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Bem prega Frei Tomás!

por Luís Menezes Leitão, em 20.03.17

Leio aqui que Marques Mendes considera desastrosa a forma como Passos Coelho geriu a escolha do candidato a Lisboa e que, se as coisas correrem mal, a culpa é do líder. Não poderia estar mais de acordo. Só estranho é que seja Marques Mendes a dizê-lo. Na verdade, se bem me lembro, em 2007 a Câmara de Lisboa estava nas mãos do PSD e só passou para o PS porque Marques Mendes quis demitir Carmona Rodrigues e, quando este recusou, obrigou todos os vereadores do PSD a se demitirem, fazendo cair a Câmara. A seguir lembrou-se de candidatar Fernando Negrão que fez uma campanha desastrosa, só obtendo 15% dos votos, e entregando a Câmara de bandeja a António  Costa. Desde então que a Câmara de Lisboa está nas mãos do PS. 

 

Por tudo isto me parece claro que Marques Mendes é a última pessoa que pode falar de estratégias desastrosas para Lisboa. Mas este exemplo também serve para questionar os nossos jornalistas. Será que nestes espaços de comentário político não há nenhum jornalista que faça lembrar ao comentador o seu próprio currículo no assunto que comenta?

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Pensamento da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 04.03.17

Marcelo cada vez mais se assume como Primeiro-Ministro do governo da geringonça. E António Costa permite-o, assumindo-se assim apenas como Ministro Adjunto.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Marcelo, o ardina.

por Luís Menezes Leitão, em 04.03.17

Marcelo Rebelo de Sousa tem um problema político sério. Desde muito novo se habituou a marcar a agenda política, especialmente através da sua célebre página 2 do Expresso onde todas as semanas inventava factos políticos como quem constrói castelos de cartas. Por isso, quando foi desafiado para concorrer à Câmara de Lisboa nos anos 80, Marcelo ficou convencido de que facilmente poderia ganhar a eleição. Nessa altura recebeu, porém, com grande surpresa a notícia de que era totalmente desconhecido do grande público. Desde então Marcelo passou de criador de factos políticos para criador de factos mediáticos, inventando sucessivos shows, apenas com o fim de se tornar conhecido, como mergulhar no Tejo ou conduzir um táxi em Lisboa. Não percebeu, no entanto, que esses shows eram fatais para a credibilidade da sua candidatura. Jorge Sampaio apresentou apenas um slogan: "a responsabilidade" e facilmente ganhou essa eleição.

 

Marcelo perdeu, mas não desistiu de até hoje manter uma presença constante nos media, julgando ser esse o caminho para atingir o poder.  Inicialmente na TSF, e depois na TVI ou na RTP, Marcelo foi laboriosamente, ao longo de mais de duas décadas, construindo uma persona televisiva, julgando que o amplo reconhecimento do grande público seria suficiente para ganhar todas as eleições a que se apresentasse. Mas a verdade é que o mediatismo é insuficiente, e até permite expor muitas vezes a falta de conteúdo da mensagem política dos candidatos mediáticos. Ao contrário do que muitos julgam, Donald Trump não ganhou as eleições presidenciais americanas por ser uma estrela de reality shows, mas antes porque surgiu com um discurso político que teve grande impacto nos estados decisivos. Ora, Marcelo nunca conseguiu ter qualquer discurso político consistente e daí o seu fracasso na liderança do PSD, perdendo a oportunidade de ser primeiro-ministro. É verdade que conseguiu ganhar as eleições presidenciais, apenas falando em afectos, mas isso aconteceu porque António Costa quis essa eleição, tendo por isso apresentado contra ele um candidato anódino, cujo discurso radical de esquerda afugentava o eleitorado de centro. Pode dizer-se que António Costa ofereceu a eleição presidencial numa bandeja a Marcelo Rebelo de Sousa, e ele não tem deixado de lhe retribuir o favor, apoiando o seu governo em tudo e mais alguma coisa, até nas críticas a um simples aviso de Teodora Cardoso.

 

A questão é que, da mesma forma que Donald Trump não consegue largar o twitter, Marcelo está absolutamente viciado na presença mediática e não perde uma oportunidade para surgir nos meios de comunicação social, enquanto que o cargo de Presidente exigiria antes recato e distanciamento. Parece que Marcelo não acredita que existe se não aparecer nos media. É assim que agora vai aparecer como ardina a vender a revista Cais nas ruas. Maurice Duverger disse uma vez que se virmos o Rei na rua, sempre que vamos ao quiosque comprar jornais, a Coroa deixa de inspirar respeito. Imagino o que ele diria se o Rei aparecesse nas filas de trânsito a vender uma revista aos automobilistas. As boas intenções, que o povo diz que enchem o inferno, não justificam tudo. E a dignidade do cargo de Chefe de Estado deve ser sempre preservada.

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Blogue da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 26.02.17

Desde que me conheço sempre fui um apaixonado por livros, pelo que costumo comprar com regularidade as novidades que surgem no mercado editorial. Mas também sempre me interessaram as obras que já não se conseguem encontrar, nem sequer nos alfarrabistas. E para isso a única possibilidade que temos é ir às bibliotecas. Passam-se momentos magníficos nas bibliotecas, normalmente edifícios com salas amplas e enormes galerias, em que os funcionários velam pelo silêncio como se fossem guardiões de um templo. Normalmente temos por isso um tempo de espera em silêncio nessa sala até que nos tragam finalmente a preciosidade que procurámos em vão durante tanto tempo. Depois resta-nos esperar que o horário da biblioteca seja compatível com o tempo que precisamos para ler essa obra. Neste mundo da internet e do audiovisual, as bibliotecas merecem uma atenção especial, sendo por isso importante um blogue que a elas se dedica. O Bibliotequices é por isso o blogue da semana. 

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De facto inaceitável.

por Luís Menezes Leitão, em 24.02.17

Dou inteira razão à Ministra sueca. É de facto inaceitável que um país se proponha isentar reformados estrangeiros de imposto sobre as pensões ao mesmo tempo que sangra os seus nacionais com taxas de imposto sobre o rendimento expropriatórias e, não contente com isso, ainda vem a seguir lançar mais impostos sobre o património que os desgraçados ainda conseguiram poupar, apesar da sangria fiscal sobre o seu rendimento. Se os reformados suecos estão cá a residir, e beneficiam dos nossos serviços públicos, então que paguem impostos como toda a gente. Basta o que basta!

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As eleições presidenciais francesas.

por Luís Menezes Leitão, em 17.02.17

Há uma coisa que me tem surpreendido em absoluto nos últimos tempos: a total falta de profissionalismo na condução das campanhas eleitorais. Mesmo na América, onde as campanhas eleitorais são habitualmente conduzidas com enorme eficácia, Hillary Clinton fez uma campanha desastrosa, acabando por perder a eleição.

 

Em Franca, no entanto, parece que isto atingiu o absurdo total, estando todos os candidatos a dar sucessivos tiros no pé, parecendo que a única coisa que querem garantir a eleição a Marine Le Pen. O último episódio é esta entrevista de Macron. Será que ele acha mesmo que este discurso é a resposta adequada a esta campanha da sua adversária principal? Depois não estranhem o resultado.

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O novo sistema político.

por Luís Menezes Leitão, em 14.02.17

Se há alguém que tenha dúvidas sobre a fraqueza que constitui a solução política engendrada por António Costa, o imbróglio em que se envolveu Centeno e especialmente a resposta de Marcelo demonstram-no claramente. Sobre Centeno nada mais há a dizer e a avaliação está feita. Vir afirmar que houve conversas informais, mas não acordo, e que tudo não passou de um mal-entendido, corresponde à velha desculpa esfarrapada de quem não honra a palavra dada, quando António Costa gosta tanto de dizer que ela tem que ser honrada. Querer fazer as pessoas acreditarem que não havia acordo, quando até se colocou um escritório de advogados a redigir leis à medida do presidente da Caixa, que pelos vistos foram depois assinadas e promulgadas de cruz pelos órgãos de Estado, é chamar parvos aos portugueses. Mas a personagem vai se manter no cargo, em homenagem ao "estrito interesse nacional", que determina a abolição de qualquer responsabilidade política. Noutros países há outra concepção do "estrito interesse nacional" que implica não deixar degradar as instituições. Mas aqui, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

 

O que é novo, no entanto, nisto tudo é o comunicado de Marcelo, que dá a entender que o Ministro das Finanças se mantém no cargo por decisão sua. Será que Marcelo não conhece o art. 191º da Constituição que diz claramente que não há responsabilidade política dos Ministros perante o Presidente da República? Como se já tinha visto no caso da Cornucópia, Marcelo parece querer assumir-se como chefe do governo, ouvindo explicações dos Ministros, dando-lhes ordens e até os podendo demitir, enquanto que o Primeiro-Ministro assiste a isto tudo sem um protesto, assumindo perante o presidente a posição mais subserviente que alguma vez teve um Primeiro-Ministro de um governo constitucional. Nem nos governos de iniciativa presidencial de Ramalho Eanes se assistiu a algo semelhante.

 

Há uns anos, quando estava na Guiné-Bissau, houve nesse país uma crise política, porque o Presidente exigiu a demissão de um Ministro e o Primeiro-Ministro recusou-se a fazê-lo, dizendo que a competência era sua, o que era verdade em termos constitucionais. Na altura, discutindo com colegas juristas guineenses, os mesmos foram de opinião que tinha sido um erro o país ter adoptado o sistema político semipresidencial, por recomendação dos constitucionalistas portugueses. Segundo eles, em África o sentimento popular exigia uma autoridade forte, e o povo não conseguia compreender que alguém pudesse ser Presidente e não mandar no governo. Concordei com eles, e por isso não me espantei quando posteriormente Angola alterou a sua constituição, abandonando o sistema semipresidencial, e concentrando o poder executivo no Presidente.

 

O que nunca pensei é que em Portugal o sistema político também pudesse ficar ameaçado por estas sucessivas investidas de Marcelo, a querer assumir competências que manifestamente não tem. Mas o que isto demonstra claramente é a fragilidade política de António Costa. Estando o seu apoio parlamentar em colapso, Antóno Costa precisa do braço do presidente para se manter no arame, pelo que o deixa ingerir-se nas suas próprias competências. Só que em política nem tudo vale a pena, e António Costa deveria pensar se o seu apego ao poder justifica permitir tanta menorização do seu próprio cargo.

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Viagem ao Egipto (20).

por Luís Menezes Leitão, em 29.01.17

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Para concluir estes já longos apontamentos da minha viagem ao Egipto, falta falar dos colossos de Mémnon. Estes colossos são tudo o que resta do que se julga ser um gigantesco templo funerário construído pelo Faraó Amenófis III, cuja entrada era guardada por estes dois enormes colossos. Mas o templo foi sucessivamente destruído pelas cheias do Nilo e pela invasão das areias, restando apenas os colossos. Estes mesmos, porém, ainda ruiriam parcialmente antes da nossa era por um terramoto ocorrido em 27 a. C., que abriu uma fenda na cabeça de um dos colossos.

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Essa fenda causou, porém, um fenómeno estranho, já que a estátua passou a cantar ao amanhecer, segundo se julga devido a um fenómeno de concentração de humidade dentro da fenda, que seria expelida com o surgimento dos raios do sol. Por isso, os gregos passaram a associar a estátua a Mémnon, herói da guerra de Tróia. Segundo Homero refere na Ilíada, Mémnon era um rei etíope, que levou um exército para Tróia, em ordem a defender Príamo da invasão grega. No entanto, foi morto por Aquiles em vingança pela morte do seu companheiro Antíloquo. Por isso, depois da sua morte, a sua mãe Eos, a deusa da aurora, passou a chorar a morte do filho todos os dias à alvorada. Em resultado disto, até o nome de Amenófis III deixou de estar associado a estas estátuas, a benefício de uma nova mitologia.

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Mas o choro de Eos duraria apenas duzentos anos, um instante na história milenar do Egipto, uma vez que o imperador romano Septímio Severo, em 199 d.C., mandou reparar a fenda na estátua, que desde então nunca mais cantou.

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Olhando para estes colossos, tem-se a verdadeira sensação da eternidade. Como dizia Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser e muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades". Estes colossos foram construídos em homenagem a um faraó, foram destruídos, passaram a cantar, foram associados a um herói grego, deixaram de cantar, e aqui agora permanecem, como testemunhos de um tempo perdido, cuja busca agora termina.

 

Finis

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Viagem ao Egipto (19).

por Luís Menezes Leitão, em 27.01.17

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Muito perto do Vale dos Reis, encontra-se o templo da rainha Hatchepsut, a única mulher que assumiu no Egipto a dignidade de faraó. Mulher de Tutmés II, quando ele morreu, em lugar de se limitar a assumir a regência em nome do seu enteado Tutmés III, decidiu ela própria coroar-se faraó, passando a governar o país.

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Em sua homenagem foi construído este magnífico templo, estando a rainha representada como qualquer outro faraó, incluindo com uma barba postiça.

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O reinado de Hatchepsut não foi, no entanto, aceite pelo seu enteado, Tutmés III, que, quando lhe sucedeu, mandou apagar todas as representações da madrasta, querendo eliminar o seu reinado da memória colectiva. Tanto foi assim que o calendário que mandou elaborar transita directamente do reinado de Tutmés II para o de Tutmés III, apagando à maneira orwelliana o reinado de Hatchepsut da história do Egipto.

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Tutmés III não se atreveu, no entanto, a desafiar os sacerdotes, destruindo o templo que a rainha tinha querido construir. E assim este magnífico templo permanece até aos nossos dias, recordando para a posteridade a corajosa história de uma mulher se atreveu a assumir um cargo até então reservado aos homens.

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Viagem ao Egipto (18).

por Luís Menezes Leitão, em 25.01.17

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Constitui um absoluto fascínio visitar o Vale dos Reis, onde se encontram os túmulos dos faraós entre a XVIII e a XX dinastia. Infelizmente é totalmente interdito tirar fotografias deste local, talvez o mais precioso da arqueologia egípcia. Aqui foram encontradas as múmias dos grandes faraós, incluindo Ramsés II, hoje na sala 52 do museu do Cairo, e foi encontrado em 1922 inviolado o túmulo de Tutankhamon, também no museu do Cairo.

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Desde sempre se ficou a pensar que, se o túmulo de um faraó tão pouco importante tinha tantas riquezas, que verdadeiros tesouros esconderiam os túmulos dos grandes faraós?

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No Vale dos Reis é permitido entrar em três túmulos. Os mesmos estão escavados na rocha e desce-se a grande profundidade até à cripta onde o faraó repousava. Os egípcios fechavam os sarcófagos em três recipientes de pedra, madeira e ouro, todos enchidos de areia. Assim, a múmia ficava envolvida numa atmosfera de 20,9% de oxigénio, 78,1% de azoto e 1 por cento de humidade, sendo que cinco anos depois, o oxigénio caía para 1,2%, matando todos os fungos e micróbios. As múmias ficavam assim conservadas para a eternidade, podendo durar milhões de anos, se os egiptólogos não tivessem vindo perturbar este repouso. E hoje são os turistas, vindos dos quatro cantos do mundo, a entrar no que deveria ser a morada eterna dos faraós.

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Viagem ao Egipto (17).

por Luís Menezes Leitão, em 22.01.17

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A apenas alguns quilómetros do templo de Karnak, encontra-se o templo de Luxor, que já só conseguimos visitar de noite. É um templo magnífico, que tem a curiosidade de ter estado séculos enterrado debaixo das areias, tanto assim que acima do mesmo foi construída uma mesquita. Após a redescoberta do templo no séc. XIX, a mesquita mantém-se, estando situada a um plano superior.

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Igualmente dedicado ao deus Amon e à sua esposa Mut, o templo foi iniciado por Amenófis III, mas a parte mais importante foi construída pelo sempre presente Ramsés II.

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À entrada possuía dois grandes obeliscos, cujos hieróglifos extremamente bem conservados retratam os grandes feitos deste faraó, mas um dos obeliscos foi, como se referiu, trocado por um relógio de torre que nunca funcionou, e hoje encontra-se na Place de la Concorde em Paris. É inacreditável que este magnífico templo esteja mutilado de uma das suas peças principais. A França que devolva o obelisco de Luxor a Luxor e já. 

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Viagem ao Egipto (16).

por Luís Menezes Leitão, em 21.01.17

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Continuando a descer o Nilo, chegamos quase ao pôr do sol ao templo de Karnak, dedicado ao grande deus Amon. Uma vez que se iniciou a construção deste templo no ano de 2.200 a.C., mas só foi terminado no ano 360 a.C., é o equivalente egípcio às nossas obras de Santa Engrácia, ainda que com muito maior dimensão temporal.

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É um templo imponente, guardado para a eternidade por duas enormes fileiras de esfinges, só que desta vez com cabeça de carneiro, que correspondia à forma tradicional de representação do deus Amon. Olhando para esta estranha série de leões com cabeça de carneiro, não pude deixar de pensar no célebre cão Cérbero da mitologia grega, que guardava o reino dos mortos, despedaçando os que tentassem de lá sair. E as estátuas quebradas no interior do templo dão-nos esta sensação de que o tempo foi inexorável para aqueles que tentaram ir-se da lei da morte libertando.

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Mas lá dentro, como não podia deixar de ser, encontra-se, bem conservada, mais uma gigantesca estátua do maior faraó do Egipto, o grande Ramsés II, como sempre com a sua esposa preferida, Nefertari, aqui representado como Osíris. É claro que, no templo do grande deus Amon, teria que estar uma estátua deste grande faraó, que seguramente alcançou a eternidade, olhando desafiante para os visitantes que aqui vêm perturbar o seu sossego de milénios. 

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Viagem ao Egipto (15).

por Luís Menezes Leitão, em 19.01.17

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Continuando a descer o Nilo, chega-se de madrugada a Edfu, onde se encontra o templo dedicado a Hórus, o deus-falcão, que simboliza o poder da vingança. Efectivamente, de acordo com a religião egípcia, Osíris, o deus da vida e rei do Egipto, seria assassinado por seu irmão Seth, o deus do deserto, que lhe roubaria o trono, abandonando o seu corpo despedaçado no Nilo. Mas a sua mulher Ísis reconstituiria o corpo, conseguindo gerar postumamente um filho, Hórus. Este resolve terminar com o reinado maléfico de Seth, devolvendo a ordem ao Egipto e concretizando a ressurreição de Osíris. O mito simboliza a eterna luta do bem e do mal, sendo que o termo Seth está na origem da palavra Satã, que simboliza o diabo nas três grandes religiões. Para além disso, a luta do sobrinho contra o tio, para recuperar o trono roubado ao pai, está na base da obra imortal de Shakespeare, Hamlet.

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Curiosamente, a imagem de Hórus, que era um deus bom, assustaria imenso os cristãos, que ocuparam este templo após o édito de Tessalónica, que proibiu os templos pagãos. Julgando que Hórus representava o diabo, os cristãos picavam a sua imagem, não sabendo que o verdadeiro diabo era Seth, depois Satã. Mais uma vez, verifica-se ser verdadeira a célebre capacidade do diabo de enganar as pessoas.

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Por este templo andou Gulbenkian, sendo que as fotografias que aqui tirou serviram de modelo à estátua que está hoje na Fundação, na Praça de Espanha. Justifica-se por isso tirar uma fotografia semelhante para a posteridade.

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Viagem ao Egipto (14).

por Luís Menezes Leitão, em 17.01.17

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Descendo o Nilo a partir de Assuão chega-se 40 quilómetros depois, já de noite, a Kom Ombo, onde se encontra o único templo dedicado a dois deuses, o deus falcão Hórus e o deus crocodilo Sobek. Também é um templo mais recente, já da época ptolomaica, expressando as suas colunas uma clara influência greco-romana.

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O templo conserva, no entanto, em profundidade a mitotologia egípcia, com os seus dois deuses a travar a eterna luta do bem e do mal, simbolizada no combate entre o falcão e o crocodilo, prestando, no entanto, o faraó vassalagem a ambos.

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Ao lado do templo, encontra-se um museu do crocodilo, onde se encontram múmias de crocodilos, demonstrando que os egípcios até esses animais pretendiam conservar para a eternidade.

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Viagem ao Egipto (13).

por Luís Menezes Leitão, em 16.01.17

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Um outro templo que ficou alagado pela barragem de Assuão foi o templo de Ísis, na ilha de Philae, o qual teve por isso que ser desmontado e reconstruído na ilha vizinha de Agilka, a cerca de 300 metros de distância. Trata-se de um templo da época ptolomaica, desenvolvido depois da ocupação romana, pelo que são visíveis as influências greco-romanas.

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Consta que a célebre rainha Cleópatra se dirigia a este templo para prestar adoração à deusa Ísis, tendo permanecido no templo o altar dedicado à deusa.

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Mas a célebre Cleópatra, que conseguiu seduzir sucessivamente Júlio César e Marco António, transformando-os em aliados do seu Egipto, já não conseguiria seduzir Augusto, que a derrotaria, levando-a ao suicídio. O Egipto tornar-se-ia assim uma simples província romana, tendo, no entanto, este templo permanecido para os fiéis da religião egípcia, cada vez mais esmagados pelo poder romano. Ao lado foi construído um templo dedicado a Trajano, o imperador que levou o império romano à sua maior extensão.

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Depois, a difusão do cristianismo foi fatal para a religião egípcia. A 27 de Fevereiro do ano 380 o imperador Teodósio I estabelece o édito de Tessalónica, que decreta o cristianismo como religião oficial do império mandando fechar todos os templos pagãos. Assim, os fiéis de Ísis foram perseguidos, e a própria escrita egípcia, anteriormente gloriosa, desapareceu. Encontra-se precisamente neste templo o último texto escrito na escrita hieroglífica, datado de 24 de Agosto de 394 d. C., numa altura em que seguramente o seu autor já estaria a ser alvo de perseguições. A roda da história é implacável para com os povos vencidos, restando-nos hoje apenas os velhos monumentos para recordar o seu passado glorioso.

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Viagem ao Egipto (12).

por Luís Menezes Leitão, em 15.01.17

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A partir de Assuão pode fazer-se uma viagem por estrada a Abu Simbel, situada junto à fronteira com o Sudão. É uma viagem de ida e volta de 600 km através do deserto do Saara, que se tem que fazer numa manhã, mas vale a pena. Sai-se de madrugada e vê-se o nascer do sol no deserto, comprando um café quente numa banca à beira da estrada, para afastar o frio.

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 Abu Simbel foi um dos templos que ficou submerso com a barragem de Assuão, tendo sido salvo devido à intervenção da UNESCO. A intervenção foi complexa, uma vez que se tratava de um templo escavado numa montanha. A solução foi fazer mais recuadamente uma montanha artificial com uma estrutura de ferro, para onde depois foram transferidas as estátuas. O resultado foi excelente, uma vez que todos os monumentos foram conservados, mantendo-se o espírito original.

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Os templos são dois, sendo o maior dedicado a Ramsés II, com os grandes colossos, todos representando o faraó, e o segundo, mais pequeno, dedicado à rainha Nefertari. Ramsés II teve várias esposas, mas a sua favorita foi sempre Nefertari, nome que significa precisamente a mais bela ou a mais perfeita. Nefertari era uma princesa núbia, cujo casamento com Ramsés II trouxe a paz entre o Egipto e a Núbia, paz essa que se julga ter sido simbolizada em Abu Simbel, com os dois magníficos templos. Mas os templos simbolizam principalmente a história de amor entre o faraó e a sua rainha, que ainda hoje é proclamada aos visitantes, milhares de anos passados.

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Viagem ao Egipto (11).

por Luís Menezes Leitão, em 14.01.17

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Um dos mais belos inícios de um romance em língua portuguesa é o de Luandino Vieira, De Rios Velhos e Guerriheiros: "Conheci rios. Primevos, primitivos rios, entes passados do mundo, lodosas torrentes de desumano sangue nas veias dos homens. Minha alma escorre funda como a água desses rios". Eu também conheci muitos rios, primevos, primitivos, entes passados do mundo, mas nenhum se compara ao Nilo.

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O Nilo não é apenas o maior rio do mundo  em extensão — já em volume de água é ultrapassado pelo Amazonas — como também é um rio absolutamente único, cujas características espantavam os antigos. Em primeiro lugar desce de Sul para Norte. Depois, uma vez juntos o Nilo Branco e o Nilo Azul, já não tem afluentes, dividindo-se num enorme delta antes de chegar à foz. E a sua cheia não coincidia com as cheias dos outros rios que desaguam no Mediterrâneo. Enquanto nestes a cheia é no Inverno, secando o rio no Verão, no Nilo a cheia era em Julho, no pico do Verão, altura em que a água alagava os campos tornando-os férteis sob uma temperatura de mais de 40 graus. A explicação é que era nessa altura que surgiam as grandes chuvas tropicais no centro da África, levando a que o rio enchesse, provocando inundações a milhares de quilómetros de distância.

 

Por isso os egípcios entoavam hinos à cheia do Nilo como nos excertos seguintes:

 

"Salve ó Nilo, que sai da terra e vem vivificar o Egipto

de natureza misteriosa, tenebroso em pleno dia!

A sua saída canta-o,

ele que faz viver todo o gado,

ele que sacia o deserto

quando a água distante aparece (…)".

 

"Ele traz a sua plenitude e nenhum dique se ergue à sua frente.

Ele atingiu as montanhas,

senhor dos peixes, com muitos pássaros

[Ele traz] todos os seus [produtos] úteis.

Ele é alimento e todos os corações estão doces (…)

(recolhidos em Luís Manuel de Araújo, Mitos e Lendas do Antigo Egipto, págs. 103 e 107)

 

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Hoje tudo isto acabou. O Nilo, que nenhum dique impedia, está hoje represado pela grande barragem de Assuão, que criou o Lago Nasser com 550 Km de comprimento e 5250 km2 de área, seguramente o maior lago artificial do mundo. E assim, para além de ter alagado importantíssimos sítios arqueológicos, esta barragem terminou com a cheia do Nilo, que existia desde a antiguidade. Na verdade, o homem tudo faz para vergar a Natureza à sua vontade e nem o maior rio do mundo lhe consegue resistir.

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Viagem ao Egipto (10).

por Luís Menezes Leitão, em 13.01.17

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Em Mênfis podemos ver uma enorme estátua derrubada daquele que foi seguramente o maior faraó do Egipto: Ramsés II, o Grande. O seu reinado foi longuíssimo, situando-se aproximadamente entre 1279 a.C. e 1213 a.C., pelo que várias gerações de egípcios apenas conheceram Ramsés II como seu faraó. Esse período foi extremamente próspero, tendo o faraó casado várias vezes, sendo a sua principal esposa a rainha Nefertari, e deixado inúmera descendência. Por isso se diz que grande parte dos egípcios são descendentes de Ramsés II.

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Ramsés II não foi, no entanto, conhecido por grandes feitos militares, mas antes pela grande arte do político, que é a propaganda, e que o levou a espalhar estátuas monumentais por todo o Egipto. O seu maior feito militar é a batalha de Kadesh, que travou na Síria contra os hititas, mas que na realidade acabou por se revelar um fracasso, não tendo Ramsés II conseguido tomar a cidade. A lenda, no entanto, diz que Ramsés II foi abandonado pelos soldados em pleno combate mas que, após uma prece ao deus Amon, este interveio a seu favor, permitindo-lhe vencer e esmagar os hititas completamente sozinho. Como dizia John Ford, no filme O homem que matou Liberty Valance, "quando a lenda é mais interessante do que o facto, imprima-se a lenda".

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Olhando esta estátua derrubada de Ramsés II, lembrei-me do célebre poema Ozymandias, que Shelley escreveria em 1818, também após olhar para uma estátua deste faraó, aqui na tradução de Eugénio da Silva Ramos:

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante

Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,

Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,

Afundando na areia, um rosto já quebrado,

de lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante

Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia

Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,

À mão que as imitava e ao peito que as nutria

No pedestal estas palavras notareis:

"Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:

Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!"

Nada subsiste ali. Em torno à derrocada

Da ruína colossal, areia ilimitada

Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.

 

Só que Shelley escreveria antes da descoberta do Vale dos Reis, onde se encontrou a múmia de Ramsés II. E, curiosamente, quando em  1976 a múmia teve que viajar para Paris para ser tratada de um fungo que a consumia, o governo francês decidiu receber a múmia no aeroporto com honras de chefe de Estado. No Egipto o passado e o presente estão eternamente ligados e, mesmo após três mil anos, ninguém se esquece de prestar as honras devidas ao Grande Faraó.

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Viagem ao Egipto (9).

por Luís Menezes Leitão, em 12.01.17

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Depois de Sakkara chega-se num instante à antiga capital do Egipto, Mênfis, situada na margem do Nilo. Segundo o historiador grego Manetón, Mênfis teria sido fundada em 3.000 a. C. pelo faraó Menes, que deu o nome à cidade. Situada no delta do Nilo, com um importante porto, Mênfis foi o centro político e económico do Egipto durante todo o império antigo, só vindo a perder importância depois da fundação de Alexandria por Alexandre, o Grande. Na verdade, receoso perante os feitos desse grande guerreiro, o Egipto render-se-ia sem qualquer luta a Alexandre, que se fez coroar em Mênfis rei do Egipto. Considerado como faraó e filho de Amon, Alexandre, no entanto, abandonaria Mênfis, construindo logo uma nova capital, Alexandria, no que foi o princípio da decadência do Egipto. 

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Mênfis foi assim ficando esquecida. No séc. XIX Eça de Queiroz escreveria que "as ruínas de Mênfis são apenas montículos escuros, onde se vêem ainda paredes de tijolos quase torrificados. As palmeiras crescem por entre as ruínas e a estátua de Sesótris aparece-nos meio coberta pelo lodo da inundação…". Actualmente Mênfis é apenas um museu a céu aberto, com as suas imponentes estátuas como testemunho da glória de uma cidade milenar, mas que a história implacavelmente castigou e que por isso é hoje uma cidade perdida.

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Viagem ao Egipto (8).

por Luís Menezes Leitão, em 11.01.17

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Escreveu Eça de Queiroz que "para além da esfinge, começa o caminho de Sakkara". Efectivamente, depois da esfinge, visitamos Sakkara, onde se encontra a primeira pirâmide, e talvez a primeira construção monumental alguma vez feita pelo homem. Efectivamente, a pirâmide dos degraus de Sakkara foi construída por volta de 2.650 a. C, por ordem do faraó Djoser, da III dinastia, que quis criar um túmulo monumental para guardar os seus restos mortais. Djoser pediu ao seu vizir Imhotep, o qual também era arquitecto, que lhe construísse esse monumento funerário, e Imhotep, na sua ingenuidade, desenhou uma simples mastaba. Queixando-se Djoser que o projecto não era digno de tão grande faraó, Imhotep decidiu alargar a base e construir um andar por cima. Continuando insatisfeito o faraó, Imhotep alargou os dois primeiros andares e construiu um terceiro por cima. Mas como o faraó continuava insatisfeito, voltou a alargar os três primeiros andares para construir um quarto e depois um quinto e ainda um sexto andar. E assim se chegou à construção de uma pirâmide, como túmulo para um faraó, que depois seria repetida em Gizé com muito mais monumentalidade.

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No museu do Cairo pode ver-se uma estátua deste faraó, que reinou entre 2691 e 2625 a. C. Seria hoje um faraó completamente obscuro se não tivesse exigido construir a pirâmide. Diz a Bíblia sobre isto no Ecclesiastes, 12,8: "Vanitas vanitatum et omnia vanitas" (vaidade das vaidades e tudo é vaidade) para reflectir melancolicamente sobre a pequenez das coisas deste mundo. Mas há que reconhecer que a vaidade dos faraós produziu monumentos que resistiram à usura do tempo.

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Viagem ao Egipto (7).

por Luís Menezes Leitão, em 10.01.17

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Ao longo da viagem ao Egipto, descobrimos imensas esfinges, uma vez que esta é uma representação muito comum na mitologia egípcia. Mas há uma que merece de facto ser designada apenas como a esfinge: a grande esfinge de Gizé, que se encontra neste planalto há mais de quatro mil e quinhentos anos, esmagando os visitantes com a sua monumentalidade.

 

Com um corpo de leão e cabeça humana, a primeira dúvida é saber o que representa a esfinge. A primeira versão sustentava que a esfinge era uma representação do Deus Harmakhis (hórus do horizonte), que simbolizava o sol nascente e a sabedoria divina. Mais recentemente, e atendendo a que a esfinge está vestida com um toucado real, sustenta-se que a mesma representa o faraó Quéfren, autor da segunda pirâmide, que a mandou construir em 2.500 a.C., simbolizando o corpo de leão apenas o poder desse faraó. A ser esse o caso, nunca na história da humanidade a majestade real terá sido alguma vez representada de uma forma tão imponente.

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A esfinge está infelizmente sujeita a uma erosão contínua, por força da acção do vento que empurra as areias na sua direcção. Por isso, durante parte da antiguidade e mesmo até ao séc. XIX, a esfinge esteve coberta de areia. Na frente da esfinge um dístico em hieróglifos conta a história do faraó Tutmés IV, que não tinha direito ao trono, mas que lá terá chegado por causa da esfinge. Efectivamente, o príncipe adormeceu em frente à esfinge, na altura coberta de areia, e teve um sonho no qual a esfinge lhe dizia que ele a deveria libertar da areia onde estava aprisionada e que, se o fizesse, como o considerava seu filho, fá-lo-ia faraó das duas terras do Egipto. Tutmés IV manda desenterrar a esfinge, e de facto obtém o trono, após o que manda referir essa história no monumento, ligando-se à esfinge para toda a eternidade.

 

A esfinge é de facto uma representação absoluta da eternidade. Inúmeros reis nasceram e morreram, impérios foram construídos e ruíram ao longo destes quatro mil e quinhentos anos, mas a esfinge, apenas perturbada pelo vento, permanece imutável a olhar para os intrusos que se atrevem a visitar este planalto, onde ela pretende reinar para sempre.

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Viagem ao Egipto (6).

por Luís Menezes Leitão, em 09.01.17

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A apenas 25 km do Cairo encontra-se uma das sete maravilhas da antiguidade, e a única que chegou aos nossos dias: as pirâmides de Gizé, sucessivamente erguidas por três faraós, pai, filho e neto: Quéops, Quéfren e Miquerinos. As pirâmides foram sendo sucessivamente menores, ou porque nenhum dos descendentes se quis equiparar ao seu antecessor, ou mais prosaicamente porque foi faltando a capacidade para construir obras tão grandes. Na verdade, os historiadores especulam se as pirâmides foram construídas com trabalho escravo, ou com recurso a trabalhadores livres, pagos com cerveja. Seja qual fosse o processo, é arrepiante pensar o esforço sobre-humano que foi necessário, não apenas para transportar todos estes blocos, mas também para os colocar sucessivamente uns sobre os outros, em forma piramidal.

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Sobre a Grande Pirâmide, Jean-François Champollion, o decifrador dos hieróglifos do Egipto, disse que temos uma tendência natural para imaginar as coisas muito melhores do que elas são, pelo que ficamos decepcionados quando as vemos ao vivo, mas que era impossível ter esse sentimento em relação à Grande Pirâmide, face à sua monumentalidade. É, de facto, assim. A Grande Pirâmide deslumbra-nos desde o primeiro momento em que a vemos e no sopé da mesma ficamos completamente esmagados pela sua dimensão, e pela capacidade que teve em resistir a todas as invasões do Egipto. Parece que estamos a ouvir Napoleão a proclamar: "Soldados de França! Do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam". E de facto as pirâmides de Gizé são das poucas construções humanas com vocação para a eternidade.

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O que não deixa de ser profundamente irónico é que do homem que mandou construir a Grande Pirâmide para perpetuar a sua glória, o faraó Quéops, apenas restou uma pequena figurinha em marfim, exposta no Museu do Cairo. Chegaram até nós estátuas, e inclusivamente, múmias de outros faraós, que nos permitem conhecer o seu aspecto, mas de Quéops apenas esta minúscula imagem. Em qualquer caso será sempre recordado como o criador do maior símbolo do Egipto.

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Viagem ao Egipto (5).

por Luís Menezes Leitão, em 08.01.17

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No Museu do Cairo, é interessante encontrar as imagens de uma figura histórica altamente controversa, o faraó Amenhotep IV, da XVIII dinastia, que resolveu reformar a religião egípcia, combatendo o seu clero, e instituindo o culto do deus supremo Aton, representado pelo disco solar. A mudança foi tão profunda que o faraó mudaria o seu próprio nome, de Amenhotep (a satisfação de Amon) para Aquenaton (aquele que agrada a Aton) e deixaria a capital, Tebas, para fundar uma nova capital Aquetaton (o horizonte de Aton).

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O horizonte foi, no entanto, curto, uma vez que Aquenaton só reinaria 17 anos, suspeitando-se que tenha sido assassinado a mando dos sacerdotes. Logo após a sua morte, o seu filho e sucessor Tutankaton ("a imagem de Aton") reinstaurou a religião tradicional, abandonou a nova capital e alterou o seu nome para Tutankamon ("a imagem de Amon"). Por isso Aquenaton foi considerado herético, sendo visto na história do Egipto como um faraó inimigo, julgando-se que tenham sido destruídas grande parte das suas relíquias. No Museu encontra-se um invólucro arrombado, que se julga ter envolvido a sua múmia. 

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A Aquenaton é dado, no entanto, um papel histórico importante como fundador do monoteísmo, embora mais rigorosamente se deva falar em henoteísmo, uma vez que os antigos deuses não eram eliminados, mas apenas relegados para uma posição secundária. Olhando as estátuas, pensamos que Aquenaton deveria ser uma pessoa doente, uma vez que é representado como sendo extremamente magro, mas com um ventre extraordinariamente dilatado. Em qualquer caso, se não fosse a reversão decretada pelo seu sucessor, talvez a sua religião hoje pudesse figurar entre as grandes religiões do mundo. Não sendo esse o caso, resta-nos admirar a beleza do hino que ele criou para adorar o seu deus hoje desconhecido:

 

"Apareces belo no horizonte do céu, 

ó Aton vivo, criador da vida!

Quando te ergueste no horizonte oriental,

encheste toda a terra com a tua beleza.

És gracioso, grande e resplandencente

e estás muito acima de todas as terras.

Os teus raios iluminam as terras 

até ao limite de tudo o que criaste.

És como Ré, chegas ao limite de todos os países,

que unes para o teu filho que amas.

Embora estejas longe, os teus raios chegam à terra.

Embora todos te vejam, ninguém conhece o teu percurso (…).

 

Tudo se move desde que criaste a terra

e a ergueste para o teu filho, que saiu do teu corpo,

o rei que vive pela maet, senhor das Duas Terras,

Neferkheperué-Uaenré,

o filho de Ré que vive pela maet, senhor das coroas,

Akhenaton, grande no seu tempo de vida,

e a grande esposa real que ele ama,

senhora das Duas Terras,

Neferneferuaton Nefertiti, que viva para sempre".

(tradução de Luís Manuel de Araújo, Mitos e Lendas do Antigo Egipto, págs. 97 e 100).

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Mário Soares (1924-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 07.01.17

É quase impossível exprimir o sentimento de perda perante o desaparecimento de Mário Soares, o verdadeiro fundador do regime democrático, que a ele deve praticamente tudo. Na verdade Mário Soares foi simultaneamente a maior figura da oposição ao regime anterior, o político combativo que enfrentou na rua a deriva totalitária durante a revolução, o homem que construiu a nossa constituição e depois aceitou revê-la num sentido mais liberalizante, e finalmente o homem que comandou a integração de Portugal na Europa. Três vezes primeiro-ministro, duas vezes presidente da república, Mário Soares é seguramente a maior figura política do actual regime constitucional.

 

Nesta hora em que nos deixa, acho que a melhor forma de o recordar é evocando as palavras de André Malraux em 1946 sobre outro grande estadista, o General de Gaulle, cuja manifestação nos Champs Elysées contra o Maio de 1968, aliás inspiraria Soares no comício da Fonte Luminosa: "Conheci um número relativamente elevado de homens de Estado, mas nenhum — e de longe — que tivesse a sua grandeza. Para compreender a sua acção é preciso não esquecer que ele é um homem de destino e que sabe que o é. O homem de um grande destino, talvez trágico, de qualquer forma dramático… Fazem-me rir todos aqueles grotescos que lhe pedem contas. Não o seguimos para sermos pagos. Ele não deve nada a ninguém". É o país em geral que tem uma dívida enorme a Mário Soares e que, neste momento em que nos deixa, deveria reconhecer adequadamente.

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Viagem ao Egipto (4).

por Luís Menezes Leitão, em 07.01.17

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ex-libris do Cairo é o Museu Egípcio, seguramente o mais rico museu do mundo em arte egípcia, ainda que um dos últimos a ser fundado. Efectivamente poucas pessoas sabem que o primeiro museu egípcio do mundo é o museu de Turim, resultante da aquisição da colecção de Bernardino Drovetti, que foi Cônsul da França no Egipto entre 1825 e 1829, período durante o qual recolheu colecções fantásticas de peças, múmias, e papiros. Drovetti propôs-se vender a sua principal colecção ao  Estado Francês, mas foi rejeitada essa proposta, acabando por isso a mesma por ser comprada por uma fortuna em 1824 pelo Rei Charles Felix do Piemonte, que instalou o museu na sua capital, Turim. A inveja que causou noutras cidades europeias esse magnífico museu (que já visitei) levou a que Charles X de França adquirisse a Drovetti outra parte da colecção para integrar o Louvre. Finalmente uma última parte da colecção seria adquirida pelo prussiano Karl Lepsius, que com base nela fundou o Museu Egípcio de Berlim.

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Enquanto que em toda a Europa se fundavam museus a partir das peças subtraídas ao Egipto, o Egipto permanecia apenas como um museu a céu aberto, de onde qualquer pessoa podia retirar tudo. Só em 1858 foi criado o Serviço de Antiguidades do Egipto, que pretendeu evitar a pilhagem das peças, tendo desempenhado papel importante nessa criação Auguste Mariette, conservador do Louvre, que ofereceu a sua colecção pessoal para fundar em 1863 o museu do Cairo, no Bairro de Bulak. Em 1900 transitaria para a Praça Tahrir onde ainda hoje se encontra, mas está em fase de acabamento um novo museu, um grande edíficio nas proximidades.

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Na suas notas de viagem sobre o Egipto, Eça de Queiroz recorda a sua visita ao Museu de Bulak: "O Museu fica à beira do Nilo. As suas varandas abrem sobre a água que corre em baixo, larga e luminosa junto a um bosque de palmeiras. O Museu é novo, branco, polido, envernizado, estofado, alcatifado. Ali estão reunidas vetustas antiguidades egípcias, velhas de milhares de anos, tiradas do fundo dos templos, da escuridão das sepulturas, das câmaras obscuras dos pilones. Estátuas de faraós, ainda com a pintura fresca e delicada, esfinges, toda a sorte de deuses, com cabeças de cães, de chacais, de dromedários, de abutres; deuses nus, delgados, com grandes colares sobre o peito, coroados de plumas de avestruz, de crescentes, de flores de loto; estátuas hieráticas, sentadas, com as mãos espalmadas sobre os joelhos; figuras de sacerdotes e de negros; múmias de faraós, de rainhas, de ibis, de gatos, de bois e de crocodilos; colares, jóias, símbolos religiosos, armas de guerra; pequenas figuras de deuses com que se cobre o peito das múmias; anéis, escaravelhos, sinetes — todas aquelas maravilhas perdidas estão ali, numeradas, classificadas, limpas, asseadas, sob as suas vitrinas novas".

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Hoje não é exactamente assim. O grande problema do Museu do Cairo é que é mais um depósito do que um museu. Não havendo uma ordenação clara das diversas salas, o visitante perde-se entre peças oriundas de períodos históricos muito distintos. Em qualquer caso é uma emoção encontrar pela primeira vez peças tão famosas como o casal Rahotep e Nofret, e admirar a beleza de uma mulher egípcia, sempre jovem apesar dos seus 4.000 anos de idade.

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No Novo Banco a história do costume.

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.17

Penso que fui das poucas pessoas a dizer (veja-se aqui e aqui) que a resolução do BES iria dar um buraco maior do que o próprio BES e que o empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução nunca iria ser pago, sob pena de a banca em geral colapsar. Agora sabe-se que, em lugar dos 4,4 mil milhões gastos, apenas nos oferecem pelo Novo Banco uns módicos 750 milhões e ainda exigem garantias de 2,5 mil milhões. O pedido de garantias é muito avisado, sabendo-se dos riscos de litígios que a medida de resolução decretada pelo Banco de Portugal, com o Governo na praia, iria provocar. Mas, apesar disso, o preço é espantoso. Como bem escreve hoje João Quadros no Jornal de Negócios:

"750 milhões pelo Novo Banco? Aposto que a Remax fazia melhor que o Sérgio Monteiro. Não podemos vender o Novo Banco aos vistos gold? Ou aproveitar os balcões para fazer uns hostels?

Como se não bastasse, a proposta da Lone Star, segundo se diz, é em torno dos 750 milhões, mas a garantia pedida ao Estado é de 2,5 mil milhões de euros. Isto não é vender o Novo Banco, é pagar pelo dote da mais nova".

É por isso que agora surge a proposta mirabolante de nacionalizar o Novo Banco, tão ao agrado da extrema-esquerda. Devem estar milagrosamente esquecidos do que deu a nacionalização do BPN, onde o Estado estoirou 6.000 milhões para depois revender o banco nacionalizado por 40 milhões.

Os Bancos são negócios como quaisquer outros. Se não são viáveis, devem ser liquidados, com perdas para os credores e os grandes depositantes. Fazer os contribuintes suportar negócios inviáveis só serve para provocar a ruína do Estado. E antes de fazerem qualquer disparate, comecem mas é a olhar para os juros da nossa dívida.

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Viagem ao Egipto (3).

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.17

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Depois do Cairo Islâmico, convém conhecer o Cairo cristão, entrando no bairro copta. Dez por cento da população do Egipto é cristã, tendo o cristianismo aqui sido difundido pela primeira vez pelo evangelista São Marcos, mas o país tem uma igreja nacional, a Ortodoxa Copta, que não deve obediência a qualquer outra Igreja, possuindo por isso um sínodo de bispos próprio, liderado pelo seu primaz, o Papa Tawadros II de Alexandria. O Egipto tem-se caracterizado por uma convivência pacífica entre religiões, pelo que causou estupefacção no país o atentado do passado dia 11 de Dezembro contra a Igreja de São Pedro e São Paulo no Cairo, que causou 25 mortos.

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Não visitei essa Igreja, uma vez que no bairro copta existe uma Igreja bastante mais interessante, a Igreja de São Sérgio e São Baco, dedicada a estes dois antigos oficiais do imperador romano Galério que foram martirizados no início do Séc. IV por se terem convertido ao cristianismo, recusando-se por isso a fazer oferendas a Júpiter. Construída no final desse século, a Igreja adquire, no entanto, relevo especial por se acreditar que foi construída sobre a cripta onde a Sagrada Família se refugiou após a fuga para o Egipto, para escapar ao massacre dos inocentes decretado por Herodes. A cripta é por isso objecto de peregrinação e muito visitada, exibindo a Igreja ainda vários manuscritos do início da era cristã, escritos em alfabeto copta, muito semelhante ao grego. Lamentavelmente não é possível tirar fotografias do seu interior.

 

O episódio da fuga da Sagrada Família para o Egipto é dos mais controversos dos evangelhos, aparecendo apenas em Mateus 2, 13-18: "Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.»  E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: «Do Egipto chamei o meu filho» [Oseias, 11,1]Então Herodes, ao ver que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o seu território, da idade de dois anos para baixo, conforme o tempo que, diligentemente, tinha inquirido dos magos. Cumpriu-se, então, o que o profeta Jeremias dissera: «Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto: É Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada, porque já não existem» [Jeremias, 31,15]

 

Apesar da beleza e do dramatismo deste texto, a sua historicidade tem sido muito questionada. Existindo imensos registos históricos sobre Herodes, nenhum menciona o massacre dos inocentes, sendo que um infanticídio dessa dimensão dificilmente poderia passar sem referência. E o episódio também não se encontra descrito em mais nenhum dos evangelhos, sabendo-se que os três evangelhos sinópticos partem de uma única fonte, o manuscrito Q, pelo que, se esse episódio lá constasse, seria de esperar que aparecesse nalgum dos outros evangelhos. Para além disso, o percurso de Belém para o Egipto (e o subsequente regresso a Nazaré) tem uma extensão de mais de 500 km através do deserto, muito difícil de fazer com um recém-nascido. 

 Em qualquer caso, e apesar do cepticismo acima descrito, é impossível não sentir dentro desta Igreja, ao olhar para a cripta, um sentimento de profunda espiritualidade, ao se imaginar a Sagrada Família ali recolhida, colocando o menino a salvo dos assassinos. E é especialmente simbólico nestes tempos conturbados, onde tantos refugiados procuram igualmente colocar os seus filhos a salvo das perseguições.

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Viagem ao Egipto (2).

por Luís Menezes Leitão, em 05.01.17

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O deslumbramento com os monumentos egípcios não deve fazer esquecer o interesse do Cairo islâmico. Neste âmbito impõe-se uma visita à cidadela de Saladino, o famoso chefe militar curdo, ainda hoje venerado pelos árabes. Nascido em Tikrit, na Mesopotâmia, em 1138, Saladino viria a ser sultão do Egipto e da Síria, tendo depois tomado Jerusalém, o que deu origem à terceira cruzada, comandada por Ricardo Coração de Leão. Apesar das vitórias militares deste último, Jerusalém não seria recuperada, tendo pelo tratado de paz de Ramla em 1192 Saladino apenas aceitado que a cidade ficasse aberta às peregrinações cristãs. Amin Maalouf, no seu As cruzadas vistas pelos árabes, descreve o diálogo entre os dois que deu origem ao tratado de paz. Ricardo Coração de Leão explica que pretende terminar a cruzada, pois quer passar o Natal no seu país. Saladino responde que a diferença entre os dois era precisamente essa. É que ele estava no seu país, iria lá passar todos os Natais e não pretendia ir a mais lado nenhum. 

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A cidadela de Saladino foi construída entre 1176 e 1183, tendo passado a ser a sede oficial do governo do Egipto desde 1207 até ao séc. XIX. No interior da cidadela encontra-se a Mesquita de Alabastro, construída entre 1830 e 1848 pelo governador do Egipto Mohammed Ali, que viria a ser enterrado no local. A mesquita domina todo o horizonte do Cairo, mas a história mais interessante é a do seu relógio. Na verdade, Mohammed Ali celebrou em 1829 um negócio com o Rei Luís Filipe de França pelo qual trocou um dos dois obeliscos de Luxor por um relógio de torre. O obelisco de Luxor enfeita hoje magnificamente a Place de La Concorde em Paris enquanto o relógio, que foi instalado na Mesquita de Alabastro, só funcionou durante quatro dias, tendo estado parado desde então. Pelo que vi quando lá estive, o relógio está em obras, pelo que pode ser que o consigam reparar. Em qualquer caso, a vigarice monumental que constituiu este negócio ainda hoje indigna os egípcios.

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Viagem ao Egipto (1).

por Luís Menezes Leitão, em 04.01.17

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Há imenso tempo que andava a planear uma viagem ao Egipto, que fui sucessivamente adiando devido às confusões em que infelizmente se conseguiu colocar o mundo árabe. Mas este ano jurei que seria a altura e nem um atentado no Cairo nas vésperas da viagem, a que se somou outro atentado em Istambul, cidade onde fiz escala por duas vezes, me fez dissuadir desse objectivo. Os terroristas não podem matar toda a gente, e a melhor atitude a tomar é não deixarmos que os atentados influenciem o nosso comportamento. A aposta foi ganha, uma vez que a viagem foi extremamente tranquila.

 

O Egipto é um autêntico museu a céu aberto, e quando julgamos que já vimos tudo o que nos poderia deslumbrar, somos surpreendidos com algo ainda mais grandioso. Na verdade, não há no mundo mediterrânico civilização mais perene do que a civilização egípcia. O Império Romano durou cerca de quinhentos anos, a Grécia Antiga cerca de mil anos, mas o antigo Egipto perdurou por mais de três mil anos. No Egipto o passado e o presente estão profundamente ligados, sendo impressionante a quantidade de testemunhos históricos que ainda hoje se continuam a descobrir. 

 

Curiosamente, a porta de entrada neste mundo mágico é uma cidade perfeitamente banal, o Cairo. Com uma população de cerca de oito milhões de habitantes, e uma área urbana de 23 milhões de pessoas, o Cairo é a maior cidade de África. Especialmente caótica em termos de trânsito, uma vez que nos explicaram que a regra ali é a de que quem tem pressa tem prioridade. Como resultado, os sinais vermelhos são considerados simples decorações de mau gosto. Por pouco não nos ocorreram vários acidentes, mas a perícia dos condutores, que encaram cada viagem como um rally urbano, evita consequências piores.

 

Em qualquer caso é irresistível o pitoresco do Cairo velho, especialmente um passeio nos seus mercados, com inúmeros comerciantes, que vendem exactamente as mesmas coisas, a tentar apanhar qualquer turista desprevenido.

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A promulgação do Orçamento.

por Luís Menezes Leitão, em 22.12.16

— Oh Marcelo, para ser mais depressa, promulga o Orçamento mesmo de cruz.

— Porquê? Há outras maneiras de promulgar?

 

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Ir buscar lã e sair tosquiado.

por Luís Menezes Leitão, em 21.12.16

Marcelo Rebelo de Sousa foi sempre conhecido por conseguir fazer sozinho a festa, lançar os foguetes e apanhar as canas. A questão é que quem quer mexer em material pirotécnico muitas vezes acaba por se queimar. Neste caso da Cornucópia, uma verdadeira birra de alguém, que de repente descobriu que o subsídio que recebeu durante três anos afinal não chega, tudo aconselhava a que o Presidente se colocasse a milhas do assunto, até porque a sua intervenção, ao contrário do que é habitual, não fora solicitada. Marcelo, porém, resolveu mergulhar de cabeça no caso, a fazer lembrar o seu célebre mergulho no Tejo, e arrastou para as águas do mesmo um estrebuchante Ministro da Cultura, que bem se deve ter perguntado o que tinha ido lá fazer, quando o esperavam em Castelo Branco, onde seguramente estaria livre de sarilhos. Porque Marcelo, que declarou ter uma ligação à Cornucópia tão profunda que até tinha estado na sua sessão inaugural, reclamou imediatamente um estatuto de "excepção" para evitar o encerramento da mesma, que naturalmente seria reclamado a seguir por todos os outros teatros do país. A verdade é que o Ministro caiu na esparrela, tendo chegado a declarar que a Cornucópia tinha uma história extraordinária e "uma situação especial" e que, se a companhia quisesse sobreviver, o Governo estaria disposto a conversar. E com isto Marcelo saiu do teatro no papel do rei salvador da Pátria, ou mais prosaicamente da Cornucópia, ao mesmo tempo que meteu o Ministro da Cultura no bolso, cuja função no governo passaria a ser apenas a de assinar os cheques das "excepções" aceites pelo Presidente.

 

Só que a peça acabou por sofrer um twist inesperado, já que os encenadores decidiram alterar o papel de Marcelo à última hora, que passou de rei salvador da Pátria a bobo da corte. Foi assim que em primeiro lugar Luís Miguel Cintra declarou que nunca tinha pretendido qualquer estatuto de excepção, mas apenas encerrar o teatro. Depois foi Jorge Silva Melo a contestar que Marcelo tivesse assistido à primeira sessão do teatro, ao contrário do que este tinha afirmado. Vendo Marcelo a afundar-se, o Ministro da Cultura saltou logo borda fora, dizendo que a proposta de Marcelo de um estatuto de excepção, que lhe tinha parecido tão boa no palco, afinal não era uma boa ideia.

 

Chama-se a isto ir buscar lã e sair tosquiado.

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A guerra na Europa.

por Luís Menezes Leitão, em 20.12.16

Num só dia tivemos um atentado em Berlim, outro atentado em Zurique e o assassinato do embaixador russo em Ancara por parte de um polícia turco, que gritou vivas a Alepo, cidade que acaba de ser reconquistada ao Estado Islâmico pelas forças governamentais sírias, com o apoio da Rússia. É manifesto que estamos perante uma verdadeira guerra no terreno, de que o conflito sírio é apenas um balão de ensaio, assim como a guerra civil espanhola, que precedeu a II Guerra Mundial. A Europa encontra-se neste momento ocupada por verdadeiras quintas-colunas, onde o inimigo pode estar à espreita em qualquer canto, podendo ser o motorista do camião que circula na estrada ou até mesmo um agente de autoridade, preparados para a qualquer momento lançar o ataque. Precisamente por isso a Europa tem que deixar de enfiar a cabeça na areia como a avestruz e preparar-se para se defender, até porque a América já não vai estar disponível para financiar a sua defesa. É mais que tempo de a Europa perceber que enfrenta uma guerra no seu território e mobilizar-se para combater. Porque não haja ilusões: se a guerra põe naturalmente em risco o bem-estar dos europeus, nada fazer perante a guerra será seguramente muito pior.

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Primeiro de Dezembro.

por Luís Menezes Leitão, em 01.12.16

O Rei de Espanha já se foi embora?

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Conhecer D. Afonso Henriques.

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.16

 

Leio aqui que "os reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, estão em Portugal e foram recebidos com pompa e circunstância pelas altas entidades e pelo povo, em Guimarães, no Porto e em Lisboa. Na Cidade Invicta disputaram selfies com o Presidente da República, e Marcelo Rebelo de Sousa levou-os a conhecer D. Afonso Henriques". Calculo que D. Afonso Henriques, ainda jovial, apesar dos seus 907 anos de idade, actualmente a residir num Lar da Terceira Idade do Porto, se terá manifestado encantado em conhecer tão ilustres personagens. A pensar em retribuir a iniciativa, D. Felipe VI deve ter referido a Marcelo Rebelo de Sousa não ter a certeza se o primeiro Rei de Espanha, D. Pelayo, ainda era vivo, uma vez que já deveria andar pelos 1300 anos de idade, mas prometeu tudo fazer para o encontrar.

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Tristes tempos!

por Luís Menezes Leitão, em 29.11.16

Ainda sou do tempo em que na escola primária se ensinava a verdadeira tragédia nacional que foi o desastre de Alcácer-Quibir, que implicou que a Coroa de Portugal viesse a ser herdada dois anos mais tarde por Filipe II de Espanha. Seguiram-se 60 anos de decadência nacional, com Filipe III e Filipe IV, em que o país quase se converteu numa província espanhola. Só escapámos a esse destino graças ao heroísmo dos conjurados do 1º de Dezembro de 1640, que voltaram a colocar no trono um Rei português, D. João IV. Na altura ensinavam-nos na escola que por esse motivo é que celebrávamos o 1º de Dezembro, data da restauração da nossa independência.

 

Passados mais de 370 anos sobre essa data, tive ocasião de assistir à vergonha de ver um primeiro-ministro português decretar a abolição desse feriado. Este ano voltou a ser reinstituído mas, na véspera do mesmo, assiste-se à visita de outro Filipe, desta vez o VI, que pelos vistos a população do Porto entende que deve ser recebido com gritos de "Viva o Rei!", enchendo-se a cidade com bandeiras espanholas, como se estivéssemos em Madrid. Estou convencido de que nem em Barcelona ou em Vigo o Rei de Espanha seria recebido assim. Pelos vistos, há muita gente em Portugal que perdeu de vez, não só o orgulho nacional, como também a própria noção do ridículo. Tristes tempos, na verdade!

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Reacções à morte de El Comandante.

por Luís Menezes Leitão, em 26.11.16

Marcelo Rebelo de Sousa: Sofri uma enorme perda. Ele era para mim um amigo do peito. Ainda há poucos meses estivemos juntos em amena cavaqueira. Nunca me esquecerei dos conselhos que na altura me deu.

 

Eduardo Ferro Rodrigues: Ele, sim, compreendeu o que era a democracia parlamentar. Deveríamos seguir os seus ensinamentos.

 

Augusto Santos Silva: Era claramente um homem da nossa família política, que a história avaliará, como vai avaliar o nosso governo da geringonça. Por isso daqui enviamos condolências a toda a família enlutada.

 

Jerónimo de Sousa: Ficámos órfãos. Mas vamos continuar a prosseguir a luta no percurso que ele nos indicou.

 

Assunção Cristas: Era uma figura controversa, mas professava como nós o radicalismo do amor. Por isso a morte do camarada Fidel representa uma grande perda para toda a democracia cristã.

 

Donald Trump: Quem diabo era afinal Fidel Castro? 

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O nível dos debates parlamentares.

por Luís Menezes Leitão, em 25.11.16

Confesso que me preocupa o nível a que estamos a assistir nos debates parlamentares, de que o episódio de hoje é um excelente exemplo. Em vez de se fazerem artigos de fundo como este sobre a crise das instituições a propósito da eleição de Trump para a presidência, talvez as pessoas devessem encarar as coisas de um modo muito simples: quando as instituições não se dão ao respeito não podem esperar ser respeitadas. E quando um governante vai ao parlamento achincalhar os deputados perante quem responde, recebendo apenas uma advertência suave do presidente da assembleia, atingimos o grau zero da dignidade política. Hoje António Costa brincou com o facto de José Sócrates lhe ter chamado um líder em formação, mas talvez pudesse aprender alguma coisa com ele. É que José Sócrates levou apenas alguns minutos a demitir um dos seus ministros quando este fez um gesto insultuoso a um dos deputados no parlamento.

 

Mas infelizmente esta forma de os governantes estarem no parlamento, um órgão de soberania que deveria exigir respeito e compostura, não é um exclusivo português. Em países como o Reino Unido também se vê os governantes a gozarem com os deputados. Depois admiram-se com o descrédito das instituições.

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Tradução.

por Luís Menezes Leitão, em 23.11.16

Afirma Marcelo que "em Portugal há em cada esquina um constitucionalista e um especialista de estatísticas". Eu traduzo: Não vou deixar a Constituição ou as estatísticas perturbarem as minhas viagens ao estrangeiro. A próxima é já ao Egipto.

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O anti-semitismo em Portugal.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.16

Julgava que no meu país as pessoas tinham respeito pelos outros e não alinhavam em discursos de ódio e em actos de intimidação. Mas parece que afinal há um partido, que está praticamente no governo, que considera normal apelar a um restaurante para que não participe num evento culinário internacional em Israel. E quando o restaurante decide apesar disso participar nesse evento, tem como resposta a vandalização do seu espaço, que esse partido qualifica apenas como acção directa. Isto porque o apelo anterior tinha sido uma "acção indirecta alimentada por cartas educadas a apelar para que Avillez não participasse". Já se fica assim a saber o que acontece a quem não se deixa intimidar por este tipo de "acção directa" que este partido apoia, a fazer lembrar outras "acções directas" de triste memória. E também ficamos a saber o tipo de partidos que António Costa colocou em Portugal como sustentáculo do seu governo. Porque não haja ilusões: a imagem que está acima não é muito diferente da que está abaixo.

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As redes sociais contra o jornalismo.

por Luís Menezes Leitão, em 14.11.16

É uma verdade absoluta que a campanha de Trump demonstrou o poder das redes sociais contra o jornalismo tradicional. Enquanto os media tradicionais barraram completamente Trump, ridicularizando e tornando-o anedótico, e só falando do avanço triunfal de Hillary Clinton, Trump utilizou as redes sociais para fazer passar a sua mensagem, como demonstra o vídeo aqui exibido. E essa mensagem foi clara: vamos recuperar o nosso país de novo, que foi tomado por uma elite criminosa, de que os Clinton são o maior exemplo. A mensagem não passa de um arremedo da teoria da conspiração, mas o facto de ser ignorada pelos media e pela sua adversária só facilitou a vitória de Trump. A primeira regra na política é a de que não se pode subestimar os adversários. E, ao contrário do que julgava Emídio Rangel, hoje as televisões já não vendem Presidentes como quem vende sabonetes. As redes sociais deixaram campo livre para que as mensagens se espalhem independentemente de qual o seu conteúdo e, como se viu, uma mensagem eficiente e bem difundida pode ser o caminho aberto para a vitória.

 

Claro que é sempre possível reagir a isso, dizendo que Trump ganhou com o apoio de ignorantes, incultos, mal-formados, e gente deplorável. É bem capaz de ser verdade, mas essa é a regra da democracia. Quem não quer que o povo inculto vote, a única coisa que pode fazer é propor o regresso aos tempos anteriores à revolução francesa, em que a nobreza e o clero tudo decidiam de forma culta e esclarecida. Não é seguramente uma solução praticável. Compreender os anseios do povo e saber lidar com eles parece muito mais adequado. E para isso os jornalistas não podem ignorar o que se passa à sua volta.

 

 

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O mundo virtual dos jornalistas.

por Luís Menezes Leitão, em 13.11.16

O jornalismo tem que interpretar a realidade. Não pode tomar os seus desejos pela realidade. Neste aspecto, talvez o mais belo filme de todos os tempos, o Citizen Kane, que é precisamente sobre a manipulação jornalística, já reconhecia que essa manipulação tem como limite os factos. Quando Charles Foster Kane, o dono do Inquirer está a concorrer às eleições, e se perspectivava como vencedor, é apanhado num escândalo matrimonial. O jornal tinha preparado uma primeira página a dizer "Kane elected", mas os directores do jornal recusam-se a passá-la, reconhecendo que, com o voto contra dos puritanos, o dono do seu jornal não tinha hipóteses de ser eleito. A primeira página passou por isso a ser "Charles Foster Kane Defeated: Electoral Fraud". Os factos podem ser manipulados, e são-no frequentemente pelos jornalistas, mas não podem ser alterados.

 

A realidade é que o mundo em que os jornalistas vivem, de Washington D. C. (um bastião ultrademocrata) ou de New York (outro bastião democrata) não representa a América comum. E na América comum Hillary Clinton era profundamente odiada. Apercebi-me disso a primeira vez que visitei os Estados Unidos, ainda no tempo da presidência Clinton. Como é óbvio, quis ir à Casa Branca, e deparei-me lá com uma manifestação furiosa. Julguei que era contra o Presidente, mas verifiquei espantado que era contra a Primeira Dama. Perguntei a razão da manifestação e explicaram-me que ela se estava a meter na política presidencial, o que não era aceitável para uma Primeira Dama, uma vez que não tinha tido o voto popular. E essa imagem da Primeira Dama, que por via do casamento se ingere na presidência do país, ficou no imaginário norte-americano. Afinal de contas a personagem da série House of Cards, Claire Underwood, não representa precisamente esse tipo de Primeira Dama? 

 

Desde então, nunca achei que Hillary Clinton tivesse qualquer hipótese de ganhar a presidência. Não me espantei quando perdeu a nomeação para Obama, e também sempre fiquei convencido de que não iria bater Trump, que já tinha arrasado candidatos republicanos melhores do que ela. O recurso a Michelle Obama, ao próprio Obama e aos cantores nos seus comícios só demonstrava a sua fragilidade, que aliás ficou evidente na noite eleitoral, quando não conseguiu assumir a derrota. Mas os jornalistas continuavam convencidos dessa realidade alternativa e até ao último minuto as televisões americanas recusavam-se a reconhecer a vitória de Trump. Quanto às revistas, já estavam na rua anunciando a vitória de Hillary Clinton, como aconteceu com a Newsweek. Até a Directora da nossa Visão se queixou de ter tido que alterar toda a sua edição em meia dúzia de horas, sendo se calhar por isso que a revista surgiu nas bancas com o título "Oh! Não!". É melhor os jornalistas esperarem pelos verdadeiros factos, antes de começarem com as interpretações sobre os mesmos. Se não, podem acontecer coisas destas.

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O regresso da Sublime Porta.

por Luís Menezes Leitão, em 11.11.16

Na sua obra The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order, de 1996, Samuel P. Huntington previu claramente o risco de uma guerra no séc. XXI em virtude do afrontar das civilizações, de que o Ressurgimento Islâmico estava a ser o factor decisivo. Curiosamente deixava de fora desse Ressurgimento Islâmico a Turquia. Para ele a Turquia, desde que Ataturk a tinha laicizado e abandonado o alfabeto islâmico em benefício do latino, constituía um Estado dilacerado, que tinha destruído o seu próprio passado e consequentemente a sua civilização. Na verdade, o Estado Turco não se via como herdeiro do Império Otomano e, ao adoptar um novo alfabeto, impedia as novas gerações de conhecer todas as obras escritas durante séculos no seu país.

 

Quando visitei a Turquia, disseram-me que essa análise era exagerada. No tempo de Ataturk a população alfabetizada era insignificante, pelo que a mudança de alfabeto não teria tido grande significado e o meu interlocutor considerava o alfabeto latino muito mais adequado à língua turca do que o islâmico. Só que, ao contrário do que Huntington previu, os sinais que surgiam desde a eleição de Erdogan davam a entender que a Turquia não ia ficar de fora do Ressurgimento Islâmico. Efectivamente, hoje na Turquia as velhas igrejas bizantinas estão a voltar a ser mesquitas, como já aconteceu com a Santa Sofia de Trabzon, e receia-se que o mesmo aconteça também com a Santa Sofia de Istambul. Erdogan pode homenagear Ataturk, mas é claramente o oposto dele. E quando anuncia que a Turquia precisa de um Lebensraum, e que os estudantes têm que voltar a aprender o passado otomano, o que está a destruir é a herança de Ataturk e a proclamar o desejo de um regresso ao passado glorioso do Império Otomano. E afinal quem o pode censurar por isso? Se Trump ganhou as eleições americanas com o slogan "Make America Great Again", o que impede Erdogan de proclamar "Make Turkey Great Again"?

 

O problema é que isto significa a guerra total. Basta olhar para o mapa do antigo Império Otomano. Abrange a Síria, onde a Turquia já está envolvida, o Iraque, para onde caminha, e até pode envolver a Crimeia e a Europa Oriental. Quando vejo muito boa gente a contestar os direitos russos sobre a Crimeia, apesar de a população ser esmagadoramente russa, com o argumento de que antigamente o território pertencia aos tártaros, o que está a propor é o regresso da Crimeia à Turquia. Os tártaros fazem parte do grupo dos povos turcos, a propósito. E neste momento nem a Rússia assusta Erdogan, como se viu no episódio do abate do avião russo por caças turcos. A Sublime Porta está de volta e é um facto novo na esfera internacional, onde uma hipótese de guerra generalizada não pode ser descartada.

É por isso que me parece que a derrota de Hillary Clinton nas eleições americanas até pode ter sido positiva na esfera internacional. Hillary Clinton era um falcão assumido com muito pouco bom senso, como se viu por ter deixado alastrar a Primavera Árabe quando era Secretária de Estado. E o facto de ter sido incapaz de gerir a sua própria derrota na noite eleitoral deixa-me sérias dúvidas sobre a sua capacidade de lidar com uma crise internacional com proporções colossais. Porque não tenhamos dúvidas, é para lá que caminhamos.

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Previsível.

por Luís Menezes Leitão, em 09.11.16

Durante imenso tempos os jornalistas andaram a fazer uma futurologia completamente absurda sobre as eleições americanas, construindo castelos no ar que era evidente que não resistiriam ao mais leve sopro da realidade. Disseram que o Partido Democrata ia ganhar o Senado, que Hillary Clinton já tinha assegurado 303 votos no colégio eleitoral e que tinha 90% de hipóteses de ganhar a eleição. A certa altura o absurdo foi tão grande que até se pôs a hipótese de Hillary Clinton ganhar o Texas, desde sempre um bastião republicano.

 

Sempre me pareceu que esses jornalistas estavam a tomar os seus desejos pela realidade. Ora, a realidade é que Hillary Clinton sempre foi uma candidata fraca, não conseguindo entusiasmar nenhum eleitor e tendo, pelo contrário, elevadíssimos índices de rejeição no eleitorado. Por isso inicialmente teve que recorrer a Michelle Obama, e mais tarde chamou o próprio Obama, que se envolveu na campanha eleitoral de uma forma que não me lembro de um presidente em exercício alguma vez ter feito pelo seu sucessor. E nos seus comícios teve que recorrer a celebridades como Jay-Z ou Beyoncé para conseguir gerar algum entusiasmo, facto que o próprio Trump não deixou de salientar. Foi por isso uma péssima decisão do Partido Democrático em escolher Hillary Clinton como candidata. Bernie Sanders podia ser um candidato mais à esquerda, mas tinha algumas hipóteses de bater Trump. Hillary Clinton, com os níveis de rejeição que sempre teve nos eleitores americanos, até pelo Rato Mickey seria derrotada.

 

Ora, Donald Trump pode ser conhecido por the Donald, mas não é o Pato Donald. Pode ser extremamente grosseiro, arrogante, provocador e insultuoso, mas é inteligente, ou não teria tido o sucesso que teve nos negócios. Por isso nunca poderia ter sido subestimado, nem se poderia confiar que os eleitores americanos, que o conhecem muito bem há décadas, se escandalizariam com revelações sobre a sua linguagem desbragada.

 

Bastava, aliás, recordar a forma estrondosa como Trump ganhou a nomeação republicana, arrasando candidatos muito mais favoritos, exactamente com o mesmo estilo, para se perceber que Hillary Clinton — que só tinha vencido tangencialmente Bernie Sanders — teria extrema dificuldade em responder ao discurso populista de Trump, de nostalgia pelo regresso ao sonho americano. Ora, o que se viu foi que muitos eleitores alinharam fervorosamente nesse discurso, mesmo nas minorias que Hillary Clinton dava como asseguradas. Na verdade, os media criaram uma ficção de favoritismo absoluto de Hillary Ciinton, que nunca existiu nesta eleição. Por isso, ontem, confrontada com a realidade, Hillary Clinton nem foi capaz de fazer o discurso de derrota, só o tendo feito há momentos.

 

Sun-Tzu escreveu que aquele que se conhece a si mesmo e conhece o inimigo, pode garantir a vitória, mas quem conhece o tempo e o terreno a alcançará de forma absoluta. Manifestamente dos dois candidatos, só Trump percebeu o terreno que pisava: o de um país revoltado, frustrado com a globalização e ansioso pelo regresso ao proteccionismo e ao sonho americano, que ele lhe prometia. Foi por isso o vencedor da noite. Hillary Clinton não percebeu o que o marido tinha percebido ser decisivo para ganhar umas eleições: "It's the economy, stupid!".

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O estado da Nação.

por Luís Menezes Leitão, em 06.11.16

Se há coisa que demonstra bem o estado a que este país chegou é esta revelação da troca de e-mails entre Sua Excelência, o Senhor Ministro da Educação, e Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado da Juventude e Desportos. Descontamos a zanga de comadres que está na base da divulgação destes e-mails. Está em causa algo de muito mais profundo: a forma como neste país se compõem os gabinetes dos Ministros e dos Secretários de Estado e as relações entre eles.

 

Ficámos assim a saber que os Secretários de Estado são impostos aos Ministros pelo Primeiro-Ministro, não sendo aqueles livres de escolher a equipa do seu Ministério. É natural assim que os Ministros vejam com maus olhos estes "ajudantes de Ministros", na imortal expressão de Cavaco Silva. Mas há uma forma de os controlar: é intervir na escolha dos membros do seu gabinete. Assim, no governo de Portugal, um Secretário de Estado não tem sequer autonomia para escolher o seu chefe de gabinete, que lhe é imposto pelo Ministro, e por isso até passa mais tempo no gabinete do Ministro do que no gabinete do seu Secretário de Estado, que por acaso até chefia. Mas o Ministro, que por acaso até é independente, também escolhe o referido chefe de gabinete do Secretário de Estado, pedindo indicações ao partido, não sendo assim de estranhar que lhe tenha saído na rifa alguém que nem sequer tinha as licenciaturas apregoadas.

 

Daqui resulta que as relações entre Sua Excelência, o Senhor Ministro, e Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado, sejam um mimo. Sua Excelência, o Senhor Ministro, dirige um e-mail a Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado, tratando-o por "João", perguntando-lhe sobre as férias que teria autorizado em relação a um membro do seu gabinete, e transmitindo-lhe uma ordem relativamente aos outros membros do seu gabinete. E Sua Excelência, o Senhor Secretário de Estado, tem que pedir autorização a Sua Excelência, o Senhor Ministro, para demitir o seu próprio chefe de gabinete. Cabe perguntar afinal qual a razão por que alguém aceita assumir uma Secretaria de Estado nessas condições.

 

E quanto às qualificações para os cargos no Ministério da Educação, estamos conversados. O chefe de gabinete não tinha as licenciaturas apregoadas, mas o Ministro da Educação, que pelos vistos até desconhece o currículo das pessoas que chama para o gabinete do seu Secretário de Estado, consegue escrever um e-mail com a expressão "a cônjuge". De facto, continua muito actual o que Eça de Queiroz escreveu na sua obra Os Maias sobre os oficiais superiores da Instrução Pública.

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O ridículo do Nobel.

por Luís Menezes Leitão, em 22.10.16

Já tinha escrito aqui o que pensava do disparate da atribuição do Nobel a Bob Dylan. Agora o único autor que de facto deve ter merecido o prémio nos últimos vinte anos, Vargas Llosa, veio criticar a escolha e perguntar se da próxima vez dão o prémio a um futebolista? Acho de facto que a pergunta faz todo o sentido, uma vez que pelo mesmo critério de escolha de Bob Dylan, até as frases de Jorge Valdano poderiam aspirar a um Nobel.

 

Bob Dylan é um excelente autor de canções, mas não é comparável a qualquer escritor a sério. Nunca os textos das suas canções recolhidos em livro podem sequer ser comparados às extraordinárias obras de Vargas Llosa, como A Festa do Chibo, A Guerra do Fim do Mundo, O sonho do Celta ou mesmo até o último Cinco Esquinas. O problema é que muitas pessoas endeusam os cantores da sua juventude e fazem tudo para os premiar, caindo no ridículo. O critério que fez o júri sueco premiar Bob Dylan é o mesmo que fez o Presidente Jorge Sampaio condecorar os U2 com a Ordem da Liberdade: homenagem em saudosismo pela juventude perdida. É também a mesma coisa que faz Marcelo evocar a sua juventude para aplaudir oficialmente a atribuição deste prémio Nobel, e insistir em ver Fidel Castro ao vivo quando se deslocar a Cuba.

 

A questão é que os próprios homenageados também acham ridícula a homenagem. Os U2 foram ao Palácio de Belém receber a condecoração vestidos informalmente e Bob Dylan nem sequer se dá ao trabalho de atender o telefone ao júri sueco, quanto mais deslocar-se a Estocolmo para receber o prémio. Fidel Castro é também capaz de receber Marcelo em fato de treino enquanto aguarda pela enfermeira para os tratamentos matinais. Se há coisa que pessoas em funções de responsabilidade nunca podem perder é a noção do ridículo. Infelizmente esta gente há muito que a perdeu.  

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Agradecimento.

por Luís Menezes Leitão, em 20.10.16

Agradeço a Fernando Medina o seu valioso contributo para a promoção da cidade de Lisboa no estrangeiro.

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Os neurónios apelam ao consenso.

por Luís Menezes Leitão, em 17.10.16

Leio aqui que Marcelo diz que os especialistas do cérebro dão razão ao seu apelo aos consensos. Deve querer dizer que quem não estiver com ele a defender os consensos só pode estar lelé da cuca!

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Tudo menos literatura.

por Luís Menezes Leitão, em 13.10.16

Consta que, quando Winston Churchill recebeu o prémio nobel da literatura, Somerset Maugham comentou: "Deveria ter-me dedicado era à política". Acho que todos os escritores do mundo poderão dizer, depois da atribuição do prémio a Bob Dylan, que deveriam ter-se dedicado era à música. Porque podem dar as justificações que quiserem, mas uma obra musical não é uma obra literária. E o prémio destinava-se a premiar os autores de obras literárias, não os compositores de canções, como é o caso de Bob Dylan.

 

A verdade é que isto não conta para nada, uma vez que o prémio Nobel só tem premiado escritores medíocres. Já o imortal Saramago, que até considero um escritor razoável, dizia que nesta treta do Nobel a única coisa que interessa é o dinheiro. Na verdade, se o prémio não fosse de um milhão de dólares ninguém ligaria absolutamente nada a este júri com critérios obscuros, que conseguiu negar sistematicamente o Nobel a grande escritores, como Tolstoi, Jorge Amado, e Jorge Luís Borges. Este chegou a dizer com ironia, depois de ter sido mais uma vez rejeitado: "Não me darem o Nobel é um velho costume sueco. Desde que eu nasci que não mo dão". Por isso, quando o Nobel é raramente atribuído a um grande escritor, como aconteceu com Vargas Llosa, a surpresa é geral. Por isso, terem dado o prémio a Bob Dylan significa apenas a continuidade do absurdo do Nobel. As apostas sobre o  vencedor do Nobel têm por isso tantas hipóteses de ser bem sucedidas como acertar na chave do euromilhões. 

 

Valha-nos que o nosso afectuoso Presidente da República ache mais importante justificar aos portugueses perplexos a atribuição do Nobel do que nos informar a sua posição sobre o brutal aumento de impostos que se avizinha. Temos assim direito a um comunicado presidencial intitulado The Times They Are a-Changin’ que nos informa que "o Presidente da República, evocando a sua juventude, não pode deixar de se associar a esta homenagem, inesperada mas significativa, com a atribuição do Prémio Nobel a Bob Dylan, alguém que para além da riqueza das suas letras se notabilizou pelas suas músicas, sinal claro de que os tempos estão a mudar...". Claro que os tempos estão a mudar, Senhor Presidente. E olhe que é para muito pior. Só é pena que isso não o preocupe nada.

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Não haveria condecoração mais adequada?

por Luís Menezes Leitão, em 12.10.16

Leio aqui que Marcelo surge num vídeo de propaganda do Estado Islâmico que se destina a atacar o Rei de Marrocos por ter aceite uma condecoração das mãos do infiel que preside à República Portuguesa. Não sei se o dito Estado pretende proibir todos os infiéis de condecorarem muçulmanos, mas confesso que a escolha da condecoração me deixa perplexo. Em primeiro lugar, a condecoração implicou pôr uma cruz ao peito de um monarca que é descendente do Profeta Maomé — que a paz esteja com ele! — e sabe-se perfeitamente que a cruz é um símbolo ofensivo para os muçulmanos. Efectivamente, a sua religião acredita que o Profeta Isa não morreu na cruz, tendo ascendido directamente aos céus, pelo que a exibição da cruz implica a negação de um dos dogmas do Islão. Por outro lado, a condecoração é a da Ordem de Santiago, um santo invocado precisamente em apoio da reconquista cristã de terras islâmicas: "Por El-Rey e Santiago aos Mouros". Consta aliás que Santiago Maior foi o responsável por tantos milagres que permitiram a vitória dos cristãos, que ficou precisamente conhecido como o Mata-Mouros, já que a sua invocação era garantia de que os mouros não escapavam à derrota e ao massacre. Neste quadro, a condecoração do Rei de Marrocos com a Ordem de Santiago é de bradar aos céus. Não há ninguém na entourage de Marcelo com um mínimo de bom senso?   

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A pacífica manifestação taxista.

por Luís Menezes Leitão, em 10.10.16

O que pensar quando cidadãos inocentes são violentamente agredidos e os seus carros destruídos só porque não fazem parte do mesmo grupo? O que pensar quando a polícia é desafiada e o direito à circulação dos cidadãos ameaçado por uma frota de automóveis, que se desloca de todo o país para ocupar a sua capital? Será que isto não faz recordar o movimento dos camionistas, que permitiu o derrube de Salvador Allende no Chile? Ou mais recuadamente a marcha sobre Roma de Mussolini, que permitiu a ascensão deste ao poder? Por isso, quando se vê um Ministro do governo da geringonça a chamar calmamente estes manifestantes a uma reunião enquanto Lisboa permanece cercada, ficamos convencidos de que a legalidade democrática anda nestes dias pelas ruas da amargura.

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