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Teias

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.06.17

"Segundo o The New York Times, por trás do Grupo HNA, ac[c]ionista da TAP por via do consórcio Atlantic Gateway – e da companhia brasileira Azul – estará Wang Qishan, dire[c]tor do órgão máximo de combate à corrupção na China. O mesmo, aliás, que alegadamente domina a Capital Airlines, segundo denúncia de Guo Wengui, bilionário chinês exilado nos Estados Unidos."

 

O extracto é deste editorial. O artigo do New York Times está aqui.

Convém que em Portugal não falte a luz. É que não se perde nada em ir lendo e acompanhando. Por causa das surpresas.

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Fico à espera das análises

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.06.17

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Não hão-de faltar as justificações, os comentários habituais para os que ficaram mal na fotografia e as promessas de mais trabalho, porque estamos a dois anos das legislativas, por parte de quem ficou bem. Embora tudo isto diga muito pouco para quem vê de muito longe, não deixa de ser interessante confrontar estes resultados com o que se tem lido e ouvido.

Cauteloso, e porque de maiorias absolutas também já estou escaldado (prefiro um bom governo de "geringonços" a maus governos de maioria), vou aguardar pelas análises do Pedro Magalhães e de todos os que às sondagens se dedicam. Para já, depois das declarações de Schäuble sobre o bom desempenho nacional, o melhor mesmo é aproveitar a onda e tratar da dívida. 

Quanto à oposição não há nada a dizer. É continuarem a berrar a plenos pulmões e não se desviarem da rota. O estampanço será certo. 

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Brexit by Steph

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.06.17

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Um magnífico cartoon de Steph na edição matutina do HojeMacau. Ou de como em dois traços se pode retratar a realidade. 

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Muito bem

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.06.17

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"A Europa é nessa matéria [refugiados] uma vergonha. Dito isto por parte de uma pessoa que faz parte de uma nação como é Portugal, que já teve emigrantes, que já teve imigrantes, andou pelos cinco continentes e todas as partes do mundo. A mim faz-me muita confusão. Eu vi, praticamente, o sistema de decisão da Europa colapsar por causa de um milhão de refugiados. Esse um milhão de refugiados de que se fala foram recebidos pela Alemanha. Do que estamos a falar é do resto. E do resto, a mim faz-me muita confusão que haja países da União Europeia que não tenham acolhido nem um refugiado. Estão muito esquecidos de há uns tempos atrás, de umas décadas atrás, em que se não fosse a solidariedade do mundo teriam ficado a sobreviver debaixo da pata do comunismo. Houve países do Leste da Europa que não receberam um refugiado. E isto envergonha-nos a todos."

Tirando uma pequena grande gafe, esteve muito bem neste aspecto. E foi bom que tivesse dito o que disse sobre os refugiados por ocasião de mais um Dez de Junho. Há valores que não são nem da direita nem da esquerda, são de todos nós. E é nisso que enquanto Portugueses devemos estar unidos.

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Theresa's fiasco

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.06.17

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Com a contagem dos votos praticamente no fim, hoje torna-se evidente o desastre que foi a campanha do Brexit e a monumental incompetência política e falta de visão estratégica de quem conduziu o Reino Unido à actual situação. Não fosse o injusto sistema eleitoral vigente e o resultado obtido pelos conservadores teria sido muito pior.

As eleições de ontem serviram, tal como se esperava, para aumentarem a confusão, confirmando o erro e a irresponsabilidade de populistas oportunistas como Boris Johnson e Nigel Farage. Se bem nos recordamos, Theresa May convocou estas eleições para reforçar a sua maioria em Westminster e se apresentar com uma legitimidade reforçada perante Bruxelas. Os resultados indicam que a sua figura será mais a de um Egas Moniz de baraço ao pescoço.  

Da abstenção não podem os Tories queixar-se porque houve nestas eleições uma maior afluência às urnas. Desde 2001 que a participação não era tão elevada, tendo atingido 68,38% (Em 2015 foram 66,1%, em 2010 a participação foi de 65,1%, em 2005 de 61,4% e em 2001 de 59,4%). Ou seja, os eleitores não foram indiferentes ao Brexit e tentaram corrigir esse desastre.

Por outro lado, apesar do sistema maioritário, Theresa May e os conservadores conseguiram a façanha de perder a maioria e arranjar um "hung parliament", ou seja, um parlamento onde vai ser necessário fazer acordos para se poder governar. Os críticos nacionais dos sistemas de representação proporcional podem agora agarrar-se à lição inglesa: à reconhecida injustiça soma-se agora a instabilidade.

À hora a que escrevo, numa altura em que faltam atribuir apenas 29 mandatos, já se sabe que os conservadores perderam votos e mandatos para os trabalhistas e os liberais. O Labour conquistou até agora 30 novos mandatos, os liberais mais 5, confirmando-se o resultado desastroso do Scotish National Party que também já perdeu 18 mandatos.

Percentualmente, os trabalhistas têm apenas menos 2% do que os conservadores, o que vem confirmar, por um lado, os resultados de sondagens que referiam o bom acolhimento das propostas mais radicais do programa eleitoral dos trabalhistas, designadamente quanto à nacionalização de alguns sectores e empresas cujas privatizações se revelaram desastrosos, e, por outro lado, a má imagem de Corbyn junto do eleitorado do partido. Corbyn não era o homem indicado, nem ofereceu aos eleitores a confiança suficiente para poder vir a executar o programa do seu partido.  

O UKIP de Paul Nuttall e desse xenófobo vendedor de ilusões e banalidades, que ainda há dias esteve nas Conferências do Estoril a fazer figura de importante, foi arrasado e ficou sem o seu único deputado. Também por aqui os eleitores podem agradecer a convocação das eleições antecipadas.

A libra já começou a vir por aí abaixo. Os conservadores saem destas eleições em estado de choque. Depois de terem cavalgado a onda trumpista, populista, anti-refugiados, anti-islâmica e anti-europeia, enfiando tudo e todos num só saco, podem agora começar por arrumar as ideias, ir tratando das mazelas e limpar a casa.

Os Tories fizeram a cama em que queriam que os eleitores se deitassem. Estes recusaram. Os Tories e o UKIP tiveram o que mereciam. A democracia voltou a vencer.

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O segredo da simplicidade

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.06.17

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"Ninguém é imune aos efeitos do poder, ninguém! Isso é doença da juventude que o tempo cura. Quem resiste ao canto de sereia do poder é porque não se aproximou dele o suficiente para o ouvir com clareza"

 

"O poder é mal compreendido, amigo Vieira. As pessoas acham que os homens só se vendem por um poder superlativo, o dos grandes estadistas, das celebridades, quando a maioria não resiste sequer à oportunidade de ser sádico por uns instantes. Ter alguém à nossa mercê. Consegue imaginar o que isto representa para quem nunca teve nada, pessoas incapazes de se furtarem  através da imaginação, do sonho, à sua realidade miserável? Homens que não conhecem o amor, a entrega ao outro, a cedência voluntária do domínio? "

 

Há uns meses, na sequência de um evento em que participei, tive o ensejo de poder conhecer e conversar com o autor. Na altura, por múltiplas razões que não vêm ao caso, ainda não tinha podido pôr os olhos sobre o seu último trabalho, o que me deixou relativamente constrangido nesse encontro. Dar de caras com o autor num evento literário, com ele tomar uma refeição e nada ter para comentar sobre o seu livro porque ainda não se leu, é sempre um momento de angústia para leitor que se preze.

Nas últimas semanas pude corrigir essa lacuna, depois de uma breve mas gratificante viagem pelo paraíso para onde o Bruno me conduziu. Não tenho a pretensão do majestático porque se muitos olhos leram o mesmo, poucos seguem o mesmo percurso. É como quando seguimos sentados à janela de um comboio: quem vai atrás de mim ou está sentado no banco imediatamente à minha frente dificilmente verá o que eu vejo. E fá-lo-á sempre com outros olhos. As linhas que conduzem os meus olhos podem convergir por momentos com as que chegam de outros, mas cada uma segue depois o seu caminho. E nunca se interceptam.

Com a leitura passa-se igual fenómeno. A beleza dos grandes espaços, a profundidade de uma vista desafogada, a lavagem do espírito pela leitura está na facilidade com que se alcança a distância vendo-se tudo com olhos de ver. E, no entanto, aquilo que vejo e construo é tão irrepetível quanto o tempo. Quando a leitura se perde na generosidade da escrita, fluindo página a página, entre imagens e pensamentos, por simples factos, reflectindo episódios da vida de todos os dias, personagens que de uma forma ou de outra sempre povoam a infância, ou podiam ter povoado, noutro lugar e noutro tempo, então existe um denominador comum, aquele que marcará sempre a diferença entre o bom e o menos bom, entre o que me acolhe e me conforta e aquilo que me afasta de um livro ou de um autor. Refiro-me à simplicidade, verdadeiro segredo da grandeza de um texto, da construção de um poema, da perenidade de um livro.

Nunca estive em Novo Redondo. Nunca estarei em Novo Redondo. Novo Redondo já não existe. Existe um outro lugar no tempo presente. E apesar de tudo fui a Novo Redondo. Há um lugar que foi Novo Redondo, há o Barreiro, como há o 27 de Maio em Luanda, toda aquela gente, o BMX (sempre sonhei ter uma), a família complicada, de "hierarquias confusas, obediências, silêncios, recriminações", como há outros espaços de deambulação na escrita do autor, que de repente me recordo de ter percorrido com ele, espaços onde "o sentido vertebral do dever" se confunde com a galhofa e a amizade cimentada pelo pontapés numa bola e os momentos de recolhimento perante a imagem perturbadora de uma "labareda de alegria e vivacidade".

Até quando descia a alameda da minha faculdade e percorria iguais caminhos, sentando-me nos mesmos cafés, discutindo os filmes de sempre, entre humor e risos, enquanto saboreava a imperial. Na passagem pelos arquivos, na reconstituição do percurso processual do João Jorge, na via-sacra das secretarias judiciais, onde o papel se confunde com o pó, até ao reencontro com o ofício que a Anabela, reproduzindo umas das mais vergonhosas expressões da nossa burocracia, que se repete exaustivamente nas mais diversas circunstâncias sem que quem a utilize se dê conta da sua falta de sentido, pirosismo e incorrecção ("somos a informar"), comunica a localização do processo.

Como escreve o Bruno, quando se sabe que "[c]ada homem está pendurado num fio", quando se tem a consciência de que "o abismo pode abrir-se por baixo dele a qualquer momento" e, muitas vezes, só numa morgue é que um cidadão como o João Jorge pode, enfim, recuperar a dignidade, acaba por ser reconfortante sentir, porque de um sentimento se trata, que "a memória é um bem dos poderosos". E este torna-se o valor mais importante do livro, a sua taluda. Uma taluda ao alcance de qualquer um e que se completa com o rigor de uma escrita simples, directa, cristalina, em português "pré-acordo" e com a chancela da Quetzal.

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A reboque de um louco

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.06.17

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É evidente que não se trata da reafirmação de qualquer soberania dos EUA, nem de uma protecção dos interesses dos contribuintes e trabalhadores estado-unidenses. E como também já foi afirmado pelos principais líderes europeus, não há nada para voltar a discutir quando em causa está o futuro da Humanidade e o desertor é só "the biggest carbon polluter in history", o responsável pelo envio para a atmosfera da maior quantidade de emissões de dióxido de carbono. Ao colocar os EUA no mesmo saco em que estão a Nicarágua e a Síria, o Presidente Donald Trump não está a fazer dos EUA uma nação mais esclarecida, mais poderosa, nem de novo "grande". Quando dentro de quatro anos os trabalhadores do Midwest perceberem como foram enganados por um louco xenófobo e ignorante, os EUA terão regredido décadas e o país será reconhecido internacionalmente como um pobre povo governado por bárbaros. Em poucos meses, os EUA tornaram-se numa caricatura da grande nação sonhada pelos seus fundadores que teve a ambição de ser um exemplo para o mundo. Se alguma vez o foi, certamente que já não o é. O editorial de hoje do New York Times pode não reflectir o que toda a nação pensa sobre o assunto, mas é seguramente um repositório de preocupações e dá conta do estado de espírito de todos aqueles que não embarcaram no discurso primário de Trump.

Quem apostaria há dez anos, depois de todas as reticências iniciais, que a China estaria nesta altura do outro lado da linha, ao lado da Europa? Tão preocupada quanto os accionistas da poderosa Exxon

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Destroços

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.06.17

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Numa feliz iniciativa do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong e do nosso mais alto representante por estas terras, com os apoios da Casa de Portugal, do IPOR, da Fundação Oriente, da Super Bock e de algumas entidades oficiais da RAEM, Junho é agora o mês de Portugal em Macau. E nada melhor do que começar este ciclo com uma exposição individual daquele que é hoje um dos mais consagrados artistas nacionais, cujas obras já estão espalhadas pelas sete partidas do mundo. Aproveitando algumas obras anteriormente conhecidas e que integraram a exposição do ano passado em Hong Kong, a qual foi enriquecida com obras novas produzidas para este evento, Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, exibiu uma vez mais todo o seu talento, e da sua equipa, no Centro de Arte Contemporânea das Oficinas Navais.  

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Ouro dos tempos

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.06.17

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Com o patrocínio da MGM Grand Paradise S.A., uma das "subconcessionárias" da exploração de jogos de fortuna ou azar, em Macau, integrada no festival Le French May e como parte das celebrações do 10.º aniversário do MGM Macau, está em exibição no espaço consagrado à arte do hotel propriedade daquela sociedade uma exposição dedicada ao ouro na arte e na vida quotidiana. A exposição tem por título "A Golden Way of Life - Très'Ors" reúne cerca de 150 criações artísticas e artefactos relativos a um período que cobre os últimos 250 anos.

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É assim possível apreciar algumas extraordinárias criações, como o cálice do Abade Théodore Combalot, que esteve em exibição na Exposição Universal de Londres em 1851, e outras peças de arte sacra, incluindo cálices, paramentos debruados a ouro, uma cruz, luvas (chirotecas) e um anel episcopal. Algumas das peças vieram do Museu de Notre-Dame de Fourvière, em Lyon, uma excepcional colecção de relógios dos séculos XVIII e XIX chegou do Museu da Relojoaria de Morteau, para além de uma escultura única de Zadkine – La Jeune Fille à la Colombe –, de jóias de Boucheron, de porcelanas de Sévres, de frascos de perfume que são verdadeiras obras-primas, lado a lado com a primeira gramática sino-latina, alta sapataria e trabalhos de grandes criadores como Paco Rabanne, Schiaparelli e Cavalli.

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 A exposição tem entrada gratuita e estará patente ao público até 3 de Setembro.

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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.17

A tolerância, a verdade, o partido, o politicamente correcto, o amor ao próximo ou à pátria não devem ser um obstáculo à reflexão. A reflexão não é um incómodo. A sua falta, o silêncio e o permanente desconversar é que são uma fuga que nos torna intolerantes, ímpios e pequeninos. A reflexão sem voz é um acto colectivamente inútil.

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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Amanhã

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.05.17

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Amanhã será dia 27 de Maio. Um amanhã diferente daquele que em tempos foi cantado. Uma data triste para Angola, uma data feita de memórias dolorosas. E porque à dor ninguém escapa, envio daqui um forte e fraterno abraço ao Zé, com votos de que o lançamento seja um sucesso e o seu trabalho útil para as gerações vindouras. Angola continua a precisar de todos. E de ter memória da dor.

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Lido

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.17

"Não dá para ter sol na eira e chuva no nabal. Se se culpa Costa e a sua Geringonça pelo fraco crescimento de 2016, então dê-se os parabéns pelo crescimento de 2,8%. É um pouco absurdo culpar o governo pelo fraco crescimento do (primeiro semestre do) primeiro ano da sua governação e dizer que não tem mérito algum no crescimento que se verifica no (primeiro trimestre do) segundo ano." – Luís Aguiar-Conraria, Observador

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Mal-entendido

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.17

Às vezes, um mal-entendido é um problema de comunicação. De outras vezes é um problema de inteligência, de iliteracia ou de ignorância. Mas a pior de todas as situações é a que acontece quando um mal-entendido é tudo isso. Isto é, um problema de comunicação, de inteligência, de iliteracia e de ignorância. Aí é o caos.

Não há nada que torne reversível o efeito multiplicador do desastre.

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Não se esqueçam de ir descansar

por Sérgio de Almeida Correia, em 14.05.17

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(créditos: António Cotrim, EPA) 

Agora o melhor é irem descansar. Ainda falta a Taça de Portugal e vamos voltar a jogar com aquela equipa que esteve a perder por 3-0 e por 1-0 com os nossos rivais da Segunda Circular e acabou sempre por empatar. Convém ter isso em atenção.

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Só vinte?

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.17

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(créditos: Expresso)

A mim admira-me que sejam só vinte, porque bom bom era serem aí umas sessenta, ou umas oitenta, sei lá, de Santarém até Setúbal, cobrindo toda a área metropolitana de Lisboa e arredores. Se possível com uma extensão ao Aeroporto "Internacional" de Beja, em regime de PPP, para se poder encaixar a malta amiga, e com o aval da CGD. E depois entregar a gestão disso a Sérgio Monteiro. Quer-me parecer que desta vez faltou um pouco mais de rasgo na proposta de Assunção Cristas. Ninguém é perfeito.

Como diria um amigo meu, "isto promete uma remontada épica". Obrigado, António.

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Blogue da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.04.17

Ainda é relativamente jovem, apesar de no mundo virtual se envelhecer mais depressa do que no mundo real, mas a constância, a arrumação e a diversidade dos textos concorrem para a sua solidez. Como o próprio se define, constitui "um laboratório escrito e visual que dá voz a quem (...) quer contornar obstáculos, sejam eles a língua, a cultura ou a dimensão de um espaço aparentemente inalcançável". Trata-se de um projecto em português, com base em Macau, apoiado numa pequena equipa multicultural que olha para "a China além da China". Recomendo por tudo isso uma visita a um blogue diferente, onde se projecta um olhar para o outro lado, com olhos de ver, conciliando texto e imagem, temas de cultura com a língua e outras geografias. O Extramuros é a minha escolha para a semana que vai entrar.

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À atenção do Governo da República

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.04.17

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O tempo não é elástico, as solicitações são muitas, o espírito nem sempre é o melhor, mas é preciso voltar, regressar aos combates de todos os dias, voltar a percorrer o caminho.

Num país que nos últimos anos viu sair muitos dos seus jovens profissionais, alguns bastante qualificados, para paragens longínquas, admira-me que ainda ninguém tivesse levantado a questão. Não vai passar de hoje porque já não é caso virgem, e vou contá-lo em termos tão resumidos quanto possível.

Duas arquitectas portuguesas, ambas actualmente a estudar e a trabalhar na Austrália, para onde se mudaram de armas e bagagens à procura de uma vida melhor, viram-se na necessidade de se inscreverem no equivalente local da Ordem dos Arquitectos – Architects Accreditation Council of Australia –, a fim de verem reconhecidas as suas qualificações na terra que as acolheu e onde agora residem. Cada uma delas tratou de solicitar aos serviços competentes da universidade pública que ambas frequentaram a emissão dos documentos pertinentes, a saber: uma certidão académica contendo os nomes das disciplinas e respectivos créditos e uma certidão do programa de licenciatura em arquitectura contendo uma descrição sucinta das matérias leccionadas e incluídas em cada uma das disciplinas. Aparentemente seriam dois documentos corriqueiros, em tudo idênticos tratando-se de arquitectas que foram colegas de curso e do mesmo programa de estudos (pré-Bolonha).

O problema é que o resultado obtido com a emissão das certidões requeridas é de bradar aos céus. Sumariamente, só para perceberem o que cada uma das requerentes conseguiu da mesma entidade emitente, foi o seguinte:

a) Nas duas certidões académicas as disciplinas de Estática II, do 2.º ano, e de Teoria da Arquitectura II, do 4.º ano, estão descritas como disciplinas semestrais, sendo atribuídos 1 e 2 créditos, respectivamente, quando pelo Despacho nº 1723/2002, publicado no DR n.º 19, II Série, de 23/01/2002, as disciplinas de Estática II e Teoria de Arquitectura II são anuais, conferindo-se-lhes 2,5 e 4 unidades de crédito, o que significa que estavam as duas erradas apesar de terem tido um custo de € 80,00 cada;

b) Uma certidão contendo o conteúdo programático das disciplinas tinha o inacreditável número de 188 páginas, levou dois meses a ser emitida, e teve o custo de € 157,00, a outra tinha "apenas" 68 páginas;

c) Numa certidão a disciplina de Arquitectura I apresenta 18 páginas de descrição, enquanto na outra ocupa apenas 2 páginas;

d) Na certidão com 188 páginas, quanto à maioria das disciplinas, os ano lectivos correspondentes e as datas foram removidos de forma "artesanal";

d) Numa das disciplinas em que o ano lectivo não foi removido, o nome da disciplina foi escrito à mão como “Projecto II”, quando no rodapé se identificou a disciplina como “Projecto IV”;

e) Nesse mesmo documento e em relação a essa mesma disciplina, o ano lectivo que surge na descrição desta disciplina é 2003/2004, o qual não corresponde à realidade, visto a requerente frequentou a disciplina de Projecto II no ano lectivo de 200/2006;

f) Este documento incluía cópias de um plano de estudos que fora alterado, omitindo a rectificação que corrigiu uma inexactidão anterior que trocava um total "semestral" por um total "semanal";

g) Na certidão com 68 páginas faltava uma disciplina do 3.º ano;

h) Uma das certidões não incluiu a coluna dos créditos das disciplinas...

Este rol poderia continuar, mas o que fica basta para exemplificar o modo como, depois de tantas "reformas", continuam a funcionar alguns serviços da nossa administração pública.

Para lá do custo exorbitante do papel, do inacreditável número de páginas dos documentos e dos erros, imaginem o que fica a pensar das instituições e de Portugal, a entidade australiana junto da qual aquelas profissionais têm de fazer prova das suas qualificações para poderem exercer a sua actividade profissional. Isto sem esquecer a quantidade de questões que suscitam a quem recebe esses documentos, que deviam ser em tudo idênticos, de quem os apresenta, como se algum deles, ou ambos, tivesse sido rasurados ou falsificados pelos apresentantes. 

Depois, é preciso não esquecer o tempo que tudo isto leva a resolver. O tempo que se perde a escrever para explicar os disparates, mais o tempo e as despesas acrescidas para os documentos serem devolvidos, antes de no final as requerentes humildemente pedirem que as certidões devidamente corrigidas lhes sejam passadas no mais curto prazo, sem custos acrescidos, visto que os erros não foram da sua responsabilidade. Como se estivessem a pedir um favor a quem em nome do Estado português emitiu tais documentos.

Desconheço se as autoridades públicas têm a noção do transtorno que tudo isto causa a quem precisa de trabalhar, que teve de sair de Portugal para poder fazê-lo e que ainda por cima está longe, não podendo deslocar-se pessoalmente aos serviços para resolver o assunto.

Trago por isso mesmo este caso ao conhecimento dos leitores, deixando aqui publicamente uma sugestão que já tive oportunidade de recentemente fazer ao Secretário de Estado das Comunidades: que o Governo português encontre rapidamente um modelo único de documento, se possível em português e inglês, que seja emitido por todas as instituições de ensino universitário e, eventualmente, pelas ordens profissionais, que de uma forma simples, clara e uniforme, com um número de páginas razoável e um custo aceitável e acessível a qualquer bolsa, possa ser apresentado internacionalmente com a chancela do Estado português, de maneira a evitarem-se problemas como o descrito aos cidadãos nacionais, assim lhes facilitando a vida dentro e fora de portas.

O que se passou com as duas arquitectas portuguesas, uma residente em Sidney e a outra em Melbourne, para lá da incompetência que revela por parte de quem emitiu os documentos, dá sinal de uma terrível incapacidade de reforma e modernização das instituições públicas e de uma tremenda e persistente ineficiência.

Por isso mesmo peço desta tribuna a intervenção urgente do Governo português sobre esta matéria, para que não continuemos a ser vistos como uma espécie rara, como um povo de suicidas, e não volte alguém como o Manuel Laranjeira a escrever a um qualquer Unamuno que (cito de cor) "em Portugal a única crença ainda digna de respeito é a crença na morte libertadora".

 

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Ultrajes

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.04.17

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 (Ponto Final)

"Estou bastante satisfeito em saber que Macau é [uma terra] próspera. As condições de vida melhoraram bastante. Podemos encontrar hotéis de nível mundial. Sinto que as pessoas estão satisfeitas por viverem em Macau."

 

Não satisfeito com a herança que deixou em Macau, e com aquela que de cá levou, o último governador de Macau, em vez de ficar em lugar recatado e longe dos holofotes, continua a visitar os seus órfãos e viúvas, mostrando-se atento a tudo o que se passa em Macau.

A homenagem que foi prestada pelo Instituto Internacional de Macau ao general Rocha Vieira foi de antologia. De tal forma que por momentos pensei estar a ver na TDM uma cerimónia de agradecimento dos antigos accionistas do defunto Banco Ambrosiano ao seu presidente Roberto Calvi, o "banqueiro de Deus", pelos serviços prestados em prol da causa. Neste caso seria ao "general de Deus". Bem hajam.

Como se isso não bastasse, depois de em tempos ter criticado o movimento democrático de Hong Kong, o que certamente lhe valeu os maiores encómios em Beijing, veio agora dizer que as condições de vida em Macau melhoraram bastante. E não se referia ao número de missas. Creio que por cá, com excepção de Ao Man Long e do antigo Procurador, mesmo ao nível do Governo da RAEM, ainda ninguém se deverá ter apercebido disso. O general continua perspicaz.

Da entrevista ao Clarim não se percebe é se isso lhe foi transmitido pelo agradecido dr. Jorge Rangel, se por aquele punhado de bravos que com ele amesendaram no templo do Clube Militar, mas a associação da qualidade de vida dos residentes aos hotéis que temos deve fazer todo o sentido. O Governo da RAEM e os responsáveis pela habitação social, aliás, em vez de se preocuparem em arranjar terrenos para a habitação social, dando cabo dos esquemas aos especuladores e metendo em trabalhos os escritórios de advogados da terra, deveriam construir mais hotéis para alojarem os residentes que não conseguem arranjar os meios para obterem uma habitação decente.

É evidente que a Igreja de Macau e Paul Pun (que escreve coisas tão hilariantes como estas: "Besides, Caritas Macau has successfully bided to host the “Food Bank” services sponsored by Family and Community Department of the Social Welfare Bureau. An agreement of “short-term food assistance services” was signed for a period of two years in September 2011. This service is named “Centro do Serviço de Fornecimento Temporário de Alimentos da Cáritas” to help individuals or families in need of emergent food assistance. In a short period of three months (to the end of year), the service benefited more than 2000 people. Looking ahead, besides food assistance, “Food Bank” would develop enhanced service to encourage and help the clients to become more self-reliance. Macau's rapid economic growth has sharply increased rental price in private housing sector. Housing problems has become an annoying issue to the grassroots. Last year, Caritas Macau received a significant rise in housing assistance enquiries. Many residents were forced to move out their rental apartment because of the highly increased rental fee. We hope the SAR Government will step up efforts to care about the housing needs of the public and introduce effective measures to help the grassroots in solving their housing problem. Authorities has stressed that, to the end of 2012, the promised ninteen thousand public units would be achieved. We expect the allocation of public housing would be fair in future, and to be able to alleviate the plight of the grassroots.") também ainda não se aperceberam dessa melhoria das condições de vida da população. E é por isso que para além da colecta normal que se realiza durante as missas há uma colecta extraordinária a favor da Caritas.

Eu sugiro que da próxima vez o general Rocha Vieira diga essas coisas mais alto. Ou, se não conseguir fazê-lo, que peça ao Dr. Rangel ou ao Guilherme Valente para fazê-lo. Eles são homens disponíveis e sempre prontos a ajudá-lo nestas pequenas coisas.

O essencial é que continue. E que iludindo o avanço da senilidade, típica em pessoas da sua idade, continue a papagear a cartilha oficial.

Oxalá que para o ano o Instituto Internacional de Macau traga de novo a Macau o general Rocha Vieira. Para que ele possa experimentar os novos hotéis. O "13" vai ser a menina dos olhos do pessoal da Areia Preta.

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Patrocínios

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.03.17

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Vasco Pulido Valente (VPV) escreveu, e eu não tenho razões para duvidar, pois que ainda nem sequer tive acesso à obra, que o 2.º volume do livro contendo a biografia de Jorge Sampaio, um ex-Presidente da República, tem entre os seus patrocinadores empresas privadas e fundações cujo nascimento, pelo menos num caso, e cujas acções, em ambos e também em relação a PT e à Mota-Engil, têm gerado controvérsia e crítica em vários sectores da sociedade portuguesa.

No entanto, creio que VPV falha clamorosamente num ponto. Vendo o nome do autor do livro que surge na lombada, verifica-se que não foi Jorge Sampaio quem o escreveu, mas sim José Pedro Castanheira. Tratar-se-á, é certo, de uma biografia autorizada pelo próprio, só que isso não faz de Sampaio o autor do livro. E o autor certamente que não estava inibido de procurar obter os patrocínios que entendesse necessários à publicação, nada havendo que o impedisse de assim proceder. A não ser, talvez, ter avisado o biografado sobre os patrocínios que angariou, coisa que não sei se fez. Nem se o biografado, tendo sido informado, os aprovou. 

De qualquer modo, ao dizer que Sampaio é o autor do livro, VPV enganou os seus leitores. E isso é feio.

Em todo o caso, confesso que não esperava ver Jorge Sampaio, pessoa por quem tenho apreço e admiração pela sua acção como cidadão e político, metido nessa embrulhada do livro e dos patrocínios. Depois de o ter mantido e de ter sido enganado pelo último governador de Macau, já era tempo para Jorge Sampaio deixar de ser ingénuo.

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Uma escolha decente

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.03.17

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Os acontecimentos dos últimos dias impediram-me de dizer alguma coisa mais cedo, mas faço-o agora porque no meio de tanta tristeza e desconhecendo por onde passará o futuro, é bom saber que ainda existem referenciais de segurança e confiança. O Rodrigo Brum é um deles. A sua escolha para representar Portugal no Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau) é uma escolha mais do que merecida.

Com um percurso académico e profissional feito de trabalho, sem filiação partidária, empenhado e competente nos assuntos em que se envolve, leal a Portugal e aos seus valores, e não a homens ou organizações, com experiência de gestão, de análise de projectos e de gestão criteriosa de fundos, conhecedor da China, de Macau e dos Palop, sério e avesso a trafulhices, o Rodrigo foi uma escolha que honra os homens de bem, que só honra quem o escolheu.

De nada valeram as influências dos partidos, nem os emissários que foram apressadamente a Lisboa para mexerem cordelinhos junto do Governo português. Desta vez não entrou um dos paus-mandados, um dos homens de mão. A escolha do Rodrigo Brum foi uma escolha decente. A decência da escolha sobrepôs-se à habitual indecência das influências.

Bom trabalho para ele, porque os seus êxitos serão os de todos, a começar pelo Fórum.

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O ardina viajou

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.03.17

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Eu estava hospedado no central Metrópole. Já nos conhecíamos, mas naquele dia quente e húmido de Junho de 1993, ele veio buscar-me ao hotel, para irmos jantar, no belíssimo Saab 900 turbo, azul escuro, com os estofos de cor creme, que me ficaria na retina e viria a ser o meu carro nos anos seguintes.

Tratava-se de acertar os termos da minha contratação, qual mini-estrela do universo da advocacia lisboeta, com experiência anterior da Administração de Macau, referências de boa vizinhança nos anos em que cá residira, quando era apanhado logo pela manhã à porta do elevador com a sua mulher a dizer-me que a música era boa. E eu envergonhadíssimo pelo volume de som que saía das sinfónicas ou das vozes, então de Brel, Ferré e Brassens, que tomava conta do patamar de acesso aos elevadores, ali na Rodrigo Rodrigues.

Sempre impecável na simpatia e na afabilidade do trato, acertámos o pouco que havia, verbalmente, como é timbre entre homens de bem, e passados dois meses eu desembarcava de novo em Macau para me atirar de corpo e alma ao escritório que nessa época ficava no edifício da Nam Kwong, na Almeida Ribeiro, onde éramos vizinhos do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês.

Macau dera o salto da pequena vilória colonial da era pré-Almeidista, com pretensões a cidade, para a metrópole consolidada do final do século XX que crescera fora do espaço que lhe estava destinado, espremida entre a zona de aterros do porto exterior, mais a dos novos aterros e os que haveriam de vir a sê-lo mais alguns anos volvidos.

Nesse tempo, a Assembleia Legislativa (AL) era uma máquina de produção legislativa, atenta, rigorosa e eficiente que causava problemas à inércia governativa, aos amanuenses da Praia Grande e gelava os paninhos quentes com que alguns queriam tratar dos assuntos que interessavam a Macau e aos seus cidadãos.

Aqui demandavam os melhores e mais pragmáticos homens do direito. Não havia tempo a perder, nem lugar para protagonismos. Era tempo de combate. Era preciso tomar conta das acções em curso, preparar novas petições, analisar contratos, acompanhar as questões do aeroporto e da AL, ler os pareceres, formular uma opinião sobre os caminhos a seguir. E depois começaram as escrituras e impunha-se tomar conta daquilo tudo.

Não me perdi. Com o apoio de uma querida amiga, com o beneplácito do Rui, fui tratando de desempenhar as minhas tarefas com a competência e o brio de quem, acabado de chegar depois de um interregno de três anos, vinha disposto ao trabalho no escritório do parceiro contratante para que ele se pudesse dedicar por inteiro às questões da transição.

Anos antes, depois de uma reunião no Palácio do Governo, onde também funcionava a AL, discutíramos as primeiras questões do bilinguismo e as perspectivas do Prof. Heuser (Heidelberg), e quando em Novembro de 1989 me predispusera a regressar à pátria, ele teve a gentileza de nos convidar – à saudosa Lurdes, ao meu amigo Pedro Horta e Costa e a mim –, para almoçarmos na Galera, em jeito de despedida.

Nesse primeiro interregno da minha vida macaense continuei a contactar com o Rui, com o Frederico e o com o Francisco, prestando alguns serviços avulsos para uma pequena sociedade que tinham em Portugal. Foi pouco no volume e no valor, muito na solidariedade e no apoio a quem queria ingressar, sozinho, no complicado mundo da advocacia lisboeta, respeitando escrupulosamente as regras deontológicas. Creio que nunca lhes agradeci devidamente o que então por mim fizeram.

O regresso em 1993 foi, pois, mais fácil. Todas as questões se resolviam com uma aparente facilidade graças às referências que o Rui possuía e ao extenso conhecimento que tinha de leis, regulamentos, fontes e tudo o mais que era necessário num dia-a-dia onde não nos podíamos dar ao luxo de perder demasiado tempo com rodriguinhos. Havia o trabalho na AL, os actos notariais, os tribunais, o acompanhamento da imprensa, os contratos do aeroporto, as tertúlias e os tempos de descanso, que nisso o Rui tratava os trabalhadores como príncipes. Ninguém se queixava, e ainda havia a sua eterna boa disposição.

O pior era lá fora, na selva, onde o tráfico de influências, as negociatas, o compadrio, o clientelismo, os generais, os coronéis, os seus avençados e as seitas campeavam. Sabendo que o mundo não iria terminar no dia seguinte, e que a 1999 se seguiria 2000, a tudo isso o Rui resistiu. Com a maior das facilidades e sorrindo com desdém aos merceeiros que se deixavam vender por pataca e meia e uma quota num terreno. Depois, quando foi necessário assegurar informação credível e transparente lá surgiu o Futuro de Macau. Cumpriu a sua missão com seriedade. Outra coisa não seria de esperar.

Preocupado como estava com esse mesmo futuro, o Rui não se poupou a esforços. Eram leis e relatórios, múltiplas reuniões, mais o Conselho Superior de Justiça e até, por pouco tempo, a presença no Conselho Superior de Advocacia. Durou pouco a sua presença em tal órgão, de onde se demitiu. Fazer de corpo presente não era com ele. Hoje, alguns do que lamentam o seu trágico e prematuro fim foram os mesmos que ao melhor jeito estalinista eliminaram as suas referências na AAM. Como se ele não tivesse sido um dos primeiros, como se não tivesse, também ali, dado o seu melhor e não tivesse sido fundamental para que a AAM tivesse adquirido o estatuto que teve e, entretanto, tem vindo a perder. O Rui nunca ligou a essa desfeita que lhe fizeram. Eu protestei, sem sucesso, com os vários pastores que por lá passaram, mas estes nunca me deram resposta, e aquele rebanho seguiu pastando para onde o mandavam. Por isso, hoje, os tribunais estão como estão e o português assume cabisbaixo, não fora o esforço de alguns magistrados na sua preservação, o estatuto de língua morta perante a horda de ruminantes que dele tomou conta. Chorai, pois, que lenços não faltarão e sempre sobrarão as mangas das camisas quando aqueles forem levados pela corrente. O agravo não ficará com quem já partiu.

Como director dos SAFP deu o pontapé de saída para a reforma da administração, para dotar Macau de quadros capazes, competentes e bilingues. Foi acima de tudo um homem preocupado com os problemas da localização e autonomização jurídicas de Macau. Para o Rui, seria impensável deixar um sistema à mercê do que viesse de Cantão ou Fuquien, ou sujeito aos humores de um qualquer serventuário do poder ou do partido. Macau e as suas gentes, de qualquer origem ou etnia, e a dignidade de Portugal e dos portugueses que aqui vivem e trabalham deviam ser os únicos referentes, a marca indelével dos séculos e dos que aqui nos precederam entrando e saindo de cabeça erguida.

A revisão de 1990 do Estatuto Orgânico, a lei de imprensa, toda a legislação penal avulsa, dos animais às associações criminosas, a defesa intransigente dos direitos e garantias dos cidadãos de Macau, que se dúvidas houvesse ficou plasmada no relatório do financiamento da Fundação Oriente e, pouco depois, em 2000, quando nos estúdios da TDM sugeriu a devolução do dinheiro da Fundação Jorge Álvares à RAEM como única saída decente para o esbulho feito às gentes de Macau. Da pouca vergonha do Instituto Internacional de Macau e do caminho seguido pela Escola Portuguesa é escusado falar agora.

Também a Fundação D. Belchior Carneiro lhe deve hoje o belíssimo lar-residência de Oeiras, depois dele, do João Frazão e de eu próprio desbloquearmos o imbróglio do terreno que havia sido impingido aos irmãos da Santa Casa pelo belga, em leito de cheia e com o “aval”, como sempre, da Administração de Macau.

É bom recordar tudo isto agora que o último figurante da administração portuguesa, o reservista ao serviço da EDP, aqui desembarcou, iniciando nova romaria para rever a sua pandilha local a pretexto da Escola Portuguesa. Já se adivinha, de novo, o cheiro a barbecue.

Enfim, que hei-de eu dizer nesta hora triste em que vejo partir um amigo que me acompanhou ao longo de trinta anos, que me ajudou na vida e na carreira, que contribuiu com as suas ideias e achegas para o meu sucesso académico e que me abriu sempre as portas de sua casa como se fosse a minha.

O legado de um homem cujo sentido da honra e da dignidade estão acima dos circunstancialismos de conjuntura é sempre de difícil avaliação. Mas foram esses mesmos valores que o impediram de dobrar a cerviz a troco de medalhas, de tostões ou de milhões, como fez quando recusou ser advogado em regime de avença dos interesses do jogo. O Rui não estava para aturar tipos que acham que os milhões que ganham lhes dão o direito de pedir favores e de telefonar às 3 ou 4 da manhã de um spa em Las Vegas para insultarem o advogado que não lhes reconheceu as assinaturas nuns contratos manhosos num inglês mal redigido e destinados a uma terra onde se fala em português e chinês. Negociatas de bordel, golpadas e moscambilhas nunca foi com ele. A gente anda na rua e fala com as pessoas.

Quando se demitiu da AL, em ruptura com o soba colonial, estava preocupado com as questões da segurança, embora soubesse que Portugal se afundava em negociatas de sanitas, aquisições de quadros com dinheiros públicos por troca com facturas de livros e restauros de peças antigas que nunca regressaram, mas fê-lo com a lealdade de sempre. O Rui dispensava o comprometimento do seu nome e a reputação do escritório nos cambalachos de fim de ciclo do império. Por isso a CNN ou a imprensa estrangeira que vinha a Macau queria conversar com ele.

Da falta de alinhamento com as negociatas nos ressentimos todos lá no escritório, quando o trabalho escasseou à laia de represália. E também aí, nessa altura, não lhe foi ouvido um ai. Um senhor. Como também não foi ouvido quando numa auto-estrada, depois de um acidente, foi em auxílio dos outros, suportando a explosão de um outro carro em chamas para ver as mãos e a cara queimarem-se-lhe, sofrendo depois enxertos vários em Coimbra, para poder salvar uma mulher inconsciente que estava dentro de um veículo acidentado. Antes dos bombeiros chegarem. Ou agora, como ainda há dias o vi, lutando estoicamente, lutando como só um herói sabe fazer, mantendo sempre a compostura, a dignidade e o sorriso apesar de ver ali o seu próprio corpo ser corroído pela dor e a ingrata antecipação do fim a chegar.

O Rui nunca foi de fazer fretes porque era um homem sério e honesto como poucos. Porque teve a consciência em todo o seu percurso da necessidade de se preservarem princípios e valores, porque sabia que estes, ao longo da vida, não necessitam de segurança pessoal, e dispensam a pertença a igrejas, a seitas, a partidos ou a associações discretas. Em rigor, o Rui comportava-se sempre como o verdadeiro anarquista que nunca foi mas que no íntimo lhe espreitava.

Devo-lhe a amizade, a camaradagem, a confiança sem limite no meu trabalho, o estímulo e a palavra amiga na hora certa. E também o trabalho diário de ardina digital junto dos seus amigos, trabalho a que nem a doença retirava o humor após meses de sofrimento. Na primeira aberta, mesmo depois de doente e entre tratamentos, lá chegava o e-mail com o anexo e uma única frase: “o ardina está de volta”. Até ao fim, o Rui teve sentido de humor. O Rui foi um dos poucos duros que conheci em toda a vida, que sorria e inspirava qualquer que fosse o combate e o estado das tropas. Até a um céptico como eu.

Três décadas de convívio depois, vendo-o partir assim, desta forma apressada, inacabada, sem jeito, com tantos livros para lermos e discutirmos (o último que aqui tenho é “O que resta da esquerda?”, do Nick Cohen), tantos filmes para comentarmos (irei ver “O Silêncio” logo que possa), sem tempo para ele poder assistir à discussão do trabalho que me consumiu, envelheceu e roubou horas ao nosso convívio dos últimos anos, torna-se mais imperioso do que nunca assegurar-lhe que iremos todos continuar a discutir os milhões que vão para a Universidade de Jinan, os que à custa do desinvestimento na saúde pública de Macau contribuem para dinamizar a incompetência grosseira, encher os bolsos de clínicas e hospitais privados de onde um dia começarão a nascer os cogumelos dos novos casinos. Esses e todos os outros.

Enquanto os grilos locais tecem loas em seu nome e agitam a casaca negra entre missas, nós continuaremos a resistir. E a olhar por esse imenso legado. Na língua em que nos deixarem. Sem receio de perdermos alguns amendoins.

Porque no fim, o que verdadeiramente importa, como sempre nos importou, são os nossos. Os nossos valores, os nossos princípios, a nossa gente, que são aqueles com quem nos cruzamos no dia-a-dia, os que nos vêm bater à porta com um pedido de ajuda, os injustiçados desta vida, os que todas as manhãs nos dizem bom dia olhando-nos nos olhos.

Até ao fim, sans Dieu ni maitre, como cantou o Ferré, cá estaremos, Rui. Honrando a memória e o legado. Com os que estiverem connosco às sextas-feiras. E nos outros dias. À alvorada, se necessário. Continuando a percorrer os trilhos e as veredas incertas da vida com o mesmo à-vontade. Como homens livres que sempre fomos. Até ao fim. Resistindo sem quebrar. Como o bambu. Como tu fizeste, como só tu soubeste ser. O melhor dos ardinas. Até ao fim, sorrindo, sorrindo sempre.

Macau, 19 de Março de 2017

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 (também no HojeMacau)

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Ao Rui

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.03.17

 

La cigarette sans cravate
Qu'on fume à l'aube démocrate
Et le remords des cous-de-jatte
Avec la peur qui tend la patte
Le ministère de ce prêtre
Et la pitié à la fenêtre
Et le client qui n'a peut-être
Ni Dieu ni maître

Le fardeau blême qu'on emballe
Comme un paquet vers les étoiles
Qui tombent froides sur la dalle
Et cette rose sans pétales
Cet avocat à la serviette
Cette aube qui met la voilette
Pour des larmes qui n'ont peut-être
Ni Dieu ni maître

Ces bois que l'on dit de justice
Et qui poussent dans les supplices
Et pour meubler le sacrifice
Avec le sapin de service
Cette procédure qui guette
Ceux que la société rejette
Sous prétexte qu'ils n'ont peut-être
Ni Dieu ni maître

Cette parole d'Evangile
Qui fait plier les imbéciles
Et qui met dans l'horreur civile
De la noblesse et puis du style
Ce cri qui n'a pas la rosette
Cette parole de prophète
Je la revendique et vous souhaite
Ni Dieu ni maître

 

On se retrouvera. Obrigado, meu amigo.

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A Primavera está à porta

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.03.17

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As declarações de Assunção Cristas e o silêncio do PSD deixam muito pouco espaço para outras interpretações. O Conselho de Ministros do anterior Governo nunca discutiu as questões da banca, nem sequer às quintas-feiras. Discutir a banca para quê? Artistas, marialvas e fadistas tinham mais que fazer. Enquanto os portugueses sofriam cortes nos vencimentos, viam os impostos subir, apertavam o cinto e emigravam, havia quem pusesse o dinheiro em bom recato com os vistos do companheiro Núncio. E os ministros reuniam-se para tomar chá, combinar privatizações, almoçaradas e jantares e alegremente trocarem tachos e panelas. Os Conselhos de Ministros do Governo de Passos Coelho, ficámos agora todos a saber pela voz de uma das protagonistas, eram uma espécie de reuniões da tupperware.

Despachado o Melo para Bruxelas, em Lisboa ficaram coelhinhos, melros e andorinhas.

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Toda a estupidez é intolerante

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.17

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O tema, à partida, afigurava-se interessante. O orador é um reconhecido intelectual de direita, homem culto que sempre assumiu com coragem as suas convicções. Discutir o populismo e a democracia, compreender fenómenos como o Brexit, Le Pen e Trump não poderia ter mais actualidade. Sobre estes temas e outros idênticos já eu próprio participei num debate público e tive intervenções versando esses temas num programa de rádio onde regularmente intervenho. E, pergunto eu, que poderá haver de mais estimulante, mesmo para quem professe ideias contrárias, do que debater com um intelectual da craveira de Jaime Nogueira Pinto essas questões da actualidade política, questões que por esse mundo dividem a direita da esquerda, o pensamento neo-liberal e conservador do socialismo democrático, os radicalismos extremistas dos diversos modelos de democracia?

Confesso que tanto me faz que a intolerância venha da direita xenófoba e racista, de uma "associação de estudantes" de "orientação maoista" (ainda há maoistas?; eles sabem o que é o maoísmo?) ou de um triste Sousa Lara.

Como uma vez mais se prova, a estupidez não tem cor política. Aquilo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa, uma respeitável instituição de ensino, com excelentes professores e pensamento crítico, é mais uma evidência de que muitas vezes os piores sinais vêm de onde menos se espera. De onde não podem vir. Uma academia, uma universidade, é um espaço de excelência para a troca de ideias, para a discussão e o debate, para a divulgação de experiências e conhecimentos. Sem debate e discussão não há pensamento crítico, não há inteligência, não há luz. 

Como qualquer homem livre, avesso à intolerância, às trevas e à estupidez  – esta passagem dá para perceber o nível dos censores: "[n]ão compactuamos com eventos apresentados como debates sob a égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional" (sic) –, adepto de um bom debate, de uma discussão acalorada em torno de um punhado de ideias, quero aqui deixar registada a minha indignação e tristeza pelo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa.

Jaime Nogueira Pinto não será um novo Savonarola ou um Giordano Bruno. Ele merece a nossa solidariedade e eu espero que possa apresentar as suas ideias, para que possam ser discutidas, criticadas e apoiadas por quem quiser, tão breve quanto possível numa qualquer outra instituição universitária onde os estudantes se comportem como tal.

Porque só isso poderá ser salutar para a universidade, para a democracia e para a liberdade. Porque as ideias combatem-se com ideias, e não com a estupidez ignorante. Porque a intolerância não é esquerdista. A intolerância é pura e simples estupidez. E só no reino da estupidez é que a manifestação de uma opinião, seja de direita ou de esquerda, é um crime ou um delito. Portugal já tem estupidez que chegue.

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Vai levar a palma ao Saraiva

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.17

"Basta o residente não ser “habitual”, isto é, ser estrangeiro ou ter regressado de uma estadia de mais de cinco anos fora do país, para Portugal ser um domicílio fiscal muito agradável. No portal das finanças, está confessado o objectivo de “atrair beneficiários de pensões obtidas no estrangeiro”. Resultou no caso da Suécia, donde as partidas para Portugal terão triplicado entre 2011 e 2014."

 

Se António Costa tivesse alterado o regime teria feito mal porque Portugal precisava dessas receitas. Como até agora ainda não o alterou, António Costa faz mal na mesma. É lógico, de acordo com a irrepreensível lógica do historiador Rui Ramos.

Apenas lamento que Rui Ramos não tivesse perguntado na altura, isto é, no tempo do governo da coligação PSD/CDS-PP, quando essas partidas da Suécia para Portugal ajudaram a compor as contas de Vítor Gaspar e de Maria Luís Albuquerque (e ainda assim foram insuficientes para atingirem um défice de acordo com as exigências de Bruxelas), se também então podíamos ser suecos.

É que se o Governo de Passos Coelho (o das ajudas de custo e despesas de representação), do "Dr." Relvas (o da licenciatura a jacto) e do Dr. Macedo (o dos vistos gold) me tivesse permitido, nessa altura, ser sueco, talvez hoje, a milhares de quilómetros, não me sentisse tão português e tão parecido com os gregos de cada vez que transfiro dinheiro para pagar as contribuições da minha futura reforma.

 

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Então e os outros?

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.17

 

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"Acho extraordinário que seja possível deitar pela janela fora dezenas de milhares de milhões de euros e ninguém preste contas sobre o que é que aconteceu. O que é que o Banco de Portugal andou a fazer durante estes anos todos? Porque é que os senhores que saem, depois de não terem conseguido tomar conta dos recados, depois já podem voltar? Porque é que há esta dança de cadeiras e ninguém assume responsabilidades em relação a assunto nenhum? O que é que nos garante que não vai voltar a acontecer?"

"Porque é que neste caso [CGD], que custa ao erário público milhares de milhões, não se pode saber?"

"Ameaça ao regime? Pobre regime se depende só disso. Era uma ameaça aos ladrões."

"Como é que é possível pensar que uma tão grande parte da população aceita que uma parte importante dos impostos, que paga com esforço, seja para cobrir coisas que ninguém sabe bem o que é que foi? Lança-se suspeições sobre tudo no geral. Eu não acredito que todas as pessoas se portem mal. Agora, acho que é muito útil saber-se que, quando se tem determinados lugares, se pode ser responsabilizado pelo que se faz. Em Portugal, temos muita dificuldade em sair deste bom rapazismo, onde ninguém diz mal de ninguém, ninguém critica, porque ‘amanhã também posso precisar’. É um ambiente péssimo."

 

Alertado pelo título de uma notícia do Observador, fui ler a entrevista de Pedro Ferraz da Costa ao ECO (economia online).

Há muitos pontos em que estou em clara divergência com Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Conselho Directivo do Fórum para a Competitividade, mas não posso deixar de concordar com ele quanto às transcrições que acima faço.

Distâncias à parte, aquilo para que o entrevistado chama a atenção não constitui nada de novo. Em causa estão factos cujo conhecimento está ao alcance de qualquer cidadão minimamente interessado, factos que ciclicamente se repetem, de tal forma que ao fim de quatro décadas de democracia são quase que assumidos como se fossem normais. Só assim, aliás, se compreende que se continuem a fazer as coisas como sempre se fizeram, nunca se percebendo muito bem quem se quer ou se está a proteger nesse modo de assim fazer. A começar pelas comissões parlamentares de inquérito que não raro só servem para o espectáculo mediático.

E embora não deixe de ser preocupante que se tenha chegado ao ponto de ser um patrão, num país de tantos trabalhadores, a fazer tais afirmações e a colocar as interrogações que todos a nós próprios há muito devíamos ter formulado, importaria não restringir o âmbito dessas questões ao universo da CGD. Eu também quero saber, e todos devíamos querer saber, quem foram, quem são, os tipos (não vou ao ponto de lhes chamar "ladrões") que beneficiaram com as moscambilhas da PT, do BES, do BANIF e de todas essas empresas que andando paredes-meias com o Estado e com alguma maltosa que andou, e que ainda anda, alguns de forma dissimulada, pela política e os partidos, beneficiam das negociatas, dos esquemas e dos empréstimos, não prestando contas a ninguém, sendo permanentemente desresponsabilizados e dando cabo dos milhões que depois sobram para os portugueses pagarem.

É fundamental saber, até para que no futuro não haja governantes a incluírem em comitivas oficiais empresários em situação de insolvência.

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Antes tarde

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.02.17

"Tendo em conta o tempo que decorreu entre os factos e o presente e tendo tido agora a oportunidade de revisitar os documentos que têm sido noticiados, nomeadamente os apresentados pelos serviços para publicação de informação estatística das transferências transfronteiriças, considero legitima a interpretação dos serviços que levou à não publicação das estatísticas no portal das Finanças. Assumo, por isso, a responsabilidade política pela não publicação das referidas estatísticas."

Só fica a faltar a assunção de responsabilidades pelos seus exaltados superiores, que vêem conspirações e indignidades em tudo o que não lhes convenha em matéria de apuramento de responsabilidades. Entretanto, puxem uma cadeira.

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Distracções

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.02.17

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 (foto Daniel Rocha/Público)

O País arranjou mais um motivo para se entreter, para se perder em discussões estéreis e, provavelmente, arranjar mais uma comissão para não concluir coisa alguma.

É normal que em Portugal os dirigentes se desresponsabilizem de cada vez que há problemas nas áreas sob a sua responsabilidade ou que as suas receitas não dêem os resultados esperados. E tanto faz que sejam membros do Governo, actuais ou passados, autarcas, administradores de empresas ou responsáveis partidários. As excepções são raras e contam-se pelos dedos de uma mão.

Todavia, não existe nada de mais reprovável num dirigente do que não só desresponsabilizar-se como ainda aproveitar para atirar responsabilidades para os inferiores hierárquicos. Como se eles, dirigentes, não estivessem lá para exercerem o poder, para mandarem, para tomarem decisões, para assumirem os riscos do mando, para usufruírem dos respectivos benefícios e cumprirem as obrigações que se esperam de um dirigente, das quais uma das menos olvidável será a do legado e do exemplo que deixem para os seus subordinados, embora sejam poucos os que se preocupam com a imagem que transmitem para dentro e para fora da organização a que pertencem.

Os maus exemplos têm-se multiplicado, alguns começando mesmo na Presidência da República e na Gomes Teixeira. De S. Bento, e do papel de alguns deputados, há muito que deixou de fazer sentido falar-se do que a maioria por ali faz, pois são poucos, em especial nos maiores partidos, os que produzem algo de útil e fazem mais do que levantar o braço ou carregar num botão nos momentos das votações, funcionalizada como está, a todos os níveis, a política e o exercício da função de deputado. São deputados mas se estivessem a picar o ponto num qualquer serviço da administração pública ou numa fábrica ninguém notaria a sua falta. 

O que neste momento se repete com a saga das "offshores", com as estatísticas que ficaram por divulgar, com os 10 mil milhões que voaram nas barbas do fisco, do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e dos titulares das Finanças, corresponde ao padrão habitual (e repare-se que não estou a discutir se era devido o pagamento de quaisquer impostos ou não). Uma vergonha que é a imagem de uma boa parte da nossa elite dirigente, daquilo que temos à disposição nos partidos e nos Governos e um exemplo da forma como os responsáveis são os primeiros a se desqualificarem, protegendo os partidos essa recorrente desresponsabilização.

Sempre pensei que responsáveis políticos, administrativos e empresariais que se limitam a colocar "vistos" nas informações e propostas que lhes chegam remetidas pelos subalternos dariam excelentes amanuenses, servindo para tudo menos para dirigir o que quer que fosse. Como se essa gente não fosse paga para dirigir, orientar e decidir.

Atirar para a Autoridade Tributária a responsabilidade pelas consequências dos seus próprios "vistos" (o que é que um tipo faz com um "visto"?), bem como a ausência de resposta às propostas que lhe foram enviadas para a divulgação das estatísticas, não está ao nível do que se espera de um secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, mas sim ao nível de um cabo de esquadra.

Não admira, pois, que à medida que se vai sabendo mais alguma coisa sobre o que foi o descalabro da gestão de Núncio e do CDS-PP nos Assuntos Fiscais, um cidadão normal fique preocupado ao recordar-se de ouvir o "atira-culpas" dizer que "quando os socialistas gastarem o dinheiro que ainda resta e a festa acabar, o CDS tem de estar preparado para exercer uma vez mais o exercício do poder e a sua acção governativa". 

Como já se viu que latosa é coisa que não lhe falta, calculo que para Núncio o dinheiro que os socialistas andam a gastar será aquele que resta, ou seja, aquele que ele e os seus pares no Governo não conseguiram que saísse do país com os tais 10 mil milhões, já que só assim se compreende a desfaçatez com que o afirma.

Mas esse é um problema do visado e do partido que lhe dá guarida.

o modo como tudo isto é visto pela direcção do partido a que Paulo Núncio pertence, que se permite afirmar "que sobre o combate à fraude e à evasão fiscal, nós estamos muito tranquilos, porque sabemos muito bem o que fizemos no anterior Governo" (vê-se), é um problema dos seus militantes, dos seus eleitores e de todos nós. Como também foi, e ainda é um problema de todos nós, só para referir alguns exemplos, o que aconteceu com José Sócrates ou com as PPP, com o desempenho presidencial de Cavaco Silva, com a CGD, com a PT ou com o modo como as nossas autoridades judiciárias continuam a investigar e a julgar.

Seria por isso bom que os portugueses não se distraíssem com os núncios e as freiras que por aí arengam, nem com os seus números de feira, perdendo de vista o essencial.

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Ele que se chegue à frente

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.17

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 (foto JE, Cristina Bernardo)

Começo a ficar nauseado com as notícias que leio da novela da CGD. Estou cansado da conversa dos sms de António Domingues para Mário Centeno. Eu sei que há quem não queira que sejam divulgados, apesar de poder perceber a razão. E também que o Presidente da República tivesse ficado incomodado com a situação.

Estou por isso mesmo de acordo com a proposta do líder parlamentar do BE.

Se o Dr. António Domingues faz tanta questão em "enterrar" o ministro das Finanças, por se sentir enganado, despeitado ou injustiçado, então que se chegue à frente. E em vez de andar a verter os sms pelos amigos aos bochechos, que depois os vão mostrar ao Presidente da República, aos jornais e a todos os que com eles tomam café, e que no dia seguinte reproduzem veladamente o respectivo conteúdo sem que a gente (opinião pública, cidadãos normais) possa saber quem verdadeiramente está a falar verdade ou a mentir, o ideal é que tenha a coragem de os mostrar de uma vez por todas para se acabar com o forró e não se perder tempo com comissões e merdas quejandas tão ao gosto daquela rapaziada das "jotas" de São Bento.

O Dr. António Domingues que convoque uma conferência de imprensa e distribua uma impressão dos sms à comunicação social. Será a única maneira das comunicações ficarem acessíveis a todos de uma vez e de cada um poder tirar, sem filtros nem intermediários, as respectivas conclusões.

Não acredito que alguém na posição de António Domingues, com o seu currículo e tão elevado sentido da honra e da palavra, necessite de andar a passar a informação dos sms, às escondidas, para o Observador e o Correio da Manhã. A não ser que haja que cumprir a agenda de alguém, haja mais alguma coisa que ainda não nos tenha sido dita ou lhe falte uma outra coisa. 

De qualquer modo, seja qual for a razão, será bom que se despache. Não vale a pena continuar com esta farsa. O País tem mais que fazer do que perder tempo com novelas deste jaez. Era só o que faltava ter agora de aturar um tipo de conversa como este, vindo de onde vem, sobre os sms.

Acabem lá com isso. O Dr. Domingues que seja homenzinho e mostre ter sentido de responsabilidade. Ninguém é insubstituível.

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Mais um caso para o Poirot

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.17

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O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desconhece de que assunto se trata. Eu também. Os inspectores tributários querem ver esclarecido o destino de 10 mil milhões de euros. Eu também. O Ministério das Finanças e os partidos, através dos seus deputados no parlamento, querem saber o que se passou. Eu também.

Entretanto, "[h]á oito meses que estão a marinar no Parlamento várias propostas para combater a “criminalidade económica, financeira e fiscal”". Só há oito meses?

Longe de Portugal, perdido como já estou no meio de tantas "reformas" do Estado, da Administração Pública e de tudo e mais alguma coisa, creio que a pessoa ideal para esclarecer o que aconteceu aos milhões, e todos os outros mistérios que assolam o nosso país, é o meu velho amigo Hercule Poirot. É tipo para fazer um trabalho limpinho. Não cobra honorários, desconhece o que são horas extraordinárias ou subsídios, não é funcionário do Estado, não depende de nenhum partido, não pede emprestado aos amigos, nunca foi ao BES, não conhece ninguém na CGD, e ainda confidenciou-me que não faz tenções de se reformar. 

Para já, é uma sorte que se saiba quem são os beneficiários do subsídio de lavagem. Desta parte está o Poirot livre. Mas, pelo sim, pelo não, o melhor é que ele também investigue se todos os que recebem o subsídio tinham um carro para lavar. Ainda me lembro de em tempos haver uns figurões que recebiam um subsídio de residência, por estarem deslocados em Lisboa, tendo casa própria na capital. E houve um que até foi a correr mudar a residência para o Algarve para passar a receber o subsídio.

Em Portugal, nestas coisas das lavagens, seja dos carros ou dos milhões, sabe-se sempre quem paga e quem fica sem os milhões, tal como nos subsídios. Mas nunca se sabe muito bem quem lava o quê e a quem. Nem com que mão.

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Isto está a animar

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.02.17

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Pois é, contra factos não há argumentos, diz ele. 

Então e a dívida, que Passos Coelho, Gaspar e Maria Luís Albuquerque andaram durante quatro longos anos a fazer que encolhiam, e que António Costa está aflito para conseguir controlar, isso não interessa?

Já nem falo dos 10 mil milhões que entre 2011 e 2014, a Autoridade Tributária, na altura sujeita aos olhinhos da coligação PSD/CDS-PP, deixou sair de Portugal para paraísos fiscais, porque lá virá o tempo em que também mais essa roupa se lavará. Temo é que haja nódoas e odores que já não saiam e que também não possam ser imputadas aos antecessores.

O melhor mesmo, enquanto não sair o segundo volume da nova edição da sebenta do Prof. Cavaco, é aguardar pelas explicações do Prof. Bambo, personalidade de reconhecido mérito junto dos meios judiciais. Ele deverá ser, neste momento, o único capaz de se pronunciar sobre o que está a acontecer, e sobre o que mais irá acontecer aos portugueses, sem correr o risco de lhe serem chamados nomes feios. Por exemplo, como "burlão". 

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Agora é a minha vez

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.02.17

 

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 (foto economia online)

Afastado como estou das confusões da política à portuguesa, tenho-me limitado a acompanhar à distância o que por Portugal vai acontecendo, fazendo fé nos relatos que me vão chegando, no que me é oferecido pela RTPI e, em especial, pela imprensa. E sobre o que tenho ouvido, visto e lido bem posso dizer que não estou nada satisfeito porque os anos passam e quase tudo continua na mesma. Em particular no que diz respeito ao comportamento dos partidos e dos agentes políticos.

Mas antes disso, convém dizer que resolvi fazer uma visita até aqui para vos dizer o que penso do "affaire" CGD/Centeno. A novela já vai longa e é tempo de se colocar um ponto final na bagunçada. Chafurdar na lama normalmente não acrescenta limpeza aos intervenientes, nem claridade ao que que lá se busca.

Não haverá português que ao ouvir falar da CGD, para todos os efeitos o maior banco nacional e uma entidade que faz parte de um grupo empresarial em que o Estado tem um papel determinante, que não pense logo no que há décadas vem acontecendo com aquela casa em matéria de distribuição de lugares a correligionários políticos e empresariais, contribuição para algumas reformas chorudas e atribuição de créditos para negócios mais do que duvidosos que depois acabam sendo pagos por todos os portugueses e enrodilhados nos meandros das investigações do Ministério Público. Gente ligada ao CDS/PP, ao PSD e ao PS, pelo menos estes, que me lembre, tem passado pela CGD como se o banco fosse uma sucursal dos próprios partidos onde é necessário colocar capatazes, amigalhaços e compadres para agradecer os respectivos favores políticos e garantir financiamentos a afilhados que de um momento para o outro resolvem ser "empresários". À nossa custa.

O que recentemente aconteceu com o ministro das Finanças e António Domingues nunca deveria ter acontecido, e não é pelo facto do Primeiro-Ministro se chamar António Costa ou o PS ser governo que existe atenuante para o que aconteceu. O caso é revelador de uma inépcia política inqualificável por parte do ministro das Finanças, só justificável pela sua própria inexperiência e voluntarismo. Mário Centeno quis resolver um problema, dar uma gestão mais profissional à CGD, só que fê-lo da forma mais desastrada possível de que há memória.

Dou de barato que o ministro não é um político de carreira, que a sua experiência político-partidária era igual a zero, e que apenas estava preocupado com a situação do banco e a obtenção de uma solução que servisse os interesses da instituição e dos portugueses. Quanto ao escolhido, o banqueiro Domingues, como é normal quando se convida qualquer pessoa para mudar de um emprego para outro, procurou obter as melhores condições remuneratórias possíveis, mantendo o sigilo que lhe parecia conveniente e assegurando uma equipa da sua confiança. Até aqui tudo normal. O que aparentemente se tratava de uma situação corriqueira complica-se, daquilo que me foi dado perceber, quando Domingues resolve fazer exigências que à partida deveria ter tido o bom senso de nem sequer pensar nelas. Domingues saía de um pequeno banco para uma entidade de muito maior dimensão, pelo que presumo que curricularmente, mesmo para um banqueiro, não seja coisa despicienda. Quando se passa de um estaminé de bairro para um empório peninsular as responsabilidades aumentam e a projecção é outra. Isto também tem um valor. Em todo o caso, não me parece que as condições remuneratórias oferecidas pelo banco público fossem más, nem pareceu que fosse essa a razão da disputa.

Onde parece que as coisas se desalinham é quando o banqueiro pretende obter para si um regime de excepção, claramente à margem do legalmente aplicável, e o ministro, vou admiti-lo em função do que veio a público e do que referiu Lobo Xavier, resolve dar-lhe trela em vez de liminarmente cortar a direito e dizer ao senhor Domingues que tivesse juízo, directamente ou através de um dos seus secretários de Estado. Não o fez quando o devia ter feito e foi por essa razão que chegámos ao ponto onde estamos. Domingues esteve muito mal quando se lembrou de propor ao ministro a desobrigação da entrega das declarações de património como uma das condições para aceitar o desafio de liderar a gestão da CGD e convidar os restantes membros dos órgãos sociais. Domingues sabia quais eram as condições vigentes para liderar o banco público e devia ter tido a vergonha, já que do ponto vista cívico não deixa de ser uma vergonha, mais a mais vinda de quem está na sua posição, de alguém que faz parte de uma elite nacional, de não propor isso ao ministro. Como se sabe, a educação, o dinheiro e a excelência do desempenho profissional nem sempre dão bom senso e qualquer um de nós está sujeito a ter um momento menos feliz. Ele teve ali o seu.

Posto isto, o que veio a seguir já é do domínio da chicana política, em que são useiros e vezeiros alguns dos nossos maiorais partidários. Aquilo que sucedeu não serve para desqualificar tecnicamente Mário Centeno, cujos resultados são incontornáveis (não obstante o crescimento da dívida, mas este é mal que quem o precedeu também não conseguiu controlar em tempos de austeridade), mereceram aplauso em Bruxelas, declarações encomiásticas dos comissários Moscovici e Carlos Moedas, pelo menos destes, e o silêncio de Wolfgang Schäuble, o tal que dizia que Portugal estava no bom caminho até entrar o actual governo e que até agora, perante o défice mais baixo da história da democracia portuguesa e os números que foram conhecidos, mantém um envergonhado e comprometido recato.

O Primeiro-Ministro protegeu o seu ministro, como faria qualquer outro no seu lugar, e isso não lhe pode ser censurado. Não é a mesma coisa, convenhamos, que proteger quem tem licenciaturas de favor, usou a política para se promover e enriquecer ou andar a promover vistos gold. Nem é a mesma coisa que andar de braço dado com os Duartes Limas, os Loureiros e a maltosa do BPN e da SLN para depois só andar preocupado com as mentiras de um tipo como o Sócrates, a ponto de ter necessidade de lhe dedicar uma sebenta.

O Presidente da República fez o que lhe competia. Ficou zangado. Eu também ficaria, mas como o próprio sabe, no lugar em que está, por vezes, também tem de dar alguns mergulhos e engolir alguns sapos. Nessa matéria também não é nenhuma virgem e ele sabe como se há-de proteger.

Mal, muito mal, estiveram os partidos da oposição. E sobre o que Passos Coelho, Assunção Cristas e a sua malta andaram a dizer, e a sua preocupação em divulgarem os sms trocados entre Centeno e Domingues, gostaria de dizer uma coisa. Eu, como todos os portugueses, temos todo o interesse em conhecer o conteúdo dessas comunicações. Considero-as de interesse público e penso que são relevantes por razões de transparência e higiene da nossa democracia. 

Convirá, porém, dizer que considero perfeitamente aceitável a posição do PS e dos partidos que apoiam o Governo, tendo presente o passado próximo e aquilo de que a Oposição já se esqueceu. Não foi assim há tanto tempo como isso que Passos Coelho, quando confrontado com os pagamentos da Tecnoforma e a trapalhada das suas deslocações e das despesas de representação veio dizer, também perante factos de relevante interesse público, que não estava disposto a autorizar o "striptease" das suas contas bancárias, querendo à viva força que se confiasse na palavra de quem já fora apanhado em diversas "inverdades" e mentira descaradamente aos portugueses quando andou a convencê-los para lhe darem o seu voto. Foi a própria Assunção Esteves, ao tempo presidente da Assembleia da República, quem protegeu Passos Coelho e impediu o acesso do PCP aos documentos que clarificariam a situação do então primeiro-ministro, a qual até hoje, pelo menos para mim, continua por clarificar e envolta em muitas dúvidas. É bom recordá-lo.

E também que o PSD e o CDS/PP enquanto foram poder inviabilizaram todos os inquéritos em que a sua gente esteve envolvida. O caso mais escandaloso foi aquele que dizia respeito à ex-ministra das Finanças. Agora fazem-se de virgens ofendidas, esquecendo que em Julho de 2013, a audição que tinha sido requerida com carácter de urgência pelo Bloco de Esquerda (BE) fora por eles chumbada. Em causa estava, recordo, a acusação de que Maria Luís Albuquerque faltara à verdade e eram públicas informações de que recebera informação por escrito, designadamente do Director-Geral do Tesouro e Finanças, sobre a situação das perdas potenciais dos swaps. Em 25 de Julho de 2013, o Público referiu que "os emails enviados pelo ex-director-geral do Tesouro e Finanças, Pedro Felício, à agora ministra das Finanças em Junho e Julho de 2011 já continham informação sobre swaps e indicavam uma perda potencial de 1,5 mil milhões", acrescentando-se que "a troca de emails diz respeito aos dias 29 de Junho, 18 de Julho, 26 de Julho e 1 de Agosto". Até hoje estou para ler esses emails e para saber se Maria Luís Albuquerque mentiu, como acredito que aconteceu, ou se fez o que devia.

Que agora não seja possível ter acesso aos sms e às respostas que terão sido dadas por Mário Centeno a Domingues é mau para as nossas instituições e para a nossa vida democrática. Não concluo que tudo do que foi dito e veio a público seja verdade, pelo que importa por isso mesmo lembrar que aqueles que vêm agora armar um escarcéu por causa dos sms trocados entre Centeno e Domingues – sendo certo que não é o facto de um tipo escrever a um ministro a dizer o que quer que permite retirar qualquer assentimento do destinatário quanto às exigências que fez se nada for dito nesse sentido –, são os mesmos que no passado protegeram Dias Loureiro no Conselho de Estado e Miguel Relvas no Governo, e que inviabilizaram o esclarecimento das situações envolvendo Passos Coelho e a Tecnoforma e Maria Luís Albuquerque e os swaps.

É uma chatice ter de vir falar nisto nesta altura, só que perante tudo o que se tem escrito sobre este assunto e o circo que se montou, talvez seja altura de dizer que se o PSD e o CDS/PP tivessem tido então uma atitude decente, talvez agora estivéssemos todos, a começar pela Oposição, em posição de exigir, com outra autoridade, o conhecimento público das comunicações trocadas entre Mário Centeno e António Domingues.

Para mal dos nossos pecados, não têm agora de que se queixar. É pena, mas depois do que fizeram também não merecem outra coisa.

Quanto ao futuro, presente o sucedido, o que sugiro é que os partidos se entendam em sede parlamentar e acautelem a forma como deverão amanhã proceder perante situações idênticas. Não é só no futebol, em relação aos árbitros e aos artistas da bola, que devemos ser lestos a exigir responsabilidade, respeito e fair play. Temos obrigação de também os exigir na política e aos partidos. Isto se não quisermos que as futuras gerações tenham vergonha de nós. E se tivermos vontade de nos corrigirmos, evidentemente.

De outro modo, pode ficar tudo na mesma. Como sempre. Como até aqui. Entregue à gandulagem que medra encostada aos partidos e à democracia. Ninguém estranhará. Talvez um dia.

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Antes de eu voltar

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.02.17

 

Antes de voltar às lides, e de me pôr a comentar o livro de Cavaco Silva, os emails da CGD ou as arbitragens no Dragão, convém ter uma ideia do mundo em que estamos...

Just in case.

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Paulo Varela Gomes

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.02.17

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"A culpa não se expia, nem sequer pelo crime. Só Deus perdoa."

 

Partiste cedo, mas chegas sempre a horas. Obrigado.

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O espírito de Westminster

por Sérgio de Almeida Correia, em 03.02.17

 

Falar de democracia é falar do que se passa no Reino Unido e no parlamento britânico. Neste caso numa das suas câmaras, a House of Commons. Ontem foi votada a lei que permitirá à primeira-ministra Theresa May iniciar o processo negocial de saída do Reino Unido da União Europeia. Depois de suceder a David Cameron na liderança dos Tories, em Julho passado, May foi obrigada pelo Supremo Tribunal, na sequência de uma decisão que teve 8 votos favoráveis e 3 contra, a pedir autorização ao parlamento para desencadear o mecanismo legalmente previsto para o abandono. Na sequência dessa autorização, o assunto foi levado ao parlamento que ontem deu o seu acordo à lei e autorizou a primeira-ministra a accionar o processo do artigo 50.º do Tratado de Lisboa.

Theresa May não chegou ao poder em resultado de uma qualquer vitória eleitoral, mas em consequência do referendo conduzido pelo seu antecessor David Cameron, mas nem por isso tem menos legitimidade política de acordo com as regras vigentes em Westminster. Já se esperava que a lei fosse aprovada e isso veio efectivamente a ocorrer com uma votação esmagadora de 498 a favor e 114 contra. Entre estes últimos estão os 49 votos dos deputados do Scotish National Party. Dir-se-á que uma vez mais a democracia funcionou, embora possa haver quem estranhe o resultado desequilibrado da votação tendo em atenção a distribuição de deputados entre os diversos partidos. Mas sobre este ponto a explicação é simples: a democracia funcionou. Apesar de 47 deputados trabalhistas terem violado a disciplina de voto imposta pela direcção do Partido Trabalhista aos seus parlamentares, o Labour votou a favor.

Em tudo isto, apesar do que possa à primeira vista parecer, há uma coerência notável. Até mesmo por parte daqueles que votaram contra o diploma mantendo-se fiéis às suas convicções. E encontra explicação naquele que terá sido, porventura, um dos mais notáveis discursos dos últimos anos proferido naquela casa. Refiro-me ao discurso de Sir Keir Starmer, deputado do Partido Trabalhista eleito pelo círculo de Holborn and St. Pancras. Convido os leitores a ouvirem esse discurso na íntegra e as explicações que ele dá para o sentido de voto do Labour, apesar da sua oposição à saída da União Europeia, e que se resume numa única frase: "We are in the Labour Party, above all, democrats". E como democratas limitaram-se a respeitar a vontade do povo cumprindo o formalismo necessário.

Quando oiço as palavras de Starmer e recordo o que ele disse, ao olhar para o que habitualmente se passa em Portugal, na Assembleia da República, não posso deixar de registar o quanto estamos longe disto. O Reino Unido poderá sair da União Europeia, certamente irá fazê-lo, mas a Europa jamais se livrará do exemplo que vem do outro lado da Mancha, do espírito de Westminster. Democracia foi o que ali se passou ontem. Tomem nota.

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Um pesar doentio

por Sérgio de Almeida Correia, em 20.01.17

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Xinhua News Agency | Sun, 2017-01-08 MACAO, Jan. 8 (Xinhua) -- Chui Sai On, chief executive of China's Macao Special Administrative Region (SAR), on Sunday expressed his deep sorrow for the passing of former Portuguese president Mario Soares and great condolences to his family.

Soares had deep relations with Macao and he would be remembered forever, Chui said, noting that Soares had visited Macao three times. (...)

 

Xi expressed deep grief over the passing of Soares and his heart-felt condolences to the relatives of the former president.

The Chinese president hailed Soares as a great statesman and an old friend of the Chinese people, who had made great contributions to the establishment of China-Portugal diplomatic relationship and its growth, as well as the settlement of the Macao issue.

China pays great attention to developing relations with Portugal, and is willing to work together with the Portuguese side to enhance cooperation in different fields, and further promote bilateral ties, Xi added. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/01/2017, 22:11:47)

 

Chinese Premier Li Keqiang on Tuesday sent a message of condolences to his Portuguese counterpart, Antonio Costa, over the death of former Portuguese President Mario Soares.

On behalf of the Chinese government and the Chinese people, Li expressed deep grief to the Portuguese side and extended sincere condolences to Soares' family.

Soares was a highly respected statesman in Portugal and made great contributions to China-Portugal friendship and cooperation, Li said. (...)” (XINHUA NEWS AGENCY, 10/1/2017, 22:37:52)

 

Na sequência do falecimento de Mário Soares, homem de Estado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Primeiro-Ministro e Presidente da República portuguesa, que entre outras coisas nomeou os últimos três governadores de Macau, isto é, aqueles que prepararam e conduziram a transferência de administração de Macau para a R. P. China, José Pereira Coutinho, deputado da Assembleia Legislativa, achou por bem apresentar um voto de pesar pelo falecimento daquele português.

Tratava-se, através dessa forma singela, aliás prática normal nos parlamentos dos estados civilizados, de homenagear alguém que em vida foi importante pelas suas acções, enquanto político e homem de Estado, manifestando o reconhecimento pelo seu papel, pela amizade, a solidariedade e o acompanhamento na dor àqueles que acabaram de sofrer a perda.

À partida, nada faria prever aquilo que aconteceu. Em especial, depois do Presidente chinês, do Primeiro-Ministro da R.P.C. e do próprio Chefe do Executivo da RAEM terem transmitido as suas condolências, a sua “profunda tristeza” (“deep sorrow”) e “profunda dor” (“deep grief”) pelo falecimento de Soares, aproveitando a ocasião para sublinharem o seu papel no aprofundamento das relações com a China e com Macau, enaltecendo o seu contributo para a resolução de uma questão legada pela história, que era a questão de Macau.

Recorde-se que em todos os momentos a R.P.C. enfatizou a forma exemplar como a transição foi conduzida e a questão de Macau resolvida, pelo que seria da mais elementar justiça que a Assembleia Legislativa de Macau, pela iniciativa de Pereira Coutinho, do seu presidente ou de qualquer outro deputado, a começar pelos nomeados pelo Chefe do Executivo, tomasse a iniciativa de apresentar esse voto de pesar.

Estranhei, pois, quando ao final do dia de ontem (16/01/2017) ao ouvir as notícias me apercebi de que o voto de pesar apresentado pelo deputado Pereira Coutinho na sessão plenária da Assembleia Legislativa de Macau fora votado por apenas 20 deputados, de um universo de 33, e que daqueles que votaram só 13 o fizeram favoravelmente. Ou seja, menos de 40% dos deputados da Assembleia Legislativa de Macau votou favoravelmente o voto de pesar por Mário Soares. E, coisa nunca vista em relação a um morto que foi só o mais importante homem de Estado português do pós-25 de Abril, o único a quem Portugal concedeu, desde 25/04/1974, um funeral com honras de Estado, o voto de pesar conseguiu reunir cinco manifestações contra e fez com que faltassem à votação tantos quantos os que entenderam votar favoravelmente o pesar (13 deputados). Gostasse-se ou não do cavalheiro, Soares foi um dos que teve um papel mais decisivo para que a transição de Macau se processasse em termos susceptíveis de aplauso internacional e em termos que cimentassem a credibilidade dos Estados envolvidos no plano das relações internacionais.

Para além das inexplicáveis ausências e votos contra, houve duas abstenções. Quanto a estas verificar-se-á que vieram de deputados ligados à Associação dos Operários (Kwan Tsui Hang e Lei Cheng I). Abstiveram-se mas podiam também ter votado contra, visto que os cinco votos contra também vieram todos de sectores tradicionais ligados aos interesses comerciais, ao empresariado mais conservador, às associações de operários, aos moradores, à associação de educação e à das mulheres, e às ricas e poderosas associações de beneficência, como a do Hospital de Kiang Wu e a Tung Sin Tong.

Compreendo que para quem cresceu e singrou no obscurantismo, à sombra dos poderes tradicionais, enredado e prisioneiro de um sistema semifeudal como este que ainda hoje vigora nas margens do Rio das Pérolas, seja difícil compreender o significado das sinceras mensagens de condolências enviadas a Portugal, aos seus representantes e ao seu povo, pelo Presidente da R.P.C., pelo Primeiro-Ministro Li e pelo Chefe do Executivo da RAEM.

Mas mais aberrante e inexplicável é entender o que leva o Presidente da Assembleia Legislativa, que é membro do 12.º Comité Permanente da Assembleia Nacional Popular, a abster-se e o Vice-Presidente, Lam Heong Sang, a votar contra.

Eu não quero pensar que aquela gente que votou contra e a que se absteve num voto de pesar de tão grande significado afectivo para as relações entre Portugal e Macau e entre aquele país e a R.P.C. não tenha percebido que em causa não estava a revogação da lei eleitoral ou a marcação de eleições por sufrágio directo, mas apenas uma coisa tão simples quanto um voto de pesar. Uma manifestação de dor, de sofrimento e de solidariedade para com um povo amigo.

Mas ainda mais censurável foi a atitude dos treze deputados que resolveram arranjar outra coisa para a fazer à hora da votação, entre os quais quatro deputados nomeados, mais cinco vindos do sufrágio indirecto e quatro do sufrágio directo. De alguns destes já se sabia que o seu apego a Macau, à amizade luso-chinesa, e o seu apregoado patriotismo tinham tanto de sincero quanto têm de amor às patacas, aos dólares ou a qualquer outra moeda cuja cotação esteja em alta e seja susceptível de entrar nos seus bolsos. Mas quanto a outros ficará apenas a marca da ingratidão e da hipocrisia. O morto serviu enquanto serviu os seus interesses. Enquanto lhes propiciou honrarias, negócios, obras e contratos. Agora que morreu já não serve.

Tanto quanto me apercebi não houve sequer sugestões de alteração na redacção do voto ou nos seus fundamentos, de maneira a que pudesse haver consenso na hora de votar e não fosse transmitida para o exterior a triste imagem (mais uma) que deixaram.

O voto de pesar que a Assembleia Legislativa de Macau ontem aprovou com 13 ausências, 5 votos contra e 2 abstenções ficará para sempre registado como um dos mais tristes episódios daquela casa que durante tantas décadas foi um símbolo da autonomia de Macau e da vontade das suas gentes.

Hoje, a Assembleia Legislativa de Macau não passa de uma câmara anódina de composição de interesses sectoriais, onde a vontade e os interesses do povo de Macau ficam à porta para não perturbarem os interesses das elites instaladas que vivem à conta da sua exploração e consideram que a perpetuação de sistemas iníquos de injustiça e afronta aos seus cidadãos serve os interesses da R.P.C.. Não serve. E para além de não servir opõe-se ao que é pretendido pela R.P.C. para Macau.

Na fotografia que fica não é a R. P. C. que sai mal. Porque foram eles, deputados, e não a R.P.C., que não compreenderam o sentido do voto de pesar. Foram eles quem faltou na hora da chamada, quem votou contra e quem se absteve. Foram eles que quiseram ser mais papistas do que o Papa. Podiam ter manifestado a sua discordância, esclarecido as suas razões. Uma vez mais preferiram o silêncio e a fuga. Com isso mostraram quão falsas são as suas próprias juras de fidelidade a Macau e à amizade luso-chinesa. E como não são representativos nem dos interesses da população em geral, que preza a relação com Portugal e muitos estão-lhe agradecidos, em especial a Soares, por lhes ter proporcionado a oportunidade de viverem em Macau, evitando que fossem recambiados quando não tinham documentos para aqui permanecerem, nem as comunidades residentes com raízes macaenses e portuguesas, que não poderão deixar de encarar a atitude daqueles senhores deputados como mais um sinal de ingratidão.

Não para com Mário Soares, mas para com os portugueses em geral. Para com o povo português e para com todos os que falando português aqui vivem, trabalham e contribuem para a riqueza e diversidade de Macau. Mesmo os portugueses que não votaram ou que podem ter ficado com razões de queixa do Mário Soares político não deixarão de sentir esse voto de pesar que a A.L. aprovou como um voto pastoso e de falsa dor na hora de ser transmitido. Um voto de pesar doentio e sem qualquer significado, sinal de uma maior miséria moral como a que diariamente, até nestes pequenos gestos, se abate sobre a RAEM.

(Hoje Macau, 20/01/2017)

 

Nota: Fui hoje informado de que alguns dos ausentes estariam em serviço fora da Região. Admito que desses tivesse havido mais alguns que votassem favoravelmente. Pena é que tal esclarecimento não fosse prestado anteriormente em termos oficiais, de maneira a que a comunicação social também desse conta desse facto. O que, de qualquer modo, não serve de justificação para os votos contra e as abstenções.

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E vão seis

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.01.17

"He started his career at Goldman Sachs and is the sixth person with Goldman roots to join the White House."

Para quem queria ir contra o establishment não está nada mau. Mais uns dias e temos a White House & Sachs Inc. 

 

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Perspectivas

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.01.17

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(Doug Mills, The New York Times) 

"A bill decriminalizing domestic violence passed its first reading of the Duma on Wednesday, with 368 votes in its favor (one parliamentarian voted against it, and one abstained). Should the bill pass its second reading, now under preparation, domestic violence will only be a criminal offense if it’s considered an act of “hooliganism” or borne out of hatred."

 

Com as audições de ontem em Capitol Hill, em especial com as respostas dadas a Marco Rubio por mais uma das bizarras escolhas de Donald Trump para a sua equipa governativa, Rex Tillerson, o presidente e ex-CEO da Exxon Mobil Corporation, ficou ainda mais patente a impreparação, o comprometimento e a incompetência do escolhido para o cargo de Secretário de Estado, assim como a falta de senso de quem o indicou. Até um canal como a Fox News esclareceu os seus telespectadores que Rubio "grelhou" (sic) Tillerson. De facto, Tillerson revelou-se incapaz de dar as respostas que todos os estado-unidenses esperavam ouvir, nomeadamente quanto à futura relação com os russos, e deixou no ar muitas dúvidas sobre a futura mancebia da Casa Branca com a Rússia.

Rússia onde, por seu turno, a Duma se prepara para descriminalizar a violência doméstica, dando assim mais um passo  em direcção à idade das trevas e elementos acrescidos para o estudo do "putinismo".

Se os deputados da Duma e Putin consideram normal que as mulheres russas, as suas próprias mulheres, levem uns estaladões e uns abanões entre uns tragos de vodka nos intervalos do jogos de hóquei no gelo, desde que esse comportamento não seja interpretado como um acto de holiganismo, no ar ficará a dúvida sobre o modo como interpretarão a violência que seja exercida pelos militares e ocupantes russos sobre os "estrangeiros" e as mulheres dos outros em cenários de guerra, ocupação militar ou conflito latente, como por exemplo na Síria, na Crimeia, na Chechénia ou na Geórgia.

É claro que a preocupação de Donald Trump em matéria de conflitos de interesses ou direitos humanos é igual a zero. Como é também a de Putin, comprovada ainda recentemente no aprofundamento da sua relação com as Filipinas de Duterte, onde é o próprio presidente quem estimula uma justiça tribal contra traficantes de droga, consumidores, simples suspeitos ou qualquer cidadão que se incompatibilize com o vizinho por causa das galinhas e seja por este denunciado e morto à paulada como potencial traficante.

A Rússia prepara-se, e já mostrou toda a sua disponibilidade, para vender submarinos, aviões, tanques e armas pesadas e ligeiras a Manila. Os seus almirantes são recebidos pelo Presidente Duterte, o qual lhes deu as boas-vindas e disse que ali os militares russos serão sempre bem recebidos, podendo lá ir quando quiserem e muitas vezes com os seus vasos de guerra, nem que fosse só para "se divertirem", convite enfatizado pelo Presidente das Filipinas entre gargalhadas. Afigura-se, pois, como previsível um aumento da circulação de panças e de rublos em Makati e na infame Mabini Street, onde desaguam as adolescentes filipinas que fogem da miséria no interior e vão em busca de melhores condições de vida na capital, gente que perante o convite de Duterte aos militares, depois de ter estado ao serviço da satisfação das pulsões e bebedeiras dos tropas dos EUA estacionados em Subic Bay, poderá agora passar a servir de objecto de divertimento da armada russa com o beneplácito presidencial. 

Enquanto nos EUA o presidente eleito dá uma conferência de imprensa surreal, de tal forma que o antigo campeão mundial de xadrez Gary Kasparov afirmou que o que por lá aconteceu lhe fazia lembrar as conferências de imprensa de Putin, na Europa, que acabou de perder Zygmunt Bauman, aguarda-se o resultado do Brexit e teme-se pelo que sairá das eleições que aí vêm em França, na Holanda e na Alemanha. Ou pelo que irá acontecer durante 2017 em Israel, na Síria, no Irão, na Turquia, na África subsariana e na bacia do Chade, no Congo, no Brasil, na Venezuela, na Birmânia ou na Argentina, ou, ainda, o que sucederá com aquele urso esquizofrénico da península coreana.

O que actualmente se passa em Washington e Moscovo não pode deixar de nos levar a questionarmo-nos sobre a sanidade e seriedade desta gente que se prepara para tomar conta do mundo à custa da liberdade, da democracia, do respeito e da tolerância para com o outro. E, em especial, sobre aquele que tem sido o trabalho das elites mundiais para a sua defesa, bem como da paz e dos padrões civilizacionais que pelos menos desde o pós-II Guerra se tem procurado preservar.

As perspectivas de dentro de alguns meses o mundo ser dominado por ignorantes misóginos, mais preocupados com os vídeos que possam aparecer com as suas proezas sexuais do que com a paz mundial, por mentirosos, líderes religiosos ortodoxos, corruptos, ditadores autocráticos ou simples mentecaptos são hoje bastante elevadas e colocam já o último discurso de Obama proferido em Chicago numa espécie de museu da civilização.

Não admira que com este cenário Charles M. Blow escrevesse ontem no New York Times que ao escutar o discurso de despedida tivesse sido tocado pelo violentíssimo golpe de decência e dignidade, solenidade e esplendor, sobriedade e literacia que Obama trouxe consigo para o exercício da função presidencial, o que em seu entender será de tal forma anómalo e extraordinário que cada geração só pode aspirar a ter isso uma única vez num presidente.

o que Obama fez em matéria ambiental já o guindaria a um lugar único na história dos EUA, mas saber que se vai embora e nos vai deixar a todos entregues a essa fauna que se perfila no horizonte não é coisa que nos tranquilize.

Não quero aqui assustar ninguém, mas apenas recordar que este cenário reforça a expectativa no trabalho do novo secretário-geral das Nações Unidas. Estará, pois, na hora de António Guterres, lá no seu pedestal de Nova Iorque, se quiser com a ajuda do padre Melícias e das suas orações, isso é lá com ele, nos mostrar que Deus ainda existe. E que não dorme.

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In memoriam

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.01.17

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A História não se rescreve, a liberdade não se apaga.

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Deve haver alguma

por Sérgio de Almeida Correia, em 06.01.17

Refiro-me à lógica. Sim, deverá haver alguma. Mais a mais sendo hoje responsáveis pelo PSD os mesmos que ditaram a sua expulsão e não tendo sido António Capucho a solicitar-lhes o apoio. "Escravos dos estatutos", evidentemente, mas só quando lhes convém. Na hora do leilão vão-se as convicções, os princípios, os estatutos. O oportunismo, o atrevimento e a falta de vergonha são as únicas imagens que ficam.

Uns vão de geringonça, outros penduram-se na primeira que aparece para se safarem. Nada de novo, portanto.

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Por terras khmers (6)

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.16

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A minha viagem podia ter terminado esta manhã. O que me levara ao Camboja e há tantos anos me predispunha a fazer a mala e partir constituía um capítulo encerrado. Tratava-se agora de fazer a gestão dos dias. Não iria sair por Phnom Penh. Voltaria a Siem Reap. Não fazia sentido ficar ali.

20161222_173521.jpgNo tempo que me faltava fui então visitar a parte do Palácio Real que se encontra aberta ao público. O Rei Norodom Sihamoni, ex-embaixador da UNESCO, divulgador cultural junto da embaixada em Paris e instrutor de dança clássica, que frequentou a escola primária e secundária na Checoslováquia e depois estudou dança, música e teatro no Conservatório Nacional de Praga e na Academia de Arte Musical desta cidade, subiu ao trono em 2004, depois da abdicação do seu Pai, e continua a nele residir. Vale sempre a pena uma visita à sala do trono, cujo chão é em prata, metal abundante na região; um passeio pelos jardins, apreciando os frescos nas paredes e já à saída as salas com as liteiras reais (tenho dúvidas que o termo liteira seja o mais apropriado) e com a recriação das cerimónias de ascensão ao trono. O Museu Nacional é também interessante, mas quem vem de Siam Reap, esteve antes em Angkor Wat e no Museu D'Angkor, a sensação é a de que se está a passar de um Château Petrus para um honesto Cabernet chileno.  

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Ainda tive oportunidade de deambular pela cidade sem destino, subir a Wat Phnom, o ponto mais alto da cidade, conhecer a história do seu fundador, ir à Biblioteca Nacional, apreciar as belíssimas estações dos correios e fazer uma refeição na varanda do F.C.C. de que vos falei anteriormente. 

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A experiência foi desagradável. O profissionalismo e requinte do F.C.C. em Siem Reap têm muito pouco a ver com aquela espécie de tasca existente em Phnom Penh, com mesas de tampo de pedra para turistas que vão jantar de calções e chinelam pelo estabelecimento fora, em que é preciso solicitar o guardanapo, insistir que não é o de papel, mandar de volta o arroz branco para ser substituído pelas batatas fritas que haviam sido pedidas, enquanto o bife esfria, e dizer que os talheres da entrada que ajudaram a deglutir os camarões e as lulas não são os adequados para a carne. Local de encontro de viajantes e aventureiros, o F.C.C. de Siem Reap é bem mais calmo, tem outra clientela, apesar de praticar os mesmos preços (as ementas são iguais), e também outro requinte, resultando do aproveitamento da antiga mansão do governador francês. Os dois valem bem uma visita, quanto mais não seja pelo simbolismo. 

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Fui igualmente visitar a galeria de Vann Nath, o último sobrevivente da S-21, aberta ao lado de um restaurante da sua família, o Kith Heng, no n.º 169 da Rua 33-B. A história da sua vida dava para vários livros e filmes. Artista plástico, portanto um tipo que pensava pela sua cabeça e por isso persona non grata da canalha, foi um dos que foi mandado para a S-21. Aguardava pela sua hora quando se lembraram que os seus dotes podiam ser úteis ao partido. Mandado chamar obrigaram-no a fazer pinturas. Vann Nath contou depois que sabia que se o que fizesse não agradasse seria enviado para os killing fields, mas teve a sorte do responsável gostar do que ele pintou. Os seus quadros são retratos pungentes da sua história e de tudo aquilo a que assistiu. Entre outros títulos, é Chevalier da L'Ordre des Arts et des Lettres desde 2004 e em 2007 recebeu o Human Rights Award pela sua coragem enquanto artista face à perseguição política. 

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Phonm Penh ficara para trás. Regressado a Siem Reap tratei de organizar um final de férias interiormente mais calmo. A solução foi fazer um passeio em Kompong Pluk, um daqueles lugares que não existe. Trata-se de uma aldeia situada num braço do Grande Lago (Tonle Sap) e com acesso directo a este, toda construída sobre estacas, com escola primária e secundária, uma igreja, templos budistas, construções com uma altura de cerca de oito metros por causa das cheias do Mekong durante a época da chuvas. O percurso é feito a partir de um canal rodeado de pântanos e pejado de pequenas embarcações, que atravessa a aldeia até uma zona de mangal, onde a quem se deixa enganar, depois daquilo que pagou para o transporte e para a viagem de barco (40 USD), ainda lhe pedem para mudar para uma embarcação tradicional, a remos, sem quaisquer condições onde um tipo tem de ir de joelhos ou sentado numa esteira, não se podendo mexer para não desequilibrar aquela espécie de chata estreita e comprida. Há para lá um local de comes e bebes e uma espécie de maioral que fala inglês nessa plataforma onde estão pintados uns símbolos da ONU e da UNESCO, mas que suspeito serem uma aldrabice. Como eu protestasse por me quererem fazer mudar de embarcação e pagar mais qualquer coisa para a "comunidade" e tivesse dito que já tinha pagado tudo o que houvesse a pagar e que não pagava mais nada para ir até ao lago assistir ao famoso pôr-do-sol, rapidamente voltámos a embarcar na embarcação que nos trouxera, com o mesmo rapaz e seguimos o nosso caminho. 

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A calmaria, a paz, a luminosidade reflectida nas águas vastas do lago, com uma superfície de 2.500 km2 que pode multiplicar-se por dez na época das chuvas, vale bem a visita. No local há muitos pássaros e até pequenas gaiolas para criação de crocodilos, uma das poucas indústrias da região. Quem quiser também pode ir visitar as quintas, tal como na Tailândia onde se faz a sua criação, ou dar passeios de elefante. 

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No final da visita a Kompong Pluk reencontrámos o nosso motorista de Siem Reap, um homem de 53 anos precocemente envelhecido, único sobrevivente de uma família de 11 exterminada pelos Khmer Rouge. Falou-me da sua vida durante o tempo de Pol Pot, do seu recrutamento para a organização juvenil da terra e, depois do fim da guerra, da sua reconversão à indústria turística. Primeiro com um tuk-tuk, nos últimos anos com um carrinha Toyota. Mostrou ser um homem conformado com a sua sorte. Casara, tinha dois filhos a estudar na universidade que não acreditavam no que ele lhes contava sobre os tempos de Pol Pot. Explicou-me que os programas escolares omitem esse período e as novas gerações desconhecem a verdade. Sugeri-lhe que levasse os filhos à S-21, ficou de pensar no assunto e na melhor forma de os convencer. Mostrou-se agradecido pela visita que tínhamos feito porque se não fossem os estrangeiros eles não sobreviviam. Referiu conseguir fazer cerca de 100 USD por mês e que partir de meados do mês já era difícil aguentar-se. Nunca teve 1000 USD no banco e disse-me que os jovens querem partir para Singapura, Canadá, EUA. Poucos regressam. A corrupção continua a ser muito grande e descrente virou-se para mim perguntando-me como poderia se diferente se o primeiro-ministro Hun Sen era um ex-Khmer Rouge e as eleições eram chapeladas sistemáticas em que faltava a luz e as urnas contendo os votos eram trocadas durante a noite.

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Os últimos dias serviram para descontraidamente passear por Siem Reap, falar com as pessoas, senti-las e de certo modo agradecer-lhes tudo o que me deram nos dias que por lá passei. Duvido que na vida que me resta lhes consiga pagar o que recebi em afabilidade, calor humano e experiência de vida. Talvez um dia regresse para ir aos locais onde não fui; quem sabe se para passar uns dias tranquilos nas ilhas do golfo, ao largo de Sihanoukville.

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Quando há poucos dias parti em direcção ao Aeroporto Internacional de Siem Reap, para empreender a viagem de regresso, voltei a sentir a emoção. Como se ali sempre tivesse vivido e passado com aquela gente o que eles viveram. Como se fosse um deles.

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Do avião vi a cidade partir. Também ela me deixou partir mais sereno. Inconformado, é certo, seguramente mais adulto. E mais dorido vi o Mekong perder-se nos seus meandros. Lembrei-me então de uma frase de Hemingway, mas que já vi dizerem ter sido apropriada por Ursula K. Le Guin e que diz o seguinte: "It is good to have an end to journey toward; but it is the journey that matters, in the end". 

É isso mesmo. Seja de quem for a autoria da frase. Isso também não é importante. Bom Ano para todos vós.

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(P.S. Se puderem vejam isto: https://www.youtube.com/watch?v=tpaDOkI4VzQ)

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Por terras khmers (5)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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A noite passada, antes de me deitar, aproveitei para ler alguns jornais locais e pôr-me em dia com as notícias. Quando chego a qualquer local, um dos meus primeiros gestos é tentar obter a imprensa. Há hotéis que logo pela manhã deixam os jornais à porta dos quartos e se há coisa que goste de sentir é o seu cheiro a novo e a tintas frescas ao começar o dia. Tem sido assim desde que me conheço.

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O Khmer Times, The Cambodia Daily e o Phnom Penh Post têm edições coloridas em língua inglesa. Fico a saber que oficiais superiores das Reais Forças Armadas do Camboja* intimidaram a Tailândia a cessar os disparos junto à fronteira sobre os cambojanos que pretendem atravessá-la a salto à procura de trabalho e melhores condições de vida. A Assembleia Nacional pode vir a interrogar, a pedido da Comissão Parlamentar de Direitos Humanos, o ministro do Interior, Sar Kheng, pelo assassinato do analista político Kem Ley. O assassino de uma major das Forças Armadas, com 21 anos e estudante da Real Universidade de Phnom Penh, que inicialmente estava sujeito a uma moldura penal máxima de 15 anos, foi condenado a prisão perpétua por homicídio premeditado e o juiz-presidente do Tribunal Municipal de Phnom Penh “reverted the charge (...) and sentenced Mr. Kimmheng to life imprisionment, without explaining his decision” (The Cambodia Daily, 22/12/2016). O Partido Popular do Camboja (PPP), liderado pelo primeiro-ministro Hun Sen, reunido em congresso em Koh Pich, “outlined a program of social reforms”, num pacote de políticas que, entre outras coisas, envolve o controlo dos preços dos produtos agrícolas, a distribuição de terras ao abrigo de concessões sociais, ajudas aos pobres, desburocratização da obtenção de certidões de nascimento, de casamento e de óbito e de identificação, preços controlados na electricidade e o aumento do salário mínimo para 1 milhão de Riéis (250 USD). As eleições comunais são no próximo ano. Hun Sen foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1979/1986 e depois entre 1987/1990. É primeiro-ministro desde 1996. Foi segundo primeiro-ministro até ao golpe de 1997 e desde 1998 é primeiro-ministro. Estamos no final de 2016 e o senhor vai no quinto mandato. Por aqui fica tudo explicado sobre a oportunidade das medidas anunciadas.

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Tomado o pequeno-almoço, ao ar livre e à beira de uma piscina, fomos ter com o condutor de tuk-tuk com quem tínhamos combinado o dia. Era outro. Disse que o irmão não podia ir e lhe tinha telefonado a pedir que fosse ter connosco. Seguimos na mesma.

O dia foi reservado para ir, finalmente, ao que ficou tristemente conhecido como os “killing fields”. O seu nome oficial é Choeung Ek e foi tudo menos uma prisão normal. Está a 7,5 km de Phnom Penh, contados a partir dos limites da parte sul da capital. O percurso é todo ele um suplício que atravessa um mar de pó, percorrendo zonas comerciais à beira da estrada com ofertas de massagens de 60 minutos por 9 USD, lojas de bugigangas, de ferro velho, cantinas e hostels miseráveis. Sempre com muito lixo largado à beira da estrada, atirado para os campos e em riachos. De repente uma curva para a esquerda e continuamos por um caminho de terra batida entre hortas e esgotos onde nalguns pontos mal cabem dois carros. Por fim lá chegámos, debaixo de um imenso e longínquo céu de um azul profundo, com um sol escaldante e uma humidade elevada. Uma estufa.

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Entre 1975 e 1979 cerca de 17.000 homens, mulheres e crianças foram presos e torturados na S-21, código de uma escola na capital que se chamou Tuol Svay Prey High School. Em 1975 foi tomada pelos homens da segurança de Pol Pot e redenominada "Security Prison 21". Da S-21, prisão secreta do regime, saíam depois os camiões com os presos de olhos vendados, entre as 20 e as 21 horas, que iam até Choeung Ek, uma das 196 prisões do regime de Pol Pot. Dali, da S-21, só sete dos que lá entraram saíram com vida, escapando milagrosamente à morte, sendo libertados depois da queda dos Khmer Rouge. Também lá ficaram nove estrangeiros incluindo um navegador neo-zelandês, Kerry Hamill, e o seu amigo canadiano, Stuart Glass, que tiveram o azar de entrar em águas do Camboja quando o primeiro realizava o seu sonho de dar a volta ao mundo num veleiro.

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Choeung Ek é um local de um silêncio aterrador. Com entrada por um terreiro que está agora ladeado de casas, um estacionamento para carros, motas e tuk-tuks e tascos incaracterísticos. Ainda hoje está murado e com arame farpado. Só depois dos vietnamitas entrarem e expulsarem os khmer rouge é que foi possível saber o que aconteceu. Em 1980 foram exumados 8985 cadáveres, muitos ainda com as mãos atadas e as vendas no que foram os seus olhos. As valas comuns estão umas a seguir às outras, devidamente assinaladas.

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Tal como os nazis, os khmer rouge mantinham registos meticulosos dos seus crimes pelo que é possível saber com rigor o que aconteceu. As fotografias são imensas e hoje o fotógrafo principal, Nhem En, vive descansadamente com a família no norte do país, onde ainda sonha, de acordo com o que me foi transmitido, vir a ser governador provincial. Na S-21 foi inclusivamente criado um centro de documentação com o apoio da Universidade de Yale para investigar e documentar os crimes daquela canalha. Em 1997 esse centro deu lugar a uma organização independente que desde então tem traduzido e compilado documentos, mapeado as valas comuns e procedido à preservação dos espaços para que a memória, que não é só a deles mas também a nossa, não se perca.

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A visita é toda ela feita em silêncio. Um silêncio muito diferente daquele que vivi na beleza de Angkor Wat e que aqui é apenas cortado pelos comentários do magnífico guia-áudio que me foi entregue. Há guias-áudio em múltiplas línguas, com excepção do português, para acompanharem os visitantes ao longo das várias estações do percurso, numa espécie de Via Sacra. A locução é rigorosa, cristalina, irrepreensível. Os factos e os depoimentos são-nos atirados sem filtro. Por vezes ouve-se apenas a música que era tocada num volume altíssimo nos altifalantes de Choeung Ek na altura das execuções, para assim se abafarem os gritos das vítimas, os tiros e o ruído daquelas.

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Há bancos à sombra das árvores e arbustos, onde as pessoas são convidadas a sentarem-se para ouvirem o guia-áudio. A maioria dos que lá encontrei eram jovens, estudantes, muitos ocidentais, alguns asiáticos. E havia viajantes, como eu, que queriam saber um pouco mais do que aquilo que vem nos livros. Existe no local, logo após o início do percurso que está devidamente demarcado, um pavilhão com fotografias e múltiplas explicações onde é passado um documentário com as imagens do que se encontrou quando em 1979 se tornou possível entrar e sair dali. Porque para se perceber o que ali aconteceu e a forma como aquele inferno era gerido impõe-se a compreensão da cadeia de comando estabelecida pela liderança khmer rouge.

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No seu topo, além de Pol Pot, figuravam Nuon Chea, Ta Mok, Son Sen e Khiev Sam Pan. Como muitos saberão, Pol Pot, o líder máximo, era filho de um rico agricultor khmer, Penh Saloth, que tinha mais de 12 hectares de terra. Nascera com o nome de Saloth Sar, em Kompong Thom. Uma irmã era consorte real, o irmão Song era oficial do protocolo real, e ele foi enviado pelos pais para viver com estes e ali ser educado. Frequentou uma escola básica da elite católica e aos 23 anos recebeu uma bolsa do governo francês e foi estudar para Paris onde se juntou ao Partido Comunista Francês. Depois de reprovar em três anos consecutivos, casar-se-ia com Khieu Ponnary, a primeira mulher cambojana a obter um baccalauréat, regressando ambos ao seu país em 1956. Mentiroso compulsivo, até no dia do casamento mentiu quanto à sua idade, dizendo que tinha 21 anos em vez de 28. Nunca admitiu o seu nome verdadeiro e a sua biografia oficial, publicada em 1977, diz que era agricultor, omitindo os anos passados no Palácio Real, em Phnom Penh, e a passagem por França. Por aqui se vê a qualidade da besta. 

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O regime estava organizado em termos tais que a última ordem seria sempre dada pelo “Irmão n.º 1”. Tudo o que fosse feito tinha a sua aprovação, ainda que escasseiem as ordens escritas. Son Sen era o encarregado da Segurança Nacional e da Defesa e o sinistro Duch, que aparece no julgamento com uma camisa da Ralph Lauren, o comandante da S-21. Foram estes, depois de Pol Pot, os responsáveis pelo genocídio. Sobre isto existem provas escritas. Os documentos eram todos enviados para a sede do partido e vistos por Son Sen, havendo imensos memorandos com anotações e “confissões” dos prisioneiros, muitas vezes a tinta vermelha. Obtidas as instruções do Comité Central era produzida a lista dos que seriam executados. Residentes nas cidades, escritores, jornalistas, professores, estudantes, ninguém escapava. 

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Penso que sobre isto não vale a pena dizer mais nada. A informação é abundante e só escapou porque na fuga a canalha não teve tempo para destruir as provas. A média diária de executados era variável e podia ir de algumas dezenas a centenas. Duas a três vezes por mês lá saíam os camiões cheios de prisioneiros da S-21. Não levavam gado. Transportavam seres humanos de todas as idades. E estes não morriam com gás. Aquela gente era mais refinada. Estiletes pelo crânio, machados, bebés e crianças agarrados pelos pés e atirados contra uma árvore, homens de joelhos que depois eram agredidos com barras de ferro no pescoço até começarem a sangrar (...), tudo era possível. A seguir aos choques eléctricos na S-21, às celas minúsculas, aos vasos de barro cheios água onde lhes mergulhavam a cabeça enquanto aguardavam pelas “confissões”, às barras de ferro onde lhes enfiavam os tornozelos, seguia-se a viagem para Cheoung Ek. Os químicos que lá foram encontrados costumavam ser usados para regar as vítimas, muitas ainda vivas e em profunda agonia, desfazê-las e evitar os cheiros, por vezes inevitáveis quando os ventos sopravam mais fortes. Kong San, um ex-soldado da divisão 703, que cultivava arroz nas redondezas, testemunhou que quando sentia o cheiro pensava que era o de cachorros mortos. Terminadas as execuções procedia-se à confirmação das vítimas para se ter a certeza de que ninguém ficara vivo.

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Choeung Ek não era, nesses tempos miseráveis em que noutros locais desse mundo a Humanidade ainda vai insistindo, uma brincadeira de crianças. Também não é na actualidade um passeio turístico. Não é lugar para turistas que vão à procura de sol, bebidas exóticas e ansiosos para se atafulharem de imitações rafeiras das marcas famosas que chineses e angolanos ricos disputam na Avenida da Liberdade. Choeung Ek é uma viagem ao que de mais inaudito existe na alma humana. Uma viagem às nossas entranhas sem bilhete de volta. Mais de trinta volvidos continua a não ser um local para pessoas sensíveis. Proporcionalmente, e em termos de barbarismo, o que aqueles filhos da puta fizeram ao seu povo, a gente de carne e osso, a seres humanos como nós, suplantou em muito o que aconteceu com os nazis ou o que se sabe dos períodos mais negros do estalinismo. E tudo aconteceu tão perto de nós. Há tão pouco tempo. E quando nós, portugueses, discutíamos salários, nacionalizações, a reforma agrária, líamos a Gaiola Aberta e víamos o Último Tango em Paris. Como se este fosse outro mundo.

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Antes de me retirar fui ao stupa (pagode) que ali foi erigido para honrar a memória das vítimas. Deixei lá um ramo de flores brancas e amarelas. Alguém entregou-me uns pivetes que se juntaram a outros e que por lá ficaram a arder. Fi-lo quase maquinalmente, absolutamente horrorizado, destroçado na minha condição de homem. Com uma angústia que não sei descrever.

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O regresso ao tuk-tuk e o caminho de volta pareceram-me intermináveis. Emocionei-me protegido pelos óculos de sol. Fui olhando para a passagem sem nada ver. Sem saber o que dizer a quem estava ao meu lado, sem saber o que pensar. Uma vez mais o silêncio. Um silêncio dilacerante. Sempre o silêncio até chegar a Phnom Penh e o nosso motorista nos largar à porta da S-21. Podia tê-lo evitado. Não o fiz. Sentia que era preciso cumprir a última fase do caminho. Por respeito para com todos aqueles que por ali passaram. Por respeito para comigo. Percorri as quatro alas em silêncio. Subi e desci aquelas escadas frias, feias, despidas. Entrei nas celas, vi os instrumentos de tortura, as caixas que garantiam as descargas junto às camas dos reclusos. Vi milhares de fotografias e li os testemunhos. Até vi nas paredes o arrependimento tardio dos suecos que num momento em que regime precisou fizeram de idiotas úteis da sua propaganda para o Ocidente promovendo as virtudes que aquela canalha desprovida de princípios e de valores nunca teve. Sempre em silêncio. De que outra forma poderia ser? Daqui para a frente não escrevo mais nada. Imaginem uma página em branco onde está lá tudo. Tudo o que não consigam imaginar, mas que vos deixe nauseados, moribundos. Não há palavras que o descrevam. Poupo-vos ao relato de tudo o que encontrei na S-21. A minha parceira não aguentou mais. Preferiu descansar de tanta violência e aguardar-me no jardim, enquanto lia e escrevia uns postais. Para ela já não havia mais nada para ver. Tinha visto tudo. Eu nunca vira nada assim e ainda não estou certo de ter visto o que vi. 

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Quando no final desse dia cheguei ao meu hotel e me despedi do nosso prestável motorista sentia-me sem forças. Como se tivesse levado uma sova de proporções épicas. Transpirado, nojento, senti-me imundo. Dei umas braçadas na piscina do hotel, tomei um duche como que desejando desinfectar-me, purificar-me, perdoar-me pelo que não fiz. Absolutamente destroçado pelo que vi, esmagado pelo asco, pela dimensão do sofrimento daquela gente. Senti vergonha e nojo da minha espécie. Não sei como algum dia sairei daqui. Sei que após esse dia 22 de Dezembro não sou o mesmo. E também não sei que sentido se há-de atribuir ao Natal depois da viagem que fiz. Pode ser que um dia alguém me explique. Presentes? Caixas de Multibanco exauridas? Presépios? Reis Magos? Sacos a abarrotar de compras? Pinheiros enfeitados com luzinhas coloridas a piscar? As crianças merecem-nos. Têm direito ao sonho. Mas nós? Nós, nós ainda estamos tão longe do Natal... 

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Ninguém volta a ser o mesmo depois de passar por ali. De ouvir e de ver aqueles registos. Não há olhos que cheguem para tanta escuridão. Não há lágrimas que nos sustentem. Não há nada que fique de pé. Não há nada que resista. Nada.

Nunca mais vai ser Natal. Tenho a certeza. Espero um dia ser perdoado. Por quem é que eu já não sei.

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[* - Antigamente escrevia-se Cambodja. Foi assim que aprendi. Os brasileiros ainda o fazem. Há especialistas que dizem que se pode grafar das duas maneiras. Contudo, de acordo com o Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa e o meu velho prontuário aparece sem o "d", pelo que daqui para a frente assim será.]

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Por terras khmers (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.12.16

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Se viajar é também uma arte e um prazer, há algumas regras que devem ser seguidas para se extrair o máximo da jornada. Paul Theroux, um reconhecido escritor de viagens, escreveu um dia que há três regras básicas para o viajante – aquele que não sabe para onde vai, ao contrário do turista que não sabe onde esteve – e que se resumem a viajar por terra sempre que possível, de preferência sozinho e tomando notas. Como não gosto de voar e só o faço por obrigação sabia que não iria de avião para Phnom Penh. Contudo, estava indeciso sobre a melhor forma de seguir caminho, se de barco, descendo o Mekong até à capital, se fazê-lo por estrada.

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Descer o rio teria sempre o aliciante de poder tirar boas fotografias, mas revelava-se uma opção pouco gratificante porque me iria afastar das pessoas, da estrada, do contacto com a terra e com os campos ao longo do caminho. As referências sobre as embarcações que fazem esse percurso não eram as melhores, nem em termos de salubridade nem de segurança. Por estrada, as alternativas eram várias mas acabámos por fazer essa parte da viagem num dos autocarros da Giant Ibis, uma excelente companhia, com um registo impecável em termos de segurança, um site na Internet e que que providencia o transporte dos seus passageiros dos hotéis para os terminais. Os veículos da Hyundai que utiliza são relativamente novos. Tem um serviço de bordo melhor do que algumas companhias aéreas a que tenho recorrido, bons motoristas, pessoal atencioso e, inclusivamente, distribui logo pela manhã uns magníficos brioches e os nossos conhecidos caracóis com passas, acompanhados de uma garrafa de água. Os autocarros têm wi-fi, ar-condicionado, são limpos e cómodos. Por 15 USD iria fazer o percurso de 340 km entre as duas cidades, sabendo que iria ter três paragens pelo caminho, uma delas para o almoço. 

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A escolha foi acertada. Vi uma paisagem diferente daquela que conhecera na região de Siem Reap e Angkor Wat e pude ir apreciando as estradas, o casario, as dezenas e dezenas de escolas, vendo o movimento das pessoas e veículos, os pais à espera dos mais novos, os mais velhos seguindo a pé ou de bicicleta, alguns de mota. A estrada nacional está em muito bom estado e o percurso, que acaba por durar cerca de 6 horas e 30 minutos, faz-se bastante bem.

20161221_173137.jpgAo longo do caminho também aproveitei para ler mais alguma coisa, dando particular atenção ao livro de Ben Kiernan ("The Pol Pot Regime – Race, Power, and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge, 1975-1979"), de leitura obrigatória para quem quer saber alguma coisa sobre o que ali se passou quando em Portugal se defendia a democracia e a liberdade na Alameda. Ao mesmo tempo ia observando as pessoas, recordando trechos do filme de Joffé e pensando na cidade que iria encontrar.

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O corrupio de pessoas, motociclos, tuk-tuks, carros, bicicletas e autocarros de turismo carregados de chineses e coreanos aumentava à medida que nos aproximávamos de Phnom Penh. A confusão nas ruas à beira dos cruzamentos era grande e rapidamente compreendi que a cidade ocupava uma área bastante extensa e tinha uma população muito substancial. Mais tarde esclareceram-me que deve andar pelos dois milhões de almas. 

thumb_P1080020_1024.jpgAo chegar a Phnom Penh dirigi-me de imediato ao meu hotel, situado mesmo junto ao Palácio Real e ao Museu Nacional, próximo do Boulevard do Príncipe Sihanouk (Preah Sihanouk Blv.) e na zona onde até 1975 ficava a Embaixada dos EUA. Foi só o tempo de largar a bagagem, refrescar-me e começar a palmilhar a cidade. 

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Visitar o Palácio ou o Museu nesse dia estava fora de questão, visto que fecham cedo (17 horas), pelo que agendei essas visitas para mais tarde e tirei partido da localização do hotel para conhecer as ruas adjacentes, dar um rápido passeio pela marginal junto ao rio, e fazer a pé todo o percurso desde ali até ao Monumento da Independência. De caminho vi dezenas de estudantes e candidatos a monges, da Universidade Budista de Phnom Penh, vi as novas embaixadas altamente protegidas e fui olhando para os rostos, tentando perscrutar nos sorrisos que me cruzavam o que teria sido a sua vida há algumas décadas.

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De novo me voltaram à cabeça as cenas da película de Roland Joffé, em especial as das filmagens no interior da embaixada e da chegada dos Khmer Rouge às suas portas. Embora o filme tivesse sido rodado na Tailândia, as casas, as ruas e a arborização que nele aparecem correspondem na perfeição ao que encontrei em Phnom Penh.  

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A cidade tem uma localização privilegiada junto ao rio, espraiando-se já pela outra margem, de onde se pode ver um excelente pôr-do-sol sobre os telhados do Palácio Real. Os problemas do lixo, da higiene urbana e dos cheiros, de que me apercebera em Siem Reap, tinham aqui continuação. Existe um conjunto de edifícios de arquitectura colonial, muitos deles degradados ao lado de outros excelentemente preservados, que conjuntamente com as esplanadas, numerosos cafés e muitos e bons hotéis e restaurantes dão-lhe um toque ocidental e mediterrânico. A luz durante os dias em que ali estive foi imensa, em especial durante as manhãs, o que me trouxe um misto de satisfação e saudade pela inigualável e penetrante luz das manhãs do meu país. 

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O contraste entre alguns muito ricos, os ricos e os pobres é visível, notando-se que os mais abastados têm traços étnicos chineses. Estes e os de origem vietnamita eram os principais habitantes da cidade e foram os primeiros a ser dizimados e expulsos para o campo, como a maioria da população das cidades, obrigada a trabalhos forçados e de "reeducação" pela cegueira resultante de uma amálgama de extremismo ideológico, racismo e xenofobia que aniquilou etnias e classes urbanas, acusando-as de traição em resultado da contaminação provocada pelas influências estrangeiras. Apesar da cidade estar a crescer, ainda não atingiu o ritmo de desenvolvimento do vizinho Vietname. O novo Casino Naga tem atraído um conjunto de investidores e jogadores chineses e de outras regiões da Ásia, como Singapura e Coreia do Sul, pelo que é natural que nos próximos anos a cidade dê um salto. Deverá ser essa a razão para a Rolls Royce já ter um representante e expositor na cidade.

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A população aprecia os jardins, gosta de ficar na cavaqueira, fumando e bebendo, nos passeios, vendo-se imensas crianças. Crianças e jovens, pois que praticamente não se vêem velhos. Alegres, correndo de um lado para o outro atrás das suas bolas, envergando camisolas contrafeitas de clubes de futebol europeus e até da nossa Selecção Nacional, emulando Cristiano Ronaldo nos seus toques de bola. 

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Durante os dias em que andei por Phnom Penh conheci mais alguns restaurantes. Gostei bastante do La Pergola, no hotel The Plantation, onde pernoitei. Um óasis confortável no centro da cidade, que recomendo vivamente, decorado com gosto, com um bar de tapas no rés-do-chão, um ambiente cosmopolita, de gente simples mas que se vê ter mundo e maneiras pela maneira como come, como fala, como se comporta perante os empregados e pela educação com que lida com os outros com que se cruza. Esses são os primeiros sinais de civilização de um homem. 

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Estive também no afamado Chinese House, do qual não fiquei com saudades. Pena que um local diferente e bem decorado, popular entre os expatriados, tenha uma cozinha com uma confecção tão má e tão pretensiosa. Caro para a qualidade. Mau para se amesendar. Salva-se o bar do rés-do-chão, por sinal às moscas na noite em que lá fomos. 

Amanhã será um novo dia. Não sei o que irei encontrar, embora me tenha vindo a preparar para tal. Veremos se depois do que vi e li não ficarei demasiado maltratado.  

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Por terras khmers (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 29.12.16

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O desenvolvimento de Angkor ficou a dever-se ao génio do Rei Jayavarman II (790-835) que inicialmente estabeleceu a capital em Roluos, depois mudada para as montanhas Kulen. Até então a história dos khmers era uma história de pequenos estados independentes, por vezes transformados em impérios, mas sempre durante períodos relativamente curtos. Consta que desde o período neolítico a região foi ocupada devido à fertilidade dos solos em redor do chamado Grande Lago, da riqueza piscícola e abundância de água, mas foi a partir de 1908 e das descobertas da Escola de Arqueólogos Franceses do Extremo-Oriente, em particular de Jean Commaille, que escreveu em 1912 o primeiro guia de Angkor, que se tornou conhecida. O que hoje se vê é apenas uma pequena amostra do que existiria, sabendo-se das inscrições nos relevos dos templos que, por vezes, as construções se atrasavam durante anos devido à ausência de fundos para serem concluídas. 

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Não vou aqui descrever em detalhe o que por ali vi, importa talvez dizer que quem quiser explorar a região de Angkor e visitar os templos, declarada Património da Humanidade desde 1992, após a celebração dos Acordos de Paris, tem primeiro de munir-se de um bilhete, cujo preço varia entre os 20 USD, para um dia, e 40 USD, para três dias, sendo possível obter passes de uma semana. Convém que quem lá for não se iluda e não se arme em chico-esperto, resolvendo começar a circular livremente por toda aquela vasta área para poupar no custo do bilhete, confiando na sorte, porque na estrada e à entrada das zonas onde estão os principais templos é feito o controlo dos bilhetes pela Polícia do Turismo, bilhetes que depois são frequentes vezes pedidos para verificação da identidade do titular e confirmação de que a foto dele constante, tirada na hora, corresponde ao visitante que se apresenta. O controlo é amigável e simpático para os viajantes sem deixar de ser rigoroso para os infractores que sejam apanhados sem bilhete.

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Depois de três dias passados nesta região, onde aproveitei para observar os fabulosos frescos, respirar todo aquele verde e visitar o Museu Nacional D'Angkor, reservando para outra ocasião o centro dos Artisans Angkor e as oficinas dos ceramistas, comecei a aperceber-me do grau de destruição e rapina provocado quer pelo regime de Pol Pot, e após a queda deste, em 1979, quer pela ocupação vietnamita que se lhe seguiu. Muitas das figuras das belíssimas apsaras (ninfas), que representam na perfeição a generosa e enigmática beleza da mulher cambodjana, das cabeças de esculturas centenárias, das divindades, serpentes e leões foram mutiladas, decepadas, desfiguradas. Galerias inteiras foram destruídas, provavelmente para estarem hoje a ornamentar casas e jardins fora do Cambodja. Algumas peças foram entretanto recuperadas depois de terem aparecido ao fim de muitos anos em leilões e exposições por esse mundo fora, mostrando a importância da cooperação internacional na defesa do património cultural que a todos pertence.

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Antes de rumar ao Sul ainda ensaiei uma primeira aproximação ao que foram os anos de guerra e genocídio, primeiro com a ditadura do direitista Lon Nol, que alegadamente chegou ao poder através de um golpe apoiado pela CIA e os EUA, acusação que alguns dizem ter falta de provas e que foi rejeitada por Kissinger, para quem os EUA terão sido apanhados de surpresa, e depois com o infame regime de Pol Pot.

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Quanto a Lon Nol é duvidoso que não tivesse obtido prévio apoio dos EUA atenta a forma como as coisas aconteceram, a começar pelas manifestações promovidas pelo próprio governo para justificar o golpe militar e o suporte que os EUA deram de imediato ao novo poder. Muito resumidamente, o que aconteceu foi que na sequência de uma votação na Assembleia Nacional cambodjana, Lon Nol derrubou a monarquia e atirou o Príncipe Norodom Sihanouk para o exílio. Invocando poderes extraordinários, aquele que era ao tempo primeiro-ministro, tomou o poder, proclamou a República Khmer e substituiu uma monarquia clientelar e corrupta, que abrira o porto de Shianoukville aos vietcongs, pela instauração de uma férrea ditadura, igualmente corrupta, dirigida por um nacionalista místico e chauvinista que queria ser tratado por “Black Papa” devido à cor da sua pele, o que segundo o próprio faria dele um verdadeiro khmer. O golpe conduziu a uma intervenção directa na Guerra do Vietname e à perda de mais umas centenas de milhares de vidas entre cambodjanos, com particular incidência sobre as comunidades dos etnicamente de origem vietnamita, inocentes ou culpados, que viviam no Norte, e que iam sendo atirados ao Mekong à medida que eram eliminados na tentativa de conter o avanço comunista.

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Fui então visitar o denominado “War Museum” que se encontra instalado na Região Militar de Siem Reap, a poucos quilómetros da cidade. Recebido à entrada pelo seu responsável, com o tradicional traje negro dos antigos guerrilheiros khmer, perguntou-me se precisava de guia, tendo eu retorquido que não. O que eu já sabia dispensava-o de me esclarecer sobre aquilo que ali estava patente. Material militar desactivado, tanques, granadas, lança-roquetes, morteiros, praticamente todos os modelos de metralhadoras ligeiras, com destaque para as AK-47, pistolas dos mais diversos fabricantes e modelos, incluindo israelistas, até um helicóptero e um velho Mig russo usados em combate, dispensavam explicações adicionais por parte de qualquer guia. De um lado e do outro vários barracões com fotografias, memórias dos conflitos, registo de tragédias pessoais e colectivas e um vasto conjunto de todos os tipos de minas que se encarregaram de ceifar, e que continuam a ceifar, centenas de milhares de vidas, de toda a espécie de gente, novos e velhos, homens e mulheres, gente inocente. Tudo ali exposto em fotografias, cartazes, relatos biográficos e relatórios para que a memória não se perca por falta de informação. Para todos e a começar pelos jovens locais, para que se possam aperceber do que foi o passado, do preço da paz e do drama do seu povo.

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Existe também um museu dedicado às minas a 25 km de Siem Reap. Não estava nos meus planos lá ir até porque a guerra contra as minas continua no presente, não faz parte do passado. Há ainda vastas áreas minadas, admitindo-se que haja cerca de seis milhões de minas (este número não é engano) espalhadas pelo país. Há minas colocadas pelos vietnamitas durante a ocupação, usando mão-de-obra forçada local, ao longo dos 700 km da fronteira com a Tailândia. Há minas colocadas pelos Khmer Rouge nas florestas, a partir do momento em que foram afastados do poder para protegerem os locais onde se refugiaram, e há minas colocadas pelos governo nacional para proteger cidades, vilas e aldeias e as suas próprias posições. São por isso frequentes os avisos de perigo, incluindo em caminhos aprazíveis pelas florestas e nalgumas zonas das províncias de Banteay Meanchey e Oddar Meanchey, por exemplo, num país que tem o mais alto número de amputados devido às minas. A média de amputados mensal é actualmente de cerca de 15, num total superior a 40000, agravando-se a situação na época das chuvas, em especial nas zonas rurais, onde os mais atingidos são os desgraçados dos agricultores.

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À sombra das árvores, com os pássaros e mosquitos por companhia, com um guia nos seus trinta anos que mostrava nos olhos e no rosto, para um pequeno grupo de turistas que nos seguia, os pergaminhos da sua história pessoal e a do seu pai, mais uma vítima dos Khmer Rouge, todo aquele material exposto tornou-se inofensivo. Está ali a memória da sua infância e da sua juventude, se é que de tal se poderá falar. Longo e doloroso foi o caminho que o trouxe até àquele cemitério. O que para trás ficou será sempre irrecuperável. Em vidas e em sofrimento. Não há preço para isto.

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Por terras khmers (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.12.16

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O aeroporto de Siem Reap fica relativamente perto da cidade. Em vez de um táxi tinha um simpático e rechonchudo motorista local à minha espera, disponibilizado pelo primeiro hotel onde fiquei, que logo tratou de acomodar a escassa bagagem que trazíamos no tuk-tuk que nos iria transportar. Foi este o primeiro contacto com o mais popular meio de transporte daquelas terras. Táxis, daqueles que conhecemos, não vi um único e desconheço se a Uber já se aventurou por tais paragens, apesar de também ter andado em jipes da Lexus.

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A cidade é pequena e só começou a desenvolver-se quando se tornou conhecida depois da descoberta de Angkor Wat. Ao tempo sob domínio francês, consta que terá recebido os primeiros turistas a partir do início do século XX. O Grand Hotel d´Angkor abriu as suas portas em 1932. Hoje tem à volta de 200.000 habitantes, de acordo com o último censo (2008), mas os que chegam para visitar a região são cada vez mais. O maior fluxo chega da China, que à sua conta representa cerca de 80% dos visitantes, mas também os há do Japão, da Coreia do Sul, do subcontinente indiano, australianos, estado-unidenses e europeus, em especial franceses e ingleses.

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Aqui apercebi-me do primeiro grande problema do país: o pó. O pó está em todo o lado e o ideal quando se circula de tuk-tuk, entre milhares de outros veículos idênticos, autocarros de excursionistas, camiões velhos e automóveis que largam enormes nuvens negras, é ir prevenido com uma máscara para a boca e nariz ou um lenço que nos proteja as vias respiratórias. Os tradicionais lenços khmer, em algodão, são baratos e custam entre 3 e 6 USD, dependendo do tamanho, o que é ridículo face à sua qualidade. O dólar tem curso legal, dentro ou fora das cidades. É normal só haver preços em dólares e o câmbio informal em qualquer lado é de 40.000 Riéis para 1 USD, o que me levou a arrepender-me de ter trocado alguns dólares no balcão de câmbios do aeroporto a 38.000. 

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A oferta hoteleira e culinária é vasta. Não faltam hotéis acolhedores das cadeias internacionais, alguns depositários da escola colonial, e pequenos locais de muito bom nível, com pessoal qualificado, afável e de uma educação extrema em quaisquer circunstâncias, a preços muitos razoáveis para a qualidade do serviço. Eu prefiro hotéis calmos e sossegados, sem a confusão dos excursionistas. Em Siem Reap e Phnom Penh há imensos. Os hotéis-boutique estão na moda. Aqui, onde iniciei a minha jornada, são quase todos “D´Angkor” ou de “Indochine”, ou as duas coisas, para todas as bolsas e com diferentes níveis de sofisticação, mas convém ter cuidado porque por vezes o nome ilude uma espelunca a 20 ou 25 USD ou um hostel entre os 5 os 10 USD para aqueles que não se importam de viajar sem tomar banho e convivem sem pruridos com a abundante fauna rastejante, roedora e voadora. Sinais, aliás, de outro gravíssimo, e de mais difícil solução, problema nacional: o tratamento dos lixos. Jazendo a céu aberto, sem contentores, por vezes dentro de sacos plásticos largados à beira dos passeios, sujeitos à fúria da cachorrada e dos desgraçados que remexem o seu interior, na maioria dos casos atirado para a beira dos passeios, das estradas ou dos cursos de água ou, nesta altura do ano, os leitos secos dos ribeiros, assume contornos assustadores, o que explica epidemias, doenças e o cheiro nauseabundo de que quando em vez nos assole.

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O assunto não é tabu, mas o convívio de diferentes tradições culturais e heranças religiosas naquela zona de cruzamento ente o hinduísmo e o budismo, onde a cristandade sempre teve dificuldade em se afirmar, não se afigura fácil. Talvez isso também explique a inexistência de discussões, de vozes alteradas, gritos, gestos obscenos ou empurrões, em cidades onde o trânsito é caótico, a confusão imensa, não raro com vacas e cães que circulam pachorrentamente pelo meio da via, mas que apesar disso flui, e onde se vêem piscas-piscas, braços esticados e raramente se ouvem buzinas. As que se ouvem não são de protesto, tratando apenas de saudar ou avisar quem circula que convém manter o rumo e o ritmo para não haver uma desgraça. 

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Normalmente, onde há especiarias é possível comer bem. O Cambodja não foge à regra e é possível aliar a tradicional culinária khmer, o saborosíssimo peixe amok no coco, sem pele nem espinhas, os caris vermelhos e verdes, o camarão, o coco, os lagostins, as perninhas de rã ou as vieiras com a excelência da herança culinária francesa, as influências vietnamita, chinesa, indiana e tailandesa com os sabores tradicionais, onde pontifica o incontornável travo de “lemon grass”, a erva aromática que produz um óleo deliciosamente perfumado a limão que é de utilização obrigatória em muitas cozinhas asiáticas. Aqui é especialmente saborosa e o seu uso, como noutros locais onde estive, vai muito para além da culinária, sendo frequente o seu aproveitamento em saboaria e cosméticos, chás, bebidas refrescantes, produtos medicinais e como óleo para alguns tipos de massagens, já que a massagem tradicional khmer é a seco.

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Não há nada de mais confortável do que entrar numa casa recuperada, com a velha arquitectura colonial, ou com as linhas simples e modernas de algumas das novas construções, num spa ou casa de massagens, num quarto limpo, decorado de forma simples, impregnado com a luz e as cores do fim de tarde, de onde se liberta o refrescante aroma a “lemon grass”. Uma bênção para os sentidos depois de um dia de tuk-tuk, subindo e descendo as escadarias de templos, percorrendo museus vivos e palácios com a roupa colada ao corpo, observando a vida nos fascinantes mercados onde é possível tudo comprar e obter, de objectos de prata a peças para motas, de sedas a pedras semi-preciosas, lado a lado com os vernizes para as unhas, as estatuetas de cobre ou as fardas escolares, antes de um bom banho ou de umas braçadas retemperadoras numa qualquer piscina escondida num jardim interior disfarçado pela abundante vegetação que os cerca. 

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Na maioria dos locais onde merendei ou jantei vi muitas cozinhas abertas e asseadas, mesas limpas, toalhas de pano e jogos americanos sem manchas. Mesmo em restaurantes de estrada, onde a comida ficava a desejar, como num que é habitual parar para quem vai por estrada para Phnom Penh e cujo nome “Banyan Tree” homenageia a frondosa árvore da frontaria e não pretende confundir-se com a afamada cadeia de hotéis de luxo, não se vê louça lascada ou há talheres encardidos como é habitual encontrar em muitos dos nossos tascos com pretensões a restaurantes finos. Em Siem Reap há várias casas que se recomendam. Para além do F.C.C., o famoso clube dos correspondentes estrangeiros, também com aposentos para viajantes, elogiado pelo The Guardian e por onde passaram tantos escritores, jornalistas e simples curiosos, de que falarei noutra altura e que não se confunde com o seu homólogo da capital, gostei do Embassy, em King´s Road, perto do Hard Rock, numa casa só de mulheres, com uma Chef oriunda da escola do Sofitel e com experiência anterior em Singapura, que tem um excelente menu de degustação, onde sem qualquer rebuço me substituíram o pato que aparecia lá pelo meio pela carne decente de um animal sem penas. 

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Em lugares onde o Sol nasce muito cedo é também natural que tudo termine mais cedo. É por isso normal que se jante mais cedo, por volta das 20:00, e a vida nocturna também antecipe os seus períodos de abertura e termo, o que é gratificante para quem gostando de dias intensos não dispensa estar sentado numa esplanada acolhedora, ouvir um pouco de música entre dois dedos de conversa com outros viajantes, trocando experiências e conhecimentos na língua que se proporcionar.

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Por terras khmers (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.12.16

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A primeira sensação foi de estranheza. Ali, tão longe, enquanto aguardava pela pouca bagagem que normalmente transporto em viagem, as imagens que tinha diante dos meus olhos eram do Aeroporto Humberto Delgado, da velha Portela, em Lisboa. Imagens de rostos e paisagens familiares, de aviões da TAP na descolagem e de intermináveis e desesperantes tapetes rolantes carregados de malas maltratadas e viradas ao contrário. Rapidamente percebi que se tratava de um filme promocional dos actuais concessionários do aeroporto onde acabava de chegar. Os mesmos que gerem Lisboa. Coincidência, claro, nem por isso menos estranha naquele momento. Mas era o que eu via e disso não podia fugir.

Há uma frase de Proust que faz parte do 5.º volume de À La Recherche du Temps Perdu, publicado a título póstumo, que é muito conhecida entre os amantes de viagens e que reza o seguinte: “Le seul véritable voyage, (…), ce ne serait pas d’aller vers de nouveaux paysages, mais d’avoir d’autres yeux, de voir l’univers avec les yeux d’un autre, de cent autres, de voir les cent univers que chacun d’eux voit, que chacun d’eux est (…)”. Nunca como este Natal essa citação foi tão apropriada. Ver com outros olhos. 

O falecimento em Julho passado de Sydney Schanberg, mais um no imenso rol de gente que desapareceu e de catástrofes que marcaram o ano que se prepara para sair, despertara-me a vontade de empreender uma viagem que me ajudasse a compreender um pouco melhor a história e a cultura de um povo marcado, em especial nos anos mais próximos, por regimes opressivos, instabilidade política, conflitos armados e um interminável sofrimento. O impacto que o filme de Roland Joffé rodara sobre a amizade entre o falecido Dith Pranh e Sydney Schanberg, o repórter do New York Times que cobriu em 1975 a queda de Phnom Penh às mãos dos Khmer Rouge, fizera-me pensar, durante muitos anos, na hipótese de um dia conhecer mais de perto aquela que foi a dura realidade vivida por um povo às mãos dos seus próprios filhos.

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Decidi, pois, rumar até ao reino que herdou as tradições do velho império Khmer, outrora estendendo-se desde a Birmânia, actual Myanmar, até ao Vietname, hoje comprimido entre os seus vizinhos (a Tailândia, o Laos e o Vietname) e as águas quentes do golfo da Tailândia. E fi-lo entrando pelo norte do país para depois fazer o percurso em direcção à capital.

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Também há muito que sabia da existência dos templos de Angkor e foi exactamente por aí que comecei, partindo de Siem Reap à sua descoberta, aproveitando a estação seca e as temperaturas mais amenas desta altura do ano.

Não se descreve nalgumas linhas a sensação de esmagamento que causa ao viajante a apreensão da imponência, grau de desenvolvimento e arrojo estético da civilização que floresceu entre os séculos VIII e XIII naqueles terras férteis e ricas em minerais irrigadas pelo Mekong. O que a vista alcança perde-se na imensidão do trabalho esculpido na pedra. Nos detalhes de um tempo cuja engenharia atravessou séculos, praticamente incólume, na forma como se encaixam as pedras que sustentam as abóbadas, nos quilómetros de frescos que recriam lendas, crenças e mitos, batalhas históricas, que se perdem na arenga de guias que aprendem português pela Internet em quatro meses e se fazem entender na perfeição depois de correrem o seu cardápio de idiomas ocidentais enquanto tentam oferecer os respectivos préstimos a quem chega. Sempre sorrindo, com bons modos, educadamente.

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Sem a confusão de outros locais, podendo livremente deslocar-me por entre paredes e corredores, saltando de um local para outro, percorrendo a pé extensas zonas de floresta, perdendo-me na frescura do verde e na quietude dos lençóis de água, onde nenúfares, lótus e uma imensidão de outras flores e plantas vai lutando por um espaço à superfície, vendo as horas correrem silenciosas, tão discretas na sua passagem como os séculos, ali tomados pelos frondosos caules, repousando à sombra de copas monstruosas e prisioneiros de raízes maiores e mais poderosas que o aço, impondo-se à pedra e ao lento trabalho de esculpi-la a que tantos se dedicaram.

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Ali estão elas, aquelas árvores que o tempo não parou, senhoras de tudo, desafiando a trindade suprema de Xiva, Vixnu (Vishnu) e Brama, desafiando a serenidade intemporal de Buda, desafiando os homens, dizendo que estão ali. E que ali permanecerão. Guardando o tempo, marcando-o, assistindo à sua erosão na pedra, mostrando a irreversibilidade do domínio da natureza, da nossa sujeição às suas leis, escutando o seu próprio eco, enquanto uma brisa mansa percorre as ramagens mais altas, entrecortada pelo chilrear de alguns pássaros ou a sombra de uma ave de rapina.

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Lá longe, ao fundo, vê-se o fumo elevar-se no ar. Sente-se agora o cheiro intenso do incenso que arde, da lima e do jasmim. As cores fortes do céu, os aromas do fim de tarde. E à minha volta o silêncio. A vida. O silêncio que antecipa a chegada da noite e o nascer do dia. O silêncio que só alguns ouvem, o silêncio que se prolonga e estica o tempo. O silêncio que nos dá luz, que nos retempera e acalma. O silêncio, sim, o silêncio. 

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Três livros (3)

por Sérgio de Almeida Correia, em 11.12.16

3-arquivo.jpgDesde a criação do mundo que esse desprezível sentimento faz parte das nossas vidas. Foi a inveja que levou Eva à maçã e foi por ela que o diabo se afastou de Deus. Foi deusa romana, que por onde passava tudo secava, está presente em Dante e serviu de objecto de estudo a Tomás de Aquino. Há quem lhe reconheça, de acordo com o judaísmo, na justa medida, qualidades propulsoras do progresso e surge associada a numerosos artistas. Bosch imortalizou-a numa obra de excepção que pode ser apreciada no Prado, e ei-la agora de novo redescoberta na trama do último livro de Carlos Morais José, um pequeno tratado das compulsões da alma humana que viaja pelas desventuras de Camões, Diogo Vaz de Caminha e Diogo Couto, percorrendo Baudelaire, Borges, Leitão de Barros e alguns mais, até desaguar em Malinowski. Escrito com a simplicidade própria da escrita que se quer intemporal, reconhece-se com facilidade a formação antropológica do autor numa espécie de observação participante da história e da literatura na figura do seu protagonista. Editado com cuidado pelos Livros do Oriente, traz na capa uma reprodução do belíssimo Retratto de uomo con libro (1530), de Parmigianino. Agradável surpresa que marca este final de 2016 e será, sem dúvida, uma das estrelas da próxima edição do festival literário Rota das Letras. Deixa-se ler com gosto, o que o recomenda que seja relido numa próxima oportunidade. De preferência à noite e durante o Inverno, para que a viagem da leitura nos transporte aos caminhos percorridos pelo autor. Em Lisboa foi lançado no final de Outubro, em Macau será apresentado no próximo dia 13 de Dezembro, onde contará com a análise sabedora do Prof. Carlos André.

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A Fernanda está cheia de razão

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

Calculo que sei ao que ela se está a referir. Aquela coisa miserável a que um fulano tão presunçoso quanto egocêntrico deu o nome de livro para poder trair a confiança que terceiros lhe depositaram pensando que estavam a falar com uma pessoa de bem. Se, agora, aquilo que a Fernanda conta for o que estou a pensar, há magistrados que deviam estar a tratar do batatal. Uma filha da putice será sempre uma filha da putice, qualquer que seja o destinatário e por muito que eu possa não gostar dele, e não se confunde com a liberdade de expressão. Era só o que faltava.

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Três livros (2)

por Sérgio de Almeida Correia, em 10.12.16

A imprensa portuguesa de Macau.jpg

 "(...) [G]ostaria desde já de chamar a vossa atenção para as citações iniciais da obra que de uma forma simples nos introduzem naqueles que são os grandes debates, não só da imprensa portuguesa em Macau, mas do jornalismo e dos media em geral, o que eu resumiria em quatro pontos:

 1. Qual o papel do jornalista no mundo contemporâneo;

 2. Como podem os cidadãos reconhecer a verdade na informação que lhes chega;

 3. Qual o sentido da actividade jornalística;

 4. Como lidar com o gigantesco caudal informativo que nos inunda o quotidiano.

O livro não responde a estas quatro questões, antes nos alerta para elas e para o trabalho de quem faz a imprensa, alcançando-o de um modo singular. Isto é, recorrendo ao passado recente para nos dar uma panorâmica nos seus sete capítulos das diversas fases por que passou a imprensa portuguesa em Macau, das suas preocupações e linhas de orientação, indo até à situação profissional dos jornalistas. Desse modo, é-nos permitido inteirarmo-nos das dificuldades e vicissitudes por que a classe passou e que a preocupam, bem como sobre os seus dramas, incertezas e perspectivas, tarefa executada sem esquecer uma abordagem dos principais instrumentos jurídicos que regulam, ainda que imperfeitamente, a profissão, o que é conseguido pela mão experiente do Dr. Frederico Rato.

Para além de registar o cuidado colocado na investigação e redacção dos textos de José Carlos Matias — que me fez regressar aos anos conturbados do vieirismo tardio —; de Diana do Mar — dando conta das dezenas de jornalistas que fizeram da Tribuna, do Ponto Final e do Hoje Macau o que são e de como na adversidade é possível trilhar um caminho —; de Sónia Nunes — cujo sintetismo e espírito analítico importa ressaltar; de Marco Carvalho — que nos deixou um retrato cuidado da nova classe —; e de ter havido o cuidado de se registar a opinião de quem lê a imprensa; do conjunto de capítulos do livro saliento, em especial, a interessante abordagem que é feita em "Olhares cruzados sobre a imprensa", onde o Prof. João Figueira conversa com os directores dos jornais Tribuna de Macau e Hoje Macau, com o editor do Clarim, com o director de uma empresa de publicações e consultoria, com o chefe de informação e programas portugueses da TDM-Rádio Macau e com um jornalista que sendo hoje proprietário de um jornal também foi seu director.

Aspectos como a subsidiação pública, o reflexo desta na liberdade de imprensa, a formação e o percurso de profissionais que demandaram Macau não foram descurados, o que contribui para a actualidade e acutilância da discussão, oferecendo-nos uma imagem rigorosa do salto qualitativo que ocorreu com a injecção de sangue novo.    

Como o título da obra denuncia, a abordagem é feita na perspectiva dos últimos quinze anos, prazo relativamente curto para historicamente se retirarem conclusões. É, todavia, tempo suficiente para se adquirir uma visão global das incertezas e se poder projectar o futuro, que é aquilo que hoje preocupa jornalistas, editores e os cidadãos de Macau em geral, entre os quais me incluo. (...)" (Excerto das notas que guiaram a apresentação que me foi confiada, 05/12/2016, Fundação Rui Cunha)

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Três livros (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 09.12.16

Wartime Macau.jpg

Com a chancela da Hong Kong University Press, foi lançado na semana passada e posso dele dizer que se trata de mais um trabalho incontornável dirigido por Geoffrey C. Gunn, o emérito professor da Universidade de Nagasaki, senhor de uma vasta obra publicada sobre a Ásia e que vai da Ciência Política à Antropologia.

É certo que não se trata do seu primeiro trabalho dedicado a Macau ou a antigos territórios portugueses, mas desta vez tem a particularidade de, para além do seu contributo, incluir textos de João Botas, Roy Eric Xavier e Stuart Braga. Como se escreve na Introdução, os dados e a informação existentes sobre o período da II Grande Guerra em Macau estão fragmentados e aparecem normalmente dissociados de uma visão global, lacuna que o livro se propõe preencher desvendando por que razão, ao contrário de Hong Kong, Macau conseguiu evitar a ocupação japonesa.

Laborando sobre materiais em inglês, português e japonês, a investigação agora conhecida reúne o trabalho de um conjunto de autores que tiveram acesso a diferentes arquivos e constitui a primeira tentativa para situar Macau, a Casablanca do Oriente, no tempo de guerra, no contexto da situação internacional ao tempo vivida e da sua importância no funcionamento dos eixos Tóquio/Berlim/Lisboa e Washington/Londres/Lisboa. Explica o editor que a obra pretende fazer luz sobre aspectos menos conhecidos e ao mesmo tempo abrir novos caminhos de investigação, os quais serão de certo modo tributários da sua experiência como conselheiro das Nações Unidas no apoio à Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação de Timor-Leste, em meados de 2003, onde foram obtidos dados, documentos e testemunhos sobre aspectos ignorados relacionados com o período de invasão e ocupação indonésia, mas que deixaram de fora o que se relacionava com a ocupação japonesa. 

Gunn escreveu os capítulos 1 (Wartime Macau in the Wider Diplomatic Sphere), 3 (Hunger amidst Plenty: Rice Supply and Livelihood in Wartime Macau), 6 (The British Army Aid Group (BAAG) and the Anti-Japanese Resistance Movement in Macau), bem como o epílogo e a conclusão. O capítulo 2 é da autoria de João Botas e tem por título Macau 1937-45: Living on the Edge: Economic Management over Military Defences, ficando os capítulos 4 (The Macanese at War: Survival and Identity among Portuguese Eurasians during World War II) e 5 (Nossa Gente (Our People): The Portuguese Refugge Community in Wartime Macau) para Xavier e Braga, respectivamente.

O tamanho escolhido para a letra podia ser maior, mas tal pecadilho, bem como as gralhas na ortografia de alguns termos portugueses, não retira nem o interesse à obra, nem o imenso prazer que da sua leitura se pode extrair. 

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