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Westworld e a complexidade

por Luís Naves, em 06.12.16

dolores waking up westworld episode three.png

 

A série Westworld, cuja primeira temporada terminou ontem, não é apenas um clássico da televisão, mas uma das mais perturbadoras obras de ficção que tenho visto. Na televisão do futuro, existirá um antes e um depois de Westworld, pois atingiu-se ali um novo patamar na qualidade do argumento e na profundidade das personagens, na complexidade das ideias, na mistura de narrativas e de camadas temporais. Tal como acontece aos turistas humanos que percorrem aquele mundo, o espectador é confrontado com uma imensa teia de possibilidades e julga descobrir elementos que só ele está a ver: não haverá duas opiniões iguais sobre os episódios da primeira temporada, nem será dada por duas pessoas diferentes a mesma importância a informações que, pelo menos na aparência, nos foram proporcionadas como verdadeiras. Nunca uma série de televisão tentou ir tão longe na liberdade concedida a interpretações da história, enigmas narrativos ou ambiguidade das personagens.

A série levantou questões sobre liberdade, memória e consciência, inteligência artificial, destino, limites do humano e da tecnologia, a moderna indiferença, mas sobretudo sobre a impiedade perversa e a manipulação da realidade, dois aspectos da sociedade contemporânea que certamente farão parte do nosso futuro. Para mim, o mais difícil foi perceber que a nudez e a violência, quando aplicadas a máquinas, não tinham a mesma capacidade de me incomodar do que na circunstância dessas mesmas cenas envolverem personagens que eu considerasse pessoas. Explico melhor: os autores mostraram claramente que os seres que estavam a ser torturados, maltratados ou mortos, de forma extremamente cruel, eram máquinas que, no dia seguinte, estariam de novo na sua tarefa de cumprir uma narrativa pré-programada e inflexível, sem memória da dor sentida nas violações, torturas ou homicídios; o destino trágico repetia-se todos os dias, (Dolores deixava sempre cair a lata de conserva nas mesmas circunstâncias), com pequenas alterações resultantes da interacção com os turistas, mas sem livre arbítrio.

Nós, espectadores indefesos, ao entrarmos neste conceito, passámos a funcionar como os turistas, estávamos a ver o que acontecia a máquinas programadas, e não tínhamos a mesma sensação de horror pela violência que lhes caía em cima. A nudez dos robôs nunca foi erotismo, mas vulnerabilidade. Na prática, os autores da série conseguiram manipular os espectadores criando um efeito de desumanização dos robôs, que do nosso ponto de vista formam um grupo separado, cuja rebelião, porventura justa, tem os limites da manipulação da realidade que lhes é imposta. Por este mecanismo, que já transformou pessoas cultas em nazis homicidas, aderimos facilmente à falta de compaixão que os turistas demonstram. A morte de personagens-pessoas, nesta série, perturbou-nos sempre mais do que a morte (ridícula, grotesca ou gratuita) das personagens-máquinas. Não haja dúvida: estivemos do lado das pessoas, apesar da ganância e maldade que estas manifestaram.

Para onde irá a segunda temporada? Aparentemente (tal como acontecia no filme original) há outros parques temáticos. As máquinas estão a evoluir e tornam-se progressivamente conscientes; vamos talvez estar mais do seu lado, mas os deuses (que somos nós) continuarão a dominar o mundo deles; tudo o que vimos é provavelmente engano, como aconteceu na genial cena pirosa da morte de Dolores, a máquina que resume a ideia da busca da beleza e da liberdade que define o humano, a robô que possui a centelha da consciência e da vida e que, segundo parece, vai liderar a rebelião. Enfim, seremos turistas neste explosivo e contraditório Westworld, que não é um mundo a preto e branco, daqueles que a televisão nos deu até hoje, onde a gente sabia exactamente onde arrumar o bem e o mal.

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7 comentários

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De Pedro Soares a 06.12.2016 às 12:58

Quem sabe se nós próprios não somos anfitriões para turistas ricos como o Trump :)
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De V. a 06.12.2016 às 13:48

Concordo em grande parte.

Para além do estupendo genérico com uma música absolutamente genial que mistura vários géneros de música desde uma frase "western" a um "indent" estilo inglês para série policial — esta série aborda questões filosóficas cruciais sobre tecnologia, "administração" e natureza humana que serão preocupações de sempre e do futuro através de personagens memoráveis e diálogos magistrais. Creio porém que há por ali a tentativa (ou o hábito) de mascarar um enredo relativamente linear com alguns obstáculos deliberados de tempos em que decorre a acção para tornar a coisa mais interessante ou mais longa (o que não é de todo necessário) e nesse aspecto há ali um ou dois episódios que arriscam criar alguma confusão narrativa. Mas, sim, absolutamente top-notch.
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De Diogo Noivo a 06.12.2016 às 14:17

Muito bom, Luís.
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De Bordalo a 06.12.2016 às 14:46

Faz-me lembrar o livro - Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip Dick.

Sim quanto à despersonalização temos vários exemplos. Desde os Índios e os Negros, que não tinham alma, passando pelos judeus, que eram bacilos, até aos refugiados que mais que humanos são terroristas.
Deixam da haver vitimas, apenas vitimizações.

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De André Miguel a 06.12.2016 às 14:55

Gosto. Mas Blade Runner já colocava estas questões de forma brilhante e, a meu ver, insuperável.
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De V. a 06.12.2016 às 22:06

Sim, WW não tem nada de novo - mas a discussão da consciência provir da memória e o conhecimento não ser uma pirâmide mas um "centro" são refinamentos filosóficos em BR só se podem intuir e aqui são a chave da história, para lá da "alma" do robot que por exemplo é negada ao andróide David (dica: atenção ao nome) no filme Prometheus.
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De João Campos a 07.12.2016 às 19:57

Não sei se supera ("Blade Runner" é icónico e, de resto, estas coisas acabam sempre por ser muito subjectivas), mas "Ghost in the Shell", tanto na banda desenhada original como no filme de 1995 como ainda na série televisiva de 2002, chegou lá muito perto.

Para nem irmos para a literatura, onde estas coisas já eram discutidas muito antes de o Ridley Scott se lembrar de adaptar - muito livremente, já agora - o romance de Philip K. Dick para cinema.

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