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O preço da obsessão

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.10.17

Foi caro, muito caro, estupidamente caro.

É difícil governar sem distância em relação ao aparelho, afastado do país, respondendo-se às questões colocadas como se o respondente fosse algum dos antecessores de muito má memória, daqueles que primaram pela pesporrência e teimosia, reincidindo naquilo em que não se podia reincidir e que foi objecto de severa crítica no passado.

O resultado é que depois se gere politicamente tarde, contabilisticamente, mal e num momento em que as falhas são duplamente censuradas. Assim se deixa arder um importante capital de confiança nas pessoas e no partido que governa.

Porém, o pior de tudo não foi isso. Com ou sem moção de censura, qualquer que seja o resultado da votação, que importa pouco face à ausência de alternativas políticas credíveis, pior é quando se deixa arder a esperança na regeneração das instituições. 

Quem é que quer saber do défice, da imagem do primeiro-ministro, do desemprego ou dos números do crescimento perante a tragédia? Perante a perda estúpida de vidas humanas? Quem é que quer saber do resto quando tudo ardeu, quando a responsabilidade política surge in extremis e sacada a ferros, quando se fica à espera que chova?

 

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Arranjem um canalizador

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.10.17

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O ar já estava pesado. A terra ficou ainda mais com o inferno que persiste, pelo que aquela frase não podia ser mais apropriada: ''aquela merda ainda não entupiu... ”

 

Não se pode dizer que não tivessem feito tudo para isso. 

Quanto ao país, bom, já estava há muito. E não sei se haverá alguém que consiga desentupi-lo nas próximas décadas.

Não há purificadores do ar que cheguem. Nem mesmo em Marte.

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David Tang (2/8/1954-29/8/2017)

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.08.17

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(créditos: SCMP)

 

"In love, I regret not being more naughty when I was slim, young and suave. Now I’m a fat old man."

 

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O eterno problema

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.08.17

Quaisquer que sejam as épocas e os regimes, dentro ou fora de Portugal, "(...) o que caracteriza sempre os censores é o serem profundamente estúpidos". Pois é, Luís, mas não só os censores: as empresas de recrutamento também padecem do mesmo mal. 

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Antigamente havia vários nomes para isto

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.08.17

"Inicialmente, a viagem estava marcada para os dias 2 a 7 de Junho. Contudo, os convidados pediram para prolongar este período e acabaram por ficar até dia 15"

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Hato final

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.08.17

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O pior passou.

Durante dois dias, largas centenas, talvez mesmo mais de um milhar de pessoas, lutaram contra o tempo para recolher a maior quantidade possível de lixo, de restos de árvores e de arbustos, de objectos danificados que obstruíam ruas e passeios. Os bombeiros trataram de proceder à drenagem das águas que transformaram silos subterrâneos para estacionamento de veículos em tanques onde jaziam automóveis, motociclos e alguns desgraçados que ali foram apanhados ou para lá arrastados pela chuva, o vento e a furiosa corrente da água que galgou as margens, transbordou e invadiu as zonas baixas. A aproximação de um segundo tufão no espaço de pouco mais de três dias sobre a calamidade que se abateu sobre Macau em 23 de Agosto não dava tempo para tréguas.

Um dos problemas relatado pelos voluntários foi a falta de camiões em número suficiente para se retirar o lixo dos pontos onde fora concentrado, assim se atrasando essa importante tarefa. A Rádio Macau, à semelhança da televisão e dos jornais, enviou os seus repórteres para as ruas, todos eles prestando um serviço de informação que desde a primeira hora também cabia às autoridades públicas. O facto de uma antena na Colina da Guia ter ficado destruída impediu a recepção da emissão de rádio em Coloane e na Taipa em condições de audibilidade, situação que persiste. Em todo o caso, o restabelecimento do fornecimento de electricidade e do serviço de Internet, onde a TDM-TV passou também a colocar os seus serviços informativos em diversas línguas, colmataram na medida do possível as falhas radiofónicas.

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(Typhoon Committee Secretariat, Coloane) 

A ajuda prestada pelos diversos grupos de voluntários nas primeiras horas do processo de recuperação foi decisiva para o bom trabalho que se fez. Fiquei particularmente sensibilizado, entre outros, pela iniciativa, mobilização e participação de uma associação de trabalhadores não-residentes de origem nepalesa. Os nepaleses, como outros nacionais, pertencem a um dos grupos mais desprezados pelas autoridades locais em matéria de direitos sociais. Na sua maioria são trabalhadores do sector hoteleiro, de empresas de limpeza e de segurança, com más condições de remuneração e de vida, muitos deles trabalhando regularmente doze e mais horas por dia, sem qualquer folga ou descanso semanal, sem direito à greve e vivendo em condições muito difíceis. No entanto, essa gente humilde e trabalhadora que na sua própria terra ainda não há muito suportou uma tragédia natural de grandes dimensões, e contra quem alguns pretensos nacionalistas e defensores dos residentes se voltam sempre que há problemas de emprego ou se discutem direitos básicos, inclusivamente na própria Assembleia Legislativa, deu um exemplo cívico notável. Foram nisso seguidos por outras associações e, entretanto, também por alguns deputados, ao que sei também por um membro do Executivo, que participaram na operações de limpeza, embora nalguns casos, devido ao facto da eleição dos deputados a serem escolhidos pelos sufrágio directo e indirecto estarem agendadas para 17 de Setembro, seja difícil distinguir aquilo que é genuína vontade de participar de uma acção de campanha dissimulada. Estando em causa o sentido de entreajuda, a Comissão dos Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa, verdadeiro big brother do processo eleitoral e dos bons costumes dos candidatos e das listas, teve desta vez o bom senso de nada dizer.

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(Largo de Coloane)

O mesmo não se poderá afirmar de quem quis tirar dividendos políticos da tragédia para lançar rumores, atacar o Governo português e o trabalho do Cônsul-Geral numa inédita e doentia manifestação de umbiguismo perante a calamidade, à qual não deixou de associar os deputados do seu partido, porventura à revelia destes, chegando a comparar o que aconteceu na tragédia de Pedrógão com a situação derivada do tufão e insinuando a existência de um eventual conluio das entidades oficiais para ocultação de vítimas de nacionalidade portuguesa. Inacreditável. Como se numa situação de catástrofe fosse mais importante a nacionalidade ou a etnia das vítimas do que as próprias vítimas e não fossem todos seres humanos e filhos do mesmo Deus.

Creio que essa terá sido também uma das razões para o Consulado-Geral ter ontem divulgado um comunicado onde se reafirmou, na sequência da reunião havida entre o Cônsul-Geral e o Secretário da Segurança da RAEM, que “até à data, não existem cidadãos nacionais portugueses entre as vítimas mortais e entre os feridos, na sua maioria ligeiros, já contabilizados, e assistidos nos hospitais públicos”, acrescentando-se que o Secretário para a Segurança “expressou o seu veemente repúdio a quem, através das redes sociais, ou por qualquer outro meio, propaga informações falsas, causando alarme social, sobre a existência de vítimas de nacionalidade portuguesa ou outra, para além das que são fornecidas oficialmente”.

É verdade que houve muitos portugueses afectados pela catástrofe, uns mais do que outros, vários empresários com negócio começado há pouco tempo, mas daí a apontar-se ao Governo e ao representante oficial de Portugal em Macau e Hong Kong um comportamento que o tornaria indigno do lugar que tem ocupado de forma extremamente empenhada e competente, com reconhecido agrado da comunidade, por razões políticas e de eventual inimizade pessoal, não deixa de nos levar a questionar sobre o portuguesismo de alguns e, em especial, dos valores que os guiam em horas tão difíceis para todos.  

Ainda no final de dia 23, o que se confirmou ontem, se ficou a saber que os magnatas dos casinos irão participar na reconstrução. Os primeiros trinta milhões de patacas vieram da MGM e de Pansy Ho, esperando-se que outros se sigam.

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Há situações que estão a demorar mais tempo a solucionar do que seria expectável numa cidade que se quer moderna, cosmopolita e virada para o turismo. Onde moro a água demorou mais de 76 horas a ser restabelecida. Veio com intermitências. Pelo meio houve um inacreditável comunicado referindo-se que a dificuldade na regularização do fornecimento se devia à procura, consumo e armazenamento excessivo, isto numa situação em que não saía uma gota de água das torneiras de milhares de habitações. Tenho conhecimento de que houve um centro de saúde onde aquela faltou e se recebeu depois água transportada de um outro. No Edifício “Riviera”*, ouviu-o ao final da tarde de ontem na TDM-Rádio, os moradores continuavam sem electricidade, sem água e sem gás. Alguns túneis e vias de circulação ainda apresentavam problemas. Nas fachadas dos prédios o vidro foi substituído por painéis de madeira e plásticos de protecção. O tufão Pakhar vinha aí e não se podia deixar tudo no limbo.

Quanto a este cavalheiro, Pakhar, apesar de na noite passada ter sido içado o sinal 8, o qual deu lugar ao sinal 3 ao início desta tarde, continuando içado à hora que escrevo, as consequências foram de muito menor monta, apesar das águas voltarem a fazer das suas. O vento, porém, teve rajadas da ordem dos 70/100 km/hora, ou seja, metade dos valores máximos registados com o Hato. Talvez com excepção de Hong Kong, onde há notícia de uma vítima mortal, a chuva e o vento não foram tão intensos. E com informação atempada e as pessoas preparadas para a chegada do Pakhar isso fez toda a diferença.

Onde se verificaram danos de monta foi na Escola Portuguesa, que ainda recentemente sofrera obras de manutenção tendo em vista o começo do próximo ano lectivo. Ali o dinheiro é sempre pouco, mas espera-se que não faltem ajudas e que quem tiver de executar a reconstrução não se aproveite da situação para inflacionar os preços, fazendo o serviço com a indispensável qualidade.

A intervenção do Exército Popular de Libertação, aplaudida pela maioria da população, começou, entretanto, a ser questionada por alguns sectores. Primeiro em Hong Kong, equacionando-se se em idêntica situação, com o actual clima de confrontação política e ideológica, com activistas pró-democracia e independentistas presos, seria pedida a sua ajuda. A cultura cívica de Hong Kong sempre foi muito diferente da de Macau, não obstante também ali se fazer sentir a forte influência dos poderes informais e dos lobbies locais, e da mão de Beijing se fazer ouvir com cada vez mais estridência apoiada no poder judicial. Não é de admirar que nesse contexto a questão da autonomia e o seu forte sentimento identitário venham logo à superfície.

De lamentar foi o impedimento da entrada em Macau de quatro jornalistas de Hong Kong que vinham em serviço para reportarem o impacto do Hato. A razão — potencial ameaça à segurança interna da RAEM — é hilariante. Todavia, constitui igual razão à invocada anteriormente para barrar a entrada a outros residentes da ex-colónia britânica, incluindo a um(a) deputado(a) que queria vir passar um fim-de-semana num hotel para celebrar o seu aniversário de casamento e até a uma criança de colo, por confusão do nome desta com a de um activista político homónimo, para grande espanto dos seus pais. O ridículo tem limites. A falta de senso também devia ter, mas há quem não o perceba e admita passar pela vergonha de assim se expor e colocar internacionalmente em causa o bom nome da China e da RAEM, tornando-a num tertium genus entre o primeiro sistema de Beijing e o segundo sistema consagrado na Lei Básica.

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Nesta tragédia, em que à dezena de vidas perdidas e aos cerca de 200 feridos há a somar os mais de mil milhões de patacas (números avançados ontem por alto) para recuperar o que se perdeu, se há uma lição a retirar é a de que a prevenção do infortúnio e a sua regeneração não pode fazer-se erigindo-se como critérios de decisão considerações de oportunidade política ou o cumprimento de metas económicas, sob pena de agravamento da calamidade, o que é válido tanto para o público como para o privado. E a qualidade e preparação de quem pensa, coordena e decide o que tem de ser feito é fundamental para se evitar o agravamento do risco e das consequências do desastre. Em nenhuma sociedade se pode viver decentemente com elites medíocres, presunçosas e preguiçosas.

Daí que seja tão importante a competência de quem governa, de quem serve, de quem decide. E o espírito com que o faz. Isto é válido tanto em Macau, como em Hong Kong, em Portugal ou noutro lado qualquer onde haja vidas. Trezentas mil patacas (cerca de 30 mil euros) não pagam a perda de uma vida humana. Já bastam as que não se podem evitar.

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* (editado para correcção do nome do edifício)

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Hato de solidariedade

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.17

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A cidade procura regressar à normalidade. Não será fácil. O lixo vai sendo recolhido pelo IACM, com uma mão da PSP, que por momentos pode dar alguma folga aos agentes que se especializaram na fiscalização de parquímetros e emissão de talões, e pelas brigadas de jovens voluntários, chineses, macaenses e também portugueses. Provavelmente haverá mais alguém a apoiar essa tarefa, pelo que não sei se a informação que tenho estará completa. E hoje, finalmente, o destacamento do Exército Popular de Libertação, que está aquartelado em Macau, veio para a rua ajudar a limpar a cidade. Os relatos que tenho ouvido e o que vi merece os maiores encómios.

E digo finalmente porque numa situação de catástrofe como a que estamos a viver o seu apoio devia ter chegado mais cedo. Confesso que não sei do que estiveram à espera, nem que pruridos poderão ter tido no pedido de ajuda.

O problema do lixo tem tendência a agravar-se. Mais a mais com a perspectiva de um segundo tufão para o próximo fim-de-semana. Se a isto se juntar a falta de bens essenciais e a circunstância de, desde ontem, se terem formado longa filas para abastecimento de combustíveis, de haver zonas da cidade que continuam sem electricidade e de a água ser inexistente em vários locais, começa a desenhar-se um cenário de aparecimento de epidemias.

Há quem não tendo água consiga tomar banho em unidades hoteleiras. Outros contam com os amigos que têm água em casa e que sem mas abrem as portas para esse efeito. Solidariedade e entreajuda é coisa que não tem faltado entre os residentes. Sem água em casa há mais de 48 horas, e sem ter tido a possibilidade de armazenar alguma dada a forma como tudo aconteceu e a falta de informação veiculada pelas autoridades, vi-me obrigado a também ir encher baldes para a garagem do edifício onde resido. Eu e muitas centenas de outros. Como calculam não é a actividade mais agradável para fazer com 30.º C, com uma sensação térmica de 34.º C e uma humidade de 84%. Pouco passava da uma da manhã quando consegui concluir essa operação com sucesso, entre sorrisos de vizinhos e as inevitáveis críticas à incompetência que por aí grassa. E isto, note-se, num condomínio dito de "luxo", onde o abastecimento é feito em torneiras que estão numa sub-cave entre os Maserati, os Bentley e os muitos Mercedes aí estacionados. Contrastes que os últimos anos me têm habituado a ver, embora com eles não me conforme. 

O controlo sanitário é agora crucial. Numa terra que este ano viu aparecer ainda há poucos meses legionella num dos seus casinos mais modernos (outra vez a deficiente fiscalização e a poupança para se aumentar nos lucros, penso eu), com casos de dengue a acontecerem diariamente, com a ETAR de Macau em situação de ruptura e a descarregar milhares de metros cúbicos sem qualquer tratamento e com os vírus das aves sempre presentes, a probabilidade de ocorrência de epidemias nos próximos dias é cada vez maior. Depois não há o hábito de lavar regularmente as ruas (já houve, noutros tempos), nem os contentores de lixo. Esta tarde, quando saí do escritório para comer qualquer coisa, verifiquei que há passagens rodoviárias e pedonais subterrâneas que continuam com água até ao tecto. Águas paradas, lixo em barda, é evidente. E com elas animais rastejantes, roedores e voadores de várias espécies.

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Quem tem crianças tem trabalhos dobrados para lhes assegurar um mínimo, mas a situação dos animais também é motivo de preocupação. Ter um cão de raça é para muitos um sinal exterior de riqueza, apesar de por vezes os abandonarem e maltratarem das formas mais inimagináveis. Só que os cães têm de ir à rua, têm de fazer as suas necessidades fisiológicas. Ainda que os donos recolham os excrementos, sem limpeza e sem água, numa situação como a actual, o que podemos esperar?

Desconheço por que razão o Governo de Macau não pediu imediatamente ajuda a quem sabe lidar com situações desta dimensão, nomeadamente às autoridades da RPC. A última coisa de que Macau precisava era de doenças, de epidemias, de cólera, de dengue, de legionella e do que mais houver no catálogo.

Em situações de catástrofe é que se vê quem tem capacidade para liderar, coordenar, orientar e decidir. Por aqui, o que se vê - e para isso bastaria ter assistido à confrangedora conferência de imprensa de ontem que foi dada pelo Chefe do Executivo, mais três membros da sua equipa e alguns directores de serviços, para perceber o grau de impreparação de quem dirige e o quão desfasados se encontram da realidade - é que impera o atabalhoamento e a informação desencontrada e sem nexo. Ao desastre natural soma-se a tragédia da ausência de meios humanos e técnicos devidamente qualificados.

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Não deixa de ser estranho que o restabelecimento do fornecimento de água leve tanto tempo e que ainda não haja uma previsão de quando isso poderá acontecer. Porém, nos casinos não falta água. Obtive esta tarde confirmação de que para se manterem em operação os casinos andam a comprar camiões-cisterna de água. A pergunta que faço é se os casinos podem fazê-lo por que raio o Governo não o faz também, disponibilizando água em condições a todos os que dela necessitam? Tivesse havido um mínimo de preparação e de planificação – e eu já não peço um plano A e outro B – e ter-se-ia evitado que as consequências estivessem a ser tão nefastas.

Esta é a dura realidade que temos de enfrentar numa cidade e numa região que se apresentava com o quarto PIB/per capita do mundo, à frente da Suíça, mas onde as condições de vida têm piorado a olhos vistos de ano para ano e sem que haja gente com capacidade de intervenção e de decisão que coloque cobro a esta situação. Inclusivamente, ontem, na conferência de imprensa foi referido que algumas coisas serão resolvidas quando o responsável pelas Obras Públicas e Transportes regressar a Macau, visto encontrar-se ausente. Então, e não há ninguém que o substitua transitoriamente perante este cenário? E que dê respostas? Haverá maior declaração de incapacidade do que esta?

Ainda há pouco fiquei a saber que mais uma família foi encontrada morta dentro da sua viatura num parque de estacionamento. Como é possível levar-se tanto tempo para tirar a água dos silos? Que preparação tem sido dada para se enfrentarem situações desta índole? Há falta de equipamentos? Porque não os compraram antes da desgraça acontecer? Para que serve o dinheiro do jogo se não servir para melhorar a qualidade de vida dos residentes e assegurar-lhes condições de segurança e de saúde para momentos destes?

Devo, aliás, dizer que esperava nesta altura já ter ouvido alguma coisa da boca dos senhores dos casinos. Queriam renovações automáticas de concessões e subconcessões mas até agora moita carrasco. Macau, o jogo, proporcionou-lhes ganharem aquilo com que nunca sonharam, nem mesmo com Las Vegas. São milhões e milhões que diariamente entram nos seus cofres e nos do Governo de Macau. E se há milhões para pagar campanhas presidenciais nos Estados Unidos da América, para andar a fazer brilharetes noutras paragens, não há ninguém que se chegue à frente para ajudar a população de Macau nesta hora de aflição? Se compram água para os casinos, comprem também mais alguns camiões, que serão amendoins nas suas contas, para ajudarem a população e minorarem a desgraça, colmatando a falta de apoio de quem governa para acudir ao essencial e satisfazer a tempo e horas as carências básicas da população. Não lhes peço que abasteçam o mercado de vidros para substituírem os que se partiram nas casas, nas lojas e nos carros, mas ao menos que tratem da água já que a concessionária e os responsáveis do governo não conseguem fazê-lo.

Sem uma intervenção externa, rápida e eficaz, sem uma luz que ilumine estes maiorais inchados e seus capatazes, nos próximos dias tudo poderá acontecer. Os crentes e os que não o sendo souberem rezar que rezem. Pauzinhos de incenso também pode ser que ajude. Os outros que ajudem no que puderem. Este povo não tem culpa de ser tratado de forma tão canhestra. Merecia melhor.

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(Actualização: este texto foi escrito e publicado ontem. O que esta manhã (26/08/2017) se escreve no editorial do South China Morning Post e as reportagens que podem ser vistas no site do jornal só confirmam o que se escreveu) 

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Hato contínuo

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.08.17

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(Centro Cultural de Macau, NAPE)

Quando ao final da tarde de dia 22 saí do escritório e senti o vento fiquei com a noção de que viria aí borrasca. De qualquer modo, a situação não era nova. Em mais de trinta anos já tivera a experiência de passar por dezenas de tufões e este não seria o primeiro de grau 10. Não sei porquê, apesar da chuva que entretanto começara a cair, não deixei de dar a minha corrida e de fazer uma visita rápida ao ginásio.

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 (Mercado Vermelho)

Por volta das 21 horas, para os meus lados, a chuva caía abundantemente. O sinal 3 estava hasteado e era previsível que o sinal 8 lhe sucedesse ainda durante a noite. O vento dava os primeiros sinais da sua presença, silvando ameaçadoramente do outro lado da vidraça. Foi assim durante toda a madrugada sem que deixasse de estranhar o facto de não haver notícia da substituição do sinal que estava içado. Apenas a previsão de que tal poderia vir a acontecer.

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(foto do MDT

As notícias que chegavam de Hong Kong, onde há muito estava içado o sinal 8, com o cancelamento de voos e de carreiras de barco, deixava antever o pior. As cartas mostravam claramente que a rota do Hato iria passar exactamente por aqui e não havia a mínima hipótese de ele se desviar.

Às 7 horas fiquei a saber que o sinal 3 só passaria a 8 pelas 9 horas, o que levou a que muita gente, entretanto, se dirigisse para os seus empregos, visto que só com o sinal 8 há dispensa ao trabalho. Dizem-me que tal aconteceu para permitir a mudança de turno nos casinos. Estaria em causa o negócio, as receitas, portanto. Num ápice se passou do sinal 8 para o 9, e logo a seguir para o 10. Não podia ser de outro modo.

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 (Centro UNESCO, Jardim das Artes)

O vento e a chuva chegavam com cada vez mais força, por vezes mudando repentinamente de direcção. As árvores e arbustos balouçavam violentamente do outro lado dos vidros. Apesar da calafetagem, o barulho do vento e da chuva a baterem violentamente em toda aquela superfície transparente não me deixavam tranquilo. Apercebi-me então de que as primeiras telhas e coberturas de paragens de autocarro começavam a voar. Ouvi alguns vidros estilhaçarem-se, talvez nos andares superiores.

Num momento de acalmia resolvi sair de casa. Fui até à garagem para ver se estava tudo bem. A situação não era brilhante: as cancelas estavam partidas, as portas de acesso ao ginásio estilhaçadas. Na recepção do meu prédio os porteiros lutavam por manterem a porta de acesso à rua fechada. O vento era cada mais violento.

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Regresso rapidamente a casa, ainda com electricidade, e é então que a besta, o Hato, chega na sua máxima força. Enquanto consigo aceder à Internet, recebo os primeiros vídeos e notícias de alguns amigos. A coisa começava a ganhar dimensão. Em diversos locais, nos Jardins do Oceano, no centro de Macau, no NAPE, a situação estava a complicar-se. O rio transbordara. No zona do Mercado Vermelho a água chegou ao primeiro andar e tomou conta das zonas baixas. De repente, a colina diante de minha casa também começou a ficar sem árvores. Há carros a serem arrastados dos seus lugares de estacionamento, motas a voarem, camiões que parecem feitos de cartão e que se viram em segundos, carros a boiar. Um vídeo mostra um homem a tentar impedir a sua camioneta de tombar e a ser estupidamente esmagado. O barulho torna-se ensurdecedor, um estrondo, agora mais outro, há chapas onduladas pelo ar, à altura do décimo andar. Outras, assassinas, junto ao asfalto, que se levantam com o vento como se fossem uma tropa anti-motim que vai percorrendo as ruas, batendo em tudo o que encontra à sua passagem a uma velocidade impressionante.

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Apercebo-me, contudo, que a exposição de minha casa ao vento acaba por não ser a pior, visto que aquele sopra do outro lado do edifício. Há imensos ramos de árvores na varanda, folhas coladas aos vidros, e o vento sempre omnipresente uivando sem cessar. É impressionante. O fornecimento de electricidade e de água estão agora cortados. Não temos acesso à Internet, os telefones da rede fixa não funcionam, o pequeno rádio a pilhas não consegue captar a emissão da TDM. As escassas notícias que recebemos chegam-nos de Hong Kong. Por ali, a situação não parece ser tão grave. Pelas 13 horas está tudo mais calmo, as rajadas diminuem, às 15 é arreado o sinal 10, regressa o 8. A besta está a afastar-se.

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(Acesso ao silo automóvel das Portas do Cerco)

Quando a meio da tarde resolvo sair, para ver o que se passa do outro lado, o cenário é assustador. Dantesco. Vidros partidos, gigantescas gruas partidas e em terra, estabelecimentos comerciais inundados e destruídos, carros sem vidros e todos amolgados, uns a seguir aos outros, autocarros de turismo muito danificados, restos do que foram paragens de autocarro, algumas, poucas, cortinas saindo das janelas, esvoaçando, estruturas metálicas de portas de varandas e de janelas todas retorcidas, e vidros, muitos vidros partidos, por todo o lado. Vejo gente sentada no chão sem saber o que fazer à vida. Gente que viu os seus poucos haveres saírem pela janela. Gente resignada e gente pronta para reconstruir, e também gente que fazia perguntas. Muitas. Porque não içaram mais cedo o sinal 8? Como é possível os vidros partirem-se desta maneira? Porque não avisaram as pessoas do risco de cheia para elas se poderem precaver a tempo?

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(sala de jogo de um casino na zona do Porto Exterior)

As ruas estão um caos, muitas intransitáveis. O lixo é imenso. Às 22 horas, na minha zona, é restabelecido o fornecimento de energia eléctrica. Volto a ter computador e Internet. Da água é que não há sinal. As imagens que vão chegando, fotografias e vídeos, não deixam margem para dúvidas. O grau de destruição foi brutal. Os casinos fecharam portas, há salas de jogo inundadas. Nem os casinos aguentaram. O MGM Macau fechou portas por volta das 15:15. A essa hora o Sands, o Wynn Macau e o Altira já estavam encerrados. O recém inaugurado terminal marítimo da Taipa meteu água por todos os lados. O metro que ainda não foi inaugurado e está há anos em construção, de derrapagem em derrapagem, também foi afectado. Uma parte do Centro Cultural de Macau está destruída. Há enormes bóias negras de sinalização da navegação marítima que voaram da zona portuária e vieram parar a zonas residenciais, algumas jazem no meio do alcatrão. Das Portas do Entendimento desprenderam-se inúmeras placas. Há contentores a boiar e o que aconteceu nos silos de estacionamento automóvel, onde se vê a água a entrar e a correr de tal forma pelo seu interior como se fossem cascatas no Zambeze, é inexplicável. As árvores que tombaram são tantas que não vale a pena contá-las. O alcatrão levantou nalguns locais da Taipa havendo viaturas perigosamente penduradas nos buracos que se abriram. Um estaleiro voou junto ao Jóquei Clube.

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(Rua das Margoseiras, One Oasis)

As imagens de ontem repetiram-se esta manhã pelos locais por onde fui passando. Há quem esteja alojado em hotéis, que aproveitaram para especular com a desgraça alheia, tal como os táxis, verdadeiro exército de bandoleiros que apesar do recente aumento de tarifas continua a impor as suas regras sem que os poderes públicos façam respeitar a lei. Era vê-los a pararem em plena via pública, discutindo o preço e o percurso. O habitual.

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(Terminal Marítimo da Taipa)

Espera-se que não falte dinheiro para a reconstrução, nem apoio para quem perdeu quase tudo. Mas vai ser preciso explicar muita coisa.

Começa a ser claro aos olhos de quase todos que o grau de destruição que se atingiu só foi possível devido à má gestão da coisa pública. Da meteorologia às obras públicas. Porque se é verdade que os vidros das portas e janelas se partiram e que este foi um tufão de grau 10, não será menos verdade, como um amigo engenheiro também recordava há pouco, que estes vidros tinham de resistir porque também existem regras para a construção em zonas expostas. "A velocidade de rajada mínima prevista é de 234 km/hora" e "note-se que quando se fazem os cálculos à ruptura" estes valores são ainda aumentados, havendo legislação desde 1996 que se aplica às construções e prevê a ocorrência de tufões da magnitude daquele que aconteceu. E iguais exigências se colocam "relativamente ao cimbre e estruturas temporárias".

Pois sim. E quem quer saber disso quando o importante é vender um buraco com 50 metros quadrados por dez milhões de patacas (mais de um milhão de euros), mesmo que a casa meta água à primeira chuvada, os acabamentos sejam miseráveis, o isolamento térmico inexistente, o cheiro a esgoto persistente e as portas estejam empenadas?

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(Terminal Marítimo da Taipa)

Enfim, o que este triste evento do Hato colocou em destaque, para lá da incontrolável força da natureza, que a todos transforma em pequenas formigas, foi a má gestão pública. Em especial vem ao de cima a má qualidade de muitos projectos, a péssima construção que há décadas por aqui se edifica, a parca fiscalização do que se faz (dir-se-ia praticamente inexistente para poder merecer esse nome) e a forma criminosa como, com falinhas mansas e cheques de nove mil patacas, se tem desprezado o serviço à comunidade.

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(Passagem superior para o metro de superfície) 

Em todo o caso, vamos agora aguardar para ver se o grau de desresponsabilização política vai ser semelhante ao grau de magnitude da calamidade. E se no futuro se persistirá pelo mesmo caminho, iniciado no tempo da administração portuguesa, em que sempre foi mais importante a forma do que o conteúdo, em que o enriquecimento da casta dirigente, dos seus correligionários privados e dos lobbies associados devia prevalecer sobre a defesa do interesse público. A qualquer preço, como se vê pelo que aconteceu e pelas vidas que inexplicavelmente se perderam.

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(One Oasis) 

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A redução ao absurdo

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.17

Poderá fazer sentido que se dê a uma crónica um título – "Se Mandela fosse do PSD, o BE arranjaria maneira de lhe chamar racista" – de cuja leitura não restem dúvidas sobre quem são os destinatários do texto, assim se restringindo a audiência. Neste caso ao BE, seus militantes e simpatizantes, e aos próprios e indefectíveis leitores do autor do texto. Isso pode servir também de aviso para quem, eventualmente, pudesse estar interessado em alargar horizontes, analisar argumentos e reflectir com o autor sobre o tema.

Se o cronista considera que as posições críticas do BE em relação a Passos Coelho são um disparate, penso que faz muito bem em dizê-lo. Isso é saudável em qualquer democracia. Mas devia, penso eu, fazê-lo de maneira a não restringir tanto o campo dos seus potenciais leitores.

Afinal, Feliciano Barreiras Duarte, que foi secretário de Estado nos três últimos governos do PSD, e também discorreu de viva voz para o semanário Expresso sobre o que foi dito no Pontal, tendo visto "com muita preocupação" as declarações de Passos Coelho sobre as alterações à lei da emigração e chegando ao ponto de dizer que "têm sido muitas as pessoas e as instituições, sendo ou não do PSD, que depois dessas declarações me têm contactado, demonstrando nuns casos revolta e indignação e noutros casos preocupação, porque não se revêem neste tipo de proclamações e temem o efeito rastilho que podem ter negativamente para Portugal e os portugueses", ainda acrescentando que "para muitos a grande dúvida é se este tipo de proclamações é apenas típico da época pré-eleitoral autárquica ou se é o início de um caminho diferente do PSD relativamente a estas matérias", poderia ter interesse em também ler sobre esse assunto. Tal como José Eduardo Martins e muitos outros que no PSD não partilham de todas as opiniões de Passos Coelho.

O racismo é com todos nós e não me parece que alguém, mesmo no BE, no seu perfeito juízo considerasse que as infelizes declarações de Arménio Carlos, a raiarem pelo menos o preconceito e que Rui Ramos achou por bem repescar neste momento, devessem ser aplaudidas. Como também não me parece, pela mesma ordem de razões, que alguém, à esquerda ou à direita e no seu perfeito juízo, fosse retirar das igualmente infelizes declarações de Passos Coelho no Pontal, que o fulano é racista ou xenófobo.   

Pensava eu que de um professor universitário e historiador seria de esperar outro tipo de argumentação. Mas não, voltei a enganar-me. Para além da mais do que evidente confusão de conceitos, enfiando tudo no mesmo saco, como aliás é típico do discurso populista mais ranhoso, ultimamente muito em voga na Casa Branca, a argumentação usada por Rui Ramos, de tão básica e redutora, assemelha-se à que, segundo ele, é utilizada pelos que no BE criticam Passos Coelho.

Pessoalmente, desconheço que esquerda democrática é essa, e à qual Rui Ramos se refere, que adopta o método "comunista e neo-comunista" (sic) de "desqualificar os adversários". Ramos devia esclarecê-lo, dizendo a quem se refere, porque só uma esquerda estúpida e ignorante o faria. Desqualificar os adversários é próprio de gente estúpida. De outro modo, se não o fizer, estaremos perante uma outra forma de reduzir a argumentação ao primarismo daquela que foi por ele usada no seu texto.

Em todo o caso, tenho a convicção de que Mandela, por muito que virasse à direita, nunca seria deste PSD a que Ramos se refere, o que desde logo e para seu evidente desgosto retiraria ao BE a oportunidade de lhe chamar racista, e a ele a oportunidade de escrever outra crónica como a que escreveu.

Parafraseando o autor, "com o devido respeito", "resistir sem medo" à argumentação delirante e maniqueísta de um cronista, professor universitário e historiador,  "não é apenas um meio de manter a liberdade de espírito necessária para enfrentar problemas como os que derivam das migrações do Médio Oriente: é também um meio de defender a democracia". E, acrescento eu, uma forma de manter a sanidade e combater os que dividem o mundo entre os que estão com Passos Coelho e os outros.

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.17

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"El terrorismo islamista es hoy día el peor enemigo de la civilización. Está detrás de los peores crímenes de los últimos años en Europa, esos que se cometen a ciegas, sin blancos específicos, a bulto, en los que se trata de herir y matar no a personas concretas sino al mayor número de gentes anónimas, pues, para aquella obnubilada y perversa mentalidad, todos los que no son los míos – esa pequeña tribu en la que me siento seguro y solidario – son culpables y deben ser aniquilados."

 

Para quem ainda não leu, um texto imperdível de Mario Vargas Llosa, no El Pais.

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O drama

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.08.17

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 (Aqui)

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Um caso exemplar

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.08.17

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Certamente que todos se recordam de alguns "apagões" ocorridos há alguns anos em Portugal e que a nossa querida EDP veio justificar com a insana actividade das cegonhas. O caso passou, como passaram muitos outros, sem consequências de maior. Alguns bem mais recentes. Por isso mesmo, antes que se perca a oportunidade, gostaria de aqui vos dar a conhecer o que aconteceu esta semana em Taiwan e que de tão bizarro não posso deixar de vos referir.

Por razões na altura ainda desconhecidas, na passada terça-feira, 15 de Agosto, Taiwan enfrentou um apagão, por estes lados designado por blackout, que afectou quase sete milhões de habitações, edifícios de escritórios e estabelecimentos comerciais, mergulhando a ilha Formosa no caos e na escuridão. Seis geradores da maior central de gás natural, a Data Power Station, em Taoyuan, colapsaram provocando uma quebra de 4 gigawatts. Eu que nada percebo de electricidade presumo que seja muito pelo destaque que a notícia mereceu na imprensa local e internacional.

Na cidade de Taipé, os semáforos deixaram de funcionar, bem como noutras áreas da região metropolitana, e houve vários departamentos públicos que também sofreram as consequências. Em resultado disso, os bombeiros receberam centenas de chamadas telefónicas, apesar do episódio não ter afectado os aeroportos, as ligações ferroviárias de alta velocidade, nem as autoestradas. Mais tarde, ficou a saber-se que tudo se ficou a dever a erros de operação, erros técnicos e humanos, portanto, no abastecimento de gás natural à central por parte da CPC Corporation, uma espécie de Galp lá da terra. O problema ficaria resolvido quatro horas depois com o restabelecimento do fornecimento de energia e o regresso à normalidade.  

Mas ficou mesmo? Então não é que logo no dia seguinte, imagine-se, o conselho de administração da Taiwan Power Corporation, uma empresa pública (também as há em estados capitalistas e de economia de mercado), deu uma conferência de imprensa para pedir desculpas pelo sucedido?

Também a Presidente de Taiwan e o primeiro-ministro Lin Chuan vieram penintenciar-se pelo que aconteceu, e fizeram-no já depois de, ainda mais incrível, o ministro da Economia, Lee Chih Kung, que como todos devem calcular deve ser o tipo que anda pelas centrais das empresas de energia que o seu ministério tutela a controlar os fornecimentos e a supervisionar o serviço dos técnicos, a carregar nos botões quando aqueles não o fazem, apresentou a demissão. A demissão. O tipo não fez a coisa por menos.

Por inacreditável que aí por terras lusas possa parecer, a Presidente de Taiwan ainda teve o desplante de dizer à opinião pública do seu país que o incidente pura e simplesmente não devia ter acontecido, e que a quebra do fornecimento de energia não é apenas um problema que afecta a vida das pessoas, mas matéria de segurança nacional. 

Como os leitores calculam, é óbvio que nada disto se aplica ao que se passa em Portugal, onde, com excepção do caso de Entre-os-Rios e das regulares "chicotadas psicológicas" nas equipas de futebol, nada de relevante acontece. Seja no país, nos ministérios, nos partidos políticos, nos tribunais, nas autarquias locais, no sistema bancário, nas empresas públicas ou nas entidades com participação do Estado.

Em Portugal só temos ninharias. Haver bancos e empresas de referência que vão à falência, milhares de depositantes que ficam pendurados, governantes e parlamentares que mentem descaradamente para se protegerem e protegerem a sua pandilha, outros que vivem da caridade dos amigos e da que fazem aos amigos, alguns que lá sobrevivem facilitando e agilizando negócios, dando o dito por não dito, ora recebendo umas míseras ajudas de deslocação ou uns robalos, alguns desconhecendo os impostos que têm de pagar, dirigentes de bancos públicos que querem manter o estatuto que tinham nos bancos privados, um morto aqui, um morto ali, uns arbustos que ardem, umas granadas que desaparecem, uma árvore que cai, privatizações que passado pouco tempo se percebe que deviam dar prisão, enfim, nada disso justifica atitudes tão exageradas como as que tiveram lugar em Taiwan.

Também, com o Verão em grande, o mar tão azul e as autárquicas a caminho quem é que quer saber destas trapalhadas que acontecem numa democracia do outro lado do mundo? 

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Não há milagres

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.08.17

O trabalho que a edição de hoje do Público nos dá a conhecer, da autoria da jornalista Cristina Ferreira, é capaz de causar náuseas a muita gente, e não é aconselhável a pessoas sensíveis. Mas pior do que confirmar tudo aquilo de que já se suspeitava é saber que até agora, em Portugal, continua tudo em águas de bacalhau.

Um país que se deixou governar em termos tais que permitiram que acontecesse tudo o que nessa reportagem se descreve não pode queixar-se de nada. Muito menos de "qualquer um" se querer aí instalar. Estão já todos instalados, e bem instalados, há décadas, aguardando serenamente que chegue a hora das abluções. Está feito e é irreversível.

Gestão danosa? Há quem chame outros nomes menos consensuais.

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Lido

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.08.17

"O delírio é tal que basta ler duas linhas do que expelem esses ditos “comentadores” para perceber que, na maior parte das vezes, nem se deram ao trabalho de ler o que se propõem “comentar”. Para esta turba maledicente é suficiente olhar para o nome que assina a crónica (ou de quem assina um outro comentário) para dar largas à imaginação e mergulhar numa orgia de enxovalhos, capaz de enervar o escritor mais bonançoso. A crónica mais inócua sobre o tema mais inofensivo é capaz de desencadear a mais indignada das reacções destes verdadeiros cruzados da violência verbal, de modo que, o que começou como uma tentativa de promover o debate, a troca de ideias, a argumentação em torno do conhecimento nas suas diferentes formas entre quem opina e quem lê e crítica, rapidamente se transformou num antro de degradantes ataques pessoais. A tentativa mais bem-intencionada de promover discussões construtivas entre os diferentes interlocutores cai rapidamente para o chamado whataboutery, termo que só há pouco conheci, mas que define na perfeição o exercício a que muitos se dedicam: se eu escrevo um artigo sobre “árvores de fruto”, porque é que não falo de “ervas aromáticas”?, tenho alguma coisa contra as ervas aromáticas?, vê-se logo que sou xenófoba (ah, pensavam que a palavra não se aplicava, não era, vão lá ler comentários…)!"

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Política positiva

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.08.17

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"posso não perceber muito (ou nada) de política mas, sou uma mulher do povo e sei muito bem das necessidades de quem me rodeia ....por isso aceitei este convite apenas pensando em ajudar algumas famílias trazendo lhes conforto, esperança e algumas alegrias."

 

Ora, aqui está alguém que garante uma política positiva ao nível das autarquias e seriedade q.b. nas decisões que vierem a ser tomadas em Castanheira de Pêra.

Naturalmente que concorrendo a um cargo de vice-presidente, tendo já ardido quase tudo, não é necessário perceber muito (ou nada) de política.

Sim, estou de acordo, convém confessá-lo desde logo. Não é necessário perceber nada de política. Nem de nada. Aliás, não se percebe por que raio há-de um candidato a autarca, que pode vir ser chamado a substituir o presidente de uma câmara, ter necessidade de conhecer o regime jurídico das autarquias locais, saber qual a diferença entre órgãos deliberativos e executivos, distinguir atribuições de competências, ter uma ideia, ainda vaga que seja, do que são poderes delegados ou do que é uma delegação de competências, perceber para que serve o regime financeiro das autarquias locais ou ter uma noção do que sejam os princípios da legalidade e da estabilidade orçamental ou uma tutela inspectiva. 

Compreendo que Assunção Cristas tenha ficado sensibilizada depois de Ágata lhe ter perguntado "se ele também te mentia". E se havia promessas que ele não tivesse cumprido. Escusado seria, pois, perguntar, obviamente, se "essas lágrimas que choras, são iguais às que eu chorei", "se o odeias, se o adoras".

Pois não há nada como uma conversa de mulher para mulher. Depois, Assunção, não haverá mais nada a fazer se os eleitores vos fizerem o mesmo que eles vos fizeram. "Não se pode viver num clima de traição, nesta mentira cortante".

 

Última hora: "Para mim, a política é zero, não existe. Pode vir a fazer parte do meu dia-a-dia porque eu preciso de entender como funciona – depois de lá estar, é diferente. Até agora, não vivo da política."

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.08.17

Em Portugal é Verão. É tempo para alguns poderem usufruir de uns dias de férias. Os mais afortunados talvez possam fazer uma viagem, forjar novos projectos e retemperar forças para a próxima estação, abrindo novos horizontes. No entanto, há quem possa levar anos a viajar, correndo mundo, atravessando oceanos, assumindo riscos e cumprindo sonhos. Tenho admiração e respeito por quem consegue fazê-lo, largando tudo para realizar o sonho. Por isso mesmo, a minha escolha para esta semana, fugindo da manhosa política interna, dos incêndios, das guerras da paróquia e das deprimentes questões económicas, vai para o Entretanto a bordo. Desde 2015 que a Catarina, o Jorge e a miudagem nos dão a conhecer as suas aventuras, através do seu blogue e do facebook. Aproveitemos então para a durante a próxima semana viajarmos com eles, atravessando o Pacífico, correndo os mares do Sul, visitando um blogue que só por si é uma viagem e uma lição de vida.

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Uma obra de referência

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.08.17

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Já há algum tempo que gostaria de ter trazido este livro até vós. Publicado o ano passado, o seu autor é um historiador holandês que tem escrito muito, e bem, sobre a China. Em Macau chegou a vir um dia para dar a conhecer a sua obra, na Universidade de S. José, onde tive oportunidade de ouvi-lo de viva voz, mas à custa desse convite foi corrido o professor e politólogo francês que aí leccionava e que o havia convidado. De qualquer modo, pese embora esses circunstancialismos e oportunismos de conveniência tão pouco cristãos, vindos sempre de onde menos se esperaria em pleno século XXI e sobre os quais não rezará a história, o trabalho de Frank Dikötter é internacionalmente reconhecido.

Anteriormente escreveu Mao's Great Famine, que em 2011 venceu o Samuel Johnson Prize for Non-fiction, e The Tragedy of Liberation: A History of the Chinese Revolution 1945-1957. Desta vez, com The Cultural Revolution - The People's History 1962-1976, do qual desconheço se já existe tradução portuguesa, o autor debruça-se sobre um dos mais conturbados e ainda desconhecidos períodos da história recente da China.

Devo dizer que a excelência do seu trabalho reside, para lá das suas reconhecidas qualidades como investigador, no acesso que teve em primeira mão a documentos classificados do Partido Comunista Chinês, a relatórios policiais e a textos de discursos originais dos dirigentes chineses, antes das correcções. Considerado um livro magistral pelo New Statesman, mereceu páginas no The Guardian, de Julia Lovell e de Rana Mitter, mas também no New York Times, no South China Morning Post e em muitos outros jornais e revistas.

A capa que acima reproduzo é da primeira edição de 2017, da Bloomsbury, que é aquela que possuo, e recomendo vivamente este livro a todos os que se interessam por estas questões e não gostam de ficar pela rama do que lhes é impingido, em especial agora que nos aproximamos rapidamente do 19.º Congresso do Partido Comunista Chinês que, muitos nisso acreditam, irá introduzir mudanças significativas no rumo da liderança, consolidando ainda mais a posição de alguém que, como já foi escrito, tem hoje mais poder do que aquele que Mao alguma vez conseguiu.

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Mais leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.08.17

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"O espaço de relação dos partidos com a sociedade passa, necessariamente, pela filiação partidária como objeto e sujeito da política, da organização civil e do regime político, democrático ou não. Apesar da sua importância vital para o funcionamento dos sistemas políticos, a filiação partidária constitui-se um dos elos frágeis e, tendencialmente em declínio, da vida política. Esta obra partiu do objetivo genérico de identificar e avaliar a natureza da atividade de filiação partidária, à luz de um conjunto de dimensões, como sejam: a evolução da atividade partidária, em Portugal, numa perspetiva comparada; os moldes de relação dos filiados com os partidos, incluindo o seu posicionamento ideológico; a socialização partidária, tendo em conta as perspetivas de vínculo e continuidade da atividade através dos seus agentes principais, os filiados, e dos partidos como instituição e estrutura política, de entre várias linhas de análise aprofundadas. A obra resulta da aplicação de estudo internacional que envolve vários países, no âmbito do projeto MAPP (Members and Activists of Political Parties), coordenado por Emilie van Haute, da Universidade Livre de Bruxelas. Apoiando-se em dados recolhidos através de inquéritos aos filiados dos partidos políticos, esta obra apresenta o primeiro estudo sistemático sobre ativismo e militância partidária em Portugal." (da contracapa)

"Os estudos incluídos na presente obra foram apresentados pela primeira vez na conferência «Filiados e Ativismo Partidário: Portugal em Perspetiva Comparada» organizada no ISCSP/Universidade de Lisboa, a 23 de Janeiro de 2015, e têm como base empírica inquéritos conduzidos juntos dos principais partidos portugueses – com exclusão do Partido Comunista Português – a nível dos filiados ou dos delegados aos congressos partidários. Os contributos apresentados foram, sucessivamente, reformulados e harmonizados para cobrir melhor a diversidade dos temas e das dimensões analisadas. Este contributo propõe-se sistematizar um conjunto de linhas de orientação e investigação, assentes numa longa tradição de investigação internacional sobre a filiação partidária, a qual, em Portugal, tem sido, escassamente, desenvolvida (Stock 1986; Martins 2004; Espírito Santo 2006; Lisi 2011 e 2015). Concretamente, este estudo assenta nas linhas gerais do projeto internacional designado MAPP (Members and Actvivists of Political Parties), do qual resultou a construção do questionário e requisitos metodológicos que estiveram na base desta contribuição. Os objetivos específicos deste estudo centram-se num conjunto de eixos, aliados a conceitos-chave essenciais no plano da sociologia política, e que são concretamente os seguintes: identificação do perfil dos filiados dos vários partidos políticos em análise; motivações políticas dos filiados; posicionamentos políticos e ideológicos; modus operandi e estratégias de captação de novos membros assim como de mobilização dos filiados; satisfação e integração na estrutura partidária. Ou seja, esta contribuição propõe sistematizar um espaço de pesquisa com bases empíricas para futuros desenvolvimentos, também em Portugal, numa perspetiva comparada. A questão da filiação partidária é abordada neste livro, principalmente, através de três perspetivas. Nos primeiros dois capítulos analisa-se a evolução da filiação partidária e as respostas dos partidos ao declínio da militância. Sucessivamente, o livro oferece uma análise sistemática do papel dos aderentes através dos inquéritos administrados aos principais partidos portugueses. Mais em pormenor, os capítulos centrais do livro examinam a participação dos filiados, as posições sobre temas políticos, os padrões de comunicação e a avaliação do funcionamento interno dos partidos. Finalmente, a terceira parte do livro é dedicada a uma análise comparada da filiação partidária." (Marco Lisi, Introdução).

O livro desdobra-se num total de nove capítulos. Para além da participação dos próprios organizadores, inclui como autores os nomes de Júlio Fazendeiro, Bruno Ferreira da Costa, João Cancela, Ekaterina Gorbunova, Edalina Sanches, Isabella Razzuoli, Rita Figueiras, Jaime R. S. Fonseca e, ainda, das consagradíssimas Anika Gauja e Emilie Van Haute, bem como, passe a publicidade, deste humilde escriba, ao tempo estudante do doutoramento. A ortografia, com excepção dos casos em que os autores escrevem de acordo com as normas do Acordo Ortográfico de 1990, é a que resulta do financiamento público à edição.

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Leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.08.17

"The PiS left a long trail of documentary evidence of its hostility to the liberal-democratic model and its preference for paternalistic authoritarianism, probably closest to Salazar-era Portugal, perhaps: an all-pervasive state, backed by a state church, with corporatist economic and social arrangements, presided over by a “father of the nation” figure, and with the loyalty of key groups — including party functionaries, the military and security services — secured by opportunities for self-enrichment familiar from other cases of authoritarian clientelism."

Penso que vale a pena ler o artigo do Washington Post, apesar de já ter uns dias, e aceder aos links. Os comentários ficam para os sabichões do costume.

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Nomes

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.08.17

Quem nasce não tem qualquer responsabilidade na escolha dos nomes que lhe são atribuídos pelos progenitores e que depois são levados ao registo civil. Tenho visto de tudo para desgosto de muitos, forçados a carregarem pela vida fora as ingratas escolhas. Mas há alguns que pela sua combinação e circunstâncias da vida não podem deixar de nos fazer sorrir. Não deve ser fácil um tipo ser diplomata de carreira e porta-voz de um departamento governamental de Negócios Estrangeiros e ter como nome "Robespierre Bolívar". Imagino as piadas que não devem ter feito com o nome da criatura.   

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Interferências

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.08.17

"We have noted that the National Constituent Assembly election in Venezuela was held smoothly on the whole"

 

Não me digam que uma frase destas, proferida pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, não é uma interferência da R.P.C. nos assuntos internos da Venezuela.

Traduzindo isto por miúdos, a China considera que eleições que decorreram num clima de intimidação da oposição, com manipulação da comunicação social e dos votos e com violência nas ruas contra os opositores do regime chavista, constituem um processo que decorreu com normalidade.

E se assim é, então também deve considerar como normal que uma manifestação tão descarada de apoio a Maduro e ao governo venezuelano não seja vista como uma interferência nos assuntos internos da Venezuela.

Tomo boa nota do que se disse porque se amanhã outros países se pronunciarem sobre as eleições que se venham a realizar em Hong Kong ou Macau, por exemplo, dizendo, imagine-se, que os processos em geral correram mal, que houve intimidação às candidaturas não alinhadas com Beijing, que houve censura e controlo da informação, que as autoridades locais confundiram o direito à informação, o exercício da liberdade de imprensa e o direito de expressar livremente uma opinião sobre as candidaturas com mera propaganda política, para além de ameaças várias à mistura, manifestando-se preocupação pela forma como os processos venham a decorrer, isso também não será considerado como uma interferência nos assuntos internos chineses, certo?

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Farsantes

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.08.17

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O chavismo vai de vento em popa. Após a morte de Hugo Chávez, o seu sucessor, com mais ou menos malabarismos e golpadas várias, tratou de se manter no poder, mais a sua clique de biltres, arruinando o pouco que ainda funcionava na Venezuela, espalhando a miséria e a morte e instaurando o caos.

Maduro bem pode vociferar contra o imperalismo e o capitalismo, e contar com o apoio dos Jerónimos que por esse mundo fora aplaudem o caos, a violência revolucionária e a "democracia" bolivariana, enquanto aquele vai prendendo os dirigentes da oposição com modos próprios dos jagunços da PIDE ou da angolana DISA e a horas em que a polícia portuguesa não pode entrar em casa dos arguidos.

Nada disso me faz confusão, habituado como estou a ver emigrantes de países pobres a labutarem em países socialistas durante doze, catorze e mais horas por dia, todos os dias da semana, incluindo nos dias de descanso, sem direito ao pagamento de horas extraordinárias e não havendo sindicatos que lhes valham, e sem que com isso os camaradas do PCP se cheguem à frente para protestarem contra as violações dos direitos humanos ou em defesa desses desgraçados.

O que me faz confusão, isso sim, é que um revolucionário bolivariano, pretensamente ao serviço do povo do seu país, fique zangado com o facto dos Estados Unidos da América, o Grande Satã, como lhes chamava o Ayatollah Komeini, precise de ter parte dos seus bens na meca do capitalismo e da sociedade do consumo.

Em vez de encenar e berrar como um chanfrado contra o outro pobre de espírito que determinou o congelamento dos seus bens, Maduro devia ter começado por esclarecer o povo venezuelano, ele e os outros bolivarianos, como Nestor Luis Reverol Torres, ministro do Interior, da Justiça e da Paz, Carlos Alfredo Perez Ampueda, director nacional da polícia bolivariana, Sérgio José Rivero Marcano, comandante geral da Guarda Nacional Bolivariana, e Jesús Rafael Suárez Chourio, comandante-geral do exército, se têm bens imóveis ou móveis naquele país, se têm contas bancárias pessoais em US dólares e, neste caso, para que as querem, visto que os bens que foram objecto de congelamento foram os seus bens pessoais, não os bens do país.

Isso é que eu gostaria de lhes ter ouvido. Porque se não têm bens nos EUA não se deviam importar com o congelamento, por um lado, mas também porque essa seria a primeira coisa que eu faria se fosse um revolucionário bolivariano sério e honesto. E fá-lo-ia com toda a frontalidade e transparência para que o povo da Venezuela não fosse pensar que eu, revolucionário exemplar, servidor da revolução, andava a safar-me com o dinheiro do petróleo, como se fosse um vulgar Noriega, um Pinochet, um desses generais comissionistas angolanos ou um bandoleiro do narcotráfico.

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A Caixa Geral de Depósitos é o terceiro maior credor da Instituição

 

Empresa que deve 278 milhões à CGD entra em insolvência

 

Artlant: empresa a que a CGD emprestou mais de 500 milhões declarada insolvente

 

O banco público, terceiro maior acionista da empresa, detém mais de metade da dívida. A CGD corre o risco de perder 137 milhões de euros

 

É o caso da PFR Invest - Sociedade de Gestão Urbana, da Câmara Municipal de Paços de Ferreira, cuja falência foi decretada, em Fevereiro, pelo Tribunal de Amarante, e tem como principais credores a CGD e o Novo Banco

 

Este é apenas um dos dossiers que ajuda a perceber a degradação do balanço do banco do Estado, que entre 2011 e 2015 contabilizou mais de 6000 milhões de créditos perdidos

 

CMVM manda liquidar fundo “falido” gerido e financiado pela CGD

 

As sociedades veículo - criadas em 2010 para receber os activos tóxicos do BPN - têm atualmente uma dívida com garantia do Estado à Caixa Geral de Depósitos que «ascende a 4,89 mil milhões de euros», disse esta sexta-feira a secretária de Estado do Tesouro e das Finanças, no Parlamento

 

Sempre a somar em perdas. Têm sido assim os últimos anos para os contribuintes portugueses quando é a banca que aparece na parcela da conta. Se somarmos as contas provisórias dos três bancos que faliram, foram vendidos ou resolvidos, os portugueses vão assumir perdas de cerca de 8,5 mil milhões de euros

 

É isto e outras coisas do mesmo jaez que os clientes da CGD vão pagar, até porque fora de Portugal há muitos bancos, incluindo um banco detido pela própria CGD, que não cobram despesas de manutenção. Mas como alguém disse, "nos bancos as asneiras e os maus negócios pagam-se cinco anos depois".

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Entrava pelos olhos

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.07.17

"Nunca vi uma direcção capaz de organizar uma campanha política em torno de zero de fundamentos, a propósito de um tema como a morte das pessoas. 

Os partidos da oposição deviam pedir desculpa por se terem enganado e terem corrido atrás de uma especulação para a qual não havia o menor fundamento. São erros de táctica juntos a um erro de estratégia que não tem volta. O homem que teve o infeliz episódio dos suicídios devia pensar, não é duas vezes, dez vezes antes de voltar a falar em coisas deste tipo."  

 

"Dá ideia de que o número de 64 mortos não era suficiente. É uma coisa perfeitamente impensável que nos últimos dias se tenha alimentado esta discussão, que ainda por cima era assente numa especulação, (...) especulação que nos últimos dias foi sendo alimentada pelos partidos da oposição. (...) De facto, é surrealista a oposição achar que nos tempos que correm, como dia Marcelo Rebelo de Sousa, numa país que é democrático, não pode ser comparado, como muitas pessoas têm feito, com as cheias de 65 [67]. Nós não vivemos no Estado Novo, vivemos numa democracia (...). Não faz sentido nenhum pensar que o Governo tinha uma lista escondida de mortos. (...) Então quantos mortos é que o PSD precisava para levar o caso à Assembleia da República para ter o seu debate urgente? (...) É isso que o PSD e o CDS estão a discutir? Eu acho que o Governo cometeu muitos erros (...). O Governo pode ter errado, mas a oposição consegue, é uma habilidade deles, não capitalizar com os erros do Governo, embora este caso não se preste a capitalizações. E é nisto que eu acho que o PSD e o CDS cometeram um erro de morte, que é pensar que podiam ter tido vantagens partidárias de uma tragédia destas. (...) É errado do ponto de vista ético e político. (...) É o grau zero da política."  

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A ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.07.17

"Nas democracias representativas, que predominam na Europa, as liberdades cívicas e políticas são salvaguardadas pela lei. E aí existe uma clara separação entre o poder político e o poder judicial. É o que felizmente se passa em Portugal, por muitas críticas que mereça o poder político e o sistema judicial. 

Assiste-se hoje a regressões democráticas, em particular quanto a essa separação de poderes. É o que acontece na Turquia e na Venezuela, por exemplo. Mais grave, também em Estados membros da UE o poder político está a interferir no poder judicial. Acontece na Hungria, uma “democracia iliberal”, segundo o seu primeiro-ministro. E está a acontecer na Polónia, onde agora governa um partido ultraconservador.

O Senado polaco, onde esse partido detém a maioria, aprovou três leis que subordinam o poder judicial ao governo e ao Presidente da República. Uma que pretende forçar os membros do Supremo Tribunal a demitirem-se, ficando apenas os aprovados pelo Presidente da República. A segunda daria ao Parlamento o controle do Conselho Judiciário Nacional, que nomeia os juízes. E a terceira dá ao ministro da Justiça poderes para nomear os juízes dos tribunais de direito comum."

 

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Simples, simples é cobrar aos pobres e remediados

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.07.17

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Eu já tinha sido alertado para esse problema, só que estando longe por vezes tenho mais dificuldade em aperceber-me dos contornos do que vai acontecendo em Portugal.

Desta vez recebi um email dessa mais do que centenária instituição criada por "Carta de Lei de 10 de Abril de 1876, no reinado de D. Luís, sendo na altura Ministro da Fazenda Serpa Pimentel e presidente do 34º Governo Constitucional Fontes Pereira de Melo". Inicialmente criada para recebimento de depósitos obrigatórios, quatro anos depois da sua fundação viria a ser determinada – Carta de Lei de 26 de Abril de 1880 – a criação da Caixa Económica Portuguesa, administrada pela Junta do Crédito Público, por intermédio da Caixa Geral de Depósitos, cujo objectivo era "o recebimento e a administração de depósitos voluntários de pequenas quantias, com o propósito expresso de difundir, promover e incitar nas classes menos abastadas o espírito de economia".  

Os tempos mudaram e depois de múltiplas vicissitudes, a CGD acabaria por se transformar numa sociedade anónima de capitais públicos com uma natureza de banco universal e puramente concorrencial. Apesar disso, a CGD continua a referir ser sua missão "a oferta de soluções para as necessidades financeiras das famílias portuguesas ao longo dos vários momentos do seu ciclo de vida, fomentando a poupança e o investimento nacional".

Não vou perder tempo com a lengalenga que a CGD verteu para o seu site na Internet, mas gostaria de chamar a vossa atenção para o problema que me leva a escrever estas linhas e que, penso eu, afecta largas centenas de milhares, eventualmente milhões de portugueses que desde sempre contaram com a CGD para se protegerem dos BES, dos BANIF, dos BPN e dos BPP da nossa praça.

Acontece que, depois de ter servido de porto de abrigo para clientelas várias, dando emprego a múltiplos comissários políticos, e distribuindo o dinheiro que estava à sua guarda de múltiplos pequenos, médios e grandes depositantes por negócios ruinosos, sem quaisquer das garantias que pedia a um pequeno contribuinte que precisasse de uma dúzia de euros para comprar um apartamento T1 na Brandoa, a CGD vai entrar, presumo que com o aval do Presidente da República e dos responsáveis pela nomeação da actual administração, numa fase em que de banco dos portugueses pobres, reformados e remediados, das pequenas e médias empresas, dos emigrantes e dos pequenos aforradores, se vai transformar num banco para ricos num país onde os ricos têm o dinheiro noutros bancos e em bancos fora de portas, não precisando da CGD para nada.

Na sequência de uma notícia de Junho passado", a CGD anunciou que vai mudar as condições das contas bancárias para criar, diz a publicidade, uma "conta caixa à medida". Pensava eu que seria à medida dos seus clientes, isto é da maioria dos seus depositantes, e que isso seria feito tendo em atenção a sua missão de "oferecer soluções financeiras para as famílias portuguesas", "fomentando a poupança  e o investimento nacional", dando mostras de "uma actuação socialmente responsável", respeitando os "interesses confiados" e os princípios da "não discriminação, tolerância e igualdade de oportunidades". Mas não, enganei-me. As contas de depósito na CGD vão deixar de respeitar todos esses princípios que são apregoados pela instituição e que seriam de esperar da actuação de um banco público responsável e socialmente comprometido.

Com efeito, de acordo com esse referencial de sensibilidade social e respeito pelos mais desfavorecidos que é o Dr. Paulo Macedo, a partir de agora só os clientes com mais de 65 anos de idade e pensão de reforma inferior a 835,50 euros é que continuarão a não pagar pela conta à ordem. Todos os outros, que em tempos foram convidados a abrir contas na CGD para domiciliação dos seus rendimentos – salários e/ou pensões – ou com património financeiro igual ou superior a 5.000 euros, o que na perspectiva do Dr. Paulo Macedo e de quem o nomeou deve fazer deles uns "Gulbenkians", vão passar a pagar para ter o seu pouco dinheiro guardado na CGD.

Perante o que me foi esclarecido pela instituição e vem no jornal, esses ricaços, se quiserem manter uma isenção de pagamento para serem clientes da CGD, "passam a ser obrigados a ter cartões de débito e de crédito e a utilizá-los pelo menos uma vez por mês, o que implica uma despesa efectiva, tendo em conta o custo (anuidade) destes produtos, a que podem acrescer ainda juros, se passarem a utilizar o fraccionamento dos pagamentos a crédito".

Uma vez que os juros que a CGD já hoje paga são absolutamente ridículos para quem lá tem as suas poupanças, calculo que seja por esta via que esse banco onde ainda existem, ao que me dizem mas poderei estar enganado, "capitais públicos", deve pretender estimular a poupança dos portugueses, captar os depósitos dos emigrantes e cumprir a sua função social, de acordo com os referidos princípios da não-discriminação, da tolerância e da igualdade de oportunidades, dando a todos, incluindo desempregados, reformados e pensionistas a possibilidade de imaginarem que continuam a sustentar os desvarios da maltosa dos defuntos BES e BPN, bem como de todos os outros cujos administradores e accionistas se encheram convivendo alegremente com o poder político enquanto o país e os portugueses empobreciam.

Com os novos critérios da CGD, quem lá tiver rendimentos domiciliados, vencimento ou pensão ou for titular de património financeiro acima de cinco mil euros, com um cartão de débito, que é hoje algo indispensável no nosso quotidiano, terá de pagar numa "Conta S" a módica quantia de 30,00 euros por ano. Sem isso irá pagar 40 euros anuais. Se for parar a uma "Conta M" vai pagar entre 48 e 72 euros anuais, e numa "Conta L" pagará entre 84 e 108 euros por ano. Em termos sumários é isto.

Eu compreendo que seja necessário pagar os salários do Dr. Paulo Macedo e daquela catrefa de administradores, entre executivos e não-executivos, que a CGD tem, e que também importe pagar os desmandos das últimas décadas, as reformas com valores mensais de muitos milhares de euros de gente tão respeitável como o Eng.º Mira Amaral, a Dra. Celeste Cardona ou o Dr. João Salgueiro, e de outros que por lá passaram durante uma dúzia de meses; ou os empréstimos que a CGD  andou a fazer para financiar as compras de acções noutros bancos com o dinheiro dos depositantes e contribuintes, empréstimos que depois tem dificuldade em cobrar. Como também compreendo que seja necessário recuperar os quase quatro mil milhões de euros que a CGD perdeu em seis anos, mais os créditos de cobrança duvidosa dos empréstimos aos amigos e os prejuízos de 38,6 milhões decorrentes das saídas do pessoal, já sem falar nas aventuras algarvias.

Mas para além da informação que é dada para a maioria dos clientes que são abrangidos pelas novas regras ser pouco clara e confusa, também confesso que não percebo por que razão clientes como eu e outros que em nada contribuímos para os desmandos que ocorreram na CGD ao longo de décadas, com o aval do poder político, para enriquecimento da cambada que com pouco ou nenhum esforço se aproveitou da democracia para singrar, destruir a economia nacional e empobrecer o país, vamos agora ter de pagar a virtuosa gestão do Dr. Paulo Macedo e seus compinchas, e bem ou mal a dos que os antecederam, acabando todos "empacotados" em "contas-pacote".

Não sei de quem foi esta brilhante ideia de colocar uma vez mais os portugueses com poucos rendimentos e que não têm hipóteses de colocar o seu dinheiro no Luxemburgo, nas BVI ou em Hong Kong, a pagarem os desvarios de quem nos (des)governou. De qualquer modo, sem  estímulos à poupança em Portugal, com a CGD a comportar-se desta forma desonesta e esportuladora para com os portugueses que nela confiaram ao longo de várias gerações, penso que o melhor mesmo será começarmos todos à procura de alternativas numa instituição que, ainda que não pagando ou pagando juros ridículos pelo que lá colocamos, não nos cobre para guardar os nossos modestos rendimentos e poupanças.

A CGD e a sua administração, em vez de cortarem nos salários dos administradores, nas mordomias destes, no papel, nas cadernetas, na burocracia, nos elefantes que criaram, resolveram investir contra os seus clientes mais desfavorecidos.

A CGD e a sua administração não merecem a confiança dos portugueses, ainda que continuem a merecer a confiança política do Primeiro-Ministro e do Ministro das Finanças.

E como pequeno aforrador e, já agora, emigrante, tenho vergonha de que isto esteja a acontecer com essa instituição que em cada dia que passa se vai esquecendo dos únicos que lhe deviam merecer confiança e respeito. Isto é, aqueles que ao longo dos anos lhe confiaram as poupanças contribuindo para o seu engrandecimento e que nunca lhe ficaram a dever tostão ou avo. É esta a compensação – empacotados pelo Dr. Paulo Macedo e pagando pelo empacotamento – que os portugueses recebem pelo apoio dado à CGD durante décadas. Uma inqualificável vergonha.

(Nota: este texto foi editado pelo seu autor para alteração do título, visto que o anterior podia induzir algumas pessoas em erro e se afigurou excessivo face ao sentido do texto)

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Lisura

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.07.17

O que é relatado pelo Observador numa reportagem que tem o sugestivo título de "Carrinhas, listagens e cacicagem" deve dar inspiração e autoridade aos líderes do maior partido da oposição para se pronunciarem sobre a transparência dos acordos dos "geringonços".

Infelizmente, é disto que tem sido feita a democracia interna dos nossos maiores partidos. É assim que se chega ao poder.

Lá onde estão, homens da estirpe de um Francisco Sá Carneiro, de um Miguel Veiga ou de um Magalhães Mota, apesar de tudo o que aconteceu, não devem ter palavras para caracterizar a situação a que esse partido de Pedros chegou. Talvez seja hora de dizerem aos seus enviados na terra para arranjarem outro, deixando o que hoje existe com os Pedros que controlam as carrinhas e as quotas. 

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A continuar assim ainda vai a ministra (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.07.17

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(Foto Público, Nuno Ferreira Santos) 

Eu confundo os ex-primeiro-ministros do PSD, ainda por cima são todos Pedros

 

Se a deputada e candidata à Câmara Municipal de Lisboa os confunde, tendo sido eles primeiros-ministros com seis anos pelo meio, então imaginem os eleitores.

Os Pedros devem estar encantados.

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Na expectativa

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.07.17

É certo que a distância e o tempo nos dão uma outra visão das coisas. Se por um lado podemos amadurecer ideias e conhecimentos, afastando-nos da poeira dos dias, ao mesmo tempo tornamo-nos mais distantes em relação aos que nos são mais ou menos próximos. E as avaliações sobre o que as notícias nos trazem em relação ao trabalho que aqueles vão fazendo, num presente que nos é longínquo por força das circunstâncias da própria vida, são em muito balizadas pelo conhecimento anterior que se tem do trabalho que fizeram, ou que não fizeram, e do seu carácter, ou da falta dele. Este tipo de juízos não raro é injusto, sem que com isso seja menos sincero ou menos leal. As pessoas, às vezes, também mudam, e os erros corrigem-se.

Vem isto a propósito das alterações promovidas pelo primeiro-ministro no seu governo, mormente nalgumas secretarias de Estado. Não havendo insubstituíveis, e com muito trabalho pela frente, era natural que, mais dia menos dia, fosse necessário indicar alguém para os lugares que vagaram. E que isso se fizesse com brevidade, aproveitando-se a ocasião para ajustar a máquina, substituindo mais um ou outro elemento que estivesse com dificuldades na sua área ou que já tivesse dado provas de desajustamento político e/ou técnico. O objectivo de qualquer líder é ter uma equipa capaz, de confiança e que funcione de maneira a que a carta possa ser levada a Garcia em tempo útil, não ficando condicionado pelo aparelho partidário, a máquina da propaganda (todos têm uma) ou a comunicação social.

Não posso, por isso mesmo, estranhar que o primeiro-ministro tenha resolvido mexer na equipa de secretários de Estado, embora já me pareça esquisito que depois do que aconteceu na Defesa e na Administração Interna os ministros titulares dessas pastas se mantenham em funções. Se na Administração Interna, no limite da tolerância, ainda é possível admitir uma permanência em funções da senhora ministra, apesar do mais do que evidente desconforto pelo exercício do cargo, já na Defesa o caso pia diferente. O problema aqui não é apenas de desconforto. É difícil considerar um mero erro de casting um verdadeiro equívoco político que ainda por cima vem embrulhado em sobranceria.

Gostaria de recordar que os currículos académicos e profissionais não são só por si garantia de um bom desempenho político, de uma gestão equilibrada e de um contributo que acrescente alguma coisa. Isso dependerá também da vontade de cada um, da forma como se predispuserem a exercer as funções e também da sorte, que nestas coisas, como em tudo na vida, conta muito mais do que parece.

Confio assim, à distância, que as escolhas serão as melhores, que as mexidas vêm no tempo certo e irão surtir o efeito desejado, e que o primeiro-ministro está atento. Não quero com isto dizer que esteja tranquilo. Não estou, e não é apenas por causa dos números da dívida pública, cujo crescimento verificado nos últimos meses me deixa muito apreensivo.

Sucede que também desconfio de algumas mudanças, em especial quando não havia notícia de maus desempenhos e em causa estava gente séria e competente. A mim não me é indiferente a substituição de A por B desde que sejam ambos do partido, como não passo a aplaudir se o que sai não tinha cartão de militante e o que entra tem. Nunca foi o meu critério. Não é essa a minha preocupação, não é por essa contabilidade de merceeiro, tão do agrado da tralha de algumas secções e concelhias, que me guio.

Mas é claro que se há mudanças mais do que óbvias para qualquer cidadão, como seja a necessidade de substituição de quem se demitiu ou de quem mostrou não servir, há outras que precisam de ser devidamente explicadas aos cidadãos e aos militantes, que são os olhos e os ouvidos do partido, e os seus embaixadores junto do eleitorado. Tomar os outros por parvos (os eleitores não são estúpidos) não é um bom princípio em política. E, normalmente, costuma dar maus resultados, ainda que para desgraça do País a oposição esteja de rastos, não se recomende a ninguém, esteja entregue a quem já demonstrou não ter qualquer vocação, competência ou talento para sê-lo e que até para fazer um discurso em sede parlamentar tenha de recorrer ao que outros escreveram nas redes sociais. Um desastre.

Ouvir os outros continua também a ser um bom princípio, em especial se aqueles a quem se recorrer for gente que não depende do partido, nem anda à caça de uma promoção, de um estatuto ou de uma mordomia, para si ou para os familiares e amigos mais próximos. E hoje em dia, devíamos todos sabê-lo pelos maus exemplos que fomos tendo, dos mais recentes aos mais remotos e que ainda estão bem frescos, não é só a mulher de César que tem de ser e parecer séria. É César e a família toda, incluindo filhos, sobrinhos, afilhados, sem esquecer as concubinas e a criadagem. Por isso houve quem, sendo sério, por causa de uns míseros bilhetes para ir à bola, seja agora obrigado a ver pela televisão o que falta do campeonato, com claro prejuízo para todos.

Aos que saem agradeço o que fizeram por todos. Aos que entram desejo que sejam capazes de se superarem e fazerem o melhor. Nós cá estaremos para ir vendo e analisando o que por lá fizerem. Sem palas, amizades de circunstância ou fidelidades de sacristia. Já sabem que há peditórios para os quais nem a brincar podem contar comigo.

 

P.S. Aproveito para enviar daqui um abraço ao Miguel Freitas, que já apareceu carimbado como "segurista" e "homem do aparelho". Por mais carimbos que lhe coloquem, e a gente sabe de onde eles vêm, será difícil, ao contrário de outros que por lá andam há muitos anos sem fazerem nada que se veja para além de limparem o pó das cadeiras por onde vão passando com o cartão do partido, não esperar muito dele. Pela sua capacidade de trabalho, pelos seus conhecimentos na área da Secretaria de Estado que vai dirigir e pela sua seriedade. Espero que se rodeie de gente capaz, sem olhar à cor do cartão, e mostre o que vale. O País não é só Lisboa, todos esperam muito dele e o Algarve estará, com mais do que justificada razão, com atenção redobrada ao seu trabalho. Eu também.

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Leituras

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.07.17

"Mr. Trump and Mr. Macron actually hold very different views of the current nationalist, anti-immigrant leadership of Poland. They hold very different views of the fundamental meaning of European construction, which was at the heart of Mr. Macron’s campaign. They differ on the assessment of Mr. Putin’s leadership of Russia, and they hold diametrically opposed views of the fight against global warming."

Na véspera de mais um aniversário da tomada da Bastilha, este ano com motivos adicionais, vale a pena ler todo o texto de Sylvie Kauffmann no New York Times.

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Então o problema não eram os refugiados?

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.07.17

"Hungarian Jews said on Thursday Prime Minister Viktor Orban's billboard campaign against migration and foreign influence, using the image of US financier George Soros, was a proxy for antisemitism."

 

"Tensions between Israel and Hungary escalated on Saturday over anti-Semitic messages in the election campaign of Hungarian Prime Minister Viktor Orban, less than 10 days before Prime Minister Benjamin Netanyahu leaves for a diplomatic summit in Budapest.
Israel’s ambassador to Hungary, Yossi Amrani, released an unusually harsh statement calling on Orban and his party to remove posters published across the country against Hungarian-born Jewish-American billionaire George Soros. Figures in the Hungarian Jewish community said the ads are fueling anti-Semitic sentiment
." 

Desta vez as queixas contra o proto-fascista húngaro não vêm dos esquerdistas europeus, da oposição interna ou da União Europeia, que não compreende a situação da Hungria... 

 

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Medina Carreira

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.07.17

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(14/1/1931- 3/7/2017)

Advogado, militante socialista, depois independente, fiscalista, homem de Estado, professor, comentador televisivo, cronista, acima de tudo um cidadão interveniente. Com o correr dos anos tornou-se visceral, mais amargo, mas as suas preocupações eram as de sempre: Portugal e os portugueses. Lutou como pôde, sempre com lealdade e frontalidade, de forma corajosa e desassombrada por aquilo em que acreditava. Em Portugal, no mundo, fazem sempre falta homens como ele. Que o seu exemplo cívico, numa terra de gente acomodada, bem comportada e onde não abundam os exemplos possa perdurar. E que descanse em paz.  

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20 anos de incompreensão

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.07.17

870503-4653110-Chinese_President_Xi_Jinping_inspec(Créditos: AP, Hong Kong)

 

Completaram-se 20 anos sobre a transferência de soberania de Hong Kong e dos Novos Territórios do Reino Unido (R.U.) para a República Popular da China (R.P.C.). A data foi assinalada com a visita do Presidente Xi Jinping e a tomada de posse do novo executivo liderado por Carrie Lam.

No entanto, o que fica destes dias, para além do extraordinário espectáculo de fogo de artifício que iluminou as águas de Victoria Harbour e os céus de Central, Causeway Bay e Wanchai, e da exibição de força do Exército de Libertação Popular foram os discursos, as entrevistas e as manifestações.

Se é certo que a vida continua, que Hong Kong continua a ser uma cidade trepidante, belíssima e atraente, que continua a haver liberdade de imprensa, não será menos verdade que muita coisa mudou. As duas décadas que passaram foram marcadas por muitos altos e baixos, por epidemias, também por instabilidade na economia e uma relação conturbada entre as forças locais, a sua sociedade civil e Beijing.

A somar a isto, os vários casos de corrupção ao mais alto nível que têm vindo a ser julgados pelos tribunais, a inabilidade política e impreparação de que deram mostra os sucessivos chefes do executivo, o atraso na reforma eleitoral e a forma incompetente como se lidou com os sentimentos do povo de Hong Kong, ajudaram a criar a ideia de que a integração da antiga colónia britânica na R.P.C. não está a ser o sucesso que se tem vindo a apregoar.

Isso ficou mais evidente quando nos últimos dias muitos milhares foram para as ruas pedir maior autonomia, mais democracia e a libertação do Nobel da Paz, o que teve como resposta um endurecimento do discurso oficial tanto em Beijing como em Hong Kong. Na capital chinesa, Li Kang, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros veio dizer, com a habitual falta de tacto político, que a Declaração Conjunta Sino-Britânica é um "documento histórico" que "já não tem significado prático", acrescentando que o R.U. não tem qualquer poder de supervisionamento ou de fiscalização sobre o que se passa em Hong Kong depois da transferência de soberania.

É evidente que as declarações sino-britânica, sobre Hong Kong, e sino-portuguesa, sobre Macau, que conduziram, respectivamente, às transferências de soberania e de administração, são instrumentos de direito internacional, destinados a vigorar durante um período de 50 anos e que, como tal, não podem ser ignorados e objecto de tamanho agravo.

As disparatadas declarações do porta-voz do M.N.E. chinês foram depois completadas com as afirmações de Xi Jinping e Carrie Lam sobre a existência de uma "linha vermelha", apesar de tudo compreensível, que não poderá ser ultrapassada em Hong Kong, mas em que o tom deixou no ar a pairar um sentimento de ameaça sobre o futuro.

A aproximação e integração de Hong Kong na R.P.C., mas também a de Macau, têm sido feitas a um ritmo acelerado, e nos dois lados em claro prejuízo da qualidade de vida e das liberdades dos seus residentes, multiplicando-se os sinais de um crescente autoritarismo dos poderes políticos e judiciais dessas regiões, com consequências imediatas na interpretação de textos legais, na liberdade de circulação das pessoas e no exercício de direitos de manifestação. A especulação imobiliária, a carestia de vida, a má qualidade do ar e uma absoluta falta de jeito para a resolução dos problemas locais, contribuíram para o crescimento de sentimentos anti-Beijing e o aparecimento de focos de independentismo que, muitas vezes não correspondendo a genuínos sentimentos de independência, surgem como atitudes de rebeldia e desafio à autoridade do poder central e ao servilismo dos dirigentes locais perante aquele.

As respostas que foram dadas, muitas vezes despropositadas, ajudaram a um cada vez maior radicalismo do chamado movimento democrático e à alienação de uma boa parte do apoio das novas gerações, cada vez mais desconfiadas das intenções de Beijing e temendo que a antecipação do final do período de transição signifique o fim das suas aspirações de auto-governo e de mais democracia.

A demonstração de meios militares que Beijing resolveu fazer no passado fim-de-semana no quartel de Shek Kong, com uma exibição ostensiva de meios aéreos e mísseis, terá agora continuação com a anunciada visita à Região do moderníssimo avião de combate J-20 e do porta-aviões Liaoning, que participarão nos exercícios militares das celebrações do handover.

Por outro lado, a rapidez com que o Presidente chinês passou por Hong Kong, o aparato do anel de segurança, as ruas fechadas, os visitantes impedidos de entrar em Hong Kong dias antes da sua chegada (como aconteceu com um activista referenciado de Macau que pretendia ir a uma consulta médica de rotina e foi obrigado a regressar), as prisões de 26 activistas ainda antes da chegada da comitiva presidencial, levaram alguns a dizer que a visita não serviu para nada, do ponto de vista dos interesses de Hong Kong.

Pode ser que o facto do novo governo ser liderado por uma mulher traga mais bom senso, outra sensibilidade para as questões locais e uma outra forma de lidar com os assuntos que preocupam a sociedade de Hong Kong, amaciando o tom dos avisos de Beijing. Mas por agora a esperança é pouca e a desconfiança muita.

O último governador de Hong Kong, Chris Patten, recordava há dias um episódio ocorrido pouco antes de 1 de Julho de 1997, numa visita a um centro de saúde mental, quando um dos doentes aí internado se lhe dirigiu, com uma desarmante lucidez, questionando-o como era possível que a mais antiga democracia do mundo fosse entregar a antiga colónia a um dos últimos e o maior estado socialista do mundo sem consultar a população de Hong Kong.

Os últimos 20 anos não foram de molde a inspirar um aumento de confiança dos "hongkongers" no que chega de Beijing. Também a forma como a intervenção do poder central é vista não é igual entre todos os residentes, pois convém não esquecer que muitos são residentes recentes educados num outro espírito e que chegaram do outro lado da fronteira.

O outro lado onde, como ainda há pouco mais de uma semana pude comprovar quando estive em Shenzhen – a zona económica especial que faz fronteira a norte com os Novos Territórios, e que no espaço de três décadas se transformou de uma aldeia de pescadores numa metrópole moderna de mais de 11 milhões de habitantes e com mais de uma dezena de linhas de metropolitano –, a censura continua a imperar, mesmo quando em causa está a transmissão de uma emissão de rotina da CNN no moderno hotel de uma das mais prestigiadas cadeias internacionais. No intervalo dos programas que estavam a ir para o ar, sempre que surgia o anúncio da cobertura que aquela estação televisiva iria fazer das cerimónias dos 20 anos da transferência de soberania de Hong Kong e da programação especial alusiva ao evento, a emissão era cortada e só retomava no final do anúncio. Agora os anúncios também estão em causa. Já não se trata só de censurar o programa no dia em que for para o ar.

Esta preocupação com o controlo, tão típica de regimes autoritários e estados policiais, recebeu esta manhã honras de primeira página no South China Morning Post que destacou declarações de Carrie Lam. A nova chefe do executivo de Hong Kong avisou da necessidade de se fazer mais para "se ensinar os novos sobre a China", e que isso não podia ser rotulado como "lavagem ao cérebro", declarações que vêm no seguimento, aliás, do que afirmou o Presidente Xi Jinping no sentido de ser feita uma "interpretação correcta" do princípio "um país, dois sistemas" e de que o "amor pela história e cultura da China são vitais". Sobre estes dois pontos ninguém tem dúvidas.

O problema estará só em saber até que ponto a população de Hong Kong se predisporá a aceitar uma interpretação e uma visão impostas a partir de Beijing, mais limitadoras do que aquilo que lhes foi prometido e aparentemente garantido pela Declaração Sino-Britânica e a Lei Básica de Hong Kong. A ver vamos.

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A continuar assim ainda vai a ministro (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.07.17

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 (Manuel Roberto,Público)

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Ainda os eucaliptos

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.17

O meu amigo A.J.M., que não é do PS (eu tenho amigos em vários quadrantes, caso ainda não tenham dado por isso), fez um comentário off-the-record ao texto que abaixo coloquei. Com sua autorização publico-o aqui (para que possam continuar a comentar):

 

"Cuidado com as manobras de diversão: os eucaliptos ardem por serem combustíveis, como qualquer outra espécie arbórea, e há pinheiros com mais poder de ignição e devastação.

As monoculturas são péssimas por arrasarem a biodiversidade mas as diferentes espécies, eucalipto incluído, têm lugar e valor numa gestão florestal sustentável.

Quanto aos incêndios, é facto comprovável que tem ardido área de eucaliptos em menor proporção que a "floresta" afectada - em termos lógicos, de racionalidade e bom senso, isto basta para refutar a diabolização do eucalipto - quer dizer, há outras razões - e boas - para se diabolizar, não o eucalipto mas a sua exploração em monocultura desordenada. Outro facto irrefutável é que onde há combinação e profissionalização de prevenção e combate a incêndios, a floresta não arde nestas proporções desmedidas, a bem dizer quase não arde - quem investe a sério em floresta, ou seja no que for, não deixa arder, pois também investe em meios adequados à defesa do seu património.

Portanto, embora o monoeucaliptal - e o monotudo - seja de evitar, o inimigo obviamente não deve ser o eucalipto. Há já inimigos bastantes e mais poderosos: a ignorância, o abandono, a desertificação, o "logo se vê" tão portuguesinho, o desprezo político persistente e obstinado pelo conhecimento dos técnicos.

Relembro aqui o que sucedeu ao Código Florestal, um dia aprovado (DL 254/2009) pelo Governo Sócrates com autorização legislativa da AR: acto contínuo, uma bela "reapreciação parlamentar do diploma governamental", tal como já tinham feito aos Governos minoritários de Guterres, em que o Parlamento alterava o artigo 2º - âmbito - e fulminava os Decretos e a governação do País. Desta feita, a Lei 116/2009, de 23 de Dezembro "suspendeu" por 365 dias a entrada em vigor do dito Código... Lei 1/2011, de 14 de Janeiro, repete a brincadeira e prorroga por um ano o prazo de entrada em vigor do Código Florestal...

Sérgio, em particular, nota que as sucessivas reapreciações parlamentares do Código repuseram em vigor as seguintes normas:
a) A Lei n.º 27667, de 24 de Abril de 1937;
b) A Lei n.º 1971, de 15 de Junho de 1938;
c) A Lei n.º 2069, de 24 de Abril de 1954;
d) Os n.os 2 e 3 do artigo 7.º da Lei n.º 33/96, de 17 de Agosto;
e) A Lei n.º 158/99, de 14 de Setembro;
f) A secção III da Lei n.º 30/2006, de 11 de Julho;
g) O Decreto -Lei n.º 13 658, de 20 de Maio de 1927;
h) O Decreto -Lei n.º 13 658, de 23 de Maio de 1927;
i) O Decreto -Lei n.º 28 039, de 14 de Setembro de 1937;
j) O Decreto -Lei n.º 28 468, de 15 de Fevereiro de 1938;
l) O Decreto -Lei n.º 28 468, de 15 de Fevereiro de 1938;
m) O Decreto -Lei n.º 38 273, de 29 de Maio de 1951;
n) O Decreto -Lei n.º 38 630, de 2 de Fevereiro de 1952;
o) O Decreto -Lei n.º 39 931, de 24 de Novembro de 1954;
p) O Decreto -Lei n.º 41 033, de 18 de Março de 1957;
q) O Decreto -Lei n.º 43 464, de 4 de Janeiro de 1961;
r) O Decreto -Lei n.º 145/72, de 3 de Maio;
s) O Decreto -Lei n.º 129/88, de 20 de Abril;
t) O Decreto -Lei n.º 139/88, de 22 de Abril;
u) O Decreto -Lei n.º 173/88, de 17 de Maio;
v) O Decreto -Lei n.º 174/88, de 17 de Maio;
x) O Decreto -Lei n.º 175/88, de 17 de Maio;
z) O Decreto -Lei n.º 139/89, de 28 de Abril;
aa) O Decreto -Lei n.º 180/89, de 30 de Maio;
bb) O Decreto -Lei n.º 423/89, de 4 de Dezembro;
cc) O Decreto -Lei n.º 327/90, de 22 de Outubro, alterado pela Lei n.º 54/91, de 8 de Agosto, pelo Decreto-Lei n.º 34/99, de 5 de Fevereiro, e pelo Decreto-Lei n.º 55/2007, de 12 de Março;
dd) O Decreto -Lei n.º 276/97, de 8 de Outubro;
ee) O Decreto -Lei n.º 20/98, de 3 de Fevereiro, alterado
pelo Decreto -Lei n.º 253/98, de 11 de Agosto;
ff) O Decreto -Lei n.º 224/98, de 17 de Julho;
gg) O Decreto -Lei n.º 528/99, de 10 de Dezembro, alterado
pelo Decreto -Lei n.º 147/2001, de 2 de Maio;
hh) O Decreto -Lei n.º 169/2001, de 25 de Maio, alterado
pelo Decreto -Lei n.º 155/2004, de 30 de Junho;
ii) O Decreto -Lei n.º 316/2001, de 10 de Dezembro;
jj) O Decreto de 24 de Dezembro de 1901;
ll) O Decreto de 24 de Dezembro de 1903;
mm) O Decreto de 9 de Março de 1905;
nn) O Decreto de 11 de Julho de 1905;
oo) O Decreto n.º 12 625, de 9 de Novembro de 1926, alterado pelo Decreto n.º 12 793, de 30 de Novembro de 1926;
pp) O Decreto n.º 20 985, de 7 de Março de 1932;
qq) O Decreto n.º 26 408, de 9 de Março de 1936;
rr) O Decreto n.º 28 040, de 14 de Setembro de 1937;
ss) O Decreto n.º 28 517, de 11 de Março de 1938;
tt) O Decreto n.º 31 002, de 24 de Dezembro de 1940;
uu) O Decreto n.º 44 625, de 13 de Outubro de 1962;
vv) A Portaria n.º 11 070, de 22 de Agosto de 1945;
xx) O n.º 2 da Portaria n.º 23 526, de 8 de Abril de 1968;
zz) A Portaria n.º 513/89, de 6 de Julho;
aaa) A Portaria n.º 528/89, de 11 de Julho."

De uma penada, os iluminados deputados fizeram o País recuar a 1937 - o mundo mudou: a tecnologia, o clima, o sector primário (e os outros) mas o País dá-se ao luxo de amargar com o enquadramento regulatório florestal de 1937... e a culpa é só do eucalipto?

Azar..."

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Se ele disse isto...

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.17

«Há quebras e falhas de segurança muito superiores. Nem é preciso evocar os trágicos acontecimentos que têm varrido o continente»

... então o melhor é ficar tudo como está.

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A continuar assim ainda vai a ministro (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.17

Mais um candidato modelo.

 

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Ler

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.07.17

A querela é esta: os eucaliptos são ou não perigosos para a nossa floresta? Vejamos os factos. Diz o INE que Portugal tem 23% da sua área florestal entregue aos eucaliptos, ou cerca de 760 mil hectares. Só quatro países do mundo têm mais eucaliptal em termos absolutos do que Portugal: a China (mas é 104 vezes maior do que Portugal), o Brasil (92 vezes), a Austrália (83 vezes) e a Índia (36 vezes). Em termos relativos, nenhum país no mundo tem a superfície de eucaliptos de Portugal. Aos que me respondem com o argumento de “dá dinheiro”, pergunto só por que é que a Alemanha ou a Espanha não correm para este El Dorado. A resposta é que é perigoso, não é que os empresários alemães ou espanhóis sejam estúpidos. Sim, o nosso desordenamento florestal é grave, o abandono rural gravíssimo – mas é um desordenamento que promove os eucaliptos (77% do investimento na floresta em 2015 foi para eucaliptos), que são perigosamente combustíveis, sobretudo se plantados como o estão a ser. Portanto, mais vale travar a fundo e salvar a floresta deste negócio pirómano.

 

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Teias

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.06.17

"Segundo o The New York Times, por trás do Grupo HNA, ac[c]ionista da TAP por via do consórcio Atlantic Gateway – e da companhia brasileira Azul – estará Wang Qishan, dire[c]tor do órgão máximo de combate à corrupção na China. O mesmo, aliás, que alegadamente domina a Capital Airlines, segundo denúncia de Guo Wengui, bilionário chinês exilado nos Estados Unidos."

 

O extracto é deste editorial. O artigo do New York Times está aqui.

Convém que em Portugal não falte a luz. É que não se perde nada em ir lendo e acompanhando. Por causa das surpresas.

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Fico à espera das análises

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.06.17

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Não hão-de faltar as justificações, os comentários habituais para os que ficaram mal na fotografia e as promessas de mais trabalho, porque estamos a dois anos das legislativas, por parte de quem ficou bem. Embora tudo isto diga muito pouco para quem vê de muito longe, não deixa de ser interessante confrontar estes resultados com o que se tem lido e ouvido.

Cauteloso, e porque de maiorias absolutas também já estou escaldado (prefiro um bom governo de "geringonços" a maus governos de maioria), vou aguardar pelas análises do Pedro Magalhães e de todos os que às sondagens se dedicam. Para já, depois das declarações de Schäuble sobre o bom desempenho nacional, o melhor mesmo é aproveitar a onda e tratar da dívida. 

Quanto à oposição não há nada a dizer. É continuarem a berrar a plenos pulmões e não se desviarem da rota. O estampanço será certo. 

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Brexit by Steph

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.06.17

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Um magnífico cartoon de Steph na edição matutina do HojeMacau. Ou de como em dois traços se pode retratar a realidade. 

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Muito bem

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.06.17

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"A Europa é nessa matéria [refugiados] uma vergonha. Dito isto por parte de uma pessoa que faz parte de uma nação como é Portugal, que já teve emigrantes, que já teve imigrantes, andou pelos cinco continentes e todas as partes do mundo. A mim faz-me muita confusão. Eu vi, praticamente, o sistema de decisão da Europa colapsar por causa de um milhão de refugiados. Esse um milhão de refugiados de que se fala foram recebidos pela Alemanha. Do que estamos a falar é do resto. E do resto, a mim faz-me muita confusão que haja países da União Europeia que não tenham acolhido nem um refugiado. Estão muito esquecidos de há uns tempos atrás, de umas décadas atrás, em que se não fosse a solidariedade do mundo teriam ficado a sobreviver debaixo da pata do comunismo. Houve países do Leste da Europa que não receberam um refugiado. E isto envergonha-nos a todos."

Tirando uma pequena grande gafe, esteve muito bem neste aspecto. E foi bom que tivesse dito o que disse sobre os refugiados por ocasião de mais um Dez de Junho. Há valores que não são nem da direita nem da esquerda, são de todos nós. E é nisso que enquanto Portugueses devemos estar unidos.

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Theresa's fiasco

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.06.17

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Com a contagem dos votos praticamente no fim, hoje torna-se evidente o desastre que foi a campanha do Brexit e a monumental incompetência política e falta de visão estratégica de quem conduziu o Reino Unido à actual situação. Não fosse o injusto sistema eleitoral vigente e o resultado obtido pelos conservadores teria sido muito pior.

As eleições de ontem serviram, tal como se esperava, para aumentarem a confusão, confirmando o erro e a irresponsabilidade de populistas oportunistas como Boris Johnson e Nigel Farage. Se bem nos recordamos, Theresa May convocou estas eleições para reforçar a sua maioria em Westminster e se apresentar com uma legitimidade reforçada perante Bruxelas. Os resultados indicam que a sua figura será mais a de um Egas Moniz de baraço ao pescoço.  

Da abstenção não podem os Tories queixar-se porque houve nestas eleições uma maior afluência às urnas. Desde 2001 que a participação não era tão elevada, tendo atingido 68,38% (Em 2015 foram 66,1%, em 2010 a participação foi de 65,1%, em 2005 de 61,4% e em 2001 de 59,4%). Ou seja, os eleitores não foram indiferentes ao Brexit e tentaram corrigir esse desastre.

Por outro lado, apesar do sistema maioritário, Theresa May e os conservadores conseguiram a façanha de perder a maioria e arranjar um "hung parliament", ou seja, um parlamento onde vai ser necessário fazer acordos para se poder governar. Os críticos nacionais dos sistemas de representação proporcional podem agora agarrar-se à lição inglesa: à reconhecida injustiça soma-se agora a instabilidade.

À hora a que escrevo, numa altura em que faltam atribuir apenas 29 mandatos, já se sabe que os conservadores perderam votos e mandatos para os trabalhistas e os liberais. O Labour conquistou até agora 30 novos mandatos, os liberais mais 5, confirmando-se o resultado desastroso do Scotish National Party que também já perdeu 18 mandatos.

Percentualmente, os trabalhistas têm apenas menos 2% do que os conservadores, o que vem confirmar, por um lado, os resultados de sondagens que referiam o bom acolhimento das propostas mais radicais do programa eleitoral dos trabalhistas, designadamente quanto à nacionalização de alguns sectores e empresas cujas privatizações se revelaram desastrosos, e, por outro lado, a má imagem de Corbyn junto do eleitorado do partido. Corbyn não era o homem indicado, nem ofereceu aos eleitores a confiança suficiente para poder vir a executar o programa do seu partido.  

O UKIP de Paul Nuttall e desse xenófobo vendedor de ilusões e banalidades, que ainda há dias esteve nas Conferências do Estoril a fazer figura de importante, foi arrasado e ficou sem o seu único deputado. Também por aqui os eleitores podem agradecer a convocação das eleições antecipadas.

A libra já começou a vir por aí abaixo. Os conservadores saem destas eleições em estado de choque. Depois de terem cavalgado a onda trumpista, populista, anti-refugiados, anti-islâmica e anti-europeia, enfiando tudo e todos num só saco, podem agora começar por arrumar as ideias, ir tratando das mazelas e limpar a casa.

Os Tories fizeram a cama em que queriam que os eleitores se deitassem. Estes recusaram. Os Tories e o UKIP tiveram o que mereciam. A democracia voltou a vencer.

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O segredo da simplicidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.06.17

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"Ninguém é imune aos efeitos do poder, ninguém! Isso é doença da juventude que o tempo cura. Quem resiste ao canto de sereia do poder é porque não se aproximou dele o suficiente para o ouvir com clareza"

 

"O poder é mal compreendido, amigo Vieira. As pessoas acham que os homens só se vendem por um poder superlativo, o dos grandes estadistas, das celebridades, quando a maioria não resiste sequer à oportunidade de ser sádico por uns instantes. Ter alguém à nossa mercê. Consegue imaginar o que isto representa para quem nunca teve nada, pessoas incapazes de se furtarem  através da imaginação, do sonho, à sua realidade miserável? Homens que não conhecem o amor, a entrega ao outro, a cedência voluntária do domínio? "

 

Há uns meses, na sequência de um evento em que participei, tive o ensejo de poder conhecer e conversar com o autor. Na altura, por múltiplas razões que não vêm ao caso, ainda não tinha podido pôr os olhos sobre o seu último trabalho, o que me deixou relativamente constrangido nesse encontro. Dar de caras com o autor num evento literário, com ele tomar uma refeição e nada ter para comentar sobre o seu livro porque ainda não se leu, é sempre um momento de angústia para leitor que se preze.

Nas últimas semanas pude corrigir essa lacuna, depois de uma breve mas gratificante viagem pelo paraíso para onde o Bruno me conduziu. Não tenho a pretensão do majestático porque se muitos olhos leram o mesmo, poucos seguem o mesmo percurso. É como quando seguimos sentados à janela de um comboio: quem vai atrás de mim ou está sentado no banco imediatamente à minha frente dificilmente verá o que eu vejo. E fá-lo-á sempre com outros olhos. As linhas que conduzem os meus olhos podem convergir por momentos com as que chegam de outros, mas cada uma segue depois o seu caminho. E nunca se interceptam.

Com a leitura passa-se igual fenómeno. A beleza dos grandes espaços, a profundidade de uma vista desafogada, a lavagem do espírito pela leitura está na facilidade com que se alcança a distância vendo-se tudo com olhos de ver. E, no entanto, aquilo que vejo e construo é tão irrepetível quanto o tempo. Quando a leitura se perde na generosidade da escrita, fluindo página a página, entre imagens e pensamentos, por simples factos, reflectindo episódios da vida de todos os dias, personagens que de uma forma ou de outra sempre povoam a infância, ou podiam ter povoado, noutro lugar e noutro tempo, então existe um denominador comum, aquele que marcará sempre a diferença entre o bom e o menos bom, entre o que me acolhe e me conforta e aquilo que me afasta de um livro ou de um autor. Refiro-me à simplicidade, verdadeiro segredo da grandeza de um texto, da construção de um poema, da perenidade de um livro.

Nunca estive em Novo Redondo. Nunca estarei em Novo Redondo. Novo Redondo já não existe. Existe um outro lugar no tempo presente. E apesar de tudo fui a Novo Redondo. Há um lugar que foi Novo Redondo, há o Barreiro, como há o 27 de Maio em Luanda, toda aquela gente, o BMX (sempre sonhei ter uma), a família complicada, de "hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações", como há outros espaços de deambulação na escrita do autor, que de repente me recordo de ter percorrido com ele, espaços onde "o sentido vertebral do dever" se confunde com a galhofa e a amizade cimentada pelo pontapés numa bola e os momentos de recolhimento perante a imagem perturbadora de uma "labareda de alegria e vivacidade".

Até quando descia a alameda da minha faculdade e percorria iguais caminhos, sentando-me nos mesmos cafés, discutindo os filmes de sempre, entre humor e risos, enquanto saboreava a imperial. Na passagem pelos arquivos, na reconstituição do percurso processual do João Jorge, na via-sacra das secretarias judiciais, onde o papel se confunde com o pó, até ao reencontro com o ofício que a Anabela, reproduzindo umas das mais vergonhosas expressões da nossa burocracia, que se repete exaustivamente nas mais diversas circunstâncias sem que quem a utilize se dê conta da sua falta de sentido, pirosismo e incorrecção ("somos a informar"), comunica a localização do processo.

Como escreve o Bruno, quando se sabe que "[c]ada homem está pendurado num fio", quando se tem a consciência de que "o abismo pode abrir-se por baixo dele a qualquer momento" e, muitas vezes, só numa morgue é que um cidadão como o João Jorge pode, enfim, recuperar a dignidade, acaba por ser reconfortante sentir, porque de um sentimento se trata, que "a memória é um bem dos poderosos". E este torna-se o valor mais importante do livro, a sua taluda. Uma taluda ao alcance de qualquer um e que se completa com o rigor de uma escrita simples, directa, cristalina, em português "pré-acordo" e com a chancela da Quetzal.

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A reboque de um louco

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.06.17

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É evidente que não se trata da reafirmação de qualquer soberania dos EUA, nem de uma protecção dos interesses dos contribuintes e trabalhadores estado-unidenses. E como também já foi afirmado pelos principais líderes europeus, não há nada para voltar a discutir quando em causa está o futuro da Humanidade e o desertor é só "the biggest carbon polluter in history", o responsável pelo envio para a atmosfera da maior quantidade de emissões de dióxido de carbono. Ao colocar os EUA no mesmo saco em que estão a Nicarágua e a Síria, o Presidente Donald Trump não está a fazer dos EUA uma nação mais esclarecida, mais poderosa, nem de novo "grande". Quando dentro de quatro anos os trabalhadores do Midwest perceberem como foram enganados por um louco xenófobo e ignorante, os EUA terão regredido décadas e o país será reconhecido internacionalmente como um pobre povo governado por bárbaros. Em poucos meses, os EUA tornaram-se numa caricatura da grande nação sonhada pelos seus fundadores que teve a ambição de ser um exemplo para o mundo. Se alguma vez o foi, certamente que já não o é. O editorial de hoje do New York Times pode não reflectir o que toda a nação pensa sobre o assunto, mas é seguramente um repositório de preocupações e dá conta do estado de espírito de todos aqueles que não embarcaram no discurso primário de Trump.

Quem apostaria há dez anos, depois de todas as reticências iniciais, que a China estaria nesta altura do outro lado da linha, ao lado da Europa? Tão preocupada quanto os accionistas da poderosa Exxon

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Destroços

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.06.17

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Numa feliz iniciativa do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong e do nosso mais alto representante por estas terras, com os apoios da Casa de Portugal, do IPOR, da Fundação Oriente, da Super Bock e de algumas entidades oficiais da RAEM, Junho é agora o mês de Portugal em Macau. E nada melhor do que começar este ciclo com uma exposição individual daquele que é hoje um dos mais consagrados artistas nacionais, cujas obras já estão espalhadas pelas sete partidas do mundo. Aproveitando algumas obras anteriormente conhecidas e que integraram a exposição do ano passado em Hong Kong, a qual foi enriquecida com obras novas produzidas para este evento, Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, exibiu uma vez mais todo o seu talento, e da sua equipa, no Centro de Arte Contemporânea das Oficinas Navais.  

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Ouro dos tempos

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.06.17

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Com o patrocínio da MGM Grand Paradise S.A., uma das "subconcessionárias" da exploração de jogos de fortuna ou azar, em Macau, integrada no festival Le French May e como parte das celebrações do 10.º aniversário do MGM Macau, está em exibição no espaço consagrado à arte do hotel propriedade daquela sociedade uma exposição dedicada ao ouro na arte e na vida quotidiana. A exposição tem por título "A Golden Way of Life - Très'Ors" reúne cerca de 150 criações artísticas e artefactos relativos a um período que cobre os últimos 250 anos.

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É assim possível apreciar algumas extraordinárias criações, como o cálice do Abade Théodore Combalot, que esteve em exibição na Exposição Universal de Londres em 1851, e outras peças de arte sacra, incluindo cálices, paramentos debruados a ouro, uma cruz, luvas (chirotecas) e um anel episcopal. Algumas das peças vieram do Museu de Notre-Dame de Fourvière, em Lyon, uma excepcional colecção de relógios dos séculos XVIII e XIX chegou do Museu da Relojoaria de Morteau, para além de uma escultura única de Zadkine – La Jeune Fille à la Colombe –, de jóias de Boucheron, de porcelanas de Sévres, de frascos de perfume que são verdadeiras obras-primas, lado a lado com a primeira gramática sino-latina, alta sapataria e trabalhos de grandes criadores como Paco Rabanne, Schiaparelli e Cavalli.

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 A exposição tem entrada gratuita e estará patente ao público até 3 de Setembro.

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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.17

A tolerância, a verdade, o partido, o politicamente correcto, o amor ao próximo ou à pátria não devem ser um obstáculo à reflexão. A reflexão não é um incómodo. A sua falta, o silêncio e o permanente desconversar é que são uma fuga que nos torna intolerantes, ímpios e pequeninos. A reflexão sem voz é um acto colectivamente inútil.

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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Amanhã

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.05.17

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Amanhã será dia 27 de Maio. Um amanhã diferente daquele que em tempos foi cantado. Uma data triste para Angola, uma data feita de memórias dolorosas. E porque à dor ninguém escapa, envio daqui um forte e fraterno abraço ao Zé, com votos de que o lançamento seja um sucesso e o seu trabalho útil para as gerações vindouras. Angola continua a precisar de todos. E de ter memória da dor.

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Lido

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.17

"Não dá para ter sol na eira e chuva no nabal. Se se culpa Costa e a sua Geringonça pelo fraco crescimento de 2016, então dê-se os parabéns pelo crescimento de 2,8%. É um pouco absurdo culpar o governo pelo fraco crescimento do (primeiro semestre do) primeiro ano da sua governação e dizer que não tem mérito algum no crescimento que se verifica no (primeiro trimestre do) segundo ano." – Luís Aguiar-Conraria, Observador

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