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Ele que se chegue à frente

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.17

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 (foto JE, Cristina Bernardo)

Começo a ficar nauseado com as notícias que leio da novela da CGD. Estou cansado da conversa dos sms de António Domingues para Mário Centeno. Eu sei que há quem não queira que sejam divulgados, apesar de poder perceber a razão. E também que o Presidente da República tivesse ficado incomodado com a situação.

Estou por isso mesmo de acordo com a proposta do líder parlamentar do BE.

Se o Dr. António Domingues faz tanta questão em "enterrar" o ministro das Finanças, por se sentir enganado, despeitado ou injustiçado, então que se chegue à frente. E em vez de andar a verter os sms pelos amigos aos bochechos, que depois os vão mostrar ao Presidente da República, aos jornais e a todos os que com eles tomam café, e que no dia seguinte reproduzem veladamente o respectivo conteúdo sem que a gente (opinião pública, cidadãos normais) possa saber quem verdadeiramente está a falar verdade ou a mentir, o ideal é que tenha a coragem de os mostrar de uma vez por todas para se acabar com o forró e não se perder tempo com comissões e merdas quejandas tão ao gosto daquela rapaziada das "jotas" de São Bento.

O Dr. António Domingues que convoque uma conferência de imprensa e distribua uma impressão dos sms à comunicação social. Será a única maneira das comunicações ficarem acessíveis a todos de uma vez e de cada um poder tirar, sem filtros nem intermediários, as respectivas conclusões.

Não acredito que alguém na posição de António Domingues, com o seu currículo e tão elevado sentido da honra e da palavra, necessite de andar a passar a informação dos sms, às escondidas, para o Observador e o Correio da Manhã. A não ser que haja que cumprir a agenda de alguém, haja mais alguma coisa que ainda não nos tenha sido dita ou lhe falte uma outra coisa. 

De qualquer modo, seja qual for a razão, será bom que se despache. Não vale a pena continuar com esta farsa. O País tem mais que fazer do que perder tempo com novelas deste jaez. Era só o que faltava ter agora de aturar um tipo de conversa como este, vindo de onde vem, sobre os sms.

Acabem lá com isso. O Dr. Domingues que seja homenzinho e mostre ter sentido de responsabilidade. Ninguém é insubstituível.

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Mais um caso para o Poirot

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.17

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O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desconhece de que assunto se trata. Eu também. Os inspectores tributários querem ver esclarecido o destino de 10 mil milhões de euros. Eu também. O Ministério das Finanças e os partidos, através dos seus deputados no parlamento, querem saber o que se passou. Eu também.

Entretanto, "[h]á oito meses que estão a marinar no Parlamento várias propostas para combater a “criminalidade económica, financeira e fiscal”". Só há oito meses?

Longe de Portugal, perdido como já estou no meio de tantas "reformas" do Estado, da Administração Pública e de tudo e mais alguma coisa, creio que a pessoa ideal para esclarecer o que aconteceu aos milhões, e todos os outros mistérios que assolam o nosso país, é o meu velho amigo Hercule Poirot. É tipo para fazer um trabalho limpinho. Não cobra honorários, desconhece o que são horas extraordinárias ou subsídios, não é funcionário do Estado, não depende de nenhum partido, não pede emprestado aos amigos, nunca foi ao BES, não conhece ninguém na CGD, e ainda confidenciou-me que não faz tenções de se reformar. 

Para já, é uma sorte que se saiba quem são os beneficiários do subsídio de lavagem. Desta parte está o Poirot livre. Mas, pelo sim, pelo não, o melhor é que ele também investigue se todos os que recebem o subsídio tinham um carro para lavar. Ainda me lembro de em tempos haver uns figurões que recebiam um subsídio de residência, por estarem deslocados em Lisboa, tendo casa própria na capital. E houve um que até foi a correr mudar a residência para o Algarve para passar a receber o subsídio.

Em Portugal, nestas coisas das lavagens, seja dos carros ou dos milhões, sabe-se sempre quem paga e quem fica sem os milhões, tal como nos subsídios. Mas nunca se sabe muito bem quem lava o quê e a quem. Nem com que mão.

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Isto está a animar

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.02.17

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Pois é, contra factos não há argumentos, diz ele. 

Então e a dívida, que Passos Coelho, Gaspar e Maria Luís Albuquerque andaram durante quatro longos anos a fazer que encolhiam, e que António Costa está aflito para conseguir controlar, isso não interessa?

Já nem falo dos 10 mil milhões que entre 2011 e 2014, a Autoridade Tributária, na altura sujeita aos olhinhos da coligação PSD/CDS-PP, deixou sair de Portugal para paraísos fiscais, porque lá virá o tempo em que também mais essa roupa se lavará. Temo é que haja nódoas e odores que já não saiam e que também não possam ser imputadas aos antecessores.

O melhor mesmo, enquanto não sair o segundo volume da nova edição da sebenta do Prof. Cavaco, é aguardar pelas explicações do Prof. Bambo, personalidade de reconhecido mérito junto dos meios judiciais. Ele deverá ser, neste momento, o único capaz de se pronunciar sobre o que está a acontecer, e sobre o que mais irá acontecer aos portugueses, sem correr o risco de lhe serem chamados nomes feios. Por exemplo, como "burlão". 

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Agora é a minha vez

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.02.17

 

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 (foto economia online)

Afastado como estou das confusões da política à portuguesa, tenho-me limitado a acompanhar à distância o que por Portugal vai acontecendo, fazendo fé nos relatos que me vão chegando, no que me é oferecido pela RTPI e, em especial, pela imprensa. E sobre o que tenho ouvido, visto e lido bem posso dizer que não estou nada satisfeito porque os anos passam e quase tudo continua na mesma. Em particular no que diz respeito ao comportamento dos partidos e dos agentes políticos.

Mas antes disso, convém dizer que resolvi fazer uma visita até aqui para vos dizer o que penso do "affaire" CGD/Centeno. A novela já vai longa e é tempo de se colocar um ponto final na bagunçada. Chafurdar na lama normalmente não acrescenta limpeza aos intervenientes, nem claridade ao que que lá se busca.

Não haverá português que ao ouvir falar da CGD, para todos os efeitos o maior banco nacional e uma entidade que faz parte de um grupo empresarial em que o Estado tem um papel determinante, que não pense logo no que há décadas vem acontecendo com aquela casa em matéria de distribuição de lugares a correligionários políticos e empresariais, contribuição para algumas reformas chorudas e atribuição de créditos para negócios mais do que duvidosos que depois acabam sendo pagos por todos os portugueses e enrodilhados nos meandros das investigações do Ministério Público. Gente ligada ao CDS/PP, ao PSD e ao PS, pelo menos estes, que me lembre, tem passado pela CGD como se o banco fosse uma sucursal dos próprios partidos onde é necessário colocar capatazes, amigalhaços e compadres para agradecer os respectivos favores políticos e garantir financiamentos a afilhados que de um momento para o outro resolvem ser "empresários". À nossa custa.

O que recentemente aconteceu com o ministro das Finanças e António Domingues nunca deveria ter acontecido e não é pelo facto do Primeiro-Ministro se chamar António Costa ou o PS ser governo que existe atenuante para o que aconteceu. O caso é revelador de uma inépcia política inqualificável por parte do ministro das Finanças, só justificável pela sua própria inexperiência e voluntarismo. Mário Centeno quis resolver um problema, dar uma gestão mais profissional à CGD, só que fê-lo da forma mais desastrada possível de que há memória.

Dou de barato que o ministro não é um político de carreira, que a sua experiência político-partidária era igual a zero e que apenas estava preocupado com a situação do banco e a obtenção de uma solução que servisse os interesses da instituição e dos portugueses. Quanto ao escolhido, o banqueiro Domingues, como é normal quando se convida qualquer pessoa para mudar de um emprego para outro, procurou obter as melhores condições remuneratórias possíveis, mantendo o sigilo que lhe parecia conveniente e assegurando uma equipa da sua confiança. Até aqui tudo normal. O que aparentemente se tratava de uma situação corriqueira complica-se, daquilo que me foi dado perceber, quando Domingues resolve fazer exigências que à partida deveria ter tido o bom senso de nem sequer pensar nelas. Domingues saía de um pequeno banco para uma entidade de muito maior dimensão, pelo que presumo que curricularmente, mesmo para um banqueiro, não seja coisa despicienda. Quando se passa de um estaminé de bairro para um empório peninsular as responsabilidades aumentam e a projecção é outra. Isto também tem um valor. Em todo o caso, não me parece que as condições remuneratórias oferecidas pelo banco público fossem más, nem pareceu que fosse essa a razão da disputa.

Onde parece que as coisas se desalinham é quando o banqueiro pretende obter para si um regime de excepção, claramente à margem do legalmente aplicável, e o ministro, vou admiti-lo em função do que veio a público e do que referiu Lobo Xavier, resolve dar-lhe trela em vez de liminarmente cortar a direito e dizer ao senhor Domingues que tivesse juízo, directamente ou através de um dos seus secretários de Estado. Não o fez quando o devia ter feito e foi por essa razão que chegámos ao ponto onde estamos. Domingues esteve muito mal quando se lembrou de propor ao ministro a desobrigação da entrega das declarações de património como uma das condições para aceitar o desafio de liderar a gestão da CGD e convidar os restantes membros dos órgãos sociais. Domingues sabia quais eram as condições vigentes para liderar o banco público e devia ter tido a vergonha, já que do ponto vista cívico não deixa de ser uma vergonha, mais a mais vinda de quem está na sua posição, de alguém que faz parte de uma elite nacional, de não propor isso ao ministro. Como se sabe, a educação, o dinheiro e a excelência do desempenho profissional nem sempre dão bom senso e qualquer um de nós está sujeito a ter um momento menos feliz. Ele teve ali o seu.

Posto isto, o que veio a seguir já é do domínio da chicana política em que são useiros e vezeiros alguns dos nossos maiorais partidários. Aquilo que sucedeu não serve para desqualificar tecnicamente Mário Centeno, cujos resultados são incontornáveis (não obstante o crescimento da dívida, mas este é mal que quem o precedeu também não conseguiu controlar em tempos de austeridade), mereceram aplauso em Bruxelas, declarações encomiásticas dos comissários Moscovici e Carlos Moedas, pelo menos destes, e o silêncio de Wolfgang Schäuble, o tal que dizia que Portugal estava no bom caminho até entrar o actual governo e que até agora, perante o défice mais baixo da história da democracia portuguesa e os números que foram conhecidos mantém um envergonhado e comprometido recato.

O Primeiro-Ministro protegeu o seu ministro, como faria qualquer outro no seu lugar e isso não lhe pode ser censurado. Não é a mesma coisa, convenhamos, que proteger quem tem licenciaturas de favor, usou a política para se promover e enriquecer ou andar a promover vistos gold. Nem é a mesma coisa que andar de braço dado com os Duartes Limas, os Loureiros e a maltosa do BPN e da SLN para depois só andar preocupado com as mentiras de um tipo como o Sócrates, a ponto de ter necessidade de lhe dedicar uma sebenta.

O Presidente da República fez o que lhe competia. Ficou zangado. Eu também ficaria, mas como o próprio sabe, no lugar em que está, por vezes, também tem de dar alguns mergulhos e engolir alguns sapos. Nessa matéria também não é nenhuma virgem e ele sabe como se há-de proteger.

Mal, muito mal, estiveram os partidos da oposição. E sobre o que Passos Coelho, Assunção Cristas e a sua malta andaram a dizer, e a sua preocupação em divulgarem os sms trocados entre Centeno e Domingues, gostaria de dizer uma coisa. Eu, como todos os portugueses, temos todo o interesse em conhecer o conteúdo dessas comunicações. Considero-as de interesse público e penso que são relevantes por razões de transparência e higiene da nossa democracia. 

Convirá, porém, dizer que considero perfeitamente aceitável a posição do PS e dos partidos que apoiam o Governo, tendo presente o passado próximo e aquilo de que a Oposição já se esqueceu. Não foi assim há tanto tempo como isso que Passos Coelho, quando confrontado com os pagamentos da Tecnoforma e a trapalhada das suas deslocações e das despesas de representação veio dizer, também perante factos de relevante interesse público, que não estava disposto a autorizar o "striptease" das suas contas bancárias, querendo à viva força que se confiasse na palavra de quem já fora apanhado em diversas "inverdades" e mentira descaradamente aos portugueses quando andou a convencê-los para lhe darem o seu voto. Foi a própria Assunção Esteves, ao tempo presidente da Assembleia da República, quem protegeu Passos Coelho e impediu o acesso do PCP aos documentos que clarificariam a situação do então primeiro-ministro, a qual até hoje, pelo menos para mim, continua por clarificar e envolta em muitas dúvidas. É bom recordá-lo.

E também que o PSD e o CDS/PP enquanto foram poder inviabilizaram todos os inquéritos em que a sua gente esteve envolvida. O caso mais escandaloso foi aquele que dizia respeito à ex-ministra das Finanças. Agora fazem-se de virgens ofendidas, esquecendo que em Julho de 2013, a audição que tinha sido requerida com carácter de urgência pelo Bloco de Esquerda (BE) fora por eles chumbada. Em causa estava, recordo, a acusação de que Maria Luís Albuquerque faltara à verdade e eram públicas informações de que recebera informação por escrito, designadamente do Director-Geral do Tesouro e Finanças, sobre a situação das perdas potenciais dos swaps. Em 25 de Julho de 2013, o Público referiu que "os emails enviados pelo ex-director-geral do Tesouro e Finanças, Pedro Felício, à agora ministra das Finanças em Junho e Julho de 2011 já continham informação sobre swaps e indicavam uma perda potencial de 1,5 mil milhões", acrescentando-se que "a troca de emails diz respeito aos dias 29 de Junho, 18 de Julho, 26 de Julho e 1 de Agosto". Até hoje estou para ler esses emails e para saber se Maria Luís Albuquerque mentiu, como acredito que aconteceu, ou se fez o que devia.

Que agora não seja possível ter acesso aos sms e às respostas que terão sido dadas por Mário Centeno a Domingues é mau para as nossas instituições e para a nossa vida democrática. Não concluo que tudo do que foi dito e veio a público seja verdade, pelo que importa por isso mesmo lembrar que aqueles que vêm agora armar um escarcéu por causa dos sms trocados entre Centeno e Domingues – sendo certo que não é o facto de um tipo escrever a um ministro a dizer o que quer que permite retirar qualquer assentimento do destinatário quanto às exigências que fez se nada for dito nesse sentido –, são os mesmos que no passado protegeram Dias Loureiro no Conselho de Estado e Miguel Relvas no Governo, e que inviabilizaram o esclarecimento das situações envolvendo Passos Coelho e a Tecnoforma e Maria Luís Albuquerque e os swaps.

É uma chatice ter de vir falar nisto nesta altura, só que perante tudo o que se tem escrito sobre este assunto e o circo que se montou, talvez seja altura de dizer que se o PSD e o CDS/PP tivessem tido então uma atitude decente, talvez agora estivéssemos todos, a começar pela Oposição, em posição de exigir, com outra autoridade, o conhecimento público das comunicações trocadas entre Mário Centeno e António Domingues.

Para mal dos nossos pecados, não têm agora de que se queixar. É pena, mas depois do que fizeram também não merecem outra coisa.

Quanto ao futuro, presente o sucedido, o que sugiro é que os partidos se entendam em sede parlamentar e acautelem a forma como deverão amanhã proceder perante situações idênticas. Não é só no futebol, em relação aos árbitros e aos artistas da bola, que devemos ser lestos a exigir responsabilidade, respeito e fair play. Temos obrigação de também os exigir na política e aos partidos. Isto se não quisermos que as futuras gerações tenham vergonha de nós. E se tivermos vontade de nos corrigirmos, evidentemente.

De outro modo, pode ficar tudo na mesma. Como sempre. Como até aqui. Entregue à gandulagem que medra encostada aos partidos e à democracia. Ninguém estranhará. Talvez um dia.

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Antes de eu voltar

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.02.17

 

Antes de voltar às lides, e de me pôr a comentar o livro de Cavaco Silva, os emails da CGD ou as arbitragens no Dragão, convém ter uma ideia do mundo em que estamos...

Just in case.

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Paulo Varela Gomes

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.02.17

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"A culpa não se expia, nem sequer pelo crime. Só Deus perdoa."

 

Partiste cedo, mas chegas sempre a horas. Obrigado.

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O espírito de Westminster

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.02.17

 

Falar de democracia é falar do que se passa no Reino Unido e no parlamento britânico. Neste caso numa das suas câmaras, a House of Commons. Ontem foi votada a lei que permitirá à primeira-ministra Theresa May iniciar o processo negocial de saída do Reino Unido da União Europeia. Depois de suceder a David Cameron na liderança dos Tories, em Julho passado, May foi obrigada pelo Supremo Tribunal, na sequência de uma decisão que teve 8 votos favoráveis e 3 contra, a pedir autorização ao parlamento para desencadear o mecanismo legalmente previsto para o abandono. Na sequência dessa autorização, o assunto foi levado ao parlamento que ontem deu o seu acordo à lei e autorizou a primeira-ministra a accionar o processo do artigo 50.º do Tratado de Lisboa.

Theresa May não chegou ao poder em resultado de uma qualquer vitória eleitoral, mas em consequência do referendo conduzido pelo seu antecessor David Cameron, mas nem por isso tem menos legitimidade política de acordo com as regras vigentes em Westminster. Já se esperava que a lei fosse aprovada e isso veio efectivamente a ocorrer com uma votação esmagadora de 498 a favor e 114 contra. Entre estes últimos estão os 49 votos dos deputados do Scotish National Party. Dir-se-á que uma vez mais a democracia funcionou, embora possa haver quem estranhe o resultado desequilibrado da votação tendo em atenção a distribuição de deputados entre os diversos partidos. Mas sobre este ponto a explicação é simples: a democracia funcionou. Apesar de 47 deputados trabalhistas terem violado a disciplina de voto imposta pela direcção do Partido Trabalhista aos seus parlamentares, o Labour votou a favor.

Em tudo isto, apesar do que possa à primeira vista parecer, há uma coerência notável. Até mesmo por parte daqueles que votaram contra o diploma mantendo-se fiéis às suas convicções. E encontra explicação naquele que terá sido, porventura, um dos mais notáveis discursos dos últimos anos proferido naquela casa. Refiro-me ao discurso de Sir Keir Starmer, deputado do Partido Trabalhista eleito pelo círculo de Holborn and St. Pancras. Convido os leitores a ouvirem esse discurso na íntegra e as explicações que ele dá para o sentido de voto do Labour, apesar da sua oposição à saída da União Europeia, e que se resume numa única frase: "We are in the Labour Party, above all, democrats". E como democratas limitaram-se a respeitar a vontade do povo cumprindo o formalismo necessário.

Quando oiço as palavras de Starmer e recordo o que ele disse, ao olhar para o que habitualmente se passa em Portugal, na Assembleia da República, não posso deixar de registar o quanto estamos longe disto. O Reino Unido poderá sair da União Europeia, certamente irá fazê-lo, mas a Europa jamais se livrará do exemplo que vem do outro lado da Mancha, do espírito de Westminster. Democracia foi o que ali se passou ontem. Tomem nota.

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Um pesar doentio

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.01.17

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Xinhua News Agency | Sun, 2017-01-08 MACAO, Jan. 8 (Xinhua) -- Chui Sai On, chief executive of China's Macao Special Administrative Region (SAR), on Sunday expressed his deep sorrow for the passing of former Portuguese president Mario Soares and great condolences to his family.

Soares had deep relations with Macao and he would be remembered forever, Chui said, noting that Soares had visited Macao three times. (...)

 

Xi expressed deep grief over the passing of Soares and his heart-felt condolences to the relatives of the former president.

The Chinese president hailed Soares as a great statesman and an old friend of the Chinese people, who had made great contributions to the establishment of China-Portugal diplomatic relationship and its growth, as well as the settlement of the Macao issue.

China pays great attention to developing relations with Portugal, and is willing to work together with the Portuguese side to enhance cooperation in different fields, and further promote bilateral ties, Xi added. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/01/2017, 22:11:47)

 

Chinese Premier Li Keqiang on Tuesday sent a message of condolences to his Portuguese counterpart, Antonio Costa, over the death of former Portuguese President Mario Soares.

On behalf of the Chinese government and the Chinese people, Li expressed deep grief to the Portuguese side and extended sincere condolences to Soares' family.

Soares was a highly respected statesman in Portugal and made great contributions to China-Portugal friendship and cooperation, Li said. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/1/2017, 22:37:52)

 

Na sequência do falecimento de Mário Soares, homem de Estado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Primeiro-Ministro e Presidente da República portuguesa, que entre outras coisas nomeou os últimos três governadores de Macau, isto é, aqueles que prepararam e conduziram a transferência de administração de Macau para a R. P. China, José Pereira Coutinho, deputado da Assembleia Legislativa, achou por bem apresentar um voto de pesar pelo falecimento daquele português.

Tratava-se, através dessa forma singela, aliás prática normal nos parlamentos dos estados civilizados, de homenagear alguém que em vida foi importante pelas suas acções, enquanto político e homem de Estado, manifestando o reconhecimento pelo seu papel, pela amizade, a solidariedade e o acompanhamento na dor àqueles que acabaram de sofrer a perda.

À partida, nada faria prever aquilo que aconteceu. Em especial, depois do Presidente chinês, do Primeiro-Ministro da R.P.C. e do próprio Chefe do Executivo da RAEM terem transmitido as suas condolências, a sua “profunda tristeza” (“deep sorrow”) e “profunda dor” (“deep grief”) pelo falecimento de Soares, aproveitando a ocasião para sublinharem o seu papel no aprofundamento das relações com a China e com Macau, enaltecendo o seu contributo para a resolução de uma questão legada pela história, que era a questão de Macau.

Recorde-se que em todos os momentos a R.P.C. enfatizou a forma exemplar como a transição foi conduzida e a questão de Macau resolvida, pelo que seria da mais elementar justiça que a Assembleia Legislativa de Macau, pela iniciativa de Pereira Coutinho, do seu presidente ou de qualquer outro deputado, a começar pelos nomeados pelo Chefe do Executivo, tomasse a iniciativa de apresentar esse voto de pesar.

Estranhei, pois, quando ao final do dia de ontem (16/01/2017) ao ouvir as notícias me apercebi de que o voto de pesar apresentado pelo deputado Pereira Coutinho na sessão plenária da Assembleia Legislativa de Macau fora votado por apenas 20 deputados, de um universo de 33, e que daqueles que votaram só 13 o fizeram favoravelmente. Ou seja, menos de 40% dos deputados da Assembleia Legislativa de Macau votou favoravelmente o voto de pesar por Mário Soares. E, coisa nunca vista em relação a um morto que foi só o mais importante homem de Estado português do pós-25 de Abril, o único a quem Portugal concedeu, desde 25/04/1974, um funeral com honras de Estado, o voto de pesar conseguiu reunir cinco manifestações contra e fez com que faltassem à votação tantos quantos os que entenderam votar favoravelmente o pesar (13 deputados). Gostasse-se ou não do cavalheiro, Soares foi um dos que teve um papel mais decisivo para que a transição de Macau se processasse em termos susceptíveis de aplauso internacional e em termos que cimentassem a credibilidade dos Estados envolvidos no plano das relações internacionais.

Para além das inexplicáveis ausências e votos contra, houve duas abstenções. Quanto a estas verificar-se-á que vieram de deputados ligados à Associação dos Operários (Kwan Tsui Hang e Lei Cheng I). Abstiveram-se mas podiam também ter votado contra, visto que os cinco votos contra também vieram todos de sectores tradicionais ligados aos interesses comerciais, ao empresariado mais conservador, às associações de operários, aos moradores, à associação de educação e à das mulheres, e às ricas e poderosas associações de beneficência, como a do Hospital de Kiang Wu e a Tung Sin Tong.

Compreendo que para quem cresceu e singrou no obscurantismo, à sombra dos poderes tradicionais, enredado e prisioneiro de um sistema semifeudal como este que ainda hoje vigora nas margens do Rio das Pérolas, seja difícil compreender o significado das sinceras mensagens de condolências enviadas a Portugal, aos seus representantes e ao seu povo, pelo Presidente da R.P.C., pelo Primeiro-Ministro Li e pelo Chefe do Executivo da RAEM.

Mas mais aberrante e inexplicável é entender o que leva o Presidente da Assembleia Legislativa, que é membro do 12.º Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular, a abster-se e o Vice-Presidente, Lam Heong Sang, a votar contra.

Eu não quero pensar que aquela gente que votou contra e a que se absteve num voto de pesar de tão grande significado afectivo para as relações entre Portugal e Macau e entre aquele país e a R.P.C. não tenha percebido que em causa não estava a revogação da lei eleitoral ou a marcação de eleições por sufrágio directo, mas apenas uma coisa tão simples quanto um voto de pesar. Uma manifestação de dor, de sofrimento e de solidariedade para com um povo amigo.

Mas ainda mais censurável foi a atitude dos treze deputados que resolveram arranjar outra coisa para a fazer à hora da votação, entre os quais quatro deputados nomeados, mais cinco vindos do sufrágio indirecto e quatro do sufrágio directo. De alguns destes já se sabia que o seu apego a Macau, à amizade luso-chinesa, e o seu apregoado patriotismo tinham tanto de sincero quanto têm de amor às patacas, aos dólares ou a qualquer outra moeda cuja cotação esteja em alta e seja susceptível de entrar nos seus bolsos. Mas quanto a outros ficará apenas a marca da ingratidão e da hipocrisia. O morto serviu enquanto serviu os seus interesses. Enquanto lhes propiciou honrarias, negócios, obras e contratos. Agora que morreu já não serve.

Tanto quanto me apercebi não houve sequer sugestões de alteração na redacção do voto ou nos seus fundamentos, de maneira a que pudesse haver consenso na hora de votar e não fosse transmitida para o exterior a triste imagem (mais uma) que deixaram.

O voto de pesar que a Assembleia Legislativa de Macau ontem aprovou com 13 ausências, 5 votos contra e 2 abstenções ficará para sempre registado como um dos mais tristes episódios daquela casa que durante tantas décadas foi um símbolo da autonomia de Macau e da vontade das suas gentes.

Hoje, a Assembleia Legislativa de Macau não passa de uma câmara anódina de composição de interesses sectoriais, onde a vontade e os interesses do povo de Macau ficam à porta para não perturbarem os interesses das elites instaladas que vivem à conta da sua exploração e consideram que a perpetuação de sistemas iníquos de injustiça e afronta aos seus cidadãos serve os interesses da R.P.C.. Não serve. E para além de não servir opõe-se ao que é pretendido pela R.P.C. para Macau.

Na fotografia que fica não é a R. P. C. que sai mal. Porque foram eles, deputados, e não a R.P.C., que não compreenderam o sentido do voto de pesar. Foram eles quem faltou na hora da chamada, quem votou contra e quem se absteve. Foram eles que quiseram ser mais papistas do que o Papa. Podiam ter manifestado a sua discordância, esclarecido as suas razões. Uma vez mais preferiram o silêncio e a fuga. Com isso mostraram quão falsas são as suas próprias juras de fidelidade a Macau e à amizade luso-chinesa. E como não são representativos nem dos interesses da população em geral, que preza a relação com Portugal e muitos estão-lhe agradecidos, em especial a Soares, por lhes ter proporcionado a oportunidade de viverem em Macau, evitando que fossem recambiados quando não tinham documentos para aqui permanecerem, nem as comunidades residentes com raízes macaenses e portuguesas, que não poderão deixar de encarar a atitude daqueles senhores deputados como mais um sinal de ingratidão.

Não para com Mário Soares, mas para com os portugueses em geral. Para com o povo português e para com todos os que falando português aqui vivem, trabalham e contribuem para a riqueza e diversidade de Macau. Mesmo os portugueses que não votaram ou que podem ter ficado com razões de queixa do Mário Soares político não deixarão de sentir esse voto de pesar que a A.L. aprovou como um voto pastoso e de falsa dor na hora de ser transmitido. Um voto de pesar doentio e sem qualquer significado, sinal de uma maior miséria moral como a que diariamente, até nestes pequenos gestos, se abate sobre a RAEM.

(Hoje Macau, 20/01/2017)

 

Nota: Fui hoje informado de que alguns dos ausentes estariam em serviço fora da Região. Admito que desses tivesse havido mais alguns que votassem favoravelmente. Pena é que tal esclarecimento não fosse prestado anteriormente em termos oficiais, de maneira a que a comunicação social também desse conta desse facto. O que, de qualquer modo, não serve de justificação para os votos contra e as abstenções.

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E vão seis

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.01.17

"He started his career at Goldman Sachs and is the sixth person with Goldman roots to join the White House."

Para quem queria ir contra o establishment não está nada mau. Mais uns dias e temos a White House & Sachs Inc. 

 

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Perspectivas

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.01.17

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(Doug Mills, The New York Times) 

"A bill decriminalizing domestic violence passed its first reading of the Duma on Wednesday, with 368 votes in its favor (one parliamentarian voted against it, and one abstained). Should the bill pass its second reading, now under preparation, domestic violence will only be a criminal offense if it’s considered an act of “hooliganism” or borne out of hatred."

 

Com as audições de ontem em Capitol Hill, em especial com as respostas dadas a Marco Rubio por mais uma das bizarras escolhas de Donald Trump para a sua equipa governativa, Rex Tillerson, o presidente e ex-CEO da Exxon Mobil Corporation, ficou ainda mais patente a impreparação, o comprometimento e a incompetência do escolhido para o cargo de Secretário de Estado, assim como a falta de senso de quem o indicou. Até um canal como a Fox News esclareceu os seus telespectadores que Rubio "grelhou" (sic) Tillerson. De facto, Tillerson revelou-se incapaz de dar as respostas que todos os estado-unidenses esperavam ouvir, nomeadamente quanto à futura relação com os russos, e deixou no ar muitas dúvidas sobre a futura mancebia da Casa Branca com a Rússia.

Rússia onde, por seu turno, a Duma se prepara para descriminalizar a violência doméstica, dando assim mais um passo  em direcção à idade das trevas e elementos acrescidos para o estudo do "putinismo".

Se os deputados da Duma e Putin consideram normal que as mulheres russas, as suas próprias mulheres, levem uns estaladões e uns abanões entre uns tragos de vodka nos intervalos do jogos de hóquei no gelo, desde que esse comportamento não seja interpretado como um acto de holiganismo, no ar ficará a dúvida sobre o modo como interpretarão a violência que seja exercida pelos militares e ocupantes russos sobre os "estrangeiros" e as mulheres dos outros em cenários de guerra, ocupação militar ou conflito latente, como por exemplo na Síria, na Crimeia, na Chechénia ou na Geórgia.

É claro que a preocupação de Donald Trump em matéria de conflitos de interesses ou direitos humanos é igual a zero. Como é também a de Putin, comprovada ainda recentemente no aprofundamento da sua relação com as Filipinas de Duterte, onde é o próprio presidente quem estimula uma justiça tribal contra traficantes de droga, consumidores, simples suspeitos ou qualquer cidadão que se incompatibilize com o vizinho por causa das galinhas e seja por este denunciado e morto à paulada como potencial traficante.

A Rússia prepara-se, e já mostrou toda a sua disponibilidade, para vender submarinos, aviões, tanques e armas pesadas e ligeiras a Manila. Os seus almirantes são recebidos pelo Presidente Duterte, o qual lhes deu as boas-vindas e disse que ali os militares russos serão sempre bem recebidos, podendo lá ir quando quiserem e muitas vezes com os seus vasos de guerra, nem que fosse só para "se divertirem", convite enfatizado pelo Presidente das Filipinas entre gargalhadas. Afigura-se, pois, como previsível um aumento da circulação de panças e de rublos em Makati e na infame Mabini Street, onde desaguam as adolescentes filipinas que fogem da miséria no interior e vão em busca de melhores condições de vida na capital, gente que perante o convite de Duterte aos militares, depois de ter estado ao serviço da satisfação das pulsões e bebedeiras dos tropas dos EUA estacionados em Subic Bay, poderá agora passar a servir de objecto de divertimento da armada russa com o beneplácito presidencial. 

Enquanto nos EUA o presidente eleito dá uma conferência de imprensa surreal, de tal forma que o antigo campeão mundial de xadrez Gary Kasparov afirmou que o que por lá aconteceu lhe fazia lembrar as conferências de imprensa de Putin, na Europa, que acabou de perder Zygmunt Bauman, aguarda-se o resultado do Brexit e teme-se pelo que sairá das eleições que aí vêm em França, na Holanda e na Alemanha. Ou pelo que irá acontecer durante 2017 em Israel, na Síria, no Irão, na Turquia, na África subsariana e na bacia do Chade, no Congo, no Brasil, na Venezuela, na Birmânia ou na Argentina, ou, ainda, o que sucederá com aquele urso esquizofrénico da península coreana.

O que actualmente se passa em Washington e Moscovo não pode deixar de nos levar a questionarmo-nos sobre a sanidade e seriedade desta gente que se prepara para tomar conta do mundo à custa da liberdade, da democracia, do respeito e da tolerância para com o outro. E, em especial, sobre aquele que tem sido o trabalho das elites mundiais para a sua defesa, bem como da paz e dos padrões civilizacionais que pelos menos desde o pós-II Guerra se tem procurado preservar.

As perspectivas de dentro de alguns meses o mundo ser dominado por ignorantes misóginos, mais preocupados com os vídeos que possam aparecer com as suas proezas sexuais do que com a paz mundial, por mentirosos, líderes religiosos ortodoxos, corruptos, ditadores autocráticos ou simples mentecaptos são hoje bastante elevadas e colocam já o último discurso de Obama proferido em Chicago numa espécie de museu da civilização.

Não admira que com este cenário Charles M. Blow escrevesse ontem no New York Times que ao escutar o discurso de despedida tivesse sido tocado pelo violentíssimo golpe de decência e dignidade, solenidade e esplendor, sobriedade e literacia que Obama trouxe consigo para o exercício da função presidencial, o que em seu entender será de tal forma anómalo e extraordinário que cada geração só pode aspirar a ter isso uma única vez num presidente.

o que Obama fez em matéria ambiental já o guindaria a um lugar único na história dos EUA, mas saber que se vai embora e nos vai deixar a todos entregues a essa fauna que se perfila no horizonte não é coisa que nos tranquilize.

Não quero aqui assustar ninguém, mas apenas recordar que este cenário reforça a expectativa no trabalho do novo secretário-geral das Nações Unidas. Estará, pois, na hora de António Guterres, lá no seu pedestal de Nova Iorque, se quiser com a ajuda do padre Melícias e das suas orações, isso é lá com ele, nos mostrar que Deus ainda existe. E que não dorme.

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In memoriam

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.01.17

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A História não se rescreve, a liberdade não se apaga.

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Deve haver alguma

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.01.17

Refiro-me à lógica. Sim, deverá haver alguma. Mais a mais sendo hoje responsáveis pelo PSD os mesmos que ditaram a sua expulsão e não tendo sido António Capucho a solicitar-lhes o apoio. "Escravos dos estatutos", evidentemente, mas só quando lhes convém. Na hora do leilão vão-se as convicções, os princípios, os estatutos. O oportunismo, o atrevimento e a falta de vergonha são as únicas imagens que ficam.

Uns vão de geringonça, outros penduram-se na primeira que aparece para se safarem. Nada de novo, portanto.

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Por terras khmers (6)

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.16

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A minha viagem podia ter terminado esta manhã. O que me levara ao Camboja e há tantos anos me predispunha a fazer a mala e partir constituía um capítulo encerrado. Tratava-se agora de fazer a gestão dos dias. Não iria sair por Phnom Penh. Voltaria a Siem Reap. Não fazia sentido ficar ali.

20161222_173521.jpgNo tempo que me faltava fui então visitar a parte do Palácio Real que se encontra aberta ao público. O Rei Norodom Sihamoni, ex-embaixador da UNESCO, divulgador cultural junto da embaixada em Paris e instrutor de dança clássica, que frequentou a escola primária e secundária na Checoslováquia e depois estudou dança, música e teatro no Conservatório Nacional de Praga e na Academia de Arte Musical desta cidade, subiu ao trono em 2004, depois da abdicação do seu Pai, e continua a nele residir. Vale sempre a pena uma visita à sala do trono, cujo chão é em prata, metal abundante na região; um passeio pelos jardins, apreciando os frescos nas paredes e já à saída as salas com as liteiras reais (tenho dúvidas que o termo liteira seja o mais apropriado) e com a recriação das cerimónias de ascensão ao trono. O Museu Nacional é também interessante, mas quem vem de Siam Reap, esteve antes em Angkor Wat e no Museu D'Angkor, a sensação é a de que se está a passar de um Château Petrus para um honesto Cabernet chileno.  

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Ainda tive oportunidade de deambular pela cidade sem destino, subir a Wat Phnom, o ponto mais alto da cidade, conhecer a história do seu fundador, ir à Biblioteca Nacional, apreciar as belíssimas estações dos correios e fazer uma refeição na varanda do F.C.C. de que vos falei anteriormente. 

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A experiência foi desagradável. O profissionalismo e requinte do F.C.C. em Siem Reap têm muito pouco a ver com aquela espécie de tasca existente em Phnom Penh, com mesas de tampo de pedra para turistas que vão jantar de calções e chinelam pelo estabelecimento fora, em que é preciso solicitar o guardanapo, insistir que não é o de papel, mandar de volta o arroz branco para ser substituído pelas batatas fritas que haviam sido pedidas, enquanto o bife esfria, e dizer que os talheres da entrada que ajudaram a deglutir os camarões e as lulas não são os adequados para a carne. Local de encontro de viajantes e aventureiros, o F.C.C. de Siem Reap é bem mais calmo, tem outra clientela, apesar de praticar os mesmos preços (as ementas são iguais), e também outro requinte, resultando do aproveitamento da antiga mansão do governador francês. Os dois valem bem uma visita, quanto mais não seja pelo simbolismo. 

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Fui igualmente visitar a galeria de Vann Nath, o último sobrevivente da S-21, aberta ao lado de um restaurante da sua família, o Kith Heng, no n.º 169 da Rua 33-B. A história da sua vida dava para vários livros e filmes. Artista plástico, portanto um tipo que pensava pela sua cabeça e por isso persona non grata da canalha, foi um dos que foi mandado para a S-21. Aguardava pela sua hora quando se lembraram que os seus dotes podiam ser úteis ao partido. Mandado chamar obrigaram-no a fazer pinturas. Vann Nath contou depois que sabia que se o que fizesse não agradasse seria enviado para os killing fields, mas teve a sorte do responsável gostar do que ele pintou. Os seus quadros são retratos pungentes da sua história e de tudo aquilo a que assistiu. Entre outros títulos, é Chevalier da L'Ordre des Arts et des Lettres desde 2004 e em 2007 recebeu o Human Rights Award pela sua coragem enquanto artista face à perseguição política. 

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Phonm Penh ficara para trás. Regressado a Siem Reap tratei de organizar um final de férias interiormente mais calmo. A solução foi fazer um passeio em Kompong Pluk, um daqueles lugares que não existe. Trata-se de uma aldeia situada num braço do Grande Lago (Tonle Sap) e com acesso directo a este, toda construída sobre estacas, com escola primária e secundária, uma igreja, templos budistas, construções com uma altura de cerca de oito metros por causa das cheias do Mekong durante a época da chuvas. O percurso é feito a partir de um canal rodeado de pântanos e pejado de pequenas embarcações, que atravessa a aldeia até uma zona de mangal, onde a quem se deixa enganar, depois daquilo que pagou para o transporte e para a viagem de barco (40 USD), ainda lhe pedem para mudar para uma embarcação tradicional, a remos, sem quaisquer condições onde um tipo tem de ir de joelhos ou sentado numa esteira, não se podendo mexer para não desequilibrar aquela espécie de chata estreita e comprida. Há para lá um local de comes e bebes e uma espécie de maioral que fala inglês nessa plataforma onde estão pintados uns símbolos da ONU e da UNESCO, mas que suspeito serem uma aldrabice. Como eu protestasse por me quererem fazer mudar de embarcação e pagar mais qualquer coisa para a "comunidade" e tivesse dito que já tinha pagado tudo o que houvesse a pagar e que não pagava mais nada para ir até ao lago assistir ao famoso pôr-do-sol, rapidamente voltámos a embarcar na embarcação que nos trouxera, com o mesmo rapaz e seguimos o nosso caminho. 

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A calmaria, a paz, a luminosidade reflectida nas águas vastas do lago, com uma superfície de 2.500 km2 que pode multiplicar-se por dez na época das chuvas, vale bem a visita. No local há muitos pássaros e até pequenas gaiolas para criação de crocodilos, uma das poucas indústrias da região. Quem quiser também pode ir visitar as quintas, tal como na Tailândia onde se faz a sua criação, ou dar passeios de elefante. 

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No final da visita a Kompong Pluk reencontrámos o nosso motorista de Siem Reap, um homem de 53 anos precocemente envelhecido, único sobrevivente de uma família de 11 exterminada pelos Khmer Rouge. Falou-me da sua vida durante o tempo de Pol Pot, do seu recrutamento para a organização juvenil da terra e, depois do fim da guerra, da sua reconversão à indústria turística. Primeiro com um tuk-tuk, nos últimos anos com um carrinha Toyota. Mostrou ser um homem conformado com a sua sorte. Casara, tinha dois filhos a estudar na universidade que não acreditavam no que ele lhes contava sobre os tempos de Pol Pot. Explicou-me que os programas escolares omitem esse período e as novas gerações desconhecem a verdade. Sugeri-lhe que levasse os filhos à S-21, ficou de pensar no assunto e na melhor forma de os convencer. Mostrou-se agradecido pela visita que tínhamos feito porque se não fossem os estrangeiros eles não sobreviviam. Referiu conseguir fazer cerca de 100 USD por mês e que partir de meados do mês já era difícil aguentar-se. Nunca teve 1000 USD no banco e disse-me que os jovens querem partir para Singapura, Canadá, EUA. Poucos regressam. A corrupção continua a ser muito grande e descrente virou-se para mim perguntando-me como poderia se diferente se o primeiro-ministro Hun Sen era um ex-Khmer Rouge e as eleições eram chapeladas sistemáticas em que faltava a luz e as urnas contendo os votos eram trocadas durante a noite.

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Os últimos dias serviram para descontraidamente passear por Siem Reap, falar com as pessoas, senti-las e de certo modo agradecer-lhes tudo o que me deram nos dias que por lá passei. Duvido que na vida que me resta lhes consiga pagar o que recebi em afabilidade, calor humano e experiência de vida. Talvez um dia regresse para ir aos locais onde não fui; quem sabe se para passar uns dias tranquilos nas ilhas do golfo, ao largo de Sihanoukville.

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Quando há poucos dias parti em direcção ao Aeroporto Internacional de Siem Reap, para empreender a viagem de regresso, voltei a sentir a emoção. Como se ali sempre tivesse vivido e passado com aquela gente o que eles viveram. Como se fosse um deles.

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Do avião vi a cidade partir. Também ela me deixou partir mais sereno. Inconformado, é certo, seguramente mais adulto. E mais dorido vi o Mekong perder-se nos seus meandros. Lembrei-me então de uma frase de Hemingway, mas que já vi dizerem ter sido apropriada por Ursula K. Le Guin e que diz o seguinte: "It is good to have an end to journey toward; but it is the journey that matters, in the end". 

É isso mesmo. Seja de quem for a autoria da frase. Isso também não é importante. Bom Ano para todos vós.

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(P.S. Se puderem vejam isto: https://www.youtube.com/watch?v=tpaDOkI4VzQ)

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Por terras khmers (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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A noite passada, antes de me deitar, aproveitei para ler alguns jornais locais e pôr-me em dia com as notícias. Quando chego a qualquer local, um dos meus primeiros gestos é tentar obter a imprensa. Há hotéis que logo pela manhã deixam os jornais à porta dos quartos e se há coisa que goste de sentir é o seu cheiro a novo e a tintas frescas ao começar o dia. Tem sido assim desde que me conheço.

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O Khmer Times, The Cambodia Daily e o Phnom Penh Post têm edições coloridas em língua inglesa. Fico a saber que oficiais superiores das Reais Forças Armadas do Camboja* intimidaram a Tailândia a cessar os disparos junto à fronteira sobre os cambojanos que pretendem atravessá-la a salto à procura de trabalho e melhores condições de vida. A Assembleia Nacional pode vir a interrogar, a pedido da Comissão Parlamentar de Direitos Humanos, o ministro do Interior, Sar Kheng, pelo assassinato do analista político Kem Ley. O assassino de uma major das Forças Armadas, com 21 anos e estudante da Real Universidade de Phnom Penh, que inicialmente estava sujeito a uma moldura penal máxima de 15 anos, foi condenado a prisão perpétua por homicídio premeditado e o juiz-presidente do Tribunal Municipal de Phnom Penh “reverted the charge (...) and sentenced Mr. Kimmheng to life imprisionment, without explaining his decision” (The Cambodia Daily, 22/12/2016). O Partido Popular do Camboja (PPP), liderado pelo primeiro-ministro Hun Sen, reunido em congresso em Koh Pich, “outlined a program of social reforms”, num pacote de políticas que, entre outras coisas, envolve o controlo dos preços dos produtos agrícolas, a distribuição de terras ao abrigo de concessões sociais, ajudas aos pobres, desburocratização da obtenção de certidões de nascimento, de casamento e de óbito e de identificação, preços controlados na electricidade e o aumento do salário mínimo para 1 milhão de Riéis (250 USD). As eleições comunais são no próximo ano. Hun Sen foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1979/1986 e depois entre 1987/1990. É primeiro-ministro desde 1996. Foi segundo primeiro-ministro até ao golpe de 1997 e desde 1998 é primeiro-ministro. Estamos no final de 2016 e o senhor vai no quinto mandato. Por aqui fica tudo explicado sobre a oportunidade das medidas anunciadas.

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Tomado o pequeno-almoço, ao ar livre e à beira de uma piscina, fomos ter com o condutor de tuk-tuk com quem tínhamos combinado o dia. Era outro. Disse que o irmão não podia ir e lhe tinha telefonado a pedir que fosse ter connosco. Seguimos na mesma.

O dia foi reservado para ir, finalmente, ao que ficou tristemente conhecido como os “killing fields”. O seu nome oficial é Choeung Ek e foi tudo menos uma prisão normal. Está a 7,5 km de Phnom Penh, contados a partir dos limites da parte sul da capital. O percurso é todo ele um suplício que atravessa um mar de pó, percorrendo zonas comerciais à beira da estrada com ofertas de massagens de 60 minutos por 9 USD, lojas de bugigangas, de ferro velho, cantinas e hostels miseráveis. Sempre com muito lixo largado à beira da estrada, atirado para os campos e em riachos. De repente uma curva para a esquerda e continuamos por um caminho de terra batida entre hortas e esgotos onde nalguns pontos mal cabem dois carros. Por fim lá chegámos, debaixo de um imenso e longínquo céu de um azul profundo, com um sol escaldante e uma humidade elevada. Uma estufa.

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Entre 1975 e 1979 cerca de 17.000 homens, mulheres e crianças foram presos e torturados na S-21, código de uma escola na capital que se chamou Tuol Svay Prey High School. Em 1975 foi tomada pelos homens da segurança de Pol Pot e redenominada "Security Prison 21". Da S-21, prisão secreta do regime, saíam depois os camiões com os presos de olhos vendados, entre as 20 e as 21 horas, que iam até Choeung Ek, uma das 196 prisões do regime de Pol Pot. Dali, da S-21, só sete dos que lá entraram saíram com vida, escapando milagrosamente à morte, sendo libertados depois da queda dos Khmer Rouge. Também lá ficaram nove estrangeiros incluindo um navegador neo-zelandês, Kerry Hamill, e o seu amigo canadiano, Stuart Glass, que tiveram o azar de entrar em águas do Camboja quando o primeiro realizava o seu sonho de dar a volta ao mundo num veleiro.

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Choeung Ek é um local de um silêncio aterrador. Com entrada por um terreiro que está agora ladeado de casas, um estacionamento para carros, motas e tuk-tuks e tascos incaracterísticos. Ainda hoje está murado e com arame farpado. Só depois dos vietnamitas entrarem e expulsarem os khmer rouge é que foi possível saber o que aconteceu. Em 1980 foram exumados 8985 cadáveres, muitos ainda com as mãos atadas e as vendas no que foram os seus olhos. As valas comuns estão umas a seguir às outras, devidamente assinaladas.

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Tal como os nazis, os khmer rouge mantinham registos meticulosos dos seus crimes pelo que é possível saber com rigor o que aconteceu. As fotografias são imensas e hoje o fotógrafo principal, Nhem En, vive descansadamente com a família no norte do país, onde ainda sonha, de acordo com o que me foi transmitido, vir a ser governador provincial. Na S-21 foi inclusivamente criado um centro de documentação com o apoio da Universidade de Yale para investigar e documentar os crimes daquela canalha. Em 1997 esse centro deu lugar a uma organização independente que desde então tem traduzido e compilado documentos, mapeado as valas comuns e procedido à preservação dos espaços para que a memória, que não é só a deles mas também a nossa, não se perca.

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A visita é toda ela feita em silêncio. Um silêncio muito diferente daquele que vivi na beleza de Angkor Wat e que aqui é apenas cortado pelos comentários do magnífico guia-áudio que me foi entregue. Há guias-áudio em múltiplas línguas, com excepção do português, para acompanharem os visitantes ao longo das várias estações do percurso, numa espécie de Via Sacra. A locução é rigorosa, cristalina, irrepreensível. Os factos e os depoimentos são-nos atirados sem filtro. Por vezes ouve-se apenas a música que era tocada num volume altíssimo nos altifalantes de Choeung Ek na altura das execuções, para assim se abafarem os gritos das vítimas, os tiros e o ruído daquelas.

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Há bancos à sombra das árvores e arbustos, onde as pessoas são convidadas a sentarem-se para ouvirem o guia-áudio. A maioria dos que lá encontrei eram jovens, estudantes, muitos ocidentais, alguns asiáticos. E havia viajantes, como eu, que queriam saber um pouco mais do que aquilo que vem nos livros. Existe no local, logo após o início do percurso que está devidamente demarcado, um pavilhão com fotografias e múltiplas explicações onde é passado um documentário com as imagens do que se encontrou quando em 1979 se tornou possível entrar e sair dali. Porque para se perceber o que ali aconteceu e a forma como aquele inferno era gerido impõe-se a compreensão da cadeia de comando estabelecida pela liderança khmer rouge.

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No seu topo, além de Pol Pot, figuravam Nuon Chea, Ta Mok, Son Sen e Khiev Sam Pan. Como muitos saberão, Pol Pot, o líder máximo, era filho de um rico agricultor khmer, Penh Saloth, que tinha mais de 12 hectares de terra. Nascera com o nome de Saloth Sar, em Kompong Thom. Uma irmã era consorte real, o irmão Song era oficial do protocolo real, e ele foi enviado pelos pais para viver com estes e ali ser educado. Frequentou uma escola básica da elite católica e aos 23 anos recebeu uma bolsa do governo francês e foi estudar para Paris onde se juntou ao Partido Comunista Francês. Depois de reprovar em três anos consecutivos, casar-se-ia com Khieu Ponnary, a primeira mulher cambojana a obter um baccalauréat, regressando ambos ao seu país em 1956. Mentiroso compulsivo, até no dia do casamento mentiu quanto à sua idade, dizendo que tinha 21 anos em vez de 28. Nunca admitiu o seu nome verdadeiro e a sua biografia oficial, publicada em 1977, diz que era agricultor, omitindo os anos passados no Palácio Real, em Phnom Penh, e a passagem por França. Por aqui se vê a qualidade da besta. 

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O regime estava organizado em termos tais que a última ordem seria sempre dada pelo “Irmão n.º 1”. Tudo o que fosse feito tinha a sua aprovação, ainda que escasseiem as ordens escritas. Son Sen era o encarregado da Segurança Nacional e da Defesa e o sinistro Duch, que aparece no julgamento com uma camisa da Ralph Lauren, o comandante da S-21. Foram estes, depois de Pol Pot, os responsáveis pelo genocídio. Sobre isto existem provas escritas. Os documentos eram todos enviados para a sede do partido e vistos por Son Sen, havendo imensos memorandos com anotações e “confissões” dos prisioneiros, muitas vezes a tinta vermelha. Obtidas as instruções do Comité Central era produzida a lista dos que seriam executados. Residentes nas cidades, escritores, jornalistas, professores, estudantes, ninguém escapava. 

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Penso que sobre isto não vale a pena dizer mais nada. A informação é abundante e só escapou porque na fuga a canalha não teve tempo para destruir as provas. A média diária de executados era variável e podia ir de algumas dezenas a centenas. Duas a três vezes por mês lá saíam os camiões cheios de prisioneiros da S-21. Não levavam gado. Transportavam seres humanos de todas as idades. E estes não morriam com gás. Aquela gente era mais refinada. Estiletes pelo crânio, machados, bebés e crianças agarrados pelos pés e atirados contra uma árvore, homens de joelhos que depois eram agredidos com barras de ferro no pescoço até começarem a sangrar (...), tudo era possível. A seguir aos choques eléctricos na S-21, às celas minúsculas, aos vasos de barro cheios água onde lhes mergulhavam a cabeça enquanto aguardavam pelas “confissões”, às barras de ferro onde lhes enfiavam os tornozelos, seguia-se a viagem para Cheoung Ek. Os químicos que lá foram encontrados costumavam ser usados para regar as vítimas, muitas ainda vivas e em profunda agonia, desfazê-las e evitar os cheiros, por vezes inevitáveis quando os ventos sopravam mais fortes. Kong San, um ex-soldado da divisão 703, que cultivava arroz nas redondezas, testemunhou que quando sentia o cheiro pensava que era o de cachorros mortos. Terminadas as execuções procedia-se à confirmação das vítimas para se ter a certeza de que ninguém ficara vivo.

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Choeung Ek não era, nesses tempos miseráveis em que noutros locais desse mundo a Humanidade ainda vai insistindo, uma brincadeira de crianças. Também não é na actualidade um passeio turístico. Não é lugar para turistas que vão à procura de sol, bebidas exóticas e ansiosos para se atafulharem de imitações rafeiras das marcas famosas que chineses e angolanos ricos disputam na Avenida da Liberdade. Choeung Ek é uma viagem ao que de mais inaudito existe na alma humana. Uma viagem às nossas entranhas sem bilhete de volta. Mais de trinta volvidos continua a não ser um local para pessoas sensíveis. Proporcionalmente, e em termos de barbarismo, o que aqueles filhos da puta fizeram ao seu povo, a gente de carne e osso, a seres humanos como nós, suplantou em muito o que aconteceu com os nazis ou o que se sabe dos períodos mais negros do estalinismo. E tudo aconteceu tão perto de nós. Há tão pouco tempo. E quando nós, portugueses, discutíamos salários, nacionalizações, a reforma agrária, líamos a Gaiola Aberta e víamos o Último Tango em Paris. Como se este fosse outro mundo.

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Antes de me retirar fui ao stupa (pagode) que ali foi erigido para honrar a memória das vítimas. Deixei lá um ramo de flores brancas e amarelas. Alguém entregou-me uns pivetes que se juntaram a outros e que por lá ficaram a arder. Fi-lo quase maquinalmente, absolutamente horrorizado, destroçado na minha condição de homem. Com uma angústia que não sei descrever.

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O regresso ao tuk-tuk e o caminho de volta pareceram-me intermináveis. Emocionei-me protegido pelos óculos de sol. Fui olhando para a passagem sem nada ver. Sem saber o que dizer a quem estava ao meu lado, sem saber o que pensar. Uma vez mais o silêncio. Um silêncio dilacerante. Sempre o silêncio até chegar a Phnom Penh e o nosso motorista nos largar à porta da S-21. Podia tê-lo evitado. Não o fiz. Sentia que era preciso cumprir a última fase do caminho. Por respeito para com todos aqueles que por ali passaram. Por respeito para comigo. Percorri as quatro alas em silêncio. Subi e desci aquelas escadas frias, feias, despidas. Entrei nas celas, vi os instrumentos de tortura, as caixas que garantiam as descargas junto às camas dos reclusos. Vi milhares de fotografias e li os testemunhos. Até vi nas paredes o arrependimento tardio dos suecos que num momento em que regime precisou fizeram de idiotas úteis da sua propaganda para o Ocidente promovendo as virtudes que aquela canalha desprovida de princípios e de valores nunca teve. Sempre em silêncio. De que outra forma poderia ser? Daqui para a frente não escrevo mais nada. Imaginem uma página em branco onde está lá tudo. Tudo o que não consigam imaginar, mas que vos deixe nauseados, moribundos. Não há palavras que o descrevam. Poupo-vos ao relato de tudo o que encontrei na S-21. A minha parceira não aguentou mais. Preferiu descansar de tanta violência e aguardar-me no jardim, enquanto lia e escrevia uns postais. Para ela já não havia mais nada para ver. Tinha visto tudo. Eu nunca vira nada assim e ainda não estou certo de ter visto o que vi. 

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Quando no final desse dia cheguei ao meu hotel e me despedi do nosso prestável motorista sentia-me sem forças. Como se tivesse levado uma sova de proporções épicas. Transpirado, nojento, senti-me imundo. Dei umas braçadas na piscina do hotel, tomei um duche como que desejando desinfectar-me, purificar-me, perdoar-me pelo que não fiz. Absolutamente destroçado pelo que vi, esmagado pelo asco, pela dimensão do sofrimento daquela gente. Senti vergonha e nojo da minha espécie. Não sei como algum dia sairei daqui. Sei que após esse dia 22 de Dezembro não sou o mesmo. E também não sei que sentido se há-de atribuir ao Natal depois da viagem que fiz. Pode ser que um dia alguém me explique. Presentes? Caixas de Multibanco exauridas? Presépios? Reis Magos? Sacos a abarrotar de compras? Pinheiros enfeitados com luzinhas coloridas a piscar? As crianças merecem-nos. Têm direito ao sonho. Mas nós? Nós, nós ainda estamos tão longe do Natal... 

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Ninguém volta a ser o mesmo depois de passar por ali. De ouvir e de ver aqueles registos. Não há olhos que cheguem para tanta escuridão. Não há lágrimas que nos sustentem. Não há nada que fique de pé. Não há nada que resista. Nada.

Nunca mais vai ser Natal. Tenho a certeza. Espero um dia ser perdoado. Por quem é que eu já não sei.

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[* - Antigamente escrevia-se Cambodja. Foi assim que aprendi. Os brasileiros ainda o fazem. Há especialistas que dizem que se pode grafar das duas maneiras. Contudo, de acordo com o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa e o meu velho prontuário aparece sem o "d", pelo que daqui para a frente assim será.]

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Por terras khmers (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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Se viajar é também uma arte e um prazer, há algumas regras que devem ser seguidas para se extrair o máximo da jornada. Paul Theroux, um reconhecido escritor de viagens, escreveu um dia que há três regras básicas para o viajante – aquele que não sabe para onde vai, ao contrário do turista que não sabe onde esteve – e que se resumem a viajar por terra sempre que possível, de preferência sozinho e tomando notas. Como não gosto de voar e só o faço por obrigação sabia que não iria de avião para Phnom Penh. Contudo, estava indeciso sobre a melhor forma de seguir caminho, se de barco, descendo o Mekong até à capital, se fazê-lo por estrada.

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Descer o rio teria sempre o aliciante de poder tirar boas fotografias, mas revelava-se uma opção pouco gratificante porque me iria afastar das pessoas, da estrada, do contacto com a terra e com os campos ao longo do caminho. As referências sobre as embarcações que fazem esse percurso não eram as melhores, nem em termos de salubridade nem de segurança. Por estrada, as alternativas eram várias mas acabámos por fazer essa parte da viagem num dos autocarros da Giant Ibis, uma excelente companhia, com um registo impecável em termos de segurança, um site na Internet e que que providencia o transporte dos seus passageiros dos hotéis para os terminais. Os veículos da Hyundai que utiliza são relativamente novos. Tem um serviço de bordo melhor do que algumas companhias aéreas a que tenho recorrido, bons motoristas, pessoal atencioso e, inclusivamente, distribui logo pela manhã uns magníficos brioches e os nossos conhecidos caracóis com passas, acompanhados de uma garrafa de água. Os autocarros têm wi-fi, ar-condicionado, são limpos e cómodos. Por 15 USD iria fazer o percurso de 340 km entre as duas cidades, sabendo que iria ter três paragens pelo caminho, uma delas para o almoço. 

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A escolha foi acertada. Vi uma paisagem diferente daquela que conhecera na região de Siem Reap e Angkor Wat e pude ir apreciando as estradas, o casario, as dezenas e dezenas de escolas, vendo o movimento das pessoas e veículos, os pais à espera dos mais novos, os mais velhos seguindo a pé ou de bicicleta, alguns de mota. A estrada nacional está em muito bom estado e o percurso, que acaba por durar cerca de 6 horas e 30 minutos, faz-se bastante bem.

20161221_173137.jpgAo longo do caminho também aproveitei para ler mais alguma coisa, dando particular atenção ao livro de Ben Kiernan ("The Pol Pot Regime – Race, Power, and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge, 1975-1979"), de leitura obrigatória para quem quer saber alguma coisa sobre o que ali se passou quando em Portugal se defendia a democracia e a liberdade na Alameda. Ao mesmo tempo ia observando as pessoas, recordando trechos do filme de Joffé e pensando na cidade que iria encontrar.

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O corrupio de pessoas, motociclos, tuk-tuks, carros, bicicletas e autocarros de turismo carregados de chineses e coreanos aumentava à medida que nos aproximávamos de Phnom Penh. A confusão nas ruas à beira dos cruzamentos era grande e rapidamente compreendi que a cidade ocupava uma área bastante extensa e tinha uma população muito substancial. Mais tarde esclareceram-me que deve andar pelos dois milhões de almas. 

thumb_P1080020_1024.jpgAo chegar a Phnom Penh dirigi-me de imediato ao meu hotel, situado mesmo junto ao Palácio Real e ao Museu Nacional, próximo do Boulevard do Príncipe Sihanouk (Preah Sihanouk Blv.) e na zona onde até 1975 ficava a Embaixada dos EUA. Foi só o tempo de largar a bagagem, refrescar-me e começar a palmilhar a cidade. 

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Visitar o Palácio ou o Museu nesse dia estava fora de questão, visto que fecham cedo (17 horas), pelo que agendei essas visitas para mais tarde e tirei partido da localização do hotel para conhecer as ruas adjacentes, dar um rápido passeio pela marginal junto ao rio, e fazer a pé todo o percurso desde ali até ao Monumento da Independência. De caminho vi dezenas de estudantes e candidatos a monges, da Universidade Budista de Phnom Penh, vi as novas embaixadas altamente protegidas e fui olhando para os rostos, tentando perscrutar nos sorrisos que me cruzavam o que teria sido a sua vida há algumas décadas.

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De novo me voltaram à cabeça as cenas da película de Roland Joffé, em especial as das filmagens no interior da embaixada e da chegada dos Khmer Rouge às suas portas. Embora o filme tivesse sido rodado na Tailândia, as casas, as ruas e a arborização que nele aparecem correspondem na perfeição ao que encontrei em Phnom Penh.  

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A cidade tem uma localização privilegiada junto ao rio, espraiando-se já pela outra margem, de onde se pode ver um excelente pôr-do-sol sobre os telhados do Palácio Real. Os problemas do lixo, da higiene urbana e dos cheiros, de que me apercebera em Siem Reap, tinham aqui continuação. Existe um conjunto de edifícios de arquitectura colonial, muitos deles degradados ao lado de outros excelentemente preservados, que conjuntamente com as esplanadas, numerosos cafés e muitos e bons hotéis e restaurantes dão-lhe um toque ocidental e mediterrânico. A luz durante os dias em que ali estive foi imensa, em especial durante as manhãs, o que me trouxe um misto de satisfação e saudade pela inigualável e penetrante luz das manhãs do meu país. 

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O contraste entre alguns muito ricos, os ricos e os pobres é visível, notando-se que os mais abastados têm traços étnicos chineses. Estes e os de origem vietnamita eram os principais habitantes da cidade e foram os primeiros a ser dizimados e expulsos para o campo, como a maioria da população das cidades, obrigada a trabalhos forçados e de "reeducação" pela cegueira resultante de uma amálgama de extremismo ideológico, racismo e xenofobia que aniquilou etnias e classes urbanas, acusando-as de traição em resultado da contaminação provocada pelas influências estrangeiras. Apesar da cidade estar a crescer, ainda não atingiu o ritmo de desenvolvimento do vizinho Vietname. O novo Casino Naga tem atraído um conjunto de investidores e jogadores chineses e de outras regiões da Ásia, como Singapura e Coreia do Sul, pelo que é natural que nos próximos anos a cidade dê um salto. Deverá ser essa a razão para a Rolls Royce já ter um representante e expositor na cidade.

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A população aprecia os jardins, gosta de ficar na cavaqueira, fumando e bebendo, nos passeios, vendo-se imensas crianças. Crianças e jovens, pois que praticamente não se vêem velhos. Alegres, correndo de um lado para o outro atrás das suas bolas, envergando camisolas contrafeitas de clubes de futebol europeus e até da nossa Selecção Nacional, emulando Cristiano Ronaldo nos seus toques de bola. 

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Durante os dias em que andei por Phnom Penh conheci mais alguns restaurantes. Gostei bastante do La Pergola, no hotel The Plantation, onde pernoitei. Um óasis confortável no centro da cidade, que recomendo vivamente, decorado com gosto, com um bar de tapas no rés-do-chão, um ambiente cosmopolita, de gente simples mas que se vê ter mundo e maneiras pela maneira como come, como fala, como se comporta perante os empregados e pela educação com que lida com os outros com que se cruza. Esses são os primeiros sinais de civilização de um homem. 

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Estive também no afamado Chinese House, do qual não fiquei com saudades. Pena que um local diferente e bem decorado, popular entre os expatriados, tenha uma cozinha com uma confecção tão má e tão pretensiosa. Caro para a qualidade. Mau para se amesendar. Salva-se o bar do rés-do-chão, por sinal às moscas na noite em que lá fomos. 

Amanhã será um novo dia. Não sei o que irei encontrar, embora me tenha vindo a preparar para tal. Veremos se depois do que vi e li não ficarei demasiado maltratado.  

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Por terras khmers (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.12.16

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O desenvolvimento de Angkor ficou a dever-se ao génio do Rei Jayavarman II (790-835) que inicialmente estabeleceu a capital em Roluos, depois mudada para as montanhas Kulen. Até então a história dos khmers era uma história de pequenos estados independentes, por vezes transformados em impérios, mas sempre durante períodos relativamente curtos. Consta que desde o período neolítico a região foi ocupada devido à fertilidade dos solos em redor do chamado Grande Lago, da riqueza piscícola e abundância de água, mas foi a partir de 1908 e das descobertas da Escola de Arqueólogos Franceses do Extremo-Oriente, em particular de Jean Commaille, que escreveu em 1912 o primeiro guia de Angkor, que se tornou conhecida. O que hoje se vê é apenas uma pequena amostra do que existiria, sabendo-se das inscrições nos relevos dos templos que, por vezes, as construções se atrasavam durante anos devido à ausência de fundos para serem concluídas. 

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Não vou aqui descrever em detalhe o que por ali vi, importa talvez dizer que quem quiser explorar a região de Angkor e visitar os templos, declarada Património da Humanidade desde 1992, após a celebração dos Acordos de Paris, tem primeiro de munir-se de um bilhete, cujo preço varia entre os 20 USD, para um dia, e 40 USD, para três dias, sendo possível obter passes de uma semana. Convém que quem lá for não se iluda e não se arme em chico-esperto, resolvendo começar a circular livremente por toda aquela vasta área para poupar no custo do bilhete, confiando na sorte, porque na estrada e à entrada das zonas onde estão os principais templos é feito o controlo dos bilhetes pela Polícia do Turismo, bilhetes que depois são frequentes vezes pedidos para verificação da identidade do titular e confirmação de que a foto dele constante, tirada na hora, corresponde ao visitante que se apresenta. O controlo é amigável e simpático para os viajantes sem deixar de ser rigoroso para os infractores que sejam apanhados sem bilhete.

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Depois de três dias passados nesta região, onde aproveitei para observar os fabulosos frescos, respirar todo aquele verde e visitar o Museu Nacional D'Angkor, reservando para outra ocasião o centro dos Artisans Angkor e as oficinas dos ceramistas, comecei a aperceber-me do grau de destruição e rapina provocado quer pelo regime de Pol Pot, e após a queda deste, em 1979, quer pela ocupação vietnamita que se lhe seguiu. Muitas das figuras das belíssimas apsaras (ninfas), que representam na perfeição a generosa e enigmática beleza da mulher cambodjana, das cabeças de esculturas centenárias, das divindades, serpentes e leões foram mutiladas, decepadas, desfiguradas. Galerias inteiras foram destruídas, provavelmente para estarem hoje a ornamentar casas e jardins fora do Cambodja. Algumas peças foram entretanto recuperadas depois de terem aparecido ao fim de muitos anos em leilões e exposições por esse mundo fora, mostrando a importância da cooperação internacional na defesa do património cultural que a todos pertence.

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Antes de rumar ao Sul ainda ensaiei uma primeira aproximação ao que foram os anos de guerra e genocídio, primeiro com a ditadura do direitista Lon Nol, que alegadamente chegou ao poder através de um golpe apoiado pela CIA e os EUA, acusação que alguns dizem ter falta de provas e que foi rejeitada por Kissinger, para quem os EUA terão sido apanhados de surpresa, e depois com o infame regime de Pol Pot.

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Quanto a Lon Nol é duvidoso que não tivesse obtido prévio apoio dos EUA atenta a forma como as coisas aconteceram, a começar pelas manifestações promovidas pelo próprio governo para justificar o golpe militar e o suporte que os EUA deram de imediato ao novo poder. Muito resumidamente, o que aconteceu foi que na sequência de uma votação na Assembleia Nacional cambodjana, Lon Nol derrubou a monarquia e atirou o Príncipe Norodom Sihanouk para o exílio. Invocando poderes extraordinários, aquele que era ao tempo primeiro-ministro, tomou o poder, proclamou a República Khmer e substituiu uma monarquia clientelar e corrupta, que abrira o porto de Shianoukville aos vietcongs, pela instauração de uma férrea ditadura, igualmente corrupta, dirigida por um nacionalista místico e chauvinista que queria ser tratado por “Black Papa” devido à cor da sua pele, o que segundo o próprio faria dele um verdadeiro khmer. O golpe conduziu a uma intervenção directa na Guerra do Vietname e à perda de mais umas centenas de milhares de vidas entre cambodjanos, com particular incidência sobre as comunidades dos etnicamente de origem vietnamita, inocentes ou culpados, que viviam no Norte, e que iam sendo atirados ao Mekong à medida que eram eliminados na tentativa de conter o avanço comunista.

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Fui então visitar o denominado “War Museum” que se encontra instalado na Região Militar de Siem Reap, a poucos quilómetros da cidade. Recebido à entrada pelo seu responsável, com o tradicional traje negro dos antigos guerrilheiros khmer, perguntou-me se precisava de guia, tendo eu retorquido que não. O que eu já sabia dispensava-o de me esclarecer sobre aquilo que ali estava patente. Material militar desactivado, tanques, granadas, lança-roquetes, morteiros, praticamente todos os modelos de metralhadoras ligeiras, com destaque para as AK-47, pistolas dos mais diversos fabricantes e modelos, incluindo israelistas, até um helicóptero e um velho Mig russo usados em combate, dispensavam explicações adicionais por parte de qualquer guia. De um lado e do outro vários barracões com fotografias, memórias dos conflitos, registo de tragédias pessoais e colectivas e um vasto conjunto de todos os tipos de minas que se encarregaram de ceifar, e que continuam a ceifar, centenas de milhares de vidas, de toda a espécie de gente, novos e velhos, homens e mulheres, gente inocente. Tudo ali exposto em fotografias, cartazes, relatos biográficos e relatórios para que a memória não se perca por falta de informação. Para todos e a começar pelos jovens locais, para que se possam aperceber do que foi o passado, do preço da paz e do drama do seu povo.

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Existe também um museu dedicado às minas a 25 km de Siem Reap. Não estava nos meus planos lá ir até porque a guerra contra as minas continua no presente, não faz parte do passado. Há ainda vastas áreas minadas, admitindo-se que haja cerca de seis milhões de minas (este número não é engano) espalhadas pelo país. Há minas colocadas pelos vietnamitas durante a ocupação, usando mão-de-obra forçada local, ao longo dos 700 km da fronteira com a Tailândia. Há minas colocadas pelos Khmer Rouge nas florestas, a partir do momento em que foram afastados do poder para protegerem os locais onde se refugiaram, e há minas colocadas pelos governo nacional para proteger cidades, vilas e aldeias e as suas próprias posições. São por isso frequentes os avisos de perigo, incluindo em caminhos aprazíveis pelas florestas e nalgumas zonas das províncias de Banteay Meanchey e Oddar Meanchey, por exemplo, num país que tem o mais alto número de amputados devido às minas. A média de amputados mensal é actualmente de cerca de 15, num total superior a 40000, agravando-se a situação na época das chuvas, em especial nas zonas rurais, onde os mais atingidos são os desgraçados dos agricultores.

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À sombra das árvores, com os pássaros e mosquitos por companhia, com um guia nos seus trinta anos que mostrava nos olhos e no rosto, para um pequeno grupo de turistas que nos seguia, os pergaminhos da sua história pessoal e a do seu pai, mais uma vítima dos Khmer Rouge, todo aquele material exposto tornou-se inofensivo. Está ali a memória da sua infância e da sua juventude, se é que de tal se poderá falar. Longo e doloroso foi o caminho que o trouxe até àquele cemitério. O que para trás ficou será sempre irrecuperável. Em vidas e em sofrimento. Não há preço para isto.

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Por terras khmers (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.16

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O aeroporto de Siem Reap fica relativamente perto da cidade. Em vez de um táxi tinha um simpático e rechonchudo motorista local à minha espera, disponibilizado pelo primeiro hotel onde fiquei, que logo tratou de acomodar a escassa bagagem que trazíamos no tuk-tuk que nos iria transportar. Foi este o primeiro contacto com o mais popular meio de transporte daquelas terras. Táxis, daqueles que conhecemos, não vi um único e desconheço se a Uber já se aventurou por tais paragens, apesar de também ter andado em jipes da Lexus.

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A cidade é pequena e só começou a desenvolver-se quando se tornou conhecida depois da descoberta de Angkor Wat. Ao tempo sob domínio francês, consta que terá recebido os primeiros turistas a partir do início do século XX. O Grand Hotel d´Angkor abriu as suas portas em 1932. Hoje tem à volta de 200.000 habitantes, de acordo com o último censo (2008), mas os que chegam para visitar a região são cada vez mais. O maior fluxo chega da China, que à sua conta representa cerca de 80% dos visitantes, mas também os há do Japão, da Coreia do Sul, do subcontinente indiano, australianos, estado-unidenses e europeus, em especial franceses e ingleses.

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Aqui apercebi-me do primeiro grande problema do país: o pó. O pó está em todo o lado e o ideal quando se circula de tuk-tuk, entre milhares de outros veículos idênticos, autocarros de excursionistas, camiões velhos e automóveis que largam enormes nuvens negras, é ir prevenido com uma máscara para a boca e nariz ou um lenço que nos proteja as vias respiratórias. Os tradicionais lenços khmer, em algodão, são baratos e custam entre 3 e 6 USD, dependendo do tamanho, o que é ridículo face à sua qualidade. O dólar tem curso legal, dentro ou fora das cidades. É normal só haver preços em dólares e o câmbio informal em qualquer lado é de 40.000 Riéis para 1 USD, o que me levou a arrepender-me de ter trocado alguns dólares no balcão de câmbios do aeroporto a 38.000. 

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A oferta hoteleira e culinária é vasta. Não faltam hotéis acolhedores das cadeias internacionais, alguns depositários da escola colonial, e pequenos locais de muito bom nível, com pessoal qualificado, afável e de uma educação extrema em quaisquer circunstâncias, a preços muitos razoáveis para a qualidade do serviço. Eu prefiro hotéis calmos e sossegados, sem a confusão dos excursionistas. Em Siem Reap e Phnom Penh há imensos. Os hotéis-boutique estão na moda. Aqui, onde iniciei a minha jornada, são quase todos “D´Angkor” ou de “Indochine”, ou as duas coisas, para todas as bolsas e com diferentes níveis de sofisticação, mas convém ter cuidado porque por vezes o nome ilude uma espelunca a 20 ou 25 USD ou um hostel entre os 5 os 10 USD para aqueles que não se importam de viajar sem tomar banho e convivem sem pruridos com a abundante fauna rastejante, roedora e voadora. Sinais, aliás, de outro gravíssimo, e de mais difícil solução, problema nacional: o tratamento dos lixos. Jazendo a céu aberto, sem contentores, por vezes dentro de sacos plásticos largados à beira dos passeios, sujeitos à fúria da cachorrada e dos desgraçados que remexem o seu interior, na maioria dos casos atirado para a beira dos passeios, das estradas ou dos cursos de água ou, nesta altura do ano, os leitos secos dos ribeiros, assume contornos assustadores, o que explica epidemias, doenças e o cheiro nauseabundo de que quando em vez nos assole.

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O assunto não é tabu, mas o convívio de diferentes tradições culturais e heranças religiosas naquela zona de cruzamento ente o hinduísmo e o budismo, onde a cristandade sempre teve dificuldade em se afirmar, não se afigura fácil. Talvez isso também explique a inexistência de discussões, de vozes alteradas, gritos, gestos obscenos ou empurrões, em cidades onde o trânsito é caótico, a confusão imensa, não raro com vacas e cães que circulam pachorrentamente pelo meio da via, mas que apesar disso flui, e onde se vêem piscas-piscas, braços esticados e raramente se ouvem buzinas. As que se ouvem não são de protesto, tratando apenas de saudar ou avisar quem circula que convém manter o rumo e o ritmo para não haver uma desgraça. 

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Normalmente, onde há especiarias é possível comer bem. O Cambodja não foge à regra e é possível aliar a tradicional culinária khmer, o saborosíssimo peixe amok no coco, sem pele nem espinhas, os caris vermelhos e verdes, o camarão, o coco, os lagostins, as perninhas de rã ou as vieiras com a excelência da herança culinária francesa, as influências vietnamita, chinesa, indiana e tailandesa com os sabores tradicionais, onde pontifica o incontornável travo de “lemon grass”, a erva aromática que produz um óleo deliciosamente perfumado a limão que é de utilização obrigatória em muitas cozinhas asiáticas. Aqui é especialmente saborosa e o seu uso, como noutros locais onde estive, vai muito para além da culinária, sendo frequente o seu aproveitamento em saboaria e cosméticos, chás, bebidas refrescantes, produtos medicinais e como óleo para alguns tipos de massagens, já que a massagem tradicional khmer é a seco.

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Não há nada de mais confortável do que entrar numa casa recuperada, com a velha arquitectura colonial, ou com as linhas simples e modernas de algumas das novas construções, num spa ou casa de massagens, num quarto limpo, decorado de forma simples, impregnado com a luz e as cores do fim de tarde, de onde se liberta o refrescante aroma a “lemon grass”. Uma bênção para os sentidos depois de um dia de tuk-tuk, subindo e descendo as escadarias de templos, percorrendo museus vivos e palácios com a roupa colada ao corpo, observando a vida nos fascinantes mercados onde é possível tudo comprar e obter, de objectos de prata a peças para motas, de sedas a pedras semi-preciosas, lado a lado com os vernizes para as unhas, as estatuetas de cobre ou as fardas escolares, antes de um bom banho ou de umas braçadas retemperadoras numa qualquer piscina escondida num jardim interior disfarçado pela abundante vegetação que os cerca. 

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Na maioria dos locais onde merendei ou jantei vi muitas cozinhas abertas e asseadas, mesas limpas, toalhas de pano e jogos americanos sem manchas. Mesmo em restaurantes de estrada, onde a comida ficava a desejar, como num que é habitual parar para quem vai por estrada para Phnom Penh e cujo nome “Banyan Tree” homenageia a frondosa árvore da frontaria e não pretende confundir-se com a afamada cadeia de hotéis de luxo, não se vê louça lascada ou há talheres encardidos como é habitual encontrar em muitos dos nossos tascos com pretensões a restaurantes finos. Em Siem Reap há várias casas que se recomendam. Para além do F.C.C., o famoso clube dos correspondentes estrangeiros, também com aposentos para viajantes, elogiado pelo The Guardian e por onde passaram tantos escritores, jornalistas e simples curiosos, de que falarei noutra altura e que não se confunde com o seu homólogo da capital, gostei do Embassy, em King´s Road, perto do Hard Rock, numa casa só de mulheres, com uma Chef oriunda da escola do Sofitel e com experiência anterior em Singapura, que tem um excelente menu de degustação, onde sem qualquer rebuço me substituíram o pato que aparecia lá pelo meio pela carne decente de um animal sem penas. 

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Em lugares onde o Sol nasce muito cedo é também natural que tudo termine mais cedo. É por isso normal que se jante mais cedo, por volta das 20:00, e a vida nocturna também antecipe os seus períodos de abertura e termo, o que é gratificante para quem gostando de dias intensos não dispensa estar sentado numa esplanada acolhedora, ouvir um pouco de música entre dois dedos de conversa com outros viajantes, trocando experiências e conhecimentos na língua que se proporcionar.

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Por terras khmers (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.12.16

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A primeira sensação foi de estranheza. Ali, tão longe, enquanto aguardava pela pouca bagagem que normalmente transporto em viagem, as imagens que tinha diante dos meus olhos eram do Aeroporto Humberto Delgado, da velha Portela, em Lisboa. Imagens de rostos e paisagens familiares, de aviões da TAP na descolagem e de intermináveis e desesperantes tapetes rolantes carregados de malas maltratadas e viradas ao contrário. Rapidamente percebi que se tratava de um filme promocional dos actuais concessionários do aeroporto onde acabava de chegar. Os mesmos que gerem Lisboa. Coincidência, claro, nem por isso menos estranha naquele momento. Mas era o que eu via e disso não podia fugir.

Há uma frase de Proust que faz parte do 5.º volume de À La Recherche du Temps Perdu, publicado a título póstumo, que é muito conhecida entre os amantes de viagens e que reza o seguinte: “Le seul véritable voyage, (…), ce ne serait pas d’aller vers de nouveaux paysages, mais d’avoir d’autres yeux, de voir l’univers avec les yeux d’un autre, de cent autres, de voir les cent univers que chacun d’eux voit, que chacun d’eux est (…)”. Nunca como este Natal essa citação foi tão apropriada. Ver com outros olhos. 

O falecimento em Julho passado de Sydney Schanberg, mais um no imenso rol de gente que desapareceu e de catástrofes que marcaram o ano que se prepara para sair, despertara-me a vontade de empreender uma viagem que me ajudasse a compreender um pouco melhor a história e a cultura de um povo marcado, em especial nos anos mais próximos, por regimes opressivos, instabilidade política, conflitos armados e um interminável sofrimento. O impacto que o filme de Roland Joffé rodara sobre a amizade entre o falecido Dith Pranh e Sydney Schanberg, o repórter do New York Times que cobriu em 1975 a queda de Phnom Penh às mãos dos Khmer Rouge, fizera-me pensar, durante muitos anos, na hipótese de um dia conhecer mais de perto aquela que foi a dura realidade vivida por um povo às mãos dos seus próprios filhos.

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Decidi, pois, rumar até ao reino que herdou as tradições do velho império Khmer, outrora estendendo-se desde a Birmânia, actual Myanmar, até ao Vietname, hoje comprimido entre os seus vizinhos (a Tailândia, o Laos e o Vietname) e as águas quentes do golfo da Tailândia. E fi-lo entrando pelo norte do país para depois fazer o percurso em direcção à capital.

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Também há muito que sabia da existência dos templos de Angkor e foi exactamente por aí que comecei, partindo de Siem Reap à sua descoberta, aproveitando a estação seca e as temperaturas mais amenas desta altura do ano.

Não se descreve nalgumas linhas a sensação de esmagamento que causa ao viajante a apreensão da imponência, grau de desenvolvimento e arrojo estético da civilização que floresceu entre os séculos VIII e XIII naqueles terras férteis e ricas em minerais irrigadas pelo Mekong. O que a vista alcança perde-se na imensidão do trabalho esculpido na pedra. Nos detalhes de um tempo cuja engenharia atravessou séculos, praticamente incólume, na forma como se encaixam as pedras que sustentam as abóbadas, nos quilómetros de frescos que recriam lendas, crenças e mitos, batalhas históricas, que se perdem na arenga de guias que aprendem português pela Internet em quatro meses e se fazem entender na perfeição depois de correrem o seu cardápio de idiomas ocidentais enquanto tentam oferecer os respectivos préstimos a quem chega. Sempre sorrindo, com bons modos, educadamente.

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Sem a confusão de outros locais, podendo livremente deslocar-me por entre paredes e corredores, saltando de um local para outro, percorrendo a pé extensas zonas de floresta, perdendo-me na frescura do verde e na quietude dos lençóis de água, onde nenúfares, lótus e uma imensidão de outras flores e plantas vai lutando por um espaço à superfície, vendo as horas correrem silenciosas, tão discretas na sua passagem como os séculos, ali tomados pelos frondosos caules, repousando à sombra de copas monstruosas e prisioneiros de raízes maiores e mais poderosas que o aço, impondo-se à pedra e ao lento trabalho de esculpi-la a que tantos se dedicaram.

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Ali estão elas, aquelas árvores que o tempo não parou, senhoras de tudo, desafiando a trindade suprema de Xiva, Vixnu (Vishnu) e Brama, desafiando a serenidade intemporal de Buda, desafiando os homens, dizendo que estão ali. E que ali permanecerão. Guardando o tempo, marcando-o, assistindo à sua erosão na pedra, mostrando a irreversibilidade do domínio da natureza, da nossa sujeição às suas leis, escutando o seu próprio eco, enquanto uma brisa mansa percorre as ramagens mais altas, entrecortada pelo chilrear de alguns pássaros ou a sombra de uma ave de rapina.

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Lá longe, ao fundo, vê-se o fumo elevar-se no ar. Sente-se agora o cheiro intenso do incenso que arde, da lima e do jasmim. As cores fortes do céu, os aromas do fim de tarde. E à minha volta o silêncio. A vida. O silêncio que antecipa a chegada da noite e o nascer do dia. O silêncio que só alguns ouvem, o silêncio que se prolonga e estica o tempo. O silêncio que nos dá luz, que nos retempera e acalma. O silêncio, sim, o silêncio. 

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Três livros (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.12.16

3-arquivo.jpgDesde a criação do mundo que esse desprezível sentimento faz parte das nossas vidas. Foi a inveja que levou Eva à maçã e foi por ela que o diabo se afastou de Deus. Foi deusa romana, que por onde passava tudo secava, está presente em Dante e serviu de objecto de estudo a Tomás de Aquino. Há quem lhe reconheça, de acordo com o judaísmo, na justa medida, qualidades propulsoras do progresso e surge associada a numerosos artistas. Bosch imortalizou-a numa obra de excepção que pode ser apreciada no Prado, e ei-la agora de novo redescoberta na trama do último livro de Carlos Morais José, um pequeno tratado das compulsões da alma humana que viaja pelas desventuras de Camões, Diogo Vaz de Caminha e Diogo Couto, percorrendo Baudelaire, Borges, Leitão de Barros e alguns mais, até desaguar em Malinowski. Escrito com a simplicidade própria da escrita que se quer intemporal, reconhece-se com facilidade a formação antropológica do autor numa espécie de observação participante da história e da literatura na figura do seu protagonista. Editado com cuidado pelos Livros do Oriente, traz na capa uma reprodução do belíssimo Retratto de uomo con libro (1530), de Parmigianino. Agradável surpresa que marca este final de 2016 e será, sem dúvida, uma das estrelas da próxima edição do festival literário Rota das Letras. Deixa-se ler com gosto, o que o recomenda que seja relido numa próxima oportunidade. De preferência à noite e durante o Inverno, para que a viagem da leitura nos transporte aos caminhos percorridos pelo autor. Em Lisboa foi lançado no final de Outubro, em Macau será apresentado no próximo dia 13 de Dezembro, onde contará com a análise sabedora do Prof. Carlos André.

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A Fernanda está cheia de razão

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

Calculo que sei ao que ela se está a referir. Aquela coisa miserável a que um fulano tão presunçoso quanto egocêntrico deu o nome de livro para poder trair a confiança que terceiros lhe depositaram pensando que estavam a falar com uma pessoa de bem. Se, agora, aquilo que a Fernanda conta for o que estou a pensar, há magistrados que deviam estar a tratar do batatal. Uma filha da putice será sempre uma filha da putice, qualquer que seja o destinatário e por muito que eu possa não gostar dele, e não se confunde com a liberdade de expressão. Era só o que faltava.

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Três livros (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

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 "(...) [G]ostaria desde já de chamar a vossa atenção para as citações iniciais da obra que de uma forma simples nos introduzem naqueles que são os grandes debates, não só da imprensa portuguesa em Macau, mas do jornalismo e dos media em geral, o que eu resumiria em quatro pontos:

 1. Qual o papel do jornalista no mundo contemporâneo;

 2. Como podem os cidadãos reconhecer a verdade na informação que lhes chega;

 3. Qual o sentido da actividade jornalística;

 4. Como lidar com o gigantesco caudal informativo que nos inunda o quotidiano.

O livro não responde a estas quatro questões, antes nos alerta para elas e para o trabalho de quem faz a imprensa, alcançando-o de um modo singular. Isto é, recorrendo ao passado recente para nos dar uma panorâmica nos seus sete capítulos das diversas fases por que passou a imprensa portuguesa em Macau, das suas preocupações e linhas de orientação, indo até à situação profissional dos jornalistas. Desse modo, é-nos permitido inteirarmo-nos das dificuldades e vicissitudes por que a classe passou e que a preocupam, bem como sobre os seus dramas, incertezas e perspectivas, tarefa executada sem esquecer uma abordagem dos principais instrumentos jurídicos que regulam, ainda que imperfeitamente, a profissão, o que é conseguido pela mão experiente do Dr. Frederico Rato.

Para além de registar o cuidado colocado na investigação e redacção dos textos de José Carlos Matias — que me fez regressar aos anos conturbados do vieirismo tardio —; de Diana do Mar — dando conta das dezenas de jornalistas que fizeram da Tribuna, do Ponto Final e do Hoje Macau o que são e de como na adversidade é possível trilhar um caminho —; de Sónia Nunes — cujo sintetismo e espírito analítico importa ressaltar; de Marco Carvalho — que nos deixou um retrato cuidado da nova classe —; e de ter havido o cuidado de se registar a opinião de quem lê a imprensa; do conjunto de capítulos do livro saliento, em especial, a interessante abordagem que é feita em "Olhares cruzados sobre a imprensa", onde o Prof. João Figueira conversa com os directores dos jornais Tribuna de Macau e Hoje Macau, com o editor do Clarim, com o director de uma empresa de publicações e consultoria, com o chefe de informação e programas portugueses da TDM-Rádio Macau e com um jornalista que sendo hoje proprietário de um jornal também foi seu director.

Aspectos como a subsidiação pública, o reflexo desta na liberdade de imprensa, a formação e o percurso de profissionais que demandaram Macau não foram descurados, o que contribui para a actualidade e acutilância da discussão, oferecendo-nos uma imagem rigorosa do salto qualitativo que ocorreu com a injecção de sangue novo.    

Como o título da obra denuncia, a abordagem é feita na perspectiva dos últimos quinze anos, prazo relativamente curto para historicamente se retirarem conclusões. É, todavia, tempo suficiente para se adquirir uma visão global das incertezas e se poder projectar o futuro, que é aquilo que hoje preocupa jornalistas, editores e os cidadãos de Macau em geral, entre os quais me incluo. (...)" (Excerto das notas que guiaram a apresentação que me foi confiada, 05/12/2016, Fundação Rui Cunha)

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Três livros (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.12.16

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Com a chancela da Hong Kong University Press, foi lançado na semana passada e posso dele dizer que se trata de mais um trabalho incontornável dirigido por Geoffrey C. Gunn, o emérito professor da Universidade de Nagasaki, senhor de uma vasta obra publicada sobre a Ásia e que vai da Ciência Política à Antropologia.

É certo que não se trata do seu primeiro trabalho dedicado a Macau ou a antigos territórios portugueses, mas desta vez tem a particularidade de, para além do seu contributo, incluir textos de João Botas, Roy Eric Xavier e Stuart Braga. Como se escreve na Introdução, os dados e a informação existentes sobre o período da II Grande Guerra em Macau estão fragmentados e aparecem normalmente dissociados de uma visão global, lacuna que o livro se propõe preencher desvendando por que razão, ao contrário de Hong Kong, Macau conseguiu evitar a ocupação japonesa.

Laborando sobre materiais em inglês, português e japonês, a investigação agora conhecida reúne o trabalho de um conjunto de autores que tiveram acesso a diferentes arquivos e constitui a primeira tentativa para situar Macau, a Casablanca do Oriente, no tempo de guerra, no contexto da situação internacional ao tempo vivida e da sua importância no funcionamento dos eixos Tóquio/Berlim/Lisboa e Washington/Londres/Lisboa. Explica o editor que a obra pretende fazer luz sobre aspectos menos conhecidos e ao mesmo tempo abrir novos caminhos de investigação, os quais serão de certo modo tributários da sua experiência como conselheiro das Nações Unidas no apoio à Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação de Timor-Leste, em meados de 2003, onde foram obtidos dados, documentos e testemunhos sobre aspectos ignorados relacionados com o período de invasão e ocupação indonésia, mas que deixaram de fora o que se relacionava com a ocupação japonesa. 

Gunn escreveu os capítulos 1 (Wartime Macau in the Wider Diplomatic Sphere), 3 (Hunger amidst Plenty: Rice Supply and Livelihood in Wartime Macau), 6 (The British Army Aid Group (BAAG) and the Anti-Japanese Resistance Movement in Macau), bem como o epílogo e a conclusão. O capítulo 2 é da autoria de João Botas e tem por título Macau 1937-45: Living on the Edge: Economic Management over Military Defences, ficando os capítulos 4 (The Macanese at War: Survival and Identity among Portuguese Eurasians during World War II) e 5 (Nossa Gente (Our People): The Portuguese Refugge Community in Wartime Macau) para Xavier e Braga, respectivamente.

O tamanho escolhido para a letra podia ser maior, mas tal pecadilho, bem como as gralhas na ortografia de alguns termos portugueses, não retira nem o interesse à obra, nem o imenso prazer que da sua leitura se pode extrair. 

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Estou quase de volta

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.12.16

Entretanto, vão pensando nisto:

"The public does not think journalists are doing a very good job at their jobs, despite journalists’ high regard for their own work. This disparity highlights the print media’s lack of understanding public perception and the industry’s apparent inability to respond in ways that would bolster news consumers’ faith in the quality of journalists’ work";

"Public contempt with press performance fuels reduced media consumption, which has a host of negative implications for a healthy democracy. Chief among those concerns is a spiraling decline of knowledge and participation that can result in a disengaged, anemic electorate, as well as the potential that news organizations themselves will continue to wither, giving way to self-interested partisan rhetoric devoid of meaningful analysis and context" (Homero Gil de Zúñiga & Amber Hinsley, The Press Versus the Public, Journalism Studies, 2013, 14:6, 926-942)

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Dias épicos

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.11.16

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O modo como se tinham comportado nos treinos e como geriram as suas passagens pela pista faziam antever uma jornada competitiva e que deixava em aberto a possibilidade de no final surgirem nos lugares da frente. O que ninguém esperava é que dois dos melhores pilotos portugueses da actualidade fizessem um interregno nas suas corridas habituais para se proporem vencer em categorias onde habitualmente nem sequer competem duas das três principais provas do cartaz deste fim-de-semana da 64.ª edição do Grande Prémio de Macau.

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Depois de Tiago Monteiro se impor categoricamente na última prova do Campeonato do Mundo TCR, averbando o primeiro triunfo português numa corrida de carros de turismo na Guia, ao volante de um Honda, foi a vez de António Félix da Costa mostrar toda a sua classe e dizer a todo o mundo, em especial a muitos patrocinadores que continuam a apostar milhões em pilotos sem um décimo do seu talento, por que merece ter um volante na Fórmula 1. Félix da Costa, o “Formiga”, venceu sem apelo nem agravo as 15 voltas da Taça do Mundo de F3, a seguir a ter vencido ontem a corrida de classificação para a prova de hoje. As suas ultrapassagens ficarão por muitos anos na retina de quem as viu e são um verdadeiro manual da arte de bem conduzir.

Tiago Monteiro e Félix da Costa (este último inscrevendo pela segunda vez o seu nome entre os vencedores) foram absolutamente imperiais e bastava ouvir os comentários dos jornalistas britânicos ou italianos para se perceber o quanto haviam sido brilhantes. Hoje foram os canais televisivos de Hong Kong, da China e do Japão a darem a notícia. Amanhã, os jornais desportivos de todo o mundo assinalarão mais este feito que encheu de emoção, satisfação e contentamento os portugueses que estiveram por estes dias no mítico circuito e onde por duas vezes a bandeira nacional subiu no mastro mais alto em provas organizadas pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo).

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Deixo aqui também uma palavra especial para o André Pires, que com galhardia e muita coragem correu na prova comemorativa dos 50 anos do Grande Prémio de Motociclos, bem como para o André Couto, que correndo com um carro novo e que conduziu pela primeira vez em Macau, voltou a estar ao seu nível, levando um Lamborghini que “não andava” e com problemas de afinação nas suspensões até ao final da corrida da Taça do Mundo de GT, corrida prematura e inexplicavelmente terminada devido a uma decisão administrativa que ainda vai fazer correr muita tinta.

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2016 poderá não vir a ser o melhor ano de sempre do automobilismo nacional (Pedro Lamy, João Barbosa, Álvaro Parente, Filipe Albuquerque, Rui Águas, entre outros, também conseguiram resultados notáveis), mas vai ser recordado durante muitos anos como um ano de corridas inesquecíveis, com resultados tão espectaculares que desmentem os habituais cépticos. E que servem para dizer que com armas iguais às dos outros os portugueses, senhores do seu destino, até conseguem ser muito melhores do que a concorrência alemã, inglesa, francesa, holandesa, espanhola, sueca, finlandesa, russa ou italiana. É só darem-lhes uma oportunidade.

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.11.16

Não sei quem é o autor do blogue. Dizem-me que é de direita, que foi assessor de um antigo Presidente da República. Admito que sim, mas como não costumo distinguir as coisas boas das más em função de complexos ideológicos ou de pré-juízos motivados pela dicotomia esquerda-direita continuo a visitá-lo regularmente. Publica de tudo, sobre os mais variados assuntos, por vezes também textos saídos na imprensa. Posso não concordar com tudo o que leio, mas em regra gosto do que leio porque é bem escrito, os temas são interessantes, e também se fala de livros. A minha escolha para esta semana é o Malomil e desejo-lhe longa vida. 

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Konstantin Bessmertny

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.11.16

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"Descendente da terceira geração de colonos que, em 1907, se mudaram para o Extremo Oriente vindos das zonas ocidental e central do Império Russo", em 1992 desembarcou em Macau. Vinha de Vladivostok, onde estudara na Academia Estatal de Artes do Extremo Oriente e cumprira o serviço militar, do qual fora desmobilizado um ano após o anúncio da "Perestroika". Acabaria por se radicar no antigo território sob administração portuguesa, montou o seu atelier, instalou-se com a família e cresceria até se tornar no artista ímpar que hoje é. Ao dizê-lo sei que estou a tornar mais difícil para mim próprio a aquisição das suas obras, mas o seu talento exige que lhe seja dada a dimensão que merece.

Tive a sorte de conhecê-lo em meados da década de noventa do século passado e de um dia ficar com uma das suas telas, desde logo apaixonado pelo seu traço, pela sua cor e pela criatividade que constitui uma das suas imagens de marca e faz com que não me canse de lhe apreciar o trabalho e invejar a maestria. Mas, para além disso, o pintor é um homem livre, um homem de cultura e de carácter, qualidades que muito lhe aprecio. Sou, portanto, suspeito e pouco isento ao escrever estas linhas, o que confesso em nada me perturba porque considero que a qualidade da sua obra fará dele, seguramente, um dos mais incontornáveis pintores contemporâneos.

O trabalho multifacetado que desenvolveu ao longo dos anos está desde ontem em exposição no Museu de Arte de Macau e merece ser conhecido e divulgado. Bem sei que Konstantin está presente no Museu do Oriente (Lisboa), no Museu de Arte de Macau, que esteve na 52.ª edição da Bienal de Veneza, em representação de Macau, e que os seus trabalhos também podem ser apreciados no Museu de Arte de Cantão, em Hong Kong, em Xangai ou no Hotel Mandarim Oriental (Macau), entre outros locais, mas o que a exposição Ad Lib traz de novo é o facto de apresentar um retrato biográfico do autor e reunir um conjunto de 34 obras recentes que incluem pinturas, esculturas, instalações e vídeos, numa espécie de viagem pelo seu riquíssimo universo.

Como o próprio escreveu, as técnicas, os temas e os estilos que utiliza são muito diversos, "indo de projectos à produção de filmes", pelo que nunca foi fácil juntá-los sob um título único. Fácil ou difícil, confesso que não é coisa que me preocupe porque aquilo que é verdadeiramente importante é conhecer a obra de alguém cuja influência muito provavelmente só as próximas gerações estarão em condições de avaliar devidamente.

Recomendo, pois, a quem puder fazê-lo, que até 28 de Maio de 2017 demande o Museu de Arte de Macau e aprecie obras que, sendo um verdadeiro deleite para os olhos, nos questionam e nos obrigam a reflectir. E, já agora, quando lá forem não se esqueçam de obter um exemplar, se entretanto não esgotar, do surpreendente catálogo editado pelo Instituto Cultural e pelo Museu de Arte de Macau, e por cujo resultado foram responsáveis Oscar Ho, Don Cohn, António Conceição Júnior, Yao Jingming, Romi Lamba, Kristoffer Luczak, Mário Costa, Chan Hin Io, Gala Bessmertnaia, Max Bessmertnyi e Ricky Wong. Absolutamente a não perder.

 

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Aflitivo

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.10.16

Eu supunha que episódios do tipo Relvas e do tipo Sócrates não se iriam repetir e que teriam servido de lição. Uma vez vez mais estava enganado. A leviandade com que este tipo de situações, e outras idênticas, ocorre na nossa vida pública e o modo como os partidos contemporizam com isto é aflitivo. Bem sei que os outros eram membros do Governo, um era ministro e o outro primeiro-ministro, e ambos com fortes responsabilidades políticas nos respectivos partidos, e este é apenas um capataz, mas isso não afasta a gravidade da situação nem a posição em que deixam os seus partidos.

Um tipo que admite ser nomeado por um primeiro-ministro nas circunstâncias em que este foi nunca se devia ter demitido. Ele nunca deveria é ter sido nomeado. Mas tendo-o sido, o que partido devia fazer era instaurar-lhe um processo disciplinar com vista à sua exclusão, com base no art.º 14.º n.º 2 dos Estatutos do PS que prevê a exclusão daqueles que, sendo militantes, com a sua conduta acarretarem sério prejuízo ao prestígio e ao bom nome do partido.

Enquanto os partidos não cortarem a direito e não correrem com esta gente das suas fileiras, gente que revela uma tremenda falta de carácter e de idoneidade moral para estar na política e exercer cargos políticos e/ou de confiança política, os partidos vão continuar a fenecer lentamente e a desprestigiar a democracia, afastando o comum dos cidadãos da participação e obrigando-o a procurar refúgio em movimentos sociais e outras organizações da sociedade civil. Já era mais do que tempo para perceberem isto.

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As eleições vistas por Lavrov

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.10.16

 

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Making America great again

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.10.16

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O meu amigo R.M. (espero que ele não se zangue por eu citá-lo aqui) lembrou-se de que em tempos tivemos o New Deal, de Roosevelt. Depois chegou o "Yes, we can", de Obama. E a seguir veio "Grab them by the pussy, Making America Great Again", de Trump.

Por este andar, digo eu, lá para Novembro (se não for já para semana), somos capazes de vir a ter o "We got him by the balls", de Hillary Clinton.

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Um problema de carácter

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.10.16

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Com todas as manobras de bastidores que foram conduzidas a partir do seu gabinete, com o seu alto patrocínio e o da chanceler Merkel, para evitar a eleição de António Guterres, teria sido mais aconselhável que agora tivesse saudado a escolha do novo secretário-geral em termos mais discretos. Em vez disso, fez questão de reafirmar que em Bruxelas o "cherne" que há é todo de águas paradas. A hipocrisia está-lhes nos genes.

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Ficamos todos muito mais tranquilos

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.10.16

"Portugal está a cumprir. Portugal neste momento está a enviar para Bruxelas números que estão dentro de todas as expe[c]tativas que temos, e portanto Portugal está a cumprir. Portanto eu nem vejo como é que podemos pensar nessa palavra «resgate» ou em resgate em relação a nenhum país na Europa neste momento. Isso não existe, não acontece, não há qualquer indício de nada em relação a nenhum país”

 

Vindo de um homem de mão e ex-membro do Governo de Passos Coelho, e um dos maiores apoiantes da defunta coligação PSD/CDS-PP, da intervenção da troika e do acatamento integral e sem questões das "ordens" que esta deu, não deverá ser anedota.

Tudo tem uma explicação, apesar de algumas vezes não ser a que mais nos convém.

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Não se esqueçam de avisar a Merkel e o David

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.10.16

Today after our sixth straw poll we have a clear favourite and his name is António Guterres,” the Russian UN ambassador, Vitaly Churkin, told reporters with his 14 council colleagues standing behind him.

We have decided to go to a formal vote tomorrow morning at 10 o’clock, and we hope it can be done by acclamation.”

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Então e a outra?

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.10.16

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Guterres - 13, abstenções - 2, votos contra - 0. Venha a próxima.

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Cinco de Outubro

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.10.16

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De volta a Portugal e aos portugueses. E não consta que haja alguém nas ruas a manifestar-se contra.

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Mário Wilson

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.10.16

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 (1929-2016)

 

"Só nós sentimos assim"

Obrigado, meu capitão.

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decoro

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.09.16

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"decoro (ô), s.m. respeito de si mesmo e dos outros; decência; compostura; dignidade; honestidade; vergonha; pundonor; nobreza. (Do lat. decôru-, "que convém")." - Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 6.ª edição

 

Mas será que é preciso ser arguido, acusado e condenado com trânsito em julgado para ter decoro? E vergonha? E senso? É cada vez mais evidente em cada dia que passa que não há um, dois ou três Partidos Socialistas, mas sim quatro. Há o de José Sócrates, há o dos amigos de José Sócrates, que se confunde com o primeiro em função das ocasiões, há o de António Costa e do Governo, que corre atrás das metas do défice e se esforça por cumprir compromissos com toda a gente e mais alguma, e depois há o dos portugueses que se revêem no PS e que não sabem em que PS hão-de confiar.

Oxalá esteja enganado, mas neste momento, se forem todos como eu, quer-me parecer que em nenhum deles. O pior é que nos outros também não se pode confiar.

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Posso desconvidar-me?

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.09.16

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"Não sou de voltar com a palavra atrás nem de dar o dito por não dito." (17/09/2016)

 

Ainda bem. Eu também não. De qualquer modo, a geleia que sobrar pode sempre servir como adorno

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Perdidos e achados

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.09.16

A Helena Sacadura Cabral colocou um pouco mais abaixo um pequeno post que alerta, implicitamente, para um dos grandes problemas com que se debate actualmente a sociedade portuguesa, apesar de não ser exclusivo desta. Trata-se de uma oportuníssima chamada de atenção que desde já agradeço à minha companheira por me ter proporcionado o ensejo de, en passant, como no xadrez, aqui deixar estas breves linhas.

No pequeno desenho que ali ficou gravado pode ler-se uma frase que, a propósito dessa parte anterior ou superior do encéfalo, designada por cérebro, que coordena e controla os movimentos do corpo, se responsabiliza pela aprendizagem, pela cognição, pelas emoções e a memória, expressa um sonho. Mas também formula um desejo. A frase, referida a esse órgão, "todos deveriam ter um" é de extrema actualidade. Quero por isso mesmo também felicitar a Helena, a quem acompanho nesse sonho e nesse desejo.

Mas a mim, e agora escrevo para a Helena, que vivo no mundo dos humanos e dos cães, alguns como nós, diria o Alegre, outros muito melhores do que nós, digo eu, o que me preocupa é a realidade.

O que deveras me preocupa, Helena, não são os que não têm, os que nunca tiveram cérebro, os que tiveram a infelicidade de nascer descerebrados.

O que me preocupa, Helena, são aqueles desgraçados para os quais a ciência ainda não encontrou resposta, que não encontrará, e cujo problema se agrava em cada dia que passa. E creio que Deus também nunca encontrará solução. Porque esses problemas são aqueles para os quais Ele não tem resposta, nem nunca terá, porque esses são os que saem do baralho e desafiam a Sua própria intuição do Universo.

O que me preocupa, Helena, são os que tendo nascido com cérebro o perderam pelo caminho. Os que o perderam ao longo do processo de socialização, e que aparentemente não sofreram nenhum acidente. Que a gente saiba, que se visse ou que os próprios sentissem. Nem ninguém o encontrou depois de uma visita, sem os próprios saberem, obviamente, aos Perdidos e Achados da esquadra da Alegria. Esses são os casos mais complicados. Um amigo meu chinês, um daqueles que não come cherne para não dar pela falta dele quando vier o tempo em que nos casinos só haja dinheiro para chaputas, costuma dizer que esses, os que têm a infelicidade de se acharem nessa condição, são "as bestas".

Ele é capaz de não estar longe da verdade, embora eu esteja sempre a dizer que ele não deve dizer isso. Porquê, Helena? Porque enquanto a ciência não tiver resposta, até que o António Damásio nos esclareça, é situação que pode acontecer a qualquer um.

E no que a mim respeita, Helena, se um dia isso me acontecer, eu só peço aos meus amigos, a começar pelos que aqui tenho, no Delito de Opinião, e aos outros que não me conhecem, que não me deixem continuar a escrever. E se eu escrever que não me editem o que escrevo. Postumamente ainda menos. Como é que eu depois poderia responder ao Cardoso Pires ou ao O'Neill, quando chegasse lá acima, e eles me apresentassem a factura perguntando: "Que porcaria é esta? O que andaste a fazer lá em baixo? Não tens vergonha?". 

Isto para já não falar na chatice que seria ter de convidar alguém para escrever o prefácio. Os outros, os que não fossem convidados, ficariam sumamente ofendidos. E no fim quem seria capaz de distinguir "as bestas", as genuínas, das "bestas", das outras? Nem os outros, os cães, que sendo como nós ainda têm a sorte de terem olfacto, e que só por esse sentido que têm tão apurado distinguem o que lhes convém do que não lhes convém, pensando na preservação da espécie e na protecção das suas crias de maiores perigos, seriam capazes de distingui-los.

Mas estas são coisas em que as "bestas" não pensam, Helena. Antes ou depois de procriarem.

 

Um abraço,

Sérgio

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E ninguém é punido?

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.09.16

"A Administração Fiscal está cega de mais na tentativa de arrecadar receita, deixando empresas e famílias exauridas"

Durante anos, enquanto vivi em Portugal, denunciei estas situações, lutando dentro e fora dos tribunais contra a actuação negligente do fisco, por vezes mesmo dolosa, como tive oportunidade de ver em várias ocasiões, envolvendo contribuintes singulares em processos tributários. Os tribunais administrativos já há muito que vinham sancionando, com custos que depois são pagos por todos os contribuintes, essas actuações no mínimo questionáveis do "monstro fiscal" que aquele senhor que foi ministro da Saúde criou e desenvolveu.

Fico satisfeito por ver que os nossos magistrados continuam atentos e que são capazes de elevar a voz contra essa ignomínia que a todos empobrece. Mas confesso que só descansarei quando o Estado assumir, como qualquer pessoa de bem, a responsabilidade pelos desmandos e começar a punir, se possível no bolso, que é onde dói mais e sem custos adicionais para os outros contribuintes, quem dentro da máquina fiscal permite a recorrência no arrastamento de processos vergonhosos, e que nada faz perante casos concretos que são levados à sua apreciação só para (corporativamente) não contrariar quem tem o processo à sua guarda. 

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Barbosa de Melo

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.09.16

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(Foto: LUSA) 

(1932-2016)

 

Foi um senhor. Como este são cada vez menos. A república, a democracia, o pensamento e a seriedade ficam muito mais pobres. Paz à sua alma.

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Que não lhes falte o detergente

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.09.16

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Num dia lê-se isto, noutro dia mais qualquer coisa sobre o mesmo assunto. Para compor o ramalhete, antes que se acabe o detergente, vêm mais umas histórias de tarar. Mas era preciso descer tão baixo? 

Há gente com muito menos educação, que não sabe para escrever livros, não tendo a petulância dos pavões nem a obrigação de preservar as instituições da república, que na hora do divórcio faz o mesmo com muito mais nível. Mais uma tristeza para os portugueses somarem a dez anos de vexame. 

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À atenção do MNE

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.09.16

 

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 (Foto de Gonçalo Lobo Pinheiro, daqui)

 

"Quando não preciso de falar uma língua esta não é útil porque a sua importância tem a ver com a sua utilidade. Toda a língua tem a economia da sua utilidade. Línguas não úteis tendem a morrer, isto é conhecimento comum."

A ler, reler e reflectir a excelente e incisiva entrevista que a Prof. Inocência Mata deu ao Jornal Tribuna de Macau. Para os que andam a dormir na forma e enchem a boca com a língua portuguesa.

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Duplo mortal à retaguarda

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.08.16

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Em 2013, num processo que levantou muitas incompreensões entre os seus militantes, Passos Coelho impôs a candidatura de Pedro Pinto à Câmara de Sintra, abrindo caminho à vitória de Basílio Horta.

Na sequência desse processo, em que foi recusado o nome (consensual para as estruturas locais) de Marco Almeida, e apesar deste ter na altura o apoio de oito presidentes de juntas de freguesia do PSD, vários militantes foram expulsos por se terem rebelado contra a decisão da direcção do partido e terem apoiado ou resolvido candidatar-se em listas, e não só em Sintra, contra o seu próprio partido. Outros houve que, entretanto, descontentes com a situação saíram pelo seu próprio pé evitando a expulsão automática prevista nos estatutos.

Volvidos estes anos, que não foram tantos como isso, depois do PSD e Pedro Pinto terem sido cilindrados em Sintra, perdendo Marco Almeida a Câmara para o PS por menos de dois mil votos, eis que surgem notícias dando conta de um mais do que provável apoio desse mesmo PSD, ainda e sempre dirigido por Passos Coelho, a uma recandidatura do referido Marco Almeida nas autárquicas de 2017.

Em 7 de Junho p.p., num texto de Cristina Figueiredo, o Expresso anunciava que o PSD estaria a considerar o "endosso" à candidatura de Marco Almeida (Sintra) e, eventualmente, à de Paulo Vistas, em Oeiras. E citava declarações do coordenador autárquico, Carlos Carreiras, em que este dizia que o partido não iria limitar as suas opções desde que fossem coerentes com "o projecto".

Depois, em Julho, o Público avançava com a notícia do apoio do PSD, do CDS, do MPT e do movimento "Nós Cidadãos em Sintra" à candidatura de Marco Almeida.

Já este mês, no dia 3, o jornal OJE esclarecia que em Sintra, "apesar de nenhuma voz oficial o confirmar, o processo estará também encerrado do lado dos social-democratas", adiantando-se que "várias fontes confirmaram mesmo ao OJE que o acordo entre Marco Almeida e a cúpula do PSD já está fechado, faltando apenas acertar detalhes e nomes integrantes da lista a apresentar."

Na sexta-feira passada (26/08/2016, p. 6) foi a vez do Público informar que Marco Almeida, depois de já se ter reunido com outras forças políticas, entre as quais o PSD, recebeu por unanimidade o apoio da JSD para se candidatar à presidência da Câmara de Sintra.

É, pois, neste momento quase seguro, embora não se saiba muito bem qual "o projecto" autárquico do PSD, que Passos Coelho e a sua direcção se preparam para engolir não um mas várias famílias de sapos, das mais variadas espécies e proveniências, nas autárquicas de 2017, para evitarem uma humilhação política. Humilhação que após a gritaria, aliás inconsequente, para impedir o governo da dita "geringonça" passa agora por fazer um duplo mortal à retaguarda, ainda que para isso seja necessário participar na criação de novas "geringonças" que pragmaticamente garantam o acesso ao poder e o ganha-pão das suas clientelas.

Sabíamos, pelo passado recente, que a coerência não era um forte deste PSD de Passos Coelho. Quanto a esse ponto não há nada de novo. Contudo, seria interessante desde já saber até onde irão o perdão e o acto de contrição e se, por hipótese, Marco Almeida resolver incluir na sua lista alguns dos que foram antes expulsos, convidando de novo, por exemplo, António Capucho, o histórico ex-militante e fundador do PSD, para encabeçar a lista para a Assembleia Municipal de Sintra, se ainda assim o PSD o apoiará. Ou, quem sabe, se o nome desse e de outros ex-militantes, como é agora o de Marco Almeida, que saiu do partido e encabeçou uma lista contra Pedro Pinto, é também negociável em nome do tal "projecto".

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Paradoxo

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.16

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"What we now see emerging is a notion of democracy that is being steadily stripped of its popular component – easing away from demos" - Peter Mair (1951-2011)

 

A fotografia da bancada do Parlamento Europeu vazia e com um único deputado não deixa de ser curiosa e, ao mesmo tempo, elucidativa desse afastamento do demos de que falava o saudoso Peter Mair, talvez o mais brilhante cientista político da sua geração. Desconheço se o livro já foi lido e se é conhecido dos políticos portugueses, mas o paradoxo está em que o deputado que ficou na bancada e que serve de ilustração à capa deste livro póstumo de Mair é um ex-jotinha, Carlos Coelho, o deputado europeu do PSD que é reconhecidamente um dos mais trabalhadores, preocupados e esforçados políticos nacionais. A fotografia é injusta para ele, não fazendo jus ao seu trabalho, sem deixar de ser igualmente um reconhecimento pelo seu empenho, visto que foi o único que lá ficou. De qualquer modo, poucos se devem poder orgulhar de terem sido capa num livro de Peter Mair. Pelas boas e pelas más razões.

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Está a ser bonita a festa, pá

por Sérgio de Almeida Correia, em 19.08.16

Apesar do deputado Hélder Amaral estar "à espera de um “discurso mais empolgado” (eu também), ainda assim pode-se dizer que o brilho conferido pela presença do CDS/PP ao Congresso do MPLA está a ser um sucesso:

 

"Entre os convidados estavam também os bispo da Igreja Tocoísta, D. Afonso Nunes, profetiza Suzeth João, da Igreja Teosófica Espírita, Miraldina Jamba, da UNITA, e Quintino de Moreira, presidente da Aliança Patriótica Nacional, e membros do Corpo Diplomático acreditado em Angola.
Oriundos do estrangeiro estavam 21 convidados, em representação de partidos, com destaque para Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC, e o político português Paulo Portas. Representantes do Partido Comunista da China, Partido do Trabalho da Coreia do Norte, Frelimo, Partido Congolês do Trabalho, Swapo, PGD da Guiné Conacry, Partido Chama Cha Mapinduzi, da Tanzânia, PDP, do Botswana, delegações da RDC, do Partido Revolucionário da Etiópia, da União do Povo da Guiné Conacry, da Organização da Libertação da Palestina (OLP) também marcaram presença. De Portugal apenas o CDS/PP marcou presença na cerimónia de abertura. Até ao fecho desta edição eram aguardados os representantes do Partido Comunista Português, do Partido Social Democrata e do Partido Socialista
."

 

Lamentando o atraso dos restantes partidos portugueses à sessão de abertura do congresso, pese embora a mensagem que o PCP enviou, vê-se que o CDS-PP é o único partido português que continua a fazer "justiça aos retornados do Ultramar" e a pugnar "pela dignificação dos antigos Combatentes no Ultramar".

Espera-se, agora, que depois do congresso a camarada Assunção Cristas agende um bailarico no Caldas com a malta do kuduro e da kizomba, para que se proceda na ocasião ao pagamento das compensações devidas aos espoliados do Ultramar, o qual será feito, em resultado dos mais recentes esforços da diplomacia económica do partido, com o carregamento de t-shirts e bandeirinhas do MPLA que o camarada Amaral vai trazer de Angola. O discurso de abertura será feito pelo camarada Telmo Correia.

A luta continua. O reaccionário do Águalusa que se vá banhar no Cunene.

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Afinidades

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.08.16

"O VII Congresso Ordinário do MPLA, que começou hoje no Centro de Conferência de Belas, em Luanda, não credenciou todos os meios de comunicação social que pretendiam fazer a cobertura do evento. O Rede Angola é um deles.
O processo de credenciamento começou no mês de Maio, a cerca de três meses do congresso, por iniciativa do Departamento de Informação e Propaganda (DIP) do MPLA. Depois do envio (por duas vezes) do nome dos repórteres indicados para o serviço, da entrega de duas fotografias e de uma cópia do Bilhete de Identidade e de várias deslocações à sede do partido, em Luanda, a resposta final veio em forma de silêncio.
Oficialmente, as justificações apresentadas para a falta de credenciamento em tempo útil estão relacionadas com uma eventual dificuldade dos serviços de segurança e da área técnica do partido em despachar o trabalho."

 

A notícia do Rede Angola é apenas um detalhe que, certamente, não ensombrará o fortalecimento das relações entre o CDS-PP e o MPLA, tantos são os pontos em comum que unem os dois partidos. Fico satisfeito que assim seja, pois vejo com bons olhos este convívio fraterno entre dois partidos imbuídos de uma cultura democrática acima de toda e qualquer suspeita.

Apesar disso, pode ser que um dia tenha a sorte de Paulo Portas, Assunção Cristas e Hélder Amaral me explicarem de viva voz quais os pontos em comum entre:

(i) um partido que se reclama de direita, personalista, assente nos valores éticos, sociais e democráticos do humanismo personalista de inspiração cristã, defensor de um Estado que não deve ser o regulador das liberdades sociais, em especial nos domínios da educação, da saúde e da segurança social e que acredita profundamente, entre outras coisas, num regime de liberdades pessoais e cívicas,

e um outro, que derivando directamente do marxismo-leninismo puro e duro, em tempos subserviente a Moscovo e à Cuba de Castro, com os mesmos dirigentes há décadas, a começar pelo número um, se reclama, como escreve em editorial o Jornal de Angola, "o partido dos “camaradas” que está no poder", tendo

(ii) o "Socialismo Democrático como orientação ideológica que melhor corresponde aos interesses do desenvolvimento multilateral do Povo Angolano e como ideologia que defende uma vida digna a partir da plena e racional utilização dos recursos do País", que se reclama de uma "perspectiva política de esquerda dinâmica" e quer "os principais centros de decisão nas mãos de nacionais, devendo o Estado apoiar a criação de uma base económica e empresarial efectivamente detida por angolanos".

 

Tirando o amor aos dólares, o oportunismo, a hipocrisia política, e a mesma tolerância e compreensão para com os beirões que criticam o poder, confesso que não vejo outros pontos de convergência. Mas admito, de novo, que possa estar enganado.

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Desabafo

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.08.16

Um gajo pode estar no Governo sem poder decidir sobre certas matérias? Ó António, que merda é esta? Está tudo doido? Queres que aí vá?

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Empreendedorismo

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.08.16

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Empreendedorismo é um palavrão. Em Portugal os frutos que dá têm sido só para alguns, embora por vezes sejam indigestos. O Jornal de Notícias desta manhã, todavia, pode dar algumas pistas para se perceber onde estão os verdadeiros empreendedores. "Presos montam negócio ilegal de aguardente na cadeia", era o título da primeira página.

Não sou apreciador de aguardente, mas convenhamos que produzir mais de 230 litros e organizar festas dentro de um estabelecimento prisional é obra. Presumo que sem subsídios da União Europeia.

O Primeiro-ministro, o ministro da Economia e todos os que tem responsabilidades na área do "empreendedorismo" deviam reunir-se com os partidos políticos e tentar encontrar uma solução para os nossos problemas de crescimento. Em vez de punirem os "empresários" da aguardente, deviam era mandar para lá, para ao pé deles, os nossos banqueiros, os empresários e todos esses tipos que estão sempre dependentes dos subsídios e dos fundos estruturais para fazerem alguma coisa. De escolas a fábricas. Vinham de lá a saberem fazer alguma coisa. A produzirem "chicha". Da boa. Sem subsídios. Depois era só certificá-la e exportá-la. 

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Laranjinhas

por Sérgio de Almeida Correia, em 05.08.16

Já muitas vezes os critiquei aqui. Mais a alguns dos que por lá passaram e que têm dado uma péssima imagem dessa organização no Parlamento e no Governo. Desta vez estiveram bem, não enterraram a cabeça na areia e viram o óbvio. Não devia ser motivo de nota. Eu penso que deve ser. O extraordinário foi terem vindo dizê-lo, não terem saído em defesa daqueles monos que "trabalhando" vinte e quatro horas por dia, e estando sempre em representação da nação, até quando vão ao futebol (ou, pela mesma ordem de razões, visitar um Elefante Branco francês) fazem trabalho político.

Está-se sempre a tempo de corrigir, de melhorar. E a inteligência nunca fez mal a ninguém. O oportunismo, o carreirismo e a falta de seriedade sim. Estes fazem muito mal. Aos próprios, mais ainda ao país. Como aliás se tem visto; e continua a ver.

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Ninguém lhes dá uma boleia?

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.08.16

Ainda lá estão todos? De polegar esticado, à beira da estrada? De um lado e do outro? Será que ninguém lhes oferece um bilhete de ida?

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