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Lost in translation.

por Luís Menezes Leitão, em 23.02.18

A escritora argentina María Gainza escreveu um livro que se chama "El Nervio Óptico". Em português chama-se antes "O Nervo Ótico". Quer dizer que, na tradução portuguesa, o título deixou de se referir ao segundo par (II) dos doze pares de nervos cranianos, referente à visão, para se passar a referir antes ao oitavo par (VIII), referente à audição. Aí está como na tradução — ou na (des)ortografia acordista — se consegue deixar o leitor completamente perdido, até sobre a anatomia humana.

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Depois das inacreditáveis declarações de António Costa ao ABC, a apoiar a vergonhosa acção de Espanha contra os independentistas catalães, vem o mesmo ABC poucos dias depois criticar a independência de Portugal, lamentando os 350 anos do "ignominioso tratado de paz que pôs fim à poderosa união de Espanha e Portugal". Mostra bem como António Costa deveria ter estado calado nesta matéria. Ao contrário do que muita gente julga, defender a autodeterminação dos povos de Espanha deveria ser uma política essencial ao Estado português, sob pena de Espanha também poder questionar o direito de Portugal à sua própria independência. É manifesto que para isso não lhe falta vontade. Afinal, como se escreve neste artigo, Portugal não se revoltou ao mesmo tempo que a Catalunha, só não tendo sido subjugado como esta, porque alguém em Espanha se lembrou de assinar um "ignominioso tratado de paz"? Bem diz o povo que de Espanha nem bom vento nem bom casamento. E a falta de solidariedade com que agora estamos a tratar os catalães pode um dia virar-se contra nós. Se alguém tem dúvidas que olhe para a imagem, também fornecida pelo ABC, com uma alegoria da conquista de Portugal, com o leão espanhol a subjugar o dragão português. É elucidativo da forma como os castelhanos acham que devem conviver com os outros povos da península ibérica.

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O delfim.

por Luís Menezes Leitão, em 12.02.18

Há muito que se sabe que Fernando Medina é o delfim de António Costa e que o PS o anda carinhosamente a preparar para assumir uma futura liderança. Precisamente por esse motivo Medina beneficia de um espaço televisivo semanal e o parlamento está sempre disponível para aprovar todos os disparates que ele propõe, como a lei de salvaguarda de lojas históricas à custa dos proprietários dos imóveis. A verdade, no entanto, é que quem decide a viabilidade dos estabelecimentos, históricos ou não, é o mercado, como o parlamento acaba de comprovar ao assistir ao encerramento da sua própria papelaria. Mas, como é típico de qualquer socialista, desde que sejam os outros a pagar está tudo bem. Como bem salientou Margaret Thatcher, o problema do socialismo é que ele acaba quando acaba o dinheiro dos outros.

 

É por isso que Fernando Medina, que à sua responsabilidade decidiu inventar uma absurda e inconstitucional taxa de protecção civil, que o Tribunal Constitucional prontamente chumbou, agora diz que quer processar o Estado pela taxa que ele mesmo decidiu criar. Para Fernando Medina, uma lei que lhe permite lançar taxas por serviços prestados na protecção civil é uma lei que lhe permite cobrar uma taxa mesmo sem prestar serviço algum. E é óbvio que a responsabilidade pelo que aconteceu é do Estado, uma vez que a lei tinha sido criada "ad usum delphini", pelo que o delfim nunca pode ser responsabilizado pelo (mau) uso que dela faz.

 

E assim se consegue atingir o esplendor do socialismo. Se a Câmara de Lisboa abusou dos seus munícipes, cobrando-lhes uma taxa ilegal e inconstitucional, é óbvio que a responsabilidade por esse buraco de 80 milhões de euros tem que ser passada para o Estado. E até é provável que o parlamento e o governo, tão amigos que são de Fernando Medina, lhe venham a dar razão, fazendo assim com que sejam os munícipes de todo o país, desde o Corvo a Bragança, e incluindo o Porto, Coimbra, Faro, etc., etc., cujos municípios nunca lançaram qualquer taxa de protecção civil, a pagar as pseudo-taxas inventadas pelo autarca de Lisboa. É por isso que Fernando Medina é o melhor candidato a futuro líder do PS, uma vez que sabe ficar com o dinheiro dos outros como ninguém. Se os munícipes de Lisboa, que o elegeram para presidir à sua câmara, não estão dispostos a pagar as suas pseudo-taxas, chamem-se os munícipes do resto do país para pagar a factura. O delfim Fernando Medina é um verdadeiro socialista.

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Não é Kennedy quem quer.

por Luís Menezes Leitão, em 11.02.18

Um dos factos que mais marcaram a ascensão de John F. Kennedy a presidente dos Estados Unidos foi a sua defesa intransigente da independência da Argélia. Num discurso de 2 de Julho de 1957, o jovem senador do Massachussets defendeu perante o senado que a atitude dos Estados Unidos perante a questão da Argélia se caracterizava pelo abandono dos princípios da independência e do anticolonialismo, que não se podia justificar nem por amabilidades diplomáticas, nem por subtilezas jurídicas, nem mesmo por considerações estratégicas. Os Estados Unidos, que tinham nascido de uma revolução política, deveriam ganhar o respeito e a amizade dos líderes nacionalistas.

 

A mesma consideração deveria aplicar-se a Portugal, que obteve a independência contra o domínio espanhol, e por isso não deveria deixar de se mostrar solidário com a situação da Catalunha, onde políticos se encontram presos pelas suas convicções e onde um parlamento democrático está impedido de eleger como presidente do governo o líder que escolheu. António Costa tinha possibilidade de marcar alguns pontos nesta questão, mas preferiu as amabilidades diplomáticas e as considerações estratégicas aos princípios. Está visto que não é Kennedy quem quer.

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Uma condecoração merecida.

por Luís Menezes Leitão, em 28.01.18

Há muito tempo que acho que estas convulsões em torno da Catalunha, que não há meio de cessarem, demonstram a profunda crise que atinge a monarquia espanhola. Na verdade, é paradoxal que um chefe de Estado vitalício e não eleito venha discursar a dar lições de democracia ao povo catalão, quando o Estado espanhol obriga à prisão ou ao exílio aqueles que o povo elegeu, nem sequer permitindo que um parlamento democrático eleja quem entende para governar o povo que representa.
 
Deparei, porém, agora com esta notícia de que Filipe VI vai impor a mais alta condecoração da Coroa Espanhola à sua própria filha, que a recebeu com apenas 10 anos de idade. Que há a dizer de um país em que o chefe de Estado condecora a sua filha, ainda uma criança, com uma alta condecoração do Estado, enquanto que os representantes do povo catalão estão na prisão e no exílio por delitos políticos? Depois disto não me admira nada que os catalães queiram ser republicanos.

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A queda de um anjo.

por Luís Menezes Leitão, em 25.01.18

Lula é, pelo menos desde 1989, a figura central da política brasileira. Lembro-me de o ter visto pela primeira vez nesse ano num debate com Collor de Mello, de que a televisão portuguesa passou trechos. Logo na altura me impressionou a enorme capacidade de debate político que demonstrava, nada usual para alguém com uma simples formação de operário metalúrgico. Mas também calculei que a sua imagem radical teria dificuldade em passar no eleitorado moderado, que é quem decide as eleições. Curiosamente na altura a TV Globo, apoiante de Collor, apareceu com uma telenovela chamada Sassá Mutema, o Salvador da Pátria, que contava a história de um trabalhador braçal simpático, mas que quando era eleito prefeito, se deixava imediatamente cair no abuso de poder e na corrupção. A televisão explorava assim os receios do eleitorado, avisando dos riscos da eleição de Lula.

 

Lula lá perdeu as eleições por escassa margem, mas viu-se que Collor, o "caçador de marajás", era afinal alguém tão pouco recomendável que foi poucos anos depois objecto de "impeachment". Mas Lula, embora derrotado, soube conservar a liderança do PT, e percebeu-se logo que iria ser sempre candidato nas eleições seguintes até vencer. A sua permanente popularidade levava a que os seus adversários discutissem sempre qual a pessoa mais capaz de o derrotar, o chamado candidato anti-Lula. Em 1994 e 1998 Lula ainda foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso, um grande presidente do Brasil, mas a crise económica no último mandato deu logo a entender que ninguém conseguiria bater Lula nas eleições seguintes. E, de facto, em 2002 Lula esmagou José Serra, obtendo a maior votação alguma vez tida por um candidato presidencial. Para isso muito contribuiu uma total mudança de imagem, para um tom mais clássico, assim como um discurso menos radical.

 

Na presidência Lula teve um sucesso colossal, resolvendo a crise dos Sem Terra, e criando programas como o Fome Zero ou o Bolsa Família, que tiraram milhões de pessoas da miséria. Facilmente reeleito em 2006, Lula praticamente saiu da presidência em apoteose em 2010, conseguindo por isso facilmente transmitir o seu poder à sua sucessora Dilma Rousseff. Mas já nessa altura se falava dos escândalos de corrupção que ensombravam o seu mandato, que descredibilizaram o PT e viriam a atingir com toda a força Dilma Rousseff, também ela objecto de "impeachment". Lula pretendeu por isso regressar em 2018 e provavelmente iria consegui-lo, mas foi ontem travado pela decisão dos tribunais que o condenaram a 12 anos de prisão, inviabilizando a sua candidatura.

 

É triste que um presidente que poderia ter deixado o seu nome inscrito com chave de ouro na História do Brasil saia assim tantos anos depois pela porta baixa.

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Democracia espanhola.

por Luís Menezes Leitão, em 23.01.18

Agora vem o Ministro do Interior espanhol dizer que Espanha vai vigiar as fronteiras para assegurar que Puigdemont, já aceite pelo Parlament da Catalunha como candidato a Presidente da Generalitat, não possa entrar em Espanha nem na mala de um automóvel. Nunca se viu maior desrespeito pelo voto eleitoral e pela decisão soberana de um parlamento eleito, como o que agora está a acontecer em Espanha. Uns poderão virar a cara para o lado e outros até aplaudir. Para mim, é pura e simplesmente chocante que isto aconteça num país europeu.

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Três cartazes à beira da estrada.

por Luís Menezes Leitão, em 23.01.18

É estranho que esteja a passar despercebido um dos melhores filmes que já vi nos últimos tempos: "Três cartazes à beira da estrada" (no original Three billboards ouside Ebbing, Missouri). O filme consta a história de uma mãe desesperada, perante a ausência de resposta da polícia local depois de uma brutal violação e assassínio da sua filha, e que resolve demonstrar o seu desespero, colocando uma simples mensagem publicitária numa estrada onde ninguém passa. A mensagem é simples, mas só o facto de ser colocada constitui um desafio à autoridade, que leva a que quase toda a gente em Ebbing, Missouri, passe a perseguir essa mãe, em lugar de perseguir os criminosos. Mas ela não desiste da sua obstinação, resistindo ao ódio da polícia, dos vizinhos e de todos os que lhe peçam que esqueça o assunto. Frances Mcdormand tem aqui a melhor interpretação da sua carreira, mostrando-nos uma mulher terna, mas ao mesmo com uma força extraordinária, que ninguém consegue submeter.

O filme poderia ser apenas mais um daqueles típicos filmes americanos, a apelar ao vigilantismo perante a ineficiência das autoridades. Mas é muito mais do que isso. É o retrato de uma América profunda onde ninguém é perfeito, nem sequer a heroína do filme, e onde se descobre que os membros de uma polícia violenta, racista e homofóbica são afinal apenas seres humanos, também com os seus dramas pessoais, e que são igualmente capazes de gestos sublimes. Mas também nos mostra como o drama de uma família, após um crime violento, é para o Estado burocrático apenas o dossier de um processo até aparecer um cartaz (neste caso três) que, só por fazer uma simples pergunta, vira toda uma comunidade do avesso. Neste ano em que em Portugal tivemos tantos mortos pelos incêndios, e também continuamos a ter tantos crimes de violência contra as mulheres, é bom que o nosso Estado saiba sempre dar às vítimas a adequada resposta.

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Dois pesos e duas medidas.

por Luís Menezes Leitão, em 22.01.18

O inenarrável comportamento do Estado espanhol na questão catalã está a atingir todos os limites. Primeiro, a tentativa de prisão de Puigdemont através de um mandato de detenção europeu foi abandonada logo que se percebeu que a justiça belga não o iria conceder. Isto diz muito sobre a separação dos poderes em Espanha, pois nunca se viu um magistrado prescindir de um pedido de detenção de um suspeito, apenas por recear os efeitos políticos de uma recusa.

 

Mas, depois de cancelado o mandado de detenção, o mesmo é reactivado logo que Puigdemont se desloca para a Dinamarca. Afinal não interessava o mandado de detenção europeu perante os tribunais belgas, mas já passa a interessar se o tribunal passar a ser dinamarquês? Isto é uma efectiva aplicação da justiça, ou uma perseguição por motivos políticos?

 

Nste artigo Jorge Almeida Fernandes discorre sobre o conflito entre a União Europeia e a Polónia. Parece-me evidente que a União Europeia está a demonstrar a sua tradicional política de dois pesos e duas medidas, considerando uns Estados mais iguais que outros. Acha normalíssimo ameaçar a Polónia com sanções, em virtude de considerar que a separação de poderes é ameaçada pelas medidas legislativas aprovadas pelo governo do partido Lei e Justiça, mas fica em silêncio absoluto perante o que se passa em Espanha, onde se quer impedir um governante ilegitimamente destituído de voltar a formar governo, mesmo depois de o eleitorado lhe ter devolvido a maioria na Câmara. E para evitar isso quer-se continuar a permitir ao PP governar a Catalunha, quando os eleitores desse partido na região ameaçam tornar-se tão raros como os linces ibéricos. Não será altura de acabar com este absurdo e deixar o povo catalão decidir livremente o seu destino através dos representantes que elegeu?

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Reavaliação do consenso fiscal.

por Luís Menezes Leitão, em 17.01.18

Lisboa nunca deve ter tido um presidente pior do que Fernando Medina, que coloca a cidade permanentemente em obras inúteis que, depois de realizadas, só complicam a vida aos lisboetas. Como se isso não bastasse, os lisboetas são constantemente esmifrados com impostos e falsas taxas, que só a muito custo conseguem eliminar, como se viu com a tardia declaração de inconstitucionalidade da taxa de protecção civil, que toda a gente sabia ser inconstitucional. Agora, com um rombo de 80 milhões em perspectiva, Medina diz que "quer reavaliar o consenso fiscal em Lisboa". E se ele reavaliasse antes a sua própria presidência da Câmara?

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A vitória de Rui Rio.

por Luís Menezes Leitão, em 14.01.18

O PSD profundo mostrou ontem a enorme capacidade que tem de se regenerar. Não alinhou em cantos de sereia de quem queria propor ao partido um passismo sem Passos, encabeçado por alguém de cuja experiência governativa os portugueses não têm boas recordações. Agora é altura de virar de vez a página e preparar rapidamente uma alternativa séria e consistente. É hora de agir, de facto.

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Pensamento da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 13.01.18

"A política é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra só se pode ser morto uma vez, mas na política muitas vezes" (Winston Churchill). Penso que se trata de um pensamento adequado a esta semana.

 

Este pensamento do grande estadista inglês acompanhou os leitores do Delito durante a semana.

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Análise do debate.

por Luís Menezes Leitão, em 11.01.18

Não sei se o debate de ontem foi um nulo ou se teve algum vencedor. Depende muito dos conhecimentos que o público tenha em relação aos assuntos que estão em discussão. Lembro-me que um colega me dizia, em relação aos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa, que estava sempre de acordo com ele, excepto quando estava dentro dos assuntos. Para mim ouvir Santana Lopes a debater questões económicas é como ouvir um concerto para violino de Chopin.

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A não recondução da Procuradora-Geral da República.

por Luís Menezes Leitão, em 09.01.18

Não se pense que foi uma trapalhada este anúncio da Ministra da Justiça de não recondução de Joana Marques Vidal como Procuradora-Geral da República, com posterior desmentido por António Costa, a dizer que a decisão ainda não estava tomada. O que houve foi um ensaio para testar antecipadamente a reacção pública à substituição da PGR, seguida provisoriamente de uma retirada estratégica, quando se viu qual era essa reacção. António Costa não é Santana Lopes e nunca correrá com a PGR de forma precipitada e com estrondo, como Santana Lopes fez com Marcelo Rebelo de Sousa. Irá preparando calmamente o terreno para o efeito, com sucessivos avanços e recuos, até chegar à machadada final. Não foi Lenine que disse que às vezes é preciso dar um passo atrás para dar dois passos em frente?

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Os resultados da medida de resolução do BES.

por Luís Menezes Leitão, em 08.01.18

Quando Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque anunciaram a medida de resolução do BES com um empréstimo de 4.900 milhões de euros ao Fundo de Resolução, eu escrevi logo aqui que a ideia de que o Estado recuperaria o dinheiro emprestado não passava de um sonho de uma noite de Verão. Mas só agora, passados quatro anos, o Estado reconhece ter perdido todo o capital que meteu irresponsavelmente nesta operação. Naturalmente que os responsáveis por essa decisão já não estão em funções e são os contribuintes que irão assumir uma perda, que lhes garantiram que nunca teriam.

 

Este é um bom aviso para aqueles que com tanta ligeireza quiseram pôr o dinheiro da Santa Casa a financiar o Montepio. Como bem se salientou no El País o dinheiro dos pobres não pode servir para salvar bancos. Houvesse respeito pelos dinheiros públicos, com a garantia de que nunca serviriam para socorrer negócios privados, e é seguro e certo que os privados teriam mais cuidado na gestão dos seus próprios negócios.

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Rectificação à entrevista.

por Luís Menezes Leitão, em 06.01.18

Recordo-me de há muitos anos, quando Mário Soares era líder da oposição ao governo Balsemão, ter querido posicionar o PS mais ao centro, pelo que deu uma entrevista a acusar a União Soviética de ter um plano secreto para desestabilizar a Península Ibérica. A Embaixada Soviética apareceu então com um comunicado a dizer que Mário Soares estava "mentalmente doente e necessitava de um prolongado tratamento". A indignação foi tanta, até porque foi interpretada como uma referência ao "tratamento" dado aos opositores na União Soviética, que a Embaixada sentiu necessidade de corrigir a resposta e explicou ter havido erros de tradução. Onde se lia "mentalmente doente" deveria ler-se "com uma imaginação doentia" e o "prolongado tratamento" referia-se antes às declarações e não à pessoa de Mário Soares.

 

Foi deste episódio que me recordei quando vi este comunicado da candidatura de Santana Lopes a desmentir as afirmações deste sobre Rui Rio na entrevista que deu ao Expresso. Afinal para Santana Lopes Rui Rio não é "limitado e paroquial". Tem apenas "uma visão limitada" e uma "visão muito paroquial". Felizmente que a candidatura estava atenta e corrigiu as falsidades do Expresso.

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Uma justiça politizada (2).

por Luís Menezes Leitão, em 05.01.18

Mais uma vez se verifica que a justiça espanhola continua incapaz de lidar de forma isenta e imparcial com o problema da Catalunha. Dizer que há risco de continuação da actividade criminosa para manter na prisão líderes independentistas cujo único crime foi executar o programa já duas vezes sufragado pelos catalães, da última vez em eleições conduzidas a partir da prisão e do exílio mostra uma incapacidade total de Espanha lidar com a questão da Catalunha, uma questão que é política e não jurídica.

 

Quando Ghandi foi preso e julgado pelos ingleses na ìndia, assim como toda a Comissão de Trabalho do Partido do Congresso, o juiz perguntou-lhe se queria apresentar a sua defesa. Ghandi limitou-se a dizer que não tinha qualquer defesa e que, se o juiz acreditasse na justiça que estava a aplicar, tinha que o condenar à pena máxima. Foi de facto condenado e esteve dois anos na prisão, mas isso foi o denotador do movimento "Quit India", que levou os britânicos a sair da Índia. A Espanha pode estar a criar um "Quit Catalonia", com esta incapacidade de reconhecer a realidade que está debaixo dos seus olhos. Aguardemos pelas cenas dos próximos capítulos.

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Revisitando o governo de Santana Lopes.

por Luís Menezes Leitão, em 05.01.18

Santana Lopes tem razão quando se queixa de que ninguém no partido lhe chamou a atenção para as trapalhadas do seu governo, quando estas saltavam aos olhos de toda a opinião pública. O mal dos partidos políticos portugueses sempre foi o excessivo seguidismo que têm pelos seus líderes. Em 2004, quando Santana Lopes fez todas aquelas trapalhadas no seu efémero governo, deveria ter sido o PSD a promover internamente a sua rápida substituição no cargo de Primeiro-Ministro, o que teria evitado a dissolução de Jorge Sampaio, e a entrega do país a Sócrates. Margaret Thatcher tinha sido uma excelente Primeira-Ministra e foi destituída pelo Partido Conservador quando se tornou evidente que o seu governo estava esgotado, o que permitiu que os conservadores voltassem a ganhar com John Major. Os partidos não são meras estruturas de apoio ao líder. É antes o líder que deve colocar-se ao serviço do partido.

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A destruição dos filmes clássicos.

por Luís Menezes Leitão, em 02.01.18

Concordo inteiramente com o JPT no post aqui abaixo. Achei a nova versão de Um Crime no Expresso do Oriente um verdadeiro assassinato da personagem de Poirot, e uma patética destruição de um filme que na versão de Sidney Lumet é uma obra-prima e um festival de bons actores. Albert Finney foi para mim o melhor Hercule Poirot de sempre, enquanto que Keneth Brannagh é seguramente o pior, e não é por ter um bigode de proporções colossais que se aproxima minimamente da personagem de Agatha Christie.

Mas infelizmente é o que se está a passar com estes sucessivos remakes de filmes clássicos. Não é só o Sherlock Holmes que foi totalmente descaracterizado nos filmes recentes. Também o James Bond actual já nada tem a ver com os anteriores e muito menos com a personagem criada por Ian Fleming. E em Portugal também passámos a ter remakes ridículos de filmes de época como o Pátio das Cantigas, O Leão da Estrela, e a Canção de Lisboa, de tão maus que devem ter feito os antigos actores e realizadores dar voltas no túmulo.

 

Mas a verdade é que a actual sociedade só liga ao dinheiro e estes remakes constituem sucessos comerciais, pelo que são repetidos até à exaustão. Até já perdi a conta às sucessivas versões do King Kong, quando King Kong só há um e é o de 1933. Mas, pelo vistos, enquanto o macaco gigante fizer render o peixe, lá voltam sempre os filmes dele. Se continuarmos com este disparate amanhã teremos uma nova versão de Casablanca, com Kenneth Branagh no lugar de Humphrey Bogart, montado num camelo a fugir de uma perseguição de nazis pelas areias do deserto. Haja juízo e respeito pelas obras-primas do cinema.

 

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No pasarán.

por Luís Menezes Leitão, em 29.12.17

Há que dar apoio ao perseguido governo venezuelano, a quem uns capitalistas indecentes privaram do acesso ao pernil de porco. Ficámos a saber que Mário Lino, que tinha sido tão bem tratado pelo grande comandante Hugo Chávez quando fazia parte do governo socialista de José Sócrates, afinal se passou para os capitalistasse recusa a vender pernil de porco a crédito ao povo venezuelano. "Queres fiado? Jamé!", terá respondido ele aos apelos insistentes de Nicolás Maduro, mesmo depois de Sócrates ter impingido ao comandante Chávez um milhão de computadores Magalhães. E o governo português da geringonça, em vez de mostrar solidariedade ao povo irmão da Venezuela, vem dizer que não interfere no pernil de porco. Há que desencadear uma rápida reacção do movimento operário mundial contra os patifes dos capitalistas, e fazê-los mesmo esticar o pernil. E o governo traidor português da geringonça deve ser denunciado como inimigo do povo e da classe operária. No pasarán!

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O homem que inventou o Natal.

por Luís Menezes Leitão, em 24.12.17

 

Apesar de não apreciar filmes sobre a época natalícia, senti curiosidade em ir ver o filme "O homem que inventou o Natal", sobre o processo que levou Charles Dickens a escrever "Um conto de Natal", uma das suas obras mais conhecidas. Não dei o meu tempo por perdido. O filme é absolutamente magnífico sobre a dor criativa do autor no processo de gestação e parto da sua obra. Tal como os fantasmas do Natal, as suas personagens vão surgindo à sua procura, como bem descreveu Pirandello, e o autor vê-as ganhar vida própria, tem dificuldade em as matar, e acaba por aceitar os seus ditames. Mas, ao mesmo tempo, vai modificando as personagens, permitindo-lhes revelar dons que não apareciam na sua versão em bruto. 

 

E os actores são fabulosos. Dan Stevens é uma verdadeira revelação no papel de um Charles Dickens, cuja história pessoal de trabalhador infantil o faz compreender os dramas da "incrível miséria da classe operária", que o seu círculo londrino pretende ignorar. É por causa desse círculo londrino que cria a personagem de Scrooge, admiravelmente retratado por Christopher Plummer, uma homem intrinsecamente mau, mas que o espírito natalício acaba por conseguir modificar. E assim vemos surgir, linha a linha, folha a folha, ilustração a ilustração, a obra-prima "Um conto de Natal". Escrita em seis semanas, com a primeira edição esgotada em seis dias, mudou para sempre a forma de celebração do Natal em todo o mundo. Um filme que é uma bonita homenagem a um autor célebre e a uma obra extraordinária.

 

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Editoriais da imprensa catalã.

por Luís Menezes Leitão, em 22.12.17

 

El Punto Avui: «O caminho do soberanismo está aberto»

 

La Mañana: «Apontar e seguir».

 

Diario de Tarragona:  «Uma proposta de solução para a confusão».

 

Diari de Terrassa: «Política».

 

El Dimoni: «Catalunha, entre Salt e Medinyà».

 

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Os derrotados do 21-D.

por Luís Menezes Leitão, em 22.12.17

É muito fácil fazer calculismos eleitorais para não querer ver o resultado óbvio. Os constitucionalistas perderam em toda a linha as eleições na Catalunha. Tanto assim que até a Inés Arrimadas, depois de uns delírios de uma noite de Verão em pleno Inverno, já apareceu a reconhecer que nem vale a pena ela fazer contactos para formar governo. Mesmo para a Arrimadas isto já é assunto arrumado.

 

Mas o mais patético é o posicionamento de Rajoy. Avisa que se vai manter em funções até 2020 sem perceber que o seu governo está morto e enterrado já em 2017. Recusa encontrar-se com Puigdemont, preferindo falar com Inés Arrimadas, mas reconhece que vai ter que se encontrar com o novo presidente da Generalitat que será seguramente ele e não ela. E depois ameaça com novas edições do art. 155, incapaz de reconhecer o mal que isto já causou ao seu próprio partido. Entretanto Albert Rivera esfrega as mãos de contente, vendo todo o eleitorado do PP a fugir para o Ciudadanos. Por isso neste momento Rajoy já é uma carta fora do baralho na política espanhola. Só ele é que parece não o querer perceber. Um dia acontece-lhe o mesmo que a Gorbatchev. Vão visitá-lo para lhe dizer que o país que governava já não existe.

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A vitória do independentismo catalão.

por Luís Menezes Leitão, em 21.12.17

Não vale a pena dizer que não há razões históricas para a Catalunha ser independente, ou que os catalães são muito bem tratados pelos espanhóis, apesar de terem sido obrigados a travar estas eleições com um líder independentista na prisão e outro no exílio. Se um partido independentista  ganha as eleições, é para executar o seu programa, e o programa é a independência. Numa democracia, a vontade dos eleitores tem que ser respeitada.

 

Rajoy destituiu o governo catalão e convocou eleições, aplicando o art. 155 da Constituição espanhola, convencido de que iria conseguir uma maioria constitucionalista. Não só não a conseguiu, como reduziu o seu partido a cinzas na Catalunha. Antes já era absurdo que um partido com 11 deputados na Catalunha a estivesse a governar. Agora se voltar a aplicar o art. 155 para governar a Catalunha com 4 deputados, será motivo de chacota mundial. Duvido que consiga sobreviver politicamente a este desastre.

 

Quanto a Inês Arrimadas, a nova coqueluche dos espanholistas — de Espanha e não só — conseguiu ficar em primeiro lugar, graças aos despojos do PP e a algum voto útil dos constitucionalistas. Antes tinha 25 deputados, agora passou para 36, mas isso não lhe vai permitir formar governo. Poderá servir para o Ciudadanos tentar uma OPA ao PP em Espanha, mas na Catalunha vai continuar a ser a líder da oposição e nada mais.

 

Quanto ao bloco independentista, mesmo com a prisão e os exílio dos seus líderes, voltou a conseguir a maioria no parlamento catalão e vai formar governo. Se alguém tinha dúvidas sobre o objectivo independentista dos catalães, hoje ficou esclarecido. Como disse Puigdemont a partir de Bruxelas, a República Catalã ganhou à Monarquia Espanhola e ao art. 155. Podem tomar nota.

 

E agora, vai Espanha aceitar democraticamente os votos dos catalães ou quer pôr todos os eleitores independentistas na prisão?

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A Santa Casa e o Montepio.

por Luís Menezes Leitão, em 21.12.17

Parece que anda por aí uma enorme polémica entre Santana Lopes e António Costa sobre quem teve a iniciativa de fazer a Santa Casa entrar no capital do Montepio. Mas a mim não me interessa nada de quem foi a iniciativa. A entrada da Santa Casa no Montepio é um perfeito disparate e costuma dizer o povo que, se tolo é quem pede, mais tolo é quem lho dá. Se eu fosse provedor da Santa Casa, fugia de propostas destas como o diabo da cruz. Não foi isso, porém, o que fez Santana Lopes, que até assinou um memorando de entendimento sobre o negócio. Não me parece, por isso, correcto que queira descartar as suas responsabilidades neste assunto.

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As eleições no PSD.

por Luís Menezes Leitão, em 15.12.17

Esta história dos debates demonstra bem a instabilidade crónica que caracteriza Santana Lopes. Primeiro exige dezenas de debates. Depois faz um acordo com Rui Rio para realizar apenas dois. Depois de o acordo estar firmado, aparece a pedir ainda um terceiro. Quando não lhe dão o terceiro, amua e afinal cancela o debate que tinha marcado. Se alguém quer convencer os eleitores de que Santana Lopes evoluiu desde os tempos que foi primeiro-ministro, que se desengane. Isto é a sua marca de água de sempre. E por isso é que António Costa adoraria ter Santana Lopes na liderança do PSD, que derrotaria em qualquer eleição com a mesma facilidade com que o derrotou nas eleições para a Câmara. Imaginem este tipo de campanha, com exigências e desmarcações de debates, no quadro de uma eleição nacional.

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Um homem à frente do seu tempo.

por Luís Menezes Leitão, em 14.12.17

Não há ninguém que possa ultrapassar Marcelo Rebelo de Sousa. Ele está sempre à frente do próprio tempo. Já avisou que o governo já tem uma equipa pronta para tomar conta da Raríssimas. O governo, que pelos vistos ainda não sabe do assunto, diz que não comenta. O presidente da mesa da instituição, que vai convocar uma assembleia geral para eleger a nova direcção, também pelos vistos não foi informado. Mas Marcelo, que tudo sabe e tudo faz, já informou que há uma nova equipa para gerir a instituição. Só falta o resto do mundo descobrir qual é.

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Um ano particularmente saboroso.

por Luís Menezes Leitão, em 14.12.17

Agora António Costa resolveu declarar que o ano de 2017 foi particularmente saboroso para Portugal. Depois dos 64 mortos do incêndio de Pedrógão Grande em Junho, a que se somaram os 45 mortos do incêndio da Lousã em Outubro, sem que nenhuma destas famílias tenha recebido até agora um cêntimo de indemnização, mas antes se tenha defrontado com uma teia de burocracias, segredos e impunidades em que o Estado é fértil, só faltava mesmo que o Primeiro-Ministro viesse avaliar assim o ano. Mas as suas declarações não espantam ninguém. Depois de António Costa ter avisado que só podiam esperar que ele se risse, quando lhe sugeriram que demitisse a sua Ministra depois dos fogos, está à vista a sua insensibilidade para o estado do país. E no fundo tem razão. Como o governo não quer saber do país para nada, para o governo na verdade 2017 foi um ano particularmente saboroso. Já para o resto do país foi um ano particularmente amargo.

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Uma justiça politizada.

por Luís Menezes Leitão, em 05.12.17

Quem acredita na capacidade de Espanha julgar de forma isenta e imparcial os independentistas catalães, bem pode perder as ilusões com o que se tem passado nois últimos dias. Primeiro são mantidos na prisão os membros do governo catalão que não fugiram, não porque haja perigo de fuga, mas por receio de continuação da actividade criminosa, leia-se, continuarem a defender a independência da sua região. Depois revoga-se o mandado de detenção europeu dos que fugiram, a pretexto de que disseram que iriam regressar, mas com o fim óbvio de evitar que os tribunais belgas se pronunciem sobre essa questão. Adivinha-se o que eles iriam dizer sobre o assunto.

 

Acrescento que estive há dias em Barcelona e estou convencido de que a situação está muito longe de estar resolvida com a aplicação do art. 155. Aguardemos pelo pelo resultado do 21 de Dezembro.

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O sucesso de Mário Centeno.

por Luís Menezes Leitão, em 05.12.17

O mal do governo de Passos Coelho (entre muitos outros) foi nunca ter tido um Ministro das Finanças de jeito. Escolheu Vítor Gaspar porque ele próprio se candidatou ao cargo, depois da recusa de Vítor Bento, e foi um desastre. Basta recordar que foi dele a ideia louca de aumentar a TSU dos trabalhadores, com custos brutais para o PSD. Quanto a Maria Luís Albuquerque, nunca passou de uma secretária de Estado promovida, certinha mas sem rasgo. A única ideia que se viu dela foi a devolução da sobretaxa, medida tão absurda que ainda hoje cobre de ridículo o seu governo. Paulo Portas teve toda a razão na crise do irrevogável, quando lutou para que Paulo Macedo fosse para o lugar, tendo mais uma vez perdido face à obstinação de Passos Coelho. É por isso que quando há um Ministro das Finanças a sério como, diga-se o que se disser, é o caso de Mário Centeno, as diferenças vêm ao de cima. Por isso, enquanto o centro-direita continuar a chorar pelo governo perdido de Passos Coelho, estará a contribuir para a sua derrota.

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Belmiro de Azevedo (1938-2017)

por Luís Menezes Leitão, em 30.11.17

Gostava especialmente de Belmiro de Azevedo. Era um grande empresário, que transformou uma empresa familiar num grande grupo económico, que aguentou contra ventos e marés, fazendo da vida empresarial praticamente um duelo. Curiosamente perdeu as duas maiores batalhas em que se envolveu: a oposição à OPA do BCP sobre o BPA, que perdeu, e a OPA da Sonaecom sobre a PT, que também perdeu. Mas, mesmo quando perdia, estava sempre pronto para a batalha seguinte, já que, como ele dizia, não há derrotas eternas, nem vitórias definitivas.

 

Mas o que gostava mais em Belmiro era o seu estilo truculento e a capacidade de impor os seus pontos de vista. Num país onde se considera que o respeitinho é muito bonito e em que a maior parte das pessoas só diz meias palavras, com receio das consequências, Belmiro dizia e fazia o que pensava, sem constrangimentos de qualquer ordem, sendo absolutamente demolidor quando era necessário. Recordo-me uma vez que o Parlamento o queria ouvir num inquérito, e ele disse que só estaria disponível às oito da manhã, pois tinha que apanhar o avião para o Porto. Pois não é que os deputados, que habitualmente só chegavam às 9h30m, foram abrir propositadamente o Parlamento às oito da manhã, com receio de serem chamados de preguiçosos por aquele homem que fazia do trabalho a sua divisa.

 

Ficou na história o conflito de Belmiro com Marcelo Rebelo de Sousa, quando ele era presidente do PSD, e criticou o facto de a Sonae estar a fazer investimentos no Brasil com apoio do Estado. Belmiro respondeu-lhe à letra, exigindo que tirassem Marcelo da presidência do PSD, e que ele fosse erradicado da sociedade portuguesa. Lembro-me de que o artigo que escreveu na altura terminava assim: "Aqui tem, professor Marcelo Rebelo de Sousa. Por mim, escusamos de ficar por aqui: não me calo nem que Cristo desça à terra. E desengane-se: dito por mim, isto quer dizer realmente isso mesmo". Cristo desceu efectivamente à terra e nem assim Belmiro se calou, só o tendo feito em definitivo ontem. E os poderes do Estado mostraram mais uma vez a sua verdadeira natureza. O Presidente fez uma declaração formal de condolências e, no Parlamento, que em tempos tinha aberto de propósito para o ouvir, houve deputados a abster-se ou mesmo a votar contra um simples voto de pesar. Só que Belmiro de Azevedo era muito superior a esse tipo de posições oficiais e só podemos imaginar o que diria sobre as mesmas. Ontem partiu um grande homem.

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Duas perguntas em Aveiro.

por Luís Menezes Leitão, em 27.11.17

Querido Líder e Primeiro-Ministro:
 
Quero em primeiro lugar agradecer a oportunidade que V. Exª deu a humildes cidadãos como eu, de virem aqui a Aveiro confrontar V. Exª com uma simples pergunta, que seguramente o seu superior génio não terá qualquer problema em responder. A minha pergunta é apenas como é possível que, perante o extraordinário sucesso do seu governo, continue a haver portugueses que não vêem a luz? Afinal de contas os fogos já estão todos apagados, as armas de Tancos já foram restituídas e, se o Porto não ganhou a EMA, pelo menos vai receber o Infarmed. Tudo graças a V. Exª e ao seu magnífico governo, que vai de vento em popa no seu segundo aniversário, apesar do que alguns maldizentes andam por aí a dizer.
 
Penso que já fiz aquilo para que fui contratado. Agora permita-me ainda uma segunda pergunta. Já posso ir buscar o vale e ir-me embora?

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Entrevista literária.

por Luís Menezes Leitão, em 24.11.17

Pode ver-se aqui uma entrevista sobre os livros de um autor consagrado e que tem tido um enorme sucesso de vendas em Portugal. A não perder.

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O prémio de consolação.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.17

Aqui está o prémio de consolação pela iniciativa falhada de Rui Moreira. Já que o Porto não consegue ganhar a candidatura à Agência Europeia do Medicamento, dá-se-lhe desde já a Agência Portuguesa do Medicamento, ou seja, o Infarmed. Quanto às centenas de funcionários que o Infarmed tem, eles que se preparem para se mudar de armas e bagagens para o Porto ou fazer diariamente 300 km para ir para o trabalho.

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O governo que temos.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.17

Uma boa demonstração de como funciona este governo é este processo da candidatura à Agência Europeia do Medicamento. Por pressão do autarca do Porto, retira-se a candidatura de Lisboa, que tinha todas as hipóteses de ganhar, para lançar a do Porto, e depois fica-se contente por este ter ficado em sétimo lugar. A Agência Europeia do Medicamento estava em Londres, a capital do Reino Unido, não estava em Manchester, nem em Southampton. Era evidente que, a ir para Portugal, só podia ir para a sua capital. Por isso mesmo acabou por ir para Amesterdão. É por isso que no governo alguém devia assumir responsabilidade pela condução deste processo, que prejudicou seriamente o país. Mas já se sabe que tal nunca acontecerá.

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House of cards.

por Luís Menezes Leitão, em 20.11.17

Depois de a Netflix ter aderido à turba contra Kevin Spacey e acabado liminarmente com a série House of Cards, a única coisa que resta aos apreciadores do género é acompanhar a situação no Zimbabwe. Devo dizer que não estou a achar o enredo muito diferente.

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O grau zero do jornalismo.

por Luís Menezes Leitão, em 13.11.17

É precisamente fazer uma notícia a questionar se alguém cortou o cabelo e depois chegar à conclusão de que apenas tem um penteado diferente. Não haverá nada mais importante para noticiar do que os penteados das cabeças reais como, por exemplo, as vítimas dos fogos, da legionella, as negociações do Brexit, etc., etc? É por isso que eu sou convictamente republicano.

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Independência dos tribunais?

por Luís Menezes Leitão, em 09.11.17

Confesso que tenho ficado absolutamente perplexo com a pressão que está a ser feita pelos governos da União Europeia para que o juiz belga se decida a extraditar Puigdemont a Espanha. Basta ver olhar para estas declarações absolutamente inaceitáveis de Manuel Valls, ex-Primeiro-Ministro e actual deputado francês, a declarar que não haverá espaço judicial europeu se Puigdemont não for extraditado para Espanha. Como é sequer imaginável que o ex-Primeiro-Ministro de um país estrangeiro se atreva a dizer o que é que um juíz belga deve fazer num processo que tem entre mãos? O que demonstra bem a anedota que constitui a União Europeia é os estados grandes acharem que podem fazer tudo em relação aos estados pequenos, inclusivamente dar ordens aos seus tribunais. Não haverá limites para esta absoluta falta de vergonha?

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Critérios de extradição.

por Luís Menezes Leitão, em 08.11.17

Não deixa de ser curioso que, enquanto é pedida a extradição imediata de Puigdemont, Iñaki Urdangarin, "cunhadíssimo" do actual Rei de Espanha, condenado a seis anos e três meses de prisão por corrupção, continue a viver feliz e contente na Suíça, sem que nenhuma autoridade espanhola o incomode.

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Apenas políticos presos?

por Luís Menezes Leitão, em 07.11.17

Sobre os caminhos ínvios que tem seguido o processo aos independentistas catalães, convém ler esta muito pertinente análise de Correia Pinto.

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O império contra-ataca.

por Luís Menezes Leitão, em 05.11.17

Só agora reparei nesta muito oportuna capa do La Voz de Galicia do passado domingo. Efectivamente, o Império contra-ataca.

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A fuga dos chefes do governo.

por Luís Menezes Leitão, em 05.11.17

Se há coisa que reprovo profundamente no independentismo catalão é a fuga do presidente da Generalitat para Bruxelas, que pelos vistos nem sequer lhe vai garantir qualquer protecção. Curiosamente acaba de ser imitado pelo primeiro-ministro do Líbano, que também se pôs ao fresco, fugindo para a Arábia Saudita, alegando riscos para a própria vida.

 

É verdade que muitos dos que criticam Puigdemont, mais valia estarem calados, como Felipe Gonzaléz, que esteve entre os que se atiraram para o chão quando o parlamento espanhol foi invadido pelo grupo de militares comandado por Tejero Molina. Nessa altura só duas pessoas permaneceram nos seus lugares. Um deles foi Santiago Carrillo que, pegando no seu cigarro, se limitou a dizer: "Pavía chegou mais cedo do que se previa", recordando o momento em que o General Pavía, em 3 de Janeiro de 1874, ocupou o parlamento da I República Espanhola, iniciando a Ditadura de Serrano. O outro foi Adolfo Suárez que, embora estivesse a momentos de ser substituído com a eleição pelos deputados do novo governo, permaneceu sozinho no lugar destinado ao governo. E mais tarde explicou: "Não critico nenhum dos meus colegas que decidiu proteger-se, mas eu era o chefe do governo. O chefe do governo permanece sempre onde está".

 

E, de facto, quem assume a chefia de um governo, deve pensar que coloca a sua cabeça num cepo e que, se alguma coisa acontecer, é a dele que tem que rolar, não a dos seus subordinados ou a de segundas figuras. Há que lembrar aqui o que disse a Imperatriz Teodora ao Imperador Justiniano, quando ele quis fugir perante a revolta de Nika: "Ainda mesmo que a fuga seja a única salvação, não fugirei, pois aqueles que usam a coroa não devem sobreviver à sua perda. Se quiseres fugir, César, foge. Tens dinheiro, teus navios estão prontos e o mar aberto. Eu, porém, fico. Gosto desta velha máxima: a púrpura [o manto dos imperadores] é uma bela mortalha".

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A verdadeira defesa do Estado de Direito.

por Luís Menezes Leitão, em 05.11.17

Enquanto que tanta gente, na Europa e até em Portugal, olha para o lado perante a brutal prisão dos independentistas catalães, em Espanha a associação Jueces per la Democracia, constituída em 1983 para criar uma verdadeira justiça democrática na Espanha saída do franquismo, critica a decisão da juíza Carmen Lamela e avisa que a mera aplicação das leis não vai resolver o problema na Catalunha, apelando a uma solução política da questão.

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A anedota europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 04.11.17

Se há coisa que a crise na Catalunha está a demonstrar — para quem tinha dúvidas, o que nunca foi o meu caso — é a verdadeira anedota que constitui a União Europeia, absolutamente incapaz de desafiar um Estado grande, enquanto se acirra furiosamente sobre os Estados pequenos. É assim que, enquanto a Hungria é ameaçada com os tribunais europeus só porque fez uma lei sobre ONGs, a repressão de Espanha aos independentistas catalães merece apenas o comentário de que é um assunto do foro judicial. Que cidadãos europeus possam ser punidos em 30 anos de prisão por delito de opinião e que estejam presos sem culpa formada nem possibilidade de caução é algo que não importa nada às instituições europeias. Se estiver em causa um Estado grande, a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia nem para embrulho serve.

 

Já agora, porque é que a União Europeia não aproveita o bom exemplo espanhol para resolver de vez o problema do Brexit? É muito simples. Acusa-se os actuais governantes ingleses dos crimes de rebelião, sedição e peculato por terem organizado um referendo destinado a separar o Reino Unido da União Europeia, e decreta-se desde já a demissão do governo britânico e a sua prisão preventiva. A seguir, nomeia-se um comissário europeu para gerir o território britânico, avisando-se que, se os apoiantes do Brexit ganharem as novas eleições, estarão sujeitos às mesmas penas de prisão. Um processo altamente eficiente, com a vantagem de que Theresa May nem sequer poderia imitar Puigdemont e fugir para Bruxelas, pois iria imediatamente cair no covil do inimigo.

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A entrevista de Felipe González

por Luís Menezes Leitão, em 04.11.17

 

Os jornais espanhóis, com o El País à cabeça, demonstram uma parcialidade e um ódio ao independentismo catalão, como eu nunca vi em jornal algum, nem sequer nos jornais portugueses de 1975. Não há um mínimo esforço de objectividade, tudo aquilo é propaganda, e a mesma parece ter contaminado todo o Estado espanhol, desde os políticos à magistratura, que se unem no ódio aos independentistas. Esta entrevista de Felipe González é um cabal exemplo disso. Por muito que eu concorde que a fuga de Puigdemont foi um acto de cobardia, acho que um político não deve chamar cobarde a um seu adversário, ainda mais quando esse adversário fugiu para não ser preso. Aliás, corre o risco de lhe devolverem essa acusação, sabendo-se que Felipe González também se exilou em França, depois de ter sido detido por participar em manifestações contra o regime franquista. E falar na independência de uma juíza que colocou todo o governo catalão na prisão é perfeitamente ridículo. Para sermos independentes, termos que estar distantes de ambas as partes em conflito. Não está a ser o caso.

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Democracia em Espanha.

por Luís Menezes Leitão, em 03.11.17

Como bem diz o Stephen Colbert, não há democracia mais autêntica do que aquela em que são convocadas eleições, ao mesmo tempo que se põe na prisão aqueles que o povo elegeu.

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A reacção contra o independentismo em Portugal e Espanha.

por Luís Menezes Leitão, em 03.11.17

Para mostrar bem a diferença entre Portugal e Espanha, cabe comparar o tratamento dado pelo Estado espanhol aos independentistas catalães com o que o Estado português deu aos independentistas açorianos. Em 1991 José de Almeida, o líder da FLA foi julgado no Tribunal da Boa Hora pelo crime de tentar obter a independência dos Açores. Acabou absolvido, considerando o Tribunal que num Estado democrático ninguém pode impedir um cidadão de defender livremente as suas convicções. Os juízes espanhóis bem que podiam olhar para o exemplo de Portugal.

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O impasse na Catalunha.

por Luís Menezes Leitão, em 03.11.17

Agora o PP catalão, perante a perspectiva, cada vez mais sólida, de os independentistas voltarem a ter maioria na Catalunha, pede para nesse caso se voltar a aplicar o art. 155. Espanha começa a parecer-se cada vez mais com o Chile dos anos 70 em que se avisou que, se Allende ganhasse, seriam as últimas eleições, como de facto aconteceu durante vinte anos.

Entretanto, hoje Nuno Garoupa dá uma excelente entrevista que diz duas coisas óbvias, que só os fanáticos persistem em não querer ver. A primeira é a de que o sistema judicial espanhol está politizado e desprestigiado há muitos anos. A segunda é a de que "só há uma saída para isto. O Estado espanhol e a União Europeia têm de, dentro do seu Estado de Direito, reconhecer a possibilidade de a Catalunha referendar a independência". As questões políticas resolvem-se politicamente, não se resolvem com prisões por delito de opinião.

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Delito de opinião.

por Luís Menezes Leitão, em 02.11.17

Não consigo compreender como é possível mandar para a prisão os governantes de um governo deposto pelo simples facto de terem executado o programa com que se apresentaram a eleições, as quais lhes deram a maioria no parlamento. Em Espanha neste momento há processos com acusações por penas gravíssimas e medidas de coacção desproporcionadas apenas por simples delito de opinião. Estes governantes estão presos porque não se consideram espanhóis e quiseram que a sua região fosse independente. E já agora, alguém acredita que as eleições convocadas ao abrigo do art. 155 vão ser realizadas adequadamente quando os líderes independentistas são previamente sujeitos à prisão ou ao exílio? Fala-se tanto nos regimes ditatoriais do leste da Europa e assiste-se sem uma palavra a estas coisas aqui mesmo ao lado.

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À atenção dos apoiantes portugueses do governo de Madrid.

por Luís Menezes Leitão, em 02.11.17

Já começa a haver gente em Espanha que, embalada pela aplicação do art. 155, anda a propor a anexação de Portugal. Nada de novo. O outro galego também tinha um plano para o fazer. Por isso é que eu sempre achei que a independência da Catalunha só favoreceria Portugal, libertando-nos de vez do complexo espanholista de unificação da península ibérica.

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