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Pensamento da Semana

por Francisca Prieto, em 09.09.17

 

Antes meditação do que medicação.

 

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Do Pico

por Francisca Prieto, em 21.07.17

Há uns quantos dias que fazes tenções de te sentar a escrever sobre as gentes do Pico. Mas não tens conseguido baixar o volume do que se passa à tua volta de forma a estruturar o que trouxeste debaixo da pele.

Quando começaste as tuas primeiras viagens, preferiste lugares longínquos, sempre na ideia de que os Açores era um destino para visitar na meia idade.

Hoje, ainda que muitos dias te sintas uma miúda, tens essa meia idade. Talvez tenha sido por isso que foste finalmente aos Açores. Mas o que não podias prever era que antes da meia idade e antes de teres calcorreado mundo, nunca irias conseguir perceber a Ilha do Pico. Nunca terias um aperto a disparar do coração para a garganta de tanto que tu, que não percebes nada de ilhas, que não tinhas qualquer interesse em ver baleias e que queres lá saber de rocha vulcânica, sentes que aquele recanto do mundo faz parte de ti.

Nunca poderias imaginar que o azul cerrado do Atlântico, que te entra pelos olhos a cada curva da estrada e que se mistura com os muretes negros que acondicionam a vinha, te levariam de volta à simplicidade da tua essência.

Ficas a saber histórias de baleeiros, desses homens que por valentia, galhardia e fome, se atiravam ao mar em botes para levar um punhado de dólares para casa. Ficas a saber que o terreno da ilha era tão árido e rochoso que não havia forma de cultivar os alimentos mais essenciais. Percebes, mais uma vez, a fome. Ficas a saber que se importou terra do Faial para distribuir pela base rochosa e plantar vinha. Que se fizeram pequenos rectângulos de rocha vulcânica em redor da vinha para proteger as uvas do vento e da humidade. Que hoje, esse engenho de sobrevivência, que tornou a paisagem estarrecedora, é património da UNESCO. Que o vinho é diferente de qualquer outro que tenhas experimentado porque te escorrega pela garganta e te deixa no palato um rasto a sal idêntico ao que levas no corpo depois de um dia a mergulhar

Descobres a estrada do meio da ilha, debruada a hortenses de todas as cores, que tens de partilhar com manadas de vacas que não conhecem sinais de trânsito.

A montanha é omnipresente e tens vontade de a subir, mas ainda não calhou embarcares nessa aventura.

Deitas-te à noite com a chinfrineira dos cagarros, sabendo que mesmo ali defronte moram baleias, golfinhos e tubarões.

E sabes, sem perceber exactamente porquê, que tudo aquilo passará irremediavelmente a fazer parte de ti.

 

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A América

por Francisca Prieto, em 27.06.17
Lembras-te que, quando eras da idade da Rita e ias a Lisboa, o teu pai, que tinha mau génio, te levava a almoçar ao Great American Disaster. O teu pai era um paradoxo de onde saltava uma palmada à mesma velocidade que criava rituais de amor inesquecíveis.
Para ti, comer um hambúrguer e beber um batido no Great American Disaster era o mais próximo de ir à América que conhecias.
Anos mais tarde, foste para a América durante muito tempo. E o teu pai escrevia-te cartas muito compridas que, de tanto pormenor, te traziam com alegria de volta a Portugal. Mesmo quando a tua avó morreu, mesmo quando o teu irmão teve um acidente de mota do qual levou uma data de tempo a recuperar.
Mas a tua América começou ali, naqueles almoços onde podias escolher tudo o que quisesses, até rebentar. Na verdade, foi o teu pai, que nunca foi à América, quem te mostrou pela primeira vez a grandeza daquele continente.
Hoje foi a tua vez de levar a tua filha à América num copo de batido de morango. E esperas que lhe tenhas conseguido despertar o mesmo gosto que a ti te fez querer calcorrear o mundo.

 

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 16.06.17

Bloomsday é o único feriado literário do mundo. Celebra-se na Irlanda, no dia 16 de Junho, que é o dia do ano que James Joyce escolheu para o desenrolar da narrativa da sua obra Ulisses. A história, famosa por se passar num só dia, segue a vida e os pensamentos de Leopold Bloom das 8 da manhã do dia 16 de Junho de 1904, até à madrugada do dia seguinte.

As celebrações tomam várias formas, desde representações de cenas do livro com roupas da época, leituras, palestras, visitas a lugares referenciados na história ou até mesmo a reprodução do pequeno almoço que Leopold Bloom tomou na manhã de 16 de Junho. Inclui fígado e rins, juntamente com outros ingredientes típicos de um pequeno almoço irlandês frito.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 15.06.17

Definição de Clássico, por Alan Bennett:



"a book everyone is assumed to have read and often thinks they have".

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 31.05.17

COMENTÁRIOS EM CARTAS DE REJEIÇÃO DE EDITORES:

 

O RETRATO DE DORIAN GRAY – Oscar Wilde

(1891)

“Contém elementos desagradáveis”

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 29.05.17

COMENTÁRIOS EM CARTAS DE REJEIÇÃO DE EDITORES:

 

UMA CONSPIRAÇÃO DE ESTÚPIDOS – John Kennedy Toole

(1980)

“Obsessivamente estúpido e grotesco”.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 27.05.17

COMENTÁRIOS EM CARTAS DE REJEIÇÃO DE EDITORES:

 

O DEUS DAS MOSCAS – William Golding

(1954)

“Não nos parece que tenha sido bem sucedido a trabalhar uma ideia que admitimos poder ser promissora”.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 24.05.17

Numa livraria do aeroporto de Atlanta, uma senhora idosa agarra num volume de As Cinquentas Sombras de Grey e comenta para outro cliente da loja, num delicioso sotaque sulista - “I heard this is a lovely book”.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 22.05.17

No avião de regresso de um jogo em Kiev, o jogador veterano de futebol John Terry estava a ler a autobiografia do jogador veterano de futebol Steven Gerrard.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 17.05.17

Ouvido numa loja de caridade em Gloucestershire: “I don’t like biographies. It’s all just a bit me-me-me.”

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 15.05.17

Muito útil para leitores ávidos, a palavra japonesa "tsundoku" significa "acto de comprar um livro e deixá-lo por ler, tipicamente ao lado de uma pilha de outros livros que ainda não foram lidos".
Aposto que aqui pelo Delito passa uma série de gente com graves problemas de tsundoku. Felizmente, porque um bom leitor precisa de ter sempre à mão inúmeras possibilidades de avançar para a próxima leitura.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 11.05.17

O apelido de William Faulkner é, na realidade, "Falkner". Parece que o tipógrafo que assumiu os comandos do seu primeiro livro se enganou, acrescentando um "u" e que o escritor preferiu viver com um novo nome do que maçar-se a corrigir o seu editor.
Ao contrário do que se pensa, afinal há autores que não são nada picuínhas.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 08.05.17

Ao fazer login na sua conta da Amazon, um londrino descobriu que um hacker tinha usado a sua conta para comprar, nada mais, nada menos, do que vinte e sete livros. Um pormenor particularmente intrigante do crime, do ponto de vista moral, foi que todos os títulos comprados pelo ciber vigarista eram sobre o tema “Ser Um Bom Cristão”.

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Périplo de Livrarias em Nova Iorque

por Francisca Prieto, em 18.01.17

Na semana passada, a Livreira Acidental concretizou um velho sonho e, argumentando tratar-se de uma viagem de trabalho, fugiu para Nova Iorque para vasculhar todas as boas ideias que pudesse encontrar, por entre as livrarias da cidade.

Após quilómetros de quarteirões calcorreados e de opiniões tomadas, resolveu partilhar aquelas que considerou serem as quatro livrarias obrigatórias para um livrólico convicto.

 A McNally Jackson, na Prince Street, no Soho tem a característica de ter os livros organizados por zonas geográficas. Para além de ser um espaço com bastante personalidade, oferece uma variedade considerável de excelentes autores e revistas literárias.

 A 192 Books, em Chelsea, é uma livraria pequena mas tem uma selecção absolutamente excepcional de títulos. Percebe-se logo que o dono é alguém com um gosto literário apurado. À conversa, descobrimos que é gémeo de Fernando Pessoa - ambos nasceram a 13 de Junho - e que por isso tem o grande sonho de um dia vir a Portugal.

 A Housing Works é uma livraria solidária, onde todos os livros são doados, o staff é voluntário e 100% dos lucros revertem para uma instituição que oferece apoio a cidadãos com HIV e a sem abrigo. É aqui possível encontrar algumas raridades a óptimos preços.

 A Strand é a catedral do livro. Juntando livros novos e em segunda mão, é o paraíso para quem gosta destas andanças. Apesar de enorme, é uma livraria super personalizada, cheia de sugestões por todos os cantos e com secções temáticas de quilómetros.

Se só puder visitar uma livraria, atire-se à Strand. É possível passar lá uma tarde inteira sem nunca se aborrecer.

 

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Porque é Natal

por Francisca Prieto, em 22.12.16

Nos últimos dias tenho querido escrever sobre o Natal, mas confesso que com a brutalidade que vai por este mundo fora, fico com a sensação de que só consigo falar de banalidades.
Quando sabemos de gente que é assassinada à luz do dia, de famílias que levam com bombas em cima da cabeça e autocarros que trespassam multidões, parece que qualquer menção a rabanadas é uma falta de respeito.
Não me interpretem mal. Gosto de ouro, de incenso e de mirra. Mas parece que entre o avanço da idade e a desgraça que vai no mundo, estas coisas vão tendo cada vez menos importância.
Fica-nos um aperto por quem passa mal. Mas talvez esse aperto nos faça voltar ao essencial. À reflexão de como podemos ser melhores no ano que se avizinha, à mensagem que queremos passar aos nossos filhos sobre a importância dos gestos de amor, à escolha de ofertas que tenham a nossa marca e que despertem uma alegria no coração de quem as recebe.
Há vários anos que, em casa dos meus pais, cada pessoa só recebe um presente. Com a pelintrice que foi assolando toda a família, o orçamento da oferenda já vai num louco máximo de 10 euros. Mas é incrível como todos os anos temos sido capazes de puxar pela criatividade de maneira a continuar a fazer da manhã de dia 25 uma animação. Há sempre alguém que descobre uma foto hilariante, ou um pimenteiro gigante para quem não passa sem temperos fortes, ou um garrafão de nutella para o guloso máximo, ou um disco da Tonicha, ou seja lá o que for. Na verdade, não é o ouro que nos une (felizmente, que senão era uma tragédia), é o sentido de humor e a cumplicidade que temos uns com os outros.
Que este Natal seja mais um tempo para trocarmos gargalhadas, que é, afinal, a nossa dádiva de afecto. E que em 2017 tenhamos todos energia para contribuir para um mundo mais sereno.

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Balanço das Leituras de 2016

por Francisca Prieto, em 20.12.16

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O ano começou com Butcher’s Crossing de John Williams. Confesso que só me atirei ao livro porque me tinha rendido a Stoner uns meses antes. Stoner é um livro triste, mas lindíssimo, dos que só quem conhece os meandros do coração humano pode escrever.

Burcher’s Crossing é de uma violência atroz. Seria natural tê-lo deixado a meio pelo incómodo que me causou, mas está tão bem escrito que ficamos rendidos pelas páginas fora. É um “livro de rapazes”, à moda dos cowboys americanos, que vai ao fundo da cobiça humana e que nos destrói pelo caminho.

 

Disse-me Um Adivinho, de Ticiano Terzani, foi outra leitura improvável. Não tenho grande paciência para zodíacos, oráculos e afins. Mas foi-me tão recomendado que cedi e acabei por me render. Provavelmente porque o próprio autor era também um céptico relativamente a estas questões e, tendo mudado um ano da sua vida por causa de uma profecia, escreve sempre no fio da navalha da crença. Correspondente na Ásia de um jornal alemão, Ticiano Terzani um dia consulta um adivinho que lhe diz que em 1993 não pode voar, ou que algo de trágico lhe acontecerá. Não sendo crente, encara a profecia como um desafio para ter um ano diferente, pelo que resolve fazer todos os seus trajectos por terra. E é assim que vamos viajando por diferentes países asiáticos, dos quais ficamos a conhecer as entranhas, e entramos no misterioso mundo dos adivinhos orientais, que por vezes soam a charlatões e que, por outras, são verdadeiros magos.

 

Ham on Rye (julgo que “Pão com Fiambre” na versão portuguesa) de Bukowski foi uma das grandes leituras do ano. Já conhecia a versão adulta desbocada de Bukowski, mas nada sabia sobre a sua infância e adolescência. Ham on Rye é uma biografia dos seus verdes anos e uma peça essencial para perceber quem é o autor.

 

A Vida no Campo, de Joel Neto, foi encetado num voo para o Pico. Não podia ter escolhido melhor companhia. Trata-se de um conjunto de deliciosas crónicas de um açoriano que volta a morar nos Açores depois de vários anos em Lisboa. A visão de quem já esteve fora e consegue apreciar todas as pequenas idiossincrasias dos seus conterrâneos.

Muito bem escrito, com um pingar de ternura que não chega a ser lamechas.

 

Doce Carícia de William Boyd é o livro com os mais desadequados título e capa que já vi na vida. Quem passar por um escaparate pensará que se trata de um livro para oferecer à avó. Não sendo um Nobel, é um excelente livro de férias, que conta a história de vida de uma repórter de guerra. Às vezes até nos esquecemos que é ficção.

 

Fecho o balanço do ano com O Meu Nome É Lucy Barton de Elisabeth Strout. Há livros cuja história não consigo reproduzir porque não me fica na memória. Mas fica a sensação que me deixaram. Este é um desses casos, em que é inútil reproduzir a sinopse porque não é disso que se trata. Claro que me lembro que é a história de uma mulher que está numa cama de hospital e cuja mãe, que nunca foi particularmente afectuosa, a vai visitar. Mas nada disto faz adivinhar a ternura que nos invade ao passar de cada página e a vontade que temos de que o livro nunca acabe porque nos está a fazer uma companhia dos diabos.

 

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Delito à Mesa (6)

por Francisca Prieto, em 08.12.16

Vai para uns quantos anos que, quando chega Agosto, enfio os malotes no carro e trato do exílio familiar para a Costa Vicentina.

Gastronomicamente falando, o mês é intercalado por cachorros quentes na praia e, à noite, peixe escalado, do fresquíssimo, ali pescado por gente local. Acrescenta-se com frequência pratadas de percebes (ou perceves, consoante a corrente) e um ou outro churrasco caseiro, quando aparece um habilidoso capaz de dominar a labareda.

Há porém o dia da rebeldia. Várias famílias de amigos deixam os filhos ao abandono e marca-se uma mesa de estadão na Eira do Mel, o respeitado estabelecimento de restauração, sito em Vila do Bispo.

Assim que chegamos, começa o choradinho do “Leite Queimado”, uma rara iguaria, servida à sobremesa, que só há de vez em quando e que, quando há, acaba logo na primeira ronda de clientela. O objectivo primordial é assegurar, à partida, umas quantas doses que permitam acabar o jantar em beleza.

A Eira do Mel proclama-se como um restaurante de Slow Food e faz jus ao que promete, o que quer dizer que leva uma eternidade a servir uma mesa do tamanho da nossa. De maneira que, invariavelmente, vão chegando várias garrafas de vinho até que se consiga ferrar o dente nas entradas. Na altura de apreciarmos os magníficos ovos mexidos com morcela ou o camarão mergulhado em molho fenomenal, já soaram as primeiras gargalhadas guturais que ditam o tom para o resto da refeição.

Das entradas ao prato principal decorre mais um período de tempo considerável. Tanto, que dava para assistir a uma prova do Grande Prémio, com a parte da subida ao podium e tudo. Mas nós não reclamamos porque, para além de continuarmos entretidos nas degustações vinícolas, sabemos o que lá vem: uma cataplana de polvo com batata doce de fazer chorar qualquer coração mais empedernido.

Só por causa desta cataplana, a Michelin devia deixar-se de mariquices e atribuir cinco estrelas ao Chef José Pinheiro.

E é assim que, já com um par de grãos na asa, os convivas contam e recontam vezes a fio as mesmas histórias dos velhos tempos de Sagres, enquanto perdoam a longa espera e molham pão saloio no molho da panela.

No final, se há Leite Queimado assegurado, manda-se servir para acompanhar uns copitos de medronho, daqueles que não se devem beber sozinhos.

No dia a seguir há lamentos na praia, mas todos concordamos que o ritual se há-de voltar a cumprir. Afinal, temos doze meses para recuperar da epopeia.

 

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O Mundo Às Avessas

por Francisca Prieto, em 30.11.16

Há um par de anos, a Associação Italiana de Pessoas com Síndrome de Down produziu este filme, com jovens de toda a Europa, como resposta a uma carta que tinha recebido de uma futura mãe grávida, a quem tinham diagnosticado Trissomia 21 no feto.

Recentemente, a Alta Autoridade Para a Comunicação Social Francesa proibiu a passagem do filme por considerar que era ofensivo para mulheres que tivessem abortado bebés com Trissomia 21.

Este é talvez o filme mais realista que já vi sobre o assunto. Não doura a pílula, não diz que é fácil. Limita-se a dizer que ter um filho com Trissomia 21 não é o fim do mundo. E que, apesar das dificuldades, podemos hoje esperar que estas pessoas tenham vidas relativamente normais.

Não compreendo como é que num país onde se grita por toda a parte que se é Charlie, se censura um filme que mostra o lado bom da moeda de uma situação que parece a priori tão difícil.

Esta censura amordaça o direito dos jovens com Trissomia 21 de gritarem que são felizes. Diz-lhes que a sua felicidade pode magoar mulheres que tenham abortado pessoas como eles. Manda-os serem deficientes lá no cantinho deles, sem fazer muito estrilho.

Se isto não é o mundo virado ao contrário, vou ali e já venho.

 

 

 

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Dylan Once Again

por Francisca Prieto, em 13.10.16

Hoje o mundo veio abaixo, com um míssil disparado de Estocolmo. Atribuiu-se a Bob Dylan, o desgrenhado compositor de voz rouca, o Prémio Nobel da Literatura.

Passei o dia a ouvir opiniões de dois grupos antagónicos. De um lado, gente petrificada com a chegada do apocalipse e, do outro, malta a pulular em euforia pela ousadia da escolha. A mim, coube-me o desconforto. Porque de alguma forma, sentia que letras de canções não encaixavam na categoria.

A Velha do Restelo e a Rapariga Prá Frentex que coexistem no meu córtex pré-frontal e que arbitram os casos difíceis, degladiavam-se em argumentos ininterruptos.

Pois que letras de canções são poesia. E já foi premiado mais do que um poeta. Devia valer. E um dramaturgo? Também já foi premiado, ora. Será uma peça de teatro literatura? E o Chico Buarque? é poeta, caramba. Macacos me mordam.

E andei nisto todo o dia, a querer à brava ser a favor da nomeação de Bob Dylan para ser moderna, mas sem me conseguir render.

Até que, chegando à noitinha, e para meu grande alívio, percebi porque é que letras de canções e peças de teatro não se deviam misturar no campeonato da literatura. A questão é que, se na forma as podemos ver como semelhantes, na função nada têm a ver.

Um letrista escreve poesia para ser cantada. Um dramaturgo escreve teatro para ser levado a cena. À letra acrescenta-se música. Ao argumento, acrescentam-se actores, luzes, som.

A literatura é, simplesmente, para ser lida. Não tem outra função, não é apenas uma parte de outra coisa maior.

E nisso que reside a diferença. E é por isso que não faz sentido premiar a partir do mesmo saco.

 

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Do Princípio ao Fim (10)

por Francisca Prieto, em 02.10.16

“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.”

 

É assim que abre “Crónica de Uma Morte Anunciada” de Gabriel Garcia Márquez, o primeiro livro para adultos que li, por altura dos meus catorze anos.

Não havia margem para dúvidas. Quer o título do livro, quer o primeiro parágrafo da história, asseguravam a qualquer leitor, logo à partida, que desse lá por onde desse, Santiago Nasar haveria de entregar a alma ao criador, mais capítulo, menos capítulo.

Tratava-se de um crime de honra. Angela Vicario, uma rapariga de parcos recursos, depois de uma boda celebrada a preceito, tinha sido devolvida à família pelo marido assim que este percebeu que ela já não se encontrava intacta.

Obrigaram-na a confessar o nome do prevaricador que lhe havia maculado a honra – Santiago Nasar. E é assim que os seus irmãos gémeos, munidos de armas brancas, vão no encalço de Santiago para lhe limparem o sebo.

Só que os gémeos, sabendo o que tinham que fazer, simpatizavam com Santiago e não tinham vontade nenhuma de cumprir a missão, pelo que tentaram por todos os meios, que o confronto não se viesse a realizar.

E vamos assim avançando pelas páginas, intercalando tempos de narrativa, ora assistindo ao resultado do julgamento dos gémeos, ora acompanhando o percurso Santiago no dia da tragédia. Só que, por qualquer razão misteriosa e contra todas as evidências, convivemos até ao último parágrafo da história com a esperança de que o fatídico destino de Santiago Nasar não se venha a cumprir, mesmo quando damos por ele já de tripas de fora.

 

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As Raparigas do Bloco Começam a Maçar

por Francisca Prieto, em 26.09.16

Tenho muito pouca paciência para discussões políticas estéreis e ainda menos para gente aos berros de mão na anca. Prefiro, de caras, meter a mão na massa.

Aconteceu, no país onde vivo, que um partido fosse eleito, mas que o primeiro ministro viesse a ser o candidato da oposição. Nem sabia que isto era constitucionalmente possível, mas foi. Para possibilitar tal excentricidade, teve de se dar voz a duas favas do bolo rei, que não há meio de pararem de se esganiçar e que já começam a dar cabo dos nervos a quem quer trabalhar tranquilamente.

O primeiro assunto fracturante sobre o qual se debruçaram foi a questão do cartão de cidadã. Num país onde não se sabe por que ponta se há-de pegar, parece-me que o tema da queima dos soutiãs pode perfeitamente passar para o fim da lista na agenda parlamentar. Digo eu, que por acaso até sou mulher.

Depois, tivemos de gramar com a declaração bombástica de que o voluntariado era uma treta. Não existem dúvidas de que qualquer cidadão deve ter direito ao trabalho. Faz parte da dignidade humana e é essencial para a estabilidade das famílias. Mas misturar o direito ao trabalho com aquilo que as pessoas escolhem fazer nas horas vagas, é misturar alhos com bugalhos. Ser voluntário não é treta nenhuma. É usar tempo livre em benefício da comunidade. Há quem escolha ir ao Benfica, há quem prefira alimentar os sem abrigo. Não me macem.

Agora andam para aí a berrar aos sete ventos que “é preciso perder a vergonha de ir buscar dinheiro aos ricos”. Ora ir buscar dinheiro seja a quem for é, na sua essência mais elementar, roubar. Seja a ricos, seja a pobres, seja a remediados.

Claro que há para aí muita gente que enriqueceu a praticar a bandidagem. Mas há, em igual número, quem tenha corrido riscos, dado emprego a muita família e se tenha matado a trabalhar para ter uma conta bancária confortável. Gente que já pagou os impostos duas vezes: primeiro através dos lucros da empresa, depois com base no seu rendimento individual. Gente que abdicou da sua segurança para arriscar em negócios que não ofereciam nenhuma garantia à partida. Gente que perdeu dinheiro pessoal de um lado mas que conseguiu vir a ganhar noutro. Gente que, através do seu talento e do seu esforço, contribuiu para o crescimento económico do país. A essa gente, gostava que o estado oferecesse incentivos em vez de ameaças. Parecer-me-ia uma atitude bastante mais produtiva.

Não macem as pessoas, caramba, que isto é muito cansativo.

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Aventuras de Uma Livreira Acidental

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Hoje, a propósito do Festival Internacional de Cultura, a Déjà Lu andou em polvorosa. A RTP tinha-nos pedido para filmar um par de entrevistas numa das nossas salas e nós não nos fizemos rogados. Estendemos a passadeira vermelha e vergámo-nos em vénia, mortinhos por assistir a tudo.

O primeiro entrevistado foi Andrew Morton, famoso biógrafo de várias personalidades, incluindo membros da família real inglesa. A conversa foi muitíssimo interessante, mas confesso que tinha o coração em pulgas. Sabia que o segundo convidado seria David Lodge. Ora, eu adoro o David Lodge, a tal ponto que já li três vezes o “Terapia” e sei várias passagens de cor.

De maneira que quando a equipa técnica, entre uma entrevista e outra, comentou que “o outro” ainda não tinha chegado, tive de me insurgir e de perguntar se se estavam a referir naqueles termos miseráveis a Sir David Lodge.

Lá chegou então o senhor, muitíssimo discreto, que se deixou entrevistar com toda a candura.

No final, convidei-o a visitar a livraria. Expliquei-lhe que se tratava de uma livraria solidária, cujos lucros eram destinados a 100% para projectos de profissionalização de jovens com Síndrome de Down. Neste momento fui interrompida: “Down Syndrome, you said? Do you know that I have a son with Down Syndrome?’”.

E foi assim que tive direito a uma prolongada cavaqueira com um dos meus escritores predilectos, que autografou com toda a boa vontade e simpatia uma data de exemplares que lhe fui pondo à frente com toda a lata do mundo.

Depois, convidei-o a voltar à livraria para passar pelas brasas num dos nossos cadeirões, prometendo que não o ia maçar nada, nada, nada. Mesmo nada.

A vida às vezes dá-nos cada presentão.

 

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Eu, em estado de comoção apocalíptica. 

 

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Noite de calor insuportável. Chego à cozinha e dou com as Prietas de impermeáveis vestidos, uma delas a jantar de gorro de orelhas. Explicam-me que fizeram uma breve interrupção nas suas investigações. Que são espias russas e que já encontraram uma data de pistas para a resolução do enigma. Mostram-me a lista, escrevinhada à pressa num pedaço de papel rasgado de um bloco:

  • Duas balizas de futebol
  • Uma bicicleta
  • Um carro amarelo

E eu digo, tá bem, e fico descansada por terem tido o bom senso de se agasalharem enquanto investigam casos sérios na Sibéria.

Uma mãe preocupa-se sempre com os agasalhos dos filhos, mesmo que pertençam ao KGB.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

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Ser mãe de rapazes é dar com "Lord Eder" escrevinhado na poeira do capô do carro.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 07.09.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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O André da Fernanda

por Francisca Prieto, em 06.09.16

Foi-se embora o André da Fernanda. E eu vou lendo mensagens e artigos intercontinentais, escritos por gente séria, impressos em publicações de prestígio a falarem do André da Fernanda. Da sua intransigência enquanto editor. Da sua espada alçada contra o moinho da literatura menor. Da forma como nunca colocou interesses comerciais à frente de boa poesia ou, ainda mais difícil, de grande dramaturgia.

Hoje, por exemplo, o Bernardo Carvalho escreveu um artigo na Folha de S. Paulo que gostaria de ter sido eu a escrever, não só porque acredito que se não existissem editoras como a Cotovia, a oferta de literatura em Portugal seria dolorosamente parca, mas sobretudo, porque gostaria de ter privado mais com ele.

Só o conheci como o André da Fernanda, com o respeito, a admiração e o amor que a Fernanda tinha por ele. Com as suas idiossincrasias e teimosias. Com o seu sentido de humor singular e a sua vontade de fazer o que lhe desse na real gana.

Uma vez resolvemos organizar um sarau de poesia. A Fernanda ofereceu a casa e nós, ingénuas, sugerimos que convidasse o André para participar. Horrorizada, respondeu-nos que era melhor deixá-lo ir jantar fora, que era homem para, ao primeiro verso que falasse de mirtilos, sair porta fora dizendo que era só o que lhe faltava aturar uma coisa daquelas.

Têm uma sintonia, aqueles dois. Mesmo agora. Vêem coisas que nós não vemos e guardam retalhos do quotidiano para trocar à desgarrada, com aquela souplesse que vive inerente à mais fina ironia.

Ficaram-lhes as saudades. Um do outro. E aposto que continuam a coleccionar frases deliciosas para se oferecerem um dia, quando se encontrarem na eternidade.

 

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Polémica Fracturante na Fajã de Baixo

por Francisca Prieto, em 05.09.16

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Transcrevo as letras pequenas da notícia que apresenta o tema mais fracturante da actualidade da Fajã de Baixo, na Ilha de São Miguel:

Presidente da Casa do Povo da Fajã de Baixo acusa o director da Casa de Saúde de São Miguel "de se apropriar" da realização do Festival da Sopa, que há 18 anos tem lugar na freguesia, numa iniciativa da instituição particular de solidariedade social.

Senhor Director da Casa de Saúde, não tem vergonha? Se quer protagonismo, faça favor de promover um Festival do Ananás, uma Barrigada de Pão de Massa Sovada, uma Tertúlia de Queijo de São Jorge. Deixe lá a malta da sopa dar à colherada em paz. Afinal, já o fazem há 18 anos. É uma maioridade, caramba.

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Amor Vulcânico

por Francisca Prieto, em 04.09.16

Este ano calhou ir aos Açores e passar de esguelha pela ilha do Faial. Fiz questão de visitar o Vulcão dos Capelinhos. Não porque me interesse particularmente por catástrofes naturais, mas porque me lembro de sempre ter ouvido dizer que o meu pai tinha sido um dos operadores de câmara destacados para cobrir o acontecimento. Em 1958, com a RTP a dar os primeiros passos da televisão em Portugal, lá embarcou o pai Zé António nesta aventura, com os parcos recursos que na época existiam.

Consta que foi durante as filmagens que tomou a resolução de casar com a minha mãe, de maneira que a boda se celebrou um ano mais tarde. Depois nascemos nós em escadinha, e ainda hoje permanecem juntos com um companheirismo e sentido de humor invejáveis.

Ora eu sou uma sentimentalona incorrigível, de maneira que, estando nas redondezas, não podia perder a oportunidade de visitar o local onde uma decisão deste calibre tinha sido tomada. Lá fui, com marido e filhos e, apesar da paisagem crua, não consegui deixar de me comover quando vi a minha filha Rita saltitar por entre as pedras com uma fita cor de laranja no cabelo. De alguma maneira, passados quase sessenta anos, dei com uma neta a marcar o amor dos avós, levando um traço de cor a este local de cinzas.

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 03.09.16

Rita Prieto, oito e meia da manhã:
Mãe, quem foi a Floribela Espanca?


(mãe ainda emudecida com o choque)

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Cá Por Casa

por Francisca Prieto, em 01.08.16

Mãe e filho, pela estrada fora, com o ipod (da mãe) em versão shuffle. Às tantas, calha-nos o Space Oddity do David Bowie. Quando me preparava para suspirar de nostalgia pelo Major Tom, oiço uma voz enfadada a perguntar se não dava para mudar para a Mega Hits.
É por estas e por outras que decidi instituir um regime totalitário na minha viatura.

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Li esta notícia ontem. Anuncia que Portugal terminou os Primeiros Jogos da Trissomia, em Itália, com 33 medalhas, seis delas de ouro, numa espécie de Olimpíadas que juntaram cerca de 750 competidores de 36 países.

Confesso que a princípio achei que estava no meio de um skech dos Gato Fedorento, tipo ah e tal, agora até os trissómicos portugueses são melhores do que os outros, querem lá ver. Mas depois pareceu-me óbvio o motivo que está por detrás deste sucesso.

Portugal é um dos países mais avançados em termos de integração. Neste momento, virtualmente todas as crianças com trissomia 21 frequentam sistema regular de ensino. E, a par com isso, praticam actividades em ambiente não exclusivo. Lá vão para a natação, para o judo, para os escuteiros, para o pingue-pongue, para a ginástica, ou seja lá para onde for, treinar em conjunto com crianças perfeitamente normais.

Isto torna a fasquia alta. Faz com que cada um deles, não obstante as suas dificuldades, se paute pela normalidade.

E este ambiente, que só é possível porque quer os pais, quer os treinadores, acreditam que eles são capazes, faz com que consigam realmente superar qualquer expectativa. É este ambiente que faz deles campeões.

Na maior parte dos países, mesmo nos mais avançados, estas crianças são colocadas em ambientes exclusivos. É perfeitamente defensável dizer que há vantagens nessa opção: trabalham com professores mais preparados, fazem desporto adaptado às suas dificuldades e convivem na maior parte do seu tempo com os seus pares. Mas, do meu ponto de vista, são menos desafiados. É como se criássemos escolas para crianças tímidas para não correrem o risco de sofrerem bullying. Seria certamente mais confortável, mas muito menos enriquecedor na preparação para a vida.

Como tenho um projecto de vida para a minha filha, que passa por muito mais do que assumir a sua deficiência e cruzar os braços, defendo ferozmente a integração.

Quero para ela o que quero para os outro filhos: que seja autónoma e feliz. Sei que, no caso dela, a rota é diferente e que vai tendo de ser adaptada. Mas tenho a certeza de que se não a puser a olhar para cima, ela não vai saber onde tem de chegar.

 

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Grito do Ipiranga

por Francisca Prieto, em 07.07.16

Sou um guichet. Olham para mim e fazem-me pedidos, perguntas, requisições, exigências. E queixam-se. Que não cumpri os meus deveres a horas, ou com a competência necessária.

Estou sempre em falta. Agora, por exemplo, devia estar a cortar as unhas dos pés a um rapaz de catorze anos, como se isso fosse razoável.

Repito dia após dia tarefas invisíveis.

Uma vez li uma história de um senhor de idade a quem perguntaram o que tinha feito na vida e ele, por mais que puxasse pela memória, só se lembrava de passar os dias a pagar contas da electricidade. Sinto-me como este senhor. Atafulhada pela burocracia, afogada na logística, enterrada num buraco de obrigações que não valem nada, mas que alguém tem de cumprir.

Esta semana, ao final do dia, esqueci-me de ir buscar uma filha. Para piorar a situação, era a que tem cromossomas a mais. Quando lhe perguntaram se sabia o telefone do pai e da mãe, apressou-se a verbalizar as devidas sequências numéricas. Só por causa disto merecia que me tivessem levado para a prisão.

O problema das tarefas invisíveis é este. Se não as cumprimos, ficamos nus em praça pública. Somos uns incompetentes, pessoas pouco dignas de confiança.

Amanhã vou experimentar fechar o guichet por umas horas. Só para ver o que acontece.

Talvez o mundo não venha abaixo.  

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Bukowski na Maturidade

por Francisca Prieto, em 05.07.16
Ao longo dos tempos, tenho-me divertido com o Bukowski em doses moderadas, que uma pessoa vai a meio de uma história e fica tão atordoada que até parece que já mandou abaixo meia dúzia de gin tónicos. É daqueles autores em que pego quando, entre literatura mais cerrada, preciso de limpar o palato com um par de gargalhadas. Sempre excelente, a aliar na perfeição um carácter desbocado com uma certa dose de melancolia.
Avancei por este título há um par de dias. São notas do seu diário na fase em que se apresenta com 71 anos, cansado dos dias e dos desvarios do mundo. É um registo diferente. E tão impecavelmente escrito que ficamos cheios de pena por o tomo ter tão poucas páginas.
 

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Mau Humor

por Francisca Prieto, em 30.06.16

Hoje foi dia de andar para aqui de estômago embrulhado numa difícil digestão daquelas que só as polémicas nas redes sociais são capazes de provocar.

Ora um rapaz humorista, de nome Diogo Faro, resolveu escrever uma crónica na revista Visão onde, divagando no formato dicotómico a que Miguel Esteves Cardoso brilhantemente nos habituou, abordou a temática das idas à praia dos Betos versus os Mitras.

A crónica até podia ter graça, mas não tinha lá assim muita. Repleta de lugares comuns e até de algumas incongruências, avançava pelas linhas fora ridicularizando os Lourenços versus os Fábios e as sanduíches de peru sem glutén por oposição aos papo-secos mistos e por aí fora.

Tudo isto passaria ao lado, se não houvesse pelo meio uma tirada infeliz em que o autor considerou hilariante comentar que os betos se apresentavam na praia com as suas grandes ninhadas, onde muitas vezes constavam crias com trissomia 21 que as mãe não afogavam à nascença porque ficavam óptimas nas fotos da família.

Defendo há muito tempo que não há fronteiras para o humor, excepto as do nível da graça. Ou seja, podemos fazer humor sobre aquilo que bem nos apetecer (sim, mesmo sobre o Menino Jesus ou a Madre Teresa ou os paralíticos do deserto), mas se nos atrevemos a levar o humor para temas extremos, é bom que a piadola seja mesmo hilariante. Não pode ser só uma graçola palerma.

E esta graçola do senhor Diogo Faro é tão pateta que, não tendo graça nenhuma, acaba por ser gratuitamente ofensiva para uma data de famílias que conheço que dão o litro para que os seus filhos com trissomia 21 tenham um projecto de vida capaz.

As crianças com trissomia 21 felizmente já não são remetidas para o quarto dos fundos das casas, mas também não são troféus de uma família. São só filhos. E para elas queremos um futuro igual ao que desejamos para qualquer outro filho: que sejam autónomas e felizes.

Aparecem evidentemente nas fotos de família, fazem o seu percurso em escola regular, andam na natação ou no judo ou no que bem lhes apetecer e trabalham o dobro dos outros para conseguirem metade dos resultados.

Nós estamos lá ao seu lado, como estamos para todos os filhos. Para os proteger das agruras desnecessárias, para lhes dar a mão quando calha não serem convidados para uma festa, para os ajudar nos trabalhos de casa e para garantir que, aconteça o que acontecer, venham a ter um papel relevante na sociedade.

Ao contrário do que o caríssimo Diogo Faro parodia, infelizmente há muitas famílias, de betos e não betos, que os afogam à nascença. Diz-nos a estatística que mais de 95% das crianças com trissiomia 21 ficam pelo caminho, logo ao início da gravidez, por opção dos pais. O que quer dizer que há muita gente que foge, como o diabo da cruz, de os querer ver no postal estival de família.

Mandar piadolas palermas sobre famílias que todos os dias têm de encher o peito para fazer valer os direitos dos seus filhos é uma crueldade.

Fazer humor em cima de crianças deficientes mentais é uma covardia.

Se o texto fosse de rebolar a rir, perdoava-se. O que está mal é que não era. Era só poucochinho.

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Cá por Casa

por Francisca Prieto, em 11.06.16

Rita Prieto, zangadíssima por eu a ter contrariado, declarou que a partir daquele momento não me conhecia. De maneira que, quando a interpelei daí a uns minutos, respondeu-me que a mãe dela não a deixava falar com desconhecidos.
E atreveu-se a acrescentar que eu era a pior desconhecida que ela conhecia. Aí os irmãos confrontaram-na com a incoerência. “Se não conheces a mãe, não podes dizer que é uma desconhecida que conheces”. Rita, já no cúmulo da fúria, avança para a declação bombástica: “És a pior desconhecida que desconheço”.

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Fora de Série (15)

por Francisca Prieto, em 30.05.16

O Verão Azul dava à quarta feira à tarde da minha pré-adolescência e passava-se numa vila balnear perto de Málaga.

Na altura eu passava férias no parque de campismo de Ferragudo, de maneira que sonhava com o dia em que, montada na bicicleta, integraria um grupo como o do Verão Azul. Claro que eu queria ser a Bea, a rapariga de cabelo comprido por quem todos os rapazes se batiam. E queria que o Javi gostasse de mim porque, para além de ser loiro, tinha uma sunga Speedo último grito da moda balnear.

Um dia quase consegui estar à altura da Bea, lá na cafetaria do parque de campismo. Uns rapazes de dezasseis anos meteram conversa comigo e quando me perguntaram a idade eu tive vergonha de dizer que só tinha doze e avancei para a maior mentira da minha vida: disse que tinha treze.

O Verão Azul fazia-nos caminhar pelo verão algarvio embalados pelo tralalá do genérico. E era uma série muito realista porque tinha uma data de pais às direitas que, de copo de whisky na mão, não tinham qualquer pudor em recorrer ao antigo método pedagógico de distribuir lambadas sempre que um filho se armava em esperto. Só o Piranha levou para cima de meia dúzia num dia em que resolveu levar a cabo uma greve de silêncio.

Era este realismo que me lançava para dentro do ecrã da televisão e me fazia conversar com as personagens como se fossem meus amigos. Fartei-me de comer gelados com o Quique, de dar conselhos à Desi, que era a feiosa do grupo, de passear pelas ruas de Ferragudo com o Pancho, que sabia tudo sobre pesca, e de derramar lágrimas verdadeiras pela morte do bom e velho Chanquete.

Claro que os meus filhos não percebem nada destes dramas quando os obrigo a passar os DVDs da série, com uma pobre imagem desbotada. Julgam que é ficção científica. Mas a verdade é que o meu coração ainda palpita de cada vez que oiço assobiar as notas dos azuis verões de antigamente.

 

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Elefantes Brancos

por Francisca Prieto, em 19.05.16

As redes sociais têm sido um suporte insuperável na missão de trazer à tona episódios embaraçosos que a nossa memória selectiva já tinha atirado para o subconsciente há séculos e que agradeceríamos que por lá permanecessem. É certo e sabido que, mais cedo ou mais tarde, alguém nos adiciona a um velho grupo da faculdade e que, de repente, desatamos a ser identificados em fotografias onde nos apresentamos de franja, camisa com chumaços e rosetas estampadas nas bochechas.

Mas se é verdade que há coisas que preferíamos esquecer, também é verdade que há momentos que merecem ser relembrados.

Hoje, quando me dei conta de que andava a circular pelo facebook de sombrero mexicano, mão na anca e cara de quem já tinha dado conta de um par de tequilhas, rendi-me à nostalgia e ingressei numa viagem no tempo à Meca dos finalistas universitários – Cancún.

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A viagem há-de ter sido idêntica à de tantos outros finalistas, mas, para além dos episódios previsíveis, ficou-me na memória a relutância em comprar um sombrero. Enquanto todos os colegas escolhiam o seu exemplar, entre várias cores e modelos, alguma coisa me dizia que importar sombreros não era a melhor ideia do mundo. Tinha muita graça no local, mas não conseguia vislumbrar qualquer utilidade para um chapéu daquelas dimensões, à chegada a Lisboa. Vieram-se a confirmar os meus piores temores logo à entrada do avião, quando cinquenta viajantes tentavam, em gestos épicos, arrumar cinquenta sombreros nas bagageiras.

Depois desta aventura fiz várias outras viagens e, sempre que me sentia a ceder à tentação consumista que nos invade em terras estranhas, lembrava-me do episódio dos sombreros e resistia estoicamente.

Até que uns anos mais tarde, em Banguecoque, dei de caras com um cozinheiro de madeira maciça com uns quarenta centímetros de altura, que resolvi que era imprescindível para decorar a cozinha da nossa casa nova. Não me ocorreu que depois da visita à capital, íamos em périplo para Puket, Ilhas Pi-Pi e Krabi. De maneira que, após o entusiasmo inicial, andei a rogar pragas ao malfadado cozinheiro que foi arrastado por terras tailandesas, entre ventos e intempéries, durante mais de duas semanas. Mas o pior é que ainda hoje, volta não volta, dou com o raio do boneco numa qualquer arrecadação, de onde nunca saiu porque era um mono tão grande que nunca coube numa bancada de cozinha.

Voltei assim aos bons hábitos de viajar com pouca bagagem e de, sobretudo, não me lançar em compras estapafúrdias. Isto, claro, até me ter lembrado de comprar um poncho peruano. Dos genuínos.

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A Fantasia dos Nossos Tempos Dá Cá Uma Trabalheira

por Francisca Prieto, em 10.05.16

Quando eu era pequena era normal acreditar-se em quase tudo. Acreditavamos no Pai Natal e, em simultâneo, no Menino Jesus, acreditavamos no coelho da Páscoa, no homem do saco, no palhaço Batatinha, no lobo mau, na avózinha, nos glutões do Presto, em fadas e em duendes.

Como não havia cento e tal canais de televisão, muito menos internet, e não se falava ao telefone trezentas vezes ao dia, não havia hipótese de nos virem com caraminholas que trouxessem a angústia da dúvida ao nosso imaginário. Acreditavamos em tudo, piamente, e até muito tarde.

Nos dias que correm, torna-se cada vez mais difícil manter as tradições seculares no que toca a enganar a criançada.

Ora cá em casa, na senda dos ensinamentos do meu pai, o Ratón Pérez é a entidade oficial que toma conta da ocorrência cada vez que um dente de leite resolve dar o ar da sua graça.

No meu tempo a logística era simples: o dente caía, nós deixavamo-lo dentro de um copo de água na mesinha de cabeceira, e o rato lá vinha durante a noite para deixar uma lembrança.

Uma vez a minha irmã Luísa cometeu a heresia de apregoar aos quatro ventos que “isso do Ratón Pérez é uma grande treta” e teve o dissabor de, em vez da habitual lembrança, receber uma pesarosa carta em castelhano, remetida pelo próprio Ratón, a dizer que “si no creía en el, no la podria regalar”. É evidente que, em nossa casa, nunca mais ninguém se atreveu a duvidar da existência do bom e velho Pérez, pelo menos até à chegada da maioridade.

Já eu, que pertenço à geração de mães do novo milénio, vejo-me grega para prolongar o mito. Tive de me adaptar aos novos tempos e arranjar uma data de argumentos para tornar credível o facto de haver um rato se mete à estrada a partir de Espanha com um embrulho às costas.

No século XXI, como é sabido, qualquer actividade tem de ter um interesse económico, senão cheira logo a aldrabice. De maneira que o Ratón Pérez é evidentemente um coleccionador de dentes que só deixa um presente porque está interessado em aumentar o espólio. E é sabido que quando um dente se apresenta em mau estado não há qualquer hipótese de “regalo”.

Como o castelhano não é o forte cá de casa, optou-se por lhe dar uma origem galega, o que, em caso de missiva, fornece alibi perfeito para os portunhólicos pontapés na gramática da língua de Cervantes.

A água do copo tem de ser bebida quase até ao fim porque o pobre rato vem a alta velocidade desde Espanha e chega cá sedento. Por vezes, chego mesmo a ser obrigada a deixar um bocadito de queijo Emmental (que sou forçada a mordiscar lá pela uma da manhã) porque é natural que, à chegada, o amigo Ratón traga uma certa larica.

Isto tem-me dado uma trabalheira, sobretudo quando tenho de puxar pela memória para manter a coerência dos factos, mas o que é certo é que, até à data, nunca dei pelo menor resquício de dúvida face à existência do Ratón Pérez.

Já no Pai Natal ninguém acredita. Que isso de haver um velho gordo puxado num trenó voador por meia dúzia de renas está-se mesmo a ver que é fantasia.

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Da Escrita

por Francisca Prieto, em 10.05.16

“Escreve, rapariga, escreve” dizem-me com a mesma ternura com que mandavam a outra pequena comer chocolates.

É verdade que a escrita consola, tal como os chocolates. 

Uma vez li que o chocolate contém uma substância semelhante à que o nosso organismo segrega quando estamos enamorados. Talvez a escrita espolete a mesma convulsão orgânica de prazer.

Comer chocolates é mais fácil do que escrever. É uma acção passiva que se conjuga no infinitivo, no conforto de um sofá. Escrever implica uma cirurgia invasiva a todas as nossas artérias sem qualquer tipo de anestesia. É a arte de escavacar bocados de nós para os organizar em narrativas coerentes.

Dizem-me que os grandes autores só escreveram grandes obras depois dos quarenta. Eu estou para fazer quarenta e cinco e não quero escrever nenhuma obra-prima. Mas gostava de estar pronta para escrever a minha história sem ser assim, aos bocados. Quadrado a quadrado, como numa tablete de chocolate.

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No Tempo Em Que Metia o Clooney Num Chinelo

por Francisca Prieto, em 08.05.16

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Trocas na Maternidade

por Francisca Prieto, em 06.05.16

Acabo de desligar o botão do comando da televisão depois de uns lamechíssimos noventa minutos de cinema romântico hollywoodesco no seu melhor. Elas, tão giras que até apetecia pregar-lhes pares de estalos, eles, tão doces que só poderiam ser ficção. Pelo enredo fora, flores para cá e flores para lá, que era dia de São Valentim e a ocasião assim o exigia.

Lá pelo meio da fita, quando já me encontrava em ponto de rebuçado com as almas que se cruzam e se encontram e se beijam e se abraçam, dei comigo a pensar que não há miúda que não se derreta com um belo ramo de rosas a entrar-lhe pela porta.

Lembro-me como se fosse hoje do primeiro com que fui obsequiada. Precisamente a 14 de Fevereiro, de há muitos, muitos anos. Acabei por me casar com o remetente, pelo que não cheguei a ter nova oportunidade de ver uma colega de escritório, em pulgas, a empoleirar-se no meu ombro para conseguir ler o cartão.

É verdade que, quando nasceu o meu primeiro filho, assisti a um excesso floricultor a invadir o quarto da maternidade. Tive até de tomar algumas providências quando o cenário de câmara ardente começou a competir com a criança na demanda de oxigénio. Mas, embora me tenha sentido grata pela atenção, não se repetiu o êxtase de receber, num arrobo de romantismo, um ramo de rosas apaixonadas.

Até que, três anos mais tarde e por ocasião do nascimento do filho número três, naquela fase em que já tinha tido tantos filhos em tão pouco tempo que ninguém fazia ideia de que tinha ido parar à maternidade e muito menos se lembraria de ligar à florista para me mandar o que quer que fosse, me entra pelo quarto um rapaz com uma de jarra túlipas amarelas.

Começo a ver o meu marido muito agitado a chamar o rapaz, a sair do quarto muito apressado, eu agarrada à jarra como gato a bofe a pensar que queria lá saber se eram umas túlipas desmaiadas, que aquelas eram minhas e eram as únicas que me restavam.

Só depois fui esclarecida de que tinha ocorrido um lamentável equívoco. A rapaziada das entregas tinha-se enganado e tinha deixado um ramo de rosas vermelho-luxuriante no consultório da dedicada obstetra (com cartão a condizer) e tinha-me entregue a mim as túlipas amarelas que lhe estavam destinadas.

No dia seguinte, pediram muitas desculpas e entregaram novos ramos no locais correctos, o que quer dizer que lá tive direito às minhas rosas-paixão. Mas o cartão, meu Deus, ainda hoje era capaz de matar para saber o que dizia.

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Quando a Realidade se Cruza Com o Imaginário

por Francisca Prieto, em 04.05.16

Quando tinha a idade da minha filha Rita passava longas temporadas em casa da minha avó paterna. A minha avó era modista, proprietária e mestra da “Casa da Costura”, um estabelecimento reconhecido pelo esmero e rigor em prazos e pespontos.

Eu andava por ali, entre aprendizas e costureiras, a forrar botões, a arrumar carrinhos de linhas e a escolher restos de tecidos para fazer mantas para as bonecas. 

Como era tagarela, gostava de me sentar num banco baixinho e meter-me em conversas muito compridas com as costureiras. Havia a Gigi, um amor de senhora que, por ter tido um problema qualquer na juventude, tinha ficado com um olho de vidro. E a Cristina, que me fazia ovos estrelados sem a ranhoca da clara por cima.

Naquela altura a minha mãe já tinha percebido que passear por um palco a fazer macacadas não era coisa que desse de comer a cinco filhos, de maneira que passava semanas fora a dar e receber formação para se reinventar noutra coisa qualquer.

Escrevia-me cartas e postais dos quatro cantos de Portugal e eu pedia à Gigi e à Cristina para as lerem muitas vezes e elas enganavam-se de propósito porque já sabiam que eu dava logo por isso. Riam-se muito quando as emendava e eu amuava.

A minha conversa preferida era sobre o Parque Eduardo VII. Passava tardes inteiras a pedir-lhes que me contassem como era. Onde ficava o lago dos patos, onde era melhor pousar uma toalha para um piquenique, qual a árvore que fazia a maior sombra ou como era o café onde se podiam comer Super-Maxis.

Para mim, o Parque Eduardo VII era um cenário mítico que não existia senão na minha imaginação. Uma espécie de jardim babilónico que idolatrava porque podia ser tudo aquilo que eu quisesse.

Um dia resolveram pedir licença a mestra Dorotheia para me levar lá. Fizeram-se grandes preparativos, muito zumzum à volta do grande dia, que roupa ia vestir, que eléctrico havíamos de apanhar, que gelado me iam oferecer, a que horas era a partida, eu sei lá.

No momento em que me vestiram o casaco de fazenda para sair porta fora, fui invadida por um pavor inexplicável e desatei num pranto tão aflitivo que se desistiu da epopeia. Era como se me estivessem a propôr a visita à caverna de um ogre.

Só hoje, e passados tantos anos, consigo perceber o fenómeno. É que quando nos atrevemos a cruzar as fronteiras do real com o imaginário, causamos danos irreparáveis.

E a mim, deram-me cabo do Parque Eduardo VII.

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Da Eternidade

por Francisca Prieto, em 04.05.16

Senhora idosa, para cima de oitenta e tal anos, na caixa do banco: "Preciso de fazer uma transferência para a minha sogra".

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Exemplos de Vida

por Francisca Prieto, em 20.04.16

Hoje a minha sobrinha Matilde foi ao programa do Medina Carreira prestar o seu testemunho enquanto voluntária num campo de refugiados na Grécia. Desde que chegou que tem tido vários convites e eu sigo sempre tudo, muito atenta, de olhos colados ao ecrã. Porque tenho um imenso orgulho na forma como estabeleceu prioridades na sua vida, mas também porque tenho um raio de um defeito de profissão que me faz analisar a pertinência das perguntas e o peso de cada palavra no resultado da comunicação.

Gosto da forma como ela resiste em cair em histórias sensacionalistas, mesmo quando há insistência da parte do entrevistador. E gosto da forma como se ri e oferece uma resposta curta quando quer escapar a um tema sobre o qual prefere não falar.

Gosto desta ética. Da forma como não assume que os episódios hediondos que lhe passarem pela frente são sua propriedade. Que o sofrimento extremo de terceiros, mais do que uma boa história para contar, é matéria para respeitar.

No outro dia perguntavam-lhe em tom afirmativo se após esta experiência se tinha tornado uma pessoa diferente. É preciso não conhecer a Matilde para não perceber que ter estado num campo de refugiados, em situações limite, é apenas mais um degrau no caminho de vida que tem construído na ajuda ao próximo.

Não acontece a uma miúda qualquer acordar um dia e debandar para um campo de refugiados. Há um percurso que já se fez, há uma cabeça que já estabeleceu prioridades, há um coração que cresceu até ficar maduro.

Só está preparado para uma missão destas quem já lidou de perto com a morte, com cenários de pobreza extrema e com pessoas em registo de sobrevivência. Só sabe fazer isto quem desenvolveu o instinto de agir antes de olhar a juízos de valor. Quem aprendeu a ler o sofrimento alheio e a perceber que ferramentas tem para o poder minimizar.

E quem conhece a Matilde sabe que ela já tinha aprendido tudo isto antes de embarcar para a Grécia. É por isso que a experiência, ainda que brutal, não representa mais do que um dos muitos degraus que tem vindo a escalar.

É por isso que ouvi-la falar é comoventemente inspirador.

 

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Mistérios da Memória

por Francisca Prieto, em 07.04.16

Já tenho escrito várias vezes sobre as famosas distracções da minha mãe, que vão desde não se lembrar que determinado amigo já morreu há uma data de anos, a ter perdido o telemóvel dentro do peru, no meio de uma azáfama natalícia.

Tendo cinco filhos, é também vulgar trocar-nos os nomes, chamar frigorífico ao forno e abanar o copo de água em vez do frasco de ben-u-ron quando está prestes a medicar um neto.

No entanto, é vulgar chegarmos lá a casa e darmos com ela a encaixar num trecho de texto qualquer coisa que lhe dizemos (supondo que alguém elogia as flores do jardim, sai-lhe imediatamente uma canção de antigamente do tipo “Floooores do meu Jaaardim, tão belas como sóis...” ou qualquer coisa parecida).

É uma habilidade que, por ter sido actriz de teatro, lhe sai naturalmente, mas que ao fim de meia dúzia de frases trocadas, inviabiliza qualquer conversa.

De maneira que nós, os cinco filhos, embora achando graça a esta idiossincrasia, já lhe suplicámos várias vezes que tenha dó e que deixe a conversa fluir sem tanta declamação e cantoria.

No entanto, há um dia do ano em que deixamos a minha mãe declamar tudo o que ela quiser: a 14 de Março, por ser o seu aniversário.

É assim que, diante de netos estupefactos, a minha mãe dá um abanão às sinapses, abre a boca e dali desatam a jorrar páginas e páginas de texto, sempre acompanhadas de gestos grandiosos e eloquentes.

No fim, já depois de um remate estrondoso e das palmas merecidas, inevitavelmente lança uma gargalhada e confessa que não faz a mínima ideia de onde aquilo lhe vem.

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Distracções

por Francisca Prieto, em 02.04.16

As distracções da minha mãe atingiram uma dimensão épica na semana passada quando lhe falei de um velho amigo que morreu vai para mais de quinze anos.

“Fulano de tal morreu? Não me digas. Fico tão triste.” Espantada, assegurei-lhe de que tinha a certeza de que ela tinha estado a par do seu padecimento na devida altura e que já então tinha ficado desolada. “O que é que queres? Não me lembrava”, respondeu com um encolher de ombros resignado.

O que me preocupa é que, se bem a conheço, é bem capaz de voltar a sofrer do mesmo desgosto daqui a um par de anos, se alguém voltar a mencionar o assunto.

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Dia Mundial da Trissomia 21

por Francisca Prieto, em 21.03.16

Hoje é Dia Mundial da Trissomia 21 e da maneira como embirro com dias mundiais de coisas, seria normal não ligar nenhuma à data. Mas a verdade é que os cromossomas a mais da minha filha Francisca me fazem olhar de uma forma diferente para este dia. Porque ainda há muita mata para desbravar até que deixe de ser necessário gritar pelos direitos irrefutáveis destas pessoas.

 

Tive sorte. Quando ela nasceu ouvi muitas vezes falar dos olhares de soslaio de que estas crianças eram vítimas, da dificuldade de integração na escola regular, da falta de fé nas suas capacidades e na tendência vigente para serem consideradas cidadãos de segunda. Tive sorte, repito, porque nunca senti olhares preconceituosos. Pelo contrário, senti muitos olhares, mas sempre de curiosidade ou de simpatia, por verem uma miúda com Down a comportar-se de uma forma tão desconcertantemente normal. Da mesma forma, também tive uma sorte tremenda na escola que ela frequenta. Ao invés de me apresentarem problemas, sempre me ajudaram a encontrar soluções e sempre acreditaram que ela era capaz de feitos extraordinários. A prova é que, ao dia de hoje, com dez anos, a Francisca lê na perfeição, escreve e até faz composições simples sobre os assuntos que lhe interessam lá na sua vida.

É sempre convidada para as festas dos colegas e até tem um par de amigas do coração que disputam festas do pijama ora em casa de uma, ora em casa de outra. A nenhum pai vi alguma vez qualquer demonstração de desagrado por ter de a receber em casa. Pelo contrário, são sempre o cúmulo da simpatia e acham um piadão ao seu sentido de humor.

Uma vez disse-me que queria montar a cavalo. Lá arranjei maneira de a inscrever numa escola de hipismo durante as férias, onde ficava todo o dia. Quando a ia buscar, os professores contavam-me sempre grandes aventuras e o que é certo é que conseguiram pôr a rapariga a galopar num par de semanas.

Também foi para as Guias, com a irmã. É a animadora do bando das avezinhas e assim que lhe falaram em acampamento, lá estava ela na linha da frente, pronta para pôr a mochila às costas. As chefes nunca tiveram um momento de hesitação e sempre a receberam com a mesma alegria com que receberiam qualquer criança.

 

Mas sei que, infelizmente, ainda não é assim para todos. Que, na maior parte dos casos, as escolas olham para estas crianças como um fardo em vez de um desafio, que noutros agrupamentos de Guias ou Escuteiros disseram peremptoriamente aos pais que não tinham capacidade para as receberem, que nos cavalos as colocam em aulas de hipoterapia em vez de em classes regulares e que em muitos casos, nunca, mas nunca, são convidadas para festas.

 

É por isso que, apesar da sorte que tenho tido, tenho de marcar o dia 21 de Março como um dia para defender o direito à igualdade na diferença. Porque nem todas as famílias tiveram a sorte de encontrar pelo caminho pessoas do calibre das que nós temos encontrado. Das que acreditam que está nas suas mãos fazer a diferença.

 

Xiquinha no Estádio da Luz.jpg

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Palhaço Mau versus Padeiro

por Francisca Prieto, em 16.03.16

Hoje bem cedo, já andava o palhaço mau na rua. É dia de feira, de maneira que se preparou para a circulação acrescida de transeuntes, enchendo uma data de balões, com os quais se passeia para cá e para lá, à espera da primeira vítima.

O padeiro vislumbra-o ao longe e, num acesso de compaixão, pega num saco com quatro carcaças para lhe ir oferecer.

Desconfiado, o palhaço mau olha para dentro do saco e diz “bem, agradeço, mas faço notar que há uma série de dias que não me vem cumprimentar”. O padeiro, irritado com o reparo, responde “olha lá, tu estás aqui para o fundo da rua, em cascos de rolha. Deves estar a achar que és a minha avó e que eu tenho de atravessar a sala para te vir falar. Tá bem, tá.”

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