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Viva a Europa

por Rui Herbon, em 24.05.14

As eleições europeias transformaram-se na melhor oportunidade para os partidos extremistas: no caso do Reino Unido e França com claras hipóteses de terminar a corrida eleitoral na primeira posição, noutras nações europeias adquirindo uma indiscutível importância interna, e em todos eles perante a indiferença de uma grande parte da sociedade, que atingida por uma dura crise económica não se sente suficientemente interessada pelos assuntos europeus. Parece esquecido o entusiasmo dos europeístas que construíram as fundações da União para desterrar da Europa a dramática experiência de duas guerras, ou o fascínio dos primeiros passos para uma verdadeira união política, ou a esperança que o projecto europeu supôs para os países ex-comunistas. 

 

Não resta dúvida de que a crise tem muito que ver com o desânimo europeu, mas não é a única causa, nem sequer a mais profunda. A meu ver são duas as causas de longo alcance para entender o aturdimento dos cidadãos da União Europeia: o desaparecimento da política do processo de construção europeu e a dificuldade que os cidadãos dos diversos países têm – carregados que estão com uma poderosa simbologia sentimental de carácter nacional – para definir um âmbito afectivo e simbólico europeu comum.

 

Os dirigentes europeus, contagiados por um pós-modernismo ideológico, quiseram basear a construção europeia exclusivamente nos interesses dos diferentes países, esquecendo que as realidades políticas precisam de sonhos, esperanças, sentimentos; enfim, que tornem aceitáveis os desafios, os esforços e os sacrifícios. A política é a síntese do discurso com a acção, e quando falha um dos componentes tende a desvalorizar-se ou a desaparecer. O desaparecimento da acção em favor do discurso deixa-nos na inanidade, e o desaparecimento do discurso deixa-nos perante uma maquinaria que desumaniza o ser humano; e foi nisso que se converteu a arquitectura funcional da União Europeia, numa burocracia sem sentido nem sentimento.

 

A falta de política na Europa notou-se na demora em enfrentar a crise económica dos países do sul, com os órgãos comunitários reféns das hesitações alemãs, na inexistência de políticas fiscais e financeiras de âmbito continental, na irrelevância da Europa na crise ucraniana ou em como deixámos sem protecção os países africanos da bacia mediterrânica, envolvidos num conflito entre a modernidade e a medievalidade religiosa, que pode acabar por impor-se nessas sociedades vizinhas perante a nossa indolência política e diplomática. A mera administração das coisas oculta o interesse da classe dirigente europeia por não se sacrificar, por não se esforçar, ao contrário do que fariam os líderes de qualquer nação que visse perigar os seus interesses mais transcendentes; acreditaram que haviam inventado uma forma asséptica e indolor de governar, quase de viver.

 

Só que a crise económica, a deslocação do progresso económico, e sobretudo tecnológico, para Leste, transformando o oceano Pacífico no eixo do futuro, coloca-nos perante uma evidência: a aventura europeia não está encalhada por não ter sentido histórico, mas devido ao domínio dos egoísmos nacionais e ao receio de transformar o projecto europeu numa realidade equivalente aos outros grandes actores globais.

 

O interesse substituiu a ideia original de evitar as catástrofes da primeira metade do século XX, e durante estes últimos cinquenta anos fomos incapazes de construir uma história europeia digna das muito ricas e antigas que encontramos nas diferentes nações que integram a União, que uma por uma foram consecutivamente o centro da história desde há mais de dois mil anos.

 

No entanto é impossível um ambiente político estável e duradouro sem uma moldura simbólica que o delimite, e a história joga um papel principal nesse esforço. Não podemos desanimar perante um desafio como o que representa a construção europeia, mas devemos ter em conta que a história não pára por conveniência de interesses mesquinhos; ou fazemo-la nós, ou fá-la-ão outros, com uma vontade de protagonizar o futuro que não tiveram no passado.

 

Por mais caótica que pareça a presente situação continuo a pensar que a Europa é a solução. Na realidade é o desafio: representa a ambição de querer fazer algo num mundo em revolução. E essa ambição tem uma justificação indiscutível: assumindo erros, muitos deles trágicos, a Europa foi, com todas as suas contradições, onde a civilização rompeu os grilhões da incultura, do fanatismo e dos despotismos políticos e adquiriu a grandeza suficiente para tornar o homem dono do seu presente e do seu futuro. É tudo isto que se joga amanhã. E não é pouco, parece-me.

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1 comentário

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De Pedro Correia a 25.05.2014 às 12:10

Subscrevo, Rui. Do princípio ao fim.

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