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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 13.03.17

No "Redondo Vocábulo", Luiz Robalo escreve com elegância, portanto podemos dizer que com curvas. Mas é também assertivo quando opina. Nesse sentido nada do que diz é redondo neste seu Redondo Vocábulo. É a minha escolha para blogue da semana.

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Quotas para que vos quero

por Teresa Ribeiro, em 08.03.17

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Quotas. É uma polémica recorrente, mesmo entre mulheres, portanto muito apropriada para assinalar este dia. Durante alguns anos fui sensível ao argumento de que o estabelecimento de quotas para mulheres as inferiorizava, mas depois as estatísticas entraram em diálogo comigo e falaram mais alto. Sim, felizmente há mulheres que chegam ao topo sem que para tal tenham sido empurradas por quotas. A ascensão feita assim é o que está certo. Sem equívocos, nem margem para dúvidas quanto a mérito e competência. Mas a realidade diz-nos que estas situações são de excepção. Basta consultar as primeiras páginas dos jornais de hoje para perceber qual o estado da arte: "Mulheres têm menos chances de ter bom emprego", diz o Público; "Na UE uma em cada três posições de gestão é ocupada por mulheres", noticia o I; "G20 - grupo dos poderosos só tem Merkel e May" e "PSI 20 - quatro empresas sem nenhuma administradora", anuncia o DN.

No entanto sabe-se que as mulheres estão em maioria entre os que terminam licenciaturas e que apresentam mais qualificações. E que é assim em Portugal e no mundo. Como se explica isto? Recorrendo ao primado bíblico "a culpa é delas"?

Deveremos então concluir que este enorme contingente, que não consegue subir na carreira de acordo com as suas competências e no limite franquear as portas do poder é todo desprovido de "soft skills", como agora se usa dizer? Ou o que lhes falta é - vamos lá a chamar os bois pelos nomes - tão somente algo que a Natureza não lhes deu: o sexo adequado para alcançar o topo?

Quando não existe mais nada, o que nos resta é o pragmatismo. E é por isso que me tornei a favor das quotas. Se não vai a bem, vai a mal. Porque sem quotas bem podem as mulheres esperar sentadas por oportunidades e reconhecimento iguais.

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 25.02.17

Em defesa de Centeno há que reconhecer que a solução que ele encontrou para convencer António Domingues a ir para a CGD foi muito fora da caixa.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Um olhar sobre a deriva feminina

por Teresa Ribeiro, em 20.02.17

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 Mulheres do Século XX 

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Justamente nomeada para os globos de ouro, em "Mulheres do século XX" , de Mike Mills (também autor do argumento), Annette Bening dá-nos um retrato pungente do desamparo feminino ao encarnar Dorothea Fields, uma mulher madura e emancipada, mãe de um adolescente que cresceu só com ela e que, como a maioria dos adolescentes, a subavalia com crueldade e ligeireza.

Trata-se de um drama familiar banal, já vimos centenas, se não milhares no celulóide, mas rodado com uma frescura surpreendente. Gosto das acelerações de imagens em cores psicadélicas de Mills, das narrativas na primeira pessoa dos protagonistas, das bios das diferentes personagens apresentadas em esboço e depois a encaixar como um puzzle na história que as juntou. Esta construção, nada naturalista, liberta-nos, pois evita que nos transportemos para dentro do filme.

Há filmes para ver e filmes para mergulhar. Este é dos que nos conservam à janela, simples voyeurs de vidas que de alguma forma já observámos a correr em pista, mesmo ao nosso lado.

Não sendo o filme do ano, "Mulheres do Século XX" (no original, "20th Century Women"), nomeado para os globos de ouro também na categoria de melhor filme de comédia ou musical e para os oscares na categoria de melhor argumento original,  é uma experiência que nos convoca a ternura e a ironia a propósito de um tema inesgotável, o das mulheres a abrir caminho num mundo que não foi feito à sua medida.

 

Realizador: Mike Mills

Actores: Annette Bening, Elle Fanning, Greta Gerwig

EUA, 2016

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 06.02.17

Arte, fotografia, design e desapontamento são tópicos que me interessam, por isso sempre que vou ao This isn't happiness não dou o meu tempo por perdido. É o nosso blogue da semana.

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Falar claro sobre eutanásia

por Teresa Ribeiro, em 04.02.17

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Tenho observado que quem argumenta contra a eutanásia tende a iludir três questões:

1. Ninguém obriga ninguém a fazê-lo. Tal como no caso da IVG, os profissionais de saúde que sejam contra têm o direito de se recusar a colaborar.

2. A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)

3. Os casos em que a eutanásia é aplicável serão, naturalmente, objecto de rigorosa regulamentação, pelo que não se coloca a questão de tal servir para facilitar suicídios de pessoas que estão, por exemplo, simplesmente com uma depressão. 

Toda a argumentação que contorne estas três premissas não me parece intelectualmente honesta.

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É um nightmare!

por Teresa Ribeiro, em 28.01.17

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Hoje quando saía de casa olhei o céu e imediatamente saltou dos confins da minha memória a expressão "chove a potes". Sorri de mim para mim. Essas palavras faziam parte do fraseado da minha avó. Acho que já não as oiço há anos. Há expressões que carregamos de tanta ternura que quando as usamos é como se fosse um agasalho. Por isso gosto de as revisitar. No entanto o que se usa agora, mais que nunca, são os vocábulos de importação. Comecei por ouvi-los com mais insistência em reuniões de trabalho (kick off, meeting point, status, fee, statement, empowerment, boost, icebreaker, core business...). Mas agora é também quando penduramos o heterónimo que usamos no trabalho: entre amigos saltam frases como "foi um nightmare", "nada como um pouco de facetime", "ele é um risk taker", "precisamos de quality time".

O que se passa connosco? Já houve quem respondesse aos meus protestos insinuando que estou uma bota de elástico (oops! shall I say "elastic boot"?) e que globalização também é isto. A mim o que me parece é que continuamos tendencialmente saloios, sempre deslumbrados com o que é estrangeiro e prontos a descartar ou desvalorizar o que é nosso. Se assim não fosse não haveria tanta gente a abraçar o Acordo Ortográfico sem pestanejar. No mundo empresarial, então, é um a ver se te avias. Como se resistir à adopção do "aborto", pelo menos até ver como isto fica, fosse um sinal de decadência. Whatever...

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Um adeus desolador

por Teresa Ribeiro, em 12.01.17

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Para mim era um dado adquirido. No dia em que Mário Soares morresse, o país sairia à rua para se despedir. Se aconteceu com Cunhal, em 2005, por maioria de razão sucederia com o principal líder da democracia, um homem que arrastou multidões e cultivou com os portugueses uma relação de proximidade que encontra paralelo só agora, com Marcelo Rebelo de Sousa.

Lisboa cumpriu bem o seu papel. Houve Sol e temperatura amena. Do ponto de vista meteorológico, Soares teve um perfeito adeus português, mas povo, nem vê-lo. Foi um choque assistir à desolação das ruas durante o cortejo fúnebre do "pai da democracia portuguesa" - conforme lhe chamou, e bem, a imprensa espanhola.

Porquê esta indiferença? Porque a memória afectiva já não é o que era e hoje faz reset de quem desaparece por mais de seis meses da televisão, do twitter e do facebook? Neste sentido, e sendo certo que não foram só comunistas a encher as ruas no funeral de Cunhal, pergunto-me: se o líder histórico do PCP tivesse morrido por estes dias haveria o mesmo banho de multidão?

A crise, que tem afastado progressivamente as pessoas dos políticos, também pode ter tido responsabilidade nesta monumental ausência. A democracia e os seus símbolos já não suscitam paixões, vê-se a cada dia que passa por toda essa Europa e Portugal não é excepção. Se é isto, o desaparecimento de Soares reveste-se de simbolismo, porque assinala o fim de um ciclo na nossa democracia. A ausência de povo na sua despedida anuncia o início de outro. Um ciclo que - temo - já nada terá de inteiro e limpo...

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Oposição criativa é isto

por Teresa Ribeiro, em 22.12.16

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Cada vez gosto mais deste "beau toujours" com cara de safado. É assim que se toureiam os mentecaptos que chegam ao poder. Bravo, Leo!

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Hoje é tudo mais clean

por Teresa Ribeiro, em 11.12.16

 

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Não foi assim há tanto tempo, mas as cenas que a minha memória privilegiou dos meus primeiros tempos de estágio parecem saídas de um filme de época. Éramos talvez 50 num open space desconfortável de um edifício de traça industrial onde no piso térreo funcionava uma gráfica. Habituei-me desde os primeiros dias às excentricidades de alguns colegas. O Afonso, que antes de sair prendia com um cadeado a cadeira à secretária, o Vítor, que adorava pontapear com as suas botas da tropa os fundos metálicos das secretárias, fazendo ribombar pela redacção a expressão das suas frequentes fúrias, o Zé, que espantava a neura disparando fósforos acesos para o tecto (convém aqui explicar que o chão não tinha alcatifa).

Visto à distância parece o cenário de uma casa de doidos e no entanto aquele era um padrão tido como normal no meu meio profissional. Essa cultura que tolerava excessos e extravagâncias, acolhendo sem censura as peculiaridades de cada um, era, de resto, coisa antiga. O que então testemunhei foi o pálido resquício da loucura dos tempos em que os jornais se faziam madrugada fora e os turnos de fecho se rematavam com uns copos em noites de boémia.

Que antiga me sinto por ainda ter, fugazmente, entrevisto esse mundo. Reconheço que nesses tempos não havia o mesmo profissionalismo. Àquela garridice também se somava muito amadorismo, mas a alegria era incomparável. A alegria e a descontracção. Hoje quem toleraria ruidosas explosões de mau humor ou brincadeiras ridículas com fósforos no local de trabalho?

Com phones nas orelhas e olhos no ecrã do computador, podemos até atropelar velhinhas para acalmar os nervos sem ninguém perceber. De facto podemos ver, ouvir e fazer tudo o que quisermos sem arriscar uma nota dissonante para o exterior. E assim é tudo mais clean.

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O RAP e a avó

por Teresa Ribeiro, em 03.12.16

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Leio na entrevista que deu ontem ao Público que Ricardo Araújo Pereira tem baixa auto-estima. Parece mais uma piada e pergunto-me, é claro, se há verdade nisso. Nas várias entrevistas que deu para promover o seu mais recente livro, RAP fala sempre da influência decisiva da avó, uma pessoa austera. Diz que foi a lutar pelos sorrisos dela que descobriu a sua vocação. Convenhamos que como estratégia de comunicação de um humorista de sucesso tem graça.

A história da avó pode ter sido retocada, mas acredito que na essência é verdadeira e ter de lutar pelo sorriso de uma avó é profundamente triste. A interpretação freudiana da vida pode estar ultrapassada, mas tenho sempre dificuldade em descolar--me dela, porque a verdade é que quando me interesso em saber mais sobre alguém e começo a escavar, encontro sempre um pai, uma mãe, um tio ou uma avó que estão na origem de muito do que essa pessoa é, para o bem e para o mal.

RAP, humorista de sucesso, confessa que tem baixa auto-estima e convidado pelo jornalista do Público a esmiuçar a coisa, fornece mais uma informação. Diz que foi com a avó que aprendeu a gerir sentimentos: "A minha avó convenceu-me a não ligar aos meus sentimentos - primeiro porque são sentimentos; depois porque eram meus". Outro postal triste.

Mesmo que seja apenas uma nota de humor negro que RAP acrescenta ao currículo só para provocar desconcerto nos fãs, vale como exemplo teórico. A actual ditatura da felicidade, com os seus cursos de psicologia positiva e discursos de auto-superação, ignora que pessimismo e baixa auto-estima não são uma opção, porque a mundivisão aprende-se, não se escolhe. É por isso que quando entramos numa sala da pré-primária identificamos facilmente quem é líder e quem não é, quem tem auto-confiança e quem se apaga.

Se o pessimismo e a baixa auto-estima se pudessem trocar como uma camisola, andava por aí tudo aos saltos, com as cores da moda vestidas.

 

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Imperdoável

por Teresa Ribeiro, em 09.11.16

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"Duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, mas quanto ao universo ainda não tenho a certeza"

- dedico esta frase de Einstein ao povo americano. O que votou em Trump e o que não se deu ao trabalho de votar. 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 07.11.16

Uma das melhores penas do jornalismo português, sócio nº660 do Sindicato dos Jornalistas, presenteia-nos aqui com entrevistas, reportagens e crónicas que apetecem. Pelo interesse documental e pela qualidade dos textos. O "sítio" do João Paulo Guerra é o nosso blogue da semana.

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Do princípio ao fim (18)

por Teresa Ribeiro, em 10.10.16

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As palavras que se alinham logo no primeiro parágrafo são para se comer: "Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta." - esta sensualidade no começo de uma obra cujo tema é consensualmente considerado deplorável recebe-se como uma provocação. Creio que é sobretudo a curiosidade mais pelo que sentimos, do que pelo enredo que nos leva a progredir no texto a partir destas primeiras palavras. O tom é envolvente, confessional. Trata-se da autobiografia do narrador, Jean Jacques Humbert, um homem maduro, elegante, letrado e pedófilo assumido.

Nada na leitura deste romance é simples. Ao talento descritivo, capaz de nos transmitir com beleza as mais obscuras paisagens, Nabokov associa uma narrativa baseada no testemunho de uma personagem complexa, que tem a capacidade de se decompor em réu e juiz, actor e espectador, narrador e leitor.

Jean Jacques Humbert é, como ele próprio se chama, Humbert Humbert, uma figura que não raramente nos fala a um tempo na primeira e terceira pessoa: "... o soturno Humbert comprimiu a boca contra a sua pálpebra palpitante. Ela riu-se e saiu do quarto roçando por mim. O meu coração parecia estar em toda a parte ao mesmo tempo" (pág 51).

Dual mas ao mesmo tempo lúcido, Humbert disseca até ao âmago a sua perversão, como "quem vira a consciência do avesso e lhe arranca o forro íntimo" (pág 81). Antes que o leitor o classifique adianta-se, consciente da sua abjecção: "Não tenho ilusões. Os meus juízes considerarão tudo isto uma mascarada de um louco, com um gosto indecente pelo fruit vert. Au fond, ça m'est bien égal." (pág 46)

Ao assumir tão frontalmente esta ausência de expectativas Humbert, ou Nabokov através de Humbert, esvazia o papel do leitor. Perante a sua indiferença o que nos resta se não tomar conhecimento de um caso perdido, simplesmente conhecer, como um banal voyeur, as catacumbas da sexualidade de um pervertido? É neste desconforto que progredimos no romance, forçados não a empatizar - isso nunca é sequer tentado - mas a perceber os matizes da moral de um pedófilo. Nada nos é vedado. Da clássica desculpabilização: "O que me enlouquece é a dupla natureza desta ninfita - de todas as ninfitas talvez -, esta mistura na minha Lolita de uma terna infantilidade sonhadora e uma espécie de misteriosa vulgaridade", à impiedosa consciência da perversão: "... a horrível conclusão a que quero chegar (...) é a seguinte: tornara-se gradualmente evidente à minha convencional Lolita, durante a nossa singular e bestial coabitação que até a mais miserável das vidas familiares era melhor do que a paródia de incesto que, no fim de contas, era o melhor que podia oferecer à desamparada criança".

Trata-se de uma experiência, dado o tema em questão, fortíssima. Lo-li-ta. Sente-se de facto o sabor amargo da mais popular obra de Nabokov, lançada em 1955 para escândalo do mundo inteiro, no palato.

Uma vez lida, jamais a esqueceremos.

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Mas que descaramento!

por Teresa Ribeiro, em 26.08.16

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Leio a notícia e pasmo: "Medida-chave contra incêndios será facultativa". Reajo a quente: Mas como é que "medidas-chave" podem ser facultativas? Estão a brincar connosco?  Avanço no texto para perceber de que medidas se fala e então fico esclarecida. Trata-se do destino a dar às terras abandonadas, cujo mato nunca é limpo, e que nesta época são sempre referidas como potenciais focos de incêndios florestais. 

O ministro da Agricultura, Capoulas Santos, ainda com parte do país a arder, ousou vir a público dizer que "os municípios que vierem a assumir voluntariamente a passagem da posse da floresta sem dono têm de fazê-lo de forma voluntária e reunir capacidade para gerir esses perímetros florestais".

É claro que na mesma notícia, que li na última edição do Expresso, logo apareceram declarações de três autarcas das áreas mais fustigadas pelos fogos deste ano - Arcos de Valdevez, São Pedro do Sul e Arouca - a informar que se demarcavam dessa possibilidade, alegando não ter capacidade para assumir a responsabilidade. E seria de esperar outra coisa? 

Não me ocorre uma forma mais grosseira de contornar as dificuldades do que este "passa- responsabilidades" do poder central para o autárquico, do autárquico para o central e ainda com esta pérola que é a base de toda esta grande ideia ser facultativa. 

Pela amostra já deu para perceber que para o ano cá estaremos, impotentes e aflitos, a assistir a mais uma reprise do espectáculo de sempre: a irresponsabilidade, a incompetência e o laxismo de quem tem a obrigação de pelo menos tentar, com seriedade, combater este drama sazonal. Enquanto o país arde.

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O que fazer quando tudo arde?

por Teresa Ribeiro, em 12.08.16

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Adapto o título do Lobo Antunes não sei bem porquê. É uma pergunta retórica. O que há a fazer é sobretudo antes. Andam técnicos a dizê-lo há décadas. Vêm aos media no Verão para ser entrevistados, como os pássaros de arribação nos chegam na Primavera, e é isso que repetem.

Na estação dos incêndios podemos ter várias certezas, a de que Portugal vai arder, a de que os governantes vão largar as férias, num gesto dramático de solidariedade, para dizer umas palavras de circunstância e prometer políticas de prevenção de fogos que nunca saem da gaveta e que os técnicos que percebem e se interessam pelo tema são convidados para irem às televisões repetir críticas, conselhos e avisos pela enésima vez.

Às vezes, no calor dos acontecimentos, aparecem ideias interessantes, que até podiam fazer caminho, como a de pôr militares a patrulhar as matas para dissuadir os loucos que gostam de lhes chegar lume e ajudar na sua limpeza. Acho que foi Passos Coelho que anunciou essa intenção.

Mas quando chega, três ou quatro meses depois, a estação das cheias, quem se lembra dos fogos? Nessa altura a coreografia dos governantes é semelhante. Vão às zonas afectadas, visitam bombeiros, prometem apostar na bla, bla e na bla, bla e na... sempre com um ar muito pesaroso-determinado.

Há décadas que vivemos nesta sinistra alternância. Mas esquecendo as cheias - quem se preocupa agora com as cheias?! - partilho convosco a informação que mais me impressionou, das que vieram agora a público através dos técnicos que percebem e se interessam por estas coisas: na sua tese de doutoramento, recentemente discutida, o académico, comandante de bombeiros e presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Protecção Civil Ricardo Ribeiro recorda que "em 2013 em Portugal ardeu metade do que nesse ano ardeu no continente europeu".

Como Portugal não tem o monopólio dos pirómanos, nem dos problemas ambientais associados às alterações climáticas, esta informação dá-nos muito que pensar sobre a inépcia, a horrível inépcia de quem nos tem governado. À esquerda e à direita.

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Esplanada de praia

por Teresa Ribeiro, em 30.07.16

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Desamparado, o casal seguia com uma atenção esforçada a conversa do miúdo. Falava do quê? Talvez do Pokemon Go. O pai segurava o sorriso, olhos distraídos, mais atentos aos seus gestos e expressões animadas do que ao que dizia. A mãe observava-o silenciosa, naquela paz desconsolada de quem sabe que está a perder qualquer coisa, embora não saiba o quê.

No mar, famílias como a deles preenchiam com mergulhos e braçadas o mesmo sudoku feito de horas e horas de tempo livre. Mas havia os outros, os que em grupos ruidosos faziam o Verão. Gargalhadas e conversas alheias mescladas de pregões "Olhá bola de berlim!", choros de bebés, ralhetes "Agora não vais para a água!". A banda sonora de sempre.

Mais tarde, depois do banho, quando o casal e o filho se estenderem na toalha ao Sol, essa vida difusa há-de embalá-los e compor, enquanto dormitam, uma apaziguadora ideia de férias.

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Allez, allez

por Teresa Ribeiro, em 10.07.16

Faltam poucos minutos. Nas ruas, quase desertas, o silêncio incha com o calor.  No mini-mercado os empregados, habitualmente palavrosos, fecham-se num mutismo amuado. É que faltam poucos minutos e ainda estão ali. O vizinho do rés-do-chão abreviou o passeio ao cachorro e recolhe-se à pressa. Nem me vê. Em volta os prédios dilatam, cheios de gente. Famílias reunidas em torno da televisão suspendem-se com o coração aos pés, respiração na mão. Ninguém me vê. Só o gato branco, que patrulha a rua em passadas furtivas, me olha expectante, a avaliar se sou um perigo. 

Há cerveja gelada no frigorífico e até champagne. Enchidos, preguinhos, bifanas, coisas de picar. E raparigas de cachecol posto, apesar do calor, e miúdos prontos a alinhar com o pai e o tio e o irmão mais velho nas vocalizações apaixonadas quando a partida começar. Faltam poucos minutos e os principais spots da cidade, de todas as cidades, vilas e lugarejos, estão cheios de gente. Há milhares que nem gostam de bola, mas quem resiste a surfar esta onda que se agiganta? Bora lá!

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 12.06.16

Eles têm sempre o radar ligado, por isso não dispenso as minhas visitas regulares ao sítio onde denunciam a má despesa pública. Recomendo-os.

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Fora de série (14)

por Teresa Ribeiro, em 29.05.16

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Até as séries começarem a disputar o cinema a sério, fenómeno bastante recente, andei um pouco alheada da ficção televisiva. Mais do que a concorrência da Internet, o que mais me afastou foi a moda do alinhamento dos enredos por temporadas, tão mais intermináveis quanto maior fosse o seu sucesso de audiências. Não me apetecia morder o isco e depois ficar presa a caprichos ficcionais ditados mais por prazos contratuais do que pelo talento dos argumentistas. Enquanto as boxes não nos vieram libertar dos horários de transmissão dos programas, salvando-nos também dos penosos intervalos para a publicidade, evitei fidelizar-me. Mas há sempre uma excepção. A última série antes da era da TV on demand que me amarrou à cadeira, fez adiar compromissos e reservar o serão, foi Os Sopranos. Até do tema do genérico eu gostava e se há coisa que eu não aprecio é rap...

A moral da máfia, em que me iniciei com a trilogia de O Padrinho, voltava a fascinar-me. James Gandolfini, no papel da sua vida, entrava-me em casa todas as semanas, tão vulnerável quanto brutal e eu, durante o tempo que durava cada episódio, suspendia de boa vontade a minha vida para viver a dele e surpreender-me com as minhas próprias contradições: como é que eu podia sentir simpatia por um assassino? Ainda por cima aquele burgesso sanguinário não fazia nada o meu tipo, só que expunha-se de uma forma... a natureza humana no que tem de mais perturbador era exposta de uma forma naquela série, que tocava as raias da pornografia.

Tecnicamente próxima da perfeição, a saga concebida por David Chase  transcendia o mundo da máfia. Além das actividades da "rapaziada", acompanhávamos a evolução da família disfuncional de Tony Soprano - com uma Edie Falco a encarnar a sua mulher, Carmela, sempre maravilhosa - e as suas inesquecíveis sessões de psicoterapia, o toque de originalidade da série.

 

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New York Times considerou-a "provavelmente a melhor obra da cultura popular americana dos últimos 25 anos". Foi a primeira série de um canal por cabo a ser nomeada para um Emmy. Durante os oito anos em que esteve em exibição, de 1999 a 2007, foi sempre nomeada na categoria de melhor série dramática e por duas vezes ganhou o prémio. David Chase enquanto autor também foi galardoado por três vezes. Nessa categoria a série recebeu 21 nomeações além de outras tantas pelo desempenho dos seus actores, nomeadamente Gandolfini, que levou para casa três Emmys. Mas do palmarés de Os Sopranos constam toda a sorte de prémios, dos Globos de Ouro aos Guilds.

Terá o gangue da série comprado votos? Com a máfia nunca se sabe... A mim, como já revelei, sequestraram-me, amarraram-me à cadeira e... se eu tivesse aqui a psicanalista dele perguntava-lhe... mas acho que não estou errada se disser que a coisa evoluiu para algo próximo do síndroma de Estocolmo. Durante 50 minutos por semana, ali presa ao ecrã, dei comigo a relativizar ou, pior ainda, a compreender todas as  malfeitorias do Tony. E que adrenalina isso me dava!

À hora de Os Sopranos não estava para ninguém. Se alguém me interrompesse, habilitava-se. Era bem capaz de levar com um tiro no meio da testa. Só por causa das coisas.

 

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 22.05.16

A Chris Marques é uma globetrotter cujas andanças vale a pena seguir. Se ainda não decidiu o seu destino de férias, espreite as dicas que ela guarda dentro do mochilão.

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Sobre os direitos dos animais

por Teresa Ribeiro, em 19.05.16

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Acho justa a classificação, face à lei, dos animais como "seres sensíveis", por duas razões: porque são, indiscutivelmente, seres e porque a experiência já me deu suficientes provas de que sentem.

A acrimónia que as iniciativas do PAN tem provocado espanta-me. Não falo dos caçadores e dos aficionados, pois esses, naturalmente, vêem a instituição de medidas de protecção animal como uma caixa de pandora que a prazo poderá ameaçar rituais que os apaixonam. Mas sei de muita gente que não se encaixa nesse perfil e mesmo assim trepa às paredes quando se fala de "direitos dos animais". Desde logo argumentam que os animais não são sujeito de Direito, logo não podem ter direitos. Entrincheiram-se nesta lógica e daqui não saem esquecendo que uma das principais funções da lei é criar fundamentos de justiça e contribuir para a civilidade num Estado de Direito.

Quem como eu tem acesso regular a informação sobre o que aparece em clínicas veterinárias e associações de proteção animal, só pode congratular-se com estas iniciativas, porque entendo que o sadismo, mesmo o que é exercido sobre animais, deve ser punido. Quem não quiser fazer como a avestruz veja no google, de preferência com o estômago vazio, o que acontece a alguns "animais de estimação".

As leis servem para, à falta de melhor, nos civilizar. Já li que "a sensibilidade não se decreta por lei". Nada mais falso. As leis também educam, porque criam massa crítica, e sobretudo funcionam como aceleradores de bons costumes, que o digam as mulheres que num passado recente nem sequer podiam votar ou abrir uma empresa.

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Off line

por Teresa Ribeiro, em 24.04.16

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Cada vez mais passo folgas e férias off line. Liberta de ecrãs tácteis e portáteis, sinto-me como se tivesse feito a mim própria um restart. Condescendo só em relação ao telemóvel, nas estritas funções de telefone. Não é um gesto de rendição, pelo contrário. Vejo esta evidente dependência com simpatia. É a prova em como algures em mim floresceu este sinal de contemporaneidade e isso descansa-me, porque aproxima-me dos padrões da normalidade. Sim, dependo totalmente desta máquina enquanto telefone. Sem ela experimento uma sensação de isolamento incómoda, como se me tivessem cortado o cordão umbilical que me liga à corrente universal.

Mas é tudo. Não consigo entregar a alma às redes, à Internet. Continuo a sentir fascínio pelo de sempre. Pelas banalidades, por acaso também tactéis e a cores, do mundo real. Receio que já não tenha cura. Já experimentei fazer um refresh, mas nada.

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Yes men

por Teresa Ribeiro, em 01.04.16

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A opinião que António Capucho tem acerca dos critérios de Passos Coelho para seleccionar o seu staff é-me indiferente, o que me interessa é a reflexão que me suscita sobre a prática, que me parece corrente, de pessoas com cargos de decisão nomearem para as suas equipas preferencialmente gente que não arrisca uma discordância, dizer o que pensa, comprar uma briga em nome de um valor mais alto, que é o de desempenhar o seu papel com competência.

Dir-me-ão que isto é natural por parte de gente que se pensa dona da razão, que gosta de impor as suas ideias e acredita piamente nas suas capacidades e no seu instinto. E eu continuo a pensar que é comum, mas não é natural.

Não é natural que abdiquem de ver e ouvir através das pessoas de confiança que escolheram para trabalhar consigo. E ainda é menos natural que confiem mais depressa em quem lhes dobra a espinha do que nos que pretendem prestar colaboração exercendo as suas funções com brio. Mas exercer o poder, para muitos, é isto. 

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Para ti

por Teresa Ribeiro, em 19.03.16

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Tenho o teu tom de pele e a mesma escassa pigmentação dos lábios. No temperamento, dizem, em muitos aspectos somos parecidos. E nalguns gestos, certas expressões do rosto. Adoptei muitas manias tuas, parte do teu vocabulário, sobretudo o do código que só usavas em casa, além dos valores, claro. Nunca o valorizei tanto como agora. Porque agora é só o que eu tenho.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 14.03.16

Há anos que frequento esta barbearia. O ambiente simpático e a conversa amena, informada e despretensiosa dão grandes bigodes à concorrência, refiro-me à que faz deste ofício de ensaboar comentários e cortar nas notícias do dia um exercício de arrogância intelectual que não há pachorra. Escolho-a, por estas razões, para blogue da semana.

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E lá vamos nós!

por Teresa Ribeiro, em 08.03.16

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"Parabéns" porque nasci mulher? "Parabéns" porque não é fácil viver num mundo de homens? "Parabéns" porque apesar de tudo já estivemos muito pior? "Parabéns" porque a luta continua? "Parabéns" porquê, senhores?

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O Papa que ri

por Teresa Ribeiro, em 28.02.16

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O ódio contra o Papa Franciso grassa. Não me espanta. Entrou no seu pontificado como um elefante em loja de santinhos e partiu a loiça toda. Falou dos casos de pedofilia, da corrupção no Vaticano e dos seus crimes económicos, dos católicos divorciados, dos católicos gays... Demasiados issues. Uma poeira que não assenta. Quem é ele para expor assim as fragilidades de uma instituição que se quer sólida e vista como a referência moral e espiritual do ocidente?

Não me surpreende o ódio da hierarquia e de todos os que beneficiam directamente do statu quo, o que me encanita é a reacção das "bases". Dos católicos que desconfiam do seu chefe supremo porque prescindiu da gravitas da função e prefere chegar às pessoas, porque não assobia para o lado e, ao contrário, faz mea culpa, em nome da Igreja, por todos os podres que se lhe reconhecem. Porque denuncia, ao estilo de Cristo, tudo o que no mundo deve ser, aos olhos de um verdadeiro cristão, abominável. Finalmente porque usa e abusa da palavra de Deus para confrontar as suas ovelhas com contradições e hipocrisias quotidianas. Mas não é essa a função de um líder espiritual?

Esta parte, a das consciências, é a que mais mói.  É este ódio que nasce da incomodidade que anda, não duvido, a envenenar parte da comunidade católica. Há dias li no El Mundo, assinada por Fernando Sánchez Dragó, uma crónica intitulada  "Incapacitación" que põe à discussão a necessidade imperiosa de desencadear o impeachment de Francisco: "Es necesario meter en cintura al hereje Francisco si se niega a cambiar el rumbo de su pontificado o a dimitir", escreve este romancista, ensaísta e crítico literário, conhecido pelo seu conservadorismo social e ultra-liberalismo económico. Aqui está um bom discurso de ódio. Das primeiras acusações veladas que começaram a circular no início do pontificado às críticas mais inflamadas foi um passo. Mas agora já entrámos noutro domínio, o dos apelos à rebelião.

Enquanto Dragó traçava estas linhas, o Papa dava um passo que por si só seria suficiente para inscrever o nome de Francisco como um dos mais notáveis na história da ICAR. Em Cuba reunia-se com o chefe da Igreja Ortodoxa, algo que não se via desde 1054.

Nada que esmoreça os que o odeiam de coração. Pelo contrário. Para estes, quanto melhor ele estiver, pior.

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Grande malha, Mr. President

por Teresa Ribeiro, em 24.02.16

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Não é o primeiro actor a ter o seu retrato pendurado na galeria dos presidentes, mas é a primeira vez que se junta à colecção alguém que nunca ocupou a presidência em terras do Tio Sam. Pelo menos na vida real. Sua excelência o "presidente dos Estados Unidos" Frank Underwood, a personagem da série House of Cards encarnada por Kevin Spacey, soube-se agora, vai ter essa honra. O seu quadro, resultado de uma jogada de marketing magnífica da Netflix - poderá ser apreciado à entrada do museu onde se encontra o acervo presidencial.

Jamais na empertigada Europa se tomaria semelhante iniciativa.  

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Em nome de que vida?

por Teresa Ribeiro, em 17.02.16

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Como é óbvio, para quem defende a eutanásia e o suicídio assistido, o que está em causa é o direito a acabar com o sofrimento, quando é reconhecidamente atroz e irreversível. Quem é contra, defendendo o princípio da inviolabilidade da vida, certamente não o ignora. Então porque há-de invocar invariavelmente o recurso aos cuidados paliativos como uma alternativa, sabendo que nos casos limite, em que a questão da eutanásia e do suicídio assistido se colocam, a medicina não consegue reduzir o sofrimento para níveis suportáveis?

Não posso respeitar quem recorre a argumentos falaciosos para defender o seu ponto de vista. Quem se opõe à legalização da eutanásia deve ter coragem para assumir que o que defende pode ser de uma tremenda crueldade para alguns. 

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Competência e sobriedade

por Teresa Ribeiro, em 15.02.16

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O Caso Spotlight

***

"O Caso Spotlight", nomeado para os oscares de melhor filme e melhor realizador é uma obra competente, com prestações excelentes, sobretudo de Mark Ruffalo e Michael Keaton, que nos leva de volta ao escândalo de pedofilia que abalou a igreja católica em 2002  e deu ao The Boston Globe um prémio Pulitzer. Perturbadora, a revelação de que a Santa Madre Igreja a fim de defender a sua reputação preferiu proteger os padres criminosos a defender as suas vítimas, deixou na imagem da ICAR uma mancha indelével.

É pelos olhos dos jornalistas que trouxeram este caso à luz do dia que seguimos, tomando consciência por oposição ao negrume da matéria em investigação que apesar dos pesares os media ainda têm um papel insubstituível na sociedade. Este fio claro/escuro da narrativa é, sem dúvida, um dos aspectos mais interessantes deste filme de Tom McCarthy. Mas também a sobriedade com que aborda o tema, resistindo às tentações, já que o assunto se presta a uma forte exploração dramática, merece elogio.

Apesar desta contenção "O Caso Spotlight" não ilude nenhuma das questões que se lhe associam, como o do papel cúmplice que a própria comunidade católica desempenhou durante décadas, facilitando o encobrimento dos seus líderes espirituais. Particularmente incómodo, este "detalhe" deixa-nos no espírito uma dúvida: "Será que a imagem vale tudo, até na fé religiosa?"

 

 Título original: Spotlight

Realizador: Tom McCarthy

Actores: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams

EUA, 2015

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O país, esse vira-casacas

por Teresa Ribeiro, em 03.02.16

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O que eu mais ouvi nestes últimos quatro anos aos passistas foi que a social-democracia estava morta e enterrada. Muito confortáveis nos seus fatinhos de corte liberal, os laranjinhas do regime sentenciavam em tom de fim de conversa que aquele era um modelo de sociedade obsoleto que só a velharia ainda recordava. E faziam-no com uma veemência tal que a simples enunciação do vocábulo era recebida, por vezes, como um anacronismo indesculpável. Pois qual não foi o meu espanto quando começo a ler nos jornais com alguma insistência que Passos vai tirar da cartola essa relíquia para gáudio dos seus apoiantes e, pasme-se, a fim de "regenerar o partido". 

A acreditar no que li, o slogan para reeleição é "Social-democracia sempre!" Já a defender-se de eventuais bicadas, o líder do PSD disse que não foi ele que mudou, mas o país. E é pelo país que o partido se vai recentrar e reabilitar a sua raiz centro-esquerda.

Perfeitamente alinhado, o CDS espera de Cristas uma aproximação ao centro, "sem purismos ideológicos". Está na hora de meterem o liberalismo na gaveta com as respectivas folhas de excel e pensarem nas... pessoas, no país, no povo, sei lá.

Sociais-democratas e democratas-cristãos forever, eles preparam-se para arrancar com uma agenda de meter inveja às criaturas que lhes fundaram os partidos em nome dos tais valores humanistas bafientos que de resto já começaram a arejar, quais cataventos mediáticos.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 11.01.16

Se gosta de literatura e arte, o melhor é ir ao literatura e arte, ler sobre literatura e arte. Para quê complicar?

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Passo a passo

por Teresa Ribeiro, em 08.01.16

 

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Depois dos hijabs serão os nikabs e depois dos nikabs as burkas a inspirar os estilistas ocidentais? Todos sabemos que estas vestes não são  inocentes. Foram concebidas por homens que segregam mulheres e agora temos que levar com isto, com dress codes humilhantes a desfilar nas passerelles das nossas mecas da moda? Era só o que faltava! 

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Eis o estribilho que andamos há décadas - sim, décadas - a ouvir de cada vez que muda a cor do nosso fastio. Servirá, como sempre, para todas as desculpas. Ouvi-lo-emos até que a voz lhes doa. E note-se, é matéria de facto. Sempre que o poder muda de mãos, é tradição passá-lo com contas marteladas e/ou projecções erradas.

É lamentável, mas também o alibi perfeito para quem chega.

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Feliz Ano Novo

por Teresa Ribeiro, em 31.12.15

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Não me quero meter num 31. Se o Natal é quando um homem quiser também o ano novo nasce quando muito bem entender. Ainda há dois dias ouvi um curioso discurso contra as 12 passas e os 12 desejos (não desgosto de passas, mas também prefiro m&m's). Os 12 desejos são, de facto, um exagero. Uma clara invenção da sociedade de consumo, que como sabemos tem na venda de desejos o seu grande negócio. Eu gosto de dizer "não" ao desperdício. Além de que não me tenta apresentar um tão extenso caderno de encargos ao destino. No que toca ao meu destino sou supersticiosa. Acho que o melhor é deixá-lo estar, distraído de mim, não vá o diabo tecê-las. De modo que não lhe vou pedir nada.

Gosto daquela máxima que diz: "Não peças nada, espera pouco e deseja tudo". Desejar tudo é só uma questão de princípio. Ninguém deseja tudo esperando que tal se concretize, por isso estou de mala aviada para 2016 sem grandes expectativas. Apenas com uma ideia de pragmatismo que me agrada, que é a de fazer o que estiver ao meu alcance para me sentir bem. Se for competente, haverá consequências para quem estiver próximo e até longe de mim. Quantos mais, melhor, porque o efeito multiplicador é muito importante.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 19.12.15

Pedro Ribeiro, director da Rádio Comercial, foi até à Macedónia, dar apoio aos refugiados, integrado no grupo Famílias como as Nossas. No seu blogue Dias Úteis  registou a experiência. Recomendo uma visita.

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As saudades que eu já tinha...

por Teresa Ribeiro, em 02.12.15

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... e eles também, destas andanças. Fica, enfim, reposta a normalidade.

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Quando a má consciência se torna viral

por Teresa Ribeiro, em 30.11.15

É impossível ficar indiferente a este vídeo natalício, da cadeia de supermercados alemã Edeka. A maioria de nós lá saberá porquê...

 

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Vê-los na tv

por Teresa Ribeiro, em 20.11.15

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Com tanta coisa séria a acontecer no mundo, quando os vejo (uns a exortar contra o perigo comunista e outros a jurar que se entendem às mil maravilhas) só me apetece pôr-lhes pimenta na língua. Porque é isso que se faz aos pequeninos quando mentem. Vistos em perspectiva é o que eles são. Pequeninos mentirosos, a diminuir nas suas indignações de opereta até que se apagam entre as séries da cabo.

Confesso que por um lapso de tempo ainda pensei que embora polémica talvez esta reviravolta pós-eleitoral fosse refrescante para a democracia. Mas foi só um wishful thinking. Já percebi, eles já perceberam, já todos percebemos que não vai dar. Por isso, depois de ver as notícias que realmente interessam, prefiro mudar de canal e rever a Teoria do Big Bang, que está a repetir na cabo, ou o Prison Break.

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Follow the money

por Teresa Ribeiro, em 19.11.15

Que tal falar de coisas realmente sérias?

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Ponto de situação

por Teresa Ribeiro, em 31.10.15

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Depois de um ano em que as eleições substituíram na agenda política a governação propriamente dita, infere-se que nos espera em 2016 igual vazio. Até que a crise se resolva, provavelmente através de novo sufrágio eleitoral, os tempos não estarão para iniciativas governativas. A começar pelas do governo recém eleito: os que transitaram do governo anterior para o que está agora em funções admite-se que até podem dar seguimento a algumas matérias que deixaram em pousio, mas os que se estrearam, além de alindarem o currículo pessoal vão ter oportunidade e motivação para fazer o quê?

A seguir não se sabe o que vai acontecer, mas o que for, será transitório.Teremos um 2016 completamente político, com o país em autogestão até engatilharmos em ponto morto e voltarmos a fazer eleições. Contas feitas serão dois anos passados assim. O ano que agora acaba e o próximo. A política tem destes efeitos colaterais, mas o país é demasiado frágil para permanecer tanto tempo manietado por ela.

 

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Digerindo o relatório da OMS

por Teresa Ribeiro, em 30.10.15

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Nada disto é novidade. Notícia foi a OMS tê-lo assumido, contra o poderosíssimo lobby dos produtores de carne. Chapeau!

Não li o relatório e através dos media não apurei o principal. E o principal seria saber quanta carne se pode consumir sem arriscar um cancro. Um bife, duas vezes por semana, pode ser? Um cozido só no pino do Inverno e de 15 em 15 dias é razoável? 

A moderação, sobretudo num tempo em que praticamente nada do que se consome para alimentação é isento de contraindicações, é tudo. 

Dito isto, o alerta da OMS pode suscitar alarmismos se não convenientemente enquadrado, mas tem o grande mérito de nos chamar a atenção para a percentagem de carne que a nossa cultura alimentar nos coloca no prato. Com ou sem cancro no horizonte, comê-la quase todos os dias é uma escolha que nos é induzida pela indústria, que está sempre atenta às nossas necessidades e fraquezas. Necessidade, temos sempre a de poupar tempo. Fraqueza temos a da preguiça de cultivarmos hábitos mais saudáveis, mas que dão trabalho. Da sandes de fiambre, à bifana, passando pela empada de galinha e o icónico hamburguer, é de carne que se fazem quase todos os expedientes a que recorremos para saciarmos a fome sem grandes maçadas.  

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Abstencionistas

por Teresa Ribeiro, em 05.10.15

Não votaram porque não vêem alternância na alternância possível. Não votaram porque não se sentem representados pelos partidos. Não votaram porque se desiludiram com a democracia. Não votaram porque não são de esquerda e a direita os decepcionou. Não votaram porque são de uma esquerda que nunca chega a governo. Não votaram porque são de centro esquerda mas não acreditam neste PS. Não votaram porque o folclore eleitoral já não os demove. Não votaram porque votaram toda a vida e afinal para quê? 

Não votaram porque são os políticos que fazem os (não)eleitores.

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Bora lá!

por Teresa Ribeiro, em 19.09.15

Ok, hoje pode ser praia. Mas amanhã, que é véspera de dia de trabalho, o programa para quem vive na Grande Lisboa pode ser mais zen. Nos jardins do museu da electricidade decorre o Dia Verde. Espreitem o programa aqui.

Chi kung, terapia do riso, workshops sobre comida saudável, gincana de bicicletas, circuito de carrinhos movidos a energia solar, caminhada, meditação, mercado de trocas e passatempos para as crianças, aqui vai haver de tudo como na farmácia. Mas não arde, só cura.

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Blogue da semana

por Teresa Ribeiro, em 06.09.15

Pararam durante nove meses, mas por uma boa razão: tiveram uma menina, ainda por cima chamada Teresa. Agora que voltaram, avisam que estão mudados, pois isto de construir uma família deixa marcas a qualquer um. Como vão gerir os seus pequenos prazeres nesta nova fase do blogue ignoro, mas não duvido que Les Bons Vivants continuarão a saber partilhar dicas sobre restaurantes, semanas gastronómicas, receitas, consumo, pesseios e tudo o que dá cor à vida com a simpatia e frescura a que nos habituaram.

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Vida selvagem

por Teresa Ribeiro, em 02.09.15

A expressão "caça ao voto" está bem escolhida. "Caça" é a palavra certa quando falamos de campanha eleitoral. Quando a época abre, gosto de observá-los a perorar nos media e reflectir sobre o quanto de tudo o que vemos e ouvimos resulta do trabalho de assessores.

"Não diga essa palavra", "este tom de gravata fica-lhe melhor", "projecte a voz", "não gesticule demasiado com as mãos", "ponha mais paixão no que diz", "faça um ar grave quando falar desse assunto", "o cabelo está bem assim". Não são palpites, é científico. Respondemos à linguagem corporal e aos atavios como animais.

É isto que me faz correr atrás deles nas televisões. Quando abre a época da caça fico na defensiva, porque sei que nem a consciência de tudo isto me torna imune às maquinações do marketing político. Tento sempre perceber, entre o fascínio e a irritação a que estímulos posso ter reagido inconscientemente para depois concluir que as minhas escolhas, apesar dos assédios, são puramente racionais.

Enfim, nada que os manuais dos spin doctors não identifiquem como um objectivo a atingir. 

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Empreendedorismo 2

por Teresa Ribeiro, em 31.08.15

Foram cinco os empreendedores cujo percurso, por razões profissionais, acompanhei de perto. Ao primeiro faltou-lhe carácter. Quando o seu projecto começou a falhar não hesitou em roubar a própria empresa para se pôr a salvo antes de declarar falência. O segundo revelava o que de  pior podemos identificar no perfil de um típico self made man. Era desconfiado, intolerante e prepotente. Ao longo de décadas, foram muitos os que passaram pela sua empresa, mas poucos os que gostaram de lá trabalhar. Resistiu décadas no mercado, mas sucumbiu à crise. Está agora em processo de falência.

O terceiro foi pioneiro em vários projectos. Tinha boas ideias, mas faltava-lhe talento para a gestão. Após diversas tentativas falhadas desistiu de trabalhar por conta própria. O quarto, um homem que ganhou muito dinheiro na especulação bolsista, decidiu investir num negócio que lhe desse visibilidade e prestígio para o qual não tinha a menor preparação. Correu-lhe mal. Para sobreviver não olhou a meios e se acabou por falir não foi à falta de bajular gente com dinheiro e influência, mas nem assim escapou ao seu destino.

O quinto é, em todos os aspectos, uma pessoa extraordinária. Admiro-lhe o carácter, a perseverança, a criatividade, o optimismo e a paixão que põe em tudo o que faz, mas é um peixinho num aquário de tubarões. A ética granjeia-lhe respeito mas não o ajuda a evoluir num mercado minado por lobbies que só deixam crescer quem tem cartão partidário ou um apelido que pertença à nossa PSI 20 social. São estes D. Quixotes que dão bom nome a uma raça de gente tão diferente entre si.

Empreendedores são como os chapéus: há muitos.

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Divagações de praia 2

por Teresa Ribeiro, em 29.08.15

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O meu pai era um homem de hábitos. As suas rotinas eram cultivadas com cuidados de jardineiro e nem as férias lhe alteravam o seu modo de vida circular, feito de perpétuos regressos. De manhã, praia, à tarde mata, à noite a esplanada no centro da vila. Parava no mesmo café, de preferência sentado à mesma mesa, para ser atendido pelo empregado do costume e sempre, sempre na Caparica, a praia da sua vida, que conheceu eram os dois tão novos. Ele ainda com a barba mal semeada, ela também uma mocinha púbere, de beleza selvagem, com dunas a perder de vista e uma mata cerrada onde consta que os foragidos da cadeia da Trafaria se iam esconder para nunca mais serem vistos.

O seu conservadorismo extremo exasperava-me, o amor pela rotina confundia-me. Mas como tantas vezes acontece com os filhos, nem sequer tentava percebê-lo. Gostava de coleccionar tudo: moedas, selos, canetas, isqueiros, agendas, cinzeiros, búzios, caixas de fósforos, canivetes, porta-chaves, canecas, miniaturas de monumentos, postais. Sim, era um exagero. Aquele prazer em ter revelava um Tio Patinhas obcecado não por dinheiro, mas pelo acto de colectar em si mesmo. Como se tivesse medo que algo lhe fugisse, que as coisas lhe fugissem.

Infantilizou-me. Em vez de me emendar, esforçava-se para que eu perpetuasse os disparates que dizia em pequena. Fez o mesmo com os netos. Era uma forma de nos reter, de iludir a passagem do tempo para continuar a ter-nos como só se têm as crianças.

Quando eu viajava, sofria. E se o avião caísse? E se o mundo me tragasse? Não percebia a minha paixão por viagens. Dizia que para viajar bastava-lhe passar os olhos pela colecção de postais. Numa ocasião regressou mais cedo de uma viagem de serviço a Paris, que não conhecia, só porque estava de chuva e não tinha levado chapéu. Um excêntrico, o meu pai.

Tinha cinco anos quando o meteram num navio. Fez Luanda-Lisboa na companhia de uma estranha. Nesse tempo não se tentava explicar nada às crianças. Deixou para trás os pais, os irmãos e a terra onde nascera sem perceber o que se estava a passar. Havia uma razão plausível, mas não a conheceu em tempo útil.

Foi esta a sua viagem inaugural. Dos cafezais a perder de vista para um apartamento do bairro das colónias, em Lisboa. Só voltaria a ver os pais aos 18 anos e Angola muito mais tarde, já adulto. 

Nunca me falou, nunca falava disto, soube-o pela minha mãe. Há cinco anos, quando um avc lhe fez as malas e lhe deu uma guia de marcha para não mais voltar, na consulta da urgência, quando lhe perguntaram "onde mora?", respondeu: "No Uíge".

Faria este mês 87 anos.

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Empreendedorismo 1

por Teresa Ribeiro, em 27.08.15

O equívoco em relação à expressão empreendedorismo, tão incensada por este governo,  é que ficou colada à ideia de sucesso. Mas em rigor um empreendedor é alguém que tem ideias de negócio e que arrisca. Pode ser um mitómano sem qualquer talento para gestão e transacções comerciais, pode ser um vigarista (os grandes vigaristas são bons empreendedores), pode ser um azarado que aposta sempre no cavalo errado.

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