realmente o que corre no ecrã acerca das vidas que condicionam, regulam ou simplesmente lhes passam ao lado. Até porque à frente de um ecrã todos somos passivos.»